O Brasil, o terrorismo e os espectros

Imagem: Ton Molina/AFP, disponível em O TEMPO.

Terrorismo

Em 2014, durante a Copa FIFA no Brasil, a minha empregadora deu camisas oficiais da seleção canarinho para todos os funcionários. Foi um belo gesto e um belo presente. Mas, se eu já fazia ressalvas à camisa da seleção desde os idos de 2018, o último 8 de janeiro de 2023 veio para sepultar qualquer chance de eu vestir essa camisa no futuro. Ela se tornou um símbolo de tudo o que mais desprezo: estupidez, covardia, golpismo, fascismo… Interrompo a lista, por contenção. Por isso, a camisa foi para a caixa de doações. Não que eu ache que os menos afortunados deveriam ser confundidos com quem veste essa camisa para praticar barbárie. É muita humilhação com gente já marginalizada. Mas entre a doação e o lixo, acho que ela ainda pode servir melhor no primeiro grupo.

No “mundo líquido” de Bauman, as palavras também têm perdido a substância e o sentido original, numa velocidade assustadora. Na política brasileira, então, esse esvaziamento de sentidos é notório e pré-data a era digital, ou seja: não foi ela que forçou o esvaziamento dos sentidos dentro da vida política.

Há muito, eu crítico a Esquerda brasileira pela falta de zelo com as palavras. Foram seus atores que esvaziaram o sentido de “fascismo” e “fascista”. Quando todos são, ninguém é. E os representantes desta Esquerda usaram e abusaram da “licença político-poética” de empregá-la. O resultado, tal qual a fabula de Pedrinho e o Lobo, foi que quando o termo realmente precisou ser empregado para alertar o povo do que estava por vir, ninguém mais se importava com o peso e o alarme nele contidos.

Outra palavra bem surrada é “terrorismo”. Desde 2001, pelo menos, o terrorismo está em todo lugar. Existia antes, mas virou vírgula depois das Torres Gêmeas novaiorquinas. Então, como eu já comentei sobre as 14 características do fascismo, passo a comentar sobre o sentido de “terrorismo”. É bom adiantar que as definições de “terrorismo” são bem diferentes no meio político e no meio jurídico. Começo pelo último.

A Constituição Federal de 1988, Lei maior no ordenamento jurídico brasileiro, e pacto social firmado entre todos os nacionais deste país no que tange à organização do Estado, utiliza “terrorismo” sem, no entanto, explicá-lo. Ele aparece no art. 4º, quando define como o Brasil se comportará nas relações internacionais (e, por lá, repudia o emprego do terrorismo, bem como do racismo) e, mais tarde, no art. 5º, famoso por ser rol maior dos direitos constitucionais fundamentais do cidadão brasileiro, que define o terrorismo como crime inafiançável, conforme inciso XLIII (43), onde se definem inafiançáveis, também, os crimes de tortura e tráfico de drogas. É a conhecida – por quem estudou Direito – trinca “TTT” de crimes. Isso tudo dito, nada explica a Constituição acerca do que é “terrorismo”. E não há crime sem lei anterior que o defina, como comanda a mesma CRFB, neste mesmo art. 5º, inciso XXXIX (39).

Se pesquisarmos o Código Penal, Decreto-Lei 2.848/1940, tampouco encontraremos definição do que vem a ser “terrorismo”. Isso porque a regulamentação do que é terrorismo ocorre em Lei esparsa (fora do Código Penal) e tivemos a edição da Lei Federal n° 13.260/2016.

É essa Lei, conhecida como “Lei antiterrorismo” (embora eu discorde do “anti”, já que ela não se dedica a criar meios de combate ao terrorismo), que define em seu artigo 2º o que é terrorismo para o Estado democrático de direito brasileiro, numa perspectiva legal (jurídica).

Art. 2º O terrorismo consiste na prática por um ou mais indivíduos dos atos previstos neste artigo, por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública.

§ 1º São atos de terrorismo:

I – usar ou ameaçar usar, transportar, guardar, portar ou trazer consigo explosivos, gases tóxicos, venenos, conteúdos biológicos, químicos, nucleares ou outros meios capazes de causar danos ou promover destruição em massa;

II – (VETADO);

III – (VETADO);

IV – sabotar o funcionamento ou apoderar-se, com violência, grave ameaça a pessoa ou servindo-se de mecanismos cibernéticos, do controle total ou parcial, ainda que de modo temporário, de meio de comunicação ou de transporte, de portos, aeroportos, estações ferroviárias ou rodoviárias, hospitais, casas de saúde, escolas, estádios esportivos, instalações públicas ou locais onde funcionem serviços públicos essenciais, instalações de geração ou transmissão de energia, instalações militares, instalações de exploração, refino e processamento de petróleo e gás e instituições bancárias e sua rede de atendimento;

V – atentar contra a vida ou a integridade física de pessoa:

Pena – reclusão, de doze a trinta anos, além das sanções correspondentes à ameaça ou à violência.

§ 2º O disposto neste artigo não se aplica à conduta individual ou coletiva de pessoas em manifestações políticas, movimentos sociais, sindicais, religiosos, de classe ou de categoria profissional, direcionados por propósitos sociais ou reivindicatórios, visando a contestar, criticar, protestar ou apoiar, com o objetivo de defender direitos, garantias e liberdades constitucionais, sem prejuízo da tipificação penal contida em lei.

O primeiro entendimento que alcanço, portanto, é de que a Lei antiterrorismo não se aplica aos golpistas do último dia 8. E aqui cabe alguma contextualização histórica: o diploma legal em comento foi promulgado pela ex-Presidente Dilma Rousseff. Seu passado pessoal em grupos paramilitares pró comunismo, bem como sua posterior filiação ao Partido dos Trabalhadores que é fortemente baseado em movimentos sociais históricos do Brasil (MST, CUT, APEOESP, etc.) levou a todo tipo de pressão no Congresso Nacional para que a Lei antiterrorismo alcançasse tão somente o conceito “internacional” de terrorismo (o terrorismo de grupos religiosos, de grupos supremacistas por etnia, etc.), excluindo qualquer alcance ao “terrorismo doméstico” (grupos de nacionais que decidem executar atos violentos contra o governo em exercício, por qualquer razão). Daí a redação do parágrafo segundo. É este mesmo § 2º que livrará os bolsonaristas envolvidos no 8 de janeiro de se verem acusados de terrorismo nos termos do art. 1º, inc. IV, da Lei supra.

Portanto, “terrorismo”, juridicamente falando, diante do arcabouço (conjunto) do ordenamento pátrio vigente, não é crime pelo qual os vândalos possam ser denunciados. E o Direito Penal é extremamente fóbico a qualquer inovação em entendimento que permita a elasticidade do alcance dos tipos penais. Em outras palavras: o Direito Penal não tolera entendimento que facilite o enquadramento de condutas do indivíduo em crimes legalmente previstos, mas que não citam claramente a conduta perpetrada. E com razão. Fosse o Direito Penal amigável a essa liberdade do Poder Acusatório, todos que incomodassem o Estado (ou o governante) acabariam facilmente atrás das grades. Pelo mesmo motivo, mesmo que o Congresso Nacional editasse nova Lei ainda hoje e o Presidente Lula a promulgasse, ainda assim os bolsonaristas não poderiam ser processados sob a figura da nova Lei. Porque a Lei penal só retroage em favor do réu, nunca contra (art. 5º, XL [40], CRFB).

E se você está esbravejando por concluir que os bandidos de domingo sairão livres, veja isto por outro ângulo: é uma excelente oportunidade para falar para seu parente/amigo bolsonarista sobre a importância dos Direitos Humanos, da legalidade, da obediência à Lei por parte das instituições e do Estado-Juiz, e porquê vale defender um Estado democrático de direito. Fosse uma ditadura, o(s) ditador(es) poderia(m) mudar todo esse entendimento sem maiores melindres e poderia(m) condenar todos os arruaceiros à pena de morte, mesmo que retroativamente.

Mas, e o “terrorismo” no sentido político? Este certamente é termo adequado para os bolsonaristas nas ruas.  Embora o mundo nunca tenha chegado a uma definição universal do que é “terrorismo” (porque é um crime de definição “cinzenta” – toda revolução é ilegal, exceto se der certo…), os Comitês das Nações Unidas que se debruçaram nesse tema, nos idos dos anos 2000, chegaram à seguinte definição do que é a conduta terrorista:

“quando o propósito da conduta, por sua natureza ou contexto, é intimidar uma população, ou obrigar um governo ou uma organização internacional a que faça ou se abstenha de fazer qualquer ato. Toda pessoa nessas circunstâncias comete um delito sob o alcance da referida Convenção, se essa pessoa, por qualquer meio, ilícita e intencionalmente, produz: (a) a morte ou lesões corporais graves a uma pessoa ou; (b) danos graves à propriedade pública ou privada, incluindo um lugar de uso público, uma instalação pública ou de governo, uma rede de transporte público, uma instalação de infraestrutura, ou ao meio ambiente ou; (c) danos aos bens, aos locais, às instalações ou às redes mencionadas no parágrafo 1 (b) desse artigo, quando resultarem ou possam resultar em perdas econômicas relevantes”.

Portanto, sim, não há dúvidas de que os movimentos bolsonaristas nas ruas são terroristas, dentro de uma definição política, bastante aceita e atual (ONU, anos 2000). Mas para que se possa falar em crime de terrorismo, este precisa existir na legislação nacional, anteriormente ao(s) ato(s), para que se possa processar, julgar e prender o(s) individuo(s) que praticou(am) tal ação. É óbvio: há diversos outros crimes para acusar a horda de tresloucados. Dano, lesão corporal (contra os agentes que foram espancados), ameaça, crimes contra o patrimônio cultural (Lei 9.605/1998), a própria figura do Golpe de Estado (art. 359-M do Código Penal) que foi criada em 2021, enfim… Muitas possibilidades, mas não a figura do crime de terrorismo. E, com ela, se vai a característica do crime inafiançável. Ainda terão ao favor de suas defesas, atenuantes do art. 65 do Código Penal, como aquela concedida ao crime cometido sob influência de multidão.

Neste breve resumo, quero alertar para fato que me parece claro: o Brasil, o Estado brasileiro, as instituições, a Lei, nenhum deles está pronto para lidar com o terrorismo bolsonarista. A Lei, como está, não os alcança em magnitude e não protege o Estado brasileiro e os cidadãos que o respeitam em suficiente. Fora da Lei, não há diferença entre bandidos e um Estado de exceção. Como não havia diferença entre os terroristas de Esquerda, planejando sequestros para forçar sua ideologia, ou os terroristas fardados, usando a máquina do Estado para perseguir e aniquilar quem os incomodava. Fora da legalidade e do prévio conhecimento das regras do jogo, vale tudo. E o vale-tudo não pode ter lugar na civilização e na cidadania.

Espectros

Os espectros, os fantasmas, o passado da história brasileira voltaram a aparecer com força inédita, desde a redemocratização. O que se assistiu no domingo passado e o que se ensaia para hoje, no início da noite, foi (e será) nada aquém do que uma tentativa de golpe de Estado. O que queriam os criminosos era que, diante da desordem instalada por eles, as tropas das forças armadas fossem às ruas, e sendo elas recheadas de simpatizantes pelos desordeiros, virassem-se contra Constituição de 1988, tomando o poder político das mãos dos que foram eleitos. Se ainda somos uma democracia é somente porque o cenário internacional não favorece um golpe e as famílias dos militares não querem perder o direito de ir pra Disney. Se não houvesse uma pressão internacional (especialmente dos EUA – ah, a ironia) em sentido contrário ao golpismo, já teríamos a voz do Brasil passando até no Twitter, à essa altura.

O problema é que a história sociopolítica do Brasil é feita de golpes de Estado. O caminho “natural” nunca existiu para a sociedade brasileira. Não. Aqui, política nova se faz com ruptura e solavanco. É verdade que em quase todo país do Ocidente, a história se repetiu do mesmo modo no início, mas o caso brasileiro é especialmente alarmante porque essa lógica jamais foi superada:

A queda da monarquia e o início da República se dá com um golpe dos militares contra o Imperador, em 1889.

O fim da primeira República (iniciada em 1889) e o início do Estado Novo se dá com um golpe de Getúlio, apoiado pelos militares que lhe eram simpáticos, em 1937. Acabou em 1945, também sob ameaça de um novo golpe de Estado e novamente por ação dos militares, agora, opostos a Getúlio.

Chega 1964 e a Democracia cessa outra vez, com os militares dando um golpe de Estado para impedir que o vice de Jânio Quadros, João Goulart, erigido a presidente pela renúncia do primeiro, pudesse levar a cabo seus planos político-econômicos, sob a alegação de que Goulart instalaria um regime comunista no Brasil. Detalhe: Goulart era tão comunista quanto eu ou você. Seu nacional desenvolvimentismo era de matriz Getulista (aliás, ambos eram do PTB, fundado por Getúlio justamente para “roubar” votos da classe trabalhadora, contra partidos abertamente comunistas).

Chegam os anos 1980, os donos da ditadura brasileira, general Geisel (penúltimo presidente do regime militar) e general Couto e Silva (o melhor “político fardado” que dispunham), percebem que vão sofrer uma revolução popular e, antes disso, desarmam a bomba-relógio “se adiantando” e devolvendo a República ao controle popular pelo voto (numa análise reducionista: democracia). Esse adiantamento foi letal para o equilíbrio porque, iniciado no meio dos anos 1970, permitiu que os militares programassem como “perderiam o poder”. E ainda ocupando o poder, obrigaram o outro lado (o nosso) a aceitar os termos postos à mesa. Perderam e não perderam. Influenciaram toda a redação da Constituição e garantiram para si uma Lei de anistia extremamente bondosa e protetora de seus interesses. Não foram julgados, não tiveram sua vasta corrupção investigada. Saíram vitoriosos e ainda poderosos. Vide os moldes atuais da previdência militar.

Chegamos à redemocratização em 1988 e nos dias de hoje. E como já foi dito muitas vezes, nos últimos dias, porque um deputado pôde homenagear um torturador (ele não homenageou um presidente do regime, mas o torturador dos porões; é bom que se entenda a diferença) durante seu voto no impeachment de Dilma e não sair de lá algemado, aqui estamos: discutindo se a democracia brasileira aguenta muito mais tempo sob esse tipo de ataque. Imagine se o parlamento alemão aceitasse que alguém homenageasse Hitler nos dias de hoje. Seria escandaloso.

O Brasil

“Nos deram espelhos e vimos um mundo doente.”

ou

“Ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação.”…

Talvez, haja obras mais atuais a sumarizar os tempos vividos. Mas eu já estou velho e essas são as músicas da minha geração. Citar Vandré seria pretensioso, já que ele veio bem antes. Buscar o presente seria engodo, já que eu não tenho escutado muito os novos artistas brasileiros.

