Neste espírito, venho compartilhar meu artigo recentemente apresentado como parte integrante do processo para aproveitamento da recente participação como aluno especial na cátedra de Sociologia do Direito Brasileiro, na FD-USP, sendo esta minha última oportunidade como aluno especial na instituição, ainda de acordo com o edital da faculdade. Daqui pra frente, se eu quiser ter mais desses artigos para esta prestigiosa instituição, terei que ingressar no programa de pós-graduação (alternativamente, posso procurar outra instituição que me aceite como aluno especial… Mas, dá um pouco de pena de pensar nisso…🫤)
O artigo, abaixo, analisa a obra de Victor Nunes Leal, “Coronelismo, enxada e voto”, elaborada ao fim dos anos 1940, quando o autor tentava o ingresso como professor titular na universidade que viria a se tornar a UFRJ.
O interessante no trabalho de leal é que ele consegue explicar dinâmicas muito importantes do sistema eleitoral brasileiro, numa perspectiva histórica que vai do nascimento da República, até a Constituição de 1946. E aí, você se pergunta “huh… e daí?”… Bem, “e daí” que boa parte do que ele explica ainda acontece, de um jeito ou de outro, nos anos 2020. O trabalho de Leal tem esse poder de pôr qualquer brasileiroque goste de pensar a política, mas não só ela, como as instituições democráticas que a viabilizam – como o financiamento de campanha, por exemplo – para pensar… Se você terminar de ler este livro e não tiver nenhuma suspeita de que algo de muito errado no nosso modelo eleitoral (institucional) corrente, você não leu direito 😝.
Enfim, meu artigo correlaciona os elementos que Leal evidencia, e tento fazer uma intersecção fenomenológica com os eventos que se desdobraram nos últimos anos, no que ficou conhecida como a polêmica das “emendas parlamentares”. Vejo elementos redundantes no trabalho de Leal e nas análises que chamo para a dialética.
Enfim, espero que isso possa ser interessante para você e, como sempre, será um prazer debater o tema, caso você sinta vontade de fazê-lo, aqui, no Academia.edu, ou onde mais você tiver acesso à mim. 🙂
No último dia 10 de setembro de 2025, um atirador matou Charlie Kirk utilizando um fuzil (ou rifle, se preferir a terminologia em inglês) Mauser, calibre 30-06 (que equivale a um 7,62x63mm), com acionamento por ferrolho (bolt-action), e mira telescópica, configuração ideal para a caça de animais de porte médio (como alces e veados), como também viável ao tiro de comprometimento (ou “tiro de sniper”), embora não seja 0 tipo mais comum entre as forças policiais/militares mais conhecidas, que preferem os tradicionais calibres . 300~338 (magnum), ou o consagrado 7,62x51mm, provavelmente o mais utilizado por atiradores de elite. O assassinato se deu num evento na Universidade do Vale de Utah, em que Charlie fazia um evento aberto com o público daquela instituição, visando o debate e possível recrutamento de jovens para seu movimento político, materializado na organização “Turning Point USA” (TPUSA), fundada pela vítima.
O disparo ocorreu enquanto Charlie Kirk respondia à uma pergunta do público sobre armas de fogo nos EUA. A vítima, notória defensora do acesso irrestrito a armas de fogo, sob a argumentação de que a segunda emenda americana não pode ser contida tampouco extinta, acabou vitima de um evento trágico e muito comum na história recente dos EUA: os tiroteios. Quando têm múltiplas vitimas (4 ou mais) são nomeados como “mass shootings” (tiroteio em massa). No ano de 2024, por exemplo, foram mais de 500 registrados. Só para lembrar, um ano tem 365 dias (e 6h, se não for bissexto). Faça as contas. Desde 2020, ano de início de pandemia, os números de tiroteios em massa cresceram 1/3 nos EUA. Nestes mesmos Estados Unidos da América, há 120 armas para cada 100 residentes. É isso mesmo que você leu: há mais armas do que pessoas. Todas as informações são públicas e estão compiladas (em inglês) aqui. Se visitar a página, sugiro ver o menu “charts and maps” que sugere também a concentração das ocorrências no leste no sul dos EUA, bem como o (um pouco macabro) menu “last 72 hours” que registra as ocorrências dos últimos 3 dias. Há dois comentários finais a fazer sobre essa questão: o primeiro é que, ao menos em 2022, foi mais fácil ser morto por armas de fogo nos EUA, do que no Brasil (ainda que seja uma comparação imperfeita, admito). Segundo que ano após ano, o número de suicídios com armas de fogo é maior que o número de homicídios naquele país. Suicídios são questão de saúde pública e sociologia, não exatamente segurança pública ou violência urbana, mas é impressionante como a facilidade de acesso à arma de fogo coopera com essa “vitória” do suicídio sobre os homicídios por lá, ano após ano.
Depois, vem todo o mar de lama que o mundo se acostumou a assistir: da morte eclode a campanha política, eu diria até que em uma forma de necropolítica – não exatamente nos termos que Achille Mbebe propôs, mas… – em que os lados que disputam o poder fazem uso da tragédia para propulsionarem suas bandeiras, suas ideias, e atacar o outro lado. Acontece em todo o episódio, e é usado por todos os movimentos, seja pela situação, seja pela oposição. Neste episódio Trump lançou mão da tática, poucas semanas depois dos democratas fazerem o expediente com a morte da deputada estadual Melissa Hortman, em junho deste ano, e agora acontece com a morte de Charlie Kirk. Se o uso é justificado ou não, isto supera em muito meu argumento que foca no fato da espetacularização e exploração política do sofrimento de familiares e amigos.
No caso de Kirk, tudo fica mais delicado porque mesmo sua viúva fez questão de afirmar publicamente que os ideias políticos do marido assassinado seriam levados ainda mais adiante, como se ela tivesse certeza de que a morte foi obra do “outro lado” e precisasse dar um recado “ao front de batalha”. Seus aliados e seguidores rapidamente tentaram atribuir a morte como sendo “uma ação de um partidário ‘progressista'[“de Esquerda”]), mas a realidade e o avanço da investigação contra o atual acusado, Tyler Robinson, embaralharam bem a leitura de quais eram as intenções, a consciência política e até a saúde mental do atirador ao decidir levar a cabo o ato horrendo que perpetrou. Robinson é filho de um policial aposentado, criado num lar que fez questão de se declarar cristão aos jornais, com costumeiro acesso a armas, e era frequentador de fóruns de videogame de onde parece ter obtido inspiração para as frases que escreveu nos estojos da munição e que poderiam o ligar a qualquer lado (uma frase dizia “pegue isso, fascista”, enquanto outra dizia “se você está lendo isso, você é gay”… Não faz muito o estilo de nenhum dos lados). Mais tarde, sugeriu-se até que o atirador poderia estar ligado a grupos de extrema-direita, como um que se denomina groyper, tendo vies nacionalista, supremacista branco, e que seria liderado por Nick Fuentes, um ideólogo totalmente radicalizado.
Charlie Kirk, 31 anos, deixou duas crianças e a própria esposa. Esta frase por si só já explica porque é uma tragédia. Uma família foi despedaçada de forma irremediável. Não faço ideia do que é crescer órfão, mas garanto que não torna a vida de ninguém mais fácil. O argumento de que “Charlie Kirk incitava ódio e violência” só pode ser aceito como justificativa para “celebrar” (celebrar o que, exatamente? Que, agora, “o outro lado” está em estado de prontidão para a guerra? Ou que duas crianças vão crescer sem o pai? Ou que um homicídio brutal foi concretizado diante de centenas de pessoas com sucesso? Sobre qual desses fatos você quer comemorar, por curiosidade?) a desgraça, se você já tiver se entregado à violência como única saída. Neste caso, você, como eles, já concluiu que não há mais remédio para a grave e visível secessão social, seja lá nos EUA, seja aqui no Brasil (cada qual, é verdade, em um grau diferente da cisma).
O próximo (e único) passo lógico é se preparar para a guerra civil. Sim, porque, se chegamos no ponto em que a morte “do outro lado” genuinamente nos alegra, já não se pode mais falar em “nação”. “Sociedade” nem pensar. E ainda há o problema de consciência e de moral que é: o polo que se alinha “à Esquerda” ou se diz “progressista”, ou seja lá como você queira chamar, é movido por ideias básicas de que os direitos humanos devem ser aplicados a todos, mesmo para os piores indivíduos. Isto porque a não aplicação de tais direitos leva à brutalização de todos e, no fim, garantir os direitos humanos de todo ser humano é um bem que se faz ao coletivo e não só ao individuo. Por mais virulento que fosse o discurso de Charlie Kirk – e era – em que ponto ele deixou de merecer a vida? Existe resposta objetiva para isso? Em que ponto ele deixou de merecer “direitos humanos”? Não há maneira lógica de comemorar a morte de Charlie Kirk e ainda se supor “moralmente superior” ao “outro lado”. Se você comemorou a morte dele, você é como o “outro lado”, apenas com valores idealizados um pouco diferentes, mas também está dizendo quem deve morrer e quem deve viver, e quem é “de bem” e quem é “do mal”. Se você ainda acha que tem o que comemorar nessa tragédia, eu sugiro, como elemento pedagógico e revelador de quem você realmente é, que assista o vídeo da morte dele. Na era onde tudo é gravado, não faltam vídeos com o momento em que o disparo atinge seu pescoço. O resto é como os melhores filmes de horror pressupõem. Não sabe como procurar para fazer o experimento? Eu te ajudo: procure no reddit.com por “Charlie Kirk video” e depois pergunte-se, despido de retóricas e falácias (como “mas ele também […]”), o que é que você realmente está comemorando.
Eu claramente não ignoro a ironia em mais elevado grau na morte de um ideólogo trumpista, justo pelos meios e fenômenos que ele defendia ou justificava como “inevitáveis”. Aliás, é um raro caso de ironia, de fato. Na maioria das vezes, o que chamam de “ironia” é só sarcasmo, e não são a mesma coisa. Kirk foi porta-voz de Trump entre os jovens e escreveu livros justificando o trumpismo (o mais famoso sendo o “The MAGA doctrine: the only ideas that will win the future“). No livro, como em todo o seu repertório de falas públicas, ele ataca os “bilionários das costas [Leste e Oeste]”, “a BigPharma” (indústria farmacêutica), os “procuradores fora de controle” (agentes do judiciário que defendem os interesses do Estado e das instituições e, portanto, da República), “a educação superior liberal”, os “fascistas apreensores de armas” e, claro, a mídia. É um panfleto político-ideológico. Passa longe de ser uma tese bem desenvolvida e trabalhada em dialética, pesquisa e contrapontos, até porque ele sabia para qual público ele escrevia. Kirk sempre se gabou de ter desistido do ensino superior “e ainda conseguir debater em pé de igualdade com alunos e professores nas universidades”.
E você pode se sentir tentado a me perguntar “Rodrigo, você leu o livro?”. Jamais leria, não é preciso, e não vai somar absolutamente nada para mim. Então, a segunda pergunta poderia ser “e como você tem tanta certeza dessa natureza panfletária e de que não é um pesquisa séria?”. Bem, é uma pergunta justa. Um livro que tenta enquadrar “tudo que vai de errado para o cidadão comum nos EUA de 2020” e que tem tantos inimigos (reais ou imaginados) e fala “de tudo isso” em 256 páginas JAMAIS poderia ser sério. Não tem como explicar a complexidade da concentração de renda nas costas dos EUA, a relação daquela república com o lobby da indústria militar, as oligarquias nos meios de comunicação e todo o resto que ele cita no resumo da obra, em 256 páginas. Simplesmente não é possível. Qual o caminho, então? Simplificar o que não pode ser simplificado, usar emoções para responder a dilemas racionais e muito complexos e, bem… Fazer o que o trumpismo sempre fez com excelência: mentir, distorcer e desinformar. Outras evidências de que não se trata de um trabalho sério: a amostra do livro revela que a obra não tem um capítulo com bibliografia ou referências externas, e os capítulos não tem notas de rodapé, nem nenhum meio de validar o que diz o autor. A fonte de informação é tão somente a visão de mundo de quem escreveu a obra e só.
Ademais, públicas e notórias as afirmações de Charlie Kirk sobre a necessidade de conviver com tiroteios em massa em nome “das liberdades garantidas” pelo acesso praticamente pleno a armas. Também, defendeu a validade de que criminosos fossem executados de forma pública para que todos, inclusive crianças, assistissem e isto teria caráter “pedagógico”. Se ele tivesse frequentado a faculdade, que tanto desprezava, nas áreas de ciências políticas, direito, sociologia, ou mesmo em história, teria a chance de se deparar com a obra de Victor Hugo, de 1829, intitulada “O último dia de um condenado”, em que toda a ideia da serventia da execução pública é desmontada.
Todavia, ele nunca aprenderia porque olhando para suas ideias, mais de perto, Charlie Kirk era alguém muito agressivo no trato com a esfera pública e com a sociedade atual dos EUA; uma sociedade necessariamente multicultural, pela própria história daquele país. Suas opiniões eram francamente racistas, misóginas e em algum nível, supremacistas (no sentido de que há um tipo ideal de americano: o branco, cristão, hetero, adepto à posse de armas, superior hierárquico às mulheres[…]). E eu sei que se você, leitor, não se sente alinhado com o que se chama de “Esquerda” ou, no caso americano, “progressistas”, “liberais”, ou simplesmente “democratas”, o uso de palavras como “racista” e “misoginia” já disparam um alarme para o risco de “patrulha moral”. Infelizmente, o uso indiscriminado de palavras como “cis-normativo”, “misógino” ou o já desbotado “fascista”, levam qualquer novo emprego dessas palavras a pôr em xeque a credibilidade de quem escreve. Como separar a panfletagem do uso adequado? Conhecendo o que os termos significam, na origem e no passar do tempo. Eu certamente concordo que as pessoas que se identificam com a Esquerda normalizaram o uso de “fascista” como termo para qualquer um que não tenha as mesmas opiniões que elas têm sobre prioridades sociais, de governo, e visões de mundo. Basta ir contra essas opiniões e o rótulo já está lá, esperando por você.
Mas, a bem da verdade, isso é exatamente o que ocorre quando pessoas que se consideram de “Direita” chamam qualquer um no campo progressista de “comunistas”, sem jamais conseguir dar uma explicação concisa e certeira sobre o que seria o comunismo, ou quais as ideologias comunistas identificadas em quem é acusado de sê-lo. No fim, esses rótulos são simplificações do “outro lado” que ajudam o pessoal “do seu lado” a remover as nuances da existência e do pensamento adversário. É muito problemático considerar a hipótese de que há problemas reais na vida dos brancos de classe média nos EUA, e que são problemas sempre menosprezados pelos progressistas quando no poder. Mais fácil chamá-los de racistas, fascistas, burgueses […]… Você escolhe. Também é muito complicado admitir que a distribuição de renda no capitalismo é inaceitável, que os super-ricos vão destruir o planeta enquanto enchem os bolsos, e que a violência policial é maior contra comunidades negras. Muito mais fácil chamar isso de comunismo (mesmo não tendo NADA a ver com comunismo).
Charlie Kirk, enquanto pessoa pública, não é do tipo que fará falta ao debate político do nosso tempo. Estou certo disso. Suas convicções apenas expressavam o seu ódio pelo que não se conformava com o constructo do cidadão ideal que, sabe Allah como, Charlie concluiu por ser “a salvação da América”. “Salvação do que, salvação de quem?”, eu sempre me pergunto. A ideia de que sua morte enfraquece o trumpismo é, na melhor hipótese, inocentemente otimista. Para propagar a mensagem de que “o inferno são os outros”, os movimentos políticos (em todo o espectro) estão todos habilmente preparados com quadros bem servidos de mensageiros mais e menos hábeis. É verdade que Kirk tinha uma habilidade inata de interagir e engajar com os jovens, o que é crítico para políticos de Direita e populistas radicais deste espectro que, historicamente, não consegue performar neste demográfico, mas, haverá quem o suceda, cedo ou tarde.
O que me interessa na morte pública e trágica de Charlie Kirk é tão somente o termômetro da fervura da crise social americana (em inglês, há uma expressão que diz “we are cooked“, que seria traduzida para cá como “estamos fritos”). A morte dele denuncia um estado de espírito francamente conflagrado e reativo por todos os lados. Comemorar seu bárbaro assassinato, registrado por tantas câmeras, dá o tom do desprezo que sentimos de um lado ao outro. E é verdade que “o outro lado” nunca se importou muito com a morte de algumas figuras estridentes (ou simplesmente representativas) do campo progressista, mas essa característica, a característica de se importar com direitos humanos, de se importar com a proliferação e normalização da violência, da decadência da urbanidade, da capacidade de coexistência […] tudo isto eram traços clássicos dos que se definiam como “progressistas”. Se isto desapareceu, como o episódio parece deixar claro, é bastante seguro afirmar que o contrato social atual está prestes a ruir. A reação de escárnio ao fim de uma vida – que, à priori, não ameaçava outras naquele momento – é só uma pequena amostra disso.
Direitos de imagem: artrepresent.com/Kabul Knight/Abdul Azim Fakhri
Advinha, doutor, quem está de volta na praça! É… Tá bom… Não tem nem 1% do impacto que o original causava… Também, é só eu escrevendo de novo por estas bandas. Não dá pra depositar tanta expectativa assim, não é? 🤷♂️
Enfim, como eu havia compartilhado, em meu último post, eu cogitava sair de todas as redes sociais (e assim o fiz, exceção ao LinkedIn e ao YouTube), e também, de última hora, decidi manter o blog. Ele venceria em meados de junho, eu cheguei a deixar vencer, mas veio um e-mail, muito bem feito por sinal, do time da WordPress manipulando várias emoções, misturando com números, fatos e relembrando momentos do blog… Ah, o algoritmo… Sempre tão bem escrito para manter todos nós na linha…
Como disse Raul, em uma de suas mais belas canções (os clássicos merecem esse substantivo), “não pense que a cabeça aguenta se você parar”… Eu fechei tudo (o que podia), ganhei tempo, me sinto mais leve e não sinto nenhuma falta das redes. Mas, os problemas continuaram. Continuei inquieto, irritado, descontente, aflito. E percebi que “a cabeça realmente não aguenta se você para”. E, de verdade, eu não sai das redes para parar. Eu sai para não contribuir com aquele show de horrores de gangues políticas, mentiras e desinformação. Então, agora eu vivo no paraíso? Bem, não. Eu só parei de jogar aquele jogo. E, como eu também disse na ocasião, isso não me tornou melhor em qualquer sentido. Foi só uma farpa que arranquei da minha mão e que me incomodava.
Então é isso, o blog vai continuar, pelo menos por mais um ano. Eu não vou ser injusto com você, que ainda visita essa página cheia de pó, e prometer que agora a frequência de artigos vai subir. Eu já prometi isso antes. E deu errado. Prometer de novo seria insistir no erro. Mas, sim, sem promessas, a vontade é de escrever mais por aqui. Eu não vou tentar “recuperar o tempo perdido” dos últimos meses. Teve vários assuntos que quase fizeram eu voltar aqui, mas desisti na última hora.
Tente outra vez!
O rufar dos tambores da 3a guerra
Como disse um personagem icônico do cinema nacional:
Ciente, Carvalho… Já avisei que vai dar merda isso…
– Capitão Nascimento
Tem algo de grande – e ruim – acontecendo. Você tem o direito de zombar de mim. O Rodrigo de 10 anos atrás zombaria de mim. Mas o mal-estar do nosso tempo é sensível, se você parar o piloto automático que o mantém vivo e prestar atenção nos sinais.
A real pergunta passa a ser, então: como separar fatos, versões e paranoia? E a resposta, se é que existe uma, é um belo de um “veja bem…”. Aqui é o ponto em que o jornalismo (profissional ou amador [como eu tendo a praticar]) vira mais arte do que ciência, no já escasso território em que esta última tem para existir neste plano da experiência humana.
Eu não vou conseguir fazer o trabalho tão bem quanto eu gostaria. Resta aderir a máxima que aprendi com um dos meus mentores na Microsoft:
Melhor um final horrível do que um horror sem fim…
– Euclides Miguel (se a frase não é dele, foi ele quem me disse)
Portanto, eu não sei se vai destruir a experiência textual, a estilística, ou o que diabos de ruim isto vai fazer com esse post, mas aqui vamos nós.
Fatos & Versões
Fato: 11 de setembro de 2001: ataques terroristas aos EUA. Versão (ou “porquê considero relevante como indicador de um novo conflito global?“): para mim (e até onde sei, para muitos) este episódio encerra um ciclo histórico que levou alguns autores a concluir que a “História” estaria encerrada (em outras palavras, não haveriam mais revoluções sociais, econômicas ou culturais capazes de mudar o paradigma do final do século XX e início do XXI), com a constatável vitória das democracias liberais e do sistema capitalista por sobre todas as alternativas até então testadas, expectativa especialmente avalizada no perecimento do regime soviético no fim da década de 1980. O atentado às Torres Gêmeas marca o declínio do otimismo liberal (político e econômico – embora sejam conceitos distintos) e o início de uma era de vigilância do Estado contra todos, especialmente contra seus próprios cidadãos (algo diametralmente oposto à ideia de “Estado democrático liberal”). Leis de segurança nacional (como por exemplo, o Patriot Act) são criadas ou reforçadas (e.g.: FISA act), diminuindo garantias e liberdades individuais em nome da proteção nacional. O medo passa a ser a tônica das relações sociais e governamentais.
Fato: 2001–2003: invasões do Afeganistão (outubro de 2001) e do Iraque (março de 2003) pelas forças da OTAN, lideradas pelos EUA. Versão: Pela primeira vez em sua relativamente jovem história (a independência americana é de 1776, contemporânea a do Brasil, portanto, são dois países “jovens”) os EUA e seu povo sentem medo e descobrem que não são tão invulneráveis quanto largamente se imaginava, seja pela história em conflitos tradicionais, seja pela produção sempre ufanista de sua indústria cultural. O terrorismo, muito pior do que o enfrentamento com uma grande potência, permite que o medo se instale em todos os lugares (não só nas fronteiras, mas nas ruas, nos parques, nas escolas, no transporte público, nos hospitais, aeroportos […]), e todos são um inimigo em potencial. Bush “filho”, bem menos preparado para o cargo que o pai (que já não era grandes coisas), mas muito menos boçal do que a mídia democrata o fazia parecer, decide invadir e ocupar, primeiro o Afeganistão, sob a alegação de que seria a base dos terroristas do 11 de setembro. Depois, em 2003, invade o Iraque alegando que o ditador Saddam Hussein teria “armas de destruição em massa” (o que jamais se comprovou, parecendo muito mais um desígnio familiar de terminar o serviço que seu pai não entregou no começo dos anos 1990), sendo esses eventos os que inauguram duas décadas de ocupação e insurgências na região. A morte de Hussein, aliás, é tida como causa-raiz para boa parte das desestabilizações, caos, violência e surgimento de grupos terroristas (como o Estado Islâmico, tornado mundialmente famoso em 2013) na região do Oriente Médio e adjacências. Hussein seria o “Mal menor” que mantinha o resto “na linha”. A invasão do Iraque foi um desastre para o moral americano e para sua imagem de “Xerife do mundo” (adquirida no pós-2a guerra), custando mais de 2 TRILHÕES de dólares aos contribuintes, e ceifando a vida de mais de 4 mil soldados daquele país. A saída do Afeganistão, em 2021, também ajudou a despedaçar a imagem americana, com seus soldados produzindo cenas de fuga e abandono desesperado nos aeroportos. Dias depois, o grupo terrorista que foi um dos principais motivos públicos para a invasão, o Talebã, retomou o poder do país ocupado pelos EUA. O Talebã rapidamente instaurou uma teocracia ferrenha, perseguidora de mulheres bem como de “colaboradores dos invasores” (como se muitos deles pudessem não colaborar com os EUA naqueles 20 anos de ocupação…). Talvez, a impressão mais importante de todo este capítulo: a invasão do Afeganistão e do Iraque é a primeira ocorrência de um desrespeito total ao conselho de segurança da ONU, por parte dos EUA, e o começo do fim da credibilidade de organismos multilaterais (e, porque a ironia nunca tem fim, muitos deles, criados com total apoio e esforço da diplomacia americana [ONU, OMC, OMS…]). Depois disso, ficou fácil para os demais países desrespeitarem mecanismos multilaterais (“se os EUA podem, por que nós não poderíamos?”).
Fato: 7 de julho de 2005: atentados no sistema de transporte público de Londres. Versão: O atentado a Londres inicia uma linha de interpretação ainda corrente do terrorismo global por parte dos países desenvolvidos, reafirmando as razões do medo e irracionalidade dos povos ditos “do primeiro mundo” quanto à persistência do terrorismo internacional como meio e arma dos povos “do terceiro mundo”. O medo de estrangeiros, especialmente quando a feição árabe/muçulmana surgia (generalização claramente ineficaz para impedir novos ataques) passa a ser constante, e a xenofobia ganha novos contornos na Europa e nos EUA. O acirramento das tensões internas e o “esquentamento” de partidos nacionalistas e xenofóbicos, constatavelmente “nanicos” até ali – muito por conta de suas ligações com ideologias fascistas, até então odiadas por toda a Europa, levando em conta o que foi a 2a guerra – passa a ter força e apoio popular, e ideias que não poderiam ser defendidas na penumbra dos bares, passam a ser discutidas em rede nacional.
Fato: 2008: quebra do Lehman Brothers e colapso financeiro global. Versão: A bolha imobiliária americana corroeu a confiança nos mercados e impulsionou intervenção estatal maciça em todos os lugares. Essa intervenção teve resultados diversos: na Islândia, por exemplo, protegeu as pessoas e desapropriou os responsáveis pela bagunça (os banqueiros). Mas na maior parte do mundo não foi assim. Especialmente nos EUA, o esforço do governo foi, não na direção de salvar as pessoas, mas de salvar os banqueiros (que deram causa à bolha). Daqui em diante, o mundo ficará cada vez mais polarizado, com a pobreza voltando a ressurgir em diversos lugares onde havia sumido com o ciclo de prosperidade vivido até ali (aumento da produção mundial, aumento da demanda por commodities, e por aí vai [foi]). A visão da política também muda, com a oposição dos governos (sejam de esquerda ou de direita) passando a atacar os partidos no poder. Um sentimento “antissistema” começa a tomar corpo, na medida em que a pobreza e a raiva avançam na camada mais pobre, enquanto o Estado, via de regra, salva apenas os mais ricos.
Fato: 2009–2012: crise na zona do Euro, Grécia em recessão e sob forte pacote de austeridade fiscal imposto pelo bloco europeu. Portugal e Espanha passariam por dificuldades similares, nos anos seguintes. Versão: o estouro da bolha imobiliária dos EUA, no ano anterior, era só o começo de um maremoto que afetaria e muito a vida de vários países do bloco e seus povos. Talvez, o mais emblemático dos casos seja o da Grécia que arrastava um deficit público sempre crescente mas, em 2010, teve que pedir por um resgate emergencial de aproximados 110 bilhões de euros ao bloco europeu. O pedido de resgate veio sob a condição de que a Grécia congelasse salários e benefícios para todos e, sem dúvidas, tais medidas foram causa de muitos conflitos políticos, frustração e quebra de confiança dentro do país e entre o povo grego e os povos do norte no bloco. Os países do sul da Europa (Portugal, Espanha, Grécia, Itália…) passaram a registrar manifestações populares de insatisfação com a postura impositiva dos países do norte da UE. O desgaste e desprestígio por organizações multilaterais voltaria a crescer, especialmente pelo que era visto pelos nacionais dos países afetados como “intervenção internacional em sua soberania”. Em 2010, Portugal pediria cerca de 78 bilhões de euros em resgate emergencial para obter liquidez para seu sistema bancário, fortemente abalado pelo estouro da bolha de 2008. Em 2012 seria a vez da Espanha, com um pedido de 100 bilhões de euros. Todos os países passariam pela imposição de regras de austeridade impostas pelo bloco.
