Educação não é algo que se termina – parte 2… (ou “como vai minha jornada acadêmica? v.2.0”).

Que belas costeletas, hein?² Créditos pela foto: Yousuf Karsh.

Você já sabe. Educação não é algo que se termina.

Neste espírito, venho compartilhar meu artigo recentemente apresentado como parte integrante do processo para aproveitamento da recente participação como aluno especial na cátedra de Sociologia do Direito Brasileiro, na FD-USP, sendo esta minha última oportunidade como aluno especial na instituição, ainda de acordo com o edital da faculdade. Daqui pra frente, se eu quiser ter mais desses artigos para esta prestigiosa instituição, terei que ingressar no programa de pós-graduação (alternativamente, posso procurar outra instituição que me aceite como aluno especial… Mas, dá um pouco de pena de pensar nisso…🫤)

O artigo, abaixo, analisa a obra de Victor Nunes Leal, “Coronelismo, enxada e voto”, elaborada ao fim dos anos 1940, quando o autor tentava o ingresso como professor titular na universidade que viria a se tornar a UFRJ.

O interessante no trabalho de leal é que ele consegue explicar dinâmicas muito importantes do sistema eleitoral brasileiro, numa perspectiva histórica que vai do nascimento da República, até a Constituição de 1946. E aí, você se pergunta “huh… e daí?”… Bem, “e daí” que boa parte do que ele explica ainda acontece, de um jeito ou de outro, nos anos 2020. O trabalho de Leal tem esse poder de pôr qualquer brasileiro que goste de pensar a política, mas não só ela, como as instituições democráticas que a viabilizam – como o financiamento de campanha, por exemplo – para pensar… Se você terminar de ler este livro e não tiver nenhuma suspeita de que algo de muito errado no nosso modelo eleitoral (institucional) corrente, você não leu direito 😝.

Enfim, meu artigo correlaciona os elementos que Leal evidencia, e tento fazer uma intersecção fenomenológica com os eventos que se desdobraram nos últimos anos, no que ficou conhecida como a polêmica das “emendas parlamentares”. Vejo elementos redundantes no trabalho de Leal e nas análises que chamo para a dialética.

Enfim, espero que isso possa ser interessante para você e, como sempre, será um prazer debater o tema, caso você sinta vontade de fazê-lo, aqui, no Academia.edu, ou onde mais você tiver acesso à mim. 🙂

Abraço!

A morte trágica de Charlie Kirk é a subsunção do contrato social ocidental hodierno à realidade

Créditos da imagem: Phill Magakoe / AFP – Getty Images

Significado de tragédia
substantivo feminino
[Figurado] Acontecimento funesto, trágico, terrível; desgraça: enchentes são tragédias.

fonte: https://www.dicio.com.br/tragedia/

No último dia 10 de setembro de 2025, um atirador matou Charlie Kirk utilizando um fuzil (ou rifle, se preferir a terminologia em inglês) Mauser, calibre 30-06 (que equivale a um 7,62x63mm), com acionamento por ferrolho (bolt-action), e mira telescópica, configuração ideal para a caça de animais de porte médio (como alces e veados), como também viável ao tiro de comprometimento (ou “tiro de sniper”), embora não seja 0 tipo mais comum entre as forças policiais/militares mais conhecidas, que preferem os tradicionais calibres . 300~338 (magnum), ou o consagrado 7,62x51mm, provavelmente o mais utilizado por atiradores de elite. O assassinato se deu num evento na Universidade do Vale de Utah, em que Charlie fazia um evento aberto com o público daquela instituição, visando o debate e possível recrutamento de jovens para seu movimento político, materializado na organização “Turning Point USA” (TPUSA), fundada pela vítima.

O disparo ocorreu enquanto Charlie Kirk respondia à uma pergunta do público sobre armas de fogo nos EUA. A vítima, notória defensora do acesso irrestrito a armas de fogo, sob a argumentação de que a segunda emenda americana não pode ser contida tampouco extinta, acabou vitima de um evento trágico e muito comum na história recente dos EUA: os tiroteios. Quando têm múltiplas vitimas (4 ou mais) são nomeados como “mass shootings” (tiroteio em massa). No ano de 2024, por exemplo, foram mais de 500 registrados. Só para lembrar, um ano tem 365 dias (e 6h, se não for bissexto). Faça as contas. Desde 2020, ano de início de pandemia, os números de tiroteios em massa cresceram 1/3 nos EUA. Nestes mesmos Estados Unidos da América, há 120 armas para cada 100 residentes. É isso mesmo que você leu: há mais armas do que pessoas. Todas as informações são públicas e estão compiladas (em inglês) aqui. Se visitar a página, sugiro ver o menu “charts and maps” que sugere também a concentração das ocorrências no leste no sul dos EUA, bem como o (um pouco macabro) menu “last 72 hours” que registra as ocorrências dos últimos 3 dias. Há dois comentários finais a fazer sobre essa questão: o primeiro é que, ao menos em 2022, foi mais fácil ser morto por armas de fogo nos EUA, do que no Brasil (ainda que seja uma comparação imperfeita, admito). Segundo que ano após ano, o número de suicídios com armas de fogo é maior que o número de homicídios naquele país. Suicídios são questão de saúde pública e sociologia, não exatamente segurança pública ou violência urbana, mas é impressionante como a facilidade de acesso à arma de fogo coopera com essa “vitória” do suicídio sobre os homicídios por lá, ano após ano.

Depois, vem todo o mar de lama que o mundo se acostumou a assistir: da morte eclode a campanha política, eu diria até que em uma forma de necropolítica – não exatamente nos termos que Achille Mbebe propôs, mas… – em que os lados que disputam o poder fazem uso da tragédia para propulsionarem suas bandeiras, suas ideias, e atacar o outro lado. Acontece em todo o episódio, e é usado por todos os movimentos, seja pela situação, seja pela oposição. Neste episódio Trump lançou mão da tática, poucas semanas depois dos democratas fazerem o expediente com a morte da deputada estadual Melissa Hortman, em junho deste ano, e agora acontece com a morte de Charlie Kirk. Se o uso é justificado ou não, isto supera em muito meu argumento que foca no fato da espetacularização e exploração política do sofrimento de familiares e amigos.

No caso de Kirk, tudo fica mais delicado porque mesmo sua viúva fez questão de afirmar publicamente que os ideias políticos do marido assassinado seriam levados ainda mais adiante, como se ela tivesse certeza de que a morte foi obra do “outro lado” e precisasse dar um recado “ao front de batalha”. Seus aliados e seguidores rapidamente tentaram atribuir a morte como sendo “uma ação de um partidário ‘progressista'[“de Esquerda”]), mas a realidade e o avanço da investigação contra o atual acusado, Tyler Robinson, embaralharam bem a leitura de quais eram as intenções, a consciência política e até a saúde mental do atirador ao decidir levar a cabo o ato horrendo que perpetrou. Robinson é filho de um policial aposentado, criado num lar que fez questão de se declarar cristão aos jornais, com costumeiro acesso a armas, e era frequentador de fóruns de videogame de onde parece ter obtido inspiração para as frases que escreveu nos estojos da munição e que poderiam o ligar a qualquer lado (uma frase dizia “pegue isso, fascista”, enquanto outra dizia “se você está lendo isso, você é gay”… Não faz muito o estilo de nenhum dos lados). Mais tarde, sugeriu-se até que o atirador poderia estar ligado a grupos de extrema-direita, como um que se denomina groyper, tendo vies nacionalista, supremacista branco, e que seria liderado por Nick Fuentes, um ideólogo totalmente radicalizado.

Charlie Kirk, 31 anos, deixou duas crianças e a própria esposa. Esta frase por si só já explica porque é uma tragédia. Uma família foi despedaçada de forma irremediável. Não faço ideia do que é crescer órfão, mas garanto que não torna a vida de ninguém mais fácil. O argumento de que “Charlie Kirk incitava ódio e violência” só pode ser aceito como justificativa para “celebrar” (celebrar o que, exatamente? Que, agora, “o outro lado” está em estado de prontidão para a guerra? Ou que duas crianças vão crescer sem o pai? Ou que um homicídio brutal foi concretizado diante de centenas de pessoas com sucesso? Sobre qual desses fatos você quer comemorar, por curiosidade?) a desgraça, se você já tiver se entregado à violência como única saída. Neste caso, você, como eles, já concluiu que não há mais remédio para a grave e visível secessão social, seja lá nos EUA, seja aqui no Brasil (cada qual, é verdade, em um grau diferente da cisma).

O próximo (e único) passo lógico é se preparar para a guerra civil. Sim, porque, se chegamos no ponto em que a morte “do outro lado” genuinamente nos alegra, já não se pode mais falar em “nação”. “Sociedade” nem pensar. E ainda há o problema de consciência e de moral que é: o polo que se alinha “à Esquerda” ou se diz “progressista”, ou seja lá como você queira chamar, é movido por ideias básicas de que os direitos humanos devem ser aplicados a todos, mesmo para os piores indivíduos. Isto porque a não aplicação de tais direitos leva à brutalização de todos e, no fim, garantir os direitos humanos de todo ser humano é um bem que se faz ao coletivo e não só ao individuo. Por mais virulento que fosse o discurso de Charlie Kirk – e era – em que ponto ele deixou de merecer a vida? Existe resposta objetiva para isso? Em que ponto ele deixou de merecer “direitos humanos”? Não há maneira lógica de comemorar a morte de Charlie Kirk e ainda se supor “moralmente superior” ao “outro lado”. Se você comemorou a morte dele, você é como o “outro lado”, apenas com valores idealizados um pouco diferentes, mas também está dizendo quem deve morrer e quem deve viver, e quem é “de bem” e quem é “do mal”. Se você ainda acha que tem o que comemorar nessa tragédia, eu sugiro, como elemento pedagógico e revelador de quem você realmente é, que assista o vídeo da morte dele. Na era onde tudo é gravado, não faltam vídeos com o momento em que o disparo atinge seu pescoço. O resto é como os melhores filmes de horror pressupõem. Não sabe como procurar para fazer o experimento? Eu te ajudo: procure no reddit.com por “Charlie Kirk video” e depois pergunte-se, despido de retóricas e falácias (como “mas ele também […]”), o que é que você realmente está comemorando.

Eu claramente não ignoro a ironia em mais elevado grau na morte de um ideólogo trumpista, justo pelos meios e fenômenos que ele defendia ou justificava como “inevitáveis”. Aliás, é um raro caso de ironia, de fato. Na maioria das vezes, o que chamam de “ironia” é só sarcasmo, e não são a mesma coisa. Kirk foi porta-voz de Trump entre os jovens e escreveu livros justificando o trumpismo (o mais famoso sendo o “The MAGA doctrine: the only ideas that will win the future“). No livro, como em todo o seu repertório de falas públicas, ele ataca os “bilionários das costas [Leste e Oeste]”, “a BigPharma” (indústria farmacêutica), os “procuradores fora de controle” (agentes do judiciário que defendem os interesses do Estado e das instituições e, portanto, da República), “a educação superior liberal”, os “fascistas apreensores de armas” e, claro, a mídia. É um panfleto político-ideológico. Passa longe de ser uma tese bem desenvolvida e trabalhada em dialética, pesquisa e contrapontos, até porque ele sabia para qual público ele escrevia. Kirk sempre se gabou de ter desistido do ensino superior “e ainda conseguir debater em pé de igualdade com alunos e professores nas universidades”.

E você pode se sentir tentado a me perguntar “Rodrigo, você leu o livro?”. Jamais leria, não é preciso, e não vai somar absolutamente nada para mim. Então, a segunda pergunta poderia ser “e como você tem tanta certeza dessa natureza panfletária e de que não é um pesquisa séria?”. Bem, é uma pergunta justa. Um livro que tenta enquadrar “tudo que vai de errado para o cidadão comum nos EUA de 2020” e que tem tantos inimigos (reais ou imaginados) e fala “de tudo isso” em 256 páginas JAMAIS poderia ser sério. Não tem como explicar a complexidade da concentração de renda nas costas dos EUA, a relação daquela república com o lobby da indústria militar, as oligarquias nos meios de comunicação e todo o resto que ele cita no resumo da obra, em 256 páginas. Simplesmente não é possível. Qual o caminho, então? Simplificar o que não pode ser simplificado, usar emoções para responder a dilemas racionais e muito complexos e, bem… Fazer o que o trumpismo sempre fez com excelência: mentir, distorcer e desinformar. Outras evidências de que não se trata de um trabalho sério: a amostra do livro revela que a obra não tem um capítulo com bibliografia ou referências externas, e os capítulos não tem notas de rodapé, nem nenhum meio de validar o que diz o autor. A fonte de informação é tão somente a visão de mundo de quem escreveu a obra e só.

Ademais, públicas e notórias as afirmações de Charlie Kirk sobre a necessidade de conviver com tiroteios em massa em nome “das liberdades garantidas” pelo acesso praticamente pleno a armas. Também, defendeu a validade de que criminosos fossem executados de forma pública para que todos, inclusive crianças, assistissem e isto teria caráter “pedagógico”. Se ele tivesse frequentado a faculdade, que tanto desprezava, nas áreas de ciências políticas, direito, sociologia, ou mesmo em história, teria a chance de se deparar com a obra de Victor Hugo, de 1829, intitulada “O último dia de um condenado”, em que toda a ideia da serventia da execução pública é desmontada.

Todavia, ele nunca aprenderia porque olhando para suas ideias, mais de perto, Charlie Kirk era alguém muito agressivo no trato com a esfera pública e com a sociedade atual dos EUA; uma sociedade necessariamente multicultural, pela própria história daquele país. Suas opiniões eram francamente racistas, misóginas e em algum nível, supremacistas (no sentido de que há um tipo ideal de americano: o branco, cristão, hetero, adepto à posse de armas, superior hierárquico às mulheres[…]). E eu sei que se você, leitor, não se sente alinhado com o que se chama de “Esquerda” ou, no caso americano, “progressistas”, “liberais”, ou simplesmente “democratas”, o uso de palavras como “racista” e “misoginia” já disparam um alarme para o risco de “patrulha moral”. Infelizmente, o uso indiscriminado de palavras como “cis-normativo”, “misógino” ou o já desbotado “fascista”, levam qualquer novo emprego dessas palavras a pôr em xeque a credibilidade de quem escreve. Como separar a panfletagem do uso adequado? Conhecendo o que os termos significam, na origem e no passar do tempo. Eu certamente concordo que as pessoas que se identificam com a Esquerda normalizaram o uso de “fascista” como termo para qualquer um que não tenha as mesmas opiniões que elas têm sobre prioridades sociais, de governo, e visões de mundo. Basta ir contra essas opiniões e o rótulo já está lá, esperando por você.

Mas, a bem da verdade, isso é exatamente o que ocorre quando pessoas que se consideram de “Direita” chamam qualquer um no campo progressista de “comunistas”, sem jamais conseguir dar uma explicação concisa e certeira sobre o que seria o comunismo, ou quais as ideologias comunistas identificadas em quem é acusado de sê-lo. No fim, esses rótulos são simplificações do “outro lado” que ajudam o pessoal “do seu lado” a remover as nuances da existência e do pensamento adversário. É muito problemático considerar a hipótese de que há problemas reais na vida dos brancos de classe média nos EUA, e que são problemas sempre menosprezados pelos progressistas quando no poder. Mais fácil chamá-los de racistas, fascistas, burgueses […]… Você escolhe. Também é muito complicado admitir que a distribuição de renda no capitalismo é inaceitável, que os super-ricos vão destruir o planeta enquanto enchem os bolsos, e que a violência policial é maior contra comunidades negras. Muito mais fácil chamar isso de comunismo (mesmo não tendo NADA a ver com comunismo).

Charlie Kirk, enquanto pessoa pública, não é do tipo que fará falta ao debate político do nosso tempo. Estou certo disso. Suas convicções apenas expressavam o seu ódio pelo que não se conformava com o constructo do cidadão ideal que, sabe Allah como, Charlie concluiu por ser “a salvação da América”. “Salvação do que, salvação de quem?”, eu sempre me pergunto. A ideia de que sua morte enfraquece o trumpismo é, na melhor hipótese, inocentemente otimista. Para propagar a mensagem de que “o inferno são os outros”, os movimentos políticos (em todo o espectro) estão todos habilmente preparados com quadros bem servidos de mensageiros mais e menos hábeis. É verdade que Kirk tinha uma habilidade inata de interagir e engajar com os jovens, o que é crítico para políticos de Direita e populistas radicais deste espectro que, historicamente, não consegue performar neste demográfico, mas, haverá quem o suceda, cedo ou tarde.