A pesquisa Atlas-Intel, publicada no último dia 10, entrevistou a população e concluiu que 75.8% não concorda com os atos de vandalismo, enquanto 18.4% concordam. 18% é muita gente de acordo com a barbárie, mesmo que pareça pouco. Quando movemos o recorte para eleitores do Messias, vemos que 38.1% apoiam, enquanto 48.6% repudiam, o que é surpreendente e até positivo. Mas, quando mudamos para religião e olhamos para os que se declaram evangélicos, o problema dispara de novo: 31.2% concordam, contra 14.3% de católicos e 6.4% de outras religiões. Clique no link acima para conferir o tamanho do estrago na sociedade, após ao menos 4 anos de barbárie verbal e prática.

Seja como for, temos que olhar para o material humano disponível no Brasil. Não é possível atribuir tudo à figura do grande mito messiânico que essa horda decidiu seguir. É impossível lhe eximir da responsabilidade, igualmente. Palavras têm força, e na boca ou nos textos de pessoas pelas quais temos apreço, devagar ou rápido, passam a ecoar no nosso imaginário e formar – em parte ou no todo – a nossa opinião.

Não, um presidente que grita “vamu metralhar a petralhada” (sic) não está apenas fazendo um discurso. Não é mero simbolismo, figura de linguagem… Ele está, no médio ou longo prazo, autorizando a violência contra quem não concorda com ele(s). Ademais, praticamente tudo na vida humana é simbólico. O seu contrato de trabalho é simbólico, o casamento dos seus pais é simbólico, a escritura pública da sua casa própria é simbólica, e o contrato de aluguel também é.

A Lei. Especialmente a Lei. Essa é muito simbólica. É um símbolo de que nós todos, unidos pela língua, cultura, território e época, decidimos renunciar a boa parte da (senão a toda) capacidade física e coercitiva de obrigar o outro a fazer o que queremos, e depositamos esse poder em um terceiro ente, idealmente capaz de usar a força na hora certa e mediar a nossa coexistência de forma menos brutal, bestial, animalesca.

Quando um bolsonarista quebra os vidros do STF, ele não está ofendendo o ministro Alexandre de Moraes.

Quando um camisa-amarela fura o painel de Di Cavalcanti, ele não está machucando o Presidente Lula, muito menos a Di Cavalcanti que já está morto há 46 anos. Tampouco machucam os ex-Presidentes cujos quadros foram estilhaçados e jogados ao chão.

Quando um milico da reserva ou policial de folga, raivoso, irrompe contra o mobiliário do Congresso Nacional, em parte trazido da antiga capital nacional (o Rio), quebrando mesas e móveis centenários, ele não está fazendo Pacheco ou Lira chorarem.

Não é aos Presidentes dos Três Poderes que o Governador do DF, agora afastado, Ibaneis Rocha, deve desculpas. As desculpas são devidas aos 215.5 milhões de brasileiros e brasileiras que tiveram seu patrimônio depredado por capricho e loucura, de forma bestial e animalesca.

Ou defecar sobre a fotocopiadora virou sinal de patriotismo? Que as palavras andavam sem sentido, vá lá, mas isso já é demais.

Quando um bolsonarista joga o escudo da República para tomar chuva, não é o ministro do STF que ele está agredindo. É a mim. É a você. O ministro agora é um. Amanhã será outro. Aquele espaço onde o STF existe (e onde existem os demais Poderes), é sagrado no sentido de abrigar o nosso pacto, a nossa esperança de que possamos coexistir enquanto sociedade, no mesmo espaço e no mesmo tempo, dividindo alguns (jamais todos) valores comuns e tornando nosso país em um lugar melhor de se viver do que já foi ontem.

O ato foi, até aqui, em vão. Serviu, isto sim, para acelerar o desmonte dos acampamentos golpistas e reaglutinar instituições da República que andavam, há muito, separadas. Mas parar nesse entendimento é uma visão demasiadamente otimista, até pueril, eu diria. O bolsonarismo finalmente mostrou a que veio. Se não podem vencer nas ideias e no voto, vencerão de outro modo. Vale-tudo. Barbárie. Terrorismo. Esse é o bolsonarismo.

Espero que o espelho não lhe mostre de camisa da CBF. Se mostrar, fica o recado de quem espera que você saia dessa: você está doente e imerso num mundo igualmente doente. Não dá para respeitar a Constituição, o nosso acordo de coexistência, ou acreditar no futuro da nação e ser bolsonarista. Simplesmente não dá. É uma questão de lógica. E de civilização.

A entropia do Brasil

Meia-noite. Primeiro minuto do dia 30 de outubro de 2022. O último domingo de outubro, conforme comanda a Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, em seu artigo 77. Hoje, se faz História em meu país. Para o bem ou para o mal.

Falando em tempo, existia um mundo antes das 9h46 a.m. (horário de Brasília) do dia 11 de setembro de 2001 (uma terça-feira), e um outro mundo eclodiu, depois. Talvez, a depender do ano em que você nasceu, você sequer seja capaz de entender como aquele minuto mudou a história do Ocidente e, por consequência (poderíamos ficar apenas no aspecto político-econômico), a história do mundo.

Eu já falei “bem” sobre entropia. Quer dizer, eu já expliquei por aqui o conceito da termodinâmica, porcamente. Para quem não tem tanta disposição, segue a versão de uma frase: entropia é a medida pela qual se avalia a desorganização de um sistema. Qualquer sistema. O exemplo do jarro com bolinhas coloridas; vermelhas, do fundo até a metade; azuis, da metade até perto da tampa: você chacoalha o jarro, as bolinhas se movimentam e passam a se misturar. Quanto mais você chacoalha, mais elas se misturam. O tamanho dessa “desorganização” em face do sistema originário é a entropia. Um ponto central da entropia em sistemas reais é que, não importa o quanto você “balance a jarra” (interfira no sistema), o sistema não voltará ao estado original em que todas as bolinhas estavam separadas “organizadamente”.

Porém, a entropia não deve ser confundida com “bagunça”, sob o risco de se supor que tudo é melhor “na origem”. Ora, não fosse a “entropia” do óvulo fecundado no ventre da senhora sua mãe, tudo ficaria exatamente como estava no início daquele novo sistema (você, o “pra sempre girino” [zigoto]).

Seja como for, o Brasil – como quase tudo que existe – pode ser lido como um sistema. Na realidade, um sistema de sistemas; quase infinitos sistemas. Sistemas geológicos, sistemas biológicos, ecossistemas, sistemas de povos, de cultura, de economia, de política… Enfim… Sistemas… E todos eles passam por entropia.

É difícil fazer previsões, mas soa razoável supor que hoje, às 21h (também de Brasília), já saberemos o resultado das eleições gerais de 2022. Isso porque são menos votos (na maior parte, só para Presidente; apenas doze estados terão segundo turno para governador), e também porque é razoável esperar que a Justiça Eleitoral tenha aprendido com as lições e motivos que tornaram o primeiro turno mais lento (biometria, transferência de dados, processos…). Quer dizer que, em mais ou menos vinte e uma horas, nós poderemos medir a nova entropia do Brasil, enquanto sistema sociopolítico.

As decisões que os eleitores consagrarão nas urnas, hoje, percutirão efeitos importantes no jarro de bolinhas que é o Brasil. Por outro lado, como sistema real que é, o jarro do Brasil não está com a tampa fechada. Algumas bolinhas caem, outras entram. O sistema funciona, ora sob regime hermético, ora sob forte influência dos ecos de outros sistemas. Isso bagunça um bocado com as leis da termodinâmica e, consequentemente, com o conceito de entropia. Então, vamos mudar. Vamos pros comunistas 😈!

Foi Marx (calma, respira… não é sobre o seu temido comunismo, hoje, eu prometo) quem concluiu, após analisar a frase original de Hegel, que a história se repete duas vezes: uma como tragédia, outra como farsa. “Tragédia e Farsa”, no contexto em que Marx escreve, estão ligadas aos gêneros de teatro grego.

A tragédia grega é, bem, … trágica. A característica desse teatro é, basicamente, que o protagonista já inicia sua jornada em meio a tensões e incertezas e acaba infeliz e cercado por tragédias. A peça de “Édipo Rei”, que (spoiler alert) atravessa o mundo para não acabar casado com a própria mãe, graças a uma maldição por ter cometido parricídio, e ainda assim com ela se casa, é um exemplo clássico (em todos os sentidos) desse gênero teatral.
Já a farsa, no teatro grego, é o humor em sua forma mais escarnecida. A farsa não tem real compromisso com filosofias, discussões e críticas sociais (bem mais caras ao humor “moderno”), de valores morais ou (a)temporais. O objetivo real de uma peça de farsa é a gargalhada. Aristófanes é um autor famoso do estilo, e sua peça Lisístrata (ou “A greve do sexo”) é igualmente conhecida no gênero.

Portanto, quando Marx diz que a história se repete (como afirmou Hegel), adicionando que uma vez como tragédia e outra como farsa, o que ele queria explicar é que da primeira vez, os fatos históricos “inéditos” de uma nação são intensos, reais, vividos à flor da pele. Na segunda vez em que esses fatos ocorrem, são caricaturas, arremedos, uma cópia, uma emulação do que se deu no passado. O Brasil está diante de uma farsa. Ou melhor, estamos diante da farsa da farsa da […], pelo menos se recortarmos o arco histórico desde a Proclamação da República, em 1891.

Getúlio Vargas foi o primeiro, desde o fim do império, a realizar um golpe de Estado, concluso em 10 de novembro de 1937. Numa sociedade brasileira que via, com a mesma ojeriza típica que vemos hoje, o comunismo crescendo na Europa pós primeira-guerra e sendo Getúlio um admirador do Fascismo italiano que eclodia com força, desde 1919 naquele lugar, foi fácil falar em “nacionalismo, anticomunismo, valores nacionais”. Sim, você já viu esse filme, recentemente.

Depois (bem depois), em 2 de dezembro de 1959 (uma quarta-feira), um avião da Panair (vixe… faz tempo…), com políticos a bordo, foi sequestrado por brasileiros militares e terroristas que, admiradores cegos do populista Jânio Quadros (o “Vassourinha”), planejavam um golpe de Estado usando armas, explosivos, reféns de renome, aviões furtados da FAB […] para pavimentar o caminho para o grande líder. Em seu manifesto, os terroristas alertavam o povo brasileiro de que “o comunismo estava infiltrado em diversos segmentos da sociedade, incluindo o setor público. Havia corrupção das lideranças políticas, em especial no Executivo, além da omissão do Judiciário e do Legislativo” … Já viu essa ladainha? Pois é…

Jânio, eleito em 1960, renunciaria em 1961, com seu famoso discurso sobre as “forças ocultas”, e não esperava nada menos do que a recondução ao Poder (como confessou ao parente), após a renúncia, nos braços do Povo e dos Militares, para encontrar-se com um novo Poder, agora ilimitado. Tanto que renunciou, não sem querer, no Dia do Soldado, 25 de agosto… Deu errado. E deu TÃO errado, que a crise iniciada por Jânio, na renúncia, fundou as bases para o Golpe de 1964.

Aliás, lembra aqueles militares que sequestraram o avião da Panair com os políticos brasileiros dentro? Sim, eles foram anistiados por Juscelino Kubitscheck no mesmo ano do terrorismo perpetrado. E quer saber se eles ajudaram no Golpe de 1964? COM CERTEZA… Hehe… Ah, História… Você ainda me mata…

Tem ouvido falar em anistia para Bolsonaro e sua quadrilha trupe, especialmente da boca de um vampirão que aprontou altas confusões com uma turminha do barulho em 2017 e 2018? Pois é…

Teve, ainda, o nosso eterno caçador de marajás. Ah sim… O bonitão, herói-antissistema. Que confiscou a conta-poupança de toda a gente, e fez uma porção de brasileiros cometerem suicídio (sem brincadeira). Sim, o nosso primeiro presidente impedido, que andava demais pela casa da Dinda… “Pois é” outra vez…

Hoje, o Brasil, LAMENTAVELMENTE, não discutirá projetos, nem visões de política, governo ou sociedade. Hoje é sobre Civilização vs. Barbárie. Sim, não há qualquer exagero na afirmação. Viu Zambelli apontando uma quadrada na cara de um opositor político que não pediu perdão “por existir”? Como ele ousa afirmar que ela está errada? Viu o boletim de ocorrência onde ela narrou que “usaram um negro para agredi-la”? Isso é só uma pequena amostra de como se comportam os Camisas Negras tupiniquins de Bolsonaro. “ANAUÊ!” … Já ouviu ou leu essa palhaçada de “anauê” por aí? Pois é³…

Já se disse muito sobre o paradoxo da tolerância de Popper, e não vou esganiçar esse velho tecido que, a bem da verdade, nem foi muito desenvolvido por Karl. Ele propôs, mas não aprofundou.

O que você precisa saber para poder tomar a única decisão certa que restou, é que diante da barbárie, suspendem-se pontos de vista mais ou menos alinhados, e preferências por modelos e pensamentos econômicos vão para segundo plano. É exatamente por isso que gente que não tem nada a perder ou a ganhar com Bolsonaro, gente como FHC (um senhor, rico, velho, realizado), Pérsio Arida (economista responsável pelo plano Real e fortemente criticado pelo PT à época), Joaquim Barbosa (ex-Ministro do STF, ferrenho [mas justo] “juiz” da Ação Penal n°470 [o “Mensalão”]) estão todos apoiando o mesmo candidato. Eles e, claro, MUITOS outros… Pessoas como João Amoedo, como Simone Tebet, como Marina Silva… São tantas visões conflitantes no mundo da política, economia, sociedade… E, ainda assim, fechados em torno do nome de Luís Inácio Lula da Silva.

A razão desse apoio deles respeita a sabedoria da Navalha de Occam: Entre duas teorias que explicam igualmente os mesmos fatos, a mais simples tende a ser a correta. E quais são as teorias? Uma teoria é de que essa gente toda, com todo o currículo, vida pública, e história que tem, está do lado do “Ladrão de 9 dedos, comunista, da mamadeira de piroca e banheiro unissex, porque são satanistas, fechados com o islã [acrescente aqui a sua paranoia] e odiosos da família brasileira”. A outra teoria é “porque reconhecem que, com todos os defeitos, Lula é um ser humano e é um político bom, enquanto Bolsonaro não é nem um, nem outro”.

E esse é o ponto central: Eu divirjo de Lula no campo político-democrático. Falei sobre isso, ainda na quinta passada. Mas eu divirjo de Bolsonaro no campo do que é ser um ser humano. Eu divirjo com o “mito” (que apelido apropriado para alguém que mente o tempo todo) no andar de baixo da vida política, divirjo com ele no campo da civilização vs. barbárie. Não há doutrina política, no campo da democracia, que tolere “exterminar os adversários”, rir de gente sufocando na UTI, sentir um clima com menores que acabaram de entrar na puberdade… Eu vou parar por aqui, não porque faltam horrores para seguir, mas porque ele e seus fiéis seguidores têm pouca ou nenhuma vergonha de tais ocorridos.