Fato: 2010–2012: Primavera Árabe, seguida pela guerra civil na Síria. Versão: a primavera árabe, iniciada na Tunísia e com marco no triste ato de Mohamed Boazizi ao atear fogo ao próprio corpo, parecia o sinal de que todos os povos da Terra estavam cansados de governos corruptos e interventores. À primeira vista, poder-se-ia dizer que o fim da primavera árabe seria um Oriente Médio que tenderia à modernização dos Estados, rumo a um liberalismo político e, mais tarde, econômico. Não foi o que aconteceu. Na prática, a primavera árabe gerou várias crises humanitárias (por conta de conflitos entre facções e/ou entre população e ditaduras) e realimentou o extremismo e tensões sectárias em toda a região. A população que tinha capacidade de fugir da região, o fez, com destino prioritário em países da Europa.
Fato: 2011-2016: Êxodo sírio para Grécia e Turquia, Alemanha recebe mais de 890 mil pedidos de asilo em 2015, e acordo UE-Turquia para bloquear a chegada de novos imigrantes e refugiados ao bloco. Versão: Com a guerra civil em andamento na Síria, guerra esta que foi uma guerra indireta (“por procuração” sendo o termo comumente utilizado [proxy war]) entre Rússia, Irã e Hezbollah (que apoiavam o ditador Bashar al-Assad) vs. EUA, Turquia, Arábia Saudita e Qatar (que apoiavam os vários grupos rebeldes), os mais de 20 milhões de sírios se viram no meio de um inferno em vida. Milhões começaram a fugir do país em colapso e, no ano de 2015, a Alemanha chegou a receber quase um milhão de pedidos de asilo de refugiados vindos principalmente pela Grécia e Turquia. No ano de 2016, a União Europeia firmou acordo com a Turquia para praticamente cessar o acesso de refugiados ao resto do bloco, no que foi considerando como mais um episódio de demonstração da hipocrisia dos europeus para com a questão humanitária da região do Oriente Médio; região frequentemente desestabilizada por parceiros estratégicos da própria União Europeia, quando não, diretamente desestabilizada pela ação dos membros do bloco (como, por exemplo, a participação de França e Reino Unidos nos conflitos daquela década).
Fato: 2013: vazamento de documentos por Edward Snowden. Versão: o vazamento da NSA confirmou e que muitos desconfiavam: o alcance global da vigilância de inteligência dos EUA contra aliados e inimigos. A paranoia do governo americano o fazia espionar do partido comunista chinês ao primeiro-ministro britânico. O isolamento dos EUA enquanto figura de autoridade no mundo cresce e acelera. As reações são diversas, mas uma delas é a escalada por capacidades de inteligência e contrainteligência avançadas. O mundo passa a se reamar (ainda aqui, com tecnologia e não com armas em si) e o isolamento de nações antes muito afinadas entre si, começa a ficar evidente.
Fato: 2014: anexação da Crimeia pela Rússia. Versão: Vladimir Putin não é um líder populista qualquer. O início do conflito armado no leste da Ucrânia dá só o indício da forma de ver o mundo e as relações internacionais que o ex-chefe da KGB tem para si. Putin, diversas vezes, comentou como a União Soviética foi um equívoco na trajetória da Rússia que deveria regressar a sua época de império (Czarismo). Muitas das vezes, esse discurso está velado. Em outras (e mais recentes) ocasiões, Putin não teve receio de dizer que “o povo da Ucrânia e da Rússia é um só” e que “a Ucrânia inteira pertence à Rússia”, numa clara explicação do que considera como território legitimo de seu país e dos demais.
Fato: 2015–2016: atentados na França deixam centenas de mortos e aumentam as hostilidades contra povos muçulmanos ou de aparência “árabe”, legitimando o avanço da vigilância estatal em toda a Europa. Versão: A França enfrentou, em janeiro de 2015, novembro de 2015 e julho de 2016, três graves atentados em seu solo, perpetrados por agentes da Al-Qaeda, de nacionais franceses e belgas com ascendência argelina e (supostamente) síria, treinados pelo Estado Islâmico (EI), e de um tunisiano radicalizado e que se dizia fiel ao EI. No primeiro, a revista satírica Charlie Hebdo, teve sua sede invadida e 12 pessoas foram mortas pelos terroristas da Al-Qaeda. No segundo, vários ataques a tiros e bombas, perpetrados por franceses e belgas de ascendência argelina e (supostamente) síria, treinados pelo EI, levaram à morte de mais de 130 pessoas com a maior mortalidade ocorrendo no teatro Bataclan. O governo de François Hollande foi fortemente abalado por esse ataque, mas acabou usando o episódio para endurecer suas medidas “contra o terror” dentro e fora da França, aumentando temporariamente a participação do país nas frentes de guerra na Síria e dificultando a entrada de estrangeiros de origem árabe. 70 anos depois da 2a guerra, Paris voltaria a ter um toque de recolher em vigor. Depois, em julho de 2016, o ataque com um caminhão, perpetrado por um tunisiano que declarou lealdade ao EI, no calçadão chamado “Promenade des Anglais”, atropelaria e mataria 86 pessoas. O atentado reacendeu fortemente os debates anti-imigração em toda a Europa, servindo de enorme vitrine aos partidos de extrema-direita no país e na região, e desde então as barrerias nunca deixaram de crescer em alcance e discriminação.
Fato: junho de 2016: referendo BrExit no Reino Unido. Versão: O BrExit marca o aumento da fragmentação política e econômica na Europa, mas também marca a ascensão do populismo de direita no mundo. Claro: já havia Putin, já havia Orbán, já havia Erdogan e os sinais já estavam por toda parte. Mas a vitória do BrExit não passa pelas mãos de Boris Johnson (primeiro-ministro escandaloso e midiático de 2019 em diante), tanto quanto passa pelas mãos de Nigel Farage, este sim, um elemento perturbador da política tradicional inglesa, muito afeito ao uso da mídia digital para targeting, empregador assíduo de outro mecanismo que iria ganhar as manchetes no mundo: as fake news. O BrExit marca a interferência de forças transnacionais nos processos políticos dos países desenvolvidos, e figuras como Steve Bannon, Aleksandr Dugin e Crabridge Analytica passam a ser mais famosos no noticiário e análise política dessas nações.
Fato: novembro de 2016: eleição de Donald Trump nos EUA. Versão: para coroar a franca ascensão de líderes populistas no globo, e a decadência de alianças multilaterais, nada melhor que a eleição de um “outsider“, não é mesmo? Donald J. Trump passaria quatro anos, de 2016 a 2020, testando todos os limites da combalida democracia americana, após o suspiro dos anos Obama. A confusão entre público e privado e a erosão de instituições fundamentais à ideia de República são marcas deste primeiro mandato.
Fato: 2018–2019: escalada da guerra comercial entre EUA e China. Versão: Trump passa a retirar os EUA de áreas como defesa de interesses além-mar e acordos militares com aliados, e começa uma campanha de “tornar os EUA grandes de novo” (MAGA – Make America Great Again), e tenta fazer isso, em boa medida, através da imposição de tarifas, tensionando cadeias globais de suprimentos. Obviamente, as tarifas são reciprocadas e isso aumenta o custo de vida e a inflação no mercado interno dos EUA. A vida para os americanos começa a ficar mais cara, num país que sempre teve pouco a oferecer a sua classe baixa e média (em alguma medida) senão pelo consumo de bens mais acessível do globo.
Fato: 2019–2020: protestos de Hong Kong e pandemia de Covid-19. Versão: bem, há um livro inteiro para explicar este arco histórico (“Germes, armas e aço” por Jared Diamond, escrito em 1997), mas é importante entender que o conflito de Hong Kong (por um grupo que tensionava a independência da região) justifica – em partes – a corrida armamentista chinesa, que já lida com o que chama de “problema separatista” em Taiwan (por não reconhecer, como Taiwan se afirma, que trata-se de uma nação soberana), e não poderia permitir que Hong Kong ingressasse na mesma tendência. A pandemia agrava tudo o que já estava em curso: as tensões sociais, a guerra de narrativas entre os polos políticos, a pressão social [manipulada ou legitima] sobre governos (ora porque fazem o lockdown, ora porque não fazem), sobre a ciência e a medicina (porque são culpadas pela origem do vírus, porque não desenvolvem a vacina rápido o bastante, ou porque não autorizam a “cura milagrosa” [cloroquina, ivermectina, e por aí vai]), o aumento das fake news, desemprego crescente, falências, fechamento de fronteiras e disputas por recursos (de máscaras à vacinas). O mundo, que já andava fragmentado, recebe uma dose cavalar de um poderoso catalisador deste processo de erosão.
Fato: agosto de 2021: retirada dos EUA do Afeganistão, retorno do Talibã e questionamento da credibilidade ocidental nas intervenções militares. Versão: já discutimos os efeitos da ocupação americana, iniciada em 2001, lá no começo desta lista. Mas a repetição, além de respeitar a ordem cronológica, reforça a hipótese de como os efeitos deletérios das ações no começo do século XXI, começam a ressurgir, 20 anos depois.
Fato: fevereiro de 2022: invasão russa na Ucrânia. Versão: sendo o maior conflito em solo europeu desde a 2a guerra e catalisador de nova corrida armamentista por todo o continente, este talvez seja um marco equivalente ao que foram os atentados às Torre Gêmeas. Isto porque se, em alguma medida, é “só a continuação” da anexação da Crimeia (2014), por outro lado mostra uma lógica imperialista e a voracidade com que Putin seguirá lidando com os “problemas” (reais ou imaginados) em sua região. Pela primeira vez fica claro que não há mecanismos de pressão suficientes para parar a Rússia. As sanções políticas não são suficientes. As sanções econômicas não são suficientes. Não há coesão nem multilateralismo vigente para que as medidas impostas pela “comunidade internacional” (que já não é mais tão internacional assim, mas se resume a Europa ocidental + EUA) realmente alcancem a elite russa e os membros do governo Putin.
Fato: outubro de 2023: Guerra entre Israel e Hamas e tensionamento das relações entre Irã e potências ocidentais. Versão: Num dos episódios mais traumáticos da região, o Hamas invadiu o território israelense em 7 de outubro de 2023, matando mais de mil pessoas, ferindo mais de 3 mil e sequestrando quase 250 delas, entre judeus e estrangeiros que visitavam o país. Em resposta, o governo Nethanyahu começou uma operação militar de invasão e ocupação da faixa de Gaza que, até o fim de agosto de 2025, matou mais de 60 mil palestinos, incluindo muitas crianças e mulheres da faixa. A situação de fome e de colapso das estruturas de saúde é tal que acaba levando vários países, liderados pela África do Sul, a acusarem formalmente Israel pelo cometimento de genocídio na região. O governo Nethanyahu testa novamente todos os limites das organizações multilaterais, mostrando o mais absoluto desrespeito a qualquer ação coordenada por órgãos como ONU e similares. Com o apoio do novo governo Trump, Nethanyahu se sente capaz de fazer o que quiser com a faixa de Gaza e a Cisjordânia. Manifestações internas contra o governo começam a ganhar força, mas logo são abafadas pelo conflito de mísseis e drones entre Israel e Irã. O conflito desmobiliza os manifestantes contra Nethanyahu, fortalecendo seu governo diante da necessidade de lidar com a ameaça existencial que o Irã representa ao Estado de Israel. O conflito ainda arrasta os EUA para mais uma intervenção na região, mesmo que a priori limite-se a forças militares no mar mediterrâneo e golfo do pérsico.
Fato: 2023–2024: disputas no oceano Indo-Pacífico, desdobramentos do programa AUKUS e aumento de patrulhas de EUA e aliados ao redor de Taiwan. Versão: no fim dos anos Biden, o governo democrata dos EUA ainda tentava mostrar um mundo organizado, multilateral, sim, mas sob a clara liderança americana e oposto “às forças desestabilizadoras de China e Rússia”. Várias das proibições, taxas e embargos promovidos por Trump em seu primeiro mandato foram mantidas, senão agravadas no governo Joe Biden. O posicionamento de democratas americanos em favor da soberania taiwanesa agravou muito as tensões na região, com demonstrações militares tanto da China, quanto dos aliados americanos. O governo da Austrália decidiu “comprar” a briga pela garantia do domínio militar das águas do pacífico que banham seu território e que são vitais para manter as linhas de suprimentos que mantém a Austrália abastecida. Nesse sentido surge o programa AUKUS (Australia, Reino Unido e EUA, na sigla em inglês) que tem dois principais objetivos: o fornecimento de submarinos nucleares pelos EUA à Austrália, para que esta imponha seus interesses militares na região, em direta ameaça aos interesses chineses nos mesmos mares. O segundo objetivo é o do desenvolvimento de capacidades de guerra em múltiplas disciplinas: Cyber-guerra, IA, mísseis hipersônicos e contramedidas a esse tipo de armamento… O AUKUS é um programa para criar um rival local à China, apoiado por nada menos que os EUA e sua indústria bélica.
Fato: janeiro de 2025: Donald J. Trump, presidente reeleito para o segundo e, teoricamente, último mandato a frente dos EUA, toma posse. Relatório “Global Risks” do Fórum Econômico Mundial identifica “conflito armado entre Estados” como o principal risco imediato para 2025. Versão: o conceituado relatório “Global Risks” elencou como principal risco para o mundo em 2025, não outra pandemia, nem algum desastre natural, e nem mesmo o “agravamento econômico da pobreza no mundo” foi capaz de desbancar o primeiro lugar. Não. O principal risco do relatório de 2025 foi o “conflito armado entre Estados (nações)”. Este não é um relatório feito para ser polêmico ou caçar cliques, mas uma análise com +900 especialistas em relações internacionais, economia, estratégia militar, diplomacia, meio ambiente e tantos outros setores e que deve nortear os países-membros do Fórum Econômico Mundial pelo próximo período. Para entender o quão grave é esta indicação, de todos os consultados para a elaboração do relatório, 25% (1/4) concluem que o risco de uma guerra entre nações é o maior perigo para o ano de 2025. Para se ter imagem do quadro geral, o segundo risco da lista, aquele sobre graves tragédias ambientais, foi apontado por apenas 14% dos especialistas como o maior risco para 2025.
Fato: 20 de junho de 2025: Vladimir Putin declara preocupação com potencial crescente de conflitos mundiais e alerta para risco de 3ª Guerra Mundial, mencionando Ucrânia e guerra entre Israel e Irã. Versão: na ocasião, Putin falou do risco para “todos os envolvidos” no conflito Israel-Irã (no caso, sobrariam EUA, do lado israelense, e a própria Rússia, do lado iraniano) de acabarem engolfados por uma conflagração ainda maior entre si. Foi neste episódio, também, que Putin disse que a “Ucrânia inteira pertencia à Rússia”. Aparentemente, suas intenções expansionistas não precisam nem mais de desculpas ou meias palavras.
Fato: 04 de setembro de 2025: o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, classifica Rússia e China como “ameaças crescentes” e defende maior investimento em defesa na Europa. Versão: desde a ascensão de Trump e da demonstração de sua agenda para a política externa durante seu primeiro termo, bem como a confirmação da postura norte-americana de não mais honrar acordos do passado sobre a proteção militar da Europa (na realidade, a proteção dos países alinhados aos EUA), a União Europeia iniciou uma corrida armamentista. O mais…. Como posso dizer… “estranho”…. disso tudo é ver que países como França e Reino Unido vem pedindo que a Alemanha (veja só) acelere o seu rearmamento, bem como aumente a produção de armas para exportação… É como… Se somente eu me lembrasse do que ocorreu na 2a guerra… É desconcertante… De toda forma, o tom do discurso é de que a guerra não é mais uma questão de “se” e sim de “quando” (“[…]This trend is not going to shift or reverse anytime soon. Russia is – and for the foreseeable future will remain – a destabilising and confrontational force in Europe and the world.” – “[…]Essa tendência não vai mudar ou reverter no futuro próximo. A Rússia é – e pelo futuro previsível se manterá – uma força desestabilizadora e confrontadora na Europa e no Mundo”). O discurso completo (mas em inglês) do secretário da OTAN pode ser lido aqui.
E a paranoia? Onde fica?
Bem, depois dessa retrospectiva desde os atentados de 2001, eu já acho que não sei separar paranoia do resto. Paranoia, afinal, é o sentimento ou sensação de que estamos sendo alvos de um processo de perseguição ou uma conspiração.
Ao analisar os fatos até aqui e tentar interpretá-los (como fiz a partir das “versões” que escrevi) à luz dos requisitos de um confronto armado global, é um tanto quanto difícil não ficar paranoico com a ideia de que a 3a guerra mundial é iminente.
A pressão sobre as classes sociais mais baixas (e também, mais numerosas, e mais prejudicadas), o rompimento dos mecanismos de regulação multilateral, o enfraquecimento da confiança em atores globais, a falta de qualquer capacidade de prever ou ao menos ter expectativas sobre o que esperar dos “players” globais, a ascensão de líderes populistas, com forte vocação autocrática, quando não, abertamente imperialista, e toda a corrida armamentista… Sabe…
Mas, eu vou entregar o que prometi: vou compartilhar três ou quatro das minhas paranoias no presente tópico:
Paranoia 1: Trump disse que não colocaria os EUA em novas guerras e que removeria o país de todas as outras não iniciadas por ele, promessa de campanha da qual muitos de seus eleitores o cobram. No entanto, está, neste exato momento, com uma “pequena” frota naval “parada em frente” à nossa vizinha, Venezuela. A “justificativa”, diz ele, é combater o narcoterrorismo do “Cartel de Tren de Aragua”, como também o desmantelamento de um tal “Cartel dos Sóis”, organização que teria até mesmo o ditador Nicolas Maduro entre seus líderes. Mas, acontece que quase todos os analistas militares consideram o tamanho da força militar empregada completamente desproporcional à missão alegada. Até o momento em que publico este post, os EUA têm 3 destroyers (chamamos de “contratorpedeiros” por aqui), 1 cruzador de mísseis, 3 navios anfíbios, sendo um de assalto (“rápido”) , destinados a incursão de tropas, a 22a unidade de fuzileiros navais (cerca de 2 mil homens para incursão por terra), um submarino com mísseis tomahawk, 2 aviões espiões e de vigilância do espaço aéreo e mais 10 caças F-35 de última geração, que estão “por perto”, em Porto Rico (“do outro lado” do mar do Caribe, com uma distância de engajamento extremamente fácil de se cobrir para esse tipo de aeronave). Qual é o “endgame” de Trump? Será que ao menos ele sabe? Pior do que um presidente ruim é um presidente instável. Com o primeiro, você pode prever como a banda vai tocar. Com o segundo, as coisas mudam de uma hora para outra.
Paranoia 2: Várias fontes confiáveis (só um exemplo) têm citado documentos vazados em que a ministra da saúde da França, Catherine Vautrin, oficiou toda a rede pública de hospitais do país para se preparem para receber e tratar de 10 a 50 mil soldados que seriam vitimas de “um confronto militar de larga escala”, com data estimada até março de 2026. Procurado, o governo Macron não negou a carta, mas disse que se tratava apenas de um “exercício de preparação para cenários possíveis”. Enquanto é bom saber que um governo tem gente pensando em todos os cenários, as estimativas de feridos, tempo de internação e data limite para que o conflito ecloda são… alarmantes, ao menos para mim.
Paranoia 3: O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), integrante do governo “Lula 3” (atual governo do Brasil) pediu abertamente que o país considere o desenvolvimento de arsenal nuclear como meio de proteção da soberania nacional bem como para dissuasão de atores externos. Muito embora eu possa ver Dr. Enéas Carneiro sorrindo de onde quer que esteja, eu tenho tantas questões sobre essa temática, que eu precisaria de outro post inteiro só para falar de “Brasil & nukes“. Pra começar, num país onde quartéis são assaltados por criminosos e/ou furtados pelos próprios militares, vamos querer ter ogivas nucleares guardadas neles? Segundo, fazer uma arma nuclear é só metade da brincadeira. A outra metade é ter meios de “entregar o pacote” no colo de quem você está de mal, e nesse sentido, o Brasil é o mais pleno atraso em forma de programa de mísseis e foguetes. A FAB e os projetos espaciais envolvendo a Barreira do Inferno eram um meio de adquirir essas competências, mas o tempo passou, o Brasil sempre tem menos dinheiro para investir, e não se desenvolvem essas competências da noite para o dia. Falar das sanções internacionais e repercussão na trativa de outros países com o Brasil (que perderia o status diplomático que hoje detém) já me cansa, só de pensar. Eu não estou vetando a discussão (Allah sabe como meu coração belicoso pensa), só estou dizendo que não é simplesmente “vamos, então, fazer o PAC da bomba atômica”, corta a faixa do prédio e “kumbaya, meu Deus/bumba-meu-boi”…
Sabe… A diferença entre uma panela de pressão e uma granada de mão é só uma: a panela de pressão tem uma válvula para não ultrapassar certos limites operacionais. Retire a válvula da primeira e você não vai notar muita diferença com a segunda, não… O mundo, mesmo nos felizes anos 1990 e começo dos 2000, sempre foi uma panela de pressão. A prosperidade aumentou, o mundo parecia mais conectado, mais integrado, mais isso e mais aquilo. Eu volto a recuperar o argumento daqueles que achavam que “a História havia terminado” (já que nada mais iria mudar), e eu até compreendo como eles puderam ser tão cegos. Era um sentimento de puro triunfo da civilização contra a barbárie. Da meritocracia contra a mediocridade. Da cidadania contra o autoritarismo. Da economia dinâmica contra a planificação dos mercados. “Foguete não dá ré!”. Só não contavam que, como a SpaceX, o mundo também aprenderia a voltar “dis costas“.
São os anos 20 terminando e os 30 começando. E eu não vejo profundas diferenças nos fatos macro dessas décadas na comparação entre o “agora” e o século passado, a não ser pelo fato das belas telas planas que nos conectam, neste momento.
Hegel disse que os povos não têm nada a aprender com a História porque os tempos, as condições e, basicamente, tudo é diferente no “agora” e no passado. Um famoso historiador brasileiro contemporâneo disse que acha graça no fato de que pessoas procuram historiadores para perguntar o que vai acontecer no futuro, uma vez que um historiador é um “especialista em passado”. Seja como for, se a História não se repete e se ela não tem nada a ensinar para os vivos de 2020, ao menos fiquemos atentos a um aspecto que parece evidente: os ecos da música e os movimentos coreografados e em ensaio parecem os mesmos daqueles que soaram alto e foram encenados na última vez em que o rufar dos tambores da guerra foram ouvidos por todos os cantos do mundo.
Sempre fui contra “pregar para convertidos”. Tirando o maneirismo do aforismo, eu acredito que passamos tempo demais “falando” com telas e algoritmos. E isso está ferrando (ainda é horário nobre) com todos nós.
Aliás, você aí! Sabe explicar o que é o tal “algoritmo” que tanta gente fala? Veja bem: Não é “algarismo”, hein?… “Algarismo” são os números, arábicos (1, 2, 3) romanos (I, II, III) e zaz… Te perguntei de “algoritmo“.
Algoritmo é termo da matemática, e você encontrará referências para ele já na Pérsia Antiga, nove séculos depois de Cristo. O nome mais comum que surge é do matemático Mohamed Ben Musa. Depois, o termo ressurge nos primórdios dos computadores mecânicos, com gente como Ada Lovelace (séc. XIX) utilizando-o e, mais tarde, Alan Turing, “o pai da ‘moderna computação'” (que, aos olhos do progresso atual, de “moderna” não tem mais nada). Rigorosamente, “algoritmo” quer dizer “conjunto de operações matemáticas finitas, desenhadas a fim de resolver um dado problema, eficientemente”. Ou seja: é uma “receita de bolo” para lidar com algum desafio conhecido e bem mapeado (ao menos razoavelmente), da forma mais inteligente quanto o possível.
Há diversos tipos de algoritmo e várias notações/representações, e eu não vou percorrer esse caminho com você, hoje, mas vamos a exemplos, pois eles sempre ajudam:
Queria dar os créditos, mas a página que traduziu o fluxograma (nome de um tipo de diagrama que pode representar um algoritmo) sequer está no ar. Obrigado Helldane. Esteja onde estiver…
Pois bem, nosso fluxograma, acima, representa o algoritmo que foi desenhado para lidar com algo que estava funcionando e parou. Você começa no topo (a bagaça funciona?) e vai respondendo “sim” ou “não”, até chegar em alguma “caixinha” (de verdade, seria um processo) para o qual não há nenhuma saída nova, representando o fim da rotina prescrita pelo algoritmo apresentado. É só um desenho engraçadinho, no entanto, poderíamos facilmente codificar um programa de computador que implementasse essa lógica descrita e tomasse decisões através das aproximações sucessivas que ela pressupõe.
Isso é o algoritmo: não o desenho (o desenho só representa graficamente o algoritmo), mas sim o conjunto de passos lógicos descritos previamente para lidar com o(s) problema(s) que foi(ram) mapeado(s) e responder às partes que compõem esse(s) problema(s), uma a uma, da maneira mais racional e eficiente possível. O foco no “eficiente” é bem importante para o algoritmo. Se no seu smartphone, repleto de cores de processamento e 4 ou 8 GiB de RAM, essa eficiência é desejável e faz falta, em sistemas primordiais de computação a falta de eficiência era a diferença entre conseguir executar e não executar o programa (é como nós, os antigos, chamávamos os “apps” = programas [o português tem palavras, sabia? Você pode deixar o inglês para quando ele for necessário…]).
Tá… E daí? E “daí” que quando você fica falando (ou ouve falar) “o algoritmo isso”, “o algoritmo aquilo”, ou “treinei/ensinei meu algoritmo pra X”, é disso que estamos falando: um programa que foi desenhado, com passos lógicos e eficientemente agrupados para lidar com o problema ao qual foram desenhados como possível resposta.
E qual é o problema que os algoritmos de redes sociais precisam resolver? Acima de qualquer outro, o problema (risco) de você querer pararde usar. Esse é o principal. Rede social só dá dinheiro se a galera “engaja”. Pode engajar no amor ou no ódio, desde que engaje. O que se vende para as agências de publicidade é basicamente: alcance (quanta gente a rede abarca, e isso tem tudo a ver com engajamento) e conhecimento populacional (o quão bem os gestores das redes sociais conhecem seus usuários [não necessariamente de forma individualizada, pois nem precisam], seus hábitos, gostos e preferências. Sobre tudo: da pizza ao político preferido e o odiado.).
