Como Chernobyl (HBO) me convenceu de que Lula precisa ser solto

Se você conseguiu passar do título, parabéns:

É menos radical do que a maior parte daqueles que convivem (convivem?!) nas redes sociais. Não, essa conta não foi hackeada. Sou eu mesmo, Rodrigo, escrevendo isto, desta forma, com o desfecho que segue. Se você me conhece bem, não deveria ser nenhuma surpresa, contudo…

Bem, como a maioria (dos que me prestigiam por aqui) sabe, escrever tem sido um hobby do qual estou sendo privado. Não por cruel destino, mas, porque escolhi fazer outra formação. As provas do semestre terminaram na última sexta e, até agora, vou bem (ufa!). Falta uma! Solta a nota, f-sor! Libera nóis! 😛

Por que isso é relevante? Bem, eu não tenho tido tempo para muitas coisas. Na verdade, em vários temas, eu só tomo conhecimento quando já viraram memes. Foi assim com “juntos e shallow now”, por exemplo. Só entendi a porcaria do meme quando fiquei sabendo da porcaria maior que o originou. Isto dito, tenho perdido muito da cultura POP dos meus dias, e as séries não têm privilégio. Nunca vi Game of Thrones. Também não vi Black Mirror, ou Stranger Things. Não vi algumas franquias que gosto (como o último Missão Impossível) no cinema. A vida de quem leva o estudo minimamente a sério é assim. E eu levo (não porque sou demais, mas, pra começo de conversa, porque eu pago o boleto e é integral).

Bem, ocorre que o Marcião e o Samuca (amigos de labuta) me infernizaram na última semana de provas, sobre uma tal minissérie da HBO chamada “Chernobyl”. Foi cruel. A forma como debatiam o tema foi como saborear um BigMac na frente do gordinho que está começando o regime, hoje. O assunto me é de um fascínio enorme. É um evento histórico que muda o curso da Guerra Fria, ocorre a menos de 20 dias do momento em que nasci, e tem tantas controvérsias e reviravoltas quanto as melhores obras de Tom Clancy. Enfim: Foi fascinação total e absoluta, de cara. Quando me disseram que não era uma série com temporadas, sem necessidade de jurar amor eterno, mas sim uma obra fechada em si com 5 episódios, eu gamei de imediato. Tanto que assinei a HBO para poder assistir. E valeu cada centavo.

Eu não vou dar spoiler (pergunta colateral: É possível dar spoiler de algo real que aconteceu há mais de 30 anos?), mas, o que a série fixa bem é que há um amontoado de mentiras e atalhos em um projeto crítico, mantidas por uma complexa e pesada “mão estatal” que a todos assusta e corrompe, em um modelo de autoridade inquestionável como era a então União Soviética. E a frase mais marcante está, justamente, no fim. Legasov (e não vou explicar nada do personagem para que você tenha que assistir) explica que “o reator explodiu por causa das mentiras”. Finaliza com o que ganhou do episódio de Chernobyl – adaptado aqui – “Se antes eu tinha medo de dizer a verdade, agora, eu apenas me pergunto: Qual o custo das mentiras?”. Essa fala me atingiu com muita força.

Qual o custo das mentiras?

Eu assisti Chernobyl sob o choque do horror do envenenamento por radiação, cruelmente retratado na dimensão humana, na fauna e flora. Mas, pessoalmente, as cenas de maior horror para mim, raramente envolviam as camas de hospital ou os animais mortos. As cenas de horror, para mim, estavam nas salas de reunião, nas decisões de engravatados sobre a vida de milhares e até milhões. “30 mortos ‘diretos’”, é o que diz o relatório oficial. Se mataram menos de 100 mil pessoas, é de se admirar.

No fim, o horror da série, pra mim, não estava no quarto de hospital onde o bombeiro apodrecia como uma banana velha. O horror, pra mim, estava no aparato estatal. Na frieza daqueles que decidiam quantos mil saiam e entravam em contato com os mais de 15 mil Roentgen emitidos pelo núcleo aberto do reator 4. “O que são 15 mil Roentgen?”, você pode perguntar… Bem, 1 Roentgen vale 9,33 milisievert (msv). Um raio-x de tórax te expõe a 0,02 msv; uma tomografia, 0,15 msv… Quando até os robôs quebraram (por mais mentiras dos soviéticos aos alemães que emprestaram) e Scherbina se desespera e estraçalha o telefone, a decisão é uma só: Mandar (mais) gente fazer o trabalho que os robôs não conseguiram.

Dezenas de bombeiros. Os operários da usina. Os mais de 400 mineiros. O pedido por mais de 700 mil homens (que ficaram conhecidos como “liquidadores”) a serem recrutados para os trabalhos de isolamento do reator 4 e de toda a planta em Pryp’yat’, e de toda a limpeza da área imediata à usina.

Mentiras. Mortes. Mais mentiras. Sob a égide de um Estado que não podia ser questionado e que não ouvia ninguém senão aqueles que concordavam em moldes sacerdotais, sem hesitar.

Hobbes e o Leviatã

Ocorre que Hobbes, cientista político importante para a Teoria dos Contratos Sociais, já havia advertido sobre o que é o Estado. O Estado é um monstro: O Leviatã. Essa é a imagem-tema deste post, feita por Gustave Doré e, hoje, de domínio público.

Ser mitológico que, na leitura judaico-cristã, é o demônio da Inveja, citado no livro de Jó; ser de proporções bestiais, ora serpente, ora polvo, ora dragão. É assim que o Hobbes descreve o Estado. Uma monstruosidade.
Para quem não é familiarizado com a obra, Hobbes não é contra o Estado. Não. Para Hobbes, o Estado é um mal necessário porque, em sua ausência, existe apenas a “guerra de todos contra todos” (bellum omnium contra omnes), e o homem é mau em sua essência natural (“o homem é lobo do homem”, ele dirá).

O mais importante da teoria contratualista (seja em Hobbes, em Rousseau, ou Locke) é que cada homem e mulher abre mão de suas forças naturais e até mesmo tecnológicas, para ter seus interesses e conflitos regulados por um ente fictício e invisível que é o Estado. Parece óbvio dizer, mas, o Estado não existe sem a sociedade, embora muita gente tente inverter a ordem dessas duas coisas, seja na forma de construir as responsabilidades de cada um, seja na forma de encarar o papel que lhes cabe.

E qual é a importância disso tudo? A importância disso tudo é que porque o Estado é uma Besta, uma monstruosidade, mas, também a forma que a história humana encontrou para regular nosso convívio, foi preciso criar mecanismos que não apenas regulam as ações deste Estado, mas também o submetem a uma série de obrigações de não-fazer. Tais obrigações de não-fazer e regras de engajamento do ente estatal colocam a força bestial do Estado em uma situação domada, controlada, previsível e relativamente balanceada com as forças individuais do cidadão que lida com a Besta omnipresente.

O “Estado Democrático de Direito” é exatamente isso: Um Estado, uno quanto ao seu Poder, cujos representantes das repartições do Poder estão lá porque representam parte da população, e por esta foram eleitos, e a parte mais importante: “DE DIREITO”. Ou seja, não é um Estado de Exceção. Não é um Estado Totalitário, um Estado Absolutista… Nada disso. É um Estado de Direito… E um Estado de Direito se baliza, se move e, principalmente, se limita, pelo Direito.

Direito, às vezes, de costumes, de relevância social, de precedentes, de aplicação mais flexível e discricionária ao aplicador como o é no Direito Anglo-Saxão da “Common Law”. Ou, também, o Direito mais tradicionalista, Germânico-Romano, de formalidades e de transformações sedimentares, processuais, que busca maior estabilidade e previsibilidade nos códigos e nos ritos processuais, utilizados ao longo da aplicação da Justiça.

Os modelos Anglo-Saxônico e Germânico-Romano não são melhores uns que os outros, per si. São modelos com qualidades e defeitos. Nenhuma sociedade é refém de suas leis. Todos os povos, pelo poder da autodeterminação, podem reescrever suas Constituições, seus valores morais e que, mais tarde, serão codificados (ou não, como no caso da Constituição no Reino Unido que é apenas tácita) em forma de lei a ser conhecida por todos (mesmo aqueles que não sabem ler, e que não sabem ler por falhas da família, da sociedade, e do Estado, NESTA ORDEM – outro post, outra hora).

O nosso povo, em seu momento Constitucionalista mais recente (1988), optou por permanecer ligado ao modelo Germânico-Romano-Canônico (posso colocar referências por mais umas duas linhas)… E, até onde sabemos, não houve outra evocação do Poder Constituinte Originário, capaz de reformar nossa base de Estado Democrático de Direito de maneira tão profunda. Portanto, normas escritas, rito, tradição, seguem – cientificamente falando sobre Direito – mais importantes do que outros valores.

Cacete, que horas o Lula fica livre por causa de Chernobyl?

Aqui.

Eu precisava (para não parecer travestido em militante do PT, ou um lunático sensacionalista) te dar a base do meu raciocínio para te levar às conclusões que tomo agora:

Porque o Estado é um mal necessário;

Porque o Estado reúne força descomunal, bestial e, em sua condição desregrada, a todos esmaga e massacra (se tem dúvidas, visite um Estado Totalitário, e tente falar livremente sobre o que pensa);

Porque o Estado Brasileiro é um Estado Democrático de Direito;

Porque o Direito Brasileiro é um Direito de orientação tradicionalista, ritualística, fundada em norma escrita, e que não prioriza costumes, ou discricionariedade (vontades) do operador da lei;

Porque a Lei brasileira é clara quanto ao rito do Estado Brasileiro de Direito contra o acusado de crimes, através do Código Penal (Direito Material) e, mais especificamente, via Código de Processo Penal (Direito Formal) que estabiliza e garante a previsibilidade de como a Besta processará e, eventualmente, condenará o indivíduo;

Por todas as razões supracitadas (mais algumas outras que não ajudam a concluir o post), Lula precisa ser libertado de sua prisão que, se não é imoral (na hipótese de que ele é mesmo criminoso – hipótese que requer provas, e não pode depender de “forte sentimento”) é flagrantemente ilegal. Seu julgamento, que gerou a condenação, precisa ser anulado. Sob pena de não mais vivermos em um Estado Democrático de Direito, mas sim, em um Estado de exceção, como a Coréia do Norte, Sudão, Venezuela, Arábia Saudita (que, cabe a nota, é amiga intima dos EUA, aquele país que luta contra ditaduras – quando interessa, claro) …

Na ânsia de ativar o Estado (representação de todos nós) contra aqueles que o lesavam, (lesando a todos nós), os envolvidos no recente vazamento de conversas privadas (o que também pode ser crime, mas, dois erros não fazem um acerto), Moro e Dallagnol, traíram aquilo que juraram defender: A ordem legal. O vazamento revela (e os acusados não tentaram desmentir a veracidade das conversas) que os operadores do Direito ignoraram completamente as amarras que estavam lá para domar a Besta Estatal.

Aprendemos, desde cedo no Direito, que a Jurisdição (dizer o que é certo e o que é errado; qual é o direito de cada um) é função inafastável do Estado. O Estado jamais pode se eximir de dizer o Direito.

Para que esse mecanismo de dizer o que é certo e é errado, de maneira inquestionável, jamais possa ser raptado pelos interesses de uns – por mais nobres que eles possam ser – criou-se uma dezena de mecanismos, e um deles é o mecanismo que faz o Judiciário se submeter à inércia; ou seja: Sem provocação (dos cidadãos, ou do Ministério Público), um Juiz JAMAIS pode sair de sua cadeira e distribuir sentenças, AINDA que o crime esteja ali, na sua face. Ele tem meios expressos de acionar a máquina, claro, mas não consegue mover a Justiça sozinho (se a regra for levada a sério, claro).

É como uma arma de fogo: O Juiz é o revolver. O Promotor é a munição (ou função que tenha direito de mover ação no Judiciário). Sozinhos, nenhum dos dois conseguem ferir ninguém. Juntos, são arma pronta para disparo. Mas se esta arma é a Justiça, e a Justiça deve ser cega para que possa ser imparcial, então, “bala” e “revolver” não podem nunca “combinar o jogo”. Você pode se sentir tentado a dizer que essa é a minha opinião, mas não é só “minha opinião”. Minha opinião não faz nada ser verdade. Essa é a lei.

Código de Processo Penal, artigos 104, 112, e mais importante, 564, inciso I, onde se lê que a nulidade ocorrerá por incompetência, suspeição ou suborno do juiz. Não, não se trata do que eu acho. Se trata do que diz a lei. A lei que foi pactuada por todos nós, quando aceitamos viver sob a égide do Estado.

E por que diabos eu quero um Estado fraco, amarrado, e incapaz de combater aqueles que fazem o mal?

Bem, essa talvez seja a parte mais fácil de explicar, se você leu com atenção até aqui.

O Estado é uma Besta. Uma criatura de força descomunal. Pense no pior criminoso que você conhece. Digamos que há uma cria gerada a partir dos condenados – desta vez, os condenados com provas – pela lava-jato, mais Marcola do PCC e Beira-Mar do CV. Dessa junção monstruosa, nasce o Mal encarnado em um único ser humano. Conseguiu visualizar? Bem… Esse ser humano é uma “pulga” para o Estado Brasileiro. Uma pulga. Se o Estado determinasse que esta cria do mal fosse exterminada, usando todas as armas que o Estado detém, esta “pulga” não teria qualquer chance. Não importa o quão “sangue-ruim” seja um ser humano. Diante de um Estado funcional, ele não é nada. Nada. Osama Bin Laden foi o mais temido terrorista da história recente. E mesmo cercado por uma tropa de fiéis, escondido por mais de uma década em um Estado estrangeiro e não amigável aos EUA, ele foi finalmente eliminado. Ele era uma pulga. Irritante e perigosa, claro. Mas uma pulga. E foi esmagado. Não tinha como revidar contra um Estado inteiro, focado em eliminá-lo.

Se Lula é criminoso (eu acredito que sim, mas acreditar não é o bastante), cabe a Besta que é o Estado, com todos os seus meios legais e regulados pela Processo Penal e Civil, provar, sem dúvidas, de que ele é mesmo criminoso. Estado que tem BacenJud, InfoJud, RenaJud, Polícia Federal, Peritos, Grampos, Parcerias internacionais, ABIN… Se com essas agências e mecanismos, o Estado não conseguir provar a culpa de alguém… Deus nos ajude….

Coloque isso na sua cabeça, não importa se você concorda sobre Lula, ou não: A relevância de uma pessoa é insignificante, por mais importante que ela seja, caso ela decida lutar contra um Estado ilimitado, bestial, e que não está amarrado por regras. As regras precisam existir para que o Estado não decida esmagar eu ou você, quando qualquer pessoa desafeta a nós chegar às rédeas do Poder. Regras que precisam não quebrar, regras que não podem ser ignoradas, nem aplicadas “ad-hoc” (quando convém). O Estado, se democrático e de Direito, jamais pode atuar pela exceção. Exceto diante da guerra com outro Estado. Aí, a própria lei prevê as exceções (e.g.: o estado de sítio), e escalona o poder da Besta (Sanções políticas, econômicas, intervenção militar, uso de armas de destruição em massa etc.).

E, hoje, um Estado de exceção se aplica contra Lula. E você ri. Ri porque o odeia com todas as suas forças e fibras do seu corpo. E você tem esse direito (de odiá-lo). Tem esse direito porque vive em um Estado de Direito, que o permite sentir ódio (mas não agir com base nele) de alguém que você não gosta.

Eu, pessoalmente, não gosto de Lula. Não gosto de sua imagem cuidadosamente construída para ser o novo “Pai dos pobres” (em uma sociedade viciada em esperar pela ação alheia, enquanto procrastina diante da sua própria obrigação). De seu proselitismo político, de sua retórica preconceituosa com gente como eu que decidiu estudar as questões e discordar, e não se mover ou se vender ao seu populismo – o mesmo populismo que, nas mãos da Direita, conduziu um completo despreparado à Presidência do meu país, que se afunda no abismo, dia após dia.

Não. Eu não gosto de Lula. Também não desgosto. Apenas acho que ele não tem a(s) solução(es) que meu país tanto precisa.

Mas esse gostar/não-gostar não me faz esquecer que ele é só um homem. E que, contra ele, há um Leviatã com poderes quase infinitos, que tudo pode, e que a única forma de estabilizar a balança (da Justiça, a quem estou me dedicado e pretendo defender um dia) é via regras que não admitem exceções. Nem para os que odeio, nem para os que amo, nem para os quais sou indiferente. Um Estado de Direito. Não de exceção.

Porque hoje é Lula. Mas amanhã, posso ser eu diante da Besta. E ai de mim – e de qualquer um – se enfrentá-la sem nenhuma amarra e proteção.

#LulaLivre – Não porque gosto ou desgosto dele. Mas, porque gosto da Lei e do Estado Democrático de Direito. E aprendi com Chernobyl que quando não há limite, nem vigília, o Estado me esmaga sem qualquer chance para mim.

Você pode achar que os fins justificam os meios e que para prender Lula, vale tudo, inclusive ignorar as regras, e mentir sobre os reais motivos que o mantém preso. Mas eu te pergunto agora, com a tristeza e sinceridade de quem teme que a Democracia morra pelas mãos de quem pensa a defender:

Qual é o custo das nossas mentiras?

Quando se é refém em casa.

Esse é um post feito com raiva e desesperança.

Ele ocorre à partir das 3h da manhã do Sábado para Domingo, e ele só ocorre porque tive meu direito Constitucional de não ser submetido à tortura (art. 5, inc. III), violado, mais uma vez.

Sou refém. Refém da minha própria residência, não tenho outro lugar para ir, e é aqui mesmo onde sou torturado e submetido à tratamento desumano e degradante.

Às 3h da manhã, acordei ao som alto do que alguns chamam de “música”. Claro: Não era Beethoven, mas algum “MC”: Em geral, alguém medíocre, sem nenhum talento, idolatrado e seguido por pessoas igualmente, ou ainda mais, medíocres.
Na verdade, é ridículo discutir o que era: Ainda que fosse a melhor peça da música clássica, às 3h da manhã e em volume suficiente para me acordar, seria tortura da mesma forma. Exótica (se fosse Beethoven), concordo, mas ainda assim, tortura, degradante e desumana.

O mais insano quanto à narrar este fato cotidiano para muitos é que a maioria das pessoas que lerem, vão supor que moro perto de alguma “comunidade” (um nome ridículo, ao qual me oponho sempre, apoiado por gente que gosta do politicamente correto, para fazer um lugar desumano e indigno de qualquer cidadão honesto – a favela – parecer melhor e mais digno; já que desistimos, enquanto nação, de tentar resolver esse problema social de décadas, damos um nome que “ofenda menos” – e deixamos as pessoas seguirem vivendo no meio do esgoto, da violência e da precariedade).

O chocante é que não, não moro perto de uma “comunidade” (ou favela, como deve ser dito) mas em uma região recheada de condomínios, e apenas um minúsculo cortiço com uma meia dúzia de casas amontoadas por perto. E é este cortiço que aterroriza uma vizinhança inteira.

Vou pegar emprestado do Google.com, um mapa aéreo para que as pessoas possam ter noção do quão surreal é o que passo, vira e mexe:

vizinhanca
No primeiro balão à direita, onde eu resido. No balão do meio, o “T” onde meia-duzia inferniza a vizinhança inteira. No balão mais à esquerda, em cima, uma casa de repouso para idosos funciona ali…Pergunta: Como temos a falta de vergonha de deixar tão poucos afetarem centenas de pessoas?