No fim eu sempre soube, entristecido, de que “prego para convertidos”. Quer dizer, qual a chance de um bolsonarista alucinado ler este blog? Na real, eu atinjo um público tão, tão pequeno, que é difícil justificar racionalmente o porquê eu escrevo. A razão – que não é razão – acaba por ser sentimental. Esperança. Esperança de um cético. Esperança de que, sei lá… Aquele cara ou aquela mina, indecisos, morrendo de medo de Lula, seja por motivos fundados (corrupção, conchavos, ideologias), seja por motivos infundados (comunismo, mamadeira de piroca, banheiro unissex […]), acreditam que Bolsonaro é o mal menor… E podem cair aqui…

Eu estou aqui para garantir a você, como uma pessoa que nunca votou no PT antes de 2018, quando foi preciso ir contra Bolsonaro: Lula ainda é gente. Ainda é um político minimamente alinhado com o pensamento democrático (aquele sistema lá que garante que o seu vizinho mais forte não tenha paz, caso decida tirar sua vida pra ficar com sua propriedade e comer sua mulher, e zas e zas…). Lula ainda opera sob lógicas previsíveis de como um político atuará. Bolsonaro é o cachorro-louco. Comandou o Brasil como o moleque comanda a vendinha de limonada. Pode estar aberta, pode estar fechada, pode passar a vender cataventos com a mesma velocidade que pode sair do mercado. Isso NÃO É BOM para seu país. Essa governança desastrada, errática, imprevisível, personalista… Isso é PÉSSIMO para o Brasil. E eu nem falei do “efeito Bolsonaro” na sociedade. Estou falando só de razões e lógicas para não dar outros quatro anos para que ele termine de quebrar a banca. E ele vai. Prometo a você que ele vai.

No lado humano, existencial, Bolsonaro é o oposto do Cristianismo que a raça humana conheceu no século XX (e XXI). Talvez, no século XII, durante as Cruzadas, Bolsonaro fosse tratado apenas como “um homem de uma fé cristã um pouco aguerrida” … Estupra em nome de Deus, enfia a espada no bucho em nome de Deus, taca fogo na aldeia em nome de Deus… Mas, não chegaria a assombrar seus contemporâneos de idade média. Na releitura de um Deus de amor, que é feita na modernidade, no entanto, Bolsonaro não se encaixa como Cristão. Se ele é Cristão, o Satanismo é a salvação de todos nós (por ser o oposto da religião do grande líder, eu suponho).

Repito: talvez você esteja fora de órbita tempo o bastante para não saber que sua adida, Carla Zambelli, reeleita para deputada federal por SP (por que, SP? 😢), sacou uma arma na região central de São Paulo, capital, e perseguiu um homem de visão política oposta à dela. Alegou, em boletim de ocorrência, mais tarde, que teriam “usado um negro” para agredi-la. Está vendo? Não é sobre política com essa gente. É sobre humanidade. E é sobre barbárie. E eles querem dar continuidade ao governo onde está tudo bem que pessoas saiam por aí, apontando pistolas na cara de quem os irrita ou incomoda.

Ao votar 22, por medo de Lula, você, querendo ou não querendo, diz para eles, com o poder de anistia que seu voto carrega, que o terrorismo deles é bem-vindo na sociedade brasileira. Concordando comigo ou não, ao votar 22, você acredita que para chegar aonde você quer chegar, tudo bem empilhar alguns corpos no caminho, inclusive literalmente. “Se não tem outro jeito”, não é mesmo? Acontece que tem outro jeito. Eu estou afirmando que tem.

O mais triste é constatar, abestalhado, que eu conheço uma grande parte desses votos no 22 que não vêm do esgoto em forma de gente que Carla Zambelli é e ratificou ser, na tarde de hoje. Muitos, como eu disse, só tem medo e paúra do que Lula representa no imaginário de cada um deles. E estão achando que Bolsonaro é o mal menor. Análise equivocada, repito.

Quer dizer: como votar e reeleger “um ladrão condenado por corrupção”? Eu não vou contestar a tibieza desse ponto. Vou jogar com sua premissa. Lula é um ladrão. Ok. Do outro lado, temos um terrorista que (supostamente) planejou explodir batalhões do Exército, por não aceitar o salário. Também, um sádico (sem suposições) que riu de gente morrendo asfixiada. Também, um (suposto) “normalizador” de relações entre velhos de 70 anos e garotas de 14 (olha o tamanho da acrobacia que faço para não o chamar daquilo que ele [não eu] deu a entender que é). Também, um xenófobo que quer mandar em todos os brasileiros, mas tolera – eu não consigo imaginar que Bolsonaro goste de ninguém a não ser dele – só uma pequena parte deles. Ah, e também é o chefe de uma família muito unida e muito ouriçada que só comprou [ao longo do tempo] cinquenta e uma propriedades usando dinheiro vivo, no todo ou em parte… Ainda bem que ele não é corrupto, para além do monstro que é… Preciso continuar?

Vocês estão com medo de votar “no ladrão” e estão em paz de votar no proto-ditador fascista. Fascista, sim… Umberto Eco, pensador italiano contemporâneo, falecido em 2016 [portanto, não: ele não é um comunista contra Bolsonaro – mas seria contra, se vivo estivesse], listou catorze características comuns no fascismo em seu rápido e prático livro “Fascismo Eterno”. Compre aí, leitura curta e rápida. Bolsonaro atende à TODAS elas. Vamos ver se estou mentindo? Algumas dispensam explicação, mas vou dar, assim mesmo:

1 – Culto à tradição (Deus, pátria, família – ANAUÊ!).

2 – Rejeição ao modernismo (é um perigo DANADO que dois homens se casem [pra quem?]).

3 – Culto à ação pela ação (pensar antes de fazer é para os fracos).

4 – Discordância é traição (*cof* *cof*, Mandetta, *cof* *cof* , Bebbiano, *cof* Santos Cruz […] ).

5 – Medo das diferenças (“as minorias têm que ser curvar às maiorias! Taóquei?”).

6 – Apelo à frustração social (“eu vim pra mudar tudo isso aí” – mesmo fazendo parte “disso aí” há 26 anos…).

7 – Obsessão por um enredo (“estão querendo acabar com a sua família, táóquei?”).

8 – O inimigo é perigoso, mas, ao mesmo tempo, é fraco e desprezível (não temos medo do lixo do PT, mas se perdermos, foi roubado…).

9 – Pacifismo é o mesmo que abraçar o inimigo (“Vamos fuzilar a ptralhada!”).

10 – Desprezo pelos considerados fracos (“Eu tenho 5 filhos. Foram 4 homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”).

11 – Todos têm que ser criados para serem heróis (e, se você é um herói e o seu líder supremo pede seu sacrifício… Tá esperando o que?)

12 – Machismo e armas. (Preciso explicar?)

13 – Populismo seletivo (um recorte do estrato social representa “o nacional de verdade” [o branco, macho top, que curte sertanejo, evangélico]; o resto é inimigo).

14 – O Fascista não tem vocabulário (uma coisa é se comunicar de forma simples e clara. O que Bolsonaro faz é um culto à pobreza intelectual. Já notou que ele não consegue não falar em relacionamentos ou órgãos genitais ao dar exemplos?).

Olha aí… Um homem italiano, com o currículo de Umberto Eco, morto em 2016, quando nós não sabíamos que éramos felizes no Brasil, escreve sobre o Fascismo que viu em primeira mão na Itália, lista catorze comportamentos dos grupos fascistas… E Bolsonaro “gabarita a prova” (deve ser o primeiro 10 da vida dele).

Então é isso, meu caro leitor e minha cara leitora: Hoje, votamos contra a barbárie. Não tem nada a ver com concordar com Lula, para um enorme número de eleitores a votar 13, hoje. Eu me incluo nessa lista. Se Lula vencer, estou na oposição democrática a ele, já em 1 de janeiro (também num domingo). Mas, hoje é contra a repetição da História brasileira como farsa. Hoje é contra o fascismo que, didaticamente explanado em catorze elementos por Eco, é gabaritado pelo candidato à reeleição presidencial.

Mas, como não poderia deixar de ser, eu tenho uma mensagem que pode ser triste de aceitar, mas precisa ser aceita: É impossível reverter a entropia do Brasil. Não há jeito de nossa sociedade voltar a ser o que era. Não há jeito de não sabermos mais que há, no meio de nós, muitos que riem e se comprazem na ideologia fascista de um homem que acredita que há fracos e inimigos dentro do povo que ele quis governar. E a esses fracos e inimigos ele reserva atitudes como as de Carla Zambelli ou Bob Jeff (que ganhou esse ar de nome gringo como apelido da tropa porque… Porque o fascismo brazuca é assim: se tiver que prestar continência para a bandeira americana, sendo presidente do Brasil, que mal tem? Eles são o exemplo de força, tá tudo certo…).

Não, não há como reverter a entropia. Nunca mais seremos os mesmos. A nação nunca mais será a mesma. Se o pesadelo acabar e Bolsonaro perder, serão mais dois meses até a passagem da faixa. Dois meses de guerra intensa do sequestrador do avião que chamamos de Brasil, e que vai forçar tudo que pode para conseguir anistia para si, seus comparsas e sua família. Fora os alucinados reconduzidos ao Poder por mais quatro ou oito anos, graças a um povo que se choca, mas não reage, como disse o Vassourinha.

Em nome do Paradoxo de Popper, espero que o governo brasileiro seja como os EUA – olha que paradoxo – e cace os terroristas que sequestraram o nosso avião, até o fim (deles). Porque se o Brasil for o mesmo Brasil que sempre teima em perdoar (para ajudar o presidente atual: como a mulher espancada e traída, que sempre acha que o marido vagabundo e violento vai melhorar), que sempre teima em se chocar sem reagir, nós vamos – sem sombra de dúvidas – repetir a história, de novo, como farsa; senão já, daqui a quatro anos.


Muitas foram as fontes que me inspiraram a escrever este artigo. Deixo duas das mais importantes:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2022/10/nos-cem-anos-da-marcha-sobre-roma-vale-lembrar-por-que-o-fascismo-triunfou.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

https://premium.canalmeio.com.br/edicao/192437/

PAULISTA: POR TUDO O QUE LHE É SAGRADO, SALVE SÃO PAULO…

Tarcisio de Freitas, então ministro da infraestrutura de Bolsonaro em 2021, havia dito ao seu chefe que queria ser senador por Goiás ou até mesmo Mato Grosso, quase ao fim daquele ano. Dois estados do centro-oeste brasileiro, com enormes diferenças entre si. Só para dar ideia, Mato Grosso é o terceiro maior estado da federação, três vezes maior que Goiás. As diferenças culturais, regionais, de produção agrícola primaria, tudo… Tudo é diferente. Mas o candidato do “Republicanos” escolhia, como quem compra um novo sapato, onde queria concorrer como senador, cargo que representa os interesses de um estado diante da União, no Senado Federal. Esse é o grau de compromisso de Tarcísio com os locais que ele pretende representar, dirigir, governar…

Meses depois, para desgraça do povo paulista – que não consegue ver o pote de veneno em cima do piano e não beber – a Barbárie em forma de presidente decidiu que seu ministro deveria, isto sim, concorrer para governador no estado de São Paulo. Tarcísio, bom subalterno que é, aceitou as ordens do “líder supremo”. Inventou um contrato de aluguel, colocou o sobrinho pra viver dentro e, como num passe de mágica, passou a saber exatamente do que São Paulo precisava… E o povo paulista concordou…, mas eu já volto aqui.

Eu tenho 36 anos. Portanto, posso dizer que faz 20 anos que me interesso por política, desde que meu professor de história, Edson, pediu que nós considerássemos nos alistar como eleitores facultativos. A primeira reação, como a de qualquer colega normal e da mesma idade, foi “por que eu quero essa bucha?”. Rimos. E a maior parte ignorou o pedido do velho mestre.

Eu não me alistei eleitoralmente naquele ano. Esperei os 18 e a obrigatoriedade. Mas, durante uns dois meses antes da eleição daquele ano de 2002, eu fiquei pensando em quem eu poderia querer ver eleito. Dali pra frente, eu passei a ler sobre política. Não com qualidade, tampouco com volume, mas iniciava-se em mim um interesse que não existia antes.

Desde aquele tempo, não votar no Partido dos Trabalhadores (PT) era uma convicção passada de pai para filho em minha família. Meu avô, funcionário fabril da região do ABC paulista, aposentado por invalidez, contava sempre sobre como Lula fazia piquetes nas fábricas de São Bernardo do Campo, já mancomunado com o patronato da região para justificar demissões em massa que ocorreriam a seguir. Assim, Lula era o lobo em pele de cordeiro. O sindicalista que brigava pela classe trabalhadora no palanque era, na verdade, um aliado dos patrões contra o coitado do assalariado. Essa história me foi repetida outras várias vezes, tanto pelo meu avô, quanto por meu pai ou pelos meus tios. E eu cresci com um ódio típico das torcidas de futebol, crente de que Lula e o PT eram “o Mal encarnado”.

No entanto, crescer em um ambiente como uma escola técnica da rede Paula Souza, que te faz passar por um vestibulinho, te expõe a gente mais inteligente que a média (não precisa ser muito mais inteligente; basta ser um pouco mais) e de todos os matizes: à direita, à esquerda, ao centro… Não demorou muito e fui cobrado a ler as diretrizes do PT, enquanto partido político. A famosa “carta de princípios”, de 1979. Dali para frente, eu comecei a contextualizar o PT dentro da dimensão política da discussão e não mais como um terrível vilão de história em quadrinhos. Os sentimentos clubistas, típicos da paixão juvenil, começaram a se esvaziar ao longo dos anos. Não, eu não me tornei simpático ao PT. Na verdade, depois de conhecer a carta de princípios, eu comecei a entender o que o Partido queria para o Brasil e no que eu não conseguia concordar com eles.

Por exemplo: a utopia “do fim da exploração do homem pelo homem”, um flerte a outras utopias mais antigas e que, a história mostra, não conseguem sobreviver ao contato com a realidade. Por outro lado, para todos aqueles que se desesperam em afirmar um “compromisso ditatorial” por parte do Partido de Lula, falta leitura da carta (ou caráter em quem afirma) onde se lê, com clareza: “O PT afirma seu compromisso com a democracia plena, exercida diretamente pelas massas, pois não há socialismo sem democracia nem democracia sem socialismo.”. E você pode dizer “é só uma carta”, ao que respondo “assim como a escritura da sua casa, ou a Constituição de 1988”. Sim… Tudo é só papel. Honrá-lo(s) depende de quem acredita nele(s).

Não, eu não passei a gostar do PT. Eu sempre critiquei o PT (inclusive, nos textos mais antigos, ainda no Facebook). Eu nunca votei no PT.

Até 2018.

Em 2018, o povo brasileiro me deu a opção de votar em um professor universitário, graduado em direito, pós-graduado em economia e, depois, pós-graduado em filosofia. Do outro lado, um retardado em ideias políticas, ex-militar preso pelo Exército após ter (supostamente) criado planos para explodir unidades da Força Armada como ameaça por melhores salários e que, descaradamente, não elogiava os presidentes da Ditadura (o que seria ofensa menor) mas, sim, o torturador dos porões. Ou seja: sua indecência já era uma certeza quando da eleição em 2018. Naquele ano, não existia nada mais racional na mesa além de votar “13” no pleito presidencial. E foi como eu fiz.