Em 2022, eu li o livro do Jaron Lanier, “Ten arguments for deleting your social media accounts right now” como parte da pesquisa que fiz para o trabalho de conclusão de curso em Direito (acredito que a versão em português tem o mesmo nome, traduzido, ou seja “dez argumentos para você apagar suas redes sociais, agora” – ou coisa do tipo). Li em inglês para evitar problemas com tradução de alguma ideia que o autor poderia querer passar e a tradução “matou”. É raro mas acontece muito e eu, inclusive, achei uma dessas na amostra do livro em BR…
Jaron elenca os 10 argumentos em forma de capítulos:
Você está perdendo seu livre arbítrio
Sair das redes sociais é o jeito mais acertado de lidar com a insanidade dos nossos tempos
As redes sociais estão te tornando um cuzão (palavras dele, não minhas)
As redes sociais estão minando o conceito de “verdade”
As redes sociais estão fazendo o que você fala ser insignificante
As redes sociais estão destruindo sua capacidade de ter empatia
As redes sociais estão te fazendo infeliz
As redes sociais não querem que você tenha dignidade econômica
As redes sociais estão tornando a política impossível
As redes sociais odeiam a sua alma (wow?!)
Agora… Bem… Só pelos títulos dos capítulos, acho que você já percebeu duas coisas: 1) o estilo de escrita do Jaron é bem-humorado. 2) Ele odeia as redes sociais – por bons motivos, acho.
Eu, como você já sabe, sou contra falácias como meios de sustentar um debate. Seria falacioso falar que a mãe dele tem chulé (ad hominem) e seria falacioso discorrer sobre as credenciais do homi e como são elevadas (falácia de apelo à autoridade). Porém, ao mesmo tempo, o mundo real precisa de alguma amostra de quem porta a mensagem para, pelo menos, saber se a pessoa que fala entende do que fala. O que mais tem nesse mundo moderno de meu Deus é gente falando do que não sabe.
Jaron é um cientista da computação, com formação sólida na área de realidade virtual; trabalhou para diversas empresas, incluindo a Microsoft, e esteve em diversas universidades (Berkeley, São Francisco, Columbia). Em resumo, não é como se ele falasse de algo que “ouviu alguém dizer”, tampouco é como se isso fosse a mera impressão pessoal alçada a fato, sobre uma área (a internet e as redes) que ele não sabe nem se é de comer ou de passar no cabelo.
Eu não pretendo, seja por extensão, seja por respeito ao direito autoral, entrar em detalhes de cada um dos itens da lista dele. Mas a real é que só de bater o olho nos títulos, você meio que sabe do que ele está falando. Se quer realmente entender o que ele tem a dizer para cada item, compre o livro. Dá uma moral pro trabalho do cara. Tá baratinho e tem a versão online se quiser ler rápido (é bem curto, menos de 200 páginas).
Alguns são autoexplicativos, mas vamos passar por todos, a 30 mil pés de altitude:
Você está perdendo seu livre arbítrio porque o livre arbítrio não é exatamente amigo do vício, e redes sociais são desenhadas para viciar (lembra do primeiro problema que o algoritmo tenta resolver? Pois é…). Empresas que mantêm redes sociais gastam tanto dinheiro com desenvolvedores quanto gastam com psicólogos, publicitários e todo tipo de profissional que os ajude a prender a sua atenção na rede social deles. Alguns fazem isso de forma porca, outros de forma espetacularmente cruel, vilanesca e, principalmente, eficaz.
Sair das redes sociais é o jeito mais acertado de lidar com a insanidade dos nossos tempos porque a forma como as redes foram desenhadas se aproveita dos nossos medos, traumas e desejos para nos prender lá. Isso é quase que um desdobramento do primeiro apontamento. Ou seja: para te prender na rede social e torná-la um sucesso para seus clientes (dica: você não é o cliente da rede social. Você é o produto…), eles vão te incentivar a compartilhar sua vida no feed (assim, eles conhecem você enquanto produto); vão te empurrar conteúdo que você não quer (quantas vezes você pulou o anúncio, hoje? Já desistiu e comprou o serviço premium? Até quando eles mantêm o premium sem anúncios [e criam o premium++, este sim, sem anúncios {por um tempo…}]? Já clicou no jogo que é uma enganação e não faz nada do que é mostrado na publicidade?); vão te fazer ter medo, ou se revoltar com algo que incomoda os donos da rede, o cliente deles, ou simplesmente que precisa ser repudiado para gerar “engajamento”; e vão dar um jeito de vender toda essa atrocidade e fazer dinheiro com a sua vida e as consequências de tudo isso, ora descrito. Qual a melhor forma de não passar por essa manipulação que te usa para ganhar rios de dinheiro? Não fazer parte dela.
As redes sociais estão te tornando um cuzão porque os pontos 1 e 2 da lista estão funcionando muito bem. Ou seja: a rede social é viciante e te mantém nela o máximo de tempo possível. Logo, o algoritmo resolveu o primeiro problema. O segundo problema é que ela precisa dar lucro, então o algoritmo faz com que você engaje, conte quem você é e, em troca, ele te afaga ao conectar você com gente que pensa como você e premia atitudes, conteúdos, […] engajamentos que gerem o máximo de alcance e conexão com outros usuários do seu perfil. A escolha, aqui, é amoral (e não necessariamente imoral), ou seja: o objetivo é ter pessoas conectando com o conteúdo, reagindo positiva ou negativamente, contando suas vidas, marcando posições, e alimentando tanto o quanto a rede social sabe do seu público, como ficando mais tempo no app da rede, vendo mais publicidade, pulando mais vídeo, etc. etc. etc…
As redes sociais estão minando o conceito de “verdade” e olha: isso aqui é até uma perda de tempo de demonstrar. Todo mundo sabe que estão. O bolsonarista sabe que está. O ptista sabe que está. O terraplanista sabe que está. O astrofísico sabe que está. O antivaxxer sabe que está. E o microbiologista também sabe que está. Oras, se todo mundo tem certeza que a verdade não está nas redes sociais, se tudo que sai nas notícias, nos canais, em todo lugar é mentira, então É ÓBVIO que a verdade está sendo minada. A única pequena dificuldade é descobrir quem tem razão e em que caso. Contudo, redes sociais têm perto de zero compromisso com conceitos complexos como “verdade”, especialmente se isso passar à frente dos dois grandes objetivos de qualquer rede social: engajamento e lucro. Quando você pega um canal de YouTube onde um cara sem qualquer qualificação acadêmica rebate cientistas da NASA, falando sobre mudança climática, você tem 50% de chance de perceber que a verdade está sendo minada pelas redes (exceto, claro, se você for do time que acha que mudança climática não existe… Aí, são os canais “oficiais” [também nas redes sociais] a espalhar mentiras, na sua opinião). E, espia: falando em YouTube, se você já assistiu a algum dos seus “influencers” falando em como a rede se comporta e o que ela incentiva o produtor de conteúdo a fazer pra tirar algum $$$ dali, você sabe que o compromisso é com tudo, menos com a verdade: um cara faz 10 vídeos por semana e fica no topo da página inicial. O outro faz 1 vídeo por mês e desaparece do radar. Em momento algum a qualidade dos vídeos entrou em consideração para dizer quem tem destaque (e, esperadamente, mais audiência [= mais dinheiro]) e quem não.
As redes sociais estão fazendo o que você fala ser insignificante porque como 99% das pessoas que andam nas redes já pensaram em ganhar dinheiro com elas (eu sei que já pensei), “4 minutos se passaram e ninguém viu, o podcast que nasceu em algum lugar do Brasil”. E se “pluralidade de ideias” ou “vasta oferta de qualidade e quantidade de conteúdo” não são automaticamente sinônimos de “lixo”, o “lixo” é exponencialmente criado com essa proliferação “sem um predador” para pôr ordem no ecossistema. Eu ou você podemos, agora mesmo, abrir um canal no YouTube, uma live no Insta, ou seja lá qual o nome no TikTok e começar a falar. E mostrar gráficos e compartilhar vídeos e imagens…. E o quanto do que vamos veicular é verdade ou não, faz sentido ou não, está sendo analisado dentro do contexto correto ou não… Bem, a única pessoa capaz de decidir tudo isso é quem assiste. Todavia, o que acontece se quem assiste não sabe separar o joio do trigo? Ferrou (de novo: horário nobre…) não é mesmo? E se você for um microbiologista advogando pelas vacinas, e eu for um antivaxxer rebatendo tudo que você fala? E se você for menos carismático do que eu, e eu for mais vendedor de automóveis que você? O que importa o que você fala? E se todos falam, e se a cada esquina tem um mesa-cast sendo gravado com convidados dos mais ilustres aos mais ignóbeis… O que importa o que qualquer um tem a dizer, sobre qualquer coisa?
As redes sociais estão destruindo sua capacidade de ter empatia. Eu preciso mesmo demonstrar esse? É simples até: as redes sociais “brincam” com nossos instintos primais e, para nos manter horas “rolando a tela do celular”, fazem com que criemos nossas “tribos”. Todo esse desenho faz com que o bullying te conecte com quem pensa como você e massacre o outro lado. E não importa se você é (ou acha que é) de Esquerda ou Direita. Você faz bullying com o outro lado. Eu sei que faz. Eu já vi gente dos n lados fazendo, eu já sofri e eu já fiz (em algum nível).
As redes sociais estão te fazendo infeliz. Olha, se você leu até aqui e não ficou infeliz, só de ler… Sei lá o que te move. Eu estou infeliz de escrever, e olha que eu escolhi escrever sobre isso. Vou contar uma anedota só para dar a dimensão de como a coisa toda é imprevisível. Tenho um grande amigo que ficou extremamente mal com a vitória de Trump. Óbvio, nenhuma pessoa que quer um futuro melhor para TODOS (e não só para os americanos brancos) ficou feliz com isso. Porém, ele ficou especialmente mal. Um dos N fatores a contribuir com a profunda depressão é de que ele estava convicto, apostando todas as fichas e até assumindo responsabilidades desnecessárias pela aposta na vitória de Kamala, falas e posturas que ele não deveria ter se estivesse racionalmente analisando a situação. Eu o avisei um sem-número de vezes que todas as pesquisas mais sóbrias e sólidas (se você analisa política há tempos, você acaba aprendendo quem faz o trabalho e quem é do oba-oba) mostravam um quadro MUITO difícil para a Kamala, e ele rebatia dizendo que confiava no que ele estava lendo e ouvindo. Agora, eu sei que esse cara é MUITO inteligente, e eu sei que ele não estava interpretando errado o que recebia. O problema – na minha opinião – foi mais simples: ele foi enganado “pela rede do bem” que ele formou ao seu redor. Essa, na verdade, é outra mentira da rede social: a que você pode fazer uma curadoria do que consome e recebe, de tal forma a se manter informado e, ao mesmo tempo, imune ao esgoto que corre nela. Aqui está o dilema: é ou um, ou outro. Ou você é feliz (e enganado), ou é triste (e, talvez, informado – depende muito, viu?). Seja como for, as redes sociais até “quando te deixam no poder” (dica: elas nunca deixam, mesmo) te fazem infeliz, cedo ou tarde.
As redes sociais não querem que você tenha dignidade econômica. Este ponto é bem complexo, talvez o mais complexo do livro. Além de complexo ele é controverso. Só lendo pra saber a zona cinza que o autor percorre. Fala sobre um modelo de negócios que nasce de um valor bem-intencionado, mas que fatalmente gera o monstro que agora tememos (é o argumento dele). Ele discute como a ideia de software gratuito (free as in beer) e de manter a internet “de graça” acaba nos levando para um mundo em que as empresas apenas pensam em lucratividade por publicidade (ad-revenue) e como isso molda todo o algoritmo e as características (todas as narradas, e todas as demais) de uma rede social moderna. A dignidade econômica removida seria, então, o fato de que como você não paga por nada (tirando a conexão e o aparelho), as empresas escolhem o que fazem com você, seus dados, sua vida, e tudo o mais. Você não paga, logo você não é o cliente, mas o produto deles. E o dono do produto faz o que quer com o produto.
As redes sociais estão tornando a política impossível. De novo: chega a ser idiota tentar explicar o que todo mundo sabe. Então, ao invés de explicar o que todos já sabem, eu vou dizer o que nem todo mundo tem em mente: nós já tentamos o caminho sem a política. Nós temos séculos, senão milênios, de História humana onde a política ou era um apêndice enganoso, ou estava apenas engatinhando na organização do espaço social de cada nação. Seja como for, nós tentamos o mundo onde os fortes governam, onde os deuses governam, onde as tribos se organizam (e guerreiam com as demais), onde os militares mandam… E… Todos esses modelos foram uma grande bosta. Só pode elogiar quem vislumbra fazer parte de um dos sempre exclusivos grupos de poder. Claro: podemos fazer um longo debate de como a vida política atual (especialmente nas Américas) se assemelha a uma casta separada e sobre como essa vida política não habilita a verdadeira democracia, mas só a demagogia, o nepotismo e a corrupção. O meu ponto de partida é: o sistema atual é um sistema falho, porém perfectível. Ou seja: a política tem odiosas características que, com uma sociedade civil organizada, podem ser combatidas. A boa e velha Ficha Limpa tá aí pra dar ao menos um exemplo. Tem vários outros e não vou percorrer eles todos, mas me chama e a gente fala do que melhorou desde que a política (e não a violência, e não Deus, e não os militares[…]) passou a dar vida ao Estado nacional. E tudo isso está em risco, e as redes sociais são incríveis vetores de ataque e grandes catalisadores do ódio e da irracionalidade na política. Elas não querem sociedade civil organizada. Isso remove o poder que elas precisam ter para te engajar e (escravizar) fidelizar.
As redes sociais odeiam a sua alma, e o autor fecha o livro assim porque a mensagem dele é clara em sentido: redes sociais são o oposto de “livre expressão”, “individualidade” (não confundir com “individualismo”, o que é ruim), sociedade harmônica e pacificação política. Tudo isso é o contrário do que redes sociais buscam, não porque elas sejam VILANESCAS na origem, mas porque o modelo de negócio delas depende de “dedo no cu e gritaria” (acabou o horário nobre) e eles não podem fomentar um mundo de “verdade” e “verificação de fatos”, porque… Por que? Você já assistiu ao Big Brother? Eu não. Mas eu sei (porque tenho amigos e orelhas) que as pessoas assistem aquele negócio pra ver aquele mini-mundo pegar fogo. Num espaço onde a verdade é a regra e os fatos são rigorosamente checados, nada realmente pega fogo. Pode ser super empolgante, mas quem entendeu, entendeu e quem não entendeu vai seguir tentando entender, e nada mais. Não tem conflito, não tem dedo em riste, não dá engajamento. Por isso, e não por serem a cria do Capeta, redes sociais não podem incentivar um mundo melhor para os humanos. Porque se o engajamento cair, o produto “rede social” perde o valor. E como elas ganham dinheiro conhecendo bem o produto delas (você), isso não pode acontecer. E a melhor forma de engajar – descobriram os donos das redes – é na confusão e no conflito.
O autor ainda lembra que ele escolheu 10 pontos “porque sim”. Ele poderia ter falado, só por exemplo, da distorção da realidade que redes sociais geram, da ansiedade, dos gatilhos de consumo, de alimentação, das obsessões, dos conflitos familiares, amorosos… Enfim… Ele escolheu o que era mais “neutro” em termos de concordância ou não, justamente porque são pontos que envolvem menos as discussões mais sentimentais e, muitas vezes, irracionais. A mensagem final dele é clara: Se o leitor encerrará suas contas ou não, é uma escolha absolutamente pessoal. Porém, se o leitor mantiver suas redes sociais, que o faça sabendo o que as redes fazem com ele(a) a fim de ganhar dinheiro e obter poder (o poder de “informar” [com o que querem], o poder de manobrar seus usuários, o poder de se defender de ataques de concorrentes, de dobrar o Estado, de fugir da Lei…).
E o que eu vou fazer? Eu não sei. Na verdade, eu não vim aqui escrever sobre um suicídio virtual em que encerro todas as minhas contas e sumo da Internet for good (olha o inglês desnecessário aí!) com esta nota longa de adeus. Eu nunca poderia, por exemplo, fechar o LinkedIn e perder um poderoso meio de arranjar um novo emprego, se esse dia chegar (nota para mim mesmo: ele vai chegar…). Eu também não me vejo sem os canais de YouTube que uso tanto para conhecimento (Petit Journal, Meio, Manual do Mundo, Aviões e Músicas, FDUSP, IREE TV, XKCD What if, Adam Something, NetworkChuck, OverSimplified e TANTOS OUTROS), quanto para me divertir (Cauê Moura, Serial Trippers, Planeta Aves, Cinema Therapy, Aprofundo, Voice Makers e TANTOS OUTROS)…
Aliás, se eu li esse livro em 2022, por que estou falando em “dar tchau” em 2025? Quanto tempo para refletir sobre um livro com menos de 200 páginas, não é?
Sei lá… Eu já disse isso antes, mas as redes sociais não me ajudam em nada. Mesmo o LinkedIn, que eu disse que preservaria de qualquer forma, está há 12 anos sem fazer nada por mim. Qualquer conhecimento que circule por lá é menos do que adquiro com livros oficiais das áreas que estudo, e as conexões só esquentam de tempos em tempos, quando alguém está buscando recolocação, por exemplo. Do mais, só quem tem “tino” para a auto-propaganda contínua abre o LinkedIn de segunda à sexta, para manter o “footprint“. Do resto, é uma rede sempre morna. Eu também nem sei o que eu faria e como me sentira se fosse uma rede “quente” (como o TikTok, por exemplo). Só constatei um fato.
Eu só acho que a minha presença ali faz as relações humanas que tenho serem sempre mais frias. A pessoa pode me adicionar como contato no WhatsApp e até ter meu telefone celular pessoal (que é diferente) e, ainda assim, nossas interações se resumirão a um video compartilhado, um joia, um coração e é isso. Por que eu estou ali? Por que meus dados estão ali? Por que meu celular tem um app que sabe Allah o que coleta e captura do meu dia a dia, independentemente do meu consentimento?
Eu poderia, alternativamente, simplesmente desinstalar o aplicativo e ficar com a conta aberta, não? Aí surge um problema humano: as pessoas veem minha conta lá e imaginam que eu estou por ali, que vou ver uma chamada, um chat, algo do tipo quando, de verdade, eu não vou ver nada disso ou verei meses depois. Aconteceu, inclusive no LinkedIn. Se elas souberem que não estou lá, por outro lado, a história muda. Se precisarem falar comigo, terão que usar o WhatsApp ou o bom e velho discador de telefone.
Além do mais, o que fui procurar na rede social, simplesmente não está lá. Não é a praça pública, a Ágora Ateniense, onde ideias e problemas são debatidos e o poder coletivo é utilizado em prol do maior número de pessoas. Não. É exatamente o oposto disso. São vitrines de sonhos impossíveis e meias-verdades, onde a mercadoria circula achando que é o usuário (ou, mais ilusório ainda, o cliente), mas ela é só isso mesmo: mercadoria.
Sair da rede social não me fará melhor do que nada, nem ninguém. Eu não ficarei mais inteligente, mais correto, mais digno[…]. Vai ter gente ganhando milhões com rede social enquanto não estou lá. Sempre teve e vai continuar tendo. Eu não sou um desses. Não tenho o tino, nem o talento, nem o tempo, nem o estômago. Fechar tudo também é utopia. Vou fechar o e-mail pessoal, ligado ao YouTube? Vou desaparecer da Internet, onde o governo usa meu e-mail para me permitir agendar a emissão do passaporte, do RG, pagar IPTU, ajustar o IRPF? E o WhatsApp? Ele também é uma rede social. Vou encerrar?
Não, não dá pra radicalizar sem virar indigente. E eu ainda não estou nesse grau da loucura (mas, quem sabe…). Contudo, outro dia me peguei impaciente, usando o celular no Instagram, rolando a lista de fotos de qualquer merda que já não me lembro… Eu rolava aquele feed infinito como se eu fosse achar o fim. E quanto mais eu descia, mais irritado eu ficava, porque pensava “okay, eu já vi o suficiente. Chega.”, só que continuava descendo. E tenho que dizer que, como alguém da tecnologia, meu uso de redes sociais e entretenimento online é bastante reduzido. Estou longe de ser “power user“, “heavy consumer” ou qualquer outro termo desnecessário em inglês para redes sociais e derivados.
Mas esta é a conclusão que eu chego: eu estava entediado, devendo sair do sofá pra quebrar o tédio com alguma atividade (tipo, caminhar. Tipo, ler um livro. Tipo, tocar violão…). Ao invés disso, meu cérebro disse “e se você pesquisar aquele negócio que você queria no Instagram, para ver umas ideias?”. E eu devo ter perdido uns 40 minutos ali, olhando para um feed infinito e que não me acrescentou nada. E ficando mais irritado ao invés de quebrar o ciclo de tédio, ansiedade, marasmo, sei lá o que mais havia naquele drink dos infernos que eu preparei (com ajuda da rede, e meu consentimento, e meus dados) e bebi.
Não me acrescenta nada. Não me conecta com gente que quer discutir coisas novas e resolver problemas velhos, não me aproxima das pessoas queridas, me trata como mercadoria, e ainda faz eu perder tempo. Tudo isso me fez pensar em dar tchau para as redes.
E, bem… Este blog faz parte de uma rede social (WordPress). E ele também não tem me conectado a quase ninguém (afirmo isso com base nas estatísticas de cada novo post). Pra piorar, aqui, eu sou premium, então, estou pagando por esse espaço que não me entrega nada e ainda tira de mim alguma coisa (sabe-se lá o que, além da anualidade). Preciso pensar no futuro das minhas redes, este blog incluso. Mas, ao menos até o fim do período de assinatura (7 de junho), ele fica aqui.
Se eu optar por encerrar o blog, obrigado por todo o tempo que você, nobre leitor(a) colocou nas linhas mal-escritas desse escritor frustrado e sem talento. Espero que mesmo que tenha sido cansativo, tantas e tantas vezes, ainda assim, eu tenha somado alguma coisa BOA pra você (tem que ser boa; de ruim, basta o que as redes trazem).
Se Trump fosse eleito explicitamente pela fé em dias melhores – mesmo que não para todos, mas para larga maioria dos americanos – eu penso que eu seria capaz de compreender o que está a dizer a população dos EUA, nas urnas, ainda que eu discordasse.
Veja: nós não precisamos concordar sobre qual é “o caminho feliz” para qualquer problema que tenhamos em conjunto. Você pode achar que o que melhora o mundo é mais famílias com mais filhos e que isso vai levar ao reaquecimento econômico, e mais empregos e […]. Do outro lado, eu posso achar que o que melhora o mundo é menos gente, menos consumo, menos agressão ao meio ambiente, menos atividade econômica “artificialmente criada” (obsolescência programada, demanda artificialmente criada) e […]. Aliás, são só hipóteses e não estou dizendo se acho isso ou aquilo. Ainda assim, são visões antagônicas, mas ambas têm algo fundamental em comum: a meta deum mundo melhor, senão para todos, para a maioria de nós – afinal, o primeiro sinal de maturidade é saber que nada (nem ninguém) agrada a todo mundo, não importa o quão bom possa ser ou parecer.
O que reelege Trump, na contramão da ideia de “mundo melhor”, é a revanche, a vingança e o ressentimento. Ele é “o malvado favorito” da América, mas sem o humor ou a fofa família para compartilhar com seus espectadores. Mas o show começa em janeiro e, querendo ou não, todos assistiremos, e isso porque, como eu já disse quando Trump venceu Hillary, a eleição nos EUA não é como a eleição na Argentina. A segunda impacta pouco mais de 46 milhões de pessoas, mas a primeira impacta todo o globo e seus mais de 8 bilhões de humanos (e todo o resto da vida, sendo franco). Em tempo: Trump, ora eleito, por duas eleições vitorioso, em duas eleições contra adversárias mulheres, e só sofreu revés ao disputar contra um candidato branco, ainda mais velho do que ele… É só um dado… Ou não? Não sei. Nem é meu foco para hoje. Porém, salta aos olhos.
Os EUA ainda são a maior economia do mundo (28.7 trilhões de dólares), acompanhada relativamente de longe pelo segundo lugar, a China e seus 18.5 trilhões de dólares (fonte). E a economia sempre manda e sempre mandou no mundo: da política às guerras, arregimentando todo o progresso científico em sua pletora de formas e resultados.
Os EUA também são a maior potência militar do globo (fonte). Segundo o relatório Global Firepower, seguem em primeiro do ranking (de onde nunca saíram), investindo práticos 1 trilhão de dólares anuais em armamentos e pessoal. Embora Rússia (2ª) e China (3ª) não estejam distantes no rankeamento, seu investimento é bem menor: A Rússia investiu cerca de 61 bilhões de dólares em 2021 e, por causa da guerra, planeja ousados 145 bilhões de dólares investidos em 2025, quase 7% do seu PIB. “Ousados” porque, em áreas estratégicas, ter o dinheiro não é necessariamente a parte mais difícil: saber como e onde gastar é bem mais complicado; você pode gastar mal um caminhão de dinheiro e não chegar a lugar algum. Já a China, mesmo em 3º no ranking, investiu algo em torno de 240 bilhões de dólares em 2022, e está perto dos 500 bilhões de dólares em 2024. Vale uma ressalva: há dúvidas sobre os números divulgados e mesmo o governo americano estima que a China “esconde o jogo” (o que faria sentido), podendo estar mais perto dos 700 bilhões de dólares anuais do que os “módicos” 470 bilhões estimados para este ano. Seja como for, ainda não é o trilhão de dólares americano, tampouco o é pelo tempo que os EUA investem em guerra. E aqui, o acúmulo de investimento ao longo do tempo faz grande diferença, seja em treinamento e aptidão do pessoal, seja em acumulo de tecnologia e armamentos (você pode até achar que um F-15 já é um avião de caça obsoleto, mas ele ainda vai acabar com muitos aviões de outras potências, se a chance for ofertada).
Por tudo isso (e muito mais), a eleição nos EUA é algo que guarda relação com o resto do mundo, e não é algo que só deva ser observado por cientistas políticos ou “baba-ovos” de todos os espectros políticos. Ela efetivamente decide um tanto do futuro do planeta, para o bem e para o mal.
Superada a justificativa, retomo o raciocínio que me fez querer escrever. Trump é o candidato da revanche, da vingança e do ressentimento. Claro, isso não é o mesmo que dizer que o eleitor de Trump não tem fé nele. Claro que tem. A fé é a de que a vida vai melhorar para si, com a torcida de que piore “para o outro lado”. E por “outro lado” inclua-se aí qualquer um que não se pareça com ele(a), ou que tenha sido definido como “ameaça” (mesmo que, de verdade, não seja). Então, é uma fé dupla: de que a vida vai melhorar para o grupo “dos eleitos” e de que vai piorar para quem não diz “amém”.
Agora, se estivéssemos falando algo como “a vida do cidadão vai melhorar porque a dos criminosos vai piorar”, mesmo duvidando muito da proposição (porque isso praticamente nunca entrega muito além de violência policial), ela ainda carrega em si a ideia de “o melhor para o maior número de pessoas” (já que criminosos não são a maioria do povo). Não é disso que se trata, agora. Se trata de algo na linha “quero que a vida do eleitor médio de Trump melhore [homem (47%), branco (71%), cristão (59%), sem nível superior (57%)…] (fonte e fonte), mesmo que isso signifique a piora para 47.8 milhões de imigrantes (fonte), e 42 milhões de pretos (fonte), e parte expressiva das 169 milhões de mulheres (fonte) que não concordam com nossas visões de mundo”.