Primeiro, peço que note a densidade de prédios e condomínios na área. Depois, perceba que 99% das casas tem dimensões e aparências típicas. Por fim, embora a imagem não coopere, veja que o “T” é a única área de construções irregulares, sem telhado ou acabamento, com lonas cobrindo o teto e etc.

Pois bem: É esse grupo de 6~10 casas/barracos que, regularmente, proíbe uma vizinhança composta por não menos do que centenas de famílias de ter paz (não perdi tempo levantando o número afetado mas, fique a vontade para extrapolar: Só o prédio em que moro, com 2 torres de 20 andares e 3 apartamentos cada, já garante 120 famílias atormentadas por um punhado de gente; todos os prédios ao redor do quarteirão são incomodados pelos infelizes que promovem verdadeiros “pancadões”).
Torturam com som alto, música de péssimo gosto (seria muito ruim, até com música boa, repito – só é “mais péssimo” com o que eles ouvem), gritaria, quando “a festa” não acaba em violência entre os próprios participantes, o que não é raro.
Não ligaria se matassem uns aos outros, mas a violência só serve para fazer as mulheres, envolvidas no “evento”, gritarem escandalosamente, acordando mais uma vez à todos.

Eu faço tudo, e tão somente o que posso: Abro o site da  Policia Militar, cadastro ocorrência por barulho (o famigerado Charlie-1*), e espero uma viatura que nunca veio, nas 2 vezes em que eu decidi acionar a força policial. E adianto o que penso:
É constrangedor remover policiais do verdadeiro serviço policial que deveria ser evitar crimes e ocorrências hediondas, para mediar uma conversa entre alguém torturado psicologicamente, e uma porção de bêbados sem nenhum grau de educação ou civilidade.
Se fossem pessoas equilibradas, eu não precisaria da Polícia como salvaguarda para a conversa ocorrer. Mas, inferno, se fossem pessoas equilibradas, eu nem precisaria da conversa, em primeiro lugar.

Mas, por mais constrangido que eu esteja em tirá-los da verdadeira missão deles, isso é tudo e somente tudo o que posso fazer dentro da legalidade.

E a Polícia não vem. Outra vez.
Podem estar realmente ocupados impedindo que pessoas percam o patrimônio ou até mesmo a vida, e eu prefiro pensar assim, mesmo que sinceramente, e conhecendo como a Força Policial encara esse tipo de ocorrência, eu saiba que eles não costumam vir por não ter nenhuma vontade de lidar com gente alcoolizada, e que pode ser perigosa (a famosa “desinteligência” [onde o policial é ferido em meio à uma briga] é comum nos C-1*) para, no fim, preencherem mais papel na delegacia, do que o dito cujo responsável pelo inferno na Terra…
No país em que o traficante (exceto no flagrante) sai pela porta da frente do DP, após assinar um termo, e antes do policial que faz um boletim civil e outro militar (2 papeladas), o que você acha que acontece com o sujeito que faz um pancadão?
É uma humilhação para eles, os policiais, mas também para mim, que tenho que ir até a delegacia para registrar a queixa, enquanto sou provocado pelo fulaninho que diz que “antes, até ia parar cedo mas, agora, vai tocar até às 8h da manhã”…

Depois de toda tortura à qual eles submetem todos nós, os mais temerários desejos e delírios sobre como “resolver” a crise surgem: Às 5h da manhã, morrendo de cansaço, mas, profundamente irritado e com o ruído ainda em curso, não posso deixar de narrar como seria prazeroso tratá-los via a única língua que eles respeitam: O tapa forte na orelha, o cano da pistola na cara, a pesada no equipamento de som, pago em 100 vezes na Casas Bahia, e vê-lo se quebrar em cem partes, enquanto solta fumaça do tipo que já diz:  “Este, nunca mais”…
O horror.

Censuro-me ferozmente, logo após idealizar essa busca por vingança.
O simples fato de eu conceber a cena, já merece reprimenda.
Mas que não se empolguem os falsos moralistas de plantão: Merece bronca, mas não por eles, porque quero mesmo que eles invertam os fios do aparelho e descubram uma propriedade oculta e catastrófica das bobinas dos alto-falantes, onde elas atingem massa crítica e detonam como TNT, mandando tudo pelos ares.
O que fazem comigo, e com minha família e com todas as outras famílias que moram no mesmo lugar, não me deixa um único milimetro de compaixão ou empatia.
Insisto: Não é por eles que me censuro. Não é porque eles merecem tratamento melhor. Até porque, riem de quem tenta tratá-los respeitosamente. Já vi destratarem o senhor que foi lá, sem reforço policial, exigir o respeito à sua paz.
Mas é por mim que me proíbo. É porque, embora profundamente irritado e raivoso por não ter o direito ao sono; embora exposto à tortura da privação do sono que eles me impõem, eu sei que eu sou melhor do que tudo isso que vocifero em pensamento contra eles.

Eu, quase que em um delírio solitário, brigando por valores superiores que visivelmente não são compartilhados pela sociedade em que vivo, sigo insistindo na quase caduca luta pelo Contrato Social; repúdio à volta do Direito Natural, da superioridade do mais forte, do retorno ao homem primordial e animalesco. Faço isso em toda oportunidade em que alguém quer “resolver no braço” alguma questão…
E como posso discutir isso e pregar isso, quando quero pegar a pistola, a toca ninja, e “resolver as coisas” eu mesmo? (Sinceramente, e com o pingo de frieza que bate entre a raiva e o sono; ao analisar o que escrevo, penso em quanto eu teria que me sujar pelo momento tosco da realização… Um conselho para todos (eu, incluso): Nunca saque uma arma, se você não tem a intenção absoluta de usá-la, ou você pode morrer com sua própria munição)…

E lendo os últimos 3 parágrafos, eu vejo de maneira desoladora e pesarosa: Eles venceram.
Sou mais parecido com eles, em meio a fúria que me causam, do que quero que eles sejam parecidos comigo, pela imposição da lei, com uso da força policial se preciso for e etc…
Estou proporcionalmente mais perto de desrespeitar o direito deles, como eles fazem comigo, do que conseguir que eles se curvem à lei, e respeitem o direito de todos pela via legal e moral.
Tragédia.

Como podemos chegar tão baixo enquanto sociedade? Por que tão poucos tornam reféns, centenas?

Conversei com o porteiro, com quase 20 anos de condomínio e perguntei “Desculpe, mas, eu sou o único que reclama do comportamento deles?”. E o porteiro fez cara de sarro e disse “Vixi… Todo mundo reclama… Mas o pessoal tem medo de ir lá com a Polícia e ficar com inimizade… Aí depois pra sair na rua é complicado”…
Fico pensando “Como é que é? São 6 casas, não a favela da Rocinha! É gente mal educada, e sem respeito aos limites, mas nenhum deles é o Fernandinho Beira-mar!!!”…

Fica claro: A meia-duzia segue vencendo porque é fiel apóstola da teoria que “os incomodados que se mudem”.

Não pagam IPTU, nem compraram o terreno, mas, se fazem mais donos do pedaço do que todos os condomínios e todas as casas, às centenas, juntos. Porque, embora todos se incomodem, a maioria teme as consequências de defender o direito legitimo à paz e ao descanso.
E todos dizem pra si mesmos “alguém tem que resolver isso”, complementando, “contanto que não seja eu”…
Isso explica o Brasil em que vivemos numa centena de outras situações: Ninguém quer o trabalho (às vezes, imenso e cercado de dor de cabeça) de resolver, e todos esperam que alguém (outro) resolva.

Meu martírio está perto do fim: Primeiro porque o Sol já vem, e os vagabundos que assaltam a paz do bairro também se cansam.
Impuseram-me, mais uma vez, o amargo gosto da derrota de só poder dormir quando eles deixaram.
Segundo porque, em alguns meses, meu contrato expira, e vou me mudar. A vantagem suprema de alugar, acaba residindo na capacidade de não se ver condenado à convivência com bichos que não podem ser chamados de “cidadãos”.

Não o são, de fato. A Cidadania pressupõe a mínima observância à lei, e eles são incapazes disto.
Muitos tolos vão vir argumentar que eles foram marginalizados e, por isto, não podem dar o que não tiveram. Ao que respondo: E o que meu direito ao sono e à paz tem a ver com isso? Posso eu, tolido de uma das necessidades mais absolutamente básicas – que é o descanso – abdicar da minha obrigação de cumprir a lei e “ir lá resolver”??? Não posso.

De mais a mais, essa é a mentira suprema que torna tantos e tantos reféns de tão poucos: Que porque eles não tiveram apoio A ou B da família, da sociedade, do governo, ganham algum tipo de liberdade poética para não respeitarem o Contrato Social e o mínimo de regras para o convívio com outros indivíduos. Piada de extremo mau gosto.

Não importa o que eles não têm, ou deixam de ter: Enquanto dois erros não valerem um acerto, eles são os vilões, e eu sou a vitima. Pouco importa se moram mal, e eu moro no condomínio. Não os coloquei nessa situação, e nunca desrespeitei uma lei contra eles. Tudo o que espero é a reciprocidade. Em vão.

Há algo profunda e alarmantemente quebrado na Sociedade brasileira. Mas, se não posso dar um diagnóstico completo, uma coisa, eu adianto: O ditado “os incomodados que se mudem” é um câncer no coração do nosso povo.

Os incomodados – em todos os aspectos – têm que começar a reagir – por todos os meios necessários –  e parar de se mudar.
É, ironicamente, a única forma de mudar o país: O justo parar de se mudar, e exigir que mude o outro.

(PS: A zona parou por volta das 6h… Vou deitar, mas o texto só sai às 8h30)….

*obrigado pela correção, Guilherme!

O estranho momento em que precisamos militar contra os militantes…

Uma mulher grávida entra pela porta de um Pronto-Socorro, após o rompimento da bolsa amniótica, e exige que o procedimento de parto-Cesária seja realizado.

O médico, no entanto, contra-argumenta que a Cesariana desumaniza o nascimento, de acordo com o último Congresso da obstetrícia internacional, e decide seguir com o Parto normal.

Se esta cena ocorresse e, baseado somente na informação dada (ignoremos possíveis questões de risco à vida, e etc.), todos nós (eu, incluso) diríamos que houve violência obstétrica.

Então, por que não vemos violência em proibir que alguém com orientação sexual diversa do comum (“comum” que não: Não é sinônimo de “certo”…), peça ajuda profissional para que seja feito o caminho B, ao invés do A?

É difícil não avaliar – com pesar, acrescento –  que, se você não está nadando em favor da corrente de uma dada militância, você só pode estar contra ela.
Esse tipo de falsa dualidade levou à tanto confronto, e momentos deploráveis da história humana; e não vejo porque seria diferente, dessa vez, se continuarmos assim.

Militâncias que, tantas e tantas vezes, falam sobre “amar mais”, “compreender mais”, “aceitar mais”… Mas não admitem que alguém seja gay e não milite verborragicamente por onde passa, ou seja gay, mas, não queira sê-lo.

Não é diferente da militância que não admite uma mulher que quer ser dona de casa e cuidar dos filhos, ou da militância que não admite que um negro case-se com uma branca, ou que uma “não-negra” (seja lá o que isso quer dizer) use uma peça de moda com inspiração afro-cultural.
Não quero causar o terror mas, o pesquisador da penicilina (Alexander Fleming) era branco… Acho que vai ser ruim se trilharmos esse caminho, em mão dupla…
O Smartphone na sua mão é resultado, muito provavelmente, de uma centena, ou um milhar de patentes de origem majoritariamente asiática (indianos, japoneses e etc.)… Já pensou se eles decidem que não posso “me apropriar” (mesmo pagando por isso) do que eles criaram?

E seriam só suposições e hipóteses, não fossem todas essas narrativas corroboradas pelo árido deserto da realidade.
Todos os episódios que descrevi, aconteceram publicamente e, não é difícil achar essas notícias tristes de como movimentos com causas absolutamente legítimas como os direitos LGBT, da Mulher, dos Negros e enfim, representantes de todos que não estão no controle do poder político, sócio-econômico, financeiro e etc., repetem-se, em suas vertentes mais radicais (gosto de supor assim), tão infelizes e repugnantes quanto aqueles que eles dizem enfrentar (os homofóbicos, machistas, racistas e etc.).

Eu já falei sobre o conceito de “Efeito-mola”, explorado na Sociologia com nomes mais pomposos mas, basicamente, é a ideia de que a opressão de uma parcela da sociedade causa efeitos semelhantes aos descritos pela Física quanto à pressurização de uma mola e suas decorrências, e leva à efeitos colaterais maiores do que a medida ideal, quando “a mola” é liberada.
O mesmo efeito-mola vale para a outra parcela da sociedade que apreciava seu status-quo, e se sente ameaçada – sob qualquer aspecto – diante de conquistas de grupos que passam a exigir que estes grupos convivam de maneira mais igualitária, ou cedendo espaços de maneira mediada pelo Estado (políticas afirmativas e etc.), para o primeiro grupo.

Enfim, o que resta é o choque de N* grupos que, por sentirem-se reprimidos pelos mais variados motivos e méritos, muitas vezes, vão além do que um individuo sóbrio, e  isolado de uma comunidade que catalize suas opiniões, consideraria “razoável”.

Não há dúvidas que “o razoável”, algumas vezes, pode significar até mesmo ir às armas, e lutar até a morte.
Pergunte aos judeus, vitimados pelo Nazismo, se eles teriam entrando de bom grado nos trens que conduziam ao extermínio, se soubessem disto antes. Teria sido “razoável”, matar os soldados alemães com todos os meios – inclusive os bestiais – nessa situação…

Mas, em tempos de Paz entre os Estados, a reação dos grupos LGBT e coligados, e a mobilização das celebridades contra a medida do Juiz Federal, Waldemar Cláudio de Carvalho, só demonstra para mim que não há razoabilidade, nem no grupo dos Cristãos que acham que a orientação sexual diversa do comum é coisa de Satan, nem nos grupos LGBT que acham que um Gay é, por alguma lógica estranha à meu entendimento, obrigado a amar sua condição, de maneira incondicional e incontestável.

Comparo essa incoerência à tentativa de ressuscitar o suicida para, depois, executá-lo por “homicídio de si mesmo”.

A cena seria tragicômica, no encontro do cidadão que deseja a liberdade de tratamento, com os representantes do movimento:
– VOCÊ TEM QUE SER FELIZ SENDO GAY, SEU FILHO DA P#@%&! (Enquanto espancam o sujeito, para que ele “aceite” sua condição e seja “feliz”).

O episódio me dá pesar, ainda mais porque, de todas as Ciências ligadas à saúde humana, a Psicologia é mais humana de todas elas. Como também, a mais nova, e a que mais precisa pesquisar, crescer, e descobrir mitos e verdades sobre o que se sabe da “cabeça” humana, até aqui. É assim com toda Ciência ainda na “infância”.
É o cerne da Psicologia, independentemente de vertentes e interpretações, tentar compreender, sem emitir julgamento, cada ser humano, de maneira muito individual, mesmo quando o individuo é interpretado em um contexto e prisma determinado por um dado momento ou espaço social/histórico/cultural.

Em resumo, é quase que “do contrato social” da Psicologia com a humanidade, individualizar o “paciente” (eles não gostam desse termo), e compreender que por mais que ele possa ter um quadro parecido com o individuo anterior, ele é algo totalmente novo e único.
Resumindo: A psicologia deveria ser a primeira a dizer que, por mais não-natural que seja, o Gay tem total direito de não querer sê-lo, e as ferramentas disponíveis para mostrar a ele, o que ele é e não é, serão usadas, para que ele atinja a coisa que mais pode trazer paz à um individuo: Auto-conhecimento.
Talvez, por circunstâncias-mil, seja simplesmente impossível que ele deixe de sê-lo. Mas, não se começa um acompanhamento psicológico só se o resultado final for o que o cliente desejava.
Até porque, o resultado final desse acompanhamento é sempre imprevisível, devido aos N desdobramentos que cada consulta causa. A verdadeira missão da Psicologia é fazer o individuo se entender, compreender os processos que o transformaram e o edificaram enquanto entidade e personalidade, a fim que ele, eventualmente, fique em paz com o que é e com o que deixa de ser.

A principal contra-argumentação ao que exponho até aqui, é que esse indivíduo só odeia sua orientação porque é reprimido, sofre/sofreu preconceitos, nasceu e cresceu em um lar opressor à sua orientação e etc.
Enquanto tudo isso pode ser absolutamente verdadeiro; novamente, somos nós, Sociedade (ou parcela da Sociedade), proibindo que o individuo, sem fazer mal a qualquer outra pessoa, procure o resultado que desejava atingir. Tudo para que nós – e não ele – nos sintamos satisfeitos.

Por que é tão difícil ter o mesmo respeito que temos:
Pela grávida que não quer passar pelo trauma do parto natural, ou o paciente terminal que quer manter algum resquício da dignidade, e tutelar o fim da vida, diante da inevitabilidade do fim doloroso e degradante?

São questões muito, muito sensíveis e multi-facetadas. Cada novo ponto que tento trazer para provar que temos pesos e medidas diferentes, daria uma discussão inteiramente nova que poderia ser desdobrada em várias e várias outras, se estendendo quase que sem fim…

Para o (a) anônimo (a) que pretende se beneficiar do que eu considero um avanço democrático salutar no que diz ao respeito à liberdade de cada individuo, meu entendimento, da maneira mais simples e mais direta possível é que: Se você não está fazendo mal para ninguém a não ser – no máximo – pra si, e se o risco de suas decisões afeta só e somente você; você tem meu total apoio em todo caminho que decidir trilhar.

Do beijaço Gay na avenida mais badalada, a pedir ajuda profissional para tentar sentir tesão por peitos e bundas (se você for um homem homo-afetivo, claro).

Sinceramente, meu caro anônimo Gay, que não quer sê-lo: Acho que vai ser difícil você conseguir o que quer, porque, minha crença (e, portanto, é só uma hipótese) pessoal é de que como olhos verdes, ou cabelos ruivos, sua atração por pessoas do mesmo sexo esta enraizada em seu DNA.
E, até onde sei, depois de Hitler, não há ninguém sério e com competência suficiente, tentando combater as anormalidades (repito para os radicais: “anormal” é simplesmente o que não é “normal” (relativo à norma). E isso não é sinônimo de “certo” ou “errado”) de cor nos olhos e cabelos, então, não vejo como alguém conseguiria “consertar” seu gosto.
Pouco importa: No fim, o que realmente importa é você saber que tentou tudo que era possível, e torço para que atinja a paz interior, em algum momento dessa jornada, independentemente dos resultados.