E Haddad perdeu. E cá estamos nós, quatro anos depois: um país destruído, rachado entre bolsonaristas e o resto (que acredita que a democracia vale algo maior que as convicções políticas de cada um), quebrado emocional e economicamente [o estrago econômico de uma eleição financeiramente manipulada começa na segunda que vem, pós eleição, anotem aí] …

E resta a escolha entre o desastre de mais quatro anos de delapidação, mais acelerada com um Congresso que favorece o piadista sobre gente sufocando ou um sofrido reinício das instituições democráticas, o que se decidirá no próximo domingo. Mas eu não vim aqui falar do Brasil. Não. Eu vim aqui implorar a você, paulista, que não destrua o estado de São Paulo no próximo dia 30 de outubro. Sim, eu vim implorar.

Se você não pode votar em Haddad, por qualquer motivação; emocional, racional, espiritual […], tudo que lhe peço – e só peço, porque não se pode exigir tal coisa e seguir falando em democracia – é que não vote no opositor-paraquedista. Anule, vote em branco, mas não fortaleça uma candidatura que COM CERTEZA destruíra o estado mais rico e mais desenvolvido da federação brasileira, ao longo de quatro anos, rifando instituições para grupos políticos que só tem uma missão: esvaziar os cofres a que tem acesso. E os cofres de SP, como eu disse, são os mais cheios.

Votar no candidato do “Republicanos” ao governo de SP, tentando atingir o PT, ou Haddad, equivale a você tomar veneno esperando que seus desafetos morram. Não vai funcionar e vai acabar pior para você.

Eu sustento, sem qualquer medo de estar equivocado, que Haddad é o político mais bem preparado de sua geração nos quadros do Partido dos Trabalhadores. Haddad tem inúmeras conquistas e, sim, algumas derrapadas na gestão que fez à frente da capital paulista, mas, veja: essas derrapadas foram do tipo que só sofre quem tenta mudar alguma coisa que não vai bem. Haddad, antes de prefeito de SP, foi um competente ministro da educação por dois mandatos, sendo autor de um programa que formou milhares de brasileiros na educação superior, que é o ProUni. Que se faça justiça, a ideia começou com sua esposa, como ele sempre gosta de destacar.

Haddad tem diversas premiações: MobiPrize 2014 (Universidade de Michigan), 10ª edição do Sustainable Transport Award, Prêmio Rainha Letizia (Espanha) de Acessibilidade, Prêmio a Hora do Planeta 2015 (WWF), Prêmio Mayors Challenge 2016 em Agricultura. Seu plano diretor ganhou um prêmio da ONU no concurso de Melhores Práticas Inovadoras da Nova Agenda Urbana… Enfim, Haddad conquistou prêmios de diversas organizações internacionais, e isso se deu com projetos que, sim, causaram transtornos, porque é impossível resolver a cidade de São Paulo e seu crescimento absolutamente caótico e impensado, sem incomodar alguma parte da população. E sim, ele cometeu erros. Ciclofaixas que ligavam nada a lugar nenhum, ou controles de velocidade que não faziam sentido com o tipo de malha viária construída. Sim, isso tudo está lá em sua história e não deve ser varrido para debaixo do tapete. Porque: a) não foi crime. b) ele tentou algo e não deu certo. Deveríamos punir quem tenta solucionar problemas históricos com algo novo? Eu penso que não. Basta que o candidato tenha a humildade de voltar atrás e desistir do que não deu certo, mas seguir tentando coisas novas.

E não são ideias estapafúrdias. Se fossem, teriam sido totalmente varridas do mapa. Os corredores de ônibus continuam aí. A maior parte das ciclofaixas, também. O bilhete único de Marta Suplicy (então, PT) também. Logo, não é possível que tudo isso seja terrível e tenha seguido em vigor. Caso contrário, só resta entender que o político seguinte foi tão ruim quanto o oponente derrotado. Ou, que o povo paulistano (no caso da prefeitura da capital) tem a péssima capacidade de escolher “oponentes iguais”.

Tarcísio não sabe onde vota. Tarcísio não conhece o estado, suas regiões, seus dramas. Tarcísio mal sabe que para ser senador do Mato Grosso ou de Goiás, teria que defender prioridades completamente distintas. E, mesmo assim, com apenas seis meses de aluguel em um imóvel ocupado por seu sobrinho, e não por ele, Tarcísio está “pronto” para ser governador de São Paulo. O estado mais rico e desenvolvido da nação, repito.

Não se trata de ser carioca (embora, sim, me dê calafrios ouvir ele dizendo que vai “trazer as ideias boas da segurança pública do Rio” para São Paulo – Meu Deus do céu…). Por mim, ele poderia ser argentino naturalizado brasileiro. CONTANTO… Que tivesse morado em São Paulo (no estado) tempo o suficiente para saber o que vai bem e o que vai mal nesse lugar. Ele não sabe. O plano de governo dele não é dele. Como poderia? Ele não sabe nada de São Paulo. Nada.

Sua visita a Paraisópolis é nada mais do que o puro suco do bolsonarismo e uma amostra do tipo de gente perigosa, mentirosa e disposta A TUDO que São Paulo cogita pôr no governo do estado, por longos quatro anos. O “atentado” que não foi atendado. Os agentes da ABIN que não protegem nenhum outro candidato, além de Tarcísio. O comitê de campanha do candidato do “Republicanos” que demanda da Jovem Klan – ato falho, perdão, mas se aquilo é jornalismo, eu sou lindo, alto e magro – que seu cinegrafista apague os vídeos que gravou. O que querem esconder?

Depois, passou a falar por aí que ia “mexer na maioridade” [penal]. Explica, nas linhas miúdas, que vai sugerir isso ao Congresso, mas na hora da campanha, grita isso aos quatro ventos como se coubesse ao governador decidir a maioridade (aviso: NÃO CABE).

E, por vingança, um esmagador número de paulistas está prestes a condenar o meu estado a quatro anos de destruição da coisa pública. Para se vingar do PT. Para se vingar do político mais competente e preparado – na minha opinião, bem mais [tecnicamente] preparado que o atual candidato à presidência – que aquele partido detém. Por vingança. O veneno que tomaremos todos juntos, no próximo dia 30, na torcida de que o outro morra. Ainda dá tempo de não tomar. Ainda dá tempo de ter quatro anos de uma tentativa de vencer problemas e desafios crônicos de um estado rico, mas desigual. Desenvolvido, mas sucateado ao longo de vários anos.

Eu, honesta e sinceramente, já não tenho muita esperança diante de tanto ódio cego em que esta eleição se converteu. Tudo o que posso fazer, no entanto, é vir aqui e expor as razões que tenho para que você não destrua o lugar em que mora. Recomendo ver os doadores da campanha de Tarcísio para descobrir que eles são parte das famílias mais ricas de SP e que, logo, não estão fadados a viver aqui se tudo der errado com seu experimento em forma de aventureiro. Eu e você, no entanto, temos poucas chances de jogar tudo pro alto e sair daqui caso a experiência com o candidato-paraquedista dê errado.

Começa, agora, o debate entre os candidatos à governador de São Paulo na Rede Globo de televisão.
Assista. Mas, assista com o cérebro ligado, por favor. Remova o clubismo do antiptismo de seus olhos, só por um par de horas; é tudo que lhe peço. Veja quem conhece o estado de São Paulo e seus problemas, e quem queria ser senador do centro-oeste até o fim de 2021, em dois estados totalmente diferentes entre si, mas “acabou” candidato a governador de São Paulo como quem sai para comprar pão e volta com uma bicicleta.

Por favor. Eu lhe imploro: Não tome veneno. Por mim. Por você. Por todos nós. Por São Paulo que eu e você amamos.


Atualização: VEJA esse vídeo. É o resumo de tudo: https://twitter.com/hereisgone/status/1585761731229327360?t=XhkkvLE2AQAYxCLsDFMtfQ&s=19

https://www.jornalopcao.com.br/bastidores/ministro-tarcisio-de-freitas-deve-ser-candidato-a-senador-por-goias-358193/

https://pt.org.br/carta-de-principios-do-partido-dos-trabalhadores/

https://congressoemfoco.uol.com.br/area/pais/suspeita-de-armacao-em-tiroteio-eleva-pressao-sobre-tarcisio-de-freitas/

Sobre a morte das pesquisas de intenção de votos (ao menos, como as conhecemos)

Créditos da imagem: Scientific American / NASA / Ian Allen

O serviço de funeral terá início às 15h. O sepultamento ocorre às 17h.

A mecânica dos fluídos, ramo da física que estuda o comportamento das forças aplicadas em fluídos [e.g.: água, ar], tenta, há muito tempo, explicar como o perfil aerodinâmico da asa de um avião gera sustentação. Em palavras bem simples: a ciência humana ainda não sabe – exatamente – porquê a asa do avião permite ele voar. Veja: a ciência sabe COMO fazer a asa do avião para que ele voe. O que a ciência não sabe é PORQUÊ isso dá certo.

Se você pesquisar por uma equação clássica de sustentação aerodinâmica, ela é um monstrinho. Cheia de letras (incógnitas ou variáveis) e valores pré-definidos (constantes):

L = (1/2) d v² s CL

Se cairmos na bobagem de verificar equações de arrasto, ou de velocidade mínima de sustentação do perfil aerodinâmico, a coisa só piora…

Agora, comparemos essa equação com a equação de Einstein, feita para descrever sua famosa teoria especial da relatividade:

E = mc²

Como algo pode ser mais (matematicamente) elegante do que isso? A equação de Einstein descreve como massa e energia são a mesma entidade física e como é possível arguir que uma pode se transformar na outra (afinal, é isso que toda equação faz: propõe a equivalência de dois lados [expressões] separados por um sinal de igual).

Há uma citação que frequentemente se atribui a Einstein (se não é dele, só pode ser da Clarice): “Se sua equação tem muitas variáveis, é provável que você não tenha entendido o fenômeno que quer explicar”. Se a frase é mesmo dele, só posso dizer: mala dos caral$#@%… Mas, como rebater o cara que segue tendo suas teorias (praticamente) demonstradas, décadas após sua morte?
¯\_(ツ)_/¯

Se não é dele a citação, ela não deixa de ser menos interessante e, até certo ponto, verdadeira. Quanto mais entendemos um fenômeno, menos ele nos é suscetível a interferências e imprevisibilidades. Em outras palavras, quando entendemos o que realmente influencia um fenômeno, não precisamos trabalhar com n variáveis de controle adicionais só para endereçar o risco de não termos considerado tudo.

É claro – mas é melhor dizer: para chegar em E = mc², Einstein escreveu mais linhas de equações do que existem dogs caramelos no mundo (ok, talvez nem tanto). Foi o domínio e a compreensão do fenômeno que ele queria descrever que permitiu o refino de tantas equações e extrapolações matemáticas em uma elegante equação de apenas 3 variáveis. Não quer dizer que uma equação com mais “entradas” é malfeita. Apenas quer dizer que ela precisa de mais informação para reproduzir matematicamente um fenômeno e permitir predições daquele fenômeno no futuro, através dela.

George Box, com sua prancha importada, assombrou a meninada da ciência. O estatístico calhorda advertia, em algum lugar distante da última década de 70, que “todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis”. Coitado de Georjão. Não tenho razões para dizer que ele era calhorda. Talvez fosse. Mas eu só quis brincar com “surfista calhorda” dos Replicantes, que eu ouvia enquanto escrevia o começo deste post.

Eu já falei do Georginho por aqui, no passado. A minha insistência (quase-obsessão) com Lord Box (eu também não sei se ele era um Lord) é que a mensagem dele é, ao mesmo tempo, óbvia e perspicaz para quem tem amor à ciência. Ironicamente, a mensagem parece estar perdida nos tempos atuais, especialmente aos olhos dos que promovem as ciências sociais aplicadas.

George Box, químico na origem, estava com uma bucha gigante em suas mãos quando teve que dominar sozinho a área de estatística teórica para demonstrar aos seus chefes que eles estavam indo pelo caminho errado. O pior é que o caminho errado era pavimentado de boas intenções e “boa ciência” (contas e mais contas e mais contas). George teve que evangelizar que a compreensão do mundo pelas lentes de modelos (matemáticos, sociológicos, químicos […]) é sempre incompleta, sempre imprecisa, sempre falha. E, então, o que fazemos? Jogamos todos os modelos/equações/teoremas fora? Claro que não. Só não podemos perder de vista, em nenhum momento, de que todos eles – mesmo os que nos são úteis – estão errados.

Qual é o crime que o(a) cientista (matemático, físico, biológico, político […]) comete quando se esquece que todos os modelos estão errados? Ele(a) passa a culpar a realidade pelo desvio em comparação com suas previsões/modelo. É o triste caso do rabo que abana o cachorro, versão ciência.

Ontem, na capital paulista, amanheceu com sol, 2 de outubro, tudo funcionando, limpeza, jumbo… De madrugada, eu senti um calafrio. Não era do vento, não era do frio (se não notou, note: Racionais™)… O calafrio era o medo de estar sendo enganado da mesmíssima forma que boa parte dos estado-unidenses foram enganados em 2016.

Em 2016, as pesquisas de intenção de votos (vamos chamar só de “pesquisas eleitorais”), nos EUA, apontavam que Hillary Clinton venceria o pleito presidencial daquele ano. O que ocorreu, todos sabemos: Trump ganhou e, com ele, ganharam os republicanos, boa parte das cadeiras do Congresso daquele país. O mundo ficou estupefato. As pesquisas eleitorais até ali, eram um sólido instrumento de interpretação dos pleitos democráticos estado-unidenses e de predição dos resultados. Mas, se elas conseguiam estar tão equivocadas em suas predições (superando grandemente as margens de erro consideradas operacionais), qual era a chance de toda a percepção sociopolítica dos EUA estar equivocada?

Veio 2020, Trump perdeu a eleição para Biden, mas por margem bem menos avantajada do que se supunha, novamente, por meio de pesquisas eleitorais. Dessa vez, é humanamente possível argumentar que as pesquisas não estavam tão descoladas da realidade. Eu discordo dessa defesa. Em 8 estados dos EUA, a distância entre os candidatos foi de apenas 3.5% e metade desses eram estados em que as pesquisas tinham outra expectativa, uma bem mais favorável a Biden. Uma pequena mudança nessa realidade e Trump estaria em seu segundo (e, quem sabe, permanente?) mandato.

Com duas eleições equivocadas na – por muitos considerada – maior democracia do mundo, e tendo a experiência brasileira em 2018 se equivocado igualmente, a minha expectativa – e a de muita gente – era de que os institutos de pesquisa eleitoral haveriam feito a lição de casa, reaprendido a fazer pesquisa de intenção de votos, criado técnicas e métodos de “detecção de descolamento da realidade” (deve haver nome mais científico como “desvio da mediana” ou coisa que o valha) e… E… Nada disso aconteceu.