O que me interessa na morte pública e trágica de Charlie Kirk é tão somente o termômetro da fervura da crise social americana (em inglês, há uma expressão que diz “we are cooked“, que seria traduzida para cá como “estamos fritos”). A morte dele denuncia um estado de espírito francamente conflagrado e reativo por todos os lados. Comemorar seu bárbaro assassinato, registrado por tantas câmeras, dá o tom do desprezo que sentimos de um lado ao outro. E é verdade que “o outro lado” nunca se importou muito com a morte de algumas figuras estridentes (ou simplesmente representativas) do campo progressista, mas essa característica, a característica de se importar com direitos humanos, de se importar com a proliferação e normalização da violência, da decadência da urbanidade, da capacidade de coexistência […] tudo isto eram traços clássicos dos que se definiam como “progressistas”. Se isto desapareceu, como o episódio parece deixar claro, é bastante seguro afirmar que o contrato social atual está prestes a ruir. A reação de escárnio ao fim de uma vida – que, à priori, não ameaçava outras naquele momento – é só uma pequena amostra disso.

Um mundo em desencanto

Se Trump fosse eleito explicitamente pela fé em dias melhores – mesmo que não para todos, mas para larga maioria dos americanos – eu penso que eu seria capaz de compreender o que está a dizer a população dos EUA, nas urnas, ainda que eu discordasse.

Veja: nós não precisamos concordar sobre qual é “o caminho feliz” para qualquer problema que tenhamos em conjunto. Você pode achar que o que melhora o mundo é mais famílias com mais filhos e que isso vai levar ao reaquecimento econômico, e mais empregos e […]. Do outro lado, eu posso achar que o que melhora o mundo é menos gente, menos consumo, menos agressão ao meio ambiente, menos atividade econômica “artificialmente criada” (obsolescência programada, demanda artificialmente criada) e […]. Aliás, são só hipóteses e não estou dizendo se acho isso ou aquilo. Ainda assim, são visões antagônicas, mas ambas têm algo fundamental em comum: a meta de um mundo melhor, senão para todos, para a maioria de nós – afinal, o primeiro sinal de maturidade é saber que nada (nem ninguém) agrada a todo mundo, não importa o quão bom possa ser ou parecer.

O que reelege Trump, na contramão da ideia de “mundo melhor”, é a revanche, a vingança e o ressentimento. Ele é “o malvado favorito” da América, mas sem o humor ou a fofa família para compartilhar com seus espectadores. Mas o show começa em janeiro e, querendo ou não, todos assistiremos, e isso porque, como eu já disse quando Trump venceu Hillary, a eleição nos EUA não é como a eleição na Argentina. A segunda impacta pouco mais de 46 milhões de pessoas, mas a primeira impacta todo o globo e seus mais de 8 bilhões de humanos (e todo o resto da vida, sendo franco). Em tempo: Trump, ora eleito, por duas eleições vitorioso, em duas eleições contra adversárias mulheres, e só sofreu revés ao disputar contra um candidato branco, ainda mais velho do que ele… É só um dado… Ou não? Não sei. Nem é meu foco para hoje. Porém, salta aos olhos.

Os EUA ainda são a maior economia do mundo (28.7 trilhões de dólares), acompanhada relativamente de longe pelo segundo lugar, a China e seus 18.5 trilhões de dólares (fonte). E a economia sempre manda e sempre mandou no mundo: da política às guerras, arregimentando todo o progresso científico em sua pletora de formas e resultados.

Os EUA também são a maior potência militar do globo (fonte). Segundo o relatório Global Firepower, seguem em primeiro do ranking (de onde nunca saíram), investindo práticos 1 trilhão de dólares anuais em armamentos e pessoal. Embora Rússia (2ª) e China (3ª) não estejam distantes no rankeamento, seu investimento é bem menor: A Rússia investiu cerca de 61 bilhões de dólares em 2021 e, por causa da guerra, planeja ousados 145 bilhões de dólares investidos em 2025, quase 7% do seu PIB. “Ousados” porque, em áreas estratégicas, ter o dinheiro não é necessariamente a parte mais difícil: saber como e onde gastar é bem mais complicado; você pode gastar mal um caminhão de dinheiro e não chegar a lugar algum. Já a China, mesmo em 3º no ranking, investiu algo em torno de 240 bilhões de dólares em 2022, e está perto dos 500 bilhões de dólares em 2024. Vale uma ressalva: há dúvidas sobre os números divulgados e mesmo o governo americano estima que a China “esconde o jogo” (o que faria sentido), podendo estar mais perto dos 700 bilhões de dólares anuais do que os “módicos” 470 bilhões estimados para este ano. Seja como for, ainda não é o trilhão de dólares americano, tampouco o é pelo tempo que os EUA investem em guerra. E aqui, o acúmulo de investimento ao longo do tempo faz grande diferença, seja em treinamento e aptidão do pessoal, seja em acumulo de tecnologia e armamentos (você pode até achar que um F-15 já é um avião de caça obsoleto, mas ele ainda vai acabar com muitos aviões de outras potências, se a chance for ofertada).

Por tudo isso (e muito mais), a eleição nos EUA é algo que guarda relação com o resto do mundo, e não é algo que só deva ser observado por cientistas políticos ou “baba-ovos” de todos os espectros políticos. Ela efetivamente decide um tanto do futuro do planeta, para o bem e para o mal.

Superada a justificativa, retomo o raciocínio que me fez querer escrever. Trump é o candidato da revanche, da vingança e do ressentimento. Claro, isso não é o mesmo que dizer que o eleitor de Trump não tem fé nele. Claro que tem. A fé é a de que a vida vai melhorar para si, com a torcida de que piore “para o outro lado”. E por “outro lado” inclua-se aí qualquer um que não se pareça com ele(a), ou que tenha sido definido como “ameaça” (mesmo que, de verdade, não seja). Então, é uma fé dupla: de que a vida vai melhorar para o grupo “dos eleitos” e de que vai piorar para quem não diz “amém”.

Agora, se estivéssemos falando algo como “a vida do cidadão vai melhorar porque a dos criminosos vai piorar”, mesmo duvidando muito da proposição (porque isso praticamente nunca entrega muito além de violência policial), ela ainda carrega em si a ideia de “o melhor para o maior número de pessoas” (já que criminosos não são a maioria do povo). Não é disso que se trata, agora. Se trata de algo na linha “quero que a vida do eleitor médio de Trump melhore [homem (47%), branco (71%), cristão (59%), sem nível superior (57%)…] (fonte e fonte), mesmo que isso signifique a piora para 47.8 milhões de imigrantes (fonte), e 42 milhões de pretos (fonte), e parte expressiva das 169 milhões de mulheres (fonte) que não concordam com nossas visões de mundo”.

Claro: é impossível ignorar as mudanças do perfil de seu eleitorado e que geraram surpresa para quem imaginava o oposto do que se deu: em realidade, Trump melhorou sua performance EM TODOS os recortes demográficos, exceto na faixa acima de 65 anos e no grupo de mulheres brancas universitárias (fonte). Trump teve (muito) mais apoio latino, teve mais apoio negro e teve (muito) mais apoio de jovens (18 a 29 anos). Estamos falando de uma mudança real e não de algo marginal, como se fosse possível tratar isso tudo como “mera flutuação”. Pelo contrário: são tendências claras e inequívocas de preferência daquela demografia (a dos EUA). Só pelo exemplo: Trump cresceu espantosos 25% em sua base de latinos apoiadores; entre os jovens (18-29 anos) ele cresceu 11%, e entre as mulheres, 10%. Ainda que o voto feminino e negro (pretos e pardos) ainda seja majoritariamente Democrata, o avanço dos Republicanos nesses recortes é notável.

Agora, o aparente (e, talvez, só aparente) mistério é aquele em que as bandeiras políticas e ideológicas Trumpistas desafiam a segurança, em especial, dos grupos que decidiram o apoiar com mais força. Trump disse que deportará imigrantes aos milhões, inclusive com a ajuda dos militares (fonte). Em nome do “Projeto 2025” (algo assustador e que nem sei se recomendo que você leia, mas talvez, sim, você deva), Trump pode vir a tomar diversas medidas para cessar o aborto, ainda que estadual e legalmente autorizado (fonte). Trump já disse que não manterá qualquer medida que proteja o meio ambiente se a considerar um entrave para suas metas – especialmente as econômicas (fonte). Todas essas pautas falam diretamente com temores que imigrantes, mulheres e jovens deveriam ter; exatamente os grupos que decidiram apoiá-lo mais em 2024.

Seria um desejo coletivo pela aniquilação? A tal “pulsão de morte” Freudiana? Essa parece uma resposta plausível quando vemos alguém que toma veneno esperando que outros morram. Contudo, essa também parece a resposta mais pobre em imaginação; uma tentativa de responder com simplicidade a um problema (bem) complexo. Problemas complexos requerem soluções complexas, ainda que a explicação da solução possa (e, sempre que possível, deva) ser simples.

A explicação que ensaio a seguir é a de que este é um mundo em desencanto. O fim da Guerra Fria trouxe um triunfalismo jamais visto ao regime democrático liberal, impulsionado por ganhos estonteantes do capitalismo, com integração dos mercados, cadeias globais de produção, “novos mercados” (para os “velhos mercados” tomarem pra si) e… A maior parte de nós tinha a certeza de que nenhum modelo era melhor. Até que tudo isso passou. O mundo se integrou até onde conseguiu, mas outras economias (especialmente a chinesa) encontraram o caminho para deixarem de ser o quintal americano e se tornaram séria ameaça à hegemonia do tio Sam. O crescente fluxo de pessoas, mas principalmente, de informação, passou a nivelar a percepção de privilégio e consequentemente, da realidade, e o poder de compra deixou de ser um absoluto marco da realização pessoal, especialmente nos EUA, “terra das oportunidades”. A oportunidades seguem lá, mas você não vai “dar certo” mesmo se não fizer muito para que isso ocorra, algo que era possível, antes.

São as “vacas magras”. Juntarem-se aos bovinos desnutridos a organização – espontânea e provocada – de grupos sociais reivindicando que a tal democracia liberal entregasse sua maior promessa: a igualdade de oportunidades para todos. Tal igualdade é ainda mais difícil quando os mercados se contraem e as chances rareiam para os grupos que estavam historicamente posicionados para aproveitá-las. Imagine-se, então, o cenário de aproveitamento para os grupos “recém-chegados na festa”. O atrito é inevitável. E os grupos recém-chegados fazem questão de utilizar um vocabulário que lhe empreste certa “verdade científica”, uma palpável arrogância de se estar “do lado certo”, seja lá o que isso significa, mas nada que crie pontes e diálogos; pelo contrário. Estão, em grande medida, convencidos de que “nada se consegue neste mundo pedindo ‘por favor’”, frase que já ouvi algumas vezes nesses ambientes. São, acima de tudo, rancorosos no discurso e não fazem amigos por onde passam. MAS… Seria um bode expiatório óbvio atribuir a esse grupo a “culpa” pelo resultado eleitoral mais importante do ano (e, porquê não, do próximos quatro anos). Seria desleal, também. Contudo, eu disse que é um problema complexo, e estou dando conta de parte da complexidade do problema.

Da desestabilização econômica surgem as respostas padrão da humanidade: os lobbies, o protecionismo, a interferência extraterritorial (por vezes dublada como “imperialismo”) e, então, partindo de palavras afiadas, chegamos às lâminas afiadas ( = guerras).

O capitalismo, por sua vez, não mais se envergonha de mostrar que não depende da democracia para sobreviver. Por conta da Guerra Fria, o capitalismo gostava de mentir que precisava de “democracia” para mostrar seu melhor, e os EUA, no polo oposto ao comunismo soviético, decidiam “levar a democracia” para todos os cantos do globo, através de bombardeios, torturas e execuções (essa referência aqui, poucos vão pegar, aposto). Porém, nos anos mais recentes, o capitalismo não se acanha em apertar as mãos de ditaduras terríveis como a saudita, ou veladas como a turca, ou em projeto, como a indiana ou a húngara, enquanto condena “ditaduras terríveis” no Irã, na Coréia do Norte, e em outros locais que não lhe interessem por ora. Para mim, toda a ausência de instituições democráticas que mantenham o Estado livre da grilagem por parte de interesses privados, seja na Venezuela, seja em Israel, são situações de governos nefastos e que devem ser indubitavelmente repudiados. E, também por isso, não estou na carreira política. Porque em política, e especialmente na política internacional, falar a verdade não tem nada a ver com o jogo bem jogado.

E quem é esse tal de “capitalismo”? São os reais donos do jogo. Alguns tem a coragem de colocar a cara no mundo, como o mega narcisista do Musk e seus 130 milhões de dólares investidos só na campanha de Trump (e um retorno assombroso de 134 vezes o valor, só no dia seguinte à eleição de seu favorecido – fonte). Outros ficam nas sombras, atuando sempre por lobbies, operam enormes volumes nas bolsas de valores mundiais, bolsas que cada vez mais se assemelham a cassinos em roupa de “assunto sério/econômico” do mundo adulto – farei uma ressalva no meu ensaio de boteco: o mercado de capitais não é necessariamente um mal, mas a forma como ele tem sido usado para pressionar governos e nações é (outro post, outro dia).

Aqui está o problema (complexo) cuja resposta eu não tenho: há (pelo menos) um mundo real de poder por trás do mundo imaginado de poder. O mundo real é aquele em que habitam os que têm muitos recursos (no nosso mundo presente, recurso = dinheiro) e que não ligam se estão no melhor restaurante da democrática Nova York, ou no melhor lounge da ditadora Riad. Tanto faz. Quando se tem dinheiro o suficiente, todo lugar que você vai é uma festa, com gente que vota ou que é torturada. De verdade, tanto faz… E, por cima desse mundo de poder real, o mundo imaginado de regimes democráticos se fez, não porque o mundo de poder real precisasse dele para gerar sua riqueza, mas, sim, porque esse mundo imaginado “mantém os que não têm nada na linha”.

Impossível pensar essa ideia sem colidir com os conceitos marxistas de Super e Infraestrutura. E eu não vou pôr muita energia nisso, mas não: eu não acredito nem 1% na efetividade atual das soluções que Marx apresentou para os problemas que ele corretamente – creio – delineou. Como sempre digo, o diagnóstico marxista sobre o capitalismo me parece acertado, mas a solução dada por ele ignora a realidade e a constituição do que é o homem (antes e agora) e, por isso, não tem como funcionar. Além do mais, a solução marxista envolve ditaduras, conceito que eu jamais apoiarei (a não ser que o ditador seja eu… Aí discutimos…).

Então, a democracia é um engodo, uma farsa, um mero esquema de fingir que o poder se distribui entre todos (por exemplo, por meio do voto) quando, em verdade, o poder continua onde sempre esteve: com os grupos que o detinham antes de a democracia ser instaurada. “Também isso” seria a minha resposta curta, cínica e grossa. Há aquela velha pichação, muito usada por grupos anárquicos, que assim diz “se votar mudasse algo, eles tornariam isso ilegal”. Eu não sou o tipo de pessoa que nega os fatos, e os fatos são que nos últimos 30 anos, tanto fez quem governou o mundo para fins de diminuição da desigualdade e aumento das oportunidades para todos (e não para grupo A ou B).

Todavia, se a democracia é essa Superestrutura que serve apenas para manter os numerosos mais fracos “na linha”, ela também é, factualmente, o regime que mais habilitou pessoas a quebrarem certas barreiras sociais e econômicas, e com o menor derramamento de sangue possível (em comparação às alternativas e ao passado). Se isso é “mera ilusão”, então, talvez precisemos gostar um pouco de nos iludir, pois eu não gosto do caminho em que todos se matam até que restem apenas os que concordam (até porque, historicamente, os que concordam comigo hoje são sempre menos do que ontem e os expurgos tendem ao perpétuo).

É sobre isso que eu queria falar: o mundo está em desencanto. Não acreditamos, coletivamente, em nada. Mesmo os que dizem crer no Deus de Israel, Pai de Jesus Cristo, creem a partir de perspectivas muito diferentes entre si; em casos extremos, de maneira irreconciliável. Quase não parece ser o mesmo Deus em certos embates.

E parece que a eleição de Trump é nada menos do que um prelúdio de rebelião popular. Que a Pax americana estava agonizando desde os 2000, não chega a ser novidade, mas estamos entrando em outro nível de ruptura: a do contrato social. Um sistema federativo como o americano requer que os estados (unidades federativas) reconheçam certos valores e premissas comumente importantes, encarnados no papel da e nas expectativas para a União (o ente federal do Estado).

O voto em Trump, ainda mais dos estratos que vem, diz para mim que aquele povo não mais concorda com os rumos gerais da nação. Ao ponto de declarar como “inimigos” aqueles que servem o café, varrem as casas, cuidam das crianças. Colegas de sala de aula ou trabalho. É um profundo e grave “não reconhecimento mútuo” ao olhar para o outro lado da calçada. O outro, ali, não é um conterrâneo, mas um incomodo e quiçá um risco. De “mal necessário”, agora já passam a discutir a validade da necessidade.