Meu pai não me ensinou a gostar de mulheres. Nem era um assunto  que discutíamos, de tão reservado que ele era quanto à isso.
Quando os hormônios da sexualidade circularam pela primeira vez em mim, eu tive certeza que nada superava o prazer de estar com aquela deliciosa forma feminina, em toda sua beleza de curvas e volumes.
Claro: Por educação familiar de valores e postura, e senso de convívio social, os hormônios nunca foram suficientes para que eu “avançasse” nelas como um animal selvagem o faria.
Mas nunca houve dúvidas em mim, do que mexia com meu lado animal que todo ser humano tenta disfarçar e renegar, com mesuras e convenções de convívio. Talvez, um dia, provemos que é a mentira sufocante e omnipresente de que somos absolutamente diferentes dos animais, a causa maior de tantos distúrbios psico-sociais e comportamentos inaceitáveis em nossa espécie…

E acredito, caro(a) anonimo(a), que este processo de descobrir o que lhe dava tesão na puberdade, não foi diferente contigo mas, você sentiu tudo o que descrevi, quando viu alguém do mesmo sexo que você.
Não é o normal, mas está 100% longe de ser chamado de “errado”. É só e, somente só, diferente.
E “diferente” nunca será sinônimo de “ruim”, pra gente de boa fé.
Se você não está em paz, e não quer ser diferente, eu lhe dou meu total apoio para que busque alternativas para ser “só mais um hétero”.
Independentemente das chances estarem contra ou a favor do intento, só lhe desejo que encontre sua paz.
A paz de quem fez tudo o que podia ter feito.

Por fim, eu pergunto: Qual é o limite da intervenção do Estado, e da Sociedade (ou grupos dela), sobre o indivíduo? Quanto da minha liberdade natural, eu tive de abrir mão, para viver em sociedade? O Contrato Social que assinamos de forma tácita, pode exigir de mim, minha completa e incondicional aceitação do que eu sou ou pareço?

Mais importante: No fim do dia, vale a pena viver no meio de vós, se eu não tiver o último e derradeiro direito sobre eu mesmo e toda a extensão e representação do que compõe o “eu”?

Eu não sei. De verdade. Algumas vezes, parece que vale. Outras, parece que nada poderia ser melhor do que morar na caverna mais distante e mais solitária; só para não ter que assistir uns decidindo sobre como outros devem ou não devem ser, e do que o outro tem de ser para ser feliz.

Sei, contudo, de uma coisa:
Eu, não-militante e não-ativista, nem libertário, nem conservador, nem reacionário, estou muito mais confortável com os Gays que querem ser Gays, e os que não querem; com as meninas brancas com lenços afro, e com os atores que não querem “sair do armário”, ou saem sem alarde e sem bandeira.
Estou muito tranquilo com a mulher que quer ser CEO da maior empresa, e da que sonha com a chance de cuidar dos filhos e cozinhar a janta para o marido, até o fim da vida.

Estou muito mais confortável do que a massa mais ativa de qualquer movimento que diz representar os Gays, os Negros, as Mulheres…

Reconheço meus preconceitos, sem dificuldades, e entendo o quão longe de estar em paz com todos, eu ainda estou. E esses preconceitos às vezes morrem e provam o quão ignorante e pouco evoluído eu ainda sou.
Outras vezes, de pré-conceitos, evoluem para conceitos formados e embasados, sem que eu abra mão deles.
É assim com este assunto.
Aliás, assunto que precisa ser mais discutido. Preconceito não é crime, nem deveria ser. Um pré-conceito é simplesmente um conceito que você forma, antes de realmente conhecer algo.
E ele pode estar certo, ou errado. A verdadeira questão é o que você faz para validar seu preconceito, e como se comporta quando descobre que ele não é verdadeiro.

Ainda assim, eu  sinto que consigo respeitar mais, e tolerar mais, todas essas pessoas e todas as possibilidades que cada um deles pode decidir ser e parecer, muito mais que os militantes mais extremos dos movimentos que saem “em sua defesa”.
Gente que não consegue superar a cegueira e a paixão “à Causa” (“paixão” que, aliás, vem do grego “Pathos”, a mesma raiz para “patologia”, “excesso” ou “doença”).

Cegueira, em nada diferente, dos preconceituosos e conservadores que acham que seu jeito é o único jeito certo. Que seu deus é o único verdadeiro e, sua mensagem, a única correta.
A fronteira da extrema-esquerda é, de fato, a extrema-direita.
Estado Islâmico e Pastores que chutam imagens.
Racistas e Ativistas que agridem uma pessoa de cor distinta que se dispôs voluntariamente a honrar e ostentar a cultura de outro povo em seu corpo.
São todos iguais.

Já era muito trabalhoso lutar contras as mentes pequenas, atrasadas, que pregam conservadorismo extremo, e valores pessoais e religiosos como sendo universais. Mas, tudo valia para que ninguém fosse perseguido ou oprimido por pensar, agir ou ser apenas diferente de mim ou do que eu penso.
E agora, isto…

Estranhos e cansativos os tempos à frente, em que teremos que militar contra as militâncias.

Amor não é Doença. É a Cura.Pelo menos, a mensagem não deixa de ser verdadeira, não obstante tudo isto…

Brasil: A Sociedade Decadente

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:THOMAS_COUTURE_-_Los_Romanos_de_la_Decadencia_(Museo_de_Orsay,_1847._%C3%93leo_sobre_lienzo,_472_x_772_cm).jpg
A obra de Thomas Couture, “Los Romanos de La Decadencia”, retrata a Decadência (em maiúsculo, como uma entidade) atingindo a sociedade romana, com sua acepção mais clássica e arraigada em nossa interpretação: Os excessos humanos; o uso de entorpecentes, o sexo, a falta de compostura, e outros pecados capitais, levando a corrosão de todas as aspirações e qualidades de nossa raça; tudo encarnado no trabalho em óleo sobre tela.

de·ca·dên·ci·a

sf

1 Estado daquele ou daquilo que decai, que se encaminha para a ruína; caimento, declínio.

2 Perda progressiva de poder, prosperidade ou valor; empobrecimento.

3 Época em que algo ou alguém passa pelo processo de degradação; degenerescência, ruína moral.

A nossa sociedade é decadente em vários aspectos.

Mas, talvez, você esteja pensando em uma sentido muito amplo e, quem sabe, até moralista dessa acepção; enquanto eu quero abordar um sentido estrito…

Uma das alegrias de conhecer gente verdadeiramente inteligente é ter a oportunidade de ter discussões fascinantes, receber o presente de ter os olhos abertos para um prisma novo; um angulo escondido… Algo que você demorou demais para notar.

Mas… Vez ou outra, a oportunidade acaba sendo um belo “presente de Grego” (a obra que retrata Roma… A menção ao Cavalo de Troia… Esse post será um clássico [Entendeu? Entendeu?] 🙂 )

Acontece que na última conversa minha com o Rafael, primo da Bruna, eu saí bem mais abatido e angustiado com a “dura circunstância da realidade que me cerca”, do que entrei.
A ideia de que na prévia ignorância eu era mais feliz não me deixou escapar e aumentou, em algum nível, minha tristeza com o que acabara de despertar sobre meu país.

Para aliviar minha insatisfação e desolamento, venho aqui compartilhar contigo o que descobri, ao melhor estilo “comigo não morreu”, e se você entender o problema, a angustia minha passa a ser sua também. Não precisa me agradecer.

Para entender o “Brasil Decadente”, vamos começar falando da metalurgia, na India.

“O que?”. É, isso mesmo: “India” e, “Metalurgia”… Para entender o Brasil…

É difícil precisar, mas, a história da Metalurgia na Asia tem registros arqueológicos que vão além dos 3 mil anos antes de Cristo.

Registra-se, 1800 antes de Cristo (a.C.), a presença de ferro trabalhado em várias obras e monumentos indianos e estima-se que em 1300 a.C., o ferro de fundição era produzido em largas escalas naquele território. O domínio do processamento de metais é vital para classificar a evolução dos povos, na história da humanidade.

Apenas para evitar qualquer desvio de entendimento, me parece prudente esclarecer que a diferença entre “metalurgia” e “siderurgia” do ponto de vista acadêmico, jaz na especialização: Siderúrgicas são especialistas em fazer ferro refinado e vários tipos de aço, enquanto as Metalúrgicas trabalham em todos os tipos de metais (incluindo o ferro).

Conta a História, inclusive, que em 300 a.C., a India era a detentora de uma técnica suprema de produção de aço (A “Crucible technique”, ou “técnica do Cadinho” em bom português-metalúrgico) onde, por conhecimento químico apurado de seus ferreiros, era produzido um aço-carbono complexo, forjado em altas temperaturas com ferro de alta qualidade, carvão, e vidro.
Nessa época, a India era, simplesmente, dona do monopólio do melhor aço que o mundo ocidental (e aqui, me refiro a Europa, na verdade) poderia desejar e comprar.

Não para por aqui, e se você quer saber mais, sugiro que procure pela História da Metalurgia na Asia, e a Metalurgia antiga da India e sua vasta gama de registros de ligas metálicas de altíssima qualidade (os registros dos feitos indianos nas primeiras ligas de Cobre e Latão são impressionantes, especialmente, considerando o grau de conhecimento que o resto do globo tinha sobre isso, tantos séculos antes de Cristo), e difícil obtenção, em períodos muito distantes da História humana, séculos antes das Expansão Européia, por meio das Grandes Navegações, chegar à estas bandas.

Sabe qual é a importância da India na Metalurgia global contemporânea? Nenhuma.

Não que a nação não produza ou processe metais para consumo próprio ou exportação mas, salvo algo bem específico, ela já não “dá as cartas” no jogo da transformação de “rocha” em produto-base (commodity) da indústria mundial. Limita-se a copiar o que os outros fazem, por vezes, com tecnologia patenteada além-pátria.

O que aconteceu com o conhecimento indiano sobre a metalurgia de ponta? Onde foram parar todos os seus ferreiros, especialistas, detentores de um conhecimento tão específico e tão vital para o trunfo de “dar as cartas” em um mundo que começava a se conectar (a famosa “rota para as Índias” era o centro econômico dessa Era, não porque os Europeus gostassem de Yoga ou do Hinduísmo) e um mundo que pagaria o quanto os indianos quisessem, por metais processados de tanta qualidade (e raridade)?

Na opinião do Rafael, que também passou a ser a minha, ocorreu que a sociedade indiana tornou-se decadente…

A definição que ele deu foi muito precisa e suponho que, por não ter achado referências em nenhum lugar com acepção parecida, só possa ser de cunho dele mesmo; motivo pelo qual faço questão do crédito e do registro da terminologia, a ele:

“Sociedade Decadente (ou ‘em decadência’), é aquela que se torna, ao longo do tempo, incapaz de compreender e dominar os processos de transformação da Natureza que permitiram (e permitem) que ela ocupe o status que hoje detém.”.

Resumindo, via exemplo: Você vangloria-se (ou simplesmente se satisfaz) de viver em uma sociedade que cura, facilmente, grande parte das infecções bacterianas mas, essa mesma sociedade perde, cada vez mais, a compreensão e o domínio de como se produzem os antibióticos que te fazem prosperar onde seus antepassados pereceram.

É sobre esse stricto-sensu de “Decadência” que quero tratar. E que, no meu entender (e do Rafael, ao qual sou grato por me apresentar o conceito mas, fico na cisma pela depressão que incutiu), é a mais pura realidade da Sociedade Brasileira atual.

Ninguém decai do chão para a chão…

Para decair, contudo, é preciso, em algum momento, ter tido qualquer patamar (ou, ao menos, o vislumbre desse patamar) superior ao que se está rumando agora. Ninguém decai do chão para o chão, já que é o tipo de situação onde aplica-se o “pior do que está, não fica”…

O Brasil teve inúmeros momentos de progresso científico constatáveis e, mesmo que seja totalmente reprovável como forma de governo, o fato é que especialmente a partir da Ditadura (a começar com o Golpe de 64), os brasileiros passaram a ter contato com o mundo exterior (e sua tecnologia) de forma mais acentuada e contínua.

Como exemplo, cito a ESG (Escola Superior de Guerra), assunto que já tratei em outro post, onde o intercâmbio de militares para os Estados Unidos da América (não sem a intenção deles de repelir a então União Soviética, vale dizer) fazia com que estes aprendessem muito da técnica militar com os estado-unidenses, e a trouxessem de volta para “a pátria amada, Brasil”…

Outro grande exemplo reside na fundação do, então chamado, “Complexo eletrônico brasileiro” na década de 70, bancado pelo recém fundado (em 1952) BNDES, projeto que começou (novamente) com os militares da Marinha de Guerra Brasileira, bancando um projeto para construção de um computador 100% nacional.

A presença de Multinacionais já era grande, com menção honrosa à IBM que em 60, tinha dois terços dos 90 sistemas computacionais instalados país à fora; e à Burroughs que instalou seu B-205 na PUC do Rio de Janeiro.

Diante disso tudo, é preciso ponderar que entre a Ditadura militar (que perdurou entre 1964 e 1985 – e, para me gabar, sem qualquer adição de conteúdo ou propósito, sou filho da Democracia, em 1986) e o fim da década de 80, os Brasileiros saíram de meros consumidores de “caixas-pretas” para um padrão de sociedade científica um pouco mais interessada em dominar os meios de produção que ditavam o progresso tecnológico do “primeiro mundo”.

Mas, algo deu errado: Talvez tenha sido a hiper-inflação (com seu pior momento entre Sarney e seu sucessor)… Talvez tenha sido a abertura da economia brasileira (por Collor, sucessor do já citado, e que não cito mais de uma vez, para não invocar maus espíritos) à importação de produtos em massa… De uma hora para outra, e sem muita clareza do que sucedeu-se primeiro, nossa nação foi abandonando a vontade de dominar essas tecnologias.

Para saber mais: O Complexo Eletrônico Brasileiro

Nota: Cuidado com o excesso de ufanismo. É um texto de um órgão público…

Vontade não é tudo…

Quando penso na obstinação do povo dos EUA, especialmente estilizada e retratada no episódio de John F. Kennedy conclamando, em 1961, e com força de ordem executiva, a “América” a colocar o homem na Lua em menos de 10 anos, percebo a importância da vontade como motor de uma perseverança que não se abate diante das dificuldades.

Quem tem o mínimo de curiosidade sobre o tema, sabe muito bem que  o programa espacial norte-americano não foi, nem de longe, uma “linha reta”: Revés, atrasos, acidentes, mortes, pesquisas infrutíferas, descobertas de conceitos equivocados (e, até aquele momento, alicerces do programa)… Teve de tudo.

Ainda assim, em Julho de 1969, Neil Armstrong plantou o primeiro pé humano por lá.
Eu NEM QUERO começar uma discussão sobre “se o homem foi mesmo lá”… Não tem nenhuma adição a este assunto… (Mas, eu acho que foi sim, se você quer tanto saber).

Isto posto, quem conta que a corrida para pôr o primeiro homem na Lua foi uma história de “Vontade e Esforço”, está vendo novela da Globo por demais.
Vontade e Esforço são ótimos, claro… Mas, nas mãos de um imbecil, significam muito sacrífico, muito suor e lagrimas, e pouco resultado.

A parte, verdadeiramente bonita da corrida espacial, especialmente do lado “Yankee”, está no que significou aquela década para a educação americana, dos níveis fundamentais de ensino às universidades do país.

Nunca se importaram tantos doutores e mestres (a lista conta com gente de baixa relevância, como Einstein ou Von Braun [pai do sistema alemão de foguetes “V2”], e vou parar por aqui).
Nunca deu-se tanto valor ao domínio da Matemática aplicada, da Física e Astronomia de ponta. E nenhuma dessas ciências prospera se você não entende a língua na qual elas lhe são apresentadas (no caso deles, o Inglês)…

Sugiro, como complemento, o artigo da Harvard School: How Sputnik changed U.S. education

Quando eu crescer, quero ser cientista…

E talvez, nunca, na história da humanidade, tenha havido uma geração com tantos jovens que tinham ídolos que não eram de uma Boy-Band, ou de um Reality Show (até porque isso não existia), mas sim, astronautas, físicos e matemáticos.

Não é piada: Uma boa parte de crianças daquela geração cresceram tentando ser os próximos da lista de revoluções científicas do país, e alguns até tinham posteres desse estranho tipo de ídolo juvenil, nos seus quartos.
Não dá para não imaginar um poster de Stephen Hawking fazendo pose de mister-universo no quarto da menina de 15 anos em 1970 (não, não sei de tal poster… Só imaginei)…

Talvez, o filme “os Eleitos” (1983) faça um dos melhores trabalhos em dar um vislumbre do clima no sistema educacional estado-unidense com a Corrida Espacial à todo vapor (ok, cabe dizer: À todo vapor para não perder, de modo algum, para a URSS que já tinha posto o primeiro homem em órbita, e lançado o satélite Sputnik).

O ponto central é: Vontade e determinação são muito importantes para levar uma sociedade de um ponto A até o ponto B. Mas, sem domínio cultural e científico, ela é tão útil quanto um fósforo comum no fundo da piscina. Não há ignição…

E o Brasil?

Bem, o Brasil nunca quis ganhar de ninguém. Nunca correu corrida alguma. Alguns setores e personalidades (tudo muito específico) podem até esbravejar comigo e dizer que estou muito enganado.
Mas, data-vênia, caros colegas, a única corrida da qual todo brasileiro entende é a corrida para pegar o ônibus lotado que já vai passando ali no ponto.

Nunca houve projeto nacional algum, de ser o melhor em um assunto tecnológico do que todo o resto do mundo.

Não me engano: Ninguém sabe fazer tudo sozinho. O país que domina a eletrônica não necessariamente é referência no processamento de petróleo ou minérios, e assim por diante. Então, não acho que precisamos dominar a técnica de todas as cadeias produtivas para sermos respeitáveis.

Mas, quando tudo que seu país sabe exportar é:

  • Commodity (ou seja, produtos de baixo valor agregado e que, mais tarde, compramos de volta, muito mais caro, por terem sido transformados em algo realmente útil) – Foi, inclusive, a desgraça que nos fez cair na armadilha de que o país estava em rota de um futuro econômico brilhante na Era Lula e no primeiro mandato de Dilma;
  • Drogas (O Brasil é: 1. O país que mais exporta produtos químicos para o refino de drogas na Colômbia; 2. A base de operação de quadrilhas africanas que enviam para Espanha, China e Reino Unido, via Correios [ECT]; 3. O maior exportador de drogas para os Estados Unidos [que, vale dizer, é o maior mercado consumidor de drogas, do mundo]) – Dados de 2012;
  • Jogador de futebol (O Brasil é o primeiro do mundo em “exportação”[469 atletas], bem longe da França, no segundo lugar [com 312] – Dados de 2016);
  • E mulheres (não estou brincando: O tráfico de pessoas, no Brasil, é responsável por cerca de 65 mil brasileiras raptadas e escravizadas para fins, quase sempre, sexuais, em um “mercado” de 1.3 bilhão de dólares, só na América Latina – Dados de 2014);

… Fica difícil notar qualquer avanço que possa evitar a Decadência da Sociedade Brasileira contemporânea, sempre muito dependente da ajuda externa e escrava do consumo de tecnologia internacional, por ser incapaz de dominar os meios produtivos que transformam o que ela tem (minérios em abundância, solo fértil, biodiversidade, quase todo o tipo de matéria-prima), no que ela quer ou precisa consumir (alimentos processados, remédios de ponta, tecnologia de telecomunicações, tecnologia aeroespacial, Inteligência artificial). E tudo o que o  noticiário local nos mostra durante o quadro “Internacional” no qual aparecemos há cada 10 anos, ocorre graças a um solitário cientista conterrâneo, em algum galpão sem estrutura Brasil à fora, travando uma batalha particular, inglória e ingrata, por vezes em nome de valores que o resto de sua pátria sequer tem noção de como soletrar.

Quem mandou querer ser cientista?