Verdade seja dita, a maior parte dos institutos de pesquisa de grande porte, no Brasil, não vinha prometendo a vitória em primeiro turno para Lula, em 2022 (embora as projeções permitissem essa conclusão, com só um pouco de otimismo na leitura). Não, o problema não eram os números de Lula. Na verdade, quase todas as pesquisas chegaram bem perto da realidade para o Ptista. Onde elas falharam miseravelmente foi na predição do teto de Bolsonaro. O teto, como se confirmou ontem, é assustadoramente mais alto. Muito mais alto. Mesmo a Paraná Pesquisas, envolvida com algumas polêmicas e acusações de enviesamento, ainda errou o teto de Bolsonaro por 4 pontos percentuais. Não é pouco.

O Bolsonarismo não está desgastado, a pandemia não machucou essa marcha da extrema direita brasileira, a fome não assusta o eleitor das classes C e D o suficiente para fazê-lo voltar na opção. Pelo contrário: Essa marcha da extrema direita está muito perto de emplacar a façanha de colocar um carioca que – como dita o meme – não sabe a diferença entre São José dos Campos, no Sudeste paulista, e São José do Rio Preto, no extremo Noroeste, para governar o estado de São Paulo – o estado mais orgulhoso e afeito ao “nós vs. o resto” da nação… O estado que mais encrenca com o Rio, vai ter um governador carioca que não sabe onde vota em São Paulo, o estado mais rico do país. Esse é o tamanho do poder Bolsonarista, em 2022.

Diferente das pesquisas e sua natureza amostral (onde você extrapola os números do todo a partir de uma parte), o 1º turno é um censo. Mais que um censo, ele é a verdade; ali não existe “voto envergonhado”. O cidadão põe na urna aquilo que ele absolutamente quer que aconteça. Culpar os resultados do 1º turno é como culpar a realidade pois ela não respeitou suas equações que tentaram explicá-la. E esse é um pecado imperdoável para qualquer um que se diz “do lado da ciência”.

O modelo de pesquisa eleitoral que praticamos nas Américas está errado. E, do jeito que ele é, sequer é útil, pois erra e erra em margens inaceitáveis de tão abertas que são. Pode ser A ou pode ser B, e a chance de A e B é de 50%… Não dá para decidir com base nesse tipo de predição. Ou melhor, tanto faz se você considerou as pesquisas para se informar ou não.

Veja: não há qualquer dúvida por aqui de que estatística é uma ciência. A estatística não se resume, de forma alguma, à piada da cabeça no forno, o pé no freezer e a temperatura agradável do paciente. Estatística tem um alto poder de predição de eventos futuros e isso é um resumo – porco – do que é a ciência: a capacidade de compreender fenômenos passados e seus mecanismos e, dessa profunda compreensão, extrair modelos (equações, teorias, leis, lógicas […]) que permitem predizer, com grande margem de certeza, como se dará aquele fenômeno no futuro. Estatística é, sim, ciência.

Mas a forma como usamos a estatística para prever o comportamento do eleitorado em democracias – especialmente as americanas [EUA, Brasil, Chile …] – do século XXI, está morta. Se não está morta, falta só desligar os aparelhos. Eu cheguei ao absurdo de ler um cientista político sério dizendo que a pesquisa para Senador “sempre foi um chute”. Esse é o grau de avacalhação de algumas pessoas da área. Oras! Se é um chute, por que me dar ao trabalho de consultar as pesquisas, então? Por que os institutos se dão o direito de vender isso? Vender como estatística o que é mero chute não seria estelionato ou charlatanismo? Mais que pseudociência (no caso da pesquisa para o Senado), estaríamos diante de crime contra o consumidor?

Para o desagravo do autor do tiro no pé, eu sei que ele é BEM mais sério do que isso. Mas essa resposta para tentar defender a validade das pesquisas foi um senhor desserviço. Ele claramente se esqueceu de que todos os modelos estão errados e que só devemos salvar os que são úteis.

Para mim, é fato consumado de que não dá mais para sair às ruas com um bloquinho embaixo do braço, um sorriso no rosto e perguntar “em quem o senhor (ou a senhora) vai votar para presidente?”. Isso simplesmente não é mais capaz de explicar a realidade política do nosso tempo. E é um grave problema para a democracia porque a lógica dos partidos que ainda querem jogar o jogo democrático é utilizar as pesquisas para saber se a campanha está focando nos pontos certos, falando dos problemas que importam à maior parte do povo, e endereçando medos e receios em relação ao próprio programa político. Sem nenhum tipo de pesquisa política, as campanhas serão basicamente construídas às cegas. Como isso é ruim para todo o sistema democrático? Simples: O candidato que mais falar em superstições e crendices que o povo crê, leva o pleito. E o sistema se retroalimenta a cada 4 anos. Mais superstição, mais voto. Mais ressonância de medos, mais membros na seita. E esse é só um aspecto dentre tantos outros.

Não é possível governar (bem) um país, sem censo. O censo é o GPS de um avião no meio de um céu nublado. Do mesmo modo, não é possível fazer uma campanha política, de qualidade, e refleti-la em seu projeto de governo, sem as pesquisas. MAS… Mas… Nesse exato momento, as pesquisas são um GPS que aponta São José dos Campos e do Rio Preto como cidades quase vizinhas. Um pequeno desvio é uma coisa. Um grande desvio não é aceitável. Nem no GPS, nem na pesquisa.

O problemasso é que seres humanos se apaixonam pelas ferramentas que têm. Quando você ama martelos, tudo vira prego. Quando você ama pesquisas e elas estão erradas, não são elas que estão erradas, é o(a) eleitor(a). “Ah, os evangélicos”, “ah, o Bolsonarista mente”, “ah, a periferia não entende sua classe social”… A estupidez da Esquerda pode ser bem parecida (senão idêntica) à da Direita.

Todas as respostas acima estão sendo dadas, aqui e ali, para explicar como o “desgastado Bolsonarismo” deu um cruzado de direita na boca da “Frente Ampla”. O combate não acabou. O segundo assalto vem aí e tudo indica que Lula deve, sim, vencer, se ao menos trouxer para casa o grosso (~70%) dos votos de Tebet e metade dos votos de Ciro, sem perder o que já conseguiu. Mas o susto foi grande.

Enquanto política não é futebol, o clima é mesmo o daquele time de estrelas que vai pra final contra um time azarão, toma um empate aos 90 minutos + acréscimos e acaba tendo que jogar o golden goal com os cavalinhos paraguaios. O time grande entra na prorrogação se sentido pequeno. O time pequeno entra gigante.

Se Lula, o PT, e todos nós – que não votaríamos em Bolsonaro nem que a disputa fosse entre ele e o próprio Satã – não organizarmos as ideias e ESQUECERMOS as pesquisas como ferramenta de aferição da realidade, o risco que todos nós corremos é o de achar que os ~5% a mais de Lula são suficientes e que não há risco de votos virando ao longo dessas 4 semanas até o dia 30. E aí, novamente, vamos culpar a realidade, o eleitorado, as fake news […] por seu “imenso desrespeito” às nossas previsões e modelos.

Esquecer que o eleitor – ao menos o brasileiro – gosta de votar em quem vai ganhar é um erro crasso. O sentimento moral – mesmo que não se comprove tanto nos números – é de que Bolsonaro e quem ele apoiou venceram o primeiro turno. A realidade é menos festiva. Mas a realidade pode não importar para eleitores buscando ficar do lado do time que venceu o primeiro jogo da final.

Voltado a cutucar uma ferida já comentada, a ideia de que as pesquisas não estão acertando porque o Bolsonarista não responde pesquisa, ou responde e mente (por vergonha ou sacanagem) é de todo idiota. Idiota, canalha, imbecíl… Escolha o termo que quiser. É obrigação do pesquisador da área social preparar seu modelo para lidar com a diferença entre o que o ser humano diz e faz – porque isso é basicamente o objeto de estudo das ciências sociais aplicadas. E, para isso, o modelo precisa, por vezes, ser deselegante – como as equações de aerodinâmica – e coletar muitas variáveis, medir o mesmo objeto pelos mais variados ângulos, questionar a mesma coisa de diversas formas diferentes, acarear uma amostra com outra e, no pior cenário, ter a coragem de abraçar o ceticismo e descartar a amostra por inteiro (porque ela não é confiável/está contaminada). A única razão para que isso não ocorra é o ego de quem (CPF ou CNPJ) pesquisa. Se você se apaixona pelo modelo e o modelo está errado e, ainda por cima é inútil, vai ser difícil reconhecer isso; especialmente a segunda parte.

Vai ser preciso reinventar os sistemas de pesquisa eleitoral para o futuro. Não é possível confiar no Zap do Bozo. Não é – mais – possível confiar nas pesquisas tradicionais, igualmente. Mas não dá para fazer política de qualidade só com fé em Deus e sorriso no rosto. Notem o que eu disse: política de qualidade. Política populista, retrógrada, necrófila, claro: esta se faz pelas formas mais abjetas possíveis.

Enquanto os grandes institutos não reformularem seus métodos, não aumentarem as variáveis na equação e não forem absolutamente céticos no descarte de amostras contaminadas, as pesquisas eleitorais serão equiparáveis a astrologia. Pode dar certo, pode dar errado, mas efeito e causa não tem qualquer correlação. Vão acertar aqui e ali, quando o eleitorado quiser que acertem. Vão errar sempre que o eleitorado quiser que errem. E com 44% de Bolsonaristas no grupo dos 79% de eleitores (do universo de 156 milhões de eleitores habilitados) que compareceram às urnas, eu fico muito à vontade para dizer que as pesquisas tradicionais ainda vão errar muito e para sempre.

Por este motivo, daqui por diante – e enquanto não houver publicidade de reformulação do modelo – eu trato pesquisas eleitorais como trato a previsão do meu signo: pode ser divertido de ler e acompanhar, mas é essencialmente falso e ninguém – que preza a ciência – deveria se guiar por aquilo para saber o que fazer da própria vida (ou com o próprio voto).

Material consultado:

All models are wrong – Wikipedia

George E. P. Box – Wikipedia

Why Polls Were Mostly Wrong – Scientific American

Did Biden win by a little or a lot? The answer is … yes. (nbcnews.com)

Fluid mechanics – Wikipedia

No One Can Explain Why Planes Stay in the Air – Scientific American

E = mc² | Equation, Explanation, & Proof | Britannica

Lift Formula (nasa.gov)

aerodynamics-and-aircraft-limits.pdf (aerostudents.com)

Institutos de pesquisa precisarão rever metodologias, diz professor da USP – BBC News Brasil

Sobre o 7 de Setembro e o voto útil

Créditos da imagem: Sérgio Lima / poder360.com.br

AVISO: Este é um artigo de opinião. Portanto, não há extensa pesquisa ou fontes a serem citadas, como eu geralmente faço. Tudo o que digo a seguir é minha, e só minha, opinião e nada além.

E a vida já não é mais vida

No caos ninguém é cidadão

As promessas foram esquecidas

Não há Estado, não há mais nação

– Hebert Vianna

Hoje, 7 de setembro de 2022, os brasileiros deveriam comemorar os 200 anos do “7 de Setembro”; a data histórica que marca a independência da então colônia para com a Coroa Portuguesa, colônia que viria a se tornar a nação brasileira.

“Deveriam”, sim, porque os brasileiros não puderam comemorar a data. O presidente atual lhes negou o direito. Pelo menos, negou para os ~68% que não estão apoiando a reeleição dele (a porcentagem obviamente reflete apenas o universo de eleitores habilitados, mas, projetemos que ~100 milhões podem representar a opinião 210 milhões [e, de fato, representarão, já que eles decidirão o que está por vir na política, para todos que moram aqui]).

Bolsonaro, como fez e faz a todo momento, sequestrou uma data nacional instituída há 200 anos. Já havia sequestrado a bandeira nacional, a camisa da seleção brasileira de futebol (que não mais pode ser a “canarinho”, se quiser ser de todos nós), bem como sequestrou as Forças Armadas, instituição que deveria ser do Estado democrático de direito brasileiro, e não do Jair. Agora, sequestra um feriado nacional, uma data histórica da maior importância (já viu filmes estado-unidenses sobre o 4 de julho? Imagina se alguém sequestrasse a data em prol apenas de uma parcela da população daquele país), e o direito dos brasileiros de reconhecer o valor cívico e histórico da Soberania nacional.

O que Bolsonaro (e seu comitê de campanha) fez hoje, claro, são apenas novos episódios de possíveis crimes (no plural) para a longa lista de suspeitas que recaem sobre o candidato à reeleição. Se não há tipificação para “sequestro de data nacional”, há tipificação para o abuso de poder econômico e desvio das funções (ou uso indevido) da máquina pública. Tipificações presentes tanto na Lei das Eleições (Lei 9.504/97) em seu art. 73 e incisos, combinado com o art. 74 do mesmo diploma, quanto na Lei das Inelegibilidades (Lei Complementar 64/1990) em seu art. 22 e incisos.

Bolsonaro não foi Presidente do Brasil, nem Chefe de Estado, no 7 de Setembro. Foi, isso sim, candidato em comícios em Brasília e Rio de Janeiro (em São Paulo ele não participou dos atos, e o ato na Paulista não tinha o envolvimento direto de militares, até onde me consta). Comícios bancados pelo Estado brasileiro, pelo erário, pelo imposto de todos nós. Ainda usou as Forças Armadas para realizar o mais caro comício que se tem notícia (tem ideia de quanto custa ativar a Esquadrilha da Fumaça em prol de um candidato? E mobilizar navios de guerra? E lançar paraquedistas? E montar palanques? E patrulhar milhares de pessoas com forças policiais e de inteligência?).

No palanque do Distrito Federal, recebendo o Chefe de Estado de Portugal, nação (hoje) amiga e historicamente relevante para nós, o escanteou enquanto ficava lado a lado com Luciano Hang, o autointitulado “véio da Havan”, recentemente mais conhecido pelo grupo de WhatsApp “Poderosos pelo fim da Democracia” (não… Esse não era o nome do grupo. Sou eu lhe fazendo o favor da tecla SAP).

No mesmo palanque, Bolsonaro lembrou seus sectários de que é preciso convencer os outros (que não querem votar nele) de que ele é o futuro mais brilhante para o Brasil. Para dar mostras das vantagens que tem a oferecer, sugeriu comparar quem tinha a melhor primeira-dama, rebaixando Michelle a item de exposição para seus eleitores-avalistas. Ele, que trata tão bem as mulheres, beijou Michelle de forma inesperada e – urgh – de língua, por vários segundos, em cerimônia solene… Depois, usando o microfone, puxou o corinho: “imbrochável! Imbrochável!” (sic). O Presidente Marcelo Rebelo assistia a tudo, calado… o véio da Havan ria… A primeira-dama fazia a habitual cara de “eu não estou aqui” enquanto sorria protocolarmente… Naquela manhã, câmeras captaram desentendimento próximo ao carro oficial, entre aquele projeto de ditador e a mulher que ele trata como mercadoria em exposição.