Contratos sociais acabam de dois modos: a) um novo contrato, aperfeiçoado, é criado e todos (“todos”, aqui = ampla maioria) concordam que esse novo contrato faz sentido. b) uma ruptura forçada e normalmente combatida pela União, eventualmente até pela força, para que o ente rebelado volte a obedecer ao antigo acordo, então repudiado. Seja como for, envolve ódio, destruição, perda de vidas e, em vários casos, deixa feridas que não se cicatrizam a depender do tamanho da barbárie cometida do começo ao fim do processo, independentemente do resultado (divórcio ou reconciliação do membro rebelado com a União e o resto dos entes que não se rebelaram).

Eu não consigo vislumbrar qualquer viabilidade de um novo contrato, capaz de unir tantos grupos de poder e, ao mesmo tempo, grupos sociais reivindicando mais, sob um mesmo ideal. Qualquer que seja a proposta, ela não vai agradar o suficiente para selar a paz social entre o maior número de pessoas possível. Especialmente porque está faltando o que distribuir, como defendo a seguir.

A ruptura violenta ainda parece cenário distante (amém, até por todas as vidas envolvidas), mas ninguém nunca sabe qual é ou onde está o pavio dessa dinamite. A Queda da Bastilha, evento-marco da Revolução Francesa de 1789, começa com a simples demissão de um ministro, seguida de ligeiro aumento no preço dos pães. “Não é pelos 20 centavos” diriam os revolucionários, se fossem brasileiros e se arregimentassem em 2013… Em um sistema complexo, de incontáveis variáveis e pressões de todos os lados, um ato que pode parecer pequeno em isolado gera um efeito estarrecedor uma vez dentro do circuito.

E enquanto escrevo isso, pensando naqueles Estados Unidos da América, não consigo deixar de pensar que em dois anos é a nossa vez de, quem sabe, tomar a mesma decisão. Uma decisão pautada não em esperança para todos (quantos se possam abarcar), mas em revanche, vingança e ressentimento.

Num mundo em que até mesmo o sentido da Cristandade mudou radicalmente de “O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (João 15:12) para “[…]Deus deu riquezas e bens, e lhe deu poder para delas comer e tomar a sua porção, e gozar do seu trabalho, isto é dom de Deus”, eu não deveria me dar por surpreso. Em verdade, as duas mensagens podem ser encontradas na bíblia do Cristianismo. Mas enquanto a última faz parte do Velho Testamento (Eclesiastes 5:19) e é escrita por um profeta hebreu que não se sabe ao certo quem foi, a primeira é a mensagem do próprio Jesus Cristo, aquele que empresta o nome para a religião Cristã. Como advogado, é como se eu visse alguém dizendo que a lei municipal vale mais que a Constituição, quando em conflito (que, no caso, sequer é conflito real, mas aparente, fruto de mera e equivocada interpretação).

Continua sendo a palavra de Jesus aquela que diz que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma Agulha (posto alfandegário das cidades antigas em que supostamente se passaram as histórias narradas na Bíblia), do que um homem rico ganhar a vida eterna (Matheus 19:24). E se você se incomoda com os ensinamentos de Jesus Cristo, então, vai ver que você não quer ser cristão, mas outra coisa. É do jogo. Eu, por exemplo, não sou nada. Ao menos, nunca digo que faço A ou B movido por valores religiosos. É menos covarde, assim. Usar a religião como desculpa para a barbárie sempre foi um traço dos piores momentos da breve história humana.

E como viemos parar aqui, na religião? Bem, ela é central para campanhas da Direita Radical e Extrema (a diferença sendo que a primeira aceita atacar o sistema e eventualmente se dar mal [se preciso for], e a segunda quer abolir o sistema sem pagar por isso,  caso dê errado). É a pedra angular dos discursos de gente como Trump, Bolsonaro e afins, este discurso de que promovem verdadeira cruzada para proteger o Ocidente cristão de ataques de seus mais odiosos inimigos. Falta apenas combinar com Cristo, pelo que expus até aqui. Mas tudo bem, afinal a religião, junto com a democracia, diria Marx, é só mais uma Superestrutura para manter os jogadores bonzinhos. Eu prefiro dizer “é também isso”.

No fim, os tempos são pautados pelo egoísmo. É como se o único ditado que tivesse sobrado para a educação de todos nós fosse o icônico “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Não tem nada a ver com ser cristão, islâmico, homem ou mulher, trans ou cisgênero, preto ou latino ou X. Tem a ver com o sentimento de que o mundo está literalmente acabando. E que sobrou pouco para, não dividir, mas tomar.

O que assistimos é o espetáculo da (re)formação das facções. Acha-se algum arranjo mínimo, que dê alguma coerência e consistência ao bando que se alinha. No caso de Trump é o cristianismo, o “true american”, qualquer ideia mofada de um excepcionalismo que não existe no analisar dos fatos. Mas tudo isso é desculpa. O mundo real que essa gente vive é o que diz “ tudo está acabando e temos que pegar a maior parte possível para nós, os que concordam com algumas abstrações e parecem ser do mesmo time”. Não é que a Esquerda também não pense assim, mas no caso dos EUA, o pensamento radicalizado daquela Direita se alinha mais a mais grupos (e, por isso, é maior no momento). É o que disseram as urnas, pelo menos.

O desencanto nunca foi com a democracia porque as pessoas não compram democracia, não vestem democracia, e não comem democracia. O desencanto sempre foi com a falta de fartura de possibilidades de consumo. O John Doe, tal qual o nosso José Silva, não faz ideia do que “democracia” quer realmente dizer. Muita gente estudando Direito também não sabe, portanto, não se sinta mal se for teu caso. O Que John Doe e José Silva realmente sabem é que dava pra trocar de carro mais vezes no passado e agora não dá. A casa podia ser maior e agora é o “studio” de 25m². Não tem nada a ver com democracia. Tem a ver com dinheiro. E, no nosso mundo atual, dinheiro tem a ver com poder.

Os donos do jogo costumavam deixar uma fatia na mesa para que todos nós – os demais – sentíssemos que comemos o bolo, mesmo que pouco. Os donos do jogo perderam o recato e mal deixam migalhas, agora. Fariam isso, fosse todo o mundo democrata-liberal, totalitário ou comunista. Porque sempre tem um grupo que dá um jeito de ficar dono do jogo, mesmo nos mais difíceis cenários. A Rússia matou dezena de magnatas e oligarcas e, no entanto, tantos outros rostos novos surgiram no lugar. Porque o poder não aceita vácuo. A China parece ter tido mais sucesso, mas se o valor que investem em militaria é maquilado (como se desconfia), o seu sucesso quanto à paz social interna também é. Há repressão, há crise (imobiliária, especialmente), há guetos opressores para minorias étnicas. Não, Esquerdinha do DCE que ainda faz o masoquismo de me ler: o comunismo não salvou ninguém da malvada miséria humana. No máximo, tornou mais difícil mostrar o que vai mal. Como toda boa ditadura (com ou sem comunismo envolvido, registre-se).

Foi notícia (fonte): O salário médio anual de CEOs (imprecisamente: presidentes) de grandes empresas, no Brasil, é de 15 milhões de reais. Pesquisa feita com 84 representantes do cargo e outros 775 em cargos de diretoria. Então, imagine que você pudesse ganhar 15 mil por mês. Em um ano, com 13º salário, seriam 195 mil reais, certo? Quantas pessoas em seu círculo menor de família e amigos têm empregos pagando 15 mil reais por mês? Eu conto nos dedos das mãos. É um salário para pessoas com uma qualificação bastante sólida, no nosso mercado de trabalho. Agora, a pergunta principal: O que faz um presidente de empresa (CEO) ser TÃO MELHOR, ao ponto de que isso possa justificar que ele(a) ganhe 77 vezes mais do que alguém muito bem qualificado e que estudou muito para ganhar 15 mil reais por mês? E se não for um cargo de muita qualificação, e se for alguém limpando banheiros, digamos, ganhando dois salários-mínimos (para o cargo, isso é considerado um salário bom, viu?), então a diferença passa a ser de 408 vezes entre CEO e a querida da tia cuidando diariamente dos banheiros das nossas empresas inclusivas e responsáveis socialmente e ambientalmente e espiritualmente e ludicamente […].

Esta é, para mim, a origem do Mal (letra maiúscula) dos nossos tempos. Não o capitalismo; não a ideia de que quem investe mais (tempo, recursos, esforços) recebe mais; não a ideia de que alguém que toma mais risco (civil, criminal, ambiental, político) tem o direito de lucrar mais (o risco é do empregador, art. 2º/CLT).  Nada disso é o Mal. Mas, sim, a incrível, inexplicável e injustificável disparidade de como 88 pessoas podem ganhar médias anuais de 15 milhões de reais, enquanto milhões de pessoas ganham o equivalente a dois ou três salários mínimos mensais, a vida toda – quando ganham

E as pessoas que ganham tanto dinheiro fazem um jogo onde a culpa é da democracia, a culpa é da Esquerda, ou até da Direita (se valer a pena e fizer venderem mais), porém, em última instância, a culpa é e sempre foi sua, que não tem o “mindset vencedor”. De Pablo Marçal a Bispo Edir, todos os mensageiros dos donos do jogo querem te convencer que se você passa fome, a culpa é só sua. Por detrás disso tudo, a permanente mentalidade que os norteia e diz “se eu posso ter mais, por que eu não teria mais?”, mas é preciso que você (e eu) não se revolte com esse jogo, daí o teor da mensagem dos “guias para o sucesso”. Levada a extremos, é essa mentalidade de “ter sempre mais” o que promove o fim dos recursos naturais e do próprio equilíbrio ambiental. Não é que seja necessário, é que simplesmente não há ninguém que possa impedi-los de fazer o que fazem. Compram a tudo e a todos, e quem hipoteticamente não se vende (se é que existe/existiu alguém incorrompível [eu começo a negociar na dezena de milhões de reais, caso interesse]) acaba envolvido em algum triste desfecho. Afinal, o único crime que realmente existe é o de ser descoberto. Se fizer do jeito certo, dá pra seguir vendendo palestra de ética e responsabilidade social com sorriso no rosto (e os bolsos cheios).

E eu discordo de quem imagina que esses vilões ficam num country club do mal, no alto de uma montanha estilizada à moda Drácula. Essa gente é tão dívida quanto nós, porém, eles têm algo que falta demais às massas: consciência de classe social. Podem ter visões agressivamente diferentes do que fazer com o brinquedo chamado Terra: uns querem cuidar dela como um pet (“coma menos carne, a Terra agradece” – fecha a porta do jatinho que joga duas vacas no ar por hora), e outros querem destruir como um brinquedo dado à criança mal-criada (“é tudo meu, e eu quebro se quiser”). Mas de uma coisa eles todos sabem bem: se um deles está em risco pelo motivo de ser rico, os outros também estão. No fim, acho que é isso que mais falta ao resto de nós, meros mortais: entender que se o madeireiro e o petroleiro (os donos, claro) estão felizes com os prospectos de vitória do candidato X, a chance desse candidato ser bom para o resto de nós é perto de zero.

E que o Esquerdinha do DCE não me entenda mal, só pelo último parágrafo. Os governos Lula 1 e 2 deram condições para que banqueiros lucrassem oito vezes mais do que com seu antecessor, FHC (fonte). Todos os lados (Esquerda e Direita) sabem que não jogam o jogo sem que os donos do verdadeiro poder permitam. Começou a peitar demais e vem “o rodo”. Todavia, a Esquerda (não “a Esquerda” do PT [o PT que se exploda], mas a ideológica, aquela que na Revolução Francesa ficou do lado dos mais esfarrapados) ainda é o lado que diz “não está bom do jeito que está, precisamos rebalancear o sistema”. A Direita se basta em dizer “o mundo é de quem está preparado para vencer, e quem quer mais que lute”, mesmo que a luta já comece perdida para a maior parte de nós, por fatores objetivos. Eu sei qual lado melhora a promessa democrática-liberal de mais igualdade nas oportunidades vs. qual lado prefere manter tudo como está. E também sei que nenhum dos lados é meu amigo de verdade. Afinal a maioria dos líderes de partido, sejam de Esquerda ou de Direita, estudaram nas mesmas escolas e frequentaram as mesmas festas. São – quase sempre – gente da mesma classe social e que não é a minha.

Contudo, é uma questão pragmática: o jogo é jogado por quem se habilita nele, e o espaço de escolha é limitado pela realidade imposta. Preciso escolher o lado que, se não resolve todos os defeitos que vejo, pelo menos não joga aberta e francamente para o lado que quer me ver esmagado nas engrenagens da máquina que mantém a própria ganância.

A frustração, seja aqui nos Estados Unidos do Brasil™ (©1889-1968), seja nos Estados Unidos da América (Est. 1776), não passa muito pela democracia em si, embora seja o que os jornais digam. As pessoas nem sabem bem o que é democracia, repito. A frustração é essencialmente material e de perspectivas práticas de exercício do poder de consumo. Há pouco sobre a mesa e a culpa não é do regime político, mas da eterna insaciedade dos donos do jogo real de poder. Tem um lado tentando convencer que ainda dá para dividir, mas esse lado pouco mexe nas fatias do bolo de quem tem muito mais do que precisa. Ele só quer dividir as migalhas que sobram por sobre a mesa entre os que achavam que comiam bem (classe média) e os que não comem nada (todo o resto). O outro lado, ora vencedor nos EUA de 2024, diz “o jogo é duro e quem não aguenta que pereça”. Cristãos esse tanto…

Revanche, vingança e ressentimento… Nunca deu errado para os peões do jogo quando esses valores vieram à tona no passado. #Confia

E se você tem dúvidas sobre o tipo de peça que é nesse tabuleiro, apenas responda para si se você pode dar uma bica no sistema inteiro e manter seu estilo de vida sem que nada mude. Se sim, parabéns: você é um dos poucos felizardos. Eu sei que não sou.

Um mundo em desencanto é um mundo sem esperança. É um labirinto em que parece que todas as alternativas foram tentadas e só resta voltar para trás. Mas, extrapolando a metáfora de Bobbio que aqui empresto, o perigo da mistura entre labirintos e o povo é a tentação de voltar sobre os próprios passos para um passado seguro, um passado em que tudo faz sentido e um passado que só pôde existir sob condições objetivas que não mais estão lá. E, ainda que estivessem, é um passado em que uma pequena parte do povo comia uma fatia de bolo e todo o resto passava fome. Agora, restaram as migalhas, enquanto os donos do jogo ficam com 15 fatias por ano (se é que você entende a minha metáfora), ainda que pudessem ter os buchos justamente cheios já na 3ª ou 4ª fatia.

Todavia, dizia Marx – sempre certo nos diagnósticos, sempre errado nas soluções (muito mais por culpa dos que ainda querem aplicar suas respostas para o século XIX no século XXI, anote-se):

Sem sombra de dúvida, a vontade do capitalista consiste em encher os bolsos, o mais que possa. E o que temos a fazer não é divagar acerca da sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o caráter desses limites.

E é essa vontade que não conhece limites e que tem todo o poder o que leva ao mundo que vemos pela janela. Não o regime político, não o candidato A ou B. Mas um sistema que cria um mundo que nos força a lutar por migalhas contra outros esfomeados, enquanto há sempre um menor número de refinados e distintos bolsos, sempre mais cheios de bolo, muito mais do que qualquer mortal precisaria ter e comer.

Eis, senhoras e senhores, o meu diagnóstico. A solução? Eu não ousaria…

Entre remédios e venenos: vale tudo?

Créditos da imagem: perfil “PlebeusOciosos” no Instagram.

Eu quero um mundo sem Alexandre de Moraes. Calma, calma… Respira… Não vem um ataque ao ministro. Tampouco, vem uma defesa. O que tento, a seguir, é uma análise conjuntural da saúde da democracia brasileira após quatro anos de Bolsonaro e com práticos dois anos de Lula “3”. E a primeira frase (um mundo sem Xandão) é quase que o fim da análise. Então, se você tiver paciência, eu quero (re)começar o raciocínio do começo.

E já começo acabando com qualquer mistério. A pergunta do título é retórica: é claro que não vale tudo. É por isso, só por exemplo, que existem crimes de guerra. Se é possível aniquilar um exército inimigo com chumbo e fogo, e “terraplanar” um pedaço de território com bombardeiros e canhões, mas ainda assim, há limites que, uma vez transpassados, merecem represália especial, então não “vale tudo”, em lugar nenhum. Se quiser consultar exemplos de crimes de guerra veja o Estatuto de Roma, ratificado e promulgado no Decreto 4.388/2002, a partir do art. 8º. Nem mesmo na luta de “vale tudo” (de onde o termo veio) realmente vale tudo. Tente lutar com as mãos cobertas por cacos de vidro e você vai ver que não vai ter luta.