Ele (e quase nunca “ela” – outro problema…) escolheu essa carreira, é verdade. Poderia ser servidor público, advogado, político. Poderia ser um Big Brother, ou um Youtuber… Um meio-campista ou um funkeiro…

Escolheu entender  a função da apoptose (ou “suicídio celular”) na citologia do mamíferos primatas superiores…

Ou, escolheu entender porquê partículas subatômicas deixam de ser uma função de onda quando tenta-se medi-las com instrumentação, obtendo ou uma localização ou velocidade, por exemplo (alias, se esse conceito lhe parece muito “frufru”, saiba que é uma das bases do próximo salto da computação, quando ela se tornar quântica).

A maioria dessas pessoas não viverá para ver respondida as questões que abordou.

Essa é a beleza poética da Ciência: Seu trabalho não é pra você, mas para a humanidade… Se você tem qualquer crise em não ver seu trabalho iniciado, desenvolvido e finalizado, é melhor largar a Ciência e ficar na Construção Civil. Por lá, as obras costumam ter início, meio e fim. Na Ciência, isso é quase impossível.
Como menção honrosa para uma das poucas exceções à essa regra, vale citar um cientista, brasileiro, acreditem se quiser: Carlos Chagas, o descobridor da doença de Chagas, pôde estudá-la de “cabo a rabo”. Feito raro, é bom dizer.

Mas, não é – nem de longe – a norma na Ciência… Teorias postuladas no século 19 continuam sendo testadas e expandidas (ou refutadas) nos dias de hoje.

A Ciência é assim mesmo… Você constrói o seu bloco por cima dos blocos que seus colegas antepassados deixaram pra você. A obra só pode ser contemplada de longe, olhando a contribuição de cada um que, um dia, pode (e pode não) ser completada e transformada em algo prático, como, por exemplo, a imensa cadeia de conceitos, tecnologias e conhecimentos em interação que, finalmente, interligam o teclado em que digito esse texto, e a tela do seu computador ou celular, em qualquer lugar do mundo…

Esse brasileiro (e quase nunca, “brasileira”, repito com pesar) escolheu essa carreira. Verdade.
Mas, eu tenho que ser grato por tantos que tiveram a mesma escolha dele(a), décadas e, às vezes, séculos, antes de mim. Não pelo que ganho de imediato com isso. Mas por tudo o que já ganhei até aqui.

A Ciência não funciona para os egoístas.

Não funciona… Mas, sou sempre grato, sim, pelo que se descobre (e descobriu), até mesmo quando tudo sai errado e pelo que se edifica para as gerações que virão depois de mim, como os antepassados da Ciência fizeram pela geração atual, sem poder se beneficiar do que construíram, mas, em nome do ideal científico de ir além, de descobrir e entender como o universo funciona, e como podemos moldá-lo em nosso favor.

Mas, não no Brasil…

Eu sei, de verdade, que antes fosse essa constatação exclusiva do lugar em que vivo. Como eu sempre digo, porém, é aqui no Brasil que eu vivo e aqui foi onde eu cresci. Esse é o lugar que mais me importa, no mundo, e é por isso que toda minha atenção e crítica são miradas para cá.

Honesta e deselegantemente, pouco me importa se 90% dos países do mundo estão se lixando para a Ciência, mais ou menos do que aqui. Quero saber o porquê do meu país ser idiota e estúpido de tomar essa decisão.

Meu país é feito de uma população extremamente deficitária no básico, em todos os sentidos. Ainda temos 27% dos pouco mais de 206 milhões de brasileiros, incapazes de ler uma manchete em um jornal (Dados de 2016).

Mesmo entre os que sabem ler os léxicos e transformar os “estranhos risquinhos” em letras e sílabas,  a esmagadora maioria é incapaz de ler um texto como este que redijo. E nem estou levando em conta os que têm preguiça (porque escrevo muito, eu sei). Apenas os que não conseguiriam, mesmo se quisessem…

Uma rápida demonstração da nossa falência:

No começo de 2016, um estudo foi conduzido para avaliar a compreensão das ciências básicas do nosso povo. Considerou-se somente a população em idade produtiva, o que podemos dizer que equivale a 45 a 48% da nossa população total (outro dado preocupante). Só pela facilidade, vamos aceitar que dos 206 milhões de brasileiros, 100 milhões estão em idade produtiva (na verdade, esse número orbita na casa dos 80 mi).

O que o estudo feito pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa revelou é que desse universo de ~100 milhões de brasileiros, e respeitando a metodologia do INAF (Indicador de Alfabetismo Funcional), temos:

  • 4% de analfabetos;
  • 23% de rudimentares;
  • 42% de elementares;
  • 23% de intermediários;
  • e (só) 8% de proficientes;
    • E, a vantagem de usar 100 milhões como universo é que basta arrancar o simbolo de porcentagem para saber quantos milhões de brasileiros estão em cada categoria… Fácil! Se você não for analfabeto funcional…

Ainda, para os fins dessa pesquisa, Analfabetos e Rudimentares, somados, são o que compõe o universo de analfabetos funcionais brasileiros; pessoas que não conseguem (mesmo que capacitadas a decodificar minimamente as letras (léxicos), frases, sentenças, textos curtos e os números), desenvolver a habilidade de interpretação de textos simples e resolução de operações matemáticas elementares.

Já, na outra (pequena) ponta de 8% (ou 8 milhões de brasileiros), espera-se que o indivíduo consiga compreender e elaborar textos de diferentes tipos, como um e-mail, um verbete da Wikipedia, ou um editorial de jornal ou artigos de opinião (como este), além de conseguir opinar sobre o posicionamento ou estilo do autor de um dado texto.
Essa pessoa também deve interpretar tabelas e gráficos e compreender, por exemplo, que tendências se aponta ou que projeções podem ser feitas a partir destes.
Outra competência é a de resolução de situações (de diferentes tipos) sendo capaz de planejar, controlar e elaborar.

Para saber mais: No Brasil, apenas 8% têm plenas condições de compreender e se expressar

Para encerrar (este artigo)…

Vamos supor um cenário apocalíptico, mas sem zumbis (aaaahhhhhh…. :-/ ), onde o mundo decida “fechar as portas” para o Brasil de vez (e não é 100% ridículo de se pensar nisso com Trump nos EUA, Putin na Rússia, o BrExit inglês e, quem sabe, logo-logo, Le Pen na França)…

Quanto tempo até os Smartphones que nós TANTO amamos no Brasil, pararem de estar na prateleira?

Bem antes disso ocorrer, e supondo um fechamento total e em larga escala, o que acontece com todos seus aplicativos (WhatsApp, Instagram, Facebook), “rodando” fora da sua terra natal, quando seu atual aparelho não conseguir mais trafegar livremente pela rede, e usar o servidor de dados que fica em outro local?

Os satélites de comunicação que permitem celulares e TV’s em regiões distantes do nosso próprio território, ou ajudam a vigiar o espaço aéreo… Sabe quantos são nossos? E quantos têm alguma tecnologia nossa, em sua fabricação???

E remédios? Quantos remédios avançados para combate ao Câncer, coquetéis contra Aids, vacinação de recém-nascidos, antibióticos de quinta geração (a mais recente)… De tudo isso que mantém seu povo vivo e bem, quanto você acha que nós dominamos de seus meios de produção, e capacidade de produção em escala (produzir um frasco é uma coisa. Produzir mil não tem nada a ver com produzir um…)?

Você NÃO pode contar com as máquinas e fábricas das empresas que estão aqui… Nesse cenário, a Toyota leva embora seus braços robóticos e plantas do seu amado Corolla, a Bayer leva embora seus equipamentos de produção farmacêutica, e você precisa torcer para que alguém do seu país saiba como o ácido acetil-salicílico (a tosca Aspirina) é condensado em um comprimido.
O mesmo para a Prednisona, a Epinefrina, e todos os compostos que controlam diabetes, pressão alta, quadros de miopatias agudas ou crônicas…

Todas as outras multinacionais seguem o mesmo exemplo…

Enfim, em um mundo em que você (e seu povo) é altamente dependente, cada vez mais e mais de tecnologia de ponta; e seu povo e país não poderiam se importar menos com o como ela é adquirida, desenvolvida, e feita (em pequena e larga escala, volto a dizer – já que mesmo que alguém entenda o processo, nem sempre é fácil pegar o conhecimento de um livro na biblioteca ou de um cientista de laboratório, e produzir milhares e milhões daquilo que eles sabem, em um curto espaço de tempo); você está em uma Sociedade Decadente… Incapaz de produzir o que ela se gaba de ter…

Em resumo, o Brasil vem “dando certo” (expectativa de vida aumentando, produtos de ponta [embora custem uma fortuna]), simplesmente porque aceitamos pagar o preço que os “novos Indianos” impõem, sem maiores objeções.
Eles vêm aqui e vendem os “Aços-carbono” do século 21 pelo preço que quiserem, e nós pagamos.
Porque, se não pagarmos, vamos voltar a precisar de telefonistas trocando cabos, e um texto desse não vai ser possível, a não ser que uma rádio (essa tecnologia [eletrônica analógica da primeira guerra], acho que a gente domina suficientemente bem) decida narrá-lo por 8 minutos.

E… Se algum dia, por qualquer motivo, esse pessoal decidir fechar as portas, não importa o quanto queiramos pagar… Ai de nós…

Há solução para a nossa decadência?

Trato disso em um próximo texto.

Vou falar da farsa de nosso orgulho com Embraer e Petrobras, como símbolos de exceção dessa decadência, e de que para a educação nacional dar tão errado, isso não pode ser mero acaso. Há um plano, e todos (eles e nós) estão jogando perfeitamente para que tudo continue igual ou pior.

Até o próximo post.

8 de março: O porquê eu respeito a “farsa”…

Símbolos universais do masculino e feminino, combinados com o sinal de igualdade, no centro.
Será que, um dia, a anatomia será apenas um diferencial fisiológico e aparente entre nós?

8 de março, como 25 de dezembro, é uma farsa histórica…

Nem as mulheres foram queimadas vivas na fatídica fábrica têxtil de Nova York, nem Jesus nasceu, respectivamente, nas referidas datas.

No entanto, como todo o mundo (literalmente) insiste em comemorar o Natal no ocorrer do Solstício de Inverno do Hemisfério Norte (uma data originalmente pagã, vale dizer), eu não vejo porquê não lembrar que o mesmo mundo ainda deve muito às mulheres, quando o assunto é “igualdade”; mesmo que através de uma data, também, inventada.
A história inventada do incêndio parece ter ocorrido porque feministas francesas não queriam que a data ficasse ligada à Comuna de Paris, e demais eventos comunistas, muitos destes, comemorados em Março, e que foram berços de algumas das primeiras manifestações dessa bandeira pelas mulheres e a igualdade de gênero.
Era mau (já naquela época) ligar a luta por igualdade, às bandeiras Comunistas, pensaram as moças… Titios Mao Tsung e Marx estão tristes – lá no céu vermelho – com vocês, garotas…

Eu sei, eu sei… Metade da audiência desse post foi perdida, quando eu disse que alguém devia algo para outrem. Ninguém quer ler que o mundo tem algo de errado e que, de alguma forma, este primeiro tem alguma culpa nisso. Incomoda. Muito. Eu sei, eu sei…

Você, meu amigo, sai de casa, faz seu melhor, paga seus impostos, não estupra ninguém… O que mais o sexo oposto pode exigir de você?

Vai minha sugestão, então: Consciência.

“Consciência” é tudo o que você precisa adquirir, , para começar a enxergar o que você diz (ou quer crer) não existir: Desigualdade entre homens e mulheres.

Somente alguém:

a) Cego;
b) Mal informado;
c) Mal intencionado;
d) Uma infeliz junção de tudo isso e, quem sabe, mais um pouco;

… Pode sugerir que toda a reclamação feminina não é mais que “bobagem”, e “mimimi”.

Ok, logo ali na frente, menciono que meu reconhecimento à necessidade da “farsa”, não tem nada a ver com suportar bandeiras político-partidárias de lado b ou lado a e, muito menos, que eu seja uníssono com as ativistas dos movimentos mais barulhentos, ou com seus modus-operandi.

Mas, vamos devagar com o andor, porque a idéia (como o santo) é de barro; e quebra fácil.

Consciência

Quando iniciei em meu primeiro emprego CLT, na Xerox do Brasil, surgiu o primeiro episódio de epifania quanto ao tema, após eu querer fazer algum tipo de reflexão coletiva sobre a data; na data.

Fiz um curto e-mail (juro pelo Solstício de inverno que não era tão longo quanto meus posts), creio que com pouco mais de 200 palavras, onde eu dizia que, embora quisesse felicitar as pouco mais de 20 mulheres com quem eu tinha contato profissional, por uma data simbólica, também queria dizer que reconhecia sua luta por igualdade e valorização na sociedade, e que sabia que estava longe o dia em que a data poderia ser só comemorada; em uma sociedade construída, não somente mas, também, sob suas costas e que, ainda assim, às subtraia o devido valor, à luz do dia, “na caruda”.

A reação das colegas e amigas me chocou porque muitas levantaram de suas mesas e me parabenizaram pessoalmente (seria eu, também, uma mulher? Tenho uns comportamentos estranhos, mas, não é pra tanto, não é?).
Algumas verbalizaram e disseram que, diferente dos chefes, outros amigos, parentes e namorados, e até mesmo do e-mail padrão do RH, eu havia sintetizado o “problema com a data”: A esmagadora maioria delas é feliz por ser mulher, por receber flores e bombons, e parabéns de todos os lados, no 8 de março.
Não há crime em felicitá-las, de verdade… Eu sempre procuro fazer esse tipo de coisa para as mulheres com grande significado em minha vida.

Mas, no fundo, não é uma data que pode ser pura comemoração e, na realidade, elas trocariam tudo isso e aprovariam o fim da data mundial, se isso garantisse a elas, igualdade com o outro sexo que compõe a espécie (tá com dúvida? Sim: Nós homens).

E a primeira coisa que você precisa reconhecer, meu querido amigo, é o tamanho do problema. E não duvide: Escrevo mais por você do que por elas… O que eu direi aqui, elas sentem na pele, todos os dias.

Segundo lugar, teu nome é mulher.

Se Shakespeare fez muita gente (“muita” mesmo, por gerações) suspirar com seu “Romeu e Julieta” (que, na verdade, é tudo, menos um aval poético à loucura de amor; e bem mais um aviso de que é idiota desrespeitar os pais e a sociedade), ele não era… Bem, como posso dizer… Um feminista…

A célebre frase de Hamlet, em contra-cena com Ofélia, em peça homônima ao primeiro citado, é bem conhecida:

“Fragilidade, teu nome é mulher”(…)

Na verdade, como 99.999% (deixei espaço para as exceções: elas sempre existem) dos entes de seu gênero e época, Shakespeare era, muito provavelmente, misógino.

mi·so·gi·ni·a
sf
MED, PSICOL Antipatia ou aversão mórbida às mulheres.

Ah mas, também, quem nunca?

Che Guevara, o Papa, nossos avós e, quem sabe, sua mãe e irmã… Todos tiveram, têm, ou terão uma antipatia com o gênero feminino (eu temo que alguém vá dizer que “mulher” não é gênero. Recomendo conversar com a Associação Americana de Sociologia [ASA] e avisar que a documentação deles está errada).
A frase de Shakespeare, em seu contexto original, é uma mentira. E, como muito do que pensamos do outro sexo, também o é, grande parte de tais conjecturas.
A fragilidade do sexo feminino, em sentido stricto, é mera construção social de dezenas de milhares de anos.
A nossa versão atual da raça humana (a espécie homo sapiens sapiens [isso mesmo: Sapiens que Sapiens]) tem cerca de 70 mil anos de história e, desse período, estima-se que a sedentarização (em oposição ao nomadismo) tenha ocorrido entre 25 e 17 mil anos antes de Cristo (ou, melhor dizendo, do primeiro Solstício geladinho dos Cristãos).
A agricultura surge, então, em torno de 10 mil, antes do “Primeiro grande festão de inverno” da Igreja Católica.
Noves fora, nada, são 12 mil anos executados de modo que o homem caça e guerreia, enquanto as mulheres colhem frutas e cuidam da “cria”.
Logo, se elas, de fato, agora são frágeis, foi por mera imposição, ou escolha (chame como quiser) social, há – mais ou menos – 12 mil anos; e não por uma inerente fraqueza constitutiva, genética, de gênero; como a frase tende a sugerir…
De mais a mais, a mulher mais forte do mundo (da última vez que vi, era Donna Moore, com a “mísera” carga de 330 Kg no Levantamento Terra; uma bobagem…) vai ser infinitamente mais forte do que 99.5% (ah, as exceções) dos homens do mesmo planetinha em que ela mora.
Não importa se você gosta de mulheres musculosas, ou não. O ponto é que elas não são inerente e intrinsecamente fracas.
Se no stricto-sensu é mentira, em sentido lato, também. Muito do que chamamos como fragilidade é, meramente (e novamente), milhares de ano em reiteração de condutas e posturas que visam o fortalecimento do bando, o estreitamento das relações que sustentam a tribo, e em última análise, a evolução darwinista, aplicada à sociedade humana, at its finest (no seu melhor).
E, se por um lado, elas abriram mão do poder natural e absoluto, em prol da comunidade que arquitetavam e suportavam (coisa que leoa alguma fez [ainda são as caçadoras mais letais e fortes de uma alcateia]), elas – as fêmeas de nossa espécie – ganharam em troca, uma banana (e, para o azar delas, nem foi no sentido bíblico [entendedores, entenderão] pois, assim, poderiam, ao menos, ser felizes sozinhas).
Sua abdicação lhes rendeu o título de “frágeis”.
Aliás, “afeminado” não é ofensa para a sociedade ocidental, à toa… Adjetivar um homem em semelhança à uma mulher, é um ótimo jeito de iniciar uma briga, enquanto ofensas ao caráter (como “canalha”, ou “vagabundo”), tem menos chances de chegar ao mesmo resultado… Vai entender o bicho-homem…

Se não são sinônimos de fragilidade ou fraqueza, com toda certeza foram forçadas ao sinônimo de “segundo lugar”…

Como eu disse, antes, foi mal negócio (não, em 1920, não em 1850, mas, há mais ou menos 12 mil anos atrás) para as mulheres, esse negócio de “sossegar o facho”.

Tivessem continuado a arranhar e morder como as leoas e, talvez, hoje fosse dia Internacional do Homem, e a Lei, talvez, chamasse João da Lapa.
Mas, como diria Mano Brown, “aqui é Capão Redondo, ‘tru’, não Pokémon”. Não adianta idealizar no faz de conta…

Não que eu acredite nas BOBAGENS que vejo em algumas homenagens, onde supõem os publicitários de “o Boticário”, ou do Dollynho, que, fosse o mundo governado por mulheres, de fora a fora, só haveria paz, amor e carinho…

“O homem é o lobo do homem”, enunciou o grande Thomas Hobbes… Sempre foi e sempre será a verdade mais triste da nossa espécie.
Com o poder e a força, homens e mulheres podem ser terríveis, ou maravilhosos. Esse fato nada tem a ver com a carga genética do 23º par de cromossomos da nossa espécie.

Mas, fato inegável é que a conjuntura da situação feminina no mundo, quanto à violência, a igualdade de oportunidades, de reconhecimento e de valor (social e econômico), é o que é, não porque assim deveria ser, ou por ser inerente do gênero feminino, mas, porque assim foi construída para ser.