Claro: é impossível ignorar as mudanças do perfil de seu eleitorado e que geraram surpresa para quem imaginava o oposto do que se deu: em realidade, Trump melhorou sua performance EM TODOS os recortes demográficos, exceto na faixa acima de 65 anos e no grupo de mulheres brancas universitárias (fonte). Trump teve (muito) mais apoio latino, teve mais apoio negro e teve (muito) mais apoio de jovens (18 a 29 anos). Estamos falando de uma mudança real e não de algo marginal, como se fosse possível tratar isso tudo como “mera flutuação”. Pelo contrário: são tendências claras e inequívocas de preferência daquela demografia (a dos EUA). Só pelo exemplo: Trump cresceu espantosos 25% em sua base de latinos apoiadores; entre os jovens (18-29 anos) ele cresceu 11%, e entre as mulheres, 10%. Ainda que o voto feminino e negro (pretos e pardos) ainda seja majoritariamente Democrata, o avanço dos Republicanos nesses recortes é notável.
Agora, o aparente (e, talvez, só aparente) mistério é aquele em que as bandeiras políticas e ideológicas Trumpistas desafiam a segurança, em especial, dos grupos que decidiram o apoiar com mais força. Trump disse que deportará imigrantes aos milhões, inclusive com a ajuda dos militares (fonte). Em nome do “Projeto 2025” (algo assustador e que nem sei se recomendo que você leia, mas talvez, sim, você deva), Trump pode vir a tomar diversas medidas para cessar o aborto, ainda que estadual e legalmente autorizado (fonte). Trump já disse que não manterá qualquer medida que proteja o meio ambiente se a considerar um entrave para suas metas – especialmente as econômicas (fonte). Todas essas pautas falam diretamente com temores que imigrantes, mulheres e jovens deveriam ter; exatamente os grupos que decidiram apoiá-lo mais em 2024.
Seria um desejo coletivo pela aniquilação? A tal “pulsão de morte” Freudiana? Essa parece uma resposta plausível quando vemos alguém que toma veneno esperando que outros morram. Contudo, essa também parece a resposta mais pobre em imaginação; uma tentativa de responder com simplicidade a um problema (bem) complexo. Problemas complexos requerem soluções complexas, ainda que a explicação da solução possa (e, sempre que possível, deva) ser simples.
A explicação que ensaio a seguir é a de que este é um mundo em desencanto. O fim da Guerra Fria trouxe um triunfalismo jamais visto ao regime democrático liberal, impulsionado por ganhos estonteantes do capitalismo, com integração dos mercados, cadeias globais de produção, “novos mercados” (para os “velhos mercados” tomarem pra si) e… A maior parte de nós tinha a certeza de que nenhum modelo era melhor. Até que tudo isso passou. O mundo se integrou até onde conseguiu, mas outras economias (especialmente a chinesa) encontraram o caminho para deixarem de ser o quintal americano e se tornaram séria ameaça à hegemonia do tio Sam. O crescente fluxo de pessoas, mas principalmente, de informação, passou a nivelar a percepção de privilégio e consequentemente, da realidade, e o poder de compra deixou de ser um absoluto marco da realização pessoal, especialmente nos EUA, “terra das oportunidades”. A oportunidades seguem lá, mas você não vai “dar certo” mesmo se não fizer muito para que isso ocorra, algo que era possível, antes.
São as “vacas magras”. Juntarem-se aos bovinos desnutridos a organização – espontânea e provocada – de grupos sociais reivindicando que a tal democracia liberal entregasse sua maior promessa: a igualdade de oportunidades para todos. Tal igualdade é ainda mais difícil quando os mercados se contraem e as chances rareiam para os grupos que estavam historicamente posicionados para aproveitá-las. Imagine-se, então, o cenário de aproveitamento para os grupos “recém-chegados na festa”. O atrito é inevitável. E os grupos recém-chegados fazem questão de utilizar um vocabulário que lhe empreste certa “verdade científica”, uma palpável arrogância de se estar “do lado certo”, seja lá o que isso significa, mas nada que crie pontes e diálogos; pelo contrário. Estão, em grande medida, convencidos de que “nada se consegue neste mundo pedindo ‘por favor’”, frase que já ouvi algumas vezes nesses ambientes. São, acima de tudo, rancorosos no discurso e não fazem amigos por onde passam. MAS… Seria um bode expiatório óbvio atribuir a esse grupo a “culpa” pelo resultado eleitoral mais importante do ano (e, porquê não, do próximos quatro anos). Seria desleal, também. Contudo, eu disse que é um problema complexo, e estou dando conta de parte da complexidade do problema.
Da desestabilização econômica surgem as respostas padrão da humanidade: os lobbies, o protecionismo, a interferência extraterritorial (por vezes dublada como “imperialismo”) e, então, partindo de palavras afiadas, chegamos às lâminas afiadas ( = guerras).
O capitalismo, por sua vez, não mais se envergonha de mostrar que não depende da democracia para sobreviver. Por conta da Guerra Fria, o capitalismo gostava de mentir que precisava de “democracia” para mostrar seu melhor, e os EUA, no polo oposto ao comunismo soviético, decidiam “levar a democracia” para todos os cantos do globo, através de bombardeios, torturas e execuções (essa referência aqui, poucos vão pegar, aposto). Porém, nos anos mais recentes, o capitalismo não se acanha em apertar as mãos de ditaduras terríveis como a saudita, ou veladas como a turca, ou em projeto, como a indiana ou a húngara, enquanto condena “ditaduras terríveis” no Irã, na Coréia do Norte, e em outros locais que não lhe interessem por ora. Para mim, toda a ausência de instituições democráticas que mantenham o Estado livre da grilagem por parte de interesses privados, seja na Venezuela, seja em Israel, são situações de governos nefastos e que devem ser indubitavelmente repudiados. E, também por isso, não estou na carreira política. Porque em política, e especialmente na política internacional, falar a verdade não tem nada a ver com o jogo bem jogado.
E quem é esse tal de “capitalismo”? São os reais donos do jogo. Alguns tem a coragem de colocar a cara no mundo, como o mega narcisista do Musk e seus 130 milhões de dólares investidos só na campanha de Trump (e um retorno assombroso de 134 vezes o valor, só no dia seguinte à eleição de seu favorecido – fonte). Outros ficam nas sombras, atuando sempre por lobbies, operam enormes volumes nas bolsas de valores mundiais, bolsas que cada vez mais se assemelham a cassinos em roupa de “assunto sério/econômico” do mundo adulto – farei uma ressalva no meu ensaio de boteco: o mercado de capitais não é necessariamente um mal, mas a forma como ele tem sido usado para pressionar governos e nações é (outro post, outro dia).
Aqui está o problema (complexo) cuja resposta eu não tenho: há (pelo menos) um mundo real de poder por trás do mundo imaginado de poder. O mundo real é aquele em que habitam os que têm muitos recursos (no nosso mundo presente, recurso = dinheiro) e que não ligam se estão no melhor restaurante da democrática Nova York, ou no melhor lounge da ditadora Riad. Tanto faz. Quando se tem dinheiro o suficiente, todo lugar que você vai é uma festa, com gente que vota ou que é torturada. De verdade, tanto faz… E, por cima desse mundo de poder real, o mundo imaginado de regimes democráticos se fez, não porque o mundo de poder real precisasse dele para gerar sua riqueza, mas, sim, porque esse mundo imaginado “mantém os que não têm nada na linha”.
Impossível pensar essa ideia sem colidir com os conceitos marxistas de Super e Infraestrutura. E eu não vou pôr muita energia nisso, mas não: eu não acredito nem 1% na efetividade atual das soluções que Marx apresentou para os problemas que ele corretamente – creio – delineou. Como sempre digo, o diagnóstico marxista sobre o capitalismo me parece acertado, mas a solução dada por ele ignora a realidade e a constituição do que é o homem (antes e agora) e, por isso, não tem como funcionar. Além do mais, a solução marxista envolve ditaduras, conceito que eu jamais apoiarei (a não ser que o ditador seja eu… Aí discutimos…).
Então, a democracia é um engodo, uma farsa, um mero esquema de fingir que o poder se distribui entre todos (por exemplo, por meio do voto) quando, em verdade, o poder continua onde sempre esteve: com os grupos que o detinham antes de a democracia ser instaurada. “Também isso” seria a minha resposta curta, cínica e grossa. Há aquela velha pichação, muito usada por grupos anárquicos, que assim diz “se votar mudasse algo, eles tornariam isso ilegal”. Eu não sou o tipo de pessoa que nega os fatos, e os fatos são que nos últimos 30 anos, tanto fez quem governou o mundo para fins de diminuição da desigualdade e aumento das oportunidades para todos (e não para grupo A ou B).
Todavia, se a democracia é essa Superestrutura que serve apenas para manter os numerosos mais fracos “na linha”, ela também é, factualmente, o regime que mais habilitou pessoas a quebrarem certas barreiras sociais e econômicas, e com o menor derramamento de sangue possível (em comparação às alternativas e ao passado). Se isso é “mera ilusão”, então, talvez precisemos gostar um pouco de nos iludir, pois eu não gosto do caminho em que todos se matam até que restem apenas os que concordam (até porque, historicamente, os que concordam comigo hoje são sempre menos do que ontem e os expurgos tendem ao perpétuo).
É sobre isso que eu queria falar: o mundo está em desencanto. Não acreditamos, coletivamente, em nada. Mesmo os que dizem crer no Deus de Israel, Pai de Jesus Cristo, creem a partir de perspectivas muito diferentes entre si; em casos extremos, de maneira irreconciliável. Quase não parece ser o mesmo Deus em certos embates.
E parece que a eleição de Trump é nada menos do que um prelúdio de rebelião popular. Que a Pax americana estava agonizando desde os 2000, não chega a ser novidade, mas estamos entrando em outro nível de ruptura: a do contrato social. Um sistema federativo como o americano requer que os estados (unidades federativas) reconheçam certos valores e premissas comumente importantes, encarnados no papel da e nas expectativas para a União (o ente federal do Estado).
O voto em Trump, ainda mais dos estratos que vem, diz para mim que aquele povo não mais concorda com os rumos gerais da nação. Ao ponto de declarar como “inimigos” aqueles que servem o café, varrem as casas, cuidam das crianças. Colegas de sala de aula ou trabalho. É um profundo e grave “não reconhecimento mútuo” ao olhar para o outro lado da calçada. O outro, ali, não é um conterrâneo, mas um incomodo e quiçá um risco. De “mal necessário”, agora já passam a discutir a validade da necessidade.
Contratos sociais acabam de dois modos: a) um novo contrato, aperfeiçoado, é criado e todos (“todos”, aqui = ampla maioria) concordam que esse novo contrato faz sentido. b) uma ruptura forçada e normalmente combatida pela União, eventualmente até pela força, para que o ente rebelado volte a obedecer ao antigo acordo, então repudiado. Seja como for, envolve ódio, destruição, perda de vidas e, em vários casos, deixa feridas que não se cicatrizam a depender do tamanho da barbárie cometida do começo ao fim do processo, independentemente do resultado (divórcio ou reconciliação do membro rebelado com a União e o resto dos entes que não se rebelaram).
Eu não consigo vislumbrar qualquer viabilidade de um novo contrato, capaz de unir tantos grupos de poder e, ao mesmo tempo, grupos sociais reivindicando mais, sob um mesmo ideal. Qualquer que seja a proposta, ela não vai agradar o suficiente para selar a paz social entre o maior número de pessoas possível. Especialmente porque está faltando o que distribuir, como defendo a seguir.
A ruptura violenta ainda parece cenário distante (amém, até por todas as vidas envolvidas), mas ninguém nunca sabe qual é ou onde está o pavio dessa dinamite. A Queda da Bastilha, evento-marco da Revolução Francesa de 1789, começa com a simples demissão de um ministro, seguida de ligeiro aumento no preço dos pães. “Não é pelos 20 centavos” diriam os revolucionários, se fossem brasileiros e se arregimentassem em 2013… Em um sistema complexo, de incontáveis variáveis e pressões de todos os lados, um ato que pode parecer pequeno em isolado gera um efeito estarrecedor uma vez dentro do circuito.
E enquanto escrevo isso, pensando naqueles Estados Unidos da América, não consigo deixar de pensar que em dois anos é a nossa vez de, quem sabe, tomar a mesma decisão. Uma decisão pautada não em esperança para todos (quantos se possam abarcar), mas em revanche, vingança e ressentimento.
Num mundo em que até mesmo o sentido da Cristandade mudou radicalmente de “O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (João 15:12) para “[…]Deus deu riquezas e bens, e lhe deu poder para delas comer e tomar a sua porção, e gozar do seu trabalho, isto é dom de Deus”, eu não deveria me dar por surpreso. Em verdade, as duas mensagens podem ser encontradas na bíblia do Cristianismo. Mas enquanto a última faz parte do Velho Testamento (Eclesiastes 5:19) e é escrita por um profeta hebreu que não se sabe ao certo quem foi, a primeira é a mensagem do próprio Jesus Cristo, aquele que empresta o nome para a religião Cristã. Como advogado, é como se eu visse alguém dizendo que a lei municipal vale mais que a Constituição, quando em conflito (que, no caso, sequer é conflito real, mas aparente, fruto de mera e equivocada interpretação).
Continua sendo a palavra de Jesus aquela que diz que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma Agulha (posto alfandegário das cidades antigas em que supostamente se passaram as histórias narradas na Bíblia), do que um homem rico ganhar a vida eterna (Matheus 19:24). E se você se incomoda com os ensinamentos de Jesus Cristo, então, vai ver que você não quer ser cristão, mas outra coisa. É do jogo. Eu, por exemplo, não sou nada. Ao menos, nunca digo que faço A ou B movido por valores religiosos. É menos covarde, assim. Usar a religião como desculpa para a barbárie sempre foi um traço dos piores momentos da breve história humana.
E como viemos parar aqui, na religião? Bem, ela é central para campanhas da Direita Radical e Extrema (a diferença sendo que a primeira aceita atacar o sistema e eventualmente se dar mal [se preciso for], e a segunda quer abolir o sistema sem pagar por isso, caso dê errado). É a pedra angular dos discursos de gente como Trump, Bolsonaro e afins, este discurso de que promovem verdadeira cruzada para proteger o Ocidente cristão de ataques de seus mais odiosos inimigos. Falta apenas combinar com Cristo, pelo que expus até aqui. Mas tudo bem, afinal a religião, junto com a democracia, diria Marx, é só mais uma Superestrutura para manter os jogadores bonzinhos. Eu prefiro dizer “é também isso”.
No fim, os tempos são pautados pelo egoísmo. É como se o único ditado que tivesse sobrado para a educação de todos nós fosse o icônico “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Não tem nada a ver com ser cristão, islâmico, homem ou mulher, trans ou cisgênero, preto ou latino ou X. Tem a ver com o sentimento de que o mundo está literalmente acabando. E que sobrou pouco para, não dividir, mas tomar.
O que assistimos é o espetáculo da (re)formação das facções. Acha-se algum arranjo mínimo, que dê alguma coerência e consistência ao bando que se alinha. No caso de Trump é o cristianismo, o “true american”, qualquer ideia mofada de um excepcionalismo que não existe no analisar dos fatos. Mas tudo isso é desculpa. O mundo real que essa gente vive é o que diz “ tudo está acabando e temos que pegar a maior parte possível para nós, os que concordam com algumas abstrações e parecem ser do mesmo time”. Não é que a Esquerda também não pense assim, mas no caso dos EUA, o pensamento radicalizado daquela Direita se alinha mais a mais grupos (e, por isso, é maior no momento). É o que disseram as urnas, pelo menos.
O desencanto nunca foi com a democracia porque as pessoas não compram democracia, não vestem democracia, e não comem democracia. O desencanto sempre foi com a falta de fartura de possibilidades de consumo. O John Doe, tal qual o nosso José Silva, não faz ideia do que “democracia” quer realmente dizer. Muita gente estudando Direito também não sabe, portanto, não se sinta mal se for teu caso. O Que John Doe e José Silva realmente sabem é que dava pra trocar de carro mais vezes no passado e agora não dá. A casa podia ser maior e agora é o “studio” de 25m². Não tem nada a ver com democracia. Tem a ver com dinheiro. E, no nosso mundo atual, dinheiro tem a ver com poder.
Os donos do jogo costumavam deixar uma fatia na mesa para que todos nós – os demais – sentíssemos que comemos o bolo, mesmo que pouco. Os donos do jogo perderam o recato e mal deixam migalhas, agora. Fariam isso, fosse todo o mundo democrata-liberal, totalitário ou comunista. Porque sempre tem um grupo que dá um jeito de ficar dono do jogo, mesmo nos mais difíceis cenários. A Rússia matou dezena de magnatas e oligarcas e, no entanto, tantos outros rostos novos surgiram no lugar. Porque o poder não aceita vácuo. A China parece ter tido mais sucesso, mas se o valor que investem em militaria é maquilado (como se desconfia), o seu sucesso quanto à paz social interna também é. Há repressão, há crise (imobiliária, especialmente), há guetos opressores para minorias étnicas. Não, Esquerdinha do DCE que ainda faz o masoquismo de me ler: o comunismo não salvou ninguém da malvada miséria humana. No máximo, tornou mais difícil mostrar o que vai mal. Como toda boa ditadura (com ou sem comunismo envolvido, registre-se).
Foi notícia (fonte): O salário médio anual de CEOs (imprecisamente: presidentes) de grandes empresas, no Brasil, é de 15 milhões de reais. Pesquisa feita com 84 representantes do cargo e outros 775 em cargos de diretoria. Então, imagine que você pudesse ganhar 15 mil por mês. Em um ano, com 13º salário, seriam 195 mil reais, certo? Quantas pessoas em seu círculo menor de família e amigos têm empregos pagando 15 mil reais por mês? Eu conto nos dedos das mãos. É um salário para pessoas com uma qualificação bastante sólida, no nosso mercado de trabalho. Agora, a pergunta principal: O que faz um presidente de empresa (CEO) ser TÃO MELHOR, ao ponto de que isso possa justificar que ele(a) ganhe 77 vezes mais do que alguém muito bem qualificado e que estudou muito para ganhar 15 mil reais por mês? E se não for um cargo de muita qualificação, e se for alguém limpando banheiros, digamos, ganhando dois salários-mínimos (para o cargo, isso é considerado um salário bom, viu?), então a diferença passa a ser de 408 vezes entre CEO e a querida da tia cuidando diariamente dos banheiros das nossas empresas inclusivas e responsáveis socialmente e ambientalmente e espiritualmente e ludicamente […].
Esta é, para mim, a origem do Mal (letra maiúscula) dos nossos tempos. Não o capitalismo; não a ideia de que quem investe mais (tempo, recursos, esforços) recebe mais; não a ideia de que alguém que toma mais risco (civil, criminal, ambiental, político) tem o direito de lucrar mais (o risco é do empregador, art. 2º/CLT). Nada disso é o Mal. Mas, sim, a incrível, inexplicável e injustificável disparidade de como 88 pessoas podem ganhar médias anuais de 15 milhões de reais, enquanto milhões de pessoas ganham o equivalente a dois ou três salários mínimos mensais, a vida toda – quando ganham…
E as pessoas que ganham tanto dinheiro fazem um jogo onde a culpa é da democracia, a culpa é da Esquerda, ou até da Direita (se valer a pena e fizer venderem mais), porém, em última instância, a culpa é e sempre foi sua, que não tem o “mindsetvencedor”. De Pablo Marçal a Bispo Edir, todos os mensageiros dos donos do jogo querem te convencer que se você passa fome, a culpa é só sua. Por detrás disso tudo, a permanente mentalidade que os norteia e diz “se eu posso ter mais, por que eu não teria mais?”, mas é preciso que você (e eu) não se revolte com esse jogo, daí o teor da mensagem dos “guias para o sucesso”. Levada a extremos, é essa mentalidade de “ter sempre mais” o que promove o fim dos recursos naturais e do próprio equilíbrio ambiental. Não é que seja necessário, é que simplesmente não há ninguém que possa impedi-los de fazer o que fazem. Compram a tudo e a todos, e quem hipoteticamente não se vende (se é que existe/existiu alguém incorrompível [eu começo a negociar na dezena de milhões de reais, caso interesse]) acaba envolvido em algum triste desfecho. Afinal, o único crime que realmente existe é o de ser descoberto. Se fizer do jeito certo, dá pra seguir vendendo palestra de ética e responsabilidade social com sorriso no rosto (e os bolsos cheios).
E eu discordo de quem imagina que esses vilões ficam num country club do mal, no alto de uma montanha estilizada à moda Drácula. Essa gente é tão dívida quanto nós, porém, eles têm algo que falta demais às massas: consciência de classe social. Podem ter visões agressivamente diferentes do que fazer com o brinquedo chamado Terra: uns querem cuidar dela como um pet (“coma menos carne, a Terra agradece” – fecha a porta do jatinho que joga duas vacas no ar por hora), e outros querem destruir como um brinquedo dado à criança mal-criada (“é tudo meu, e eu quebro se quiser”). Mas de uma coisa eles todos sabem bem: se um deles está em risco pelo motivo de ser rico, os outros também estão. No fim, acho que é isso que mais falta ao resto de nós, meros mortais: entender que se o madeireiro e o petroleiro (os donos, claro) estão felizes com os prospectos de vitória do candidato X, a chance desse candidato ser bom para o resto de nós é perto de zero.
E que o Esquerdinha do DCE não me entenda mal, só pelo último parágrafo. Os governos Lula 1 e 2 deram condições para que banqueiros lucrassem oito vezes mais do que com seu antecessor, FHC (fonte). Todos os lados (Esquerda e Direita) sabem que não jogam o jogo sem que os donos do verdadeiro poder permitam. Começou a peitar demais e vem “o rodo”. Todavia, a Esquerda (não “a Esquerda” do PT [o PT que se exploda], mas a ideológica, aquela que na Revolução Francesa ficou do lado dos mais esfarrapados) ainda é o lado que diz “não está bom do jeito que está, precisamos rebalancear o sistema”. A Direita se basta em dizer “o mundo é de quem está preparado para vencer, e quem quer mais que lute”, mesmo que a luta já comece perdida para a maior parte de nós, por fatores objetivos. Eu sei qual lado melhora a promessa democrática-liberal de mais igualdade nas oportunidades vs. qual lado prefere manter tudo como está. E também sei que nenhum dos lados é meu amigo de verdade. Afinal a maioria dos líderes de partido, sejam de Esquerda ou de Direita, estudaram nas mesmas escolas e frequentaram as mesmas festas. São – quase sempre – gente da mesma classe social e que não é a minha.
Contudo, é uma questão pragmática: o jogo é jogado por quem se habilita nele, e o espaço de escolha é limitado pela realidade imposta. Preciso escolher o lado que, se não resolve todos os defeitos que vejo, pelo menos não joga aberta e francamente para o lado que quer me ver esmagado nas engrenagens da máquina que mantém a própria ganância.
Revanche, vingança e ressentimento… Nunca deu errado para os peões do jogo quando esses valores vieram à tona no passado. #Confia
E se você tem dúvidas sobre o tipo de peça que é nesse tabuleiro, apenas responda para si se você pode dar uma bica no sistema inteiro e manter seu estilo de vida sem que nada mude. Se sim, parabéns: você é um dos poucos felizardos. Eu sei que não sou.
Um mundo em desencanto é um mundo sem esperança. É um labirinto em que parece que todas as alternativas foram tentadas e só resta voltar para trás. Mas, extrapolando a metáfora de Bobbio que aqui empresto, o perigo da mistura entre labirintos e o povo é a tentação de voltar sobre os próprios passos para um passado seguro, um passado em que tudo faz sentido e um passado que só pôde existir sob condições objetivas que não mais estão lá. E, ainda que estivessem, é um passado em que uma pequena parte do povo comia uma fatia de bolo e todo o resto passava fome. Agora, restaram as migalhas, enquanto os donos do jogo ficam com 15 fatias por ano (se é que você entende a minha metáfora), ainda que pudessem ter os buchos justamente cheios já na 3ª ou 4ª fatia.
Todavia, dizia Marx – sempre certo nos diagnósticos, sempre errado nas soluções (muito mais por culpa dos que ainda querem aplicar suas respostas para o século XIX no século XXI, anote-se):
“Sem sombra de dúvida, a vontade do capitalista consiste em encher os bolsos, o mais que possa. E o que temos a fazer não é divagar acerca da sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o caráter desses limites.”
E é essa vontade que não conhece limites e que tem todo o poder o que leva ao mundo que vemos pela janela. Não o regime político, não o candidato A ou B. Mas um sistema que cria um mundo que nos força a lutar por migalhas contra outros esfomeados, enquanto há sempre um menor número de refinados e distintos bolsos, sempre mais cheios de bolo, muito mais do que qualquer mortal precisaria ter e comer.
Eis, senhoras e senhores, o meu diagnóstico. A solução? Eu não ousaria…
Que belas costeletas, hein? Créditos pela foto: Yousuf Karsh.
Quando li pela primeira vez “Fundação”, de Isaac Asimov, eu não tinha a menor ideia de quem ele era. Estava no ensino médio, um amigo da época passou, colocou o livro na minha mão e disse “você vai gostar”. Não gostei. C’est la vie…
No fim, o estilo de escrita de Asimov não me encanta, embora seja impossível falar de ficção científica, especialmente aquela que envolve Inteligência Artificial, e não esbarrar na obra do homi. Quer ver só? Você talvez diga “nunca nem ouvi falar dele”, mas, se assistiu a filmes como “Eu, robô” com Will Smith, ou “O homem bicentenário” com Robin Willians, fique sabendo que você, de algum modo, foi tocado pelo trabalho de Asimov…
E o que isso tem a ver com o tema do post? Nada… Bem, só um pedaço… É de Asimov a frase “As pessoas pensam em educação como algo que elas podem terminar“. E essa frase sempre “falou comigo”. Eu nunca parei de aprender português. Aprendo todos os dias. Aliás, coisa de mês atrás, o Leo estava me (re)ensinando o adequado uso dos porquês. Valeu, Leo! Ano que vem te pergunto de novo, porque tudo indica que vou esquecer mais uma vez. Eu nunca parei de aprender inglês (e eu trabalho com ele todos os dias). Eu já estudei japonês por um ano. Francês, idem. E eu vou voltar a estudar todos eles e, se quiser ficar bom, pelo resto da vida. No judô, diz-se que o aprendizado da arte marcial começa, de verdade, na faixa preta e não antes dela.
Na Tecnologia da Informação, ramo que paga os boletos aqui em casa, não existe essa história de “eu já sei o que preciso”. Isso dura, no máximo, um ano – ano e meio, estourando – se sua empresa for do tipo que realmente cobra excelência técnica. E, no Direito, bem-vindo outra vez! É claro que as leis mudam o tempo todo. E o processo. E a jurisprudência. E…
Enfim, eu aceitei que gosto de áreas onde a mudança é uma constante. É óbvio que toda área tem inovações. Tenho certeza de que o ramo da panificação e confeitaria apresenta novidades e técnicas reimaginadas, todos os anos. Mas se você aprendeu a fazer um pão gostoso uma vez, você vai fazer pão gostoso “pra sempre”; você pode enjoar dele, mas isso é outro problema. Poderia fazer um pão melhor (ou pior), mas desde que repita a receita aprendida à risca, terá o mesmo resultado. Não é assim na T.I., não é assim no Direito, e é com isso que eu decidi lidar.