O que estamos tentando evitar (estamos, mesmo? Quem?)? Eu acho que nem isso é claro para todos, então eu repito o que pelo menos eu quero evitar: eu quero evitar a volta da barbárie, de uma sociedade em estado de natureza pura, como aquele descrito em Hobbes, onde o homem mais forte vence, mas só enquanto for mais forte. Se ele gosta da minha casa, me expulsa e/ou me mata. Se gosta da minha mulher, idem. Se eu tenho um problema com meu vizinho, bato nele ou apanho – quem for mais forte tem a razão. Mas, o mais forte também dorme. O mais forte também adoece. O mais forte – do tipo “sortudo” – envelhece. E foi assim, de forma muito porcamente reduzida, que a raça humana, em algum ponto de sua história, disse – não de maneira uníssona, claro – “chega… a gente precisa regular os conflitos de uma forma que a força física não seja a régua a estabelecer quem está certo”. Cada tribo e povoado, cada reinado e império; cada qual a seu tempo; chegaram todos à conclusão de que era preciso superar o estado bestial da violência como única baliza a resolver as diferenças, porque a força necessária à violência não serve o homem por muito tempo (velhice), tampouco o serve o tempo todo (sono, doenças[…]), de tal modo que até mesmo parte daqueles que se beneficiavam da violência concordaram que era hora de superar esse meio de resolução. Todos? Não. Nunca somos “todos”. Mas o fomos em quantidade suficiente para que esse abandono de um direito natural ( = pautado nas leis da natureza) em prol de um direito de base social fosse a regra de convívio para nossa espécie.

Não preciso dizer que se estou resumindo algo em torno de dez ou doze mil anos de História (pelo menos isso desde que o homem fundou a agricultura e, com ela, o sedentarismo [em oposição ao nomadismo], germinando as vilas e cidades), também estou sendo extremamente grosseiro (ou seria “romântico”?) com a forma como isso se deu. Se alguém entendeu, pelo meu texto até aqui, que essa compreensão e adoção foi linear e inexoravelmente irreversível, perdão. Mil vezes “perdão”. Mas eu não tenho tempo, nem conhecimento, para contar tal capítulo “do jeito certo”.

O que posso garantir é que o que eu defendo é um modelo de sociedade em que não vence o mais forte, mas vence quem tem certa razão lógica. E “razão” é um desses termos que foi esvaziado de significado. Como eu já apontei, na minha visão, o maior problema dos nossos tempos reside na completa falta de significados compartilhados entre os indivíduos de um grupamento social. Não falamos mais a mesma língua, mesmo quando achamos que sim. Pai e filho, vizinhos, cidadãos… Dizemos o mesmo significante, mas não atribuímos o mesmo significado. E, quando a comunicação regride aos seus níveis mais primordiais, “violência” é um tipo de comunicação basilar. Talvez, o primeiro. Animais irracionais que mantêm os filhotes por perto (nem todos mantêm) adestram suas crias principalmente através da dor. Mordidas, patadas e por aí vai. Algumas geram graves lesões nesse processo “educacional”.

Onde eu estava? Ah, sim: o que eu defendo. Eu defendo a democracia liberal, recriada – ou, ao menos, solidificada – no pós-segunda guerra. Ela nasce das rebeliões contra reis absolutistas no século XIII (daí o “liberal” em seu título, e que nada tem a ver com doutrinas econômicas), mas vai ganhar os contornos que temos por agora, só depois dos anos 1960. É essa democracia que defendo; aquela que me garante um conjunto elementar de direitos (à vida, à liberdade, à dignidade[…]), e que, ao mesmo tempo, garante àqueles ao meu redor (a sociedade) que eu não vou abusar desses direitos de forma a fazer mal à essa coletividade abstrata, inominada, porém, sempre presente. Ninguém vive sozinho. Nem quem diz que vive (se diz, diz para alguém). De quebra, essa democracia que defendo me garante o direito de opinar, de tempos em tempos, em como será construído o Estado: seja pela minha indicação de quem quero no comando dos botões (via eleições), seja me consultado diretamente sobre temas de relevância (consulta pública, referendos, plebiscitos etc.).

Para complicar mais esse desenho de ficção e que se presta a resolver conflitos sem permitir que a violência seja a maior baliza (a esta ficção damos o nome de “Estado”), esse desenho reparte funções do poder estatal para que cada função vigie uma à outra, cuidando que não haja excesso que capture o poder estatal para este ou aquele grupo. Afinal, em troca do direito natural de decidir os conflitos pela força, nos foi dito que o Estado seria o que nós não podemos ser: justo. “Justo” vem de “justiça” e já disse que creio vivermos a era do esvaziamento dos sentidos. Para ficar claro, reestabeleço o que chamo de um “Estado justo” e que nem nos mais loucos sonhos é um sentido cunhado por mim, um insignificante ninguém que escreve a esmo na internê: Estado justo é o Estado que trata os iguais igualmente, e os desiguais desigualmente, na medida de sua desigualdade. Há outro milhão de definições e as outras definições podem ser melhores. Esta é a mais simples de explicar e eu gosto dessa simplicidade por ser didática.

Se meu vizinho e eu temos as mesmas possibilidades, posses e razões (por exemplo, para brigar), o Estado nos tratará igualmente diante do conflito, estabelecendo o que é direito de um e de outro com base em lei prévia ao desacordo. Se não há lei prévia, o Estado, que não tem o direito de se furtar à responsabilidade de resolver o entrevero (a isso damos o nome de “princípio da inafastabilidade da jurisdição”), utilizará de interpretação análoga de outra lei (digamos: uma lei marítima que resolve um problema em terra para o qual não há lei específica) ou a aplicação de princípios basilares do Direito, para achar uma solução para o caso concreto. Se forem muitos os casos concretos que envolvem o mesmo conflito e sem lei prévia que defina o que é certo e errado, o judiciário poderá, então, uniformizar o entendimento que o juiz deve aplicar para resolver aquela situação. Só para exemplo dessa uniformização, mas longe de ser o único meio possível, através da edição de uma súmula vinculante (SV) que, em modernas constituições, só pode ser feita pelo órgão de cúpula do judiciário – no nosso caso, o STF. Até que chegue o dia – tomará, meu Deus, tomará – em que o legislativo saia de seu sono esplendido e realize a função precípua que lhe cabe: legislar ( = criar leis).

Falei que na falta de lei, e de lei que permita aplicação por analogia, cabe a aplicação de princípios, certo? Vejamos um exemplo: No Brasil, a primeira lei que o aluno de direito deveria estudar é a LINDB (Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro). Ela está materializada no Decreto-Lei n° 4.657/1942 (não é como se não houvesse regras antes de 1942… É só o que há de “mais novo” no tema). Há uma série de regras sobre como será interpretado e aplicado o Direito (~= as leis) no Brasil. Só por exemplo, o art. 3º fixa que ninguém pode deixar de cumprir a lei sob a alegação de não conhecê-la. Parece meio óbvio, não é? Mas sem uma lei que diga isso, o Estado democrático não funciona bem porque temos que lembrar que, aos indivíduos, tudo é lícito exceto o que foi expressamente proibido (Constituição Federal, art. 5º, inc. II). Se não há lei que obrigue o sujeito a respeitar todas as leis, seria lógico que o cidadão dissesse “não cumpri essa lei porque não a conhecia e não há nada que me obrigue a conhecer”. Mas, vem a LINDB e obriga todos a conhecer todas as leis. Isso é possível? Lógico que não. Nem o mais competente jurista, vivo ou morto, conhece todas as leis de um país. É impossível. O que esse princípio gera é um “dever de cuidado”. Se você vai abrir uma pastelaria, convém ler o que é preciso para obter um alvará, contratar alguém, respeitar o consumidor e a vigilância sanitária. Você precisa ler sobre impostos de importação? Provavelmente não. Mas o risco é seu e o cuidado de se preparar para as obrigações legais, também. O mesmo ocorre quando você decide deixar de ser pedestre (na origem, todos somos) e passa a ser condutor. Todos devem conhecer a lei de trânsito (CTB), incluindo pedestres! Mas o condutor deve conhecer em detalhes. Senão, vai perder o carro, a carteira e até a liberdade.

Mas não era exatamente disso que eu queria falar em terras de LINDB. Eu queria falar do que ela comanda quando não há lei específica para o problema que o judiciário precisa responder – e, lembre-se: o judiciário SEMPRE precisa responder [negativa ou positivamente] às provocações que lhe são oferecidas através de processo judicial. SEMPRE. Se o judiciário, repartição do poder estatal, pudesse se negar a apreciar ação judicial por qualquer motivo, viveríamos em um inferno ainda pior do que se pode pensar sobre o estado de coisas atual; inferno em que não poderíamos resolver nossos próprios problemas (porque a lei veda o exercício arbitrário das próprias razões – art. 345 do Código Penal) e o Estado – que nos disse para abandonarmos a violência porque ele resolveria as contendas – poderia então, do nada, do nadão, dizer “ah, hoje eu não tô afim não, tá… passa mais tarde…” para sempre.

A LINDB, então, determina ao aplicador da lei – em geral, o juiz, mas não só ele – que, no caso em que [o conjunto de] lei[s] for insuficiente à resolução do problema, deve-se:

Art. 4o decidir o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito.

Art. 5o Na aplicação da lei, atender aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum.

Mais tarde, durante o aprendizado da hermenêutica (interpretação) jurídica, o aluno passa a conviver com princípios como da precaução, prevenção e prudência. Entre outras coisas, aprende que mesmo quando os n lados do conflito tem razões jurídicas amparadas em lei (o que é altamente possível com a “fúria legiferante brasileira” [o excesso de leis]), deve-se privilegiar o lado que tentou evitar um dano diante daquele lado que não se precaveu. Claro: só o caso prático pode tornar essa análise uma resposta concreta. Em abstrato, o Direito é para sempre um grande “depende”. Mas há vários cuidados que ditarão o resultado ótimo de um processo (resultado que nem sempre o juiz do mundo real realiza; mas um juiz-modelo deveria realizar).

Três páginas e eu não cheguei em lugar nenhum, não é mesmo? Vai ficar pior…

Para Raymundo Faoro, autor interessante para quem quer falar em sociologia no Brasil (ao lado dos clássicos de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. e Celso Furtado), especialmente em sua opus magnum (caramba, como estamos chiques, hoje!) “Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro”, há uma diferença fundamental na formação da República Brasileira na comparação com outras repúblicas modernas, e essa diferença reside especialmente na falta de uma verdadeira revolução burguesa como gatilho a iniciar a transição de um modelo monárquico, imperial (ou seja lá qual era sua matriz) para um modelo verdadeiramente republicano. Indo um pouco mais nas premissas de Faoro, vemos que as elites que fundam a colônia portuguesa por aqui nunca se afastaram da fundação do Estado modernizado, de tal modo que as instituições republicanas que surgiram jamais tiveram chance de ter raízes mais profundas neste Estado. Em comparação, a instrumentalização do Estado brasileiro para a defesa e o avanço dos interesses oligárquicos dessas elites sempre foi uma constante no pré e pós “República”. Há toda uma discussão se Faoro realmente entendia o todo que decidiu criticar, já que a ideia de um país inteiramente atrasado porque seu “estamento burocrático” (funcionalismo público) assim o quer é um tanto quanto… Difícil de provar… No mínimo.

Isto não é o mesmo que dizer que em países onde a mudança para sistemas republicanos se deu por verdadeiras revoluções burguesas ( = uma classe sem origens nobiliárias mas, sim, formada por trabalhadores, artesões e comerciantes, doutos em seus ofícios, capazes e competentes o bastante para dominar o destino da economia nacional) estão ou estiveram livres da influência de suas elites no funcionamento das instituições daquele lugar. O que Faoro defende, isto sim, é que a própria construção republicana no Brasil é um arremedo ao valor contido na ideário de “República”. A rés [coisa], no Brasil, jamais foi pública [de todos] (“rés-publica” = república). Para Faoro, o patrimonialismo que faz o agente público entender o Estado e seus mecanismos como extensão de suas posses pessoais, jamais deixou de ser a regra por aqui. Todas as instituições que atuam em nome e em prol do Estado brasileiro foram criadas por aqueles que já eram donos – primeiro da colônia e, depois, da nação – do Brasil, antes da República Brasileira nascer [de um golpe militar contra a monarquia] em 1889. Logo, suas instituições estão, como sempre estiveram, a serviço de seus arquitetos – que se são, sim, parte do povo brasileiro, jamais pensaram as instituições como defensoras de um Estado que visa “um país para todos”.

Oras… O que estou dizendo, então? Tudo está arruinado; não resta nada a salvar; é um edifício condenado esse tal de “Estado democrático de Direito” da “República federativa do Brasil”? Olha… Se eu não morasse “no edifício”, talvez eu achasse mais fácil jogar no chão e fazer de novo. Talvez seja, mesmo, este o ponto crucial que me separa dos fatalistas e dos anárquicos correntes. Eu moro no prédio e não quero que ponham ele abaixo, comigo dentro. É claro que é o caminho fácil, mas também é o caminho fácil matar todo mundo que discorda de mim. Deve ter outras razões, então, que me impedem de adotar quaisquer desses caminhos. E esse é o dilema com qualquer país, com qualquer estado, com qualquer município, com qualquer grupamento de pessoas. Você praticamente nunca tem a chance de “pôr tudo abaixo e começar do zero”. É o avião que está em constante reparo e melhoria enquanto voa. Não pode pousar, não pode ser desmantelado enquanto voa. Partes cruciais precisam ser mantidas a todo custo, mesmo que não sejam ótimas, uma vez que ele saiu do chão. Alô Mangabeira Unger! Alô imaginação institucional! (Outro tópico, outro dia).

E, claro: há aviões que vão de encontro à terra. Na analogia aos países, há os que se acabam, geralmente em guerra civil, em pobreza extrema, em dominação, anexação e outras catástrofes para esses povos. De novo: morando dentro do prédio (ou de carona nesse avião metafórico), eu não quero nada disso para o meus país, não…

As instituições, por outro lado, são os sistemas de bordo ou o piloto-automático do nosso avião. Quando alguém diz que o mais importante em uma democracia (seja ela republicana ou monárquica) são “instituições fortes” é exatamente nesse sentido de combater o rapto do Estado – que detém o monopólio da violência – por parte de quem quer mantê-lo (ou adicioná-lo) como seu patrimônio pessoal. Instituições podem ter nomes de órgãos e prédios, como “Ministério Público” ou “INSS”. Mas, instituições podem ser conceitos ao invés de lugares ou repartições. Por exemplo, a instituição “devido processo legal” pode ser forte ou fraca. A instituição “sistema universal de saúde” pode ser empoderada ou inviabilizada.

“Instituição” vem da ideia de “instituto” e do ato de “instituir” que, neste contexto, transmite a ideia de atribuir (a si mesmo ou a outros) uma missão. Quanto mais duradoura é a missão (por exemplo, garantir o direito à assistência jurídica aos que não tem condições financeiras), melhor é o instituto (no caso exemplificado, a Defensoria Pública), no sentido de que é possível criar uma cultura de valores e importância daquela instituição ao longo dos anos, tanto para a sociedade que passa a conviver com aquela instituição e ver seus frutos (bons e ruins), quanto internamente para aqueles que dão vida à instituição ao longo de gerações de trabalhadores que por ali passam.

Meu raciocínio está ficando mais claro pra você? O patrimonialismo denunciado por Faoro seria uma má-formação congênita de uma república em que pequenos grupos, muito poderosos, até permitem que a república se forme e o Estado passa a existir não pela vontade de um monarca, mas sim porque o povo assim quer que seja. Esse patrimonialismo permitiria que a república exista, mas ele desejaria instituições fracas. Porque instituições fortes fazem o que sua missão manda, doa a quem doer. E isso não pode acontecer jamais. O Ministério Público não pode denunciar “doa a quem doer”. A Polícia não pode investigar e prender “doa a quem doer”. A Escola não pode ensinar “doa a quem doer”. O Hospital não pode curar “doa a quem doer” (imagina! Pobre vivendo muito! Quem vai pagar essa conta? Daqui a pouco, falam em taxar fortunas de novo…). E é neste ponto de que discordo de Faoro, porque, diferentemente do que ele considera como a origem do mal (o funcionário público “hereditário”, de família naquela instituição e por aí vai), eu acho que esse funcionário que desvia a máquina em seu favor é só mais uma consequência do que uma causa-raiz e está longe de ser a regra no serviço público; há muito servidor tentando viver e dar vida à missão institucional. Para mim, o problema continua sendo da elite que “autoriza” a República brasileira, como indicou Oliveira Viana ou Victor Nunes Leal.