Por todos nós, importante dizer. Que as moças que me leem, não tirem de seu fardo a culpa – em parte, óbvio – dessa construção, pois, “quem cala, consente” e “só tem malandro, porque tem otário“, diria o exímio Sr. embaixador da filosofia brasileira, Bezerra da Silva.
E, acima de tudo, porque o papel de vitima também não ajuda quem precisa ir à guerra. Sinto muito, de coração, meninas: Essa é uma briga que vocês não poderão se esquivar para sempre…

“Rodrigo… Quanto blá-blá-blá… Não vi um argumento bom de que elas sofrem alguma desigualdade real… Talvez, lá no Oriente Médio, mas, aqui no Ocidente, elas não têm do que reclamar…”

Fôlego… Fôlego… É tudo que preciso para não responder por lesão corporal grave, ao ouvir esse tipo de infelicidade… E, sim, eu ouço… Imagino elas…

Enquanto, “meu amigo”, você disser coisas como “eu ajudo em casa” (não se ajuda alguém a cuidar do lugar em que você mora… Se ambos trabalham fora, divide-se tudo por igual, para quem ninguém trabalhe mais, só porque tem xana e não pinto…), ainda que ela não trabalhe fora, a carga de trabalho doméstica é, muitas vezes, pior que a do escritório; sinta na pele para entender (e divida de forma justa);
Enquanto você se gabar da louça que lavou no último aniversário dela;
Enquanto você esperar “parabéns” por tudo que ela faz todos os dias, e você fez só na passagem do cometa Harley…
Bem, eu nem precisava escrever mais pra você pedir perdão (pra ela, não pra mim… Ainda tô decidindo se vale responder o artigo 129 do CP, por conta da sua infelicidade)…

MAS… Os fatos têm essa beleza inerente de bater na cara de babacas, sem que sejam facilmente ignorados… E muita gente contava com alguma pesquisa minha, para dizer o que estou dizendo, há 4 minutos, e não vou decepcionar…
Caro leitor, consciente, e que não diz bobagem à toa… Aos fatos:

Os Fatos… Tristes, e que mudam tão pouco, ou quase nada, ano após ano…

Os fatos são estes:

O IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgou, na última segunda-feira, dados tenebrosos de como anda a igualdade entre os sexos que você imagina boa, na Ilha de Vera-Cruz (vulgo, Brasil).

Brasileiras trabalham, em média, 7.5 horas a mais que os brasileiros.

90% das brasileiras fazem o trabalho doméstico, enquanto 50% dos brasileiros declararam fazer, também. Esse número, pasmem, é idêntico à 20 anos atrás. Nada mudou, e estamos em 1995 ( o estudo, em questão, finalizou a série histórica em 2015).
Significa, em outras palavras que, embora estejam mais presentes no mercado de trabalho, continuam, elas, as principais responsáveis pelo lar, levando-as a ter jornadas duplas de trabalho. E ainda perguntam porquê elas deveriam se aposentar mais cedo, em uma sociedade tão desigual com elas.

Em 1995, 23% dos lares tinham chefes de família, mulheres. Em 2015, 40% dos lares brasileiros dependiam das mulheres. E isso não significou nenhuma redução da dupla jornada (emprego e residência), nem a equalização dos salários que, na verdade, seguiram inalterados quanto à escala, ao longo dos últimos 20 anos, entre homens e mulheres brasileiras.

Confira por si: Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça – 20 anos

Mesmo que a mulher faça EXATAMENTE o mesmo trabalho do homem, no Brasil, ela ganhará apenas 73.7% do que ele ganharia.
Se você não acha assim tão relevante, pegue a diferença percentual desse montante, e dê para sua colega de função… Afinal, não é realmente relevante, não é mesmo?

Segundo ranking do Fórum Econômico Mundial, o Brasil precisa de 100 à 200 anos, para que homens e mulheres sejam economicamente, tratados como iguais.
As outras desigualdades, só o Pai celestial do dia mais longo do inverno no H.N., pode saber.

Ok… Talvez, o Brasil seja um lugar desigual para elas. Mas, é porque somos terceiro mundo, não?

Ha… Haha…

Não.

Aqui, um pouco do que é ser mulher, no terceiro planeta, de um dos 500 sistemas solares da Via Láctea, a contar a partir da estrela que chamamos de “Sol”…

Nos EUA, há mais CEOs (presidentes de empresa) chamados “John”, do que mulheres nessa posição. Obviamente, o que deveria qualificar alguém para uma vaga não é, nem o nome, nem o aparelho reprodutor, mas “há algo de podre no reino da Dinamarca”, como diria Hamlet, se vários John’s eram tão mais competentes do que todas as mulheres interessadas em ser CEOs, juntas, nessa corrida, naquele país.

A consultoria Ipsos realizou pesquisa com 17 mil pessoas, em 23 países com bons índices de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), e perguntou às mulheres se elas creem ter a mesma chance e oportunidade que os homens. Apenas 4,5 em 10, acreditavam que sim. Já, 6 em 10 homens, pensam que elas têm as mesmas oportunidades.

Nos EUA, a impressão errada só piora. 3/4 dos americanos acham que a sociedade é suficientemente igualitária entre os gêneros, enquanto só 50% das americanas acredita nisso.

Ah, se a violência contra a mulher fosse exclusiva do Brasil… Nos EUA, 1 em cada 4 mulheres sofrerá violência sexual, ao longo da vida. E, ainda por lá, o maior risco físico que uma mulher entre 18 e 44 anos sofre, dentro de sua casa, é o risco físico da violência doméstica. 80% das violentadas vão desenvolver problemas cardiovasculares, e 70% delas vai se tornar alcoólatras.

E, embora o mundo tenha quase a mesma proporção entre os gêneros (101,8 homens para cada 100 mulheres, segundo relatório do Instituto Pew, com base en dados da ONU de 2015), quando se trata de linha da miséria, as mulheres não ficam com o segundo lugar… Entre 10 adultos miseráveis, no mundo todo, 6 serão mulheres.

Desigualdade, ou simples diferença entre os indivíduos?

Talvez, e por incrível que pareça, o ponto em que geralmente as pessoas mais se atém, são os que citam a diferença salarial.

Também, pudera: Uma das mais recentes polêmicas salárias entre homens e mulheres ocorreu na Associação Profissional de Tênis (ATP), entre ninguém menos que Djokovic e Serena Williams. Salário é sempre hot topic….

Especificamente NESSE cenário da ATP, eu não acho que seja um problema central da causa feminista. De fato, em uma liga como essas, o teto salarial é determinado pelo valor que a liga arrecada com os eventos. Se eventos de tênis femininos vendem menos, ou vendem ingressos mais baratos, é uma questão muito mais de contratos, e de imposição das atletas às ligas e organizações, não obstante, é claro, a chance de que a expectativa errada dos organizadores seja de que elas aceitarão ganhar menos, por serem mulheres.
E aqui, sim, teremos um problema.

De todo modo, não estou defendendo que não existem diferenças que justifiquem salários diferentes. É claro que existem.
Só não podem existir se, sem politicagens e discursos ocos e completamente falsos, a real explicação para a diferença salarial seja uma vagina ou um pênis.
E não é só sobre isso que se resume a bandeira de igualdade entre os sexos.
Se há diferenças, vamos entende-las, tratá-las, e endereça-las. O que não pode continuar é a diferenciação por motivos que não determinam capacidade, competência, brilhantismo que cada ser humano (homem ou mulher) é capaz de ter.

Admiro e apóio a causa, mas não quem CAUSA…

Como eu disse, lá no começo, meu apoio à bandeira do feminismo e meu reconhecimento de que há, sim, muita coisa errada na relação social que homens e mulheres construíram, e no que cada um recebe de volta, no que deveria – idealmente – ser algo simbiótico; nada disso e dessa postura significa que eu concorde com práticas de boa parte das ativistas mais barulhentas nessa batalha.

Algumas e alguns dirão que não conseguirão o respeito e a igualdade que buscam, sendo comportados.

Do meu lado, me limito a dizer que, como na questão racial (que, na verdade, leva o nome errado: É uma questão de discriminação dermatológica, já que a raça é só uma: Homo Sapiens²) “jogar o jogo”, causando, é um ótimo jeito de enfrentar repressão, endurecimento do conservadorismo, e quase nenhum avanço.
Quando você me xinga e me convence que sou um monstro, como Maquiavel advertiu, eu posso decidir ser o monstro que você sugere que eu seja. Causas como a “Racial” e a da igualdade de gêneros precisam de gente inteligente e articulada à frente, e não de gente que sabe gritar e ofender (como 4 as feministas que bateram no arcebispo belga, ou os negros e negras que agrediram a brasileira branca com câncer, por “apropriação cultural” ao usar um lenço na cabeça… Bom, deixa pra outro artigo).

Por ser uma questão onde, um lado está “ganhando” e outro está perdendo, somente o diálogo e convencimento de que é um problema para todos os lados, sim, e não um problema “só das mulheres”, (ou “só dos negros”) pode fazer com que ambos os lados trabalhem na questão… Se só o “lado perdedor” se movimentar, e o outro lado “sentar” na causa, 200 anos é até pouco para alguma mudança nesses panoramas.
E a culpa, também é de quem grita demais e de quem causa demais. Essas pessoas podem até achar que estão nos seus direitos, pelo que passam e sofrem, mas, são tão inimigas da boa causa e da verdade, quanto seus carrascos (merecendo a alcunha, ou não).

Da mesma forma, nem toda idéia com a etiqueta “feministas aprovam”, terá o meu apoio. Em primeiro lugar, porque ninguém fala por mim. Em segundo, porque algumas são simplesmente idiotas, e buscam qualquer outra coisa, mas não IGUALDADE… Como a proposta de um número fixo, mínimo, de congressistas mulheres, eleitas.
A idéia de um número mínimo de candidatas me parece correta.
A idéia de candidatas eleitas na marra, não. É incompatível com “democracia”, supor que o sistema é forçado a eleger mulheres que não representam o povo brasileiro, mas ingressaram lá por “cotas”.

A causa é legitima, por tudo que eu já demonstrei. Quem causa, contudo, não tem legitimidade, e não ajuda em nada.

A igualdade de gêneros é boa para todos. O difícil é convencer todos os players, quanto à isto…

A igualdade entre os gêneros é, de verdade, boa para todo mundo. Eu nem vou tentar detalhar TUDO que essa igualdade pode significar (até porque, cada ponto poderia ser um artigo, por si só), mas, vou falar de pontos básicos e imediatos que tal igualdade traria.

Hoje, o homem ainda é mais bem pago que a mulher, mesmo que ambos tenham o mesmo cargo e mesma formação profissional. Com isso, o homem tem menos liberdade para se demitir, ser demitido, e tomar qualquer rumo diferente na carreira, já que ele é o que traz o mais relevante rendimento para as finanças do lar, e tem a pressão extra de não poder fracassar nisto.

Ao assumir funções de mais prestígio, ou mais responsabilidade, o homem é privado de estar junto de sua família, participar da criação de seus filhos, e outros aspectos que deveriam ser mais importantes que qualquer carreira profissional. Se houvesse igualdade real e sustentável, a escolha de quem fica mais tempo com as crianças poderia ser livre de consequências para toda a família. Claro, não há bônus sem ônus, mas, do jeito que é, hoje, é quase impossível “inverter os papéis”.

Se a mulher é frágil, delicada, emotiva, e todos os adjetivos que são, paulatinamente usados para defini-las, os homens são fortes, valentes, corajosos, guerreiros, infalíveis, implacáveis, e uma série de besteiras que tentam definir genericamente, cerca de 7 bilhões de pessoas únicas. Como a sociedade só sabe funcionar se todo mundo jogar esse jogo, com essas cargas e papéis, qualquer indivíduo da espécie que falhe em entregar tais atributos, está mais perto da depressão, e de todos os problemas que advém disso. O sexismo, nesse caso, não aprisiona só a mulher, mas também o homem, já que o comportamento aceitável é estrita e rigorosamente imposto a cada um de nós.

Enfim….

Eu, embora costumeiramente pessimista, me forço a acreditar, sim, que um dia, cedo ou tarde, o dia 8 de março poderá ser um dia descartável.
Infelizmente, contudo, esse dia ainda não chegou, nem está no horizonte visível, e há muito do que reclamar, e muito pelo que brigar.

Eu, homem, branco, heterosexual, e todos os demais padrões básicos, ratifico meu apoio e reconhecimento de que a causa feminista tem validade e precisa, sim, ser defendida, não só pelas principais afetadas, mas por toda a sociedade.

Viver em uma sociedade igualitária não é uma ameaça para quem “está no controle” do personagem dominante (seja lá o que isso signifique, já que não me sinto sobre o controle de nada).
Pelo contrário: Viver em uma sociedade onde homens e mulheres são iguais (não quanto à atitude, ao gênio, estilo, ou postura, mas, quanto ao reconhecimento e tratamento social), é algo libertador para todas as partes.

Uma “farsa” pela qual, com certeza, vale a pena lutar.

Parabéns à todas vocês que, mesmo diante de tudo de ruim que eu citei aqui, ainda levantam e vão às ruas, continuar lutando por espaço e por igualdade, travando a boa batalha, caindo e sendo derrubadas, mas, achando fôlego e suporte para se levantar, e continuar em frente. Isso é a pura demonstração da fibra humana que todos nós partilhamos, a despeito do sexo, da cor, da origem, e todas essas divisões que em nada limitam ou definem o potencial humano.

Finalmente, um parabéns especial à minha mãe, Raquel; uma mulher de uma fibra incrível, “matando um leão por dia” desde que me conheço por gente.
E, para uma das mulheres mais guerreiras que conheço: Minha noiva, Bruna, que não obstante tantos desafios nos mais variados prismas da vida, sempre acha um jeito otimista e forte de ver o lado bom da vida, e seguir lutando e vencendo tantas batalhas quanto possível.

Parabéns a todas vocês!

Espírito Santo: A Ameaça Fantasma

By Tânia Rêgo/Agência Brasil [CC BY 3.0 br (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/br/deed.en)], via Wikimedia Commons
(ES) – Homens do Exército Brasileiro, atuando em Vitória, sob efeito de GLO (Garantia de Lei e Ordem) – (Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Olhe a imagem, acima: O que você vê?
A tensão que salta dos homens fardados? A aparente tentativa das moradoras da região de demonstrar que não temem uma eventual repressão de um Estado tentando recuperar o controle sobre parte de seu próprio território? O sentimento de hostilidade que uma viela impõe, em uma região de clara construção desordenada (e, não difícil supor, ilegal)? A suposta ameaça dos homens, em posição mais elevada de terreno, talvez, em desafio à Ordem que os fardados deveriam trazer?

Bem, tudo isso está na imagem. E você estaria certo(a), se verificasse isso tudo.

Eu, por outro lado, não consegui tirar o olho da composição da fotógrafa que, intencional ou não, foi extremamente oportuna à fotografia como registro jornalístico e histórico, no melhor estilo “uma imagem vale mais que mil palavras”: A placa, afixada no poste, onde lê-se “Rua sem saída“.

Sem Saída…

“Sem saída”, é o exato resumo do sentimento que acredito que muitos capixabas sentiram, ao lidar com a volta da barbárie, anterior ao conceito básico de Sociedade Democrática, em uma “pequena” (porque, poderia ter sido bem pior) amostra do que é a falência total das funções primordiais de um Estado de Direito.

Quando Jean Jacques Rousseau escreve “Do contrato social”, ele não deixa espaço para dúvida quanto a função central de um Estado: Garantir direitos e impor deveres através do monopólio da Força (ou “violência”).

Tal monopólio é obrigatório porque, no Direito Natural em que todo ser vivo nasce, a Força é o instrumento central da manutenção do Direito: Eu posso o que você não pode, porque sou mais forte do que você. E você, em relação ao seu vizinho mais fraco, pela mesma razão.

Oras, sendo o Direito Natural tão mais benéfico aos que detém o maior poder natural (ou seja, o maior músculo, a maior arma, o maior poder de fogo), por que diabos eles teriam abdicado disto, em troca do Direito construído pelo Contrato Social? Bem, não há como resumir a resposta de Rousseau, já que ele escreveu um livro todo só para isto. Para não obrigar a leitura (muito embora, eu recomende, fortemente), vou tentar resumir este porquê, com uma síntese da própria obra de Rousseau, e outra sentença do, também francês, pensador, Etienne de La Boétie, respectivamente:

  • A Força não produz Direito. Por ser um elemento da física, nenhuma moralidade pode advir da Força. Logo, os direitos provenientes do uso da Força duram tão somente o tempo em que esse elemento físico puder ser sustentado, e tal tempo é sempre finito. O “verdadeiro” Direito descende de ideais. E ideais perduram indeterminadamente, enquanto forem benéficos à uma sociedade, em um dado período histórico.
  • Frágil por natureza, de onde, a todo instante despontam os escândalos pois, o tirano não tem amigos, não ama, nem é amado: “O que torna um amigo seguro do outro é o conhecimento de sua integridade. Entre os maus, quando se juntam, há uma conspiração, não uma sociedade; Eles não se entre-apóiam mas, se entre-temem. São cúmplices”.

Considerando, especialmente, o  que Etienne propõe, é fácil perceber que, na tirania e violência, não há amizade mas entre-temor. Em uma releitura minha, para sair de 1552:

O Dono do morro não dura mais do que o tempo que conseguir ser mais assustador em violência e possibilidade, do que aqueles que o servem, e que desejam sua morte e seu trono, em simultâneo.

Considerando essas idéias, fica mais claro o porquê de homens fisicamente fortes concordarem em se equivaler com homens mais fracos. Bem, pelo menos, boa parte deles. A “beleza” do Contrato Social está em propor que, ao abrir mão do Direito Natural, baseado na força que cada individuo é capaz de gerar, todo mundo ganha um Direito Cívil, legítimo por descender de ideais partilhados e onipresentes, defendidos e aspirados pela massa daquela comunidade.
É, também, tal troca que permite ao mais forte dormir como um bebê, sem temer que o mais fraco o assassine enquanto ele tenta dormir. Não há cúmplices porque o poder é entendido, assegurado e compartilhado por todos, e não mais imposto do mais forte ao mais fraco. Como a força não gera direito, matar que  tem mais do que eu, não me garante nenhuma vantagem sobre a minha vitima, já que desgraçarei minha imagem, serei encarcerado (ou mesmo, morto), e não vou ter conseguido tudo o que desejei, do mesmo modo.

Tudo isso, para dizer que a função básica do Estado é o monopólio da violência, como fonte, garantia e até mesmo ameaça para que cada um cumpra seus deveres, respeite direitos alheios e assim, possa ter seus próprios direitos garantidos e preservados.
Mas, se outras fontes, paralelas ao Estado legitimo, podem gerar a mesma ou ainda mais violência do que o próprio Estado, então, todo o sistema de garantia de direitos e cumprimento de deveres, corre o risco de implodir.
Como o cidadão(ã) não tem mais a garantia da proteção de seus direitos, sua lealdade ao Estado e ao Contrato Social é seriamente ameaçada, e ele passa a flertar com o retorno ao Direito Natural, já que este parece, ao menos, mais garantido do que aguardar por um Estado omisso que não virá resgatar a Lei e a Ordem de outrora.