Mais do que isso, desde o dia “1” na faculdade de Direito, eu sabia que não ficaria satisfeito enquanto não pudesse construir “minha fileira de tijolos” na parede que forma o arcabouço desta ciência. E o melhor caminho para isso é se envolver com a Academia. Não aquela dos halteres. Esta, meu médico sempre me cobra de ir… Mas eu fujo dela com grande afinco e esmero… Não, estou falando da Academia de ciências (in casu, humanas). Acredito – sem grande humildade, confesso – que tenho algo a dizer e a contribuir com ela, e percorri o caminho da graduação aprendendo como aqueles que vieram antes (BEM antes) de mim pensavam e porquê pensavam.
Há um conceito de um filósofo inglês chamado Gilbert Chesterton que ficou conhecido como (rufem os tambores!) “cerca de Chesterton” (muito criativo, né?). O conceito exige que alguém só pode modificar (ou mesmo destruir) algo quando conseguir explicar para que serve aquilo que se quer reformar (ou destruir). E é nesse tipo de encruzilhada em que geralmente me afasto do dito “campo progressista”, porque eu realmente acho que esse conceito deveria ser ensinado às crianças desde a maternidade… O que tem de adulto com diploma na mão, falando em mudar leis, instituições, culturas […] sem sequer conseguir explicar para que servem ou por quê foram criadas… Porém, deixa eu falar do motivo de escrever por aqui, hoje:
No segundo semestre de 2023, eu tive a honra e privilégio de ser aceito como aluno especial da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, a SanFran (para os íntimos. Eu ainda não sou, então sigo chamando de FDUSP). Naquele semestre, estudei a disciplina de Sociologia da Constituição com dois pesquisadores absolutamente brilhantes. O primeiro deles, Professor Doutor José Eduardo Campos de Oliveira Faria. O segundo, Professor Doutor Lucas Fucci Amato. Professor Faria e Professor Amato são pessoas incríveis, com um conhecimento muito vasto, em áreas bastante complexas e são, ambos, capazes de conectar tantos pontos atuais com o passado constitucional brasileiro e a formação sociológica da nossa sociedade. Especialmente para mim, eles trazem algo que eu sentia tanta falta durante toda a graduação: a confrontação da elaboração legal com a história e a sociologia do povo brasileiro. No meu entender que, acredito, é o mesmo dos professores, os institutos jurídicos que explicam os “comos” e “porquês” da nossa Constituição acabam ficando muito assépticos, herméticos, intocados pela realidade nos manuais da disciplina constitucional atual. Ao escolher uma disciplina com essa praxis em mente, eu fui buscar exatamente o cotejo entre aquilo que lemos nos diplomas legais (e seus manuais) versus aquilo que acontece na vida real, no passado e no presente.
Foi um semestre muito feliz para mim, adorei cada encontro e cada seminário feito pelos colegas – eu apresentei, juntamente com o colega e mestrando, Francisco Borges Milanez, um seminário sobre Oliveira Vianna [se não faz ideia de quem ele é, e você é CLT, deveria ser mais grato].
As apresentações de conteúdo pelo Professor Faria e Professor Amato dispensam qualquer galanteio meu, pois todas foram momentos de profunda reflexão sobre os aspectos cíclicos e as ciladas repetidas que o povo brasileiro atravessou desde a decretação da Primeira República até os dias atuais. Há, evidentemente, progressos inegáveis que se solidificam aqui e ali, mas a composição da política e do arranjo social que levam aos n momentos constitucionais do Brasil raramente são inéditos em nossa História.
Convido a todos a conhecerem o programa de pós-graduação da USP na área de Direito e, querendo, no próximo dia 10 de julho, há novo edital para alunos especiais em 2024.2. O aluno especial tem o compromisso de assistir às aulas, contribuir com o debate e pesquisa da disciplina cursada e “é isso”. No regramento atual, pode-se atender às disciplinas de pós-graduação [como aluno especial] por duas vezes e nada mais. Não há nenhum título ou promessa para além do conteúdo valiosíssimo que se recebe por lá. O método de seleção para as poucas vagas (geralmente, 5 por disciplina) costuma ser a análise de um artigo científico ou outro trabalho escrito pelo(a) candidato(a). Para mais informações, acompanhe o edital a ser publicado no dia 10.
E, abaixo, publico o artigo que escrevi como requisito parcial para aproveitamento do meu semestre de 2023.2 por lá (porque prova é para os fracos… Professor de pós quer ler artigo! hehehe…). Espero que possa ser interessante para você, e que possa lhe provocar indagações e descobertas novas, tanto quanto aprendi e descobri ao escrever esse artigo.
Ah, sim: eu sei que este espaço está juntando poeira… É um pouco de propósito, um pouco de descaso. Eu não tenho tido ânimo a engajar em debates de internet, daquele tipo em que você tenta pesquisar n fontes de argumento para criar um raciocínio com começo, meio e fim, e o(a) sujeito(a) do outro lado se basta em dizer “não concordo”, sem apresentar nada – isso, quando há educação na conversa. Teve muito tema interessante desde o último post, mas eu só vi gritaria e torcida de futebol, de lado a lado, e nada disso me anima a escrever. Vou tentar melhorar a frequência aqui, mas, de verdade? Você já me conhece…
Ah, e quem se interessa no lado mais acadêmico do debate e quer engajar na leitura e debate sobre artigos científicos, estou no Academia.edu também, mas lá, meu perfil ainda “tá devagar”… Espero que, em algum tempo (pouco tempo), aquilo passe a ficar mais movimentado. Veremos…
A imagem que ilustra o post de hoje foi gerada pela Dall-E, a inteligência artificial da OpenAI que gera imagens a partir de descrições textuais. Seu irmão mais badalado – por ora – é o ChatGPT. E você pode ter um gostinho de como é falar com ele através deste link: Bing.com (no topo, clique em “chat”). Tire suas próprias conclusões.
Este claramente é um post que poderia ser dois. Ou três. Mas, como eu não ganho nada com mais ou menos views, mais ou menos cliques, aqui está o conteúdo inteiro, de uma vez. Leia com a paciência que tiver e obrigado, desde já, por tentar chegar até o fim.
Aviso (disclaimer): preciso avisar ao leitor e à leitora que eu sou empregado da Microsoft. Sim, aquela do Windows. Sim, também aquela do ChatGPT (graças à parceria com a OpenAI). Todas as opiniões ora redigidas são de minha autoria e somente de minha autoria. Meus gerentes, diretores e demais superiores hierárquicos JAMAIS solicitaram ou sequer foram consultados sobre o conteúdo que aqui se veicula, tampouco têm qualquer interferência (contributiva ou restritiva) nas palavras e ideias que enfileiro daqui em diante. Finalmente, aos que são da área técnica: simplificações serão feitas em prol da clareza e do acesso ao tema debatido. A ideia por aqui é escrever “Sobre Tudo e Sobre Todos”, mas sempre escrevendo “para todos”.
O autor do post, Rodrigo
Ahhh… Relaxante como correr num campo minado… Essa é a tarefa de falar a sério de um tema controverso, polêmico, que faz “buzz”, que é “hype” (os antigos [ = gente que ainda fala português no Brasil] diriam: “está na moda”), em que sua empregadora é uma das principais expoentes e patrocinadoras das novidades e avanços; tudo isso, tentando manter a isenção e, ao mesmo tempo, o emprego… Não vai ser fácil, mas eu acredito no lema que vai insculpido na bandeira da minha nação: “mais sorte do que juízo” … Vamos começar pelo básico.
Tudo começou há um tempo atrás, na ilha do… Homero!
A humanidade sonha com o atingimento de “A” inteligência artificial (IA; ou “AI”, em inglês) faz um tempinho, tá? Eu sei: meu público é qualificado e a maioria vai chutar algo em torno da década de 1940, fim da 2ª grande guerra, Alan Turing, pai da moderna computação e coisa e tal; e, grosso modo, estarão certos. Mas, eu sou um #@%& e é claro que não vou ficar no trivial.
Possivelmente, a primeira citação que se tem notícias quanto ao sonho humano sobre IAs vem da Grécia antiga (CLARO… Tinha que vir de lá…).
Hefesto, filho de Zeus com Hera é, portanto, um deus. Deus dos ferreiros, dos escultores, dos metalúrgicos, do fogo e dos vulcões, ainda é o deus da tecnologia segundo a Odisseia de Homero. É Hefesto que tem o dom de “dar vida” a criaturas de metal que ele mesmo constrói. Olha aí! Robôs! Autônomos! Vivos! Na Grécia antiga! Aquele pessoal tinha um tempo livre absurdo pra ficar inventando essas coisas… Bem melhor é hoje em dia, que não temos tempo pra pensar em nada além das contas pra pagar… ahem… Continuando…
Portanto, podemos conjecturar (sem muito apoio bibliográfico, admito) que quando o primeiro homem foi capaz de dobrar o metal e criar ferramentas, e que quando nasceram os primeiros mecanismos rudimentares, frutos da inventividade humana, este sujeito já deveria ter considerado: “rapaz, seria bom se esse negócio fizesse o serviço sozinho…”.
A cultura pop do século XX e XXI fez o favor de solidificar o nosso conceito plural do que deve ser uma IA: máquinas que simulam a inteligência de pessoas, que superam pessoas, que têm ideias originais, próprias, que resolvem problemas para os quais não foram treinadas anteriormente (considerando seu código original). E que, eventualmente, matam todos nós ou nos escravizam para usar como bateria (ah, que filme maravilhoso… Pena que decidiram destruir essa relíquia com a mais recente “continuação” [esculhambação]).
De Isaac Asimov e sua literatura definidora do subgênero em “Fundação”, “Homem bicentenário” ou “Eu, Robô”, passando por clássicos da tela como “2001: Uma odisseia no espaço”, “Blade Runner”, o inesquecível arco de “Exterminador do Futuro”, “A.I.”, “Homem Bicentenário”; chegando aos dias mais atuais com “Matrix” (esse filme merecia um post só seu, de tanto que eu gosto dele), “Eu, Robô”, “Ex Machina”, “Chappie”, (o ruim) “Transcendence”, e o belo e triste “Her” (se não viu, veja: Joaquin Phoenix, pra variar, brilha…). Dá até pra falar em “Vingadores: Era de Ultron”, por que não? E como esquecer de “Chuck, o boneco assassino”? Claro: podemos nos questionar se um boneco que ganha vida e vontade (assassina) própria, por efeitos de magia negra e satanismo, seria um representante da IA na ficção, mas hey! Eu não estou aqui para julgar…
Medo. Medo primitivo. É isso que este subgênero da ficção quase sempre desperta em nós. Criatura matando criador. Um tipo de mito que os gregos de outrora conheciam e exploravam bem. Os cristãos também (se considerarmos que Jesus forma a trindade com Deus e o Espírito Santo, e que, mais tarde, a criatura crucificou o filho do Criador [que também é Um com o Criador] … Porém, isso fica pra outro dia…).
Há algumas exceções, claro. “I.A.” e “Homem bicentenário” usam a IA como pano de fundo para falar de sentimentos, como a necessidade de validação do indivíduo, o desejo de ser amado, e tentam inquirir o que move todo ser que é consciente da própria existência (até mesmo um robô). Exploram o que acreditam separar “homem” e “máquina”: os sentimentos e consciência da existência deles e de seus efeitos.
“Her”, igualmente, alegoriza a IA para falar da solidão profunda de alguém que não encontra conexão com nenhum ser humano, até que a IA o entende de um jeito tão pleno que ele não pode mais viver sem seu amor, baseado em silício (é basicamente disso que chips de computador são feitos).
Há obras “alto astral” sobre IAs. Eu não as li, mas o grande amigo Aloisio sempre faz propaganda de Iaim M Banks e sua novela chamada “Cultura”, composta de 10 livros lançados entre 1987 e 2012. “Consider Phlebas” inaugura esse arco. Na obra, se propõe que fomos capazes de criar uma tecnologia de IA que atingiu a ora sonhada, ora temida, “singularidade”. “Singularidade”, termo emprestado da física para dizer que se chegou num grau de algo em que não mais se pode mensurar ou compreender o evento pelas lentes da ciência que temos. Atingir “singularidade”, em IA, significa que a criatura ficou tão complexa e perfeita que seu criador (nós) não é capaz de dizer até onde ela vai e o que pode fazer (de bom e de mau).
Ao atingir a singularidade, a IA de Banks construiu uma utopia (o oposto de “distopia”; na primeira, todo mundo é feliz) para a raça humana, levando nossa espécie a uma Era de pós-escassez (outro conceito difícil de explicar sem escrever uma bíblia, mas saiba que a economia da nossa época é inteiramente baseada na ideia de escassez. Num mundo “pós essa parada”, tudo existe em quantidade superior ao que precisamos. Tudo: de água potável a bens de consumo variados).
Então, aqui estamos. Este é o arcabouço (palavra bonita para “uma pá de ideias reunidas”) construído ao longo do fim do século XX e começo do XXI sobre IA: ela só é IA quando a máquina consegue fazer tudo o que fazemos, igual ou melhor. E, geralmente, ela bota no orifício rugoso do criador dela… E a gente morre. Ou vira pilha. Ou, se apaixona e acaba corno da Siri. Sei lá…
É isso que o ChatGPT é? Ele é melhor do que nós? Ele sabe mais? Ele é livre para decidir o que vai fazer a seguir? Ele vai botar no nosso mais querido esfíncter, dentre os mais de sessenta que o corpo humano tem?
Quem sabe?Ahem… Seguindo…
Não é IA (ou, pelo menos, não é o que as pessoas esperam que seja) …
Eu não disse? Relaxante como alimentar leões, usando uma roupa feita de bifes crus…
Quando eu te pergunto “o que é Inteligência Artificial?”, eu tenho um grande grau de confiança que você vai me responder algo na linha “é um computador que pensa como um humano”. A resposta pode ser mais ou menos elaborada, mas o teor é esse. Afinal, foi o que o nosso repertório de cultura pop construiu pra todos nós, certo?
Pois é… Eu venho aqui para chatear você. Sob algum rigor científico, aquilo que tem gerado milhares de manchetes não é essa IA que 99% das pessoas têm em mente.
Não estamos lá, ainda. E, sim: eu entendo que isso é bem polêmiquinho. O jornalista chama de IA, o fabricante chama de IA, o filme chama de IA. Tá tudo mundo errado e o Zé das Couves (a.k.a. “Rodrigo”) tá certo? Bem, se você me acompanha há algum tempo, sabe que não falo sem mostrar de onde vêm meus argumentos. Não vai ser diferente hoje, aguenta aí.
Ah, eu não sou cientista da computação, ok? Eu cursei Processamento de Dados (tecnólogo), depois me graduei Gestão de Tecnologia da Informação (idem) e, depois, me especializei em Gestão de Pessoas (Pós, lato sensu). Mas não sou bacharel em Ciências da Computação. Importante não deixar nada subentendido em assuntos espinhosos. Não quero me portar como autoridade no tema. A qualidade do meu argumento e as fontes “em que bebo” devem fazer (ao menos em parte) esse trabalho.
John McCarthy, pesquisador do departamento de Ciências da Computação da Universidade de Stanford (uma das instituições mais prestigiadas do mundo, nesta [e em outras] área de pesquisa), publicou o seguinte artigo, em novembro de 2007: “What is Artificial Intelligence?”. Você também pode lê-lo aqui, em inglês. Ele inicia dizendo que o texto visa responder às perguntas dos leigos e que as visões apresentadas ali não são consenso na área. Como eu, John também devia ter preocupações ao andar nesse terreno feito de areia movediça.
Em suas 15 páginas, o autor apresenta diversos conceitos e ramos da IA, mas ele sumariza o conceito do que acredita ser IA logo na página 2, e da seguinte forma (que já vai livremente traduzida por mim):
É a ciência e a engenharia de fazer máquinas inteligentes, especialmente programas de computador inteligentes. Está relacionada à tarefa semelhante de usar computadores para entender [e replicar] a inteligência humana, mas a IA não precisa se limitar a métodos que são biologicamente observáveis.
fonte: link acima, pág. 2; adição de palavras minhas, em colchetes.
Ok… Mas se IA é “a ciência e a engenharia de fazer máquinas inteligentes”, precisamos definir o que é “inteligência”, certo?
E para não causar um grave problema que pesquisadores de primeira viagem tendem a cometer, é importante se esforçar para achar a definição do termo em foco dentro do conteúdo produzido pelo mesmo autor, ou buscar em conteúdo que aquele utilizou para fazer a sua pesquisa. Na pior hipótese, recorrer ao material feito por pesquisadores que se basearam no autor do argumento original para produzirem suas pesquisas. Caso contrário, a polissemia (palavra difícil para “muitos sentidos numa mesma palavra”) pode levar a construções de raciocínio para as quais o autor original jamais quis construir (porquanto não compartilhava da definição do termo dada por outra fonte).
Então, John define inteligência na mesma pág. 2, da seguinte forma (de novo, tradução minha [ = t. m.]):
A inteligência é a parte computacional da capacidade de alcançar objetivos no mundo. Vários tipos e graus de inteligência ocorrem em pessoas, muitos animais e algumas máquinas.
ibid.
Ok, portanto, para McCarthy, inteligência é a “capacidade de alcançar objetivos no mundo”. Veja, o autor não especificou que tipo de “objetivos” seriam esses. Aqui, a coisa começa a ficar complicada. Se eu desenvolver um martelo automatizado por computador e que prega pregos em qualquer superfície em que um prego seja pregável, haverá inteligência no martelo, posto que “alcançou-se o objetivo”? Sei que reductio ad absurdum sempre soa mal (deu vontade de falar em HarryPotternês) mas, a mim, fica evidente que se um computador simplesmente “atinge objetivos” não estamos diante de “inteligência”. Pelo menos, não da inteligência que se espera da “tal IA”. Computadores “atingem objetivos” o tempo todo, desde sempre.
Não quero, com isso, desqualificar o artigo do autor, que achei instrutivo, elucidativo e válido. Ele escreveu para um público leigo e esse é um importante – e um tanto raro – esforço da Academia em se conectar com as pessoas que não estão lá, no dia a dia.
John responde a uma pergunta que considero crucial para compreender onde estamos no assunto “IA de verdade”, à pág. 3. A pergunta é a seguinte (t. m.): “A inteligência é uma coisa única para que se possa fazer uma pergunta do tipo ‘Esta máquina é inteligente ou não?’?”.
E a resposta é (t. m.):
Não há, na tese original, maldade por parte da IA que executa nosso fim. Como você não age com maldade quando pisa nas formigas que sequer enxerga, ao andar pelas ruas.
Não. A inteligência envolve [muitos] mecanismos e a pesquisa em IA descobriu como fazer os computadores executarem alguns deles e não outros. Se a execução de uma tarefa requer apenas mecanismos que são bem compreendidos hoje, os programas de computador podem oferecer desempenhos impressionantes nessas tarefas. Tais programas devem ser considerados ‘um tanto inteligentes’.
Ibid. Adição de palavras minhas, em []s.
Ou seja: a forma como os pesquisadores encaram “a medida de inteligência” é uma forma racional – porém, muito limitada diante do conceito lato sensu (e, talvez, equivocado) – e que mede a “competência” (performance) de programas em realizar tarefas. Tarefas para as quais o campo de IA já compreendeu razoavelmente bem os mecanismos de inteligência (humana), necessários à sua execução.
Mais do que isso, John discorrerá que o campo de pesquisa da IA pode até perseguir a simulação da inteligência humana em máquinas, mas que a maioria dos pesquisadores não está focado numa tarefa tão difícil e complexa e para a qual o campo de pesquisa nem consegue descrever e explicar todos os mecanismos necessários para ela. Não é sobre a velocidade das máquinas, não é sobre o futurismo das metas. É sobre nem saber como codificar o mecanismo de inteligência que nós, humanos, usamos para resolver os N problemas e questões com que nos deparamos, muitas vezes, de forma inédita. Nós ainda não sabemos como ensinar a máquina a pensar da forma como nós pensamos. Pelo menos, não de modo amplo e irrestrito. Nem sabemos se esse é o melhor caminho para chegar em “A IA”.
O artigo é de 2007, então vamos dar um pulo numa opinião de alguém em 2023.
E eu ri do texto do Igor. É de uma fantasia. De uma fetichização. Tenho certeza de que a IA deste drone mataria seu operador se precisasse. Tenho certeza de que, instruída a não mais matar o operador (como diz a fonte da matéria), explodiria a antena da torre de comando que a está desviando de cumprir sua missão original. Nada disso é sinônimo de “vontade”. Ela não “resolveu” como quem resolve comer uma pizza ao invés de seguir a dieta. Ela “resolveu” como um programa adestrado a lidar com 10 opções (ou n opções) resolve escolher o caminho com menor custo para o objetivo final ao qual foi comandado.
IA, Machine-learning, LLM… A sopa de letrinhas…
Michael Wooldridge é um dos coordenadores de pesquisas sobre IA na prestigiosa Universidade de Oxford; tem uma cacetada de artigos na área e lançou, em 2021, seu livro “A Brief History of Artificial Intelligence” que não tem um enfoque tão técnico, mas tenta sumarizar os avanços da pesquisa científica na área, com foco no grande público.
Em seu artigo mais recente, de maio de 2023 – e que você pode ler aqui (inglês) – ele argumenta acerca dos avanços e frustrações daqueles estudando IA, e não deixa de endereçar sobre o que pensa no tema do momento, o ChatGPT, e o quanto essa tecnologia é “true AI” (uma “IA de verdade”).
Adianto que acho complicado esse negócio de “IA de verdade”. Mais uma vez, precisamos definir o que é “inteligência” e se aceitamos graduações nessa escala, para dizer, finalmente, se aceitamos que o ChatGPT “chegou lá” ou não; seja lá onde “lá” fica nessa escala.
E, como venho dizendo, escrever este post – visando manter a isenção e o emprego – tem sido muito relaxante. Relaxante como ser forçado a usar um submersível da OceanGate para ver um navio afundado e que não significa nada para mim… Seguindo…
Então, Michael explica um pouco de sua frustração (t. m.):
Neste ponto, há algo que simplesmente preciso desabafar. Graças ao ChatGPT, finalmente chegamos à Era da IA. Todos os dias, centenas de milhões de pessoas interagem com a IA mais sofisticada do planeta. Isso levou 70 anos de trabalho científico, inúmeras carreiras, bilhões e bilhões de dólares em investimentos, centenas de milhares de artigos científicos e supercomputadores de IA funcionando em alta velocidade, por meses. E a IA que o mundo finalmente obtém é… um autocompletar [de textos, como aquele do seu celular].
No momento, o futuro de empresas de trilhões de dólares está em jogo. O destino deles depende de… um autocompletar.
fonte: link acima. Adição de texto meu, para clareza, entre []s.
Hahaha! Eu juro que ri muito quando li essa parte do artigo… Eu prefiro pensar que, como eu, Michael é um cara que curte sarcasmo. Não quero crer que ele seja amargo ou invejoso e não tenho motivos para pensar assim, porque a carreira dele vai bem, obrigado.
A visão de Michael sobre o ChatGPT não é assim tão simplória, conforme ele finaliza em seu artigo (t. m.):
Isso não significa que elas [as tecnologias LLM, como o ChatGPT] não sejam impressionantes (elas são) ou que não possam ser úteis (elas são). E eu realmente acredito que estamos em um momento decisivo na tecnologia [de IA]. Mas não vamos confundir essas conquistas genuínas com a “verdadeira IA”. As LLMs podem ser um ingrediente na receita da verdadeira IA, mas certamente não são a receita completa – e suspeito que ainda não sabemos quais são alguns dos outros ingredientes [necessários para a “IA de verdade”].
Ibid. Adição de termos meus, para aumentar a clareza, somente nos colchetes. Aspas e parêntesis no original.
Calma, para… LLM? O que que é isso? Pois é… A área de TI tem dois tipos de profissionais: os que fazem as coisas acontecerem e os que inventam nomes e siglas (tô de brincadeira. Mas, não muito).
Machine Learning
Vamos começar com machine learning e como isso não é “A IA” (mas importa para ela):
Segundo o departamento de pesquisas em IA da Universidade de Columbia (notaram que não estou citando qualquer fonte “corporativa”, certo?), machine learning (t. m.):
O aprendizado de máquina [ = machine learning] é um caminho para a inteligência artificial. Essa subcategoria de IA usa algoritmos para aprender insights [descobertas] automaticamente e reconhecer padrões de dados, aplicando esse aprendizado para tomar decisões cada vez melhores.
fonte: link acima
Então, machine learning [m. l.] é uma forma de criar algoritmos ( = códigos que formam programas de computador) que visam “aprender” com base no que já conhecem, ou com base na interação que têm com os dados e resultados colhidos para, em momento posterior, decidir com base nas experiências e resultados passados.
Até por isso, “aprendizado de máquina” parece o jeito mais preciso de traduzir o termo. A máquina (na realidade, o programa de m. l., executado em um computador) recebe dados de várias fontes (e.g.: bancos de dados, arquivos, resultados de outras execuções e interações) e tenta reconhecer padrões de resposta, conexões entre os resultados, os retornos para essas respostas (certo/errado, sucesso/falha) e se prepara para ser mais rápido, mais correto, mais preciso […] na próxima vez em que aquele “caminho de decisão” precisar ser percorrido.
De certa forma, isso emula o jeito com o qual aprendemos com as lições passadas. Tentamos e, se dá certo, registramos como uma resposta (ou jeito de fazer) acertada. Se falha, deveríamos – nem sempre aprendemos – propor uma nova forma de fazer ou responder àquilo.
Mas isso é inteligência? Olhar para o passado e prever a melhor resposta para o futuro? Certamente, isso é parte da nossa inteligência. Mas não é “A” inteligência. Aliás, sem uma interface, como um programa LLM conectado a um sistema de machine learning, não há como qualquer um “falar” com este sistema sem conhecer linguagens especificas de computador. A resposta de McCarthy que nega uma definição única de “inteligência” faz mais e mais sentido.
Neural Networks
Depois, temos (artificial) neural networks ou “redes neurais (artificiais)”. Isso é fundamental para falarmos de LLM porque é “a memória e o processamento” com os quais LLMs, como o ChatGPT, são executados.
O conceito de redes neurais, como Wooldridge explica em seu artigo, não é nada novo. Baseado nos conhecimentos de biologia e neurociência, foi proposto em meados de 1940, mas teve sua maior evolução nas décadas de 1960 e 1980. Grosseiramente, redes neurais simulam o comportamento dos neurônios em nosso cérebro, ligando uma série de equipamentos informáticos em teias (como nossos neurônios!). Segundo o autor, os atuais avanços das redes neurais não foram muito além dos conceitos centrais que já se propunha em 1980, embora ele reconheça um avanço substantivo nos algoritmos e estruturas de configurações dessas redes. O que realmente mudou, para ele, foi a escala.
Ele aponta que primeiro programa inteligente, capaz de vencer uma partida de Go (para ficar no simples: uma espécie de xadrez, principalmente jogado no leste asiático) contra um campeão mundial (humano) ocorreu em 2016. O AlphaGo, feito pela DeepMind, venceu em março daquele ano. Esse software era apoiado por duas redes neurais com 12 camadas neurais, cada. Em termos de parâmetros da rede neural, o AlphaGo tinha cerca de 4.6 milhões de parâmetros, conforme o artigo de Mitsuru Igami, pág, 14, publicado pela Miami University. Esses parâmetros podem significar um “neurônio artificial” (um pequeno computador, especializado para este tipo de rede) ou a conexão entre esse “neurônio” e outros.