O Brasil é uma República “doa a quem for mais fraco”. Não pode ser do outro tipo porque quem permitiu que a República se fundasse por aqui não quer que isso ocorra – e, não: eles não estão todos numa sala à meia-luz, tomando whisky de milhões e fumando charutos de bilhões… Isso é fantasia de “cumpanheiru”. Essas elites sequer concordam quanto aos rumos a tomar, a seguir… A elite agrária de um país raramente concorda com os interesses da elite industrial – só por exemplo. O que essas elites apenas sabem é que não querem um Estado que possa lhes impedir de fazer o que querem, quando querem; nisso, todas elas concordam. E para não ser uma República “do outro tipo” (“doa a quem doer”), instituições não podem ser fortes (no sentido de ter uma missão clara, tão imparcial quanto se possa conceber, aplicada contra tudo e contra todos, ao longo dos tempos, todas as vezes).

Um dos meios de criar instituições fracas é deixar suas missões embaralhadas, dúbias, incertas, erráticas… Outra forma de enfraquecer instituições é colocar figuras personalistas e populistas em sua direção.

Eu já desenvolvi contigo o porquê de estarmos nessa: do porquê abrimos mão do direito natural de resolver tudo na força; do porquê um Estado democrático dividir seu poder em funções; do porquê um Estado democrático dever ser protegido, já que ele garante meus direitos e te garante que eu não abusarei deles, ao contrário de outros tipos de Estado (totalitário, absolutista, de exceção…). Já discorri sobre o porquê da função do Estado chamada Estado-Juiz, ou judiciário, não poder se negar a resolver as desavenças que lhe são denunciadas. Também falei o porquê não gosto da ideia de jogar tudo fora e começar de novo, comigo morando dentro do prédio que (hipoteticamente) você quer demolir. Finalmente, falei de porquê o Brasil teima em ser uma república meia-boca, e como as instituições são elementares no processo de fundamentação de uma real república, coisa que o Brasil nunca chegou a ser à vera (de novo, vide Oliveira Viana, vide Victor Nunes Leal – o loteamento do país é uma constante, ora por um tipo de força, ora por outra).

O que está faltando? Está faltando falar sobre a defesa da Democracia. Eu já disse o porquê eu acho que ela deve ser defendida. É um sistema com falhas e vícios, contudo, todos são. Só que os defeitos dela ainda são menos horríveis do que os defeitos de outros sistemas. Se a Democracia será presidencialista, parlamentarista ou até monárquica (como é o caso do Reino Unido e sua monarquia parlamentar – “monarquia” que, em nossos tempos, ainda é o oposto de “república”, mas não de “democracia”) isso não me importa por agora, embora eu também tenha preferências nesse campo.

O que eu quero é salvar um Estado que se rege e se restringe pela Lei (com letra maiúscula, pois aqui funciona como uma instituição). E aqui, a coisa toda começa a tomar forma: enquanto o cidadão pode fazer tudo aquilo que a Lei não proíbe (lembra da CF, art. 5º, inc. II ?), o Estado democrático de Direito só pode fazer aquilo que a Lei PERMITE. A isto, damos o nome de princípio da (estrita) legalidade (vários lugares na Lei o evocam. Ex.: art. 37 da CFRB). Essa não é uma conversa nova se você costuma ler as bobagens que publico por aqui. Porém, é sempre importante (para mim) ter a certeza de que o texto que apresento tenha certa consistência em si e permita a apreciação por qualquer um: quem chegou agora nesta seara e quem já está aqui há muito tempo.

O dilema atual da defesa das democracias é que, diferente dos anos 20 e 30 do século XX (1900s), os ataques às democracias não vêm de países sob regimes totalitários. Nem mesmo vêm de grupos extremos internacionais, como sugeriu-se que ocorreria com o terrorismo que aflorou no início dos anos 2000. O ataque às democracias no século XXI, década de 10 e 20, vem quase sempre “de dentro”. Do povo. Do povo que, em tese, autorizou a fundação do Estado democrático de Direito.

Nós poderíamos passar mais 80 páginas discutindo o porquê dessa ruptura entre criador e criatura, mas ficam dois bons livros para entender o cenário dessa onda atual de ataques às democracias. O primeiro é o bem conhecido “O Povo contra a Democracia” de Yascha Mounk. O segundo é o também popular “Como as democracias morrem” de Steven Levitsky e Daniel Ziblat.

O primeiro livro teorizará que a democracia está sob ataque por n fatores, como os econômicos e sociais (estagnação do poder de consumo, medo da imigração e o choque cultural, efeito do uso de redes sociais e da disseminação de desinformação) influenciando aquelas sociedades (no caso deste livro, o autor foca nos motivos para EUA e Reino Unido), a percepção de que os interesses privados de cada um são mais importantes que os objetivos coletivos, e de que o acordo social em vigência (em geral, uma constituição) não foi autorizado por si e, portanto, não é válido; a tudo isso soma-se a descoberta por atores políticos reacionários ( = que desejam o retrocesso das conquistas sociais atuais [em geral, das liberdades individuais e garantias de grupos historicamente perseguidos]) sobre como fazer um governo autoritário, no entanto, dentro das regras legais.

O segundo livro dirá que as democracias já não morrem por meio de violentos golpes de Estado, mas através de uma erosão silenciosa e contínua das instituições democráticas. Levitsky criticará a falta de regras democráticas que exijam de todos os atores políticos a obrigação de conviver com adversários e opositores e, ao mesmo tempo, a falta de capacidade para impedir que o governo em exercício “abuse” dos poderes institucionais [ainda que de forma legitima], pois, assim que forças adversárias chegam ao Poder, a primeira providência é limitar os poderes institucionais que causaram incomodo, enfraquecendo as instituições. Igualmente, o autor apontará como culpados os partidos políticos tradicionais que, sabendo do apelo de personagens populistas radicais (à esquerda e à direita), tentam convidar esses atores para dentro do sistema político sonhando que poderão controlá-los, uma vez eleitos. O livro ainda faz um paralelo interessante navegando pela recente história de países europeus (notadamente, Hungria) e latino-americanos (ex.: Venezuela ou Nicaragua) que percorreram esse caminho de “erosão por dentro”. Finalmente, o autor deixa um roteiro de “alerta” para detectar a “erosão por dentro” de forma prematura: ataques ensaiados e orquestrados à imprensa livre, ao poder judiciário e às instituições que vigiam o cumprimento das variadas normas em uma democracia (no nosso caso, são exemplos: CGU, Anvisa, Ibama…).

O desafio de defender a democracia nos nossos tempos é que o ataque é interno. O ataque vem de quem deveria defendê-la. E, talvez, esse seja o sinal mais claro de que deveríamos deixar ela morrer. Afinal, é como se eu estivesse há alguns meses da queda da Bastilha e seguisse escrevendo num folhetim para distribuição às margens do Senna: “franceses raivosos querem pôr tudo a perder, só porque não gostam de como tratam os presos na Bastilha!”. Se o povo quer o fim da democracia no Brasil ou em qualquer lugar, o povo está certo, não é mesmo? … Sei não…

Se estivéssemos discutindo o fim da democracia por um sistema novo, que se discutiu aqui e ali, que só um país está testando (digamos, um sistema gerido por IA – [Ave Maria… É só exemplo, hein?]) poder-se-ia dizer que tudo o que se disse até aqui foi apenas impulsionado por “medo de algo novo”. Acontece que não é isso o que está se passando. O que as pessoas com raiva da democracia querem é o fim desta e o retorno de sistemas já testados no passado, como o totalitarismo das ditaduras, geralmente com tons fascistas quando não, o retorno de oligarquias que deem soluções óbvias e fáceis para problemas complexos (tá faltando emprego? Que tal voltarmos a extrair carvão das minas?). São soluções óbvias e fáceis, como também são absolutamente erradas. E vão fazer os mais fracos (em todos os sentidos) sofrerem mais.

Este é o dilema dos nossos tempos: é claro que o Estado brasileiro de 2024 está aquém dos anseios de seu próprio povo. E o Estado brasileiro de 1960 também estava. E o Estado brasileiro nunca esteve além dos anseios de seu povo, nem mesmo nos melhores anos de FHC ou Lula. Claro, teve-se um vislumbre, um brilho, uma esperança aqui e ali. Contudo, nada disso durou mais que “dois Mississipi[s]”… É o Cristo Redentor começar a voar na capa da The Economist para alguém da elite brasileira se enfezar com o pobre vencendo na vida [“pobre”, na visão deles, é todo mundo que precisa trabalhar pra viver] e vir derrubar la puerra tueda… Ora a elite econômica, ora a elite intelectual, ora a elite jurídica (porque não é surpresa para ninguém que filho de desembargador e ministro, dembargadorzinho e ministrinho é, certo?). Até porque, nas polêmicas palavras de Faoro, isso aqui nunca foi uma República e o Poder sempre teve dono[s].

Bem, qual é o mega-drama então? A defesa da democracia não pode, diante desse novo estado de ânimos e forma de ataques, se dar em abstrato. Ou seja: com ataques que a corroem por dentro, e vindo de todos os lados (seu povo, redes sociais governadas por [leis de] países e [interesses de] empresas e pessoas externas ao Brasil, elites sociais querendo a diminuição do poder das instituições que lhes incomodam[…]), o Estado não pode esperar que tudo apodreça para que, só aí, medidas comecem a ser tomadas.

Ok, mas eu também disse que o Estado só pode fazer aquilo que a Lei permite. Senão, não é mais democracia. Porém, a lei nunca é escrita de forma a prever todos os casos do mundo real porque, advinha: é impossível prever todos os casos. Por outro lado, é um perigo escrever uma lei que descreve genericamente um crime, porque se a descrição é genérica, o agente estatal pode decidir se a aplica ou não. Então, não ter uma lei específica para proteger a democracia é ruim, mas ter uma muito abrangente também não funciona. E pior ainda seria uma lei que é genérica a dizer o que são crimes contra a democracia, permitindo que cada governo de momento aplicasse esta lei contra seus desafetos. Qual a solução? Até parece que eu sei. Ninguém sabe, de verdade. O que se tem hoje são, isto sim, indícios.

Deixo e sugiro a leitura do bom trabalho (relativamente curto) de Jan-Werner Müller, infelizmente em inglês, sobre “democracias militantes”. O conceito tem sua fundação relacionada ao fim do regime nazista na Alemanha e descreve uma postura em que o regime democrático mata “a serpente ainda no ovo”. Toda vez que um “ator político” (não necessariamente filiado a partidos, ou anunciado candidato a nada) passa a ventilar ideias que visam desmontar a democracia, ideias que, como visto nas obras de Mounk ou Levitsky, visam enfraquecer instituições, frear a capacidade da lei de ser aplicada a este ou aquele, remover proteções de abusos de direitos individuais e tudo aquilo que contraria o “tripé democrático” (liberdades, proteção coletiva contra o abuso das liberdades, participação popular na formação dos governos), então é chegada a hora da democracia militante atuar e acabar com essa farra. O “acabar com a farra” deve, é claro, seguir algum pressuposto legal, e não estamos tratando de uma “democracia que tortura e mata opositores” para se defender. Contudo, se há lei já prevendo restrição de direitos (e.g. apreensão de passaportes), inquéritos, interceptações telemáticas, e até mesmo prisões preventivas para lidar, digamos, com o tráfico de drogas, por que essas mesmas leis não poderiam ser utilizadas para investigar quem quer acabar com o Estado democrático de Direito?

Eu não vou, por uma questão óbvia de extensão, revisar todo o artigo de Müller, mas eu posso afirmar que nesse conceito de “democracia militante” há um divórcio incontornável entre uma visão de democracia estrita e, por assim dizer, positivista (se está escrito: pode; se não está: não pode), e uma visão mais jusnatural ou jusracionalista (de um direito maior, que emana de princípios anteriores à concepção do próprio Estado), ou até mesmo, atualizando para termos correntes da Academia, mais Dworkiana, de um “Direito interpretativista, idealista”, que se adapta a certas noções de um bem maior, numa sociedade que parrilha de um certo norte moral, que não para na letra fria da Lei e que exige e demanda um profundo exercício cognitivo do aplicador da lei, em todas as instâncias.

Para os positivistas clássicos (exclusivos) é errado emprestar o sentido de uma lei que é clara em sua formulação para a aplicação em outro lugar completamente distinto da origem a qual a lei versou. Isso seria, nesta visão, também o fim do princípio da estrita legalidade já que, agora, o Estado até usa a lei para se embasar, mas a usa com “muita liberdade de interpretação”.

Para “o outro lado”, numa leitura mais apoiada em Dworkin e com maior ligação ao sistema da Common Law americana ou inglesa (em oposição ao nosso sistema romano-germânico, de Civil Law) o Direito versa sobre a vida em sociedade, sociedade que não para e não pode parar. Portanto, é uma estupidez sem tamanho esperar que a lei vá cobrir todos os casos e hipóteses do mundo, antes de poder ser utilizada para o seu fim maior: harmonizar as relações humanas e garantir que o monopólio da violência continue com quem deve ficar: o Estado. Afinal, diriam, o nosso Código Civil é de 2002, última vez que a seleção de futebol brasileira ganhou uma copa do mundo. Metade do meu público não estava nascido, e a outra metade ainda estava há três anos do lançamento do primeiro celular da Apple, um tal de iPhone.

Claro: de lá pra cá, o Código Civil brasileiro já sofreu diversas emendas e alterações. As leis podem ser (e são) reformadas. Mas é humanamente impossível imaginar que a Lei esteja “em dia” com as mudanças sociais (e em alguns cenários – como no direito penal – isso sequer é saudável), e é absurdo pedir que o Estado não faça nada até que o Congresso Nacional decida legislar sobre um novo tema. Esse “não fazer nada” é um convite ao retorno da violência entre os pares, porque eu não vou esperar dez anos até a lei ser elaborada, enquanto meu vizinho me inferniza com um – digamos – drone passando na minha janela, filmando minha vida privada, fazendo um barulho chato pra danar no meu quarto logo cedo. Não… Já temos leis que dizem os limites para as liberdades individuais. Já temos garantias coletivas contra os abusos dessas liberdades, já temos instituições que podem vigiar essas relações (no caso hipotético: ANAC, DECEA, polícia federal, civil, militar…). Por que esperar? Por que não agir e proteger a convivência enquanto ainda há uma convivência para proteger? Lembra do princípio da prevenção, e da predileção do Direito por quem age para evitar o dano?

Todavia, aqui… Aqui, a conversa é BEM mais embaixo… Não estamos falando de um voo de drone, ou de o uso de uma rede social, mas do próprio direito (hipotético) do coletivo em “perder a paciência” com o Estado que o regula. Regula ao ponto de proibir que esse coletivo use a violência, seu primeiro direito, abdicado em prol de uma vida menos… Violenta. Mais longa. Menos hostil. Mais previsível.

Se a lei pode ser utilizada [pelo Estado] para impedir que um grupo enorme de pessoas diga que não quer mais viver sob os moldes constitucionais atuais, como isso se diferencia das ditaduras? Só porque há uma constituição escrita que diz o que é certo e o que é errado? Como Müller magistralmente lembra em seu artigo, Stalin mandou redigir uma constituição de 1936 que era um sonho-molhado-erótico pra democrata nenhum botar defeito. As assembleias populares do nazismo, que tinham forçam legiferante no regime, proclamavam os louros de um modelo que respeitava as diferenças políticas. “Porque está na lei” é um péssimo argumento, a qualquer tempo, para constituir obrigações e restringir direitos.

Então, como diabos saber qual a diferença entre uma democracia sadia, virtuosa, moralmente adequada, que se protege justamente de atacantes covardes e numerosos antes que eles possam efetivamente solapá-la, vs. uma ditadura que esmaga qualquer um que pense diferente, com base só numa leitura porca, malfeita, enviesada e inconstante do que essa mesma ditadura considera – e ela mesma produz – como “lei”?

Outra vez, a resposta é: “e eu sei lá?!”…

Talvez, só talvez… Seja como ter uma religião dentro de si. Não importa o que os outros digam você sabe quem é seu(sua) Deus(a), o que Ele(a) prometeu, e porque Ele(a) é o verdadeiro(a) enquanto todos os demais são falsos (se não são falsos, são só uma leitura desviada do verdadeiro Deus(a) que só o seu grupo conhece e segue, corretamente). Talvez não tenha, mesmo, como demonstrar racionalmente o porquê uma democracia pode passar por cima dos limites legais habituais para se proteger de quem quer destruí-la, antes que seja tarde. Ou, mais gravemente afirmando: talvez não seja possível fazer isso, mantendo essa democracia moralmente superior a um regime autoritário.