146 mortos não são nada: O verdadeiro pavor está na disposição de cada um…

146 mortos em 10 dias? Isso não é nada. Nada. Estamos falando do país que, em 2014, matou 143 pessoas, diariamente, de forma violenta. 143/dia… 146 em 10 dias, capixabas? Isso não é nada para nosso record. E todos sabem como nós somos competitivos. Vamos lá, Espírito Santo! Vocês não estão nem tentando…

Mas, o verdadeiro pavor vem das cenas de saques, espancamentos, assalto de pessoas completamente vulneráveis, depredação da coisa pública, ataque aos meios de transporte: O horror do que se passa na sociedade capixaba está na disposição de grande parte de sua população em abraçar o caos social, como meio legitimo de ser e estar.

Para um país cujo o povo se gaba de ser pacífico e não estar em guerra, as cenas gravadas em Vitória dão conta de uma cidade na iminência da falência moral (não religiosa: mas, de olhar o próximo como alguém que poderia ser você e, daí, respeitá-lo, pelo simples exercício da empatia).
O silêncio era absoluto nas ruas, e o estado de depredação dos patrimônios era muito grande nas vias mais tradicionais do comércio capixaba, lembrando um local, pouco antes da tormenta, ou da invasão de tropas inimigas.
Igualmente tragicômico, para mim, foi o video veiculado na mídia, de um carro tocando “Imagine” de John Lennon, e projetando a palavra “Sem medo” em paredes, enquanto as pessoas gritavam “hurru”, por trás de grades e completamente apavoradas para pisar fora de suas casas (ou seria, “de seus cárceres”?). NADA contra a esperança. Mas, para o bem ou para o mal, palavras de ordem não corrigem a falência estrutural de medidas e políticas de segurança pública, e a erosão dos tecidos sociais do nosso povo. É, simbolicamente e na minha opinião, como tentar vender a imagem de um povo resistente e “raçudo”, por cima dos 146 corpos mortos, empilhados.

O maior pavor está na disposição malévola de cada cidadão. Claramente, muitos dos saqueadores não eram, até então, gente envolvida com roubos e furtos. O efeito mais nocivo dos eventos de Vitória para o imaginário do brasileiro (e, em algum grau desconhecido – por ora – no imaginário estrangeiro) é perceber que na falta de agentes fardados que façam o policiamento ostensivo (portanto, que é exibido com fins de manter o “fantasma” da punição no “radar” de cada um), qualquer cidadão brasileiro, mesmo aqueles sem passagem por crimes, se convertem logo à marginalidade, e implantam a imagem de um Estado em ruínas. Em pouco tempo, as ruas da capital do Espírito Santo, pareciam tiradas de cenas de filmes apocalípticos.
A central diferença é que, para meu completo pesar, a única praga devastando o local, não era uma horda de zumbis, ou uma raça alienígena, mas sim, o próprio povo que lá morava.
Um pequeno desequilíbrio no sentimento e na contabilidade/percepção do risco de sofrer uma sanção, e o brasileiro, mais uma vez, mostra o pior que pode ser.

E, se essa onda de paralisação afetou o Espírito Santo, por que não afetaria outros estados?

A Ameaça Fantasma…

By Tânia Rêgo/Agência Brasil [CC BY 3.0 br (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/br/deed.en)], via Wikimedia Commons
Vitória (ES) – Clima de tensão durante protesto de moradores em frente ao Comando Geral da Polícia Militar do Espírito Santo em Maruípe. Militares do Exército fazem a segurança da região (Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Eu já falei, por aqui, sobre o que penso quanto ao laço entre Segurança Pública e Nacional, e citei algumas razões que acredito explicarem o que há de errado com esse pilar da democracia, em nosso país. Não vou repetir aquilo tudo.

Mas, o que muito conterrâneo meu ainda não percebeu é que a situação das PMs, no Brasil, é um gigantesco barril de pólvora. E estamos brincando de acender e apagar o paviu, faz um tempo.
E o Espírito Santo foi, apenas, uma degustação do que pode vir por aí, se o governo federal não for capaz de cobrar dos estados o que a Constituição de 1988 os obriga (por exigência de seus antecessores [governadores] aos constituintes, diga-se de passagem):

  • Capítulo III – Da Segurança Pública
    • Art 144: (…)exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos:
      • §6 “As polícias militares e corpos de bombeiros militares, forças auxiliares e reserva do Exército, subordinam-se, juntamente com as polícias civis, aos Governadores dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios”.
  • Resumindo: Segurança pública é dever regulatório e executivo da autarquia ESTADUAL, e não da União.
    • CURIOSAMENTE, como está ocorrendo no Rio de Janeiro, os estados, falidos, tentam empurrar a conta de sua incompetência para a União. E quem paga a conta do deslocamento  e manutenção das tropas, para estados onde a má gestão arruinou as finanças? O país inteiro.
    • Muitas pessoas dizem “onde está o governo federal que não intervém!?”, mas, por ignorância, ou por pura falta de noção de que políticas e manutenção de direito custam dinheiro, supõe que, como um pai, a União deve ficar acudindo estados que faliram por ingerência, tampando as consequências nefastas do populismo como ideal de gestão econômica, o tempo todo, em todas as ocorrências.

Muito mais por sorte do que por competência, a situação da paralisação policial ainda não se alastrou pelos estados falidos dessa nação, mas, o governo do Espirito Santo será decisivo na “jurisprudência” que deve ser utilizada para analisar outras eventuais paralisações de funcionários públicos tão críticos quanto militares estaduais, e que tipo de resposta, futuros movimentos similares devem obter se pressionar o governo de uma forma “indefensável”, dada a imensa gravidade da situação.

Mais do que isso, o tecido social brasileiro está fortemente desfiado. Temos um momento de muitas tensões políticas, uma total crise de representatividade com os políticos eleitos e sua distância das metas e das demandas de quem os pois lá, mais uma série de indicações duvidosas em cargos públicos, e tomadas de decisão ruins.

Os Policiais estão errados. Mas, a Sociedade também está…

Não há porque perder tempo, relativizando:  O artigo 142 da CF/88, §3, inciso IV, fala exatamente da proibição do direito de Greve ao Militar. Ponto. O crime, além de Constitucional, também é Militar, legislação muito mais “dura” em sua condução e aplicação, do que o Direito Penal “Comum”. Na verdade, e sem tornar eterno este artigo, afirmo que a militarização é uma das últimas amarras que faz a Polícia ostensiva brasileira trabalhar, mesmo sendo tão odiada e abandonada. Com certeza, um contra-senso para muitos que pedem a desmilitarização, mas, exigem que a tropa volte ao trabalho, imediatamente.

Além disso, a lei federal 7.783, que regula o direito à greve, é explicita ao dizer em seu artigo 11, que:

“(…)os sindicatos, os empregadores e os trabalhadores ficam obrigados, de comum acordo, a garantir, durante a greve, a prestação dos serviços indispensáveis ao atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade.

Parágrafo único. São necessidades inadiáveis, da comunidade aquelas que, não atendidas, coloquem em perigo iminente a sobrevivência, a saúde ou a segurança da população.

Em resumo, nenhum policial, militar ou civil, tem direito à greve como meio de reivindicação por melhores condições de trabalho, à luz da legislação brasileira vigente.

Não obstante à essa obviedade, ano após ano, assistimos à greves de Policiais Civis e Federais, além das “operações padrão”, que nada são além de uma “greve branca”, onde o servidor público bate ponto, mas não faz nada. No entanto, a parada dessas polícias, não causa efeitos tão visíveis quanto a paralisação da Polícia Militar.

Nunca vimos, em um passado um pouco mais distante, a paralisação de policiais militares. Pense em 10 ou 20 anos atrás, e notará que essa força, responsável pelo policiamento ostensivo, nunca parou de trabalhar, independentemente das condições oferecidas. O primeiro protesto grevista, pós-democratização, nesse tipo de organização, ocorreu somente em 2014, na PM da Bahia.

Temos uma Polícia Militar odiada pela população que ela deve proteger, abandonada à própria sorte quanto à investimento em materiais de trabalho (coletes balísticos vencidos ou fora das especificações, viaturas “baixadas”, esperando peças e sem nenhuma blindagem [muitos policiais morrem, no Brasil, só por entrar de viatura na “rua errada”] e armas que disparam com o simples chacoalhar do corpo, com dedo fora do gatilho), sem treinamento adequado e sem remuneração que justifique melhores recrutas.

Re-significando um artigo do Blog “Para entender Direito“, “se pagar bem a Polícia não garante sua qualidade, pagar mal é uma receita certa para o desastre”.

Para ficar no básico, um policial em São Paulo, treina tiro a cada 12 meses, se der sorte. Vários especialistas em Segurança Pública, no entanto, recomendam um treinamento trimestral, que, muito além de mirar em alvos de papel, e ficar cheirando a pólvora, deveria cobrir:

  1. Correção de falhas com ambas as mãos;
  2. Simulações de falhas de funcionamento de diversos tipos;
  3. Recarga tática e de emergência com qualquer mão;
  4. Manipulação de travas e mecanismos com as 2 mãos;
  5. Baixa luz e julgamento (tomada de decisão) de tiro;
  6. Disparo enquanto deslocando-se para o abrigo;
  7. Disparo com uma mão;
  8. Disparo e correção de falhas de várias posições de “policial abatido”;
  9. Enfrentamento de múltiplos alvos.

A primeira idéia que deve ocorrer em muitos que lerão isso é que “não devemos treinar o policial para ser mais letal, ensinando-lhe a ser melhor com armas de fogo”. E é por esse tipo de afirmação que acredito que engenheiros não devem fazer operações cardiológicas, e mecânicos não devem lecionar botânica.

Se cada um ficar no seu quadrado de competência, a sociedade vai bem mais longe. Supor que um policial é mais letal  por conhecer melhor o equipamento (e o framework que envolve o emprego desse equipamento) que protege sua vida, é o mesmo que supor que um piloto de fórmula 1 é mais perigoso que o jovem recém habilitado, nas estradas.

 Então, temos uma tropa que é mal recrutada (porque tem um salário que espanta qualquer candidato de nível melhor), mal treinada, odiada, tida como inimiga de boa parte da população, e alguém se espanta quando eles decidem parar? Para mim, o espanto é ter dado certo por tanto tempo, a despeito de tudo o que se constata em erro.

O rompimento entre Sociedade e Polícia é pra lá de cretino porque, nós, sociedade, deveríamos nos lembrar que abrimos mão do Direito Natural, por alguma razão (porque os tiranos são sempre mortos por sua “linha sucessória”). A Polícia é a realização da idéia de “Monopólio da Força/Violência” que faz o Estado ser respeitado, as leis, cumpridas, e os Direitos, individuais e coletivos, garantidos.

Se a Polícia é má, corrupta, ineficiente, é bom lembrarmos que ela não recruta estrangeiros (só brasileiros e, no máximo, nacionalizados), somos nós, sociedade, que  desprezamos seu trabalho, sua formação e importância, e nós que não ligamos se ela é sucateada e arruinada por iniciativas da gestão pública, década após década.

Em uma sociedade, como a nossa, que crê ter uma miríade de direitos, mas pouquissímos deveres, não é difícil entender como chegamos ao ponto em que estamos. Achamos merecer muito, sem fazer absolutamente nada, e vemos deveres de todos outros para conosco, enquanto só temos o dever de reclamar do que não temos. Mergulhados nesse egocentrismo, não conseguimos perceber o óbvio: O que explodiu em Vitória, foi só o que ocorre todos os dias, à meia-luz, e em becos escuros.

Mas, análogo a pedir um prato em um restaurante baiano, não importa quanto tempo demore, a conta sempre chega.
E se a piada lhe pareceu ofensiva, para mim, mais ofensivo é ouvir de alguém que se considera inteligente, que estaríamos melhor sem a Polícia.
Somente um louco que ignora a essência humana, em especial, a essência do nosso povo, pode propagar as bobagens de uma sociedade auto-regulada, como algo viável.
Na ausência de um Estado Uno, monopolizador da Força, o Contrato Social é rasgado; o tecido social é destroçado, e o país inteiro se torna um pesadelo ampliado, aos moldes exatos do que vimos ocorrer com o infeliz povo capixaba.
O extrato que forma nossa nação, sem o medo da repressão estatal, não é 1% melhor do que vimos em Vitória.

Do Povo, Pelo Povo, Para o Povo: A Violência é o melhor que temos à oferecer, uns aos outros?
O Espírito Santo parece dizer “Sim”.

Doria, o piche, e o estranho “Instituto do Direito Colateral” brasileiro…

Antes de qualquer discussão, peço que assistam ao vídeo, abaixo:

Bem, metade da nossa discussão, gira em torno desse vídeo e, outra metade, sobre parte da argumentação contra as medidas (e, em especial, o combate à pichação) do novo prefeito da cidade de São Paulo.

Doria completou o primeiro mês de sua gestão, no último sábado, dia 4 de fevereiro.

Em apenas um mês, já conseguiu alguns avanços significativos para seu plano de governo e polêmicas, dignas de alguém com muito mais tempo no cargo.

Ao meu ver, bem ou mal, Doria parece estar cumprindo parte do que foi sua promessa de campanha, e em pouco tempo.
E aqui, faço a primeira advertência para quem insiste em brincar de futebol, na política: Você não pode cobrar algo que ele não prometeu como candidato, e isso vale para os demais candidatos. É óbvio que surgem novas prioridades, e é óbvio que as demandas mudam ao longo de 4 anos de gestão.

Mas, até aqui, ele parece estar com uma boa memória do que foi sua campanha, e quem votou nele deve estar satisfeito de vê-lo cumprido um bom punhado das metas que propagandeou na corrida pela prefeitura de SP, já “na largada”.

Outra coisa cômica do “Corinthians vs. Palmeiras” que é a política por aqui, especialmente na maior cidade do Brasil, é que enquanto Doria é chamado, pejorativamente, de playboy, “armário da Ralph Lauren”e etc, Fernando Haddad nunca foi criticado por sua classe social, sua riqueza, e o fato de ser professor em importantes universidades e viver em um bairro de alto padrão da cidade.
Claro: Como isto é uma briga de torcidas, não é difícil ver os elogios que são feitos a Doria, não terem sido feitos às boas ações (e foram mais do que uma só) da gestão anterior. É pitoresco. Mas, é, também, triste. Delata o tamanho da vergonha que deveríamos ter, quanto ao nosso nível de evolução cultural e consciência política.

Bem, este não é o centro da minha argumentação de hoje. O centro é:

Por que alguém teria o direito de pichar propriedade alheia?

Vi uma porção de movimentos, historicamente mais ligados à discursos socialistas e outras vertentes do pensamento de Esquerda política, criticando fortemente a ação de limpeza do corredor Norte-Sul que, entre outras vias, inclui a Avenida 23 de Maio; historicamente, também, um local repleto de grafites, além de pichações.

Uma das matérias mais reveladoras sobre o assunto foi veiculada na Globo News, no programa “Entre Aspas”, com o arquiteto e urbanista, Martin Corullon, e também, o atual secretário da Cultura da gestão Doria, André Sturm.

Um dos pontos-chave da argumentação de Martin é que “a pichação não pode ser combatida com tinta, mas as raízes e os porquês do pichador têm de ser entendidos, primeiro. Eles não têm acesso à lazer, à cultura” e, bem… Como de costume, “o grito dos excluídos” surgiu, de novo. Grito dos Excluídos é o nome de um movimento que tem importância e representatividade, mas também é como eu, sarcasticamente, chamo esse tipo de argumentação que justifica toda e qualquer ação, a partir da inexistência de um fato ou premissa que o argumentador julgava necessárias ou indispensáveis, para que o autor da ação questionada, não a fizesse.

Para o azar de Martin, dá pra ver que o pichador do “Profissão Repórter” não tem nenhuma pichação na casa dele… Afinal, “em casa é o descanso, o lar, a tranquilidade… Só na mente e no coração”… HAHAHA… Difícil não rir alto… Especialmente, depois de ver a argumentação de Martin de que “o pichador está gritando suas verdades, e angustias, de tudo que ele foi privado pela sociedade”, e etc. e etc…

O nome técnico do “grito” seria “Instituto do Direito Colateral”…

Em Direito, durante a faculdade, os alunos se deparam, aqui e ali, com “Institutos”. O Instituto do Habeas Corpus; o Instituto da Prescrição; o Instituto da Presunção de Inocência (que, em termos técnicos é sempre explicado erroneamente. Não existe “Presunção de Inocência”, mas sim, o “Princípio da Presunção de Não-culpabilidade” [parece a mesma coisa, eu sei, mas acredite: Nos meandros da execução penal, não é!]).

Enfim, um “Instituto”, no Direito, é um conjunto de idéias e mecanismos legais e para além da norma (como os costumes, as aplicações e, os casos práticos) que formam um conceito sólido do Direito como ele o é, e fundamentam tanto peças de defesa, como “dão munição” às denúncias do Ministério Público, e daí por diante.

Pois bem: Eu ainda não posso fazê-lo, e espero que ninguém roube minha idéia até lá, mas meu mestrado em Direito será sobre “o Instituto do Direito Colateral Brasileiro“.

Talvez você até consiga achar o termo “direito colateral” por aí, mas o Instituto… Ah, esse é de meu próprio cunho. Inédito. E será meu caminho para o Stricto-Sensu.

Tal instituto, é arraigado e está na cabeça de quase todo brasileiro (o que torna minha tese ainda melhor e mais forte, já que “o costume gera lei”) da seguinte forma:

  • Na ausência de um dado direito, ainda que ele seja só uma expectativa de direito, outros direitos e garantias surgem.
  • Como nada explica melhor do que exemplos:
    • “Como meus pais não se preocuparam com meu ensino, e o Estado não tinha escolas excelentes, é meu direito roubar o carro que nunca terei, trabalhando”.
    • “Como minha mulher me chifrou, após ter me jurado fidelidade na frente de um Juiz de Paz, ou do Padre/Pastor, é meu direito meter a mão na cara dela”.
    • “Lá perto de casa, não há parques. Logo, tenho o direito de pichar nos bairros chiques da cidade”.

Como deve ter sido suficiente, vou parar por aqui.

O “Instituto do Direito Colateral” surge sempre que você, individuo, cidadão ou não, entende que a ausência, supressão, falha, ou qualquer outro problema com um dado direito seu, lhe concede outros tipos de direito que, na verdade, você não tem.

No estudo do Direito, uma das máximas é “Dois erros nunca farão um acerto”.

Como toda lei e regra que se preze, é preciso ter algum tipo de exceção para lidar com a realidade, e essa idéia de “Dois erros” também tem exceções. Nós as conhecemos como “Excludentes de Ilicitude”.
Talvez, existam outros exemplos de exceção, mas as Excludentes são um capítulo interessante, e demonstram como o Direito lida com a excepcionalidade da vida.

A definição teórica de “Crime” é de que há necessidade de conduta humana positiva (ação) ou negativa (omissão) e, ainda, que essa conduta seja típica, ou seja, que a mesma esteja descrita em lei como infração penal/crime. Também, o fato precisa ser anti-jurídico, ou seja, contrário ao Direito, sem condição que exclua sua injuridicidade. À tudo isso, damos o nome de divisão tripartida (culpabilidade, tipicidade, antijuricidade) que transforma “Fato” em “Crime”.