De tudo que foi dito, NADA remeteu ao 7 de Setembro. Nenhuma frase sobre a História, sobre os valores de um Estado livre e autodeterminado. Não houve sequer uma menção às tropas que desfilavam (talvez porque ele acredite que isso possa protegê-lo das denúncias de crimes eleitorais? Se foi só por isso, perdeu a chance de bajular parte relevante de sua base política e de força, já que afastar a incidência dos crimes mencionados não é possível diante do bom-senso e de honestidade mínimos. Só um(a) degenerado(a) poderá achar lisura e justificativa nos atos de hoje.

No Rio de Janeiro, os discursos e a confusão entre Chefe de Estado e candidato seguiram iguais ao Distrito Federal. Mais militares bancando o comício com shows, estruturas, segurança, armas, e tudo custeado pelo Estado brasileiro (nós).

Os outros candidatos à Presidência demoraram a reagir. Ciro Gomes, do PDT, foi um dos primeiros a denunciar a possibilidade de crimes de Bolsonaro, em vídeo transmitido pela sua “Ciro TV”. Lula emitiu nota de repúdio em redes sociais, mas sem imagens. Simone Tebet, idem.

O que ocorreria em um país sério seria a inelegibilidade de Bolsonaro para o pleito de 2022, diante das diversas agressões, televisionadas ao vivo, às leis que antecedem (em algumas décadas) os atos de hoje.

Não há legalidade, não há relativização, não há forma de que as leis brasileiras sobrevivam e a candidatura de Jair, também.

Uma delas sairá destroçada pela outra. Conhecendo o Brasil de Bolsonaro, alvo – atualmente – de 147 pedidos de impeachment, não tenho muitas dúvidas – com imenso pesar – de qual será o lado perdedor. Porque o Estado brasileiro está cooptado pelo bolsonarismo. Ele invadiu os Poderes, seja em Pacheco que não se impõe, seja em Lira que o blinda e o protege do alcance da legislação. O Judiciário, em sua esfera máxima, o STF, ainda resiste, muito embora a infiltração já tenha começado por lá também, na figura do Ministro Kássio Nunes Marques que, abertamente, atua no sentido de garantir a proteção das metas do presidente no Judiciário.

Por tudo isso, não creio que haja espaço para que a lei seja cumprida. Bolsonaro não pagará por seus crimes, pelo menos, não antes de sua derrota nas urnas. E não obstante eu entenda claramente que é melhor que sua punição ocorra após a derrota nas eleições de outubro (para que não se crie um falso mártir), a dolorosa verdade é que Bolsonaro criou sua Escola nesses 4 anos. Se o presidente da República, com todos os holofotes que o seguem, pode sapatear na Lei brasileira, o que fará o prefeito da cidadezinha que ninguém sequer conhece? O que farão os deputados dos rincões do Brasil? É o problema do guarda da esquina, outra vez. O dano já está aqui. Com ou sem Bolsonaro. Revertê-lo será muito difícil e levará muito tempo, ainda que tudo dê certo.

O voto útil

DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis… ora!

Não é motivo para não querê-las…

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!

– Mario Quintana

É forte, como nunca, a discussão na Esquerda brasileira sobre a defesa e a “evangelização” do voto útil em prol de Lula.

Para resumir, caso você desconheça, “voto útil” é o conceito prático de que diante de uma ameaça tão grande à democracia, como Bolsonaro, os brasileiros sensatos não podem se dar ao luxo de não construir uma resposta firme e terminativa ao reinado tresloucado do falso Messias, já no primeiro turno, em 2 de outubro.

Ou seja: diante do que se tem em todas as pesquisas de intenções de voto para o cargo de Presidente da República, fica cada vez mais cristalina a impressão de que um segundo turno será, mesmo, entre Lula e Bolsonaro. E se Bolsonaro é o mal maior, o que os eleitores não-bolsonaristas têm de fazer nesse momento é adiantar o voto que será feito no segundo turno, já para o primeiro. Se isso ocorrer, Lula vence em primeiro turno, e a soberania popular se fará ouvir alto e claro, logo na primeira oportunidade.

À luz da razão, realmente é difícil contra-argumentar: se nós sabemos o que vai acontecer (Lula vs. Bolsonaro no segundo turno), porquê nós – que não votaremos em Bolsonaro nem que a opção a ele seja o próprio Satan em toda sua malignidade – deixaremos que Jair ganhe sobrevida ao combate de 2 de outubro? Certamente este é um forte argumento. Mas, eu ouso dizer que é cedo para decidir isso.

Eu já sofro com a realidade à frente. Se tudo der certo e Bolsonaro cair, tudo indica que 2023 começa com Lula presidente. E, sendo isso verdade, o dia seguinte à vitória de Lula me colocará na oposição a ele. Não concordo, em nada, com as visões de política em Lula. Concordo, sim, com Ciro no sentido de que o populismo de Lula gerou algumas Escolas por onde o populismo de Bolsonaro aprendeu e cresceu. Não vou tão longe quanto meu candidato preferido, em dizer que Lula e Bolsonaro se equivalem. Esse é um erro interpretativo grave de Ciro, a meu ver.

Não, Lula, com todos seus defeitos e biografia política criticável, ainda acredita na democracia brasileira. Foi ele que iniciou a observação à lista tríplice para indicação de um(a) PGR, fortalecendo e muito a função dessa instituição. Ele aumentou muito a autonomia da Polícia Federal. Idem para o MPF. Não há exagero em dizer que o governo Lula é diretamente responsável pelas condições para que a Lava-Jato acontecesse, em primeiro lugar. Não necessariamente sabendo como tudo acabaria, mas ele e seu governo certamente poderiam ter interferido para solapar as investigações. Mas não o fizeram.

Bolsonaro é oposto de tudo isso. Usou, sempre que pôde, de seu cargo e de seu poder para interferir e paralisar investigações contra seus parentes, seus aliados e contra si. Sabotou, tanto quanto possível, os mecanismos “de polícia” do Estado brasileiro (COAF, IBAMA, FUNAI, PF, ABIN, PGR… a lista poderia ser maior se eu quisesse). Bolsonaro é o presidente que riu de quem morria sufocado pela COVID, sem leito em hospital. Bolsonaro é dono do “e daí? Não sou coveiro” e da volta de JetSki usurpado da Marinha de Guerra do Brasil, enquanto o povo morria nas enchentes. É amigo e defensor do ministro do MEC que foi negociar favores com outros amigos do presidente e pastores evangélicos. Bolsonaro é pai daqueles que compram mansões de R$ 6 milhões, com salário de algumas poucas dezenas de milhares de reais. Bolsonaro é o patriarca de uma família que comprou mais de 5 dezenas de imóveis em dinheiro vivo (no todo ou em parte). Isso é um pequeno abstract do que é Bolsonaro que, em revista, é extensamente mais perverso e mais canalha do que tal resumo. Mas para que me estender? Sei que, lamentavelmente, falo para convertidos.

Bolsonaro não é fã dos presidentes militares. Ele é fã do torturador, Ustra. Ele acha que o regime militar matou foi é pouco. Ele não é exatamente fã da disciplina e respeito às leis, teses aventadas por quem proclama a superioridade daqueles tempos. Ele só é fã da perversidade dos porões da ditadura. Até porque, se gostasse de lei e ordem, não teria sido expulso do Exército por planejar um atentado terrorista contra a instituição, como “forma de barganhar salário”. Ocorre que a punição para oficial militar é a mesma punição para magistrados: promoção e aposentadoria. Brasil, 200 anos de independência.

Não, Lula não é *meu* candidato à Presidência. Como eu disse, sendo ele eleito em outubro, no dia seguinte, eu estarei na oposição a ele. Porque, para mim, ele não tem o projeto político a altura do Brasil. Não importa o que ele fez pelos pobres (e seu governo fez MUITO), em 8 anos. A bússola política que o norteia não levará pelo caminho que eu entendo ser o melhor para meu povo. É possível cuidar das mazelas sociais e buscar outros caminhos mais longevos para o Brasil em outros candidatos e propostas. É o que creio, sincera e honestamente.

Mas, nada disso importará se a democracia acabar. E eu vejo os “céticos”, quanto a um golpe de Jair, sustentando raciocínios como “ah, até parece que o Jair vai acabar com a democracia”. Não é preciso acabar com ela, nos moldes de 1964. Aquilo é escandaloso demais para nossos tempos. Os safados que o apoiam ainda querem viajar para Miami e um golpe tradicional seria um belo dum impeditivo. É mais fácil emular uma democracia, como Polônia ou Hungria vêm fazendo. É possível ter a “casca” da democracia sem que ela exista, de fato. E este, senhoras e senhores, é o projeto de Jair Messias Bolsonaro. Não tenho qualquer dúvida quanto a isso.

Entristece-me imaginar que terei que ajudar a reeleger Lula. Os ~100 milhões de eleitores do Brasil não me deixarão outra opção, ao que tudo indica. Se fosse verdadeira a declaração “nem Bolsonaro, nem Lula”, é claro que Ciro, Tebet, D’Avila, Soraya[…] ou qualquer outro, estariam bem colocados nas pesquisas. Não estão. Quer dizer que os que dizem isso provavelmente seguirão votando no Mito. Só não têm a coragem de defender a posição indefensável para gente verdadeiramente de bem e que não se compraz com a morte e o sofrimento alheio.

Contra o voto útil, ressoa forte a mensagem de que o seu candidato ideal só não vai para o segundo turno porque todos os que acreditam nas ideias dele estão pensando como você. Eleições, afinal, não podem ser como uma corrida de cavalos: nunca deveríamos ir às urnas para tentar adivinhar e votar “em quem vai ganhar”. O voto de primeiro turno deveria, sempre, ser movido pela afinidade entre eleitor(a) e candidato(a). Em eventual segundo turno, sim: vale praticar o pragmatismo de escolher aquele(a) que menos lhe desagrada, caso seu(a) candidato(a) de primeiro turno não esteja por lá.

Mas, é impossível dizer que 2022 é só mais um ano eleitoral no Brasil. Não é. A democracia está, de verdade, em risco. Como eu afirmei, é possível criar uma mentira com cara de democracia e destruir a verdadeira por completo, e não tenho qualquer dúvida de que Bolsonaro a destruirá se a chance lhe for dada.

Eu, pessoalmente, não considero equivocada a pregação em prol do voto útil, ainda mais diante da ameaça de que Bolsonaro representa e da falta de respostas da Justiça aos seus ataques permanentes e seguidos. Uma derrota na urna, em primeiro turno, seria uma dolorosa punição – ainda muito aquém da punição que ele e seus aliados fazem jus.

Igualmente, considero totalmente justificada a ideia de defender projetos e candidatos no primeiro turno, porque o preço de não fazê-lo é muito alto: 4 anos em nossas vidas não são pouco tempo. Se seu(a) candidato(a) é muito melhor do que as opções, ninguém pode – justificadamente – reclamar de sua opção por apoiá-lo(a) no primeiro turno de 2022, mesmo que isso prolongue a agonia brasileira de ver Bolsonaro em campanha e no vale-tudo por mais 4 semanas. A agonia, afinal, foi contratada pelo nosso povo, em 2018. De algum modo, o gosto amargo é merecido. O triste é que nós, que não votamos nessa aberração, também estamos mascando o fel.

O voto é secreto, por força de mandamento constitucional. Todos têm o direito de divulgar, pré ou pós eleição, em quem votarão/am. Mas ninguém tem a obrigação de informar em quem vai votar ou em quem votou. E isso é fundamental para a liberdade de escolha dos nossos representantes nos ramos dos poderes Executivo e Legislativo. Municipal, estadual e federal. Voto útil, ou não, só você precisa saber da sua decisão.

Se você pretende votar no menos pior, logo no primeiro turno, ou firmar sua filiação a aquele(a) que você considera o melhor para o futuro do seu país, ninguém tem o direito de lhe dizer que você não está exercendo a consciência política e cidadã.

A ameaça de um segundo mandato bolsonarista não pode ser arma apontada contra a cabeça de ninguém. A ameaça de um segundo mandato bolsonarista não pode ser ignorada, igualmente.

Cabe a você, cidadão/ã (portanto, eleitor(a)), escolher qual o custo de lutar pelo futuro do Brasil: amargar 4 anos com a responsabilidade de ter escolhido o menos pior, de cara, ou o sofrimento do calvário prolongado de um segundo turno com, provavelmente, o mesmo resultado.

Seja como for, o pesadelo não acaba ao fim de outubro. Pelo contrário: se absolutamente tudo der certo e a Bolsonaro for negado o acesso a mais 4 anos para a destruição do Estado brasileiro, ele ainda terá 3 meses como presidente para despejar sua raiva e ódio contra tudo e contra todos. Os abusos ficarão ainda piores, não porque seu segundo mandato não viesse a ser um evento terrível. Mas, porque ele vai concentrar seus atos em 3 meses e tentará de tudo para sobreviver ileso aos 4 anos de crimes cometidos. A chance de um golpe de Estado certamente crescerá.

Não tenho criatividade para imaginar o que ele fará ao saber que perdeu a Presidência do Brasil. Mas, ele me ensinou que o ataque às instituições é seu modus operandi. E me ensinou que ele não tem qualquer pudor em transgredir as leis que ele jurou cumprir, não importa o tamanho (do risco) da punição.

Duzentos anos de independência e o povo brasileiro segue dependente e carente de salvadores. Melhor seria se valorizássemos instituições, políticas de Estado, e mecanismos que não dependem de partidos ou candidatos, ou ainda, do capricho dos tempos.

Não sendo possível pensar nisso tudo, diante do caos instalado, é dever, e pesará sobre o pescoço de cada um, a escolha entre os caminhos atualmente disponíveis para nossa jovem e frágil democracia sobreviver.

Qual sua escolha: o pragmatismo ou a utopia?

Sobre a dignidade de uma vida

Advinha quem é meu avô na foto acima! Dica: Ele é o mais estiloso de todos…

Ontem, vi a feição de meu avô Alcides pela última vez.

Não posso dizer, sob pena de incorrer em falsidade, que isso me pegou desprevenido. Nascido em 1935, contando oitenta e sete anos completos no último domingo, ele já lidava com a decadência de sua saúde há muito tempo. Na última quinta, ele nos deixou.

Um fato ocorreu em seu velório, fato que gerou o gatilho para esse texto. Quem acompanha o blog sabe que não sou afeito à exposição da vida privada (nem a minha, nem a dos demais). Em tempos em que tudo se publica – da foto do prato ao que se faz no vaso sanitário – eu realmente acho que a separação entre vida privada e pública não é mero preciosismo ou cafonice. Pelo contrário: é um dos últimos redutos de defesa de liberdades e direitos – que deveriam ser – indisponíveis; liberdades e direitos que, perdidos, são muito, muito, muito difíceis de se recuperar.

Mas eu falava de um fato: O fato foi que minha tia Rute, a filha mais velha de oito que descendem de seu Alcides, me chamou de surpresa para sustentar algumas palavras ao lado da urna mortuária. Embora eu estivesse emocionalmente bem – tanto quanto se pode estar numa situação dessas – eu recebi a convocação com certa incredulidade e caminhei assustado e com as pernas me traindo até ali, com tantos olhos depressivos vigiando a minha passagem. E como passava na minha cabeça, imagino que na deles também passava a emblemática frase “que p@#$ é essa?”… O que um “pirralho” de trinta e cinco anos – neto, sequer filho – teria a dizer sobre um homem de oitenta e sete anos e alguns dias, e que partira? Se você estava lá e se sentiu assim, saiba que não foi o único. Senti-me um usurpador. Como poderia, eu, falar algo significativo de meu avô para sua mulher, seus filhos, seus outros netos, e tanta gente ali presente e que sentia a dor da despedida de forma muito mais visível e profunda do que eu?