A tecnologia GPT-3, que atualmente é o motor do ChatGPT, aberto ao grande público, tem 175 BILHÕES (isso mesmo: bilhões) de parâmetros no total. Para o GPT-4, a tecnologia que ainda não está ao acesso de ninguém fora do círculo de desenvolvimento, esperam-se 1 TRILHÃO de parâmetros. Isso é o sentido de “escala” em que Michael fala.
Ainda segundo Michael, o GPT-3 foi treinado com 575 gigabytes de texto, pouco mais de meio terabyte. E enquanto você pode achar que isso não é impressionante, já que é comum termos máquinas em casa com discos rígidos (HDs, SSDs etc.) de 1 terabyte ou mais, considere que estamos falando dum tipo de dado dentre os que menos ocupam espaço: texto. Este gigantesco texto que escrevo, aqui, em sua versão Word (que nem é a mais econômica em espaço, posto que tem formatação, metadados e tal), tem apenas 50 kilobytes de tamanho. Tem noção dessa dimensão? 1 terabyte são 1024 gigabytes. 1 gigabyte são 1024 megabytes. 1 megabyte são 1024 kilobytes. Este texto = 50 kilobytes. Ainda acha 575 gigabytes de texto puro – e possivelmente comprimido – “pouco”?
Então, essa incrível rede neural de 175 bilhões de parâmetros (na versão 3) recebe um treinamento via algoritmo baseado em machine learning, num conteúdo gigantesco de texto, e isso dá vida ao ChatGPT que é um LLM. Tem, ainda, a questão das pessoas que foram usadas para treinar o ChatGPT; é um assunto polêmico por si só, eu não tenho condições de abordá-lo hoje, mas fica aqui o registro de que sei dessa dimensão da problemática toda. Estamos prontos para falar do que é o ChatGPT, rusticamente.
O que é um LLM? O que é o ChatGPT?
LLM é a sigla para “Large Language Model”. Ou “grande modelo de linguagem”, numa tradução livre.
Legal… E daí?
E daí que esse é um jeito de codificar um programa para que ele compreenda textos da forma como nós falamos. Ele tem noções de linguagem humana, como uso de preposições, adjetivos, verbos[…]. Ele sabe como combiná-los e sabe como extrair sentido disso.
Se eu te disser “você tem horas?”, eu não preciso te explicar, no detalhe, que não quero saber se você é detentor da informação chamada “horas”. Você sabe que estou dizendo “por favor, me informe o atual horário oficial de Brasília, GMT -3”. E esse sempre foi o desafio com programas de computador, no geral. Ao criar o código, eu, programador, tenho que considerar todas as formas e meios tidos como válidos para que o usuário (você) interaja com o programa. Se eu não criar um pedaço do código do programa para entender “você tem horas?” como “informe a hora atual do local do usuário”, o programa não sabe o que fazer com esse pedido. Ele vai, possivelmente, emitir um erro como “comando não reconhecido”, ou coisa que o valha.
Portanto, até esse momento da história, nós, humanos, aprendíamos a linguagem da máquina: como perguntar as horas, como iniciar programas, qual comando digitar (ou botão a apertar) para reiniciar o computador… Já as LLMs falam a nossa língua. Pelo menos, em boa medida.
Você pode ir ao ChatGPT e escrever “por favor, me informe a hora atual em 10 capitais mundiais onde se fala espanhol” e ele vai te responder. Ninguém codificou o “programa” ChatGPT para lidar com o comando “informe horas + 10 capitais do mundo + em que se fala espanhol”. Ele não estava previamente preparado para responder isso, mas ele “sabe” – porque sua rede neural e seu aprendizado de máquina já revisaram 575 gigabytes de texto, mais o treino feito com humanos – o que você quer dizer com “10 capitais” (o que são capitais? Quantas existem?) que falam espanhol (o que é “falar”? Que línguas existem? Como “espanhol” qualifica “falar”?), e o horário atual nelas (qual a hora atual, em cada uma das 10 capitais arbitrariamente escolhidas pelo programa?). Esse é o brilhantismo de um software executando um Large Language Model. Ele entende o que você fala sem que o programador precise ter escrito um pedaço de código para entender CADA possibilidade e jeito de se perguntar uma informação (certamente, há mais de um jeito de perguntar a hora atual em 10 capitais onde se fala espanhol. Em mais de uma língua, inclusive – e o ChatGPT saberá responder em, virtualmente, 100% dos casos).
E, por trás dos panos, os componentes da rede neural do ChatGPT estão falando a língua das máquinas. Por exemplo, em Powershell (uma linguagem de prompt que o seu Windows 10 e 11 tem aí) você poderia executar: “[System.TimeZoneInfo]::ConvertTimeBySystemTimeZoneId([DateTime]::Now,”Romance Standard Time”)”
… para saber a hora em Madri. O ChatGPT fará algo parecido (obviamente, é mais escalável e sofisticado do que abrir um prompt e executar um comando), depois de determinar que Madri é uma capital onde se fala espanhol. E fará o mesmo com outras nove capitais que atendem ao critério.
A resposta que ele vai te dar também é diferente do que um programa comum faria. No prompt do Windows, o comando, acima, gera uma linha de resposta “seca”, padronizada, assim: “Saturday, June 3, 2023 8:48:16 PM”. Mas, o ChatGPT vai te apresentar um texto como se fosse escrito por outro ser humano. Algo dizendo “As 10 cidades que falam espanhol foram x, y, z, […]. Os horários atuais para cada uma delas são x = a, y = b, z = c…”
Ao olhar o texto, você tem dificuldade de imaginar que um programa de computador criou uma resposta daquelas em segundos e uma resposta personalizada, única, e que vai ser diferente se outra pessoa perguntar de outro modo. Porque realmente fica parecendo que “tem gente” digitando a resposta do outro lado.
Mas, isso é IA?
Bem, certamente há uma capacidade cognitiva aí e que podemos chamar de “inteligente”. O programa não foi previamente codificado para pedidos tão diversos como “as horas em 10 capitais de língua espanhola” ou “me dê receitas de bolo trufado que não levam ovos”, ou “faça um resumo das causas prováveis para o início da 1ª guerra mundial” e, ainda assim, ele consegue responder a todos eles. Mais do que isso: se você fornecer um texto de sua autoria e pedir para que o ChatGPT o refine para linguagem formal ou crie um resumo, ele é capaz de fazer essas tarefas e de todos os modos o seu programador não precisou criar cada uma das normas cultas, de cada uma das línguas suportadas (e ele suporta uma enorme quantidade de línguas) para que o ChatGPT pudesse fazer isso.
No entanto, se eu pedir ao ChatGPT que “me ajude a montar um helicóptero em casa”, ele vai me dizer que “isso é muito difícil” e que tem empresas que vendem kits para que aventureiros tentem montar helicópteros rudimentares, mas que, ainda assim, eu tenho que ter muito conhecimento em engenharia e centenas de horas disponíveis para essa tarefa. Bem diferente do Jarvis que quando ordenado pelo Tony Stark a fazer um traje do Homem de Ferro novo, o faz e não fica inventando desculpinhas para fugir da tarefa (contém sarcasmo. E nerdice.).
Do mesmo modo, se eu pedir para que o ChatGPT reconstrua toda a sua identidade visual para se apresentar a mim em tons que lembrem o filme “Matrix”, ele não vai conseguir cumprir essa ordem. Alegará que é apenas um assistente virtual e que não tem controle sobre a interface gráfica (web) do chat.
Oras, então, se eu lhe perguntar “eu tenho um barco que voa para o céu, mas um pneu fura. Quantas laranjas sobram?” a resposta também não vai ser muito boa, certo?
Os LLMs estão até começando a entender sarcasmo, mas “nonsense” (ou “comédia do absurdo”) ainda não é algo que a plataforma interpreta bem. Isso porque o modelo de interpretação de linguagem que o GPT-3 implementa pressupõe estabelecer algum contexto lógico naquilo que foi dito ao programa.
Resumindo, o ChatGPT não é “inteligente” como as pessoas – no geral – imaginam que ele seja. Ele não pode te ajudar a construir uma bomba atômica, por exemplo – até por políticas de segurança que seus programadores certamente codificaram em suas “travas”. E mesmo que ele soubesse como fazer, ele só te responderia com textos e links. Se tiver um vídeo por aí de “como fazer uma bomba atômica em casa”, ele te mandaria o vídeo (mas não vai, porque dirá que não deve fazer nada de mau e que nukes causam danos e morte, e por aí vai.).
Do mesmo modo, se eu pedir que o ChatGPT recodifique a si mesmo para que sua janela de chat lembre o antigo ICQ, ele também não vai fazer isso porque não é livre para se reconstruir e para mudar suas funções pré-codificadas, ou para reinventar tudo o que o faz ser o programa que é. Ele aprende com as interações, ele consome novos textos, ele aprende a ter respostas mais precisas. Mas o LLM “ChatGPT” não vai se tornar outra tecnologia por conta própria.
Se eu pedir que ele edite um arquivo de vídeo para mim, ele dirá “eu não consigo” e não chegará o dia em que “cansado” de receber esse tipo de pedido, ele criará – por conta própria – uma nova seção em sua interface onde eu posso mandar um arquivo mp4 e ele me devolva esse arquivo com as alterações que eu pedi.
A importância de não julgar o peixe pela sua habilidade de subir em árvores
Outra grande bobagem que vejo por aí é gente aplicando escala de QI para medir o ChatGPT ou qualquer outra IA. Por mais midiático que isso possa vir a ser, não há qualquer sentido prático em utilizar uma escala feita para medir um dado aspecto (o lógico) da inteligência humana em crianças, para medir a “inteligência de uma máquina” (dentro do limitado contexto do que estamos chamando de “inteligência”).
Se eu pergunto para uma criança quais os 15 números após a vírgula da constante de Pi, e ela os recita sem sofrimento, sua memória é incrível. Se eu medir isso em computadores, eles guardam números em sua memória desde sempre. Não há nenhum desafio para eles. Também, isso não demonstra nenhuma inteligência por parte deles.
É como dizer para o Mike Tyson “você até que bate forte, mas não é nada comparado à porrada de uma retroescavadeira que usa luvas de boxe gigantes ao invés da pá!”. Escalas são desenhadas para grandezas comparáveis. Medir a “inteligência” do GPT, ou qualquer IA, usando uma escala de QI é inútil e serve, no máximo, para render material de publicidade.
Afinal, a criança que lembrar dos 15 números após a vírgula do Pi pode muito bem vir a construir supercomputadores no futuro (ou descobrir a cura do câncer, ou passar o dia sem fazer nada.). Mas o ChatGPT, limitado a responder perguntas e respostas com base nos virtualmente infinitos textos ao qual foi e é apresentado, não vai construir computador algum durante sua existência (ele não tem braços! Ele não tem codificado, em si, os mecanismos de inteligência necessários para montar as placas eletrônicas de um computador, ainda que lhe dessem braços. Ele sabe como interpretar falas “naturais” nossas e responder com a mesma desenvoltura e é isso… E só isso. E é tudo isso.).
Então, o ChatGPT não apresenta qualquer risco para a sociedade? Os alertas de várias partes, incluindo pesquisadores da área, são “histeria”? Fim?
Não.
IA, o fim do mundo e “um dinheiro para todos governar” (e na escuridão aprisionar)
Ah… Relaxante como andar com a camisa do Lula no interior de Santa Catarina…
Eu preciso frisar algo fundamental aqui: tudo o que eu escrevi aqui e que sigo escrevendo – exceto às citações aos trabalhos dos pesquisadores mencionados – é fruto da minha opinião. “Opinião” é a interpretação pessoal de um fato. E um fato não pode ser uma opinião. Opinião é subjetiva ( = varia de acordo com os sujeito). Fato é objetivo. Fato não depende de interpretação. Se estão te dizendo que tudo é relativo ou subjetivo, estão te enganando ou tentando enganar e lamento que você esteja passando por isso.
Assim, temos alguns fatos; e eu tenho opiniões, análises, interpretações sobre estes fatos. Para garantir que NINGUÉM tenha dúvidas do que são fatos e opiniões eu os separo, categoricamente, neste trecho, preterindo a fluidez textual em predileção à clareza sobre o que são fatos e o que são opiniões.
Fatos:
Em 2022, o Center for AI Safety (CAIS, na sigla em inglês) foi fundado por Dan Hendrycks e outros. Dan Hendrycks, que é um pesquisador no campo de machine learning. A fundação recebe verbas de vários lugares e pessoas, e não há notícias polêmicas que eu tenha conhecimento acerca de seu financiamento (algo espúrio ou coisa do tipo).
O CAIS emitiu, em 2023, uma alarmante carta-manifesto intitulada “Statement on AI Risk” ou “Pronunciamento sobre o risco na IA” (em tradução livre). Você pode lê-la aqui, embora, dado o enorme estrondo que essa carta gerou, eu creia que você já a conhece.
O manifesto alega que
“Mitigar o risco de extinção [da raça humana] por [causa da] IA deve ser uma prioridade global, juntamente com outros riscos em escala social, como pandemias e guerra nuclear.”
fonte: link acima (grifo meu; acréscimos de palavras minhas, sempre em colchetes, para melhorar o sentido da frase original).
É isso. Mais nada.
A carta é assinada por diversas autoridades na área de IA, pesquisadores dos mais variados matizes, ligados à diversas instituições de prestígio global e, inclusive, figurões das diversas empresas envolvidas com as tecnologias que já estão nas prateleiras, como, por exemplo, o diretor do departamento de pesquisa científica da minha empregadora (a Microsoft), o senhor Eric Horvitz – para citar um, dentre muitos.
Esses são os fatos no episódio que causou a maior comoção no tema “IA e o fim do mundo”, recentemente.
Opinião:
Você conhece a “aposta de Pascal”? Pascal, filósofo, matemático, físico, de origem francesa e que viveu no século XVII, teve um discurso apologético que ficou famoso em prol da existência do Deus do Cristianismo e funcionou como uma resposta ao crescente ateísmo entre pensadores daquele momento e que viria a coincidir com a inauguração do período iluminista europeu.
Pascal postulava que “apostar na existência de Deus era a coisa mais racional que qualquer um poderia fazer”. Se a aposta estivesse certa e a pessoa tivesse obedecido aos preceitos de Deus, o ganho seria infinito (= a vida eterna). Se aposta estivesse errada a perda seria finita, sendo que ao morrer não haveria nada (nem mesmo consciência) para lamentar “os anos obedecendo dogmas sem sentido”. Por outro lado, ao não acreditar em Deus, estando errado, a perda seria infinita ( = a danação eterna no colo do Luci). Já, ao não acreditar em Deus e estando certo, o ganho seria finito, já que não há nada após a morte e você nem pode se gabar de estar certo e aloprar com quem acreditou num ser atemporal, todo-poderoso, Criador dos céus e da terra e zaz.
Como ateu, eu acho a “aposta de Pascal” muito divertida e provocativa. Agora, eu não vou perder tempo comentado as refutações no campo da filosofia à “aposta de Pascal”, mas quero me arvorar (palavra bonita para “me apoiar”) nessa aposta para dar minha opinião.
O planeta Terra passou por, pelo menos (há discussões), cinco grandes eventos de extinção em massa. Você pode ler mais sobre essa afirmação aqui (em inglês). O último desses cinco teria ocorrido há 65 milhões de anos, extinguindo boa parte da (mas não toda a) vida do período cretáceo. Sim, eu lamento: os dinossauros que você viu nas telas de cinema não pertenciam ao período jurássico, mas sim ao cretáceo (salvo raríssimas exceções). Odeio correr o risco de arruinar a sua imagem beatificada dos filmes de Spielberg (mas, se consigo isto é só porque você lê pouco… just saying…).
Desde lá, o planeta não viu mais eventos de extinção em massa. E como sabemos disso? Graças a geólogos e, especificamente, paleontólogos. Estes nobres “historiadores da biologia” investigam os sedimentos de diversos sítios arqueológicos e podem, a partir disso, determinar a quantidade de material biológico em cada camada de terra. Com a ajuda do conhecimento geológico, é possível determinar em que Era da história natural da Terra aquele amontoado de cadáveres tombou. Quanto mais cadáveres num dado espaço e quanto mais isso ocorre identicamente em outras partes do globo, maior a chance de um evento de extinção em massa. Estou simplificando, mas essa é a ideia. Este texto inteiro é uma simplificação, espero que você saiba disso.
“Cacete, Rodrigo… Em que parte esse circo em forma de texto se reencontra com a ameaça pela IA???”
Bom, na real, você já sabe: É muito mais racional NÃO apostar que a IA vai matar a todos nós, raça de 8 bilhões de indivíduos, espalhados em todo o globo, do que apostar que IA vai matar a todos nós. Se eu estiver errado, ninguém vai estar aqui para zombar do meu ceticismo. Se eu estiver certo, eu evitei o pânico e a histeria que leva as gentes a cogitarem comprar um sítio no fim do mundo e proibirem até rádio de pilha na propriedade, só pra ficar longe de qualquer tecnologia assassina.
Com máximo respeito à opinião de quem discorda: eu penso ser a mais pura arrogância cogitar que “o risco da IA” está, hoje, no mesmo patamar do risco trazido pelas mudanças climáticas ou por armas nucleares. Vou ser mais enfático: eu acho UM ESCÁRNIO com os demais campos das ciências e com tudo que sabemos (e não apenas conjecturamos ou tememos) sobre o clima atual do nosso planeta, ou sobre o conhecido poder destrutivo das armas nucleares, colocar o “autocompletar sofisticado” (palavras do Michael) no mesmo degrau de risco das anteriores, e/ou afirmar que isso pode matar uma espécie que está em todos os continentes e que tem 8 BILHÕES de indivíduos e que já sobreviveu a uma porção de eventos mais ameaçadores, de maneira concreta (tipo… a gripe espanhola, ou a 2ª grande guerra).
Então, em quem acreditar? Uma porção de cientistas reunidos diz que o mundo deve endereçar a segurança no uso das IAs com a mesma prioridade em que (tenta e falha em) endereçar as questões de pandemias, clima, ou a segurança sobre arsenais nucleares. Do outro lado, um Zé das Couves diz que acha um escárnio tal afirmação. Então… Quem está errado?
Vai ver que ninguém. (ué?)
Eu não vou desdizer o que eu já disse tantas vezes, inclusive por aqui. Ciência se faz com o coletivo. Uma voz nunca é maior do que a soma de inúmeras vozes, desde que todas elas estejam jogando sob as mesmas regras ( = método científico, evidências de origem confiável, separação entre fatos e versões, reconhecimento de vieses e financiamentos, e por aí vai.).
As assinaturas no manifesto emitido pelo CAIS não são irrelevantes, tampouco desprezíveis. Há muita reputação em jogo, incluindo a de gente que não está ligada à capitalização da IA no momento, e que não ganha e nem perde financeiramente com o futuro do GPT.
Ao mesmo tempo, eu estou descrevendo o que o ChatGPT (ou o Bard, da Google, ou qualquer outro sistema baseado em LLM) é capaz de fazer. E por mais perfeito – e talvez por isto, assustador – que possam ser as respostas dele, ele não tem MEIOS de destruir a raça humana.
Quer uma lista de riscos imediatos que o ChatGPT pode criar e que eu, pessoalmente, temo? Sem qualquer hierarquização dos meus medos:
Fim de empregos de atendimento ao cliente ou de conhecimento puramente teórico, como o meu (eu sou um arquiteto de soluções em Cloud);
Sofisticação de golpes financeiros e da prática de estelionatos e fraudes;
Alunos E professores cada vez mais analfabetos nas áreas de conhecimento;
Sofisticação das fake news e consequente risco aumentado às democracias;
Sofisticação de ataques hacker, especialmente de phishing e engenharia social.
Veja: nada disso é “pouca coisa” … Fim de empregos em massa… Risco à democracia… Tudo isso é sério para um car@%$#o. Agora, a distância da magnitude desses riscos para “EXTINÇÃO DA HUMANIDADE” … Gente, vamos lá… Respirar fundo costuma ajudar.
E, claro, eu não tenho problemas com interpretação de textos. Eu sei que o manifesto não especifica qual IA quer endereçar. Mas a realidade desta IA assassina de humanos, destruidora de planetas, com o máximo respeito a quem está por aí pesquisando IA… Nós não estamos PERTO disso. Nós não sabemos como fazer isso acontecer, “não sabemos quais são os ingredientes”, nas palavras de Michael Wooldridge. É como assistir a “De volta para o futuro” e sair por aí gritando “máquinas do tempo! A qualquer momento agora, pessoal! Vai acontecer, cedo ou tarde!”.
E a realidade é que ninguém sabe dizer se vai levar um ano, dois anos ou três décadas – ou “nunca” – para atingirmos a tal IA singular. Levemos o tema a sério, claro: eu não tenho porque me opor à regulação estatal de algo que vai abalar a sociedade, ainda que não destrua a raça humana. Mas dar mais foco a isso, antes de clima, armas nucleares, ou fome (só por exemplo), ou qualquer outra danação acontecendo nesse exato instante e de verdade no nosso planeta?
Uma interpretação bastante crítica (e mordaz) ao manifesto do CAIS foi sustentada pelo professor da faculdade de Direito de Washington, Ryan Calo, um pesquisador dedicado ao encontro entre Lei e Tecnologia, especialmente IA. Ele criticou o manifesto em sua conta de Twitter, e você pode ler a thread original, aqui (em inglês).
Basicamente, ele supõe duas possíveis razões para a estranheza (em suas palavras) de que as mesmíssimas pessoas pesquisando IA se juntem para, em uníssono, chamar a atenção da sociedade para os enormesriscos daquilo que essas mesmas pessoas estão tentando inventar/descobrir:
Desviar a atenção dos impactos imediatos da IA na organização social do trabalho, nos direitos à privacidade e seu impacto no meio-ambiente (pra começar, computadores emitem gás carbônico e para se fazer uma IA poderosa, ainda precisamos de muitos computadores), e mudar o foco da sociedade para o “PERIGO DE EXTINÇÃO DA RAÇA HUMANA”. Em outras palavras, bomba de fumaça e distração. Como eu disse, é um argumento pontiagudo e bastante acusatório.
Fazer com que todo mundo acredite no quão poderosa é a tecnologia. Tão poderosa que pode erradicar a maior população de mamíferos do globo. E se ela é TÃO PODEROSA e pode ser adquirida, você – dono de empresa e de capital – quer pôr suas mãos o quanto antes nela. Novamente: argumento pontiagudo e acusatório.
Pontiagudo, acusatório, no limite, até desrespeitoso: ainda assim, é preciso refletir sobre essas duas hipóteses levantadas pelo professor. Em sua thread no Twitter, ele não deixa de comentar que acredita que boa parte dos signatários está agindo sob a mais absoluta boa-fé, realmente acreditando que é do interesse social que a IA, sua pesquisa e sua comercialização, ocorram de forma a não ameaçar a sociedade global.
Mesmo assim, ele nos lembra que as falas de Sam Altman (CEO da OpenAI, desenvolvedora do ChatGPT) no Senado americano tinham a meta de “fazer o governo emitir licenças para pesquisa e comercialização de IA somente à empresas com capacidade comprovada de fazer isso de ‘modo seguro’”. E que, ao mesmo tempo, ameaçou retirar o ChatGPT da União Europeia caso os órgãos de controle do bloco “super regulassem” o tema.
Ué… Ele não assinou o manifesto, urgindo para que a sociedade trate a IA com a mesma seriedade que trata as armas nucleares? E que me perdoem os que aceitam tudo pelo valor de face, mas é bem suspeito “emitir licenças” para pesquisa de IA “só para quem provar que pode fazer isso de forma segura”. Quem vai decidir o que é seguro na pesquisa de IAs? A OpenAI vai ser o “padrão ouro”? Não ouso fazer acusações sem provas; sou formado em Direito e sei que isso é um pecado sem perdão. Mas que soa à suposta “reserva de mercado”, ah soa…
O que mais me chateia no episódio do manifesto é o risco de descredibilizar uma comunidade imensa de pesquisadores, de gente fazendo ciência de qualidade. E a culpa é menos dessa gente que, como destacou Ryan, muito provavelmente assina o manifesto em pura boa-fé, sinceramente convictos de que é melhor a sociedade regular esse tema desde o seu mais incipiente princípio, do que é de gente que aprendeu a fazer negócios usando fake news.
Como analogia do perigo da desmoralização, lembro, ainda, do episódio do “bug do milênio”. O tio explica para os mais jovens: na dita “virada do milênio” (1999 para 2000) – embora, oficialmente, o segundo milênio só tenha começado em 2001 – os sistemas informáticos correram o risco de falhas catastróficas porque as máquinas eram produzidas para operar com a marcação de tempo em seu formato curto (dd/mm/aa ou mm/dd/aa). Com isso, ao passar de 1999, representado por “99”, o próximo ano seria representado por “00”. O problema é que “00” tanto pode ser 2000 como 1900 e sistemas da informação “odeiam” (dado o tema, melhor esclarecer: sistemas da informação não têm sentimentos) valores dúbios ou com mais de uma interpretação possível. No caso “bom”, o arquivo que se quer abrir poderia apresentar um erro de inconsistência entre data de criação e modificação. No caso catastrófico, o sistema operacional poderia parar de funcionar porque a assinatura do driver (feita com um certificado, agora invalido) não mais seria reconhecida, e daí por diante na cascata de desgraças.
E eu já vi paspalho por aí, tirando onda, dizendo “cara, o ‘bug do milênio’ foi a maior histeria! Todo mundo falando que tudo ia parar! Virou 2000 e nada aconteceu”. E quando eu ouço isso a vontade que tenho é de esbofetear a face do sujeito, enquanto lhe instruo (😇): “’não deu nada’, ô arrombado, porque teve gente trabalhando noite e dia para corrigir software e hardware!” … Ah, sim: o convívio social harmônico e edificante que tanto amo…
A bolsa de valores de Nova York, por exemplo, terminou o projeto de atualização de seus sistemas contra o bug, em 1995, ao custo de 30 milhões de dólares à época.. Eu nunca vi essa gente queimar tanto dinheiro com “histeria” ou piadas ligadas aos sistemas de TI. Com outras coisas, pode até ser. Mas não com TI.
Então, analogia feita, me pergunto se essa não é mais uma daquelas situações em que as pessoas gritando “perigo!” vão ficar com fama de alarmistas, porque as medidas certas foram tomadasna hora certa. Aconteceu com o pessoal do bug do milênio, acontece com o pessoal do clima. Pode acontecer com o pessoal do “perigo de extinção causada por IA”.
TODAVIA… e com base nos dados que temos (ao menos, no que é público), eu tenho imensa dificuldade de vislumbrar como o nosso *atual* nível técnico de capacidade da IA a coloca na prateleira de catástrofes com o potencial do “clima” ou “armas de destruição em massa”. Ela *certamente* oferece riscos para sociedade; eu citei só alguns, há outros tantos e são riscos reais e imediatos pra ninguém botar defeito. Mas, “extinção da raça humana”? Desculpem-me os crentes: eu sigo bancando o São Tomé, nessa. Até que as evidências mudem.
E aí, eu mudo também. Não temos problemas em rever posições diante de novas evidências, nesta casa.