No entanto, já se foram nove páginas e eu não consegui sequer tocar no assunto principal. Fica em paz, porque não vêm outras nove páginas. Na verdade, eu não falei do “assunto principal” porque não há nada – de verdade – pra falar do assunto principal. Isso tudo não tem a ver com o ministro Alexandre de Moraes, na realidade. Ele é só um personagem que esse arco da História brasileira propiciou o aparecimento.

Querem que eu faça um artigo justificando tecnicamente, dentro da interpretação disponível no Direito brasileiro hodierno, todas a decisões de Moraes no bojo dos inquéritos que ele conduz (Fake News [INQ 4781] e Milicias Digitais [INQ 4874])? Eu faço. É fácil. Juro. Tem autor para citar, jurista pra recorrer, jurisprudência para apontar. Juro que é fácil justificar, tecnicamente, todas as atitudes dele. Citação por rede social? Fácil: art. 196 do Código de Processo Civil e resoluções 354/2020 e 455/2022 do CNJ. Moleza… Querem que eu justifique intimar dono de rede social para constituir representação legal em território brasileiro? Muito fácil: Lei 12.966/2014 [Marco Civil da Internet], combinada com Código Civil (na parte de responsabilidade pela PJ) e Código de Defesa do Consumidor combinado com a LGPD (e as obrigações que surgem à PJ que guarda ou trata dados de nacionais), mais um punhado de regulamentações infralegais emitidas por várias agências reguladoras. É, de verdade, fácil justificar. Então, por que eu não faço isso?

Porque nada disso vai mudar o sentimento de ninguém. Quem já acha que a justiça brasileira tem que ser obedecida, já acha isso antes da justificativa técnica. Quem já acha que o STF é amigo do Lula e inimigo do povo brasileiro seguirá achando exatamente isso, não importando que eu apresente as flagrantes violações de soberania cometidas pelo bilionário que mija no Brasil mas dá a barriguinha pra Índia, China, Hungria, Turquia… Não importa que eu demonstre que não se pode enfrentar um golpe de Estado só quando ele já aconteceu (pois, será tarde demais para a Ordem Constitucional atual).

Não é, faz muito tempo, uma discussão técnico-jurídica. Ela é 100% política e, como tenho defendido, especialmente após ler a obra de Bryan Caplan, “O mito do eleitor racional” é o maior dos mitos aquele que diz que as pessoas se informam e, com base nisso, decidem o que (ou quem) apoiam. Se assim fosse, bastava todo mundo ler os mesmos jornais ou assistir aos mesmos programas, e todos iriam para um lado ou para o outro. Na verdade, todos já escolheram seus lados e, na esmagadora maioria de casos, de forma irracional, misturando sentimentos com visões pessoais de mundo que se baseiam tanto em experiencias muito particulares quanto em preconceitos e, por cima disso tudo, passaram um verniz que tenta sempre juntar o maior número de argumentos a favor daquilo que creem, mesmo que o número (e qualidade) de argumentos em contrário seja muito superior (ou melhor).

Existe parcela expressiva da população (de novo, quase 50%) que acredita que o Estado brasileiro é um problema em si, sua existência deve ser extirpada ou violentamente reduzida, e as liberdades individuais devem ser perto de totais, erga omnis (tô gostando do rebuscado: “oponíveis a todos”). Cada cachorro que lamba sua caceta, “solidariedade social” é “meuzovo”, todo governo não presta, eu não concordei com nada disso que está em vigor e querem que eu aceite na marra, então vamos para o “tudo ou nada”. Inclusive, valendo massacre (“vamu fuzilar a ptralhada aqui do Acre…”). “Ah, é só força de expressão, retórica, piada de mau gosto” … Sempre é. Até não ser mais e passar a ser outra coisa. O nazismo, contam os livros de História, não nasceu monstruoso.

Do outro lado dessa briga de torcidas, também tem um pessoal chato pra danar, que fica falando em “fascismo” sem conseguir explicar o que é o fascismo, “letramento [bote-aqui-o-que-quiser]”, “falas problemáticas” e um bando de outras “senhas” para demonstrar a própria iluminação para seus grupelhos, mas que não ajudam a pousar no chão da realidade uma ideia sequer de como resolver um país na antessala da guerra civil. É a turma da “reparação histórica” que não tem outra finalidade senão a vingança. Que acha que boa parte da sociedade brasileira precisa abaixar a cabeça e pedir perdão por um passado que é absolutamente grotesco e lamentável, sim, mas que não tem o condão de contratar culpa ou responsabilidade para as novas gerações, sob a perigosa hipótese de fraturarmos o amalgama social de uma nação em definitivo. Assim eu penso. Esse identitarismo é, para mim, parte da gênese da alopração que vivemos atualmente. Mas, não vai caber aqui mesmo sendo importante.

Aí, tem um mundaréu de gente no meio dessas duas grandes torcidas organizadas, sem certeza alguma de quem está certo e desconfiados de que a situação é muito mais complexa do que “fascistas vs. esquerdistas/comunistas” querem fazer crer que é. Não basta que um lado vença, não basta que o outro lado suma. Não parece haver volta para um momento em que todos pareciam apostar no contrato social em vigor. A cada ciclo eleitoral e a cada radicalização de parte expressiva da população, vai ficando mais evidente para esse grupo de pessoas que a política nacional e local é cada vez mais hostil e não há volta. No limite dessa radicalização o rompimento surge como único prêmio e, como eu já havia dito, a História conta que esses são cenários onde, dado o tamanho parecido dos grupos sociais em confronto, a violência ou a guerra civil são o resultado.

“P&%#a Rodrigo, cê falou em guerra civil? Exagero, não?”. Duas observações: por uma visão estereotipada do que é a sociedade brasileira, bem como um desejo das elites em ter margem de manobra e controle sobre os ânimos do povão, fomos ensinados que o cidadão brasileiro é um sujeito pacífico por natureza, contrário à violência e naturalmente tendente à paz. E é por isso que matamos quarenta mil (40.000) nas estradas anualmente (392.000 se somarmos a década de 2011), e outros quarenta mil (40.000) na violência-de-cada-dia-nos-dai-hoje em 2023. Porque somos pacíficos. O segundo ponto é que, de fato, tivemos inúmeras guerras civis na história do Brasil, mas nunca receberam este nome. Era um tal de “Revolta disso”, “Revolução daquilo”, “Levante de não sei quem”… Para ficar em três episódios dentre dezenas: Inconfidência mineira, Cabanada e Tenentismo… Só três… Mas tem MUITO mais episódios de todos os tamanhos e épocas. Até guerra civil por vacinação teve (qualquer coincidência com os dias atuais não é mera coincidência). Guerra civil é isso: uma parte da sociedade se organiza e se arma (com o que tiver para se armar) e ataca [e é atacada pelo] o “Estado oficial”.

Nós vamos, daqui por diante, sair da antessala da guerra civil e entrar num novo conflito de ruptura da sociedade brasileira? Sei lá, a bola de cristal tá com problema no platinado, não tá pegando nem no tranco. Deixo previsões para quem tem “letramento em cultura cartomântica”. O que posso dizer (olhando para trás e não para frente, sempre lembrando que a História não serve pra prever o futuro, mas pra aprender sobre a dinâmica de como esses movimentos se deram no passado) é que toda vez que parte expressiva de um povo chegou na conclusão de que um dado acordo social, geralmente plasmado em uma constituição, não era mais do interesse desse grupo, porém, tal grupo não tinha massa suficiente para reformar tal acordo social pelo caminho legal, a solução se deu na porrada. Às vezes, com a fundação de novas nações. Às vezes com a capitulação ou, até mesmo, o massacre de um dos lados.

Eu queria um mundo sem Alexandre de Moraes. Não pelo que ele faz ou deixa de fazer, porque eu até concordo que alguém tinha que fazer, já que defendo a continuação da Democracia brasileira, refundada em 1988. Porém, se o STF fosse uma instituição forte, em uma República de verdade, um Alexandre de Moraes não precisaria jamais existir. O fato de ele liderar as ações de combate àqueles que participaram da tentativa de golpe no 8 de janeiro, e de tudo que aconteceu antes – bem antes, já em 2019, quando do primeiro inquérito instaurado – é simplesmente uma questão de perfil. Certamente, ele é um dos mais combativos dentre os onze ministros e aquela instituição decidiu que ele colheria os bônus e os ônus dessa atuação como “homem de frente”. Também, afirmo que se a instituição STF não concordasse com as medidas que Moraes toma e tomou elas já teriam sido cassadas há tempos, e ele teria saído da condução dos inquéritos “por motivos pessoais, de saúde, de família, de o raio-que-o-parta”.

A ideia de um STF, órgão de cúpula (= “que tampa a pirâmide”) do judiciário brasileiro, descendo do degrau de instituição máxima do Estado-Juiz e passando a figurar no imaginário de parte expressiva do povo como só mais um ator político, como seria o caso do senador do partido X ou governador do partido Y, é de todo danosa à saúde e longevidade da instituição de uma Suprema Corte numa democracia. Que o STF desempenha um papel político (como a Presidência ou o Congresso), isso é óbvio e tem que ser assim já que ele é apenas uma repartição do poder do Estado brasileiro. Poder que é sempre uno. Que o STF desempenha papel na política nacional não é nada de novo. É para desempenhar, mesmo. O que não pode acontecer é isto ser entendido como atividade político-partidária. Porque os partidos, numa democracia saudável, se alternam no Poder. Mas o STF estará lá “para sempre” (enquanto durar a ordem constitucional de 1988).

Por outro lado, não há instituições, nem democracia, nem Estado democrático, se ninguém defender essas ideias e instituições das agressões que as miram. Todavia, “defender a democracia” de quem? Do seu próprio povo? E no caso hipotético de um povo que está sendo movido por motivações egoístas, antissociais, totalitárias e autoritárias, sendo manipulado em seu ódio por meio de grandes corporações que, com suas redes sociais configuradas para espalhar mentiras e meias-verdades, atingem a toda a massa em questão de segundos, sem chances de uma reação com a verificação dos fatos por parte de órgãos de imprensa livre ou instituições oficiais do Estado… Vamos salvar a democracia para quem? Quem somos “nós”? “Nós” quantos?

O Direito e sua teoria não têm respostas definitivas, porque a realidade é sempre móvel. No caso concreto que comento por aqui, ele tem ainda menos respostas porque a natureza do problema não é exatamente um conflito entre “legal” ou “ilegal” (= técnica), mas entre “legitimo” e “ilegítimo” ( = moral) e o Direito, enquanto área aplicada da sociologia, só pode existir numa sociedade que considera o Estado democrático de Direito como algo legitimo, para começo de conversa. O Direito (as leis, as lógicas, as regras, as obrigações[…]) que emana desse Estado democrático, pressupõe sua própria legitimidade a partir da concordância e anuência do povo (ao menos, concordância e anuência de ampla maioria) acerca da legitimidade, não das leis, mas do Estado democrático de Direito como um todo.

Se o Estado democrático de Direito é fundado a partir da assembleia constituinte e se o produto disso – a Constituição – não é mais considerado legítimo por parte expressiva da sociedade, não há, sinceramente, nada que o Direito – enquanto ciência – possa fazer a respeito. E se estou errado e a maior parte da população entende que a Constituição de 1988 ainda é legítima como acordo social entre todos nós, então, a atuação de Moraes encontra guarida constitucional nos mais variados prismas da análise, ainda que possamos discordar em certas inovações no rito de seu expediente. Todavia, o Direito Constitucional, excetuando-se o que tange ao julgamento de crimes, socorre-se do Direito Processual Civil, e do Direito Processual Civil decorre o princípio da liberdade das formas que estipula certa supremacia dos objetivos por sobre os meios. Ou seja: desde que os métodos atingiam os fins ao que se destinam, não há ilegalidade presumida (vale tudo? você já deveria saber que não).

No entanto, nada disso seria preciso se a instituição “República Democrática” fosse forte no Brasil. E Moraes não seria preciso porque o povo (ou sua esmagadora maioria) não admitiria qualquer tentativa de atrofia ao Estado brasileiro ou às suas instituições que dão vida à promessa constitucional de 1988 (fundando uma nação mais segura para todos os tipos de pessoas [não importa a cor, o gênero, a religião…], materialmente menos desigual, de uma sociedade mais fraterna, onde quem tem mais deve oferecer mais e quem tem menos deve receber mais ajuda porque, no fim, a sociedade brasileira quer a melhor oportunidade para todos – tudo isso está lá). E todos os limites e acordos de convivência costurados àquela época visando o nosso futuro como sociedade e nação seriam protegidos com unhas e dentes. E as instituições (não os atores) se defenderiam, e defenderiam às demais, cada qual com sua missão clara, vindo à vida todos os dias. As polícias investigariam os abusos via inquérito; os Ministérios Públicos e Procuradorias denunciaram os crimes, se manifestados nas investigações; os juízes, desembargadores e ministros julgariam as ações e condenariam quem conspirasse contra a Ordem Constitucional em vigor, fosse civil ou fosse militar, fosse rico ou fosse pobre, fosse de direita, de centro ou de esquerda. O STF e seus onze ministros assistiriam a tudo, apenas garantido que a missão da CF/1988 estava sendo cumprida e jamais violada, por ninguém (e “ninguém” quer dizer ninguém). No choque entre direitos constitucionais, o STF daria razão a quem tentou evitar o dano à Democracia, antes de qualquer outro caso.

Dizem que a diferença entre “sonho” e “delírio” é o tamanho da chance de transformá-los em realidade.

É… Complicado…

Educação não é algo que se termina… (ou “como vai minha jornada acadêmica?”).

Que belas costeletas, hein? Créditos pela foto: Yousuf Karsh.

Quando li pela primeira vez “Fundação”, de Isaac Asimov, eu não tinha a menor ideia de quem ele era. Estava no ensino médio, um amigo da época passou, colocou o livro na minha mão e disse “você vai gostar”. Não gostei. C’est la vie…

No fim, o estilo de escrita de Asimov não me encanta, embora seja impossível falar de ficção científica, especialmente aquela que envolve Inteligência Artificial, e não esbarrar na obra do homi. Quer ver só? Você talvez diga “nunca nem ouvi falar dele”, mas, se assistiu a filmes como “Eu, robô” com Will Smith, ou “O homem bicentenário” com Robin Willians, fique sabendo que você, de algum modo, foi tocado pelo trabalho de Asimov…

E o que isso tem a ver com o tema do post? Nada… Bem, só um pedaço… É de Asimov a frase “As pessoas pensam em educação como algo que elas podem terminar“. E essa frase sempre “falou comigo”. Eu nunca parei de aprender português. Aprendo todos os dias. Aliás, coisa de mês atrás, o Leo estava me (re)ensinando o adequado uso dos porquês. Valeu, Leo! Ano que vem te pergunto de novo, porque tudo indica que vou esquecer mais uma vez. Eu nunca parei de aprender inglês (e eu trabalho com ele todos os dias). Eu já estudei japonês por um ano. Francês, idem. E eu vou voltar a estudar todos eles e, se quiser ficar bom, pelo resto da vida. No judô, diz-se que o aprendizado da arte marcial começa, de verdade, na faixa preta e não antes dela.

Na Tecnologia da Informação, ramo que paga os boletos aqui em casa, não existe essa história de “eu já sei o que preciso”. Isso dura, no máximo, um ano – ano e meio, estourando – se sua empresa for do tipo que realmente cobra excelência técnica. E, no Direito, bem-vindo outra vez! É claro que as leis mudam o tempo todo. E o processo. E a jurisprudência. E…

Enfim, eu aceitei que gosto de áreas onde a mudança é uma constante. É óbvio que toda área tem inovações. Tenho certeza de que o ramo da panificação e confeitaria apresenta novidades e técnicas reimaginadas, todos os anos. Mas se você aprendeu a fazer um pão gostoso uma vez, você vai fazer pão gostoso “pra sempre”; você pode enjoar dele, mas isso é outro problema. Poderia fazer um pão melhor (ou pior), mas desde que repita a receita aprendida à risca, terá o mesmo resultado. Não é assim na T.I., não é assim no Direito, e é com isso que eu decidi lidar.

Mais do que isso, desde o dia “1” na faculdade de Direito, eu sabia que não ficaria satisfeito enquanto não pudesse construir “minha fileira de tijolos” na parede que forma o arcabouço desta ciência. E o melhor caminho para isso é se envolver com a Academia. Não aquela dos halteres. Esta, meu médico sempre me cobra de ir… Mas eu fujo dela com grande afinco e esmero… Não, estou falando da Academia de ciências (in casu, humanas). Acredito – sem grande humildade, confesso – que tenho algo a dizer e a contribuir com ela, e percorri o caminho da graduação aprendendo como aqueles que vieram antes (BEM antes) de mim pensavam e porquê pensavam.