E é no argumento central, a Tipicidade, que as Excludentes atuam. Elas são reguladas pelo artigo 23 do CP (Código Penal) e são 4, ao todo:  O estado de necessidade, a legítima defesa, o estrito cumprimento do dever legal e o exercício regular de direito. (grifos e negritos para facilitar a identificação/separação).
Através dessas 4 situações, o Direito permite que um fato tipificado na lei como transgressão/infração/crime, seja considerado Juridicamente perfeito, e portanto, “não-criminoso”.

Não vou detalhar um por um, já que isso de nada acrescenta ao assunto central, mas vejamos o que essas Excludentes demandam, e como um individuo se enquadra (ou não), nelas.

O estado de necessidade é uma condição onde há iminente ou atual perigo à um direito, perigo este, não provocado pelo agente, e para proteger tal direito, outro direito será preterido/desrespeitado. É o estado de necessidade que torna o furto famélico um “não crime”. O furto famélico é aquele em que o individuo, para proteger a vida (sua ou de outrem), ameaçada pela inanição corrente ou iminente, furta alimentos para manutenção de sua vida ou da vida de alguém por quem ele é responsável.

  • De cara, algumas coisas devem ser ditas: O estado de necessidade não pode ser forçado pelo agente que, mais tarde, o alegará como excludente de ilicitude. Se você queimar todo  seu dinheiro em apostas, e der todos os seus alimentos para doação, você causou a inanição que, agora, tenta combater.
  • Também, o Estado de necessidade é estrito em dizer que os direitos não podem ser equivalentes. Por este motivo, não existe “roubo famélico”. Se você tinha dinheiro para ter uma arma (ou o fato de ter um bem [a arma]) por que não a trocou por dinheiro, para cessar sua fome? Da mesma forma, se sua vida está em risco, você não pode ameaçar a minha, para manter a sua (nesse caso, inclusive, eu passo a ter a próxima excludente ao meu favor). Toda vida tem o mesmo valor.

Sobre a legitima defesa, nem preciso explicar muito, exceto por 2 ou 3 pontos que as pessoas costumam ignorar ou ter a explicação errada:

  • O primeiro ponto é que a legitima defesa pode ser minha ou de outrem: Ao ver um vizinho ou vizinha, ou mesmo um transeunte na via pública, sendo agredido por um terceiro, eu posso, com o uso progressivo e moderado da força, proteger os direitos dessas pessoas. A legitima defesa não me limita a proteger somente a mim, e o entendimento contraditório é um equivoco comum.
  • O segundo ponto é que, não cabe legitima defesa somente pela minha vida. Posso, sem problemas, defender qualquer direito meu, ou de outrem, que está sendo ameaçado. Como, por exemplo, um carro que está sendo furtado. Ou, um muro sendo pichado…
  • O terceiro ponto é que, de modo geral, o uso moderado e progressivo da força é esperado, como ponto central para a validação da autoridade, quanto à essa excludente. Logo, eu não devo atirar com uma bazooka contra um ladrão de galinhas, mas eu não preciso efetuar disparos para cima, e outro no ladrão, e torcer para ele parar a agressão com um único tiro.
    Se preciso for, posso acabar com as 17 munições no carregador da minha pistola, caso a agressão não cesse com “apenas” 16.

O estrito cumprimento do dever legal, é o que o nome já sugere: Um agente, que tem o DEVER (e não apenas o direito), de fazer ou não fazer algo, pode em função desse dever, cometer ato típico, que deixa de ser antijurídico, por conta de tal excludente.

  • Também cabe a observação do uso progressivo da força, e das medidas estritamente necessárias para a manutenção do cumprimento do dever, sob pena de responder por abusos e excessos.

Por fim, o exercício regular do direito, talvez seja o mais estranho/incomum das excludentes para explicar (embora ocorra O TEMPO TODO), mas basicamente, é a lei garantindo que, se você está simplesmente exercitando um DIREITO seu, dentro de todos os limites e obrigações que a lei demanda, mesmo que gerando fato tipificado, você estará livre de sofrer sanção, cível, penal, e etc.

  • Imagine que seu vizinho, indevidamente, constrói muro em seu terreno, devidamente demarcado junto ao órgão regulador, com documentação em dia, impostos recolhidos e etc.
    • SEM CAUSAR DANO FÍSICO (esqueça o uso de explosivos, portanto) à ninguém, é vosso direito destruir o muro que está dentro da propriedade que lhe pertence, e embora destruição de patrimônio (o muro, o cimento) alheio, seja ato típico, não é crime aqui, pois, a lei lhe garante o uso de vosso terreno regulamentado e pago, da forma como lhe convir, dentro dos limites legais, obviamente.
  • Outro exemplo, muito prático, é o do pai que põe seu filho de castigo, para educar-lhe por algum excesso que o menor comete. Não fosse um direito garantido ao pai (e alguns dirão que é dever, embora isso esteja meio perdido em nossa sociedade), ele poderia ser preso por carcere privado, ao fechar o filho no banheiro. Aqui, fica evidenciado que a razoabilidade também é avaliada: Um castigo de uma hora é algo razoável. Um castigo de 30 dias trancado é, sem dúvidas, um abuso de direito e será punível, afastando qualquer chance de alegação de tal excludente.

“Ok, Rodrigo. Entendi. E o que isso tudo tem a ver com a pichação?”

“A parede externa de uma propriedade, pública ou privada, é meu quadro em branco, e eu faço nela o que eu quiser, com ou sem consentimento de seus proprietários”…

Então, esse é o mote do movimento “pró-pichação”? E é por isso que Doria está errado?

E o mote se justifica porque… Porque… Por que?

Olhando para as Excludentes de Ilicitude, não vejo UM único qualificador que diga que a depredação e vandalismo de patrimônio alheio, seja justificada em caso de o agente ter algum de seus direitos negados.

Não há uma justificativa sequer, valida, que torne a conduta tipificada, anteriormente no artigo 163 do Código Penal e, mais tarde, alçada ao status de crime ambiental (artigo 65 da Lei 9.605/98), em algo “razoável, artístico, aceitável”, ou qualquer outro valor positivo.

O grafite, por outro lado, envolve algum grau de competência técnica e artística e, se autorizado, acaba sendo parte integral da paisagem urbana de grandes centros, como é o caso de São Paulo. Como foi dito no programa “Entre Aspas”, alguns grafites também foram cobertos, seja porque o painel estava deteriorado, pichado, ou descaracterizado, seja porque não tinha autorização para ter sido feito. A escolha da cor cinza (que também foi alvo de críticas, por pessoas que não se deram ao trabalho de pesquisar) também tem motivos técnicos, como explica o secretário.

Este é um país com uma sociedade MUITO atrasada para assuntos de convivência e socialização. Se algo não é legal, e se há previsão na lei que criminaliza a conduta, e se nada justifica sua prática, então, por que diabos alguém que faz a lei ser cumprida, é considerado “reprovável”, mas, não o criminoso?
Se ele é um adversário para alguém, até o momento, é um adversário de criminosos. Alguma dúvida? Favor, compartilhar.

Peço, encarecidamente, que me elucidem como o prefeito se torna “pobre-fóbico”, “separatista”, ou seja lá qual adjetivo utilizaram, por fazer a lei ser cumprida.

Doria é um marketeiro de natureza e de formação. Veio da TV, e tem uma empresa de grande porte. Alguns até arriscaram compará-lo com o temerário Donald Trump, o que me parece, em qualquer escala, uma grande bobagem.

Mas, até aqui, só estou vendo ele fazer a lei ser cumprida, e se preocupar com estado decadente de ruas e avenidas importantes da nossa cidade.

Quem tenta justificar que “a opressão, exclusão” ou qualquer outro “grito dos excluídos” é a justificativa para o “direito” à pichação, precisa em primeiro lugar, ver o vídeo onde o pichador explica que “na casa dele, não” e, depois, tem que pensar que ainda que exista um pichador, oprimido e excluído, em algum lugar da cidade e que picha a própria casa, quarto e etc.; ainda assim, ele não tem nenhum elemento jurídico que o permita cometer esse crime ambiental, sem enfrentar as consequências de cometer ato típico, antijurídico, e de ação positiva (dolosa) de seu autor: Um criminoso.

Querem criticar Doria? Tenho certeza que, cedo ou tarde, motivos reais e fundados surgirão, porque essa é a sina do Brasil: Ter políticos que nos envergonham.

Mas, até aqui, só crítica a ação de Doria pela restauração dos muros, quem deseja que alguns vivam na sujeira visual, com muros públicos e privados com “letras” irreconhecíveis e despidas de QUALQUER aspecto artístico, enquanto os autores “ficam com a mente e o coração” limpos, em casa.

Pura e inequívoca hipocrisia.

O que aprendemos em 2016?

Nada. Pode ir curtir seu réveillon.

 

 

 

 

 

 

 

Ainda por aqui? Não tem nada melhor pra fazer, não? Vá preparar o salpicão, fazer o manjar que prometeu pra sua mãe,  botar a cidra pra gelar, etc…

Vai insistir? Você é um bom (ou boa) amigo(a) por continuar aqui. Só posso retribuir, tendo uma conversa franca contigo.

Via de regra,  antes de sair escrevendo por aqui, eu leio um pouco,  acho algumas fontes e, quando possível,  tento achar mais de um ponto de vista,  numa tentativa de calibrar as minhas opiniões.

Hoje, contudo,  não vai ter nada disso. Hoje, a conversa é franca e, também,  é de pura opinião.  Não estou esmiuçando números e pesquisas,  nem lendo opiniões de pessoas mais competentes e experientes que eu.

E, assim sendo,  este é um texto “100% opinião”.

Aviso dado,  sigamos.

Para mim, 2017 vai ser uma cópia de 2016, como 2016 foi de 2015:

  • A economia vai continuar naufragada, porque o caixa continua a sangrar com super-salários, acordos espúrios entre Estados e União, corrupção,  e ilegalidades no pagamento de benefícios;
  • A política vai continuar no olho do furacão, e as delações que vem por aí devem ser devastadoras,  especialmente pela dimensão que devem atingir;
  • A  nossa sociedade vai seguir desorganizada e conflagrada consigo mesma, gritando contra os ventos do Norte e do Sul, sem nenhuma idéia clara de onde quer chegar, apenas descontente com o que tem, hoje;
  • Não teremos grandeza de espírito para tomar as decisões necessárias – especialmente,  quando quase nunca o “necessário” é “agradável”;
  • E o mais importante disso tudo: Contamos com a raposa para a reforma do galinheiro.

Tratando por tópicos, vemos que a máxima da Economia segue sendo a maior verdade:

A economia está à deriva. E poderá ir à pique.

A primeira lição da Economia é a escassez: Nunca há tanto de qualquer coisa que pensemos,  a ponto de atender toda a demanda dos que a desejam.

A primeira lição da Política é ignorar a primeira lição de Economia.

E, ato contínuo,  lembro de Rodrigo Maia, atual presidente da Câmara, dizendo aos colegas legisladores que, embora o Ministério da Fazenda diga A ou B, todos devem votar livremente.

É o equivalente a você, formado em Contabilidade, pedir conselhos para um Cardiologista que lhe confirma os efeitos nocivos da alimentação muito gordurosa e do fumo, e você dizer, em seguida,  “o que sabem os médicos?”.  É, mais ou menos,  a crença atual da Câmara.

Não entenda mal: Você é totalmente livre para procurar outras opiniões, mas, se você, por si só, não entende do assunto, não há o menor sentido em fazer do seu jeito. A menos que você queira que dê errado. Aí, tudo bem.

Também,  não vamos tão longe: É o mesmíssimo Congresso,  com as mesmíssimas Excelências que, no último agosto, gritavam “pela minha mãe,  pelo meu pai, pela Xuxa e pelo Jaspion”.

Como esperar muito mais desse conjunto de massas cizentas tão… Peculiares?

O cofre seguirá sangrando.  E sangra porque a conta nunca fecha. Não importa se você é da Esquerda ou da Direita.  “5 – 6” sempre sera “1 negativo”. Mas nossos políticos discordam. Obviamente,  não fatoramos o custo político na última equação.

House of cards é mato. Prefiro Brasilia.

Logo, vem a Lava-Jato. E a Odebrecht. E 77 delatores do alto escalão,  que conheciam todas as figuras de poder em Brasilia. E eles tem MUITA história para contar.

Dilma não caiu porque ficou comprovado que roubou ou permitiu que roubassem. Crime exige materialidade. E nem se deram ao trabalho.

Dilma perdeu a presidência num processo – que sempre foi e sempre será – político,  chamado impeachment.

E esse processo se instalou porque, basicamente,  ela perdeu a maioria no Congresso Nacional,  e depois, perdeu a base aliada,  que se fragmentou. Nem a vendinha de ministérios que – vergonhosamente – tentou,  rendeu o apoio necessário.

E Temer? Temer tem muito o que temer (trocadalho do carilho) em 2017, porque os últimos pleitos legislativos de 2016, foram bem menos sólidos em demonstrar a coesão e apoio ao seu governo,  do que foram, logo após sua posse.

Pode, sim,  ser mera coincidência,  mas, em Brasília,  pouca coisa é “sem querer”.

Temer e seus intermediadores têm o seguinte inferno pela frente: Apoiar integralmente a Lava-Jato, ganhando o apoio do eleitor, ou estancar o estrago da operação com medidas “tapetão”, e manter uma base aliada que aprova tudo o que o Executivo planeja. As duas afirmações são,  apenas, remotamente compatíveis. As reais chances são de que ou uma,  ou outra.

E se Dilma, com grande apoio de parte da população, caiu,  o que dizer da etiqueta de validade do “vice Decorativo” que ninguém – ou quase ninguém – morre de amores?

A vida política de 2017 promete ser muito,  muito,  turbulenta.

Protesto, logo existo…

O otimista diz “esse é o melhor dos mundos”,  e o pessimista diz “temo que você esteja certo”.

Eu não lembro da autoria dessa frase (e não tenho como pesquisar porque estou em uma chácara, com sinal oscilante, redigindo isso de um celular), mas ela expressa bem a minha expectativa com relação ao povo brasileiro que vai às ruas, seja para apoiar ou derrubar medidas, leis, políticos e etc.

Ok! Eu consigo reconhecer que, bem ou mal, avanços foram alcançados. O povo está brigando mais pelo que acredita – e não há cabimento de que eu tente julgar a legitimidade de cada causa, suas bandeiras, e etc., aqui,  em um post feito pelo celular. Não estou,  de certo,  aqui para isso.

O ponto que quero, na verdade,  abordar é que de nada adianta sermos um país de adolescentes irritados e briguentos. Não há nenhum avanço por uma avenida ser depredada. Também,  não há avanço quando um pato ou o Pixuleco são inflados, e as pessoas vestem a camisa da seleção brasileira de futebol.

O meu pesar,  aqui,  nada tem de contrário ao protesto,  per si.

Meu avesso à tudo isso começa quando, tudo isso é só isso.

As pessoas do meu país,  via de regra, não sabem exatamente pelo que estão brigando,  ou contra o que estão brigando. Só sabem que “aquilo não presta”.

Vai lá,  pausa a leitura aqui,  e pega qualquer reportagem de um protesto, contra ou a favor de qualquer coisa, onde os manifestantes sejam entrevistados. É um show de horror. Geralmente,  o rapaz com a placa “Não à PEC xyz” não consegue, de modo algum,  explicar claramente o que a PEC propõe,  e como ela prejudica a Nação.

Perguntar sobre como deveria ser a solução do problema é um despautério da sua parte, então, nem ouse.

E esse é o mega-problema do grau de consciência dos manifestantes. Odeiam mútua e gratuitamente, ao outro lado, sem, contanto, ter nenhum conhecimento para explicar o que o lado que atacam quer. Vamos reescrever isso daqui: Não sabem, muitas vezes nem o que eles mesmo querem, seja inflando balões, ou quebrando lixeiras e prédios.

Estão ali, como para qualquer outro evento festivo. Não requere-se nenhuma prévia consciência para ali estar.

Agora,  se você é parte de um desses lados, e se ofendeu porque,  diferentemente dos outros 100 entrevistados, saberia explicar o que combate,  eu te peço desculpas e te faço a próxima pergunta,  à qual quase ninguém presta muita atenção: Como é que se arruma o que está quebrado? 

Desculpe-me, mesmo, por jogar areia na sua fogueira,  mas, diferentemente de muita coisa na vida, quando o assunto é um problema nacional,  não dá pra simplesmente dizer “Minha parte eu fiz: Apontei o problema.  Agora,  alguém que conserte.”.

Não, meu amigo e minha amiga: Endireitar um país com tanto histórico de desvio de causa e propósito, requererá um pouco mais de dedicação nossa.

Entendo se você se revoltar com todas suas obrigações diárias,  mais o peso de resolver o que as raposas não vão (logo falo delas), mas é assim que funciona uma sociedade: Se a culpa não é sua, infelizmente,  o problema é. 

Não adianta gritar “ninguém vai roubar nossa previdência”,  ou, “Chega de impostos”, se você não consegue propor como fechar a conta do INSS, ou como pagar pela máquina pública com o tamanho e o portfólio que tem, sem mais dinheiro.

E, devo acrescentar: É frustrante. 

Você deve oferecer umas 2 ou 3 boas idéias, e chances são de que ninguém goste delas, porque a realidade é que ao interferir na vida pública do país,  você está mexendo na vida e no interesse de cada um. E como somos uma sociedade muito amadora, no que diz respeito à solidificação,  o que ocorre é que, quase sempre,  o meu interesse vem na frente do conceito de “bem maior”.

Resumindo,  meu caro amigo(a) que quebra vidraça ou enche balões, se você quer ser encarado com maior seriedade,  sugiro que:

  1. Saiba exatamente contra o que você se opõe,  e porquê aquilo é ruim para a Nação (não vale ser ruim só pra você.  Nesse caso você é um sindicalista antes de ser um cidadão.  Péssimo para o país);
  2. Identificado o que você é contra,  é hora de estudar como outros povos enfrentaram o problema (talvez,  você descubra que foi do jeito que você é contra, e que não há remédio menos amargo), e então,  depois de estudar,  proponha sua solução. Propor soluções esdrúxulas, sem nenhum lastro na realidade,  torna você tão útil aos problemas nacionais,  quanto os titulares do Congresso nacional,  assinando papéis que arrasam o país, com planos insanos e sem fundamentação.
  3. Por fim: Você terá que trabalhar na venda da sua idéia para o maior número de pessoas no seu movimento anti-qualquer coisa. E terá que lidar com gente dizendo que seu plano é pior do que o problema original. Faz parte da democracia.
  4. Aprendendo o que precisa sobre problema e solução que você enfrenta e propõe,  você pode, então,  e só então, fazer o barulho que desejar, até ser ouvido.

Pular essas etapas e fazer exatamente como foi feito até aqui, faz de você um cidadão “adolescente, irritado e irritante”.  Você quer ser ouvido mas,  se e quando te derem o “microfone” para falar, você estará totalmente despreparado. E será mais um motivo para desacreditarmos do futuro desse lugar.

A sociedade brasileira vai ter que, em algum momento,  lidar com sua infantilidade.

Vai ter horas em que as soluções para nossos problemas,  envolverão dores e implosões. Vamos precisar de muitos remédios amargos e de muitos explosivos para consertar o que foi, sistematicamente quebrado, ou construído para dar errado.

E quando eu vejo um sindicalista gritando que não aceita isso ou aquilo,  quando,  do outro lado, a única opção é a demissão dos funcionários,  diante da recusa em ceder, eu fico pensando quem são os conservadores de verdade? Quem está,  de fato,  lutando pelo status quo?