Aqueles trinta segundos, do lado externo até o centro da sala de velório, fizeram minha mente correr em tantas direções; os instintos de “fuga ou luta” disparando, passava pela mente os clássicos cenários de “what if” para um falso desmaio ou uma crise de choro forçada (saídas honrosas, talvez?)…

Pausa por um minuto. Quero promover “desagravo preventivo” à imagem de minha tia Rute (risos). Embora tenha sido ato um tanto quanto impensado, no sentido de não saber se eu era orador adequado, se eu era aceito a representar por toda a assembleia ali em luto, preparado para a missão, com dados, com repertório, com desenvoltura para aquilo… Eu acho que entendo porquê ela fez isso: coisa de vinte minutos antes, ela ouviu eu conversando com outra tia, mais abalada, e eu disse algo como “tia, ele teve uma vida digna, 87 anos de luta… 87 anos e 8 filhos criados de forma honrosa… Se isso não tem valor, se essa vida não pode ser comemorada, o que é que pode?”… E tia Rute me disse “filho, você devia falar isso para todos”. E eu pensei “ah, claro… rsrs…”. E aquilo, para mim, tinha acabado ali. Para ela, não

Sinceramente, quando comecei a falar, eu não sabia bem o que tinha que ser dito. Eu não sabia o que importava, eu não sabia quanto tempo era adequado (nota mental: pesquisar no Google Bing: “Etiqueta na feitura de elogio póstumo”), qual o espaço para uma piada de alívio? É uma comunidade preparada para se alegrar com histórias divertidas que sei de meu avô?… Optei pela sobriedade, optei por uma fala forte, de tom quase marcial. Abri com um forte “bom dia!” e emendei algo como “falo forte, porque meu avô sempre se fez ouvir com clareza, nunca falou ‘para dentro’ e eu não posso fazer menos por ele”. Digo que “emendei algo como” porque, sincera e honestamente eu não faço ideia do que, exatamente, eu falei. Era um misto de “não posso falhar!” com “acaba logo, porra!”.

Para minha IMENSA sorte, eu conhecia dados relevantes do meu avô, como local em que nasceu, destino de sua cidade natal (que não mais existe), sua trajetória até o Sul do país, local e data em que se casou com minha avó, e alguns causos rápidos. “Sorte”, digo, porque essas informações me deram algum estofo para encher um texto que se construía enquanto eu falava. O famoso avião que alça voo enquanto a asa é rebitada… Longe da premeditação de um texto preparado (como este), de uma construção preocupada com a semântica, com a escolha dos sinônimos e de sua carga significativa ao público escolhido; de uma produção textual arvorada em ponderação e recursos de linguística… Ali, naquele momento, o tempo que eu tinha para pensar na próxima frase era o tempo de falar a frase anterior.

Esse foi meu gatilho para este texto; está tudo esclarecido, penso eu.

O motivo para este texto é seguinte: Reparo. Aquele “texto” de ontem foi um improviso mequetrefe, indigno de uma biografia de OITENTA E SETE ANOS. Honesto e sincero, sim, como talvez eu jamais consiga repetir no texto que segue; entretanto, incapaz de dar a dimensão humana que eu realmente credito à memória do homem cujo receptáculo sepultamos no Carmo, ontem.

Um parente me disse “cara, não consigo entrar lá… Não consigo ver o vô assim”. E eu lhe disse “mano, não viemos enterrar o vô. O vô se foi faz um dia. Aquilo ali que vamos enterrar era só o palco onde o show se passou”. E eu realmente acredito nisso; talvez como defesa? Talvez. Mas, para mim, a dor da perda não reside em ver o corpo de alguém. A dor reside no dia a dia, no prato que não se põe mais a mesa, na briga pela programação da TV que não mais existe… Aquilo ali no “caixão” é só o fim biológico. A vida de um ser humano, quando bem vivida, é muito mais do que adeninas, citosinas, guaninas e timinas, respiração celular, meiose e mitose, e reações bioquímicas do gênero que mantêm a máquina pulsando e se movendo.

Meu avô, Alcides Martins de Andrade, nasceu em Corredeira, então munícipio do centro-oeste paulista, na madrugada do dia 13 de março de 1935. Corredeira perderia sua autonomia mais tarde, sendo integrada como distrito de Pirajuí, atual munícipio daquela região. O local é próximo de Bauru, Garça, Marilia[…] cujos nomes servem à memória geográfica de forma mais útil.

Filho de uma espanhola e de um brasileiro, viveu com seus outros irmãos (desconheço o número exato, porém, até onde a memória vai, outras cinco crianças) em uma casa de dura disciplina, típica daquela geração dos meus bisavôs. Conheceu a escassez alimentar, e foi um fruto da baixa instrução escolar pública, tão comum, inclusive hoje, a quem não veio a esse mundo com um sobrenome que signifique, ao trocar em miúdos, “patrimônio prévio”. Começou na vida adulta muito cedo. A ideia de “infância” que temos, hoje, é quase incabível e cem por cento anacrônica para a história de esmagadora parte dos brasileiros que datam dos tempos de meu avô. Por volta dos quinze anos já tinha a profissão de comerciário, trabalhando para diversos armazéns da região; a carreira relativamente precoce, me contou certa feita, também foi uma forma de “se proteger” do duro trabalho braçal que tinha que realizar ao lado de seu pai.

No começo dos anos 1950 migrou para a cidade de Alvorada do Sul. “Alvorada do Sul” que, apesar do nome, está no norte do Paraná, coladinha ao rio Paranapanema, rio que ajuda a dividir fisicamente os estados de São Paulo e Paraná. Foi lá que, em 30 de outubro de 1954, casou-se com a senhora minha avó (e que ainda está conosco), dona Lourdes Maria Madruga (também natural de São Paulo, mas de Pontal, no norte paulista, acima de Ribeirão Preto), e que viria a adotar seu sobrenome após o casamento.

Foi também por lá que minha tia Rute e minha mãe vieram à luz. Depois delas, ainda viriam outros seis filhos, em diferentes lugares do Sul do Brasil: Débora, Rubens, Itamar, Marcos, Davi e Paulo Sérgio (PS: já deixo sinceras escusas aos citados por qualquer imprecisão, contudo, essa é uma história sobre o vô e não sobre os senhores, e ela vem da minha memória que, por questões óbvias, não faz compasso em tudo que é pregresso à minha existência… 😊).

Meu avô foi um homem que trabalhou em ramos muito diferentes ao longo da vida. De homem do campo a comerciário, passando por taxista, zelador, vendedor, corretor imobiliário, até chegar à profissão que lhe possibilitou estabilizar na vida: Carpinteiro. Nessa profissão, fez a vida que todos seus descendentes vieram a conhecer. Tudo que construiu quanto a patrimônio material em São Paulo foi fruto dessa atividade.

Até onde a memória me permite acessar o passado, se instalou provisoriamente com a grande família na Vila Formosa, Zona Leste de São Paulo, em algum ponto na virada dos anos 1970 para os 80. Ali cresceram meus tios, de fato, sendo que a maior parte das memórias que contam vem daquele período. Morariam, ainda de aluguel, por um tempo, no Jardim Santa Terezinha, hoje próximo ao Shopping Aricanduva, até finalmente adquirir a propriedade no Jardim Maringá (Vila Matilde), onde eu já começo a ter memórias claras, embora eu me lembre muito genericamente do tempo no Jardim.

A carpintaria rendeu bons frutos a meu avô e, nesse intento, ele também levou meu tio Rubens que, sem grandes opções de escolha (tal qual a história do próprio pai), sendo o homem mais velho dos filhos de seu Alcides, trilhou (e trilha) os passos profissionais do pai. Meu avô, em algum ponto dos anos 1990, tinha fama suficiente para ser contratado por grandes empreiteiras para colocação de batentes, portas, esquadrias e todo o tipo de trabalho em madeira para grandes projetos prediais. Também fez enormes telhados na recém-inaugurada (enquanto zona residencial) Alphaville – bairro de alto padrão na cidade de Barueri, e nas cercanias da Capital. Foi uma época de muita vitalidade para ele, com ganhos que se não o fizeram independente, financeiramente falando, certamente lhe permitiram ter alguns luxos incomuns ao profissional da atividade braçal, como carros do ano (exemplificado num imponente Opala Diplomata), uma casa assobradada, mobília boa e, enfim, o sonho de MUITA gente – o que, a despeito de julgamentos tolos [à essa altura] quanto à validade previdenciária e inteligência patrimonial, não eram sonhos realizáveis pelo grosso da gente que partilhava do mesmo ponto de largada – que fique bem claro: muito perto do zero absoluto – de meu avô.

Com relação à sua família de origem, meu avô não se dava bem com praticamente nenhum de seus familiares. Traído por um de seus irmãos em atabalhoada operação financeira, com uma relação extremamente difícil com seus pais, em especial com a mãe; de minha memória, só me lembro dos raros encontros entre vô Alcides e “tio” (-avô) Alfredo (ao lado esquerdo da posição de meu avô, na foto acima), seu irmão caçula, àquela altura, integrante já aposentado da Força Pública de São Paulo. O capítulo em que meu avô tentou ingressar na PM paulista não cabe de ser contado por estas bandas, porém, é hilário…

Em algum ponto dos anos 90, o primeiro baque em sua saúde: Teve que lidar com um quadro gastroenterológico complexo. Sofreu com a úlcera péptica, vesícula e mais algo; foi à cirurgia algumas vezes. Em certo ponto, por complicações nas intervenções, chegou a ser desenganado pelos médicos, conforme se relata nos causos que a família conta aqui e acolá (lembre-se: eu posso até ter testemunhado isso tudo, mas não tinha mais do que seis ou oito anos de idade).

Já nos anos 2000, tomado por algumas idealizações de como fazer riqueza material, enveredou em projetos comerciais alheios ao seu ramo e desastrosos em resultado, com parceiros desqualificados, amargando o prejuízo. Como costuma se dizer, maldosamente (é claro), no mundo dos negócios: “quando um lado entra com dinheiro e o outro lado entra com a experiência em um negócio, o primeiro sai com experiência, e o segundo sai com o dinheiro”.

Uma coisa que me chamava a atenção nos últimos tempos é que a imagem residual deixada por meu avô nos outros era a imagem de um homem duro, de palavras afiadas, de pavio curto e humor explosivo. Sinceramente, ele era tudo isso. Não se frustrava em “avisar” as mulheres da família de sua eventual decadência de um padrão estético que sabe-se lá qual era; não se esquivava de chamar esse filho de preguiçoso e aquele outro de abobado. Era um idoso que, nos últimos tempos, não fazia questão de evitar o confronto. Reconheço que o trato com o vô não era dos mais simples. Todavia, também peço vênia a quem tenha sido ofendido(a) para lembrar que é difícil ser feliz e “pra cima” sentido dor o tempo todo. Ele, nos últimos tempos, lutava com uma progressiva falência cardiovascular e passou os últimos anos com bem menos do que cinquenta por cento do coração em funcionamento. Disso decorriam tonturas, enjoos e outros desdobramentos como a falência renal e de demais sistemas que, em última instância, levaram a vida dele ao fim.

Contudo, quero falar do vô Alcides que muita gente não teve a chance de conhecer (ou simplesmente não se recorda; talvez, por ter suplantado as memórias boas com as imagens dos últimos tempos): meu avô era um farrista. Sim, isso mesmo: um farrista. Na juventude, soube tocar Sanfona (no Sul, preferem “Acordeon”) e se produzia inteiro, com direito a brilhantina no cabelo e todo o aparato para bailes que varavam as noites. Quando vejo o humor de boa parte dos meus tios e de meu irmão ou de meu primo, Felipe, vejo muito a irreverência e até a insolência de meu avô nos tempos áureos de minha infância. Meu vô era, acima de tudo, um contador de causos. De naves alienígenas a fantasmas no telhado e tudo no meio disso; e não estou exagerando na temática: eu ouvi isso tudo e um pouco mais. Gostava de umas conversas longas e dava risadas espalhafatosas enquanto assistia “A Praça é Nossa”. Gostava de vinho naquelas embalagens pequeninas de CINCO LITROS. Gostava de goiabada com queijo. Gostava da Sociedade Esportiva Palmeiras, gosto que muitos dos filhos e netos herdaram (mesmo que não saibam disso) – mas, não eu! 😛

Por motivos que não me cabe fazer análise – por respeito à sua memória e por falta de conhecimento dos fatos e situações – optou por professar sua fé através da tradicional denominação protestante do Adventismo do Sétimo Dia. Nela, ficou conhecido pela comunidade do Jardim Maringá. Atuou com muito empenho ali, foi diácono e, acredito sem ter a certeza, se tornou até ancião. Essa vertente do Cristianismo, como o próprio seu Andrade, é de maior dureza que o comum, fato que se repete com outras denominações do protestantismo clássico. Com ela, vieram certas proibições (a mais clássica, a guarda [= sem atividades] do Sábado, em reprise ao que se tem no Judaísmo e o Sabbath) e mudanças de comportamento que são esperadas de quem adentra às congregações de mesma espécie. Abandonou o gosto pelo futebol, abandonou o vinho, abandonou a carne de porco, se tornou mais crítico às frivolidades da vida.

Veja, sou obrigado a realizar uma pausa no raciocínio e partir para um esclarecimento. Não teço crítica subjetiva à escolha religiosa de meu avô. Tenho certeza de que a fé o moveu por momentos difíceis e de provação e que, não fosse ela, ele não teria chegado tão longe. Também sei que algumas mudanças em sua vida vieram para melhor; por exemplo, se abster do álcool e da carne de porco (especialmente em embutidos) e diminuir o consumo de carne vermelha, para um homem que quase morreu de problemas gastrointestinais, é extremamente bem-vindo. A igreja também o fez aumentar a temperança, controlar seu gênio iracundo, medir as palavras, praticar mais atos de amor ao próximo, enfim… Não tento, com o trecho anterior, desqualificar a função e o impacto positivo da religião e da denominação por ele escolhida, em seu estilo de vida. Todavia, não posso deixar de entender que também houve impacto em sua capacidade de ser o Alcides farrista, gozador, brincalhão e farofeiro que eu pude conhecer no início de minha vida; e isso precisa ser ponderado.