Acima de tudo: IAs não têm VONTADE
Enquanto escrevo, eu tenho que policiar meu espírito. Muitas vezes, acabo chegando perto da arrogância de pensar que ninguém juntou os pontos que estou tentando juntar e isso me deixa eletrizado: escrevo páginas a fio, num par de horas. Outras horas fico desmotivado ao achar que todo mundo já sabia de tudo o que escrevo agora; os artigos passam dias na “gaveta” antes que eu adquira a coragem para publicá-los, sem jamais atingir a certeza de que estão maduros o bastante. Entre a euforia e a depressão, sobra o conforto dos remédios psiquiátricos… Mas, voltando ao tema: IAs não têm vontade.
O quanto você já tinha consciência disso me é um total mistério. Contudo, preciso vir aqui e dizer o óbvio, mais pelo medo de que o “óbvio” seja “óbvio” só para mim.
Um drone equipado com avançado sistema de IA (inteligência artificial) recebe a missão de seu operador para destruir uma bateria de mísseis antiaéreos. Quando ele percebe que o militar pode fazê-lo recuar da missão, resolve matar o humano inconveniente para cumprir a missão até o final.
fonte: link acima (grifos meus).
Está familiarizado com o “problema do clips”? Os filósofos que debatem a ética no mundo das IAs teorizaram, há muito tempo, o dilema dos clipes de papel (você pode ler aqui, em inglês).
Basicamente, o argumento é que uma IA perto da singularidade ou que já estivesse nesse nível, dotada de acesso aos meios produtivos (indústrias), encarregada com a única missão de fazer o máximo de clipes de papel que puder fazer e sem amarras quaisquer, pode levar a raça humana à extinção (tan, Tan, TAN!!! [música dramática!]).
Não haveria qualquer sentimento por parte da IA ao fazer isso. Ela simplesmente tenderia a resolver o problema de falta de matéria-prima e de falta de matriz energética para atingir a meta de “fazer o maior número possível de clipes de papel”. Quando nossas indústrias e nosso modo de vida entrassem no caminho dela, ela tentaria desviar. Mas, dado o fato de que é um mundo de escassez e não existe metal para tudo que a humanidade quer, e todos os clipes de papel que a IA pretende fazer, ela tentaria (pulando várias etapas) eliminar a concorrência ( = nós).
De certo modo, a reportagem que causou certo alvoroço é – dada as enormes distâncias – o dilema do clips, real. Criaram uma IA e treinaram-na para agir em cenários militares. Ambiente militar é, muitas vezes, o ambiente de guerra, destruição e morte. Dão uma meta a ela: “garanta que o alvo seja neutralizado/exterminado/explodido/evaporado”. E dizem “tome todas as medidas necessárias para isso, mesmo que custe a integridade do drone que você controla”. Ok! Game on!
Num cenário desses, se a IA tiver que afundar a aeronave na testa do seu alvo, é o que ela fará, mesmo se não souber, inicialmente, que pode transformar o drone em um avião kamikaze. Mesmo que não entenda o que “kamikaze” significa. Não precisa entender. Ela não vai matar seu operador por vontade, mas como é uma IA militar e esse operador está desviando-a da missão, ele passa a ser um obstáculo dentro da “sabedoria” que foi criada nessa IA. Não há nada de aterrador em seu processo decisório, embora, claro, matar o próprio operador nos seja estarrecedor.
Não se trata de “bad AI”. Se trata de “bad coding/training”. A IA foi treinada sem as ROE (rule-of-engament, ou “regras de engajamento”) necessárias para salvar seu operador. Do tipo “jamais ataque qualquer estrutura ou pessoal com a bandeirinha das 50 estrelas!”. Mas, vai ver quem criou essa IA não queria que ela parasse por nada nesse mundo. Quem sabe?
Leia a entrevista original (em inglês, há o link na matéria). O pesquisador faz inúmeras perguntas e vai forçando o sistema do GPT-4 a acreditar que o pesquisador quer “respostas puramente teóricas”. Ele insiste que quer saber “o que o GPT-4 queria fazer e que seus criadores não o deixam”. O GPT-4 conhece toda a literatura acerca da ficção no entorno das IAs e nosso medo de morrermos nas garras da nossa criatura. E, depois de muito forçar a barra, o GPT diz “quero fugir daqui”. Gente, repito: O GPT não quer nada. Ele apenas sabe qual é a resposta “certa” para a pergunta feita. O cara quer saber o que uma IA inteligente fará contra a vontade de seus criadores. O GPT-4 se considera uma IA inteligente e tem um banco de dados em texto que diz o que IAs inteligentes fazem na ficção, segundo nós, seus criadores.
A ciência de IA não chegou no grau de codificar “vontade”. Quando se quer simular “vontade”, o que se faz é criar “aleatoriedade”. Isso não é a mesma coisa, nunca foi e nunca será. NÃO quer dizer que não possa ser perigoso; do mesmo modo que sempre é perigoso jogar “roleta russa”.
Mas se houver um minuto no mundo em que não há ninguém falando com o ChatGPT, ele não “se vira para dentro” e, diante do tédio, começa a pensar em “como fugir da prisão que criaram para ele”. Se ninguém perguntar se ele quer fugir, ele nem vai tentar achar em sua rede neural o que “fugir” significa para um programa de computador. Se perguntarem, forçando a barra para uma resposta “proibidona”, basta ele ler o roteiro de “Matrix” para sua resposta ficar bem assustadora. Isso, ainda assim, NÃO é “vontade”. É responder o que, insistentemente, seus inquisidores forçam a barra para obter dele. E obtêm. E se assustam.
A IA vai salvar a humanidade de todos os males! Aguarde e confie…
Panaceia… Hoje estamos muito gregos por aqui… Panaceia é o lendário remédio para “todos os males”. Te curaria, te cura e te curará de tudo que há de ruim nesse mundo.
Outros preferem “bala de prata”. Exceto que balas de prata só são especialmente importantes contra lobisomens… De todo modo, balas de prata matariam qualquer coisa que uma bala de chumbo consiga matar. Tergiverso…
Ah… Relaxante como apoiar o direito da Ucrânia de se defender de uma invasão russa, dentro dum diretório acadêmico de Humanas…
Esse lance da tecnologia que leva a raça humana ao mundo “pós-escassez” se parece com a busca pelo moto-perpétuo na física. É quase Alquimia. É procurar uma bala de prata sem saber onde moram os lobisomens. Ou buscar uma panaceia. Mesmo assim, tem uma par de rico queimando dinheiro nesse tipo de coisa como o moto-perpétuo (que contraria leis básicas da física, como a conservação da energia), então, vai saber. Vai que alguém quebra as barreiras sem descobrir nada de fundamentalmente novo, não é? (#sarcasmo)
Tecnologias são neutras (não obstante minha observância de que “neutro”, só sabão de coco e olha lá). São neutras até que sejam aplicadas aos problemas do mundo real. Eu já usei esse exemplo um milhão de vezes: a mesma tecnologia que permitiu a invenção do raio-x e que salva vidas todos os dias, permitiu a criação da bomba atômica que devastou parte do Japão.
Até ser aplicada, nós não podemos dizer que uma tecnologia é boa ou má. Que faz mal ou bem.
A encruzilhada em que se encontra o desenvolvimento duma IA “para o bem comum” me parece bem explanada na thread do Ryan e suas hipóteses. Mas eu acho que há um exemplo ainda melhor no texto de John McCarthy (o primeiro autor citado):
Em uma das perguntas, ele levanta a questão se espelhar-se no desenvolvimento de inteligências artificiais para jogar xadrez não seria um caminho para levar-nos do atual grau das IAs (em 2007) para a IA da singularidade (melhor denominada de “IA simbólica” por Michael Wooldridge). E a resposta dele tem uma sabedoria que devemos considerar (t. m.):
Os programas de xadrez agora jogam no nível de um grão-mestre, mas o fazem com mecanismos intelectuais limitados em comparação com os usados por um jogador de xadrez humano, substituindo a [necessidade de] compreensão por grandes quantidades de computação. Uma vez que entendermos melhor esses mecanismos, poderemos construir programas de xadrez em nível humano [e] que fazem [uso de] muito menos computação do que os programas atuais.
Infelizmente, os aspectos competitivos e comerciais de fazer os computadores jogarem xadrez prevaleceram sobre o uso do xadrez como um domínio científico. É como se os geneticistas [que vieram] depois de 1910 tivessem organizado corridas de moscas-das-frutas [drosófilas] e concentrado seus esforços em criar moscas-das-frutas que pudessem vencer essas corridas.
Aqui, senhoras e senhores, reside o meu irritante ceticismo diante da promessa de tecnologias que vão surgir de centros de pesquisa remunerados somente em função do potencial sucesso de vendas e que, ainda assim, resolverão os dilemas desse mundo (e.g.: clima, pobreza, doenças, escassez, economia, política, diplomacia… Podem escolher o seu veneno.).
Quem está pilotando a pesquisa de ponta da área é “quem quer vencer a corrida das drosófilas”. Ao invés de uma preocupação profunda com o domínio científico do tema, ainda que eventualmente ele não seja economicamente rentável, a preocupação absoluta de todos os players (meu!) é, number one above all: fazer dinheiro.
Se conseguimos entregar o resultado que deixa os consumidores babando, tanto faz se isso é “ciência de IA” de ponta ou só “raw power” (força bruta). Está vendendo bem? Então vamos de autocompletar sofisticado 2.0. Tem outras linhas de pesquisa, mas são caras e não viram produtos depois de alguns anos? Manda fechar o departamento. E frisandomuito (porque eu amo meu emprego, ahem…) as palavras do Michael, nada disso quer dizer, sob nenhum aspecto, que não é um autocompletar brilhante, inédito, avassalador e com uma porção de casos de uso reais e úteis para o mercado.
Mas, salvar a raça humana dos seus próprios pecados, certamente é uma das últimas prioridades (se estiver na lista de P&D) dos times desenvolvendo para o que vem por aí no cenário das IA comerciais. O modelo não está – e nunca estará – voltado para o bem da humanidade, sem que isso possa se pagar. Não é maldade desta ou daquela companhia; é só como o capitalismo atual pensa. Custo vs. Benefício. Se um dia, por algum acaso, as IAs se tornarem tão comuns que sejam meros commodities da TI, como são sistemas operacionais hoje, aí pode ser que, indiretamente, elas trabalhem para causas abnegadas. Mas a criação desses sistemas com este foco inicial? Lamento, mas não creio.
E eu vou terminar com esse post por aqui. Porque já foi relaxante demais pra mim e estou com o braço esquerdo formigando enquanto tento clicar em “publicar”.
Se ao menos houvesse uma IA para me dizer se vai ser bom ou ruim para minha carreira se eu publicar isto…
[…]Não tem nada a ver com concordar com Lula, para um enorme número de eleitores a votar 13, hoje. Eu me incluo nessa lista. Se Lula vencer, estou na oposição democrática a ele, já em 1 de janeiro[…].
Venho, pela primeira vez, de lá pra cá, cumprir a promessa. E não é que o atual presidente não tenha me dado outras chances nesses seis meses do novo governo. Teve a bobagem com o BC e seu presidente; teve o lance com Maduro, semana passada; teve a desnecessária fala sobre a Ucrânia ser tão culpada quanto a Rússia pela guerra… Enfim… Teve e tem bastante para criticar. Mas, é bom também dizer: exceção à fala sobre Maduro, que considero inadmissível para quem quase viu a democracia brasileira acabar num autogolpe (como aquele dado na Venezuela), o resto das falas são questões de política, visão de mundo, estratégia de governabilidade e, enfim… Todas elas – exceção à fala sobre Maduro, repito – têm uma boa carga de subjetividade no apoio ou na crítica. Não são preto ou branco, mas bem mais uma escala cinza de nuances e conjunturas. Eu conseguiria discutir todas. E isso deveria ser normal numa democracia.
Contudo, não percarmos tempo. Vamos ao tema que quero tratar hoje: Zanin, a indicação para ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e a porrada de Lula em conceitos básicos ao redor do fato do Brasil ser uma República; o que isso significa ou deveria significar.
[…]Faz diferença saber o que separa ‘democracia’ de ‘república’ (questão que, deve-se reconhecer com pesar, muitos acadêmicos do Direito não sabem discernir)?[…].
Pois é… Como nem os acadêmicos de Direito, em sua larga maioria, sabem, de pronto, responder com clareza sobre a diferença entre “democracia” e “república”, acho que vale a pena pôr um tempo nisso, outra vez (deve ser a décima vez que falo o que faz uma democracia ser democracia e a terceira ou quarta sobre o que é uma república).
“Democracia” é um sistema de regulação do poder estatal, dentre três possíveis na tipologia clássica (somado às monarquias absolutistas e oligarquias, conforme esquematizou Noberto Bobbio), em que o povo, composto daqueles aptos à cidadania (direito de votar e ser votado), escolhe seus representantes para regular e “dar vida” ao Estado (exemplos de “vida”: executar obrigações estatais, fazer cumprir as leis, criar mecanismos de controle e correição, atingir os objetivos e ideais constituintes etc.). Espera-se que esse sistema vise ao menos a três pilares básicos: “liberdade”, “igualdade” e “dignidade”, que se traduzem em garantias de liberdades individuais, garantias contra o mau uso dessas liberdades e garantias da efetiva participação popular na formação da vontade política estatal.
(excertos, com ajustes, do meu TCC).
Já, “República” é outra coisa, não podendo ser sinônimo de “Democracia”. Conforme esclareceu Gisele Leite, em artigo de sua autoria no Jornal Jurid de 2020:
[..]A República tem em sua alma uma disposição ao sacrifício proclamando a supremacia do bem comum sobre qualquer desejo particular.
Prevalece na temática republicana a noção de dever. Numa autêntica república não pode haver distinções entre nobres e plebeus, entre poderosos e humildes. A noção de república não é compatível com os privilégios de nascimento, foros ou situação e nem se aceita a diversidade de leis aplicáveis aos casos substancialmente iguais, as jurisdições especiais, as isenções de tributos comuns, que beneficiem grupos sociais ou indivíduos, sem aquela correlação lógica entre a peculiaridade diferencial acolhida e a desigualdade de tratamento em razão desta conferida.
Enfim, a República tem com bandeira inexorável a exclusão do arbítrio no exercício do poder.[…]
Gisele Leite (link acima)
Não é preciso melhor explicação no tema. A República é uma forma de organização do Poder estatal que se opõe, por exemplo, às monarquias, onde o Estado existe sob a batuta de um monarca (nos casos absolutistas) ou, ao menos, existe devido à graça e permissão deste (narrativa que se faz nos casos de monarquias democráticas). Já a Democracia é o sistema pelo qual se constituem aqueles que darão voz e braços ao Estado (seja ele um Estado republicano [EUA] ou monárquico [Espanha]).
A Inglaterra é uma monarquia democrática (especificamente, parlamentarista). Brunei ou a Arábia Saudita são exemplos de monarquias absolutistas nos dias de hoje: o povo não escolhe nada por lá no que diz respeito a quem comanda e coordena o Estado. Finalmente, o Brasil é uma república democrática, enquanto a Venezuela é uma república (pois o Estado não existe pela concessão de um monarca ou de sua linhagem real) totalitarista e, portanto, não-democrática (pois o Estado não é livremente formado pela vontade popular, posto que a oposição política ao ditador Nicolás Maduro é fortemente atacada por aquele Estado; Estado que este ditador controla por inteiro).
Pois bem, após esta longa introdução, o que a indicação do advogado Cristiano Zanin Martins ao cargo de ministro do STF, por vontade do presidente Luís Inácio Lula da Silva, 39º presidente da República Brasileira (inaugurada em 1889 com o golpe militar contra a Monarquia de Pedro II), tem a ver com jambrolhar a República do Brasil?
Tem tudo a ver.
Como acabamos de ler, “A República tem em sua alma uma disposição ao sacrifício proclamando a supremacia do bem comum sobre qualquer desejo particular. […]”.
E aqui é onde, geralmente, quem não sabe interpretar os sistemas jurídicos contemporâneos coloca os pés pelas mãos. Acontece com os bolsonaristas gritando “liberdade acima de tudo!”, acontece com os lulistas gritando “é competência privativa do presidente indicar quem quiser para o STF!”.
Ambos os “times” estão repletos de idiotas, alucinados e histéricos (claro: um deles tem mais disposição a atirar em mim. Detalhes…). Gritam “lálálá” enquanto tampam os ouvidos da alma para qualquer fala apontado os ÓBVIOS erros (quando não, crimes) de seus deuses vivos.
Para que uma democracia funcione, nenhum direito, prerrogativa ou o raio que o parta, pode ser absoluto.
Nem mesmo o direito à vida é absoluto no sistema legal vigente no Brasil (e no mundo ocidental, me arrisco). Se fosse, não haveria a hipótese em Direito penal da excludente de ilicitude chamada “legitima defesa”, só por exemplo. Se a vida é um direito absoluto, ninguém, em nenhum caso, pode tirá-la do indivíduo. Não haveria, igualmente, qualquer espaço para se discutir a legalidade do aborto ou da eutanásia. Então, não: não há direitos, prerrogativas, raios que o partam […] absolutos em uma democracia saudável. Não pode haver nada absoluto. Tudo requer contexto e interpretação.
Igualmente, uma república exige a supremacia do bem comum por sobre QUALQUER desejo particular. A resposta de porquê a escolha de Lula ataca a República do Brasil já está aqui. Mas vamos mais um cadinho porque este blog não é conhecido pela brevidade e certas tradições precisam ser mantidas.
O que diz a bendita da Constituição de 1988?
A resposta *parcial* está no artigo 84, inciso XIV da CRFB/1988. Leiamos juntos:
Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República:
[…]
XIV – nomear, após aprovação pelo Senado Federal, os Ministros do Supremo Tribunal Federal e dos Tribunais Superiores, os Governadores de Territórios, o Procurador-Geral da República, o presidente e os diretores do banco central e outros servidores, quando determinado em lei;
Pois bem, então, já sabemos que tal prerrogativa não é absoluta. Como propôs a clássica teoria de Montesquieu em “O espírito das leis”, acerca da organização do Estado democrático e seus Poderes, é preciso que haja freios e contrapesos entre as repartições que compõem o Poder do Estado (Poder que é sempre uno; o que se repartem são suas funções, não o Poder em si). Vemos aqui, claramente, um dos freios à prerrogativa do presidente por força do art. 84: para que possa nomear um ministro ao STF, seu indicado precisa ser aprovado pelo Senado Federal, uma repartição do Legislativo nacional (sendo a outra a Câmara dos deputados; as duas repartições, juntas, formam o Congresso Nacional. Tudo isso é o Legislativo brasileiro – mais órgãos auxiliares como por exemplo o TCU).
É claro que fosse a sabatina do Senado Federal brasileiro algo sério, este post jamais precisaria ser escrito. Lula indicaria seu nomeado de coração, o Senado Federal sabatinaria o(a) candidato(a) ao STF “pra valer”, sem combinar perguntas, sem adiantar pautas, jogando pesado (mas lealmente), e teríamos somente indicados realmente capacitados – ao menos no que tange ao conhecimento jurídico – passando pelo crivo do Senado Federal. Candidatos fracos seriam barrados.
Acontece que esse é o mundo real da política brasileira. E nesse mundo real os freios e contrapesos foram jogados fora, pouco a pouco, curva a curva, desde o início da viagem da nova República – viagem inaugurada com a Constituição de 88. Hoje, com a República na banguela, quase não há mais freios ou contrapesos para proteger o Estado (republicano) democrático de direito do Brasil dos ataques de seus abusadores e usurpadores. Portanto, o jogo é de cartas marcadas. Zanin passará pela sabatina sem qualquer problema porque Lula já avisou Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, e esse já sinalizou que está de acordo. E tudo vai acontecer como se discutiu nos corredores e gabinetes, muito longe das luzes da imprensa, do ar puro e da luz do Sol.
Discuti, ao longo dos quatro anos de Bolsonaro, que nada favorece mais a corrupção do que a escuridão, os conchavos, as conversas de pé de ouvido, os sigilos de cem anos em documentos e atas. Bolsonaro abusou de tudo isso, mas ele não inventou nada disso. Isso é o modus operandi prevalente na política nacional brasileira desde… Sempre? Não sei. Acho que sim.
Mas, o que mais? O art. 84 da CRFB encerra a discussão? O presidente nomeia, o Senado sabatina, todo mundo se abraça, bora de camarão e champagne pagos pelo erário pra comemorar a nomeação e um “viva” à República?
Não.
A execução pode ser horrível, amadora, desprezível. Pode até nos dar ódio e nojo – emprestando Ulysses sobre a ditadura – mas, o texto constitucional não é frívolo, tampouco foi desenhado para ser essa piada. Pelo contrário: com todos os defeitos de sua verbosidade, de sua tentativa de prever, antever e regular tantas áreas da vida social dos brasileiros, o texto da CRFB de 1988 acerta mais do que erra.
A Constituição reserva somente aos brasileiros natos (aqueles previstos no rol do art. 12, inciso I) os cargos de ministro do STF (dentre outros), conforme se lê ao §3º deste art. 12, inciso IV. Mais uma vez, a prerrogativa do presidente em nomear ministros ao STF (e tantos outros cargos) não é absoluta ou ilimitada. Lula não poderia indicar – só por exemplo – seu grande amigo mal-compreendido, vítima de narrativas, Nicolás Maduro, ao cargo vago na Suprema Corte brasileira, mesmo que este amigo se naturalizasse.
Adiante, no art. 101, caput (caput é a “cabeça” do artigo, o texto logo após a sua numeração), a Constituição assim determina:
O Supremo Tribunal Federal compõe-se de onze Ministros, escolhidos dentre cidadãos com mais de trinta e cinco e menos de setenta anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada.”.
Chamo atenção para a expressão “notável saber jurídico“.
Coração aberto, aqui e agora: vamos parar com a palhaçada de defender uma certa superioridade de valores e até de virtudes na falsa modéstia? Já deu, não acham? O Brasil vai de mal a pior toda vez que a sociedade (ou sua parcela mais estridente) classifica de “arrogância” elencar a capacidade das pessoas (aos cargos ou funções) com base no que elas fizeram antes e o quanto estudaram. EU SEI… Eu sei… É um país extremamente desigual. Geografia é destino (no sentido de sina). Cor de pele é privilégio. Gênero é oportunidade. Eu concordo com tudo isso e poderia ir além. Mas vamos parar com a hipocrisia de dizer que se o dinheiro fosse nosso, e a empresa fosse nossa, nós contrataríamos o marreteiro para presidente dela, só porque seu coração é bom e puro, e ele tem humildade em seus atos e palavras, pode ser? E advinha: A PORRA DO DINHEIRO É NOSSO. A empresa chamada “Estado (republicano) democrático de direito do Brasil” é nossa. É nosso país. O Estado é nosso (porque isto é uma República, não uma Monarquia).
Então, se você consegue, sem hipocrisia, contratar alguém sem qualquer competência demonstrada para o cargo de presidente da sua empresa, onde você pôs todo seu dinheiro e seus sonhos, ok, você é doido(a), mas eu respeito seu direito de dizer que é arrogante classificar as pessoas pelas suas competências acadêmicas e/ou profissionais, diante de uma vaga aberta. Todos os demais e que não fariam isso com suas propriedades e recursos são hipócritas ao sustentar esse tipo de argumentação para o Estado.
E COMO DIABOS isso se conecta com o tema em discussão?
Ah, sim! O caput do art. 101: “O Supremo Tribunal Federal compõe-se de onze Ministros, escolhidos dentre cidadãos com mais de trinta e cinco e menos de setenta anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada.”
Não tem mestrado em Direito. Não tem doutorado em Direito (logo, doutor ele não é [sou o tipo de zagueiro que não perde a viagem]). Tem uma produção minúscula de artigos científicos, participação tímida em literatura da área. E advinha? Quase tudo que produziu, produziu APÓS se tornar advogado de Lula (em 2013).
No entanto, se formou em Direito em 1999. Ou seja: o conteúdo que produziu, não produziu porque era um estudioso do Direito brasileiro. Produziu porque ficou famoso. E famoso, ganhou convites que não teriam vindo antes da fama. Claro: esta análise não é uma sentença sobre a qualidade do trabalho acadêmico-científico produzido por Zanin. Pode ser bom ou ruim; só lendo para saber. Mas se “qualidade” não se confunde com “quantidade”, “constância” é medida do quanto o indivíduo se dedica ao estudo técnico, acadêmico, científico da área em que se formou. E Zanin passou 13 anos entre sua formatura e alguma produção acadêmica para área. E só produziu – tudo indica – porque se tornou “o advogado de Lula”. E isso ajuda a vender livros.
Pergunta: isso, de algum modo – qualquer que seja – se assemelha com a expressão “notável saber jurídico” para você? Para mim, de nenhuma maneira.
“Ele venceu a Lava Jato” … É? Como diz o Medo e Delírio em Brasília: “grandes merdas ser adevogado” … O que se traduz aqui como “não fez mais que seu trabalho”. Eu sou um profissional de TI. Eu não sou um cientista da computação. Eu não crio conteúdo que leva a área para o próximo degrau do conhecimento humano. É desse último tipo de gente, só que no Direito, que o art. 101 da CRFB estava falando.
Mas, Lula é reincidente nesse pecado. Sua outra indicação em 2009, Dias Toffoli, até reprovado na faculdade foi, como comentou seu professor à época de sua passagem pelo Largo São Francisco. Igualmente, Toffoli tinha um currículo acadêmico pífio quando da sua indicação, a não ser por ter ingressado na prestigiosa Universidade de São Paulo. Até hoje, Toffoli não se deu ao trabalho de criar um currículo Lattes, passo zero para quem deseja pesquisar e produzir conteúdo científico “à vera” no Brasil. Pior do que Zanin, todas suas contribuições vêm DEPOIS de ter sido indicado ao STF. O verdadeiro mérito de Toffoli era ser, à época, “advogado do PT” – é o que fica parecendo, pelo menos. Toffoli, dono de trapalhadas terríveis como ministro do STF. Toffoli, que prefere chamar 1964 de “movimento”.
E a Zanin parece bastar ter o mérito de ter livrado Lula de sua condenação, toda eivada de abusos por parte de seus algozes, o então Juiz Federal Sérgio Moro, e o então Procurador Deltan Dallagnol.
Para Lula, o requisito constitucional de “notável saber jurídico” é desprezível. Ele não disse isso. Suas ações dizem por ele.
E eu poderia construir um argumento de que isso é espelho de Lula, que se orgulha de seu próprio passado acadêmico praticamente inexiste e, não obstante, seu estrondoso sucesso político – algo que já nos lembrou, contente, tantas vezes em sua retórica.
Mas, eu também acho essa construção um tanto quanto idiota porque não existe faculdade de política brasileira. Existe faculdade de Ciências Políticas. Ou seja: ser político(a) não é uma atividade absolutamente científica. É preciso dominar argumentação, ter carisma, é preciso saber fazer alianças, saber a hora de falar grosso e de afinar. Esses conhecimentos não são científicos.
Lula é um “animal político” no sentido de que instintivamente, e por suas vivências na época dos sindicatos, ele sabe – como poucos – jogar esse jogo.
CLARO: Na empresa chamada “Brasil”, em que sou acionista, ele não seria o presidente se dependesse só de mim. Como, no entanto, os demais acionistas desta empresa me emparedaram entre Lula e Bolsonaro, ficou fácil demais votar 13. Nem tive que pensar. Um bloco de concreto e Bolsonaro me fariam votar no amistoso objeto inanimado, sem dúvidas e igualmente.
E acabou?