Por outro lado, é óbvio que não apóio novos impostos, para, ato consecutivo,  um dos poderes aumentar teto de gastos de gabinetes, e salários maiores. Não é preciso ser uma ovelha.  Mas rosnar pra tudo que envolve seus direitos não te faz um visionário.

É preciso refletir e pensar como todos devem agir,  para corrigirmos problemas tão estruturais e tão crônicos. Repito: Não há remédio doce para o que estamos vivendo. E isso me leva à última parte do problema:

As raposas e a reforma do galinheiro…

Estamos deixando para as raposas, o trabalho de selar o galinheiro. Queremos um caixa-forte contra ladrões e safados, e, atualmente, depositamos neles, a fé para a solução desses problemas.

Se você está, nesse momento, gritando coisas como “Bolsonaro 2018”, precisa ler de novo a parte em que sugiro estudar antes de falar. Ele está na função de legislador há mais de 20 anos, ou duas décadas,  e sugiro que você  veja o que ele fez de projeto de lei para corrigir os problemas estruturais da política nacional…

Bem, se eu vejo um problema, eu tenho que apontar uma solução, certo? Foi o que cobrei de quem se manifesta.

Certo, então, aqui vai minha sugestão:

Uma nova constituinte, com indivíduos de todas as áreas sociais do país, engenheiros, sociólogos, cientistas políticos, advogados e etc.

Pessoas notáveis em suas áreas (eu sei: essa palavra foi arruinada, da última vez que foi usada),  e essas pessoas fazem um pacto onde estão todas inelegíveis à qualquer cargo público,  pelo resto da vida, assim como todos os seus parentes de primeiro grau.

É pesado, e eu sei: Estão renunciando à parte da lei atual que diz “votar e ser votado”, e pela vida toda, e de seus filhos, e companheiros e etc.

Mas,  pelo menos, eles estão fazendo um gesto enorme de altruísmo e compromisso com as futuras gerações de brasileiros. Já tenho mais fé no output, só pela renúncia ao poder, que tanto seduz e corrompe.

Compromissados, unicamente, com um projeto de Estado e Nação, e não com um projeto partidário, vão reescrever a constituição e reformar todo o sistema político brasileiro. 

Não é o mesmo que colocar um punhado de 3 ou 4 leis, com 5 artigos cada, e achar que um sistema construído para dar errado,  vai funcionar.

O ser humano sempre irá falhar. É nossa essência.

Sistemas ativos de monitoria da vida do indivíduo que se candidata ao cargo público,  são a saída factível para mim.

Só por exemplo,  eu proporia que todo candidato eleito tem, durante seu mandato,  o sigilo financeiro sempre aberto, e é fiscalizado por uma divisão do Ministério Público,  independente e soberana. Seus parentes de primeiro grau recebem o mesmo tratamento.

Antes de mais nada,  é preciso lembrar que não é um favor ser político. Deveria ser uma honra. E sendo questão eletiva, candidata-se (e se submete) quem quer. Ninguém é obrigado a expor seu sigilo. Basta não querer mexer com a coisa (e o dinheiro) pública.

Delírio,  utopia,  ineditismo…  Tem um pouco de tudo isso. Mas, o que faz da idéia, “maluca”,  também é o que pode garantir seu sucesso.

Mas, claro: Enquanto eu mandar propostas anti-raposa, para que as raposas votem, coisas como a mutilação que assistimos às medidas anti-corrupção, serão a regra do jogo. Quem no poder está,  não quer que nada mude.

E é por isso que o jogo, por mais que cheio de reviravoltas, está fadado ao mesmo desfecho: Veremos Sarneys filhos, ACMs netos,  e toda a realeza se re-elegendo,  até a nossa morte, importando muito pouco,  o que aconteça, exemplarmente,  com um ou outro cacique.

A morte política de um presidente da Câmara, só ocorre para que nós acreditemos que a máquina funciona como está,  e que todos os infratores serão pegos. Mas, fica óbvio que isso está longe de ser a verdade.

Só mais um detalhe: Sou totalmente contrário à plebiscitos e referendos para essa reforma, em especial.

Num país onde a maioria não lê um livro por ano, e as opiniões são as mais pobres e mal formuladas que se pode imaginar, colocar este povo “comum” para reestruturar o país é, ao meu ver, o maior golpe de mestre de todos: Cria-se a ilusão de que o processo renovador não poderia ser mais legitimo,  já que todos participaram, e na verdade,  por ignorância,  desinformação,  preconceito e burrice,  o sistema é recriado com o mesmo número ou ainda mais falhas do que o atual.

Eu não ensino o engenheiro em Aeronáutica,  como calcular o coeficiente aerodinâmico de um perfil. Não quero um analfabeto me ensinando a ler, nem pessoas despreparadas ditando como montar o esqueleto do país.

Preconceito,  elitização, segregação… Chame como quiser. Como eu disse, é preciso lidar com a divergência,  em democracias.

Eu não vim aqui vender minha solução, mas, apenas, mostrar um mini pedaço do quebra-cabeça que pensei para responder à miríade de problemas que meu país tem, só na vida política.

E pra mostrar que, se eu criticar algo, é melhor que eu tenha alguma idéia de como resolvê-lo,  mesmo que não seja a melhor idéia do mundo. Até porque, para cada um, normalmente , a melhor idéia é sempre a própria.

E 2017 chega em algumas horas…

E assim, chego ao último dia do ano. Sei que esse texto causa mais desesperança do que alento,  mas pra mim, o ano novo é nada mais do que a confirmação de que tenho menos tempo por aqui. As alegrias de ser cético e realista…

Nada, realmente,  muda porque o ano no calendário, agora termina com um algarismo diferente do dia anterior.

É uma ilusão tremenda,  achar que 2017 terá qualquer poder renovador,  se jogarmos o jogo com o mesmo baralho de cartas marcadas e as mesmas regras. Este jogo está fadado a ter sempre o mesmo resultado.

E daí,  a minha falta de fé de que 2017 vai ser o “ano da renovação”. Nem me atrevo ao uso de chavões tão populistas e tão rasos.

Mas, ao mesmo tempo, resta torcer para que nós (Não o governo,  não o Estado, não nada que nos livre da responsabilidade) mudemos a forma com que interagimos com a vida pública do país.

Sinto que a hora já passou e já retornou um milhão de vezes,  quanto ao momento em que o brasileiro para de ter dó tremendo de si, para de perguntar o que Estado,  as autoridades, o governo e etc. podem fazer por ele, e começa a dizer o que ele pode fazer pelo lugar, e pela sociedade em que ele vive.

Só quando essa fase acabar, e sairmos da infância social,  para uma sociedade que se responsabiliza e se cobra mais, é que, realmente,  poderemos encher o peito de esperança de que há, à frente,  de verdade,  um novo ano.

Antes disso,  sinceramente: Como brasileiro e cidadão, só estou mais velho,  mais feio e mais morto. Que vantagem isso tem?

Feliz ano novo (só pela tradição: Não tem nada de “novo” para este espaço, realmente).

Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.

– Einstein

“Brasileiro é muito baba-ovo: Dá audiência até para eleição nos EUA!”: Diz o insensato…

Foto "3x4" de Hillary e Trump, lado a lado.
Donald Trump e Hillary Clinton: Os presidenciáveis à Casa Branca mais famosa do mundo.

A foto é intencionalmente maldosa: Não posso enganar você. Vejo Trump e vejo tragédia. Bush filho parece até inofensivo, perto do que Trump prenuncia no meu horizonte de previsibilidades e expectativas para a política internacional dos próximos 4 anos, no mínimo.

São 2h14 da madrugada, em Brasília, onde estou enquanto escrevo. Parece um tanto quanto cabalístico, e levemente conveniente, que eu esteja na Washington D.C. brasileira (ok, foi só uma piada. Não tenha um ataque ufanista contra mim, logo agora).

Enquanto escrevo, vejo este mapa de apuração da corrida Presidencial Americana:

http://www.nytimes.com/
Mapa em tempo real, fornecido pelo New York Times, em seu site: http://www.nytimes.com/

O mapa preocupa, e muito. O The New York Times, como qualquer outro veículo de comunicação, não é livre de opinião ou de viés. E mesmo sendo claramente a favor dos Democratas, o mapa que eles montam é terrível em sua cor vermelha (aqui, representante de Trump). Especialmente em estados como Winsconsin, ou Michigan, onde os Democratas contavam com o apoio, o “rodo” foi enorme.

Um resumo para entender como funciona – o que, honestamente, eu também não entendo plenamente – a eleição americana, é que cada estado tem um peso de votos… A soma de todos os votos disponíveis em cada estado é de 538. Ou seja, o primeiro candidato a obter 270 votos, ganha, por ter metade mais um, dos votos. Esse número, 538, não é igualitariamente disponível. O Texas, por exemplo, rende 38 votos, enquanto a Flórida rende 29. Utah, no entanto, só rende 6 votos, para quem conseguir 50% +1 dos votos daquele estado. A mesma mecânica para os demais.

Agora, porquê a eleição dos EUA importa para o brasileiro?

Bem (e em uma linha), porque seu país – o Brasil – quebrou, e depende muito de um mercado internacional estável, com um cambio – igualmente – estável, para voltar a crescer e controlar a inflação…

O problema nem é, de fato, as famigeradas commodities (matéria-prima). Se analisarmos o PIB brasileiro, as commodities respondem por menos de 10% do valor atingindo.

É claro que é ridículo que o país venda linguete de ferro, pra comprar 3 vezes mais caro, uma chapa de aço usinada. Claro que é ridícula a nossa incapacidade de ter uma cadeia de beneficiamento que venda o produto final, agregando valor real, para manter as cifras realmente relevantes, aqui. Mas, não é isso, especialmente agora, que importa nessa avaliação do porquê se preocupar.

O que realmente importa é que o Brasil ainda não saiu da recessão. Ter um cenário econômico com acordos bi-laterais (o que Dilma nunca fez, enquanto tínhamos Obama à frente da White house), e um câmbio entre o Real e o Dólar estável, é a base para sair da recessão atual. É o jeito de recuperar empregos aqui, e estabilizar o crescimento econômico na vida de todos nós.

Trump e a preocupate icógnita: O que é o personagem, e o que é a loucura…

Trump dá medo. Esse é o meu resumo do que representa a visão de um homem que vai assumir a maior potência financeira e bélica do mundo, e que, se é um personagem, é daqueles terríveis vilões de novela, pelos quais você não faz menos do que torcer pela hora da morte deles. Se é um personagem, é um de mal gosto. Ensina, ratifica e consolida que “vale tudo” para ganhar.

Esqueça dos muros entre Texas e México. Esqueça até do ódio às mulheres (misoginia que Hillary sentiu na pele, algumas vezes), e outras populações vulneráveis, como Gays e Negros. Vulneráveis sim, mas não necessariamente, minorias, já que em números, e só a título de exemplo, são a maior parte da população (no caso de mulheres (51.6%) vs. homens (48.4%), falando de Brasil).

Trump prometeu agradar uma população que, analisada à grosso modo, parece ser de maioria retrógrada em suas declarações de convivência e tolerância, ultra-conservadora, sem grau de educação formal, e desempregada. Um vídeo com os apoiadores de Trump mostra o grau de insanidade dos seus mais fervorosos eleitores. Gente que acha que Obama é um terrorista de origem mulçumana, até hoje –  e só pra citar um caso.
Mas, não há burrice maior de nossa parte, do que simplificar e diminuir o eleitorado dele. O preço dessa inferiorização artificial, estamos vendo agora, com Hillary virtualmente derrotada, e todos os especialistas boquiabertos, sem saber como explicar o que houve.

E ele prometeu uma nacionalização improvável mas, perigosa. Prometeu um protecionismo econômico, na maior potência econômica do mundo que move as fábricas da China, que compra materiais do Brasil, que importa mão-de-obra e viabiliza progressos científicos.
Tudo isso, pode vir a ruir, nas mão de um bilionário controverso em sua maneira de fazer dinheiro, com possíveis rombos em seu patrimônio por má gestào, e com acusações de fraudes às leis tributárias.
Um homem do Real State, num mundo onde o verdadeiro valor está nas idéias e na informação, e não mais no ativo e no patrimônio fungível… Terá Trump, as qualidades para lidar com a economia da super-potência, em um mundo que teoricamente, ele não entende?

E este homem passa a ter uma super-potência bélica, em suas mãos, diante de um cenário internacional extremamente delicado no Leste Europeu, de Ucrânia e Rússia. De um Oriente Médio caótico, com Síria e ISIS, e de uma histórica e crônica Coréia do Norte apoiada pelo monstro Chinês, mesmo diante de suas sandices.
E é esse homem, das declarações mais irracionais, e de uma instabilidade emocional GRITANTE (em caps lock, gritando, como ele gosta de se pronunciar), que vai mandar no país com mais armas de destruição em massa, e força bélica, do mundo.

O que nós – e todo o resto do mundo – não entendemos sobre os Estados Unidos de Eleições Presidências em 2016?

Bom, se serve de consolo (enquanto Trump vai garantindo, mesmo, o acesso à 4 anos de poder sem igual, pela atualização do mapa que vou vendo aqui), não é realmente que só nós não entendemos.

A realidade grosseira e assustadora é que ninguém “com cérebro” entendeu.

Sem preconceitos! Não estou insinuando que só gente burra vota ou entende Trump. Já disse que essa declaração, sim, é a verdadeira burrice.

Mas, vendo os colunistas do Washington Post, e do próprio The New York Times, a incredulidade e a incompreensão dessa “virada de mesa” – que agora, fica claro, nunca existiu de fato: Trump sempre esteve à frente – entre a boca de urna, e a performance acachapante do candidato dos Republicanos, é geral e espanta até mesmo os intelectuais da ala conservadora. Nem eles esperavam ganhar tantas posições no Congresso, no Senado, e menos ainda, a Presidência, depois de tudo que Trump disse e fez, ao longo da corrida presidencial.

A verdade é que não se sabe o que (ou como) a Sociologia e a Ciência política vão poder explicar do (o) eleitorado de Trump. Dizer que são todos rednecks, caipiras, burros, brancos racistas e ignorantes é o mesmíssimo e cretino posicionamento que o mundo tomou a avaliar Hitler e sua Alemanha Nazista, de apoio cego às suas ideologias e planos. E, de maneira menos radical, é o mesmo pensamento que fazem os que condenam a ascenção de religiosos na política brasileira, ou chamam de ladrões e petralhas, todos que acreditam nos valores do Partido dos Trabalhadores (e não necessariamente nas pessoas). Em resumo: É grosseiro e pouco respeitável, rebaixar o pensamento de uma quantidade tão grande de pessoas. O que eu quero ressaltar aqui é que o erro é nosso (de quem não apoiava a ideologia Trump), por não entendermos o porquê desse resultado.

Parece-me claro, agora, que existe algo profundamente errado no prisma como as capitais (que reúnem o dinheiro, o conhecimento, a formação e a geração de informação e opinião) estão enxergando o resto do mundo. Isso vale para o susto dos londrinos com o BrExit da Inglaterra. Vale para nosso susto com Crivella no Rio, e com o conservadorismo de ressurgimento potente no Brasil.
Vale para o eleitorado dos EUA que vai fazendo história – pelo que estamos projetando (e talvez, de forma igualmente errada), terrível – e que “cala a boca” de todos os críticos e intelectuais das áreas que se propõem a estudar a Política e as sociedade; neste caso, especialmente as estado-unidenses.
O erro de avaliação é grosseiro e ninguém entendeu a realidade. Explicaram e nós mesmos explicamos, por meses, tudo errado. Acreditamos em tudo que não se realizou.
E Trump (tudo indica), ganhou.

Quando você (ou qualquer um) simplifica as coisas e diz que Trump ganhou porque todo mundo que votou nele é burro e preconceituoso, você diminui a importância dessa ocorrência, e isso te coloca em uma posição de “baixa guarda”. Desse mesmo lugar (grupo de pessoas) que você preferiu ridicularizar e simplificar, coisas muito piores podem vir, enquanto você diminui a importância disto.

 Mas, afinal, o Conservadorismo é algo ruim?

Resposta direta: Não.

Mas o ultra-conservadorismo é.

O Conservador não é um monstro. Esqueça a bobagem que seu amigo fanboy de Esquerda diz.

Conservador é o cara que, tendo filhos e mulher em casa, espera que se emprego se conserve.
É o sujeito que, diante dos planos de vida, espera que o dinheiro que suou para ganhar por décadas, continue a valer o mesmo, daqui outras tantas décadas.

Pasme – Claro, se você se definir como “Esquerda” (seja lá o que isso significa pra você) -, mas, quando o Sindicato dos Trabalhadores “quebra tudo” para evitar que haja flexibilização de alguma lei trabalhista (suponhamos:  de desligamento simplificado de funcionários), ele está sendo muito conservador, às vezes, ao custo da geração de mais empregos no país, o que deveria interessar aos desempregados que o Sindicato diz se preocupar e representar.

Não há nada de errado em ser conservador, contanto que a racionalidade não se esvaia, e você não fique tão apegado à sua idéia de “real”, que perverta o prisma de como vê as coisas ruins que precisam mudar, pelo bem de toda a sociedade.

O risco de Trump nem é tanto pelo Conservadorismo, porque, sinceramente, se você perguntar à instituições genuinamente Conservadoras, propagadoras do pensamento Conservador; Trump quase não tem identidade político-filosófica com os pilares do Conservadorismo tradicional.

Trump é muito mais um risco porque cria a idéia de que a culpa dos problemas de uma grande parte da nação estado-unidense, está no outro.
Sendo “o outro”, geralmente, o estrangeiro, a mulher, o negro, o gay, o país que produz o bem de consumo que se vende por lá, e enfim… “O inferno são os outros”, é o lema central pelo qual Trump enxerga (ou diz enxergar), o mundo.
E isso pode justificar barbaridades em todos os níveis, para um Comandante-em-chefe que se sentirá invencível, e como eu disse, talvez, nos cause saudades da época em que os EUA “só queriam matar uns barbudos” e “lançar uns mísseis”.

Pelo bem do Brasil (e do mundo), desejo que ocorra o menos pior na eleição dos EUA, e nos fatos que dela se desdobrarão. Se Trump vencer, a torcida até seu primeiro dia de trabalho, é para que ele seja apenas “um fanfarrão” que não mediu esforços para vencer, mas não vai realizar as maluquices que propôs.
Se estivermos errados, e Trump for 30% do que diz ser, o mundo vai amargar muito porque, goste você, ou não; muita coisa, incluindo o preço do trigo que faz o seu pão, que você acaba de comer (na hora em que esse artigo for publicado), depende das políticas e acordos que passarão pelas mãos desse homem e daquela nação.

Torcer pelo “melhor” já é, tecnicamente, impossível. Resta torcer para que seja o menos pior para todo o mundo. Afinal, moramos, todos, dentro de um só planeta, e dele não vamos prescindir tão cedo. E os EUA têm um forte efeito na balança do destino deste lugar.

Tweet "da Alemanha" aos EUA, avisando dos perigos de Trump.
O Tweet que fervilhou no último dia da corrida presidencial dos EUA, parece não ter surtido efeito algum. O texto faz referência aos gritos com que Trump faz seus discursos, e suas declarações de ódio à vários grupos vulneráveis. E termina dizendo que a Alemanha já esteve nessa posição e fez essa escolha, em clara alusão à ascensão de Hitler.

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