De volta à linha do tempo, seu Alcides ainda viria a arriscar, já na década de 2010, nova tentativa de alavancagem financeira, agora tentando se embrenhar na complicada rotina das empreiteiras de construção civil. Juntou patrimônio líquido e foi-se embora para Campinas, onde adquiriu terrenos e tentou edificar casas para revenda. No meio do projeto – que já não andava bem – sofreu grave acidente, despencando do telhado da obra (ele era carpinteiro, se lembra?), infortúnio que causou lesão crítica em seu crânio, conduzindo-o a breve período de coma e um novo encontro com a dona Morte. Mais internação, mais médicos, mais avisos para a família de que “dessa vez, ele vai”… Acontece que meu avô era ruim, mano véio… O bicho não tava a fim de facilitar o trampo de ninguém, muito menos o dela. E superou mais essa. No entanto, não sem um preço alto. Daquele momento, em meados de 2010, para frente, sua saúde declinou bastante e ele já passava dos setenta anos há bom tempo.

A pergunta que pode ocorrer ao ler o parágrafo anterior é “por que um homem de mais de setenta anos ainda subia em canteiro de obras? Por que o deixavam fazer isso?”. Se você veio de uma família organizada, com boa educação formal já na geração dos seus avós, eu entendo a surpresa. Se seus pais e avós tinham profissões triviais em balcões e escritórios, também entendo. Mas, essa não é a biografia de meu avô. A biografia dele é tão acidentada quanto ele próprio. Quase sempre, o “planejamento” equivalia tão somente ao desejo de fazer algo. Como alguém que criou sozinho, do ponto de vista financeiro, oito filhos – sendo minha avó, em boa parte da vida, dona de casa e mãe – “planejamento financeiro” não era mais do que um nome complicado e inexequível.

Não estou a “passar pano” para o véio… Ele deveria ter pensado melhor, planejado melhor, executado melhor… E eu deveria ser mais magro, praticar mais esportes, viver menos estressado… A história de uma vida, em retrospecto, é inegavelmente e sempre mais fácil à crítica, do que vivê-la e decidi-la ao vivo e em cores. Ele deveria ter se preparado melhor para a velhice? Certamente. Todos devemos. E mesmo hoje, com internet, Youtube, livros a dar com pau nessa temática, eu *sei* que mais de 70% do meu povo vai amargar nos anos finais da vida, exceto se tiver a “sorte” (que sorte, hein?!) de receber uma morte rápida, ainda em idade economicamente produtiva – que, a depender da previdência pública, que cada vez mais caminha para a congruência entre idade mínima para gozo e a expectativa de vida, vai ser cada vez mais fácil de ocorrer…Vai ver que o “plano” da previdência pública para seus contribuintes é esse, mesmo… Estou tergiversando…

Eu sei, também, das ossadas que vão por debaixo, pelos lados e por cima dessas histórias que aqui narro. Eu sei que, a depender do familiar que se consultar, haverá culpados para situação A, B, C, e todo o caminho até o Z… Ocorre que esse relato não é sobre essas pessoas, eu já disse. É sobre o meu avô. O que essas pessoas fizeram e deixaram de fazer com ele é um problema – se for – para a consciência delas, não para a minha. E agora que ele morreu, nem para a dele. De tal modo que eu acredito sinceramente que empodero mais meu avô, como homem, como adulto, como ser humano capaz que foi, ao lhe dar total crédito pelas decisões acertadas e total responsabilidade pelas decisões erradas. Ao não tratá-lo como se fosse criança a ser enganada e manipulada por terceiros malvados, eu elevo meu avô ao patamar de homem pensante e decisivo para com a própria vida e biografia. Acho que assim, de algum modo, honro sua memória e suas lições (as doces e as amargas) de forma melhor do que passar a apontar dedos para quem fez e deixou de fazer; lugar tão comum em qualquer família enlutada.

E é por isso que você deve conhecer, em detalhes, as histórias de seus antepassados. Nem tanto para contá-las de novo, e ainda menos para tentar revivê-las – um erro que a vida costuma punir severamente: tentar repisar os passos que seus antepassados pisaram. Mas, sim, porque nelas reside sabedoria. Não necessariamente inteligência, nem esperteza. Mas, sabedoria. A sabedoria de que o dinheiro não aceita o desaforo (exemplificando, se você é bom em fazer algo, porém é mau administrador, ou você estuda pra saber administrar, ou você contrata alguém que saiba [com a ajuda de um confiável advogado para redigir o contrato]). A sabedoria de que não importa o quão jovem e forte e esperto e isso e aquilo você possa se sentir; se tiver sorte, você vai chegar à velhice e vai descobrir como ela fragiliza e desautoriza sua potestade.

E é por isso que cabe a você, no hoje, enquanto ainda faz e acontece, se preparar (“previdência” = previsão do futuro) para quando essas qualidades não mais lhe atenderem. E, tendo tido essa conversa com os mais jovens que me procuraram no tema, eu sei que bate forte o desespero. Você olha o mundo, olha seu padrão de vida, olha suas perspectivas e não sabe sequer por onde começar. “Quanto eu junto?”. “Como eu junto?”. “Onde eu junto?”. “Vai dar tempo?”. Alguns resumos da angústia dos nossos dias. De novo, caio na digressão…

Ao me esforçar para escrever esse texto, repenso todos os passos do meu avô para os quais tenho consciência. Vejo quantas lições ele deixou e vejo, com algum pesar, quantos erros, por ele vividos, seus descendentes seguem a reprisar. Figurativamente, isso é como atear fogo a uma herança de ensinamentos e sabedoria que a vida dele trilhou e nos contou; herança que permitiria aos vindouros a benção de não ter que cometer os mesmos erros, de novo. O aprendizado, o laboratório, já estavam lá na história de vida dele.

Sacrifício geracional”. Esse termo pode ser novo para você, entretanto, não é para a Sociologia ou para a Psicologia Social. O sacrifício geracional é o conceito de que não é possível, para o grosso da população humana, dar verdadeiros saltos de qualidade de vida dentro de uma mesma geração. Ou seja: se seu pai é pobre, o provável é que ele viva e morra pobre. Dificilmente – não importando tanto o quanto vocês todos se esforcem – ele viverá para desfrutar de um grande império. O que ele faz com o tempo que tem é, pelo contrário, pavimentar o caminho para seu sucesso. E seu sucesso te levará um pouco mais distante da pobreza e da ignorância (lato e stricto sensu) que havia na largada. E você fará o mesmo com seu filho. E assim por diante. É um processo iterativo (sem “n”, mesmo).

Meu avô viveu o sacrifício geracional na pele. Mesmo que não saiba. Partindo de uma condição de quase abandono – que, repito, não era exclusividade da família de origem dele – conseguiu o feito de criar oito filhos que têm suas profissões claras e suas vidas feitas. Alguns já até atingiram a graduação superior, o que é incrível em comparação com a educação/instrução formal que meu avô teve disponível para si. E todos esses oito filhos tiveram suas famílias criadas; e os filhos dos filhos de seu Alcides, em larga maioria, têm estudo sólido, graduação superior, com boa parte dominando uma segunda língua; têm empregos bons… E isso ocorre não mais como exceção à regra.

Algumas pessoas amarguradas, cínicas ou só maldosas – seja lá o que as move – lerão esse texto pensando “que sarro… O netinho narra a história como se o tal do Alcides fosse um santo.”… Não, eu tenho plena consciência de que meu avô foi bem mortal, no sentido mais amplo que essa palavra possa adquirir. Errou e, talvez tenha errado feio com esse(a) ou aquele(a). Deve ter machucado muita gente pelo caminho de sua vida – contudo, ele partiu e quem não se resolveu com ele, perdeu de vez.

Alcides era homem de não deixar nada engasgado, mesmo que errado estivesse. Pagou o preço por isso, tantas e tantas vezes. Humano, demasiado humano, diria Nietzche… Porém, uma das bençãos de eu ter feito terapia por longo período foi a desconstrução do sagrado, inclusive sobre meu pai e minha mãe. Ao encará-los como seres humanos totalmente passíveis de erros e acertos, como qualquer outro ser humano que anda por essa terra, eu ganhei muita qualidade na relação com eles; relação que segue imperfeita e assim será até o último dia de vida deles (ou da minha vida; o que vier primeiro). Porque a relação humana nasce de seres humanos e, sendo todos eles imperfeitos, a relação humana só pode ser imperfeita, também.

Não, meu avô foi qualquer coisa menos santo, perfeito, sagrado, irretocável… Mas, aqui mora a beleza de uma vida digna: se ele machucou você que lê esse texto, eu não posso pedir desculpas por ele (desculpas são personalíssimas e ele não me deixou procuração com esse tipo de poder). Ainda assim, fico bastante confortável de lhe dizer: na cabeça dele, e diante de toda a inteligência e limitação que a existência dele representava, ele realmente achou que aquela era a coisa certa a se fazer. Meu avô pode ter uma lista, maior do que esse texto, de defeitos e de capítulos pouco aprazíveis. Porém, seu senso de “certo” e “errado” nunca denotou ser do tipo “flexível”. Às vezes, a dureza desse senso beirava ao fundamentalismo. Contudo, fica para outro texto.

Nos últimos tempos, nas conversas que tive com meu avô, ele muito se queixava de seu “fracasso nessa vida”. Era uma constante nos nossos breves e infrequentes colóquios – infrequentes, sim, porque eu não era, nem de longe, o neto mais próximo, mais afinado, mais isso ou mais aquilo. Com oito filhos e todos com dois ou três filhos na média, dá para saber que tinha muito candidato(a) na minha frente…

Amargurado pelos projetos profissionais que não vingaram, ele se dizia até mesmo “envergonhado” por não deixar nada para seus filhos. “Eu devia ter conseguido deixar uma casa para cada um deles, pelo menos, putcha vida”… Compreendendo minha incapacidade de ter lugar de fala nesse – para mim – estranho sentimento de dívida com a prole (já que não a tenho), ainda assim, eu o repreendia: “Vô, mas que puta bobagem de se dizer, hein? ‘Não deixou nada’? Sério mesmo? E seus filhos chegaram aqui, como? Geração espontânea? Sorte? Acaso? Então, ter criado oito filhos, sabe Deus como, é nada além de acidente? Ter oito filhos que não roubam e não matam, que sabem a diferença de ‘certo’ e ‘errado’ – o que não equivale à garantia de que não vacilem na práxis – que têm suas próprias famílias e que estão indo além do ponto de partida… Tudo isso, então, é ‘nada’???”, indagava eu a ele, com certa braveza no tom – não porque eu pudesse intimidá-lo, e sim porque eu desejava que isso o chacoalhasse e que ele sentisse a faísca do embate e se engajasse. Eu desejava a tal da “recalibração cognitiva” que, no caso dele, estava obviamente afetada. Eu não consegui. Creio que ele partiu convencido de que falhou na missão.

A afetação do “sentido da vida” que se abateu no meu avô nada tem a ver com a pretérita condição de saúde dele. A doença que afetava sua percepção era de cunho social. No nosso mundo, onde um ser humano só vale o que tem e pode ostentar (mais e mais e sempre mais), terminar como ele terminou é sinônimo de fracasso para muita, muita gente. Não para mim. Porque entendo o sacrifício geracional. E porque todo dia que saio da cama, tento lembrar dos erros dos meus antepassados e tento não repeti-los; também para respeitar sua herança histórica, deixada a mim a custo de sangue, suor e lágrimas.

Friso o “tento” porque essa é a vida real. Eu jogo todas as vezes para ganhar. Isso não me impede, contudo, de perder. E quando perco, levanto-me, tento analisar qual foi o deslize, onde foi que o bolo desandou, o trem descarrilou, o barco emborcou; saio da lama, lavo a cara, ponho o band-aid… E volto para o jogo. É só isso o que tenho. É só isso o que todos nós temos, enquanto o coração bater: a chance de se levantar do rodo cotidiano e tentar de novo.

Essa não é uma história da minha família. Essa é a história de muitas famílias; da maior parte das famílias brasileiras. Pelo menos, daquelas que não tiveram vantagens significativas na largada. Em larga medida, o que conto sobre meu avô Alcides caberá, com ajustes ali e aqui, para todos meus avós e boa parte de quem veio antes de mim.

Não vô, sua vida não foi um fracasso. Lamento, porém, nessa, vamos concordar em discordar. E eu tenho um argumento ao qual o senhor não teria como replicar, mesmo que vivo estivesse:

Por onde seus oito filhos andarem, e seus dezenove netos passarem, e seus N* bisnetos (* = números ainda em andamento) caminharem, lá estará o senhor. De um jeito ou de outro. E se hoje eu como pão com manteiga, foi – também – porque minha mãe (sua filha) comeu margarina, e o senhor nem isso teve. O sacrifício está aí e o sucesso, também. Eu sou resultado, em boa medida, de todos os privilégios que tive. E se não são grandiosos ou portentosos como os de quem nasceu em berço de ouro, neste trágico país de desigualdades, ainda assim são as conquistas de cada geração dessa família (e de toda a minha família [que tem dois lados]) que me permitem sonhar com aquilo que, para o senhor, foi impensável. E se, por acaso, eu vier a ter filhos, também me sacrificarei, dentro do que estiver ao alcance do real, para que eles voem ainda mais alto do que eu.

Não vô, essa biografia não é um fracasso. OITENTA E SETE ANOS de vida honesta – e que arque com o ônus da prova quem eventualmente o acusar do contrário – e de batalha dura, jamais poderão estar no mesmo parágrafo da palavra “fracasso”. Eu não admito. Ninguém de bom-senso admitirá. Jamais. Se o senhor discordar de mim, dá seu jeito e volta para a gente debater essa questão (o senhor teria gostado desse humor… Sei que sim…).

E aqui vem a última herança que sua morte trouxe: O reforço de uma lição que todos nós teimamos em esquecer. A morte é uma certeza, como os impostos também são. Ninguém, ninguém mesmo, vai sair daqui vivo. E a morte remove de nós algo muito importante: A agência. Enquanto estamos respirando, sempre podemos agir. Se algo está mal resolvido, dá tempo de resolver. Se um capítulo com alguém está mal escrito, dá para tentar reescrever (claro: esse tango depende de dois [ou mais]. Todavia, pode caber a você o primeiro movimento).

Mas quando morremos, deixamos o “ser/estar” e adentramos ao “era/foi”. Nesse tempo verbal, nada mais podemos realizar. Nossa agência, como eu disse, nos é removida.

Na quinta-feira passada, meu avô virou história. Uma boa história. Capítulos bons, capítulos ruins. Momentos de suspense, de drama, de derrota, e várias vitórias. Teve de tudo. Oitenta e sete anos AUTORAIS. Vida boa, vida ruim, foda-se: meu avô viveu conforme seus valores, fossem eles bons ou ruins, justos ou injustos. Ele esteve no timão em cada rio e mar pelo qual navegou com a vida dele. E isso é o meu significado para “vida digna”. Uma vida da qual ninguém possa lhe tirar a autoria, ninguém possa lhe acusar de passageiro ao invés de condutor. Ele conduziu. Ele foi o Alfa e Ômega de sua passagem nessa terra. E agora acabou. Mas, não acabou.

Por onde um(a) Andrade andar – desde que descenda da Grande Casa de Corredeira e da Grande Casa de Pontal – lá estará seu Alcides Martins de Andrade, em toda sua história, em todo seu sacrifício geracional, em toda a sua herança e toda sua dignidade.

Este é o relatório, tia… (risos).