Há um conceito de um filósofo inglês chamado Gilbert Chesterton que ficou conhecido como (rufem os tambores!) “cerca de Chesterton” (muito criativo, né?). O conceito exige que alguém só pode modificar (ou mesmo destruir) algo quando conseguir explicar para que serve aquilo que se quer reformar (ou destruir). E é nesse tipo de encruzilhada em que geralmente me afasto do dito “campo progressista”, porque eu realmente acho que esse conceito deveria ser ensinado às crianças desde a maternidade… O que tem de adulto com diploma na mão, falando em mudar leis, instituições, culturas […] sem sequer conseguir explicar para que servem ou por quê foram criadas… Porém, deixa eu falar do motivo de escrever por aqui, hoje:

No segundo semestre de 2023, eu tive a honra e privilégio de ser aceito como aluno especial da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, a SanFran (para os íntimos. Eu ainda não sou, então sigo chamando de FDUSP). Naquele semestre, estudei a disciplina de Sociologia da Constituição com dois pesquisadores absolutamente brilhantes. O primeiro deles, Professor Doutor José Eduardo Campos de Oliveira Faria. O segundo, Professor Doutor Lucas Fucci Amato. Professor Faria e Professor Amato são pessoas incríveis, com um conhecimento muito vasto, em áreas bastante complexas e são, ambos, capazes de conectar tantos pontos atuais com o passado constitucional brasileiro e a formação sociológica da nossa sociedade. Especialmente para mim, eles trazem algo que eu sentia tanta falta durante toda a graduação: a confrontação da elaboração legal com a história e a sociologia do povo brasileiro. No meu entender que, acredito, é o mesmo dos professores, os institutos jurídicos que explicam os “comos” e “porquês” da nossa Constituição acabam ficando muito assépticos, herméticos, intocados pela realidade nos manuais da disciplina constitucional atual. Ao escolher uma disciplina com essa praxis em mente, eu fui buscar exatamente o cotejo entre aquilo que lemos nos diplomas legais (e seus manuais) versus aquilo que acontece na vida real, no passado e no presente.

Foi um semestre muito feliz para mim, adorei cada encontro e cada seminário feito pelos colegas – eu apresentei, juntamente com o colega e mestrando, Francisco Borges Milanez, um seminário sobre Oliveira Vianna [se não faz ideia de quem ele é, e você é CLT, deveria ser mais grato].

As apresentações de conteúdo pelo Professor Faria e Professor Amato dispensam qualquer galanteio meu, pois todas foram momentos de profunda reflexão sobre os aspectos cíclicos e as ciladas repetidas que o povo brasileiro atravessou desde a decretação da Primeira República até os dias atuais. Há, evidentemente, progressos inegáveis que se solidificam aqui e ali, mas a composição da política e do arranjo social que levam aos n momentos constitucionais do Brasil raramente são inéditos em nossa História.

Convido a todos a conhecerem o programa de pós-graduação da USP na área de Direito e, querendo, no próximo dia 10 de julho, há novo edital para alunos especiais em 2024.2. O aluno especial tem o compromisso de assistir às aulas, contribuir com o debate e pesquisa da disciplina cursada e “é isso”. No regramento atual, pode-se atender às disciplinas de pós-graduação [como aluno especial] por duas vezes e nada mais. Não há nenhum título ou promessa para além do conteúdo valiosíssimo que se recebe por lá. O método de seleção para as poucas vagas (geralmente, 5 por disciplina) costuma ser a análise de um artigo científico ou outro trabalho escrito pelo(a) candidato(a). Para mais informações, acompanhe o edital a ser publicado no dia 10.

E, abaixo, publico o artigo que escrevi como requisito parcial para aproveitamento do meu semestre de 2023.2 por lá (porque prova é para os fracos… Professor de pós quer ler artigo! hehehe…). Espero que possa ser interessante para você, e que possa lhe provocar indagações e descobertas novas, tanto quanto aprendi e descobri ao escrever esse artigo.

Ah, sim: eu sei que este espaço está juntando poeira… É um pouco de propósito, um pouco de descaso. Eu não tenho tido ânimo a engajar em debates de internet, daquele tipo em que você tenta pesquisar n fontes de argumento para criar um raciocínio com começo, meio e fim, e o(a) sujeito(a) do outro lado se basta em dizer “não concordo”, sem apresentar nada – isso, quando há educação na conversa. Teve muito tema interessante desde o último post, mas eu só vi gritaria e torcida de futebol, de lado a lado, e nada disso me anima a escrever. Vou tentar melhorar a frequência aqui, mas, de verdade? Você já me conhece…

Ah, e quem se interessa no lado mais acadêmico do debate e quer engajar na leitura e debate sobre artigos científicos, estou no Academia.edu também, mas lá, meu perfil ainda “tá devagar”… Espero que, em algum tempo (pouco tempo), aquilo passe a ficar mais movimentado. Veremos…

Um problema aberto e a comunicação

Esse é um texto de opinião. Se você veio em busca de algo muito sólido, com pesquisas e fontes em suporte ao que falo a seguir, eu vou lhe desapontar. À essa altura, contudo, eu espero que você já não se desaponte com nenhuma das groselhas que surgem aqui, a cada seis ou dez meses. Queria escrever mais groselha, mas a endócrino proibiu tanto açúcar…

Quando eu criei o Sobre Tudo & Todos, eu imaginava que iria escrever por aqui com uma alta frequência. Foi ali no ocaso do Facebook como rede social mais utilizada no Brasil que eu decidi começar um blog. Mas, enquanto proposta, eu não poderia estar mais na contramão de tudo [parece rebeldia? Mas é só burrice.]. Mesmo o YouTube já dava alguns sinais de cansaço e tudo indicava que as pessoas queriam menos e menos conteúdo escrito e mais e mais conteúdo audiovisual – de preferência, curto. Aparentemente, para grande parte da raça humana é difícil focar em algo por mais do que um minuto. Uma pena.

Mas eu quase nunca aprendo as lições que a vida quer me ensinar. Eu ainda acredito que o texto tem algo mágico e só seu, algo que o vídeo não consegue fazer e que é, justamente, dar liberdade a quem escreve e a quem lê para imaginar frases e contextos da forma que melhor lhes aprouver. Há algumas regras nesse jogo, é claro, mas elas são bem flexíveis e a liberdade é tamanha.

A pergunta, então, passa a ser o que tem de bom nessa tal liberdade. Quando eu escrevo, você me imagina falando o que falo com arrogância no semblante ou com uma cara de louco quero dizer… neurodivergente?
Quando você lê, você consegue entender o que me corrói? Você entende que o que me faz escrever é uma sensação de mal-estar com algo ou alguém, ou… Comigo mesmo… Você consegue imaginar o que me motiva?
Escrever, para mim, surge de uma irritação. É um processo de urticária: algo irrita a pele e você tem que coçar. São milhares de anos de evolução biológica e a resposta ao estimulo é esta.

O que me irrita? Desde sempre, a deterioração social em marcha. Ela já foi mais brasileira do que de outros países mas, hoje, francamente, ela é mundial. Não, não é como se nós brasileiros tivéssemos partido de um sonho dourado e chegado no presente. Isso é tolice, posto que as provas e evidências dizem exatamente o contrário. É como dizer que videogames causam a violência no mundo e não explicar qual videogame jogavam aqueles que morreram e mataram na Segunda Grande Guerra Mundial, o mais violento dos conflitos armados em nossa breve História. Não, o passado não era melhor. Isso é uma armadilha na qual a mente humana cai com extrema facilidade.

O passado sempre parece melhor pelo simples fato de que nós já o vivemos. Aquele tempo e aquelas ocasiões estão todos resolvidos. Não importa se foram ruins, você sabe como a história terminou. Nosso cérebro já identificou os atores, as ações e os resultados. O passado é sempre seguro. O futuro é sempre incerto. Incertezas dão medo. E nós não gostamos de senti-lo.

Estou muito coach? Desculpe, eu não queria te ofender desse jeito. É que eu não sei bem o que fazer com essa liberdade. “Liberdade”… Isso se tornou uma obsessão bizarra, especialmente – mas não só – na política. Todos falam em “liberdade” de maneira compulsiva, quase em síncope. É um culto, um credo. Jamais explicam o que é essa “liberdade”, mas todos estão lutando por ela. “Liberdade”. “Corrupção”. “Igualdade”. “Inclusão”. O que isso realmente quer dizer? A resposta não pode ser outra que não um “depende”.

Está muito vago? Você já está pra desistir disso aqui? Eu não te culpo. A culpa é mesmo toda minha. A culpa é sempre de quem tenta dizer algo, mas falha em transmitir a mensagem. Pode falhar por não ter clareza sobre o que quer dizer. Pode falhar por ser muito conciso ou extremamente prolixo [eu, geralmente, estou no segundo time]. Falha porque erra o objeto ou confunde os meios com os fins.

Mas, esse é o paradoxo dos nossos tempos: somos uma espécie de animal que depende fortemente do social. Não temos as qualidades para viver completamente isolados. Talvez, mais gregários do que sociais, mas, ainda assim, comunicação é parte fundamental do que nos faz humanos. A comunicação leva à cultura, um dos últimos mitos fundantes e ainda de pé (mas cambaleando) da divisão entre homem e o resto da fauna.
E aquele sujeito vivendo na montanha, matando animais com a mão e comendo carne crua? Ainda que ele exista, ele não é um animal que prescinde do social. Sem amamentação, sem cuidados, […] sem uma sociedade que o levasse até os seus 14 ou 16 anos, quando se deu conta de si e do que queria fazer dali por diante, sua renuncia ao mundo social seria impossível. Há animais que realmente nascem e crescem sozinhos, desde o primeiro dia. Esse não é o ser humano.
“Onde mora o paradoxo?” você se pergunta. E eu te digo: somos uma espécie de animal social. A comunicação é vital para o sucesso desta espécie (não só do indivíduo. Da espécie). Porém, quando a comunicação falha e falha de novo e chega ao fundo do poço de falhas acumuladas, a forma mais baixa de comunicação que existe passa a ocorrer: a violência.

Somos animais sociais, fadados à comunicação como pressuposto ao sucesso da raça; e quando essa comunicação vai mal, por muito tempo, acabamos por apelar à violência. Violência que nos assusta e, assustados, nos comunicamos pior. O que gera mais violência. E a solução para quebrar o ciclo está naquilo que inicia o ciclo: a comunicação. Eis o paradoxo.

Todos os nossos atritos nascem, de uma forma ou de outra, da má comunicação. Agora, calma, calma, eu sei: você não gosta de filosofia de boteco, e “teorias sobre tudo” – que visam explicar o macro e o micro – parecem fadadas ao fracasso. Mas, em verdade, “fracasso” e “sucesso”, neste contexto, são apenas medidas binárias para dizer quantas vezes o modelo explica a realidade com precisão. E como eu não canso de repetir o dizer alheio, “todos os modelos estão errados, mas algum são úteis”.

Então, se (por exemplo) você não aguenta mais sua mulher (ou marido), melhorar a comunicação pode não ser a resposta para a melhora da relação. Mas é A RESPOSTA e ponto. Por que?
Porque se na origem vocês se comunicaram mal e a relação cresceu por sobre um cadafalso de frases pela metade e mal-entendidos, todas as premissas adotadas pelas partes dessa comunicação estão (e provavelmente são) invalidas. Quero dizer que significante e significado são de todo diferentes no vocabulário compartilhado pelos atores da sua relação.
Manga é manga, claro! Mas esse é o significante. Como você bem sabe, o significado é obviamente a fruta (exceto que para a outra parte o significado é obviamente o recorte da camisa).

E como melhorar a comunicação é A RESPOSTA? Bem, porque aumentando a clareza da comunicação, vocês dois descobrem que conseguem falar das mesmas coisas, usando os mesmos signos ( = significantes), sem jamais compartilhar dos mesmos valores (= significados). Se essa for a conclusão, o problema fica claro: uma relação fundada sobre premissas falsas não pode dar certo. É sobre o valor para as pessoas na relação, não é sobre o mérito da relação em si (poxa, mas a gente se ama tanto!), de seus motivos de partida (ela me ligou naquela tarde vazia!), tampouco dos seus objetivos de chegada (temos três lindos filhos juntos!). O maior problema é que toda comunicação, quando falha demais, por muito tempo, leva à violência. E “violência” é só o significante, aqui. O significado pode ser o famoso sopapo na cara, mas há TANTAS formas de violência: psicológica, moral, social. Até o soco na cara e o B.O. na delegacia, há todo um calvário de violências como ignorar e ser ignorado, as ofensas gratuitas, as palavras que desqualificam o outro como um ser humano intitulado a dignidade, simplesmente por ter nascido humano. Mesmo a indiferença contra alguém que diz nutrir algo de bom por você tem o condão de infligir dor.

“De novo atacando de coach, Rodrigo? Cacete, duas vezes no mesmo texto…”. Pois é. Porém, há um motivo mais importante quando a tentativa é a de falar de uma “teoria de tudo”. Eu disse, lá no começo, que o que me incomodava era a deterioração social e que eu arbitrariamente escolhi a escrita como forma de me expressar, mesmo sabendo que o momento é contrário a essa via.

Estou tentando, de maneira iterativa (observe: iterativo, sem n) demonstrar que a comunicação, quando melhora, esclarece exatamente a natureza das relações humanas. Não é o mesmo que dizer que quando a comunicação melhora, as relações humanas que já estão postas melhoram. Porque pode ser que elas não tenham como melhorar, já que as partes envolvidas nelas podem não partilhar de significados equivalentes para os significantes sendo utilizados. Se isso vai longe, por muito tempo, a violência (que é a forma mais baixa de comunicação) surge. No seu surgimento, o processo iterativo de se comunicar se converte num ciclo vicioso. Uma espiral destrutiva. Por medo, nos comunicamos pior. Da pior comunicação, gera-se violência. E a violência causa medo.

Eu tenho que fazer uma breve pausa para pedir perdão: se isso parecer a você como algo absolutamente novo e revolucionário saiba que eu estou, não intencionalmente, te enganando. É claro que inúmeros intelectuais, do passado e do presente, se debruçaram nesse tema. Cada qual com seu enfoque. Cada qual privilegiando aquilo que lhes chamava mais a atenção, ou que parecia mais promissor como resposta ao problema que apresentaram.

O que eu faço “de novo” é propor a reflexão pública e em termos simples, sobre como a resposta “a comunicação ruim leva à violência que gera mais comunicação ruim, em infinitos ciclos” se adequa ao problema “a deterioração social de nossos tempos”.
Se quiser um autor, dentre tantos, Niklas Luhmann, falecido em 1998, já estudava a sociedade pelas lentes da Teoria de Sistemas e abordava a comunicação como o objeto a ser explorado, para compreender o que os n sistemas sociais deixam de eco uns para os outros, mutuamente se alimentado e mutando por meio dessa troca. É mais (bem mais) complexo do que isso, mas meu ponto por aqui é sempre o mesmo: não precisa ser sempre mais complexo. Precisamos, pelo contrário, cada vez mais, melhorar a comunicação e isso significa, de algum modo, baixar certas barras, abrir mão de certos rigores, viabilizar que pessoas “a dez por hora” alcancem quem já está “a sessenta por hora”.

Isso é “inclusão”? E eu sei lá?! Não estou preocupado com o bingo da responsabilidade social; não me preocupo com a formação da minha reputação a partir da opinião de gente que mal conheço. Por que não dependo deles (ui, ui, ui)? Quanta petulância eu teria se assim pensasse! Não. É porque eu simplesmente não controlo como essas pessoas me veem, tampouco controlo seus significados aos significantes que uso. O que controlo é quantas vezes eu consigo explicar o mesmo significante, de diferentes formas, tentando garantir que a redundância de explicações afaste o risco de um mal-entendido.

Estou preocupado com a deterioração social [ou do contrato social vigente] e elegi a comunicação (ou melhor dizendo, a [falta de] qualidade dela) como a resposta para o problema. Então, se todos nos comunicarmos melhor, o mundo será uma grande “ciranda, cirandinha”? Mas é óbvio que não. Há significados irreconciliáveis. Há valores que não permitem a convivência. Exemplifico:

Se o que você chama de “criminoso” é o “neguinho no farol” que toma o seu celular, mas não chama assim o empresário que destrói um ecossistema e explora descaradamente uma mão de obra alienada de sua própria realidade, eu não posso concordar com você sobre quais criminosos devemos combater com mais ou menos prioridade.
Porque por de trás da sua definição (seu significado) para o significante “criminoso” mora sua resoluta certeza de que o “neguinho” é preguiçoso e moralmente corrompido, mas brilha nos seus olhos que em nome do sucesso de um CNPJ vale (quase, espero) tudo. Desse ponto em diante, nós dois não temos como prosseguir em um contrato social que nos obriga a partilhar dos mesmos deveres e direitos, porque sempre vamos discordar frontalmente quanto à execução de tal contrato.