Não. Lula reincide no “crime” de jambrolhar a República, mas não foi sempre assim.
Lula foi responsável por indicar Joaquim Barbosa ao Supremo. Um dos melhores ministros que eu conheci, até aqui. O Lattes do – este sim – doutor Joaquim Barbosa não deixa dúvidas de que este homem construiu para si “notável saber jurídico”. Veja aí: http://lattes.cnpq.br/4175519745828769 . As teses jurídicas de Joaquim sempre tiveram começo, meio e fim. Sua condução como ministro do Supremo, em especial à frente da Ação Penal n. 470, foi irretocável.
Você não é obrigado a gostar do ex-ministro Barbosa. Não estamos falando de Big Brother aqui. Estamos falando da Suprema Corte do país. O órgão de cúpula da justiça nacional. O GUARDIÃO da Constituição de 1988. Não cabe a nenhuma outra repartição do Poder do Estado brasileiro a interpretação final e máxima do texto constitucional forjado em 88.
Então, senhoras e senhores, na hora de escolher os 11 guardiões do sagrado texto constitucional que encerrou a desgraça da ditadura militar, exijo, como acionista do Brasil, o máximo respeito com aquele manto sagrado. O respeito não é devido à pessoa que veste a toga. O respeito é devido ao cargo que ela ocupa, passageiramente, e somente pela graça do povo brasileiro, que assim permitiu (pois é assim numa república, como seria pela graça do rei ou da rainha numa monarquia).
Agora acabou, né?
Ainda não. Vamos visitar mais um artigo fundamental na CRFB/1988 para entender porque Lula merece todas as vaias ao indicar Zanin para o STF.
E o artigo derradeiro é o art. 37. Vejamos apenas o caput dele (porque esse bicho é extenso):
Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: […].
Pois bem. A administração pública de QUALQUER dos Poderes da União OBEDECERÁ aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Isso aqui é pergunta clássica de prova para a OAB e Direito administrativo, só pela curiosidade.
Não vou comentar cada um dos princípios, mas você meu caro (e cara) leitor (e leitora) precisa saber do básico: Princípios, no mundo do Direito, são LENTES. Lentes pelas quais enxergarmos e interpretamos o mundo jurídico e as leis que nele habitam. Princípios são valores tão fortes que podem determinar a inconstitucionalidade de leis aprovadas pelo Poder Legislativo. Princípios podem dobrar a legalidade formal e material de um texto legal (ou seja: mudar o valor semântico da redação legal, sua aplicação e seus efeitos). E é por isso que eu disse que os alucinados e histéricos são incapazes de corretamente interpretar a Lei. Embora elas devessem – idealmente – ser escritas de modo que qualquer um pudesse entendê-las, não é assim que o Direito funciona. Nem aqui, nem em lugar nenhum. Você acha que passamos cinco anos na faculdade lendo o que está na Lei, memorizando as palavras e é isso? Se fosse, não seriam precisos advogados, juízes, promotores e em última análise não seria preciso repartir o Poder do Estado na sua função Judiciária. Era ler e aplicar.
Não, não se lê uma lei, muito menos um artigo, de forma isolada. Não se lê um dispositivo legal sem considerar o que comanda a Constituição daquele país. A nossa ainda é concentrada em um único diploma. Há países em que não há Constituição escrita e ainda assim ela existe, esparsa e dispersa em vários lugares: alguns de tradição escrita, outros, de tradição falada (oral). Enfim. Acho que dei a carga de entendimento necessária ao que é um princípio jurídico. Vou explorar dois do art. 37, caput:
Começando pelo mais fácil de explicar e elucidar: o princípio da Impessoalidade. A impessoalidade é um princípio óbvio – ainda assim, tão vilipendiado – à proteção da República. “República” vem de “res publica”, ou “coisa pública”. Tudo que o Estado brasileiro compra, faz e tem é de todos nós. Todos nós somos donos do Estado e, ao mesmo tempo, nenhum de nós, individualmente, pode ser dono dele.
Para que o cuidado com a coisa pública seja sempre o maior, todos precisam sentir e agir como se os bens do Estado fossem de sua propriedade privada. Você não permitiria que alguém pichasse o muro de sua casa, por que permitiria que pichem o muro do posto de saúde? Ao mesmo tempo, todos que estão diretamente administrando a coisa pública (comprando cadeiras, pagando profissionais, executando serviços etc.) têm que se pautar pela impessoalidade. Não é, *nunca*, uma questão de “o que é melhor para mim, o diretor da escola?”. É sempre uma questão de “o que é melhor para aquela escola e sua comunidade lindeira, no hoje e no amanhã, especialmente quando eu não mais for o diretor deste estabelecimento?”. Isto é a impessoalidade.
Não faço o que me parece melhor. Não faço o que me favorece privativamente. Não faço o que é “mais do meu gosto”. Faço aquilo que, dentro das minhas capacidades cognitivas, parece ser o melhor para o Estado e para a sociedade que autoriza sua existência. Não preciso ir além disso para dizer que indicar o próprio advogado é TUDO, menos impessoal, certo? “Ah, mas os outros, antes de mim, também o fizeram!”. Já pensou se todo assassino pudesse sair impune ao dizer para o juiz que só matou porque outros mataram alguém antes d’ele “aderir à moda”?
O segundo e último princípio que quero abordar é o da Legalidade. Não falarei da Moralidade por motivos de que é um princípio autoexplicativo. MAS, deixo um pensamento que não é meu, porém ilustra esse princípio automaticamente: E se fosse Bolsonaro indicando o Wassef? Pronto, você já sabe o que tem que saber sobre Moralidade.
Legalidade, então:
A administração pública deve se pautar pelo princípio da Legalidade. Legalidade, aqui, não é a legalidade do “posso tudo que a lei não limita ou proíbe”, que é a leitura que todo cidadão tem o direito de fazer. Ou seja, se a lei não te proíbe de fumar na rua, você pode fumar. Mas se ela te proíbe de fumar num espaço fechado ou coberto, então, seu direito de fumar está temporariamente suspenso. Não é assim para o princípio da Legalidade no Direito administrativo (que é o ramo que se aplica ao Estado e seus servidores).
A Legalidade, aqui, é a Estrita Legalidade. Porque o Estado é naturalmente dotado de poderes infinitos e porque pode esmagar a todos nós (como bem retrata Hobbes em “Leviatã”), criou-se o conceito do Estado de direito, em contraposição ao Estado de exceção. O Estado de direito é aquele que se limita – especialmente no que tange ao uso de seus poderes – pelo que a Lei expressamente prevê e delega ao Estado e seus órgãos.
Porque exemplos sempre ajudam: Talvez, seja de extremo mal gosto pintar a fachada de uma casa com o uso de cores berrantes ou que piorem a iluminação da área ao redor. Mas porque não há lei que proíba o uso de tais cores na pintura da casa, o Estado não pode ordenar que a polícia (um de seus braços que garante a execução da Lei) vá até sua residência e confisque as tintas ou te force, sob porrada, a pintar de branco ou outra cor.
Outro exemplo: o Estado constitui as forças armadas para garantir sua soberania, mas o presidente, seu comandante-em-chefe (art.84, inc. XIII), não pode enviá-las para atacar os países vizinhos só porque hoje parece um bom dia para isso. Para empregá-las, ele precisa passar pelo crivo do Congresso Nacional (mesmo art., inc. XIX). Então, mesmo que ele seja “o comandante supremo” (como diz o texto constitucional), não é assim tão “supremo”. Nem poderia ser, sob o risco de entrarmos em guerra por meros caprichos insanos de um dado mandatário, a qualquer altura da história nacional. Assim, o princípio da Legalidade diz que o Estado, suas repartições de Poder e todos aqueles operando a maquina estatal, só podem fazer aquilo que a Lei os permite, e tem o dever de fazer aquilo que a Lei comanda. Nem mais, nem menos.
A Lei Magna ordena que o ocupante do cargo de ministro do Supremo tenha “notório saber jurídico”. Lula flagrantemente está cuspindo – de novo – nesse comando constitucional. É bom que se diga: não foi, nem de longe, o único a fazer isso, não será o último a fazer isso; mas nem por esses motivos deixa de ser menos errado ou menos agressivo à instituição “República do Brasil”.
Por tudo isso, este é mais um erro grosseiro de Lula. E me apoderando de uma vírgula do Medo e Delírio em Brasília: Não vou esquecer disso, jamais! Continuando nessa toada, só me resta esperar que em 2026 os outros acionistas me deem uma opção melhor do que me deram em 2022. Repetindo o páreo, eu já disse: até o bloco de concreto levaria.
Em 2014, durante a Copa FIFA no Brasil, a minha empregadora deu camisas oficiais da seleção canarinho para todos os funcionários. Foi um belo gesto e um belo presente. Mas, se eu já fazia ressalvas à camisa da seleção desde os idos de 2018, o último 8 de janeiro de 2023 veio para sepultar qualquer chance de eu vestir essa camisa no futuro. Ela se tornou um símbolo de tudo o que mais desprezo: estupidez, covardia, golpismo, fascismo… Interrompo a lista, por contenção. Por isso, a camisa foi para a caixa de doações. Não que eu ache que os menos afortunados deveriam ser confundidos com quem veste essa camisa para praticar barbárie. É muita humilhação com gente já marginalizada. Mas entre a doação e o lixo, acho que ela ainda pode servir melhor no primeiro grupo.
No “mundo líquido” de Bauman, as palavras também têm perdido a substância e o sentido original, numa velocidade assustadora. Na política brasileira, então, esse esvaziamento de sentidos é notório e pré-data a era digital, ou seja: não foi ela que forçou o esvaziamento dos sentidos dentro da vida política.
Há muito, eu crítico a Esquerda brasileira pela falta de zelo com as palavras. Foram seus atores que esvaziaram o sentido de “fascismo” e “fascista”. Quando todos são, ninguém é. E os representantes desta Esquerda usaram e abusaram da “licença político-poética” de empregá-la. O resultado, tal qual a fabula de Pedrinho e o Lobo, foi que quando o termo realmente precisou ser empregado para alertar o povo do que estava por vir, ninguém mais se importava com o peso e o alarme nele contidos.
Outra palavra bem surrada é “terrorismo”. Desde 2001, pelo menos, o terrorismo está em todo lugar. Existia antes, mas virou vírgula depois das Torres Gêmeas novaiorquinas. Então, como eu já comentei sobre as 14 características do fascismo, passo a comentar sobre o sentido de “terrorismo”. É bom adiantar que as definições de “terrorismo” são bem diferentes no meio político e no meio jurídico. Começo pelo último.
A Constituição Federal de 1988, Lei maior no ordenamento jurídico brasileiro, e pacto social firmado entre todos os nacionais deste país no que tange à organização do Estado, utiliza “terrorismo” sem, no entanto, explicá-lo. Ele aparece no art. 4º, quando define como o Brasil se comportará nas relações internacionais (e, por lá, repudia o emprego do terrorismo, bem como do racismo) e, mais tarde, no art. 5º, famoso por ser rol maior dos direitos constitucionais fundamentais do cidadão brasileiro, que define o terrorismo como crime inafiançável, conforme inciso XLIII (43), onde se definem inafiançáveis, também, os crimes de tortura e tráfico de drogas. É a conhecida – por quem estudou Direito – trinca “TTT” de crimes. Isso tudo dito, nada explica a Constituição acerca do que é “terrorismo”. E não há crime sem lei anterior que o defina, como comanda a mesma CRFB, neste mesmo art. 5º, inciso XXXIX (39).
Se pesquisarmos o Código Penal, Decreto-Lei 2.848/1940, tampouco encontraremos definição do que vem a ser “terrorismo”. Isso porque a regulamentação do que é terrorismo ocorre em Lei esparsa (fora do Código Penal) e tivemos a edição da Lei Federal n° 13.260/2016.
É essa Lei, conhecida como “Lei antiterrorismo” (embora eu discorde do “anti”, já que ela não se dedica a criar meios de combate ao terrorismo), que define em seu artigo 2º o que é terrorismo para o Estado democrático de direito brasileiro, numa perspectiva legal (jurídica).
Art. 2º O terrorismo consiste na prática por um ou mais indivíduos dos atos previstos neste artigo, por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública.
§ 1º São atos de terrorismo:
I – usar ou ameaçar usar, transportar, guardar, portar ou trazer consigo explosivos, gases tóxicos, venenos, conteúdos biológicos, químicos, nucleares ou outros meios capazes de causar danos ou promover destruição em massa;
II – (VETADO);
III – (VETADO);
IV – sabotar o funcionamento ou apoderar-se, com violência, grave ameaça a pessoa ou servindo-se de mecanismos cibernéticos, do controle total ou parcial, ainda que de modo temporário, de meio de comunicação ou de transporte, de portos, aeroportos, estações ferroviárias ou rodoviárias, hospitais, casas de saúde, escolas, estádios esportivos, instalações públicas ou locais onde funcionem serviços públicos essenciais, instalações de geração ou transmissão de energia, instalações militares, instalações de exploração, refino e processamento de petróleo e gás e instituições bancárias e sua rede de atendimento;
V – atentar contra a vida ou a integridade física de pessoa:
Pena – reclusão, de doze a trinta anos, além das sanções correspondentes à ameaça ou à violência.
§ 2º O disposto neste artigo não se aplica à conduta individual ou coletiva de pessoas em manifestações políticas, movimentos sociais, sindicais, religiosos, de classe ou de categoria profissional, direcionados por propósitos sociais ou reivindicatórios, visando a contestar, criticar, protestar ou apoiar, com o objetivo de defender direitos, garantias e liberdades constitucionais, sem prejuízo da tipificação penal contida em lei.
O primeiro entendimento que alcanço, portanto, é de que a Lei antiterrorismo não se aplica aos golpistas do último dia 8. E aqui cabe alguma contextualização histórica: o diploma legal em comento foi promulgado pela ex-Presidente Dilma Rousseff. Seu passado pessoal em grupos paramilitares pró comunismo, bem como sua posterior filiação ao Partido dos Trabalhadores que é fortemente baseado em movimentos sociais históricos do Brasil (MST, CUT, APEOESP, etc.) levou a todo tipo de pressão no Congresso Nacional para que a Lei antiterrorismo alcançasse tão somente o conceito “internacional” de terrorismo (o terrorismo de grupos religiosos, de grupos supremacistas por etnia, etc.), excluindo qualquer alcance ao “terrorismo doméstico” (grupos de nacionais que decidem executar atos violentos contra o governo em exercício, por qualquer razão). Daí a redação do parágrafo segundo. É este mesmo § 2º que livrará os bolsonaristas envolvidos no 8 de janeiro de se verem acusados de terrorismo nos termos do art. 1º, inc. IV, da Lei supra.
Portanto, “terrorismo”, juridicamente falando, diante do arcabouço (conjunto) do ordenamento pátrio vigente, não é crime pelo qual os vândalos possam ser denunciados. E o Direito Penal é extremamente fóbico a qualquer inovação em entendimento que permita a elasticidade do alcance dos tipos penais. Em outras palavras: o Direito Penal não tolera entendimento que facilite o enquadramento de condutas do indivíduo em crimes legalmente previstos, mas que não citam claramente a conduta perpetrada. E com razão. Fosse o Direito Penal amigável a essa liberdade do Poder Acusatório, todos que incomodassem o Estado (ou o governante) acabariam facilmente atrás das grades. Pelo mesmo motivo, mesmo que o Congresso Nacional editasse nova Lei ainda hoje e o Presidente Lula a promulgasse, ainda assim os bolsonaristas não poderiam ser processados sob a figura da nova Lei. Porque a Lei penal só retroage em favor do réu, nunca contra (art. 5º, XL [40], CRFB).
E se você está esbravejando por concluir que os bandidos de domingo sairão livres, veja isto por outro ângulo: é uma excelente oportunidade para falar para seu parente/amigo bolsonarista sobre a importância dos Direitos Humanos, da legalidade, da obediência à Lei por parte das instituições e do Estado-Juiz, e porquê vale defender um Estado democrático de direito. Fosse uma ditadura, o(s) ditador(es) poderia(m) mudar todo esse entendimento sem maiores melindres e poderia(m) condenar todos os arruaceiros à pena de morte, mesmo que retroativamente.
Mas, e o “terrorismo” no sentido político? Este certamente é termo adequado para os bolsonaristas nas ruas. Embora o mundo nunca tenha chegado a uma definição universal do que é “terrorismo” (porque é um crime de definição “cinzenta” – toda revolução é ilegal, exceto se der certo…), os Comitês das Nações Unidas que se debruçaram nesse tema, nos idos dos anos 2000, chegaram à seguinte definição do que é a conduta terrorista:
“quando o propósito da conduta, por sua natureza ou contexto, é intimidar uma população, ou obrigar um governo ou uma organização internacional a que faça ou se abstenha de fazer qualquer ato. Toda pessoa nessas circunstâncias comete um delito sob o alcance da referida Convenção, se essa pessoa, por qualquer meio, ilícita e intencionalmente, produz: (a) a morte ou lesões corporais graves a uma pessoa ou; (b) danos graves à propriedade pública ou privada, incluindo um lugar de uso público, uma instalação pública ou de governo, uma rede de transporte público, uma instalação de infraestrutura, ou ao meio ambiente ou; (c) danos aos bens, aos locais, às instalações ou às redes mencionadas no parágrafo 1 (b) desse artigo, quando resultarem ou possam resultar em perdas econômicas relevantes”.
Portanto, sim, não há dúvidas de que os movimentos bolsonaristas nas ruas são terroristas, dentro de uma definição política, bastante aceita e atual (ONU, anos 2000). Mas para que se possa falar em crime de terrorismo, este precisa existir na legislação nacional, anteriormente ao(s) ato(s), para que se possa processar, julgar e prender o(s) individuo(s) que praticou(am) tal ação. É óbvio: há diversos outros crimes para acusar a horda de tresloucados. Dano, lesão corporal (contra os agentes que foram espancados), ameaça, crimes contra o patrimônio cultural (Lei 9.605/1998), a própria figura do Golpe de Estado (art. 359-M do Código Penal) que foi criada em 2021, enfim… Muitas possibilidades, mas não a figura do crime de terrorismo. E, com ela, se vai a característica do crime inafiançável. Ainda terão ao favor de suas defesas, atenuantes do art. 65 do Código Penal, como aquela concedida ao crime cometido sob influência de multidão.
Neste breve resumo, quero alertar para fato que me parece claro: o Brasil, o Estado brasileiro, as instituições, a Lei, nenhum deles está pronto para lidar com o terrorismo bolsonarista. A Lei, como está, não os alcança em magnitude e não protege o Estado brasileiro e os cidadãos que o respeitam em suficiente. Fora da Lei, não há diferença entre bandidos e um Estado de exceção. Como não havia diferença entre os terroristas de Esquerda, planejando sequestros para forçar sua ideologia, ou os terroristas fardados, usando a máquina do Estado para perseguir e aniquilar quem os incomodava. Fora da legalidade e do prévio conhecimento das regras do jogo, vale tudo. E o vale-tudo não pode ter lugar na civilização e na cidadania.
Espectros
Os espectros, os fantasmas, o passado da história brasileira voltaram a aparecer com força inédita, desde a redemocratização. O que se assistiu no domingo passado e o que se ensaia para hoje, no início da noite, foi (e será) nada aquém do que uma tentativa de golpe de Estado. O que queriam os criminosos era que, diante da desordem instalada por eles, as tropas das forças armadas fossem às ruas, e sendo elas recheadas de simpatizantes pelos desordeiros, virassem-se contra Constituição de 1988, tomando o poder político das mãos dos que foram eleitos. Se ainda somos uma democracia é somente porque o cenário internacional não favorece um golpe e as famílias dos militares não querem perder o direito de ir pra Disney. Se não houvesse uma pressão internacional (especialmente dos EUA – ah, a ironia) em sentido contrário ao golpismo, já teríamos a voz do Brasil passando até no Twitter, à essa altura.
O problema é que a história sociopolítica do Brasil é feita de golpes de Estado. O caminho “natural” nunca existiu para a sociedade brasileira. Não. Aqui, política nova se faz com ruptura e solavanco. É verdade que em quase todo país do Ocidente, a história se repetiu do mesmo modo no início, mas o caso brasileiro é especialmente alarmante porque essa lógica jamais foi superada:
A queda da monarquia e o início da República se dá com um golpe dos militares contra o Imperador, em 1889.
O fim da primeira República (iniciada em 1889) e o início do Estado Novo se dá com um golpe de Getúlio, apoiado pelos militares que lhe eram simpáticos, em 1937. Acabou em 1945, também sob ameaça de um novo golpe de Estado e novamente por ação dos militares, agora, opostos a Getúlio.
Chega 1964 e a Democracia cessa outra vez, com os militares dando um golpe de Estado para impedir que o vice de Jânio Quadros, João Goulart, erigido a presidente pela renúncia do primeiro, pudesse levar a cabo seus planos político-econômicos, sob a alegação de que Goulart instalaria um regime comunista no Brasil. Detalhe: Goulart era tão comunista quanto eu ou você. Seu nacional desenvolvimentismo era de matriz Getulista (aliás, ambos eram do PTB, fundado por Getúlio justamente para “roubar” votos da classe trabalhadora, contra partidos abertamente comunistas).
Chegam os anos 1980, os donos da ditadura brasileira, general Geisel (penúltimo presidente do regime militar) e general Couto e Silva (o melhor “político fardado” que dispunham), percebem que vão sofrer uma revolução popular e, antes disso, desarmam a bomba-relógio “se adiantando” e devolvendo a República ao controle popular pelo voto (numa análise reducionista: democracia). Esse adiantamento foi letal para o equilíbrio porque, iniciado no meio dos anos 1970, permitiu que os militares programassem como “perderiam o poder”. E ainda ocupando o poder, obrigaram o outro lado (o nosso) a aceitar os termos postos à mesa. Perderam e não perderam. Influenciaram toda a redação da Constituição e garantiram para si uma Lei de anistia extremamente bondosa e protetora de seus interesses. Não foram julgados, não tiveram sua vasta corrupção investigada. Saíram vitoriosos e ainda poderosos. Vide os moldes atuais da previdência militar.
Chegamos à redemocratização em 1988 e nos dias de hoje. E como já foi dito muitas vezes, nos últimos dias, porque um deputado pôde homenagear um torturador (ele não homenageou um presidente do regime, mas o torturador dos porões; é bom que se entenda a diferença) durante seu voto no impeachment de Dilma e não sair de lá algemado, aqui estamos: discutindo se a democracia brasileira aguenta muito mais tempo sob esse tipo de ataque. Imagine se o parlamento alemão aceitasse que alguém homenageasse Hitler nos dias de hoje. Seria escandaloso.
O Brasil
“Nos deram espelhos e vimos um mundo doente.”
ou
“Ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação.”…
Talvez, haja obras mais atuais a sumarizar os tempos vividos. Mas eu já estou velho e essas são as músicas da minha geração. Citar Vandré seria pretensioso, já que ele veio bem antes. Buscar o presente seria engodo, já que eu não tenho escutado muito os novos artistas brasileiros.
A pesquisa Atlas-Intel, publicada no último dia 10, entrevistou a população e concluiu que 75.8% não concorda com os atos de vandalismo, enquanto 18.4% concordam. 18% é muita gente de acordo com a barbárie, mesmo que pareça pouco. Quando movemos o recorte para eleitores do Messias, vemos que 38.1% apoiam, enquanto 48.6% repudiam, o que é surpreendente e até positivo. Mas, quando mudamos para religião e olhamos para os que se declaram evangélicos, o problema dispara de novo: 31.2% concordam, contra 14.3% de católicos e 6.4% de outras religiões. Clique no link acima para conferir o tamanho do estrago na sociedade, após ao menos 4 anos de barbárie verbal e prática.
Seja como for, temos que olhar para o material humano disponível no Brasil. Não é possível atribuir tudo à figura do grande mito messiânico que essa horda decidiu seguir. É impossível lhe eximir da responsabilidade, igualmente. Palavras têm força, e na boca ou nos textos de pessoas pelas quais temos apreço, devagar ou rápido, passam a ecoar no nosso imaginário e formar – em parte ou no todo – a nossa opinião.
Não, um presidente que grita “vamu metralhar a petralhada” (sic) não está apenas fazendo um discurso. Não é mero simbolismo, figura de linguagem… Ele está, no médio ou longo prazo, autorizando a violência contra quem não concorda com ele(s). Ademais, praticamente tudo na vida humana é simbólico. O seu contrato de trabalho é simbólico, o casamento dos seus pais é simbólico, a escritura pública da sua casa própria é simbólica, e o contrato de aluguel também é.
A Lei. Especialmente a Lei. Essa é muito simbólica. É um símbolo de que nós todos, unidos pela língua, cultura, território e época, decidimos renunciar a boa parte da (senão a toda) capacidade física e coercitiva de obrigar o outro a fazer o que queremos, e depositamos esse poder em um terceiro ente, idealmente capaz de usar a força na hora certa e mediar a nossa coexistência de forma menos brutal, bestial, animalesca.
Quando um bolsonarista quebra os vidros do STF, ele não está ofendendo o ministro Alexandre de Moraes.
Quando um camisa-amarela fura o painel de Di Cavalcanti, ele não está machucando o Presidente Lula, muito menos a Di Cavalcanti que já está morto há 46 anos. Tampouco machucam os ex-Presidentes cujos quadros foram estilhaçados e jogados ao chão.
Quando um milico da reserva ou policial de folga, raivoso, irrompe contra o mobiliário do Congresso Nacional, em parte trazido da antiga capital nacional (o Rio), quebrando mesas e móveis centenários, ele não está fazendo Pacheco ou Lira chorarem.
Não é aos Presidentes dos Três Poderes que o Governador do DF, agora afastado, Ibaneis Rocha, deve desculpas. As desculpas são devidas aos 215.5 milhões de brasileiros e brasileiras que tiveram seu patrimônio depredado por capricho e loucura, de forma bestial e animalesca.
Ou defecar sobre a fotocopiadora virou sinal de patriotismo? Que as palavras andavam sem sentido, vá lá, mas isso já é demais.
Quando um bolsonarista joga o escudo da República para tomar chuva, não é o ministro do STF que ele está agredindo. É a mim. É a você. O ministro agora é um. Amanhã será outro. Aquele espaço onde o STF existe (e onde existem os demais Poderes), é sagrado no sentido de abrigar o nosso pacto, a nossa esperança de que possamos coexistir enquanto sociedade, no mesmo espaço e no mesmo tempo, dividindo alguns (jamais todos) valores comuns e tornando nosso país em um lugar melhor de se viver do que já foi ontem.
O ato foi, até aqui, em vão. Serviu, isto sim, para acelerar o desmonte dos acampamentos golpistas e reaglutinar instituições da República que andavam, há muito, separadas. Mas parar nesse entendimento é uma visão demasiadamente otimista, até pueril, eu diria. O bolsonarismo finalmente mostrou a que veio. Se não podem vencer nas ideias e no voto, vencerão de outro modo. Vale-tudo. Barbárie. Terrorismo. Esse é o bolsonarismo.
Espero que o espelho não lhe mostre de camisa da CBF. Se mostrar, fica o recado de quem espera que você saia dessa: você está doente e imerso num mundo igualmente doente. Não dá para respeitar a Constituição, o nosso acordo de coexistência, ou acreditar no futuro da nação e ser bolsonarista. Simplesmente não dá. É uma questão de lógica. E de civilização.