Está ficando estranho? Muito separatista? Muito “esquerdista”? Não era bem a intenção, mas comunicação tem dessas coisas. Bem feita ou mal feita, ela ainda gera colaterais que, por definição, não são desejados, mas ocorrem assim mesmo. Eu disse, antes: se a gente realmente entender qual é o significado (e deixar de acreditar no valor de face do significante) no discurso de cada parte, vai ficar mais claro o que é mal-entendido, o que é valor moral, o que é reconciliável e o que não é. Daí em diante fica TÃO mais fácil desenhar um caminho que passe longe da violência (em todos os seus significados). E o caminho pode ser, inclusive, o fim da comunicação entre as partes. Veja: isso é totalmente diferente de “guerra”. Guerra ainda é a tentativa de, por meio da violência, forçar o outro lado a aceitar aquilo que o lado agressor está propondo e comunicando. Ainda é comunicação.

Como eu não me comunico com ninguém em Kuala Lumpur e vice-versa, os malaios não me fazem qualquer mal e eu tampouco faço a eles. Agora, é claro, essa tese tem seus limites impostos por um sistema maior que o de origem humana, que é o próprio planeta. Se um malaio, mesmo sem qualquer comunicação comigo, afeta o rio do qual eu tiro a água que bebo, passamos a ter um problema e surge uma comunicação mal feita (se estivesse com boa fé, ele deveria ter suspeitado que mexer na água de um rio importante de outro país geraria consequências, mas decidiu fazê-lo sem maiores comunicações com os interessados. Cometeu uma violência, e violência é comunicação, mesmo que seja a pior delas).

E aqui, fica interessante. Neste caso hipotético, ele teria abusado da liberdade que imaginava ter, ou ele “só” falhou em se comunicar com os interessados? “Ambos” parece bem razoável como resposta, mas eu forço a barra mais um pouco: não é que ele teria abusado da liberdade e isso causaria um problema comunicacional.
A liberdade absoluta que ele pensa ter, motivada ou equivocada, só existe num contexto em que ele não precise se relacionar com mais ninguém. Na realidade de um mundo partilhado e de infinitos sistemas interconectados e retroalimentados, toda a ação, mesmo que individual, gera uma consequência que, se não prévia e propriamente comunicada a todos os interessados (que podem nem saber que o são), leva a um problema de má comunicação (que, se não corrigida, leva à violência, que leva…).

Essa é uma outra forma -mais complexa forma, admito – de dizer “não, você não é livre para fazer o que quiser”. Esse tipo de liberdade incontida só é possível em sistemas fechados (como num videogame, por exemplo). No mundo real, praticamente todas as suas ações e comunicações geram efeitos nos n sistemas que lhe cercam, dos menores (como o almoço da família de domingo) aos maiores (como a eleição presidencial, de quatro em quatro anos).

Esse texto lhe parece muito “comunista”? O erro segue sendo meu. Sim, fingindo que essa dicotomia entre “esquerda” e “direita” é suficiente para explicar o pensamento político de alguém (dica: não é), eu me considero dotado de uma interpretação política mais ligada à esquerda, pelo simples fato de que eu não acho que o mundo e os contratos sociais estão bons do jeito que estão. Se eu tenho uma tendência à reforma, e especialmente ao tipo de reforma que busca tirar poder de grupos homogêneos e redistribuir esse poder para grupos mais fragmentados, ou mesmo de refundar instituições de Estado, logo, eu tendo ao pensamento comum à grande parte do que se chama de “esquerda”. Seja como for, ainda que eu não seja esquerda (posto que eu concordo quase sempre com os diagnósticos, mas raramente com as prescrições que a esquerda faz), “direita” eu certamente não sou. Eu não acho que tudo vai melhorar por si só, desde que todos obedeçam à Lei, pelo simples fato de que a Lei foi construída por sobre um enorme baldrame de más comunicações.

Por exemplo: é claro que a Lei brasileira beneficia quem tem mais dinheiro. Isso não é uma opinião, quero ser agressivamente claro quanto a isso. Isso é um fato. O desenho legal brasileiro permite que endinheirados escapem das punições com pouca ou nenhuma restrição às suas liberdades e direitos. É um universo paralelo onde ações não têm consequências ou se têm, elas são marginais, ínfimas. Ações sem consequências, em sistemas conectados e que se retroalimentam por meio da comunicação, por definição não podem existir. Exceto no universo paralelo criado para uma elite econômica, por meio da adequação do sistema legal que ocorreu por aqui.

Então, eu sou um defensor dos pobres e oprimidos? Meh… Que bobagem. Eu sei que sou oriundo da classe pobre, e sei que, correntemente, por n circunstâncias da vida, eu faço parte de uma decadente classe média que agoniza entre o chicote da classe alta e os dentes da classe mais pobre. Essa agonia não a torna uma classe de coitados, mas, certamente gera medo, e o medo… Bem, você já sabe. Agora, ter “consciência de classe”, como se diz por aí, não me faz vilanizar ricos e beatificar pobres. Na real, todo mundo sabe que tem filho da puta em todo tipo de estrato social. Não se enganem, senhoras e senhores do respeitável público: os canalhas vêm em todas as formas e cores, salgados e doces, brilhantes e opacos. E, acima de tudo, os canalhas também envelhecem. Tem canalha pai de família, tem canalha avô de família. Tem canalha solteiro e solteirão. E, claro, como não poderia deixar de ser, tem “canalha fêmea”, também. Canalha gay, canalha hetero… Infinitas possibilidades. Quero ser enfático para que a comunicação não se torne descolada do significado de cada significante utilizado.

Está ficando difícil fechar essa hemorragia em forma de texto. Por “fechar”, eu quero dizer “dar um sentido tal que as ideias compartilhadas ganhem coesão entre si e rumem para uma conclusão.”. E aí vem o paradoxo final da minha divagação de hoje: Na matemática, isso tudo seria um problema em aberto.

A resposta“, seja ela qual for, nunca será completa, porque o que motiva a busca por ela (ou seja, o problema) nunca está completo. O problema em aberto que nós todos, membros de n sociedades (da mesa de almoço na casa da sogra, passando pelo futebol de domingo com a moçada, indo até o bairro, a cidade, o estado e, ufa…, o país), precisamos encarar é o problema de que, sendo animais sociais, reféns com Estocolmo da comunicação como pré-requisito ao sucesso da espécie, estamos acreditando em uma porção mentiras que envenenaram a comunicação no que diz respeito a maioria dos significados.

Calma… Deixa eu me redimir antes de dar tchau: Eu não sei se são mentiras o que nos envenena. Eu não posso afirmar que são. Afirmar isso implicaria em eu ter que saber de cada vez que uma comunicação desse tipo foi feita e em que medida o(a) Emissor(a) conhecia ou não do risco de que os significados dos significantes que ele(a) empregou fossem diferentes nos Receptores (audiência) em que ele(a) mirou a mensagem. Ou seja: só é mentira se eu, comunicador, sei que o risco do que eu digo signifique algo diferente para você e, dolosamente, eu persigo que esse risco se realize. Se eu digo o que eu digo e você entende outra coisa, sem que eu realize esse risco, eu não estou mentido. Na pior hipótese, só me comunico mal.

Mentira ou mal-entendido, tanto faz: uma enorme parcela de nós, nas n sociedades [ = sistemas] em que somos parte, está com o significado errado para quase tudo o que se comunica por meio dos significantes que circulam.
Exemplos de conceitos equivocados, frutos da má comunicação: não dependemos de ninguém. Nosso sucesso (ou o de outros) é fruto único e irrevogável do nosso esforço e mais nada. Nossa liberdade permite qualquer coisa (de ouvir funk na praia, a pôr um crucifixo na vagina; passando por andar com um revolver na cintura, como se um xerife você fosse). Todos os valores são uma construção histórica e nada tem valor em si, logo, toda a moral é descartável.

Nós precisamos corrigir a nossa comunicação. Com a mulher, com o filho, com o patrão, com o vizinho. Com a polícia e com o bandido. Ao corrigir, não quer dizer que vamos todos cirandar. A promessa nunca foi essa. Mas nós vamos entender o que dá para salvar e o que não dá. E aí, se constrói o acordo possível.

O atual contrato social está fadado ao fracasso. Porque o significado que cada um lê nele não é partilhado pelos demais. E a comunicação já vem falhando há muito tempo. E quando ela falha por muito tempo…

O fim de um ciclo acadêmico, o início de outros…

Ontem, dia 28 de março de 2023, houve a cerimônia de colação de grau para os bacharéis formados em direito pelas FMU (SP). Eu optei por não participar da festa, mas, de todo modo, essa data oficializou o fim de um ciclo importante e também tenso: quando iniciei esta jornada, em janeiro de 2018, eu não fazia ideia do que estava por vir, nem sabia se eu aguentaria até o fim. Talvez, eu não desse conta de performar em uma empresa como a minha e estudar uma faculdade temida por muitos, especialmente pelo volume de leitura. No fim, eu sinceramente não tive grandes dificuldades, nem com um, nem com outro, nem tanto porque eu seja extraclasse, mas bem mais porque os comentários das pessoas a respeito da dificuldade do curso são relativamente exagerados. Idem quanto ao exame da Ordem – mas isso fica pra outro dia.

Na verdade, diante da cerimônia de colação, que confere o grau de bacharel ou bacharela, me resta pensar no caminho até aqui, concluir que só sei que nada sei, e seguir estudando. Queria, contudo, após um longo hiato sem publicar nada por estas bandas, compartilhar meu trabalho de conclusão apresentado no nono semestre (sim, as FMU reservam o décimo para… sei lá) e que, apesar dos pesares, foi um trabalho que fiquei muito contente em pesquisar e redigir.

Originalmente, minha expectativa era poder produzir uma monografia de 60 a 80 páginas sobre a relação entre o contemporâneo Estado brasileiro e “igreja cristã”, juntando todas as denominações não tradicionais/históricas e que seguem os preceitos de Jesus Cristo (por ser esta a maior religião em número de adeptos brasileiros).

Desde meu ingresso na faculdade, o interesse sempre foi no direito público, na teoria do Estado, e nas matérias de (direito) Constitucional e Eleitoral. Parece oportuno lembrar que o curso de direito é uma área aplicada da sociologia (como a informática está para a matemática, ou a medicina para biologia). Por esses motivos, e vendo os movimentos iniciados ainda ao fim da constituinte de 1988 – como narra maravilhosamente bem o Ricardo Mariano em “Neopentecostais: Sociologia do novo pentecostalismo no Brasil” – e acelerados nos mandatos de Dilma (sumarizados nas figuras de parlamentares como Marco Feliciano e Eduardo Cunha, para citar dois), eu sempre acreditei que a reorganização da política brasileira seria turbulenta e com perigos de radicalismo no horizonte por conta da própria hermenêutica (interpretação) que os agentes religiosos fazem da sua fé, do mundo, da sociedade e de tudo o que mantém esses outros aspectos interligados.

Mas, diz o ditado que “o homem planeja e Deus ri” (esse ditado, eu uso muito por aqui)… A minha alma mater mudou as regras para a elaboração do TC durante o meu tempo de curso, e de uma monografia (um tipo de trabalho mais robusto e mais longo), fomos para a produção de um artigo científico (normalmente limitado a duas dezenas de páginas de conteúdo). Isso inviabilizou dar o tipo de profundidade na discussão que eu tencionava.

Houve, então, um redesenho de tema: durante a elaboração do projeto de pesquisa, eu optei por apresentar razões – de maneira concisa – para o desencanto e o estremecimento das democracias liberais do ocidente e comentar, em breve passagem, os mecanismos que a CRFB/88 apresenta para tentar combater essa cisão entre cidadão e Constituição.

Não foi nada fácil. Eu mal pude adentrar nas várias obras de sociologia e ciência política que tive a satisfação de ler e, como eu argumento na introdução do TC, mesmo quando finalizado, o trabalho se mostrará incompleto, insuficiente diante do desafio abordado. Ainda assim, sua validade – arrogantemente alego – parece estar no fato de servir como um guia bibliográfico, com alguma revisão e crítica de obras que apresentam os desafios, os diagnósticos e – nas mais ousadas – algumas soluções.

A crise nas democracias liberais não é um assunto exatamente novo. Desde o início dos anos 2000, com especial recorte na crise financeira de 2008, as sociedades que adotaram democracias liberais parecem convulsionar com seu próprio sistema de governo de suas Repúblicas. E nunca parou: quando conclui o TC era impensável, para autores vigiando democracias ocidentais, que Israel estivesse a beira da transformação em uma teocracia (um governo de orientação religiosa), e que a aliança a governar o país fosse basicamente de extremistas da Direita fortemente ligada a radicais da religião. A ironia da história não cansa de se repetir – agora, na versão de fascistas israelenses (se tem dúvidas do fascismo, sugiro ler o que Itamar Ben-Gvir tem sugerido fazer com os árabes na região); logo eles que tanto sofreram com isso, não faz tanto tempo…

Bem, certamente, quando chegar a hora de pensar em um mestrado a teoria de Estado e os estudos voltados as problemáticas da Religião e Estado, bem como as teses da suposta e inexorável secularização deste último (que, agora vemos, não é tão inexorável assim), voltarão a ocupar minha atenção acadêmica. Por ora, só o que tenho a oferecer como forma de comemorar esse ciclo é compartilhar o PDF do meu trabalho de conclusão (que foi bem além das 20 páginas [com autorização do orientador, claro], mas bem aquém das 80 sonhadas) e torcer que ele possa ser interessante para você, no caso do assunto “A DEMOCRACIA BRASILEIRA, A CRISE DE REPRESENTATIVIDADE E OS MECANISMOS DE PARTICIPAÇÃO DIRETA E SEMIDIRETA” te interessar.

Grande abraço! (ah! porque eu sei que você pode vir a ter a curiosidade: não sou advogado. Advogado(a) é só quem está inscrito na OAB, e embora eu tenha passado no Exame XXXIV, no começo de 2022, eu ainda não decidi se quero pagar a Ordem todos os anos, sem uma real intenção de exercer a profissão. Quem sabe? 🙂 ).

O Brasil, o terrorismo e os espectros

Imagem: Ton Molina/AFP, disponível em O TEMPO.

Terrorismo

Em 2014, durante a Copa FIFA no Brasil, a minha empregadora deu camisas oficiais da seleção canarinho para todos os funcionários. Foi um belo gesto e um belo presente. Mas, se eu já fazia ressalvas à camisa da seleção desde os idos de 2018, o último 8 de janeiro de 2023 veio para sepultar qualquer chance de eu vestir essa camisa no futuro. Ela se tornou um símbolo de tudo o que mais desprezo: estupidez, covardia, golpismo, fascismo… Interrompo a lista, por contenção. Por isso, a camisa foi para a caixa de doações. Não que eu ache que os menos afortunados deveriam ser confundidos com quem veste essa camisa para praticar barbárie. É muita humilhação com gente já marginalizada. Mas entre a doação e o lixo, acho que ela ainda pode servir melhor no primeiro grupo.

No “mundo líquido” de Bauman, as palavras também têm perdido a substância e o sentido original, numa velocidade assustadora. Na política brasileira, então, esse esvaziamento de sentidos é notório e pré-data a era digital, ou seja: não foi ela que forçou o esvaziamento dos sentidos dentro da vida política.

Há muito, eu crítico a Esquerda brasileira pela falta de zelo com as palavras. Foram seus atores que esvaziaram o sentido de “fascismo” e “fascista”. Quando todos são, ninguém é. E os representantes desta Esquerda usaram e abusaram da “licença político-poética” de empregá-la. O resultado, tal qual a fabula de Pedrinho e o Lobo, foi que quando o termo realmente precisou ser empregado para alertar o povo do que estava por vir, ninguém mais se importava com o peso e o alarme nele contidos.

Outra palavra bem surrada é “terrorismo”. Desde 2001, pelo menos, o terrorismo está em todo lugar. Existia antes, mas virou vírgula depois das Torres Gêmeas novaiorquinas. Então, como eu já comentei sobre as 14 características do fascismo, passo a comentar sobre o sentido de “terrorismo”. É bom adiantar que as definições de “terrorismo” são bem diferentes no meio político e no meio jurídico. Começo pelo último.

A Constituição Federal de 1988, Lei maior no ordenamento jurídico brasileiro, e pacto social firmado entre todos os nacionais deste país no que tange à organização do Estado, utiliza “terrorismo” sem, no entanto, explicá-lo. Ele aparece no art. 4º, quando define como o Brasil se comportará nas relações internacionais (e, por lá, repudia o emprego do terrorismo, bem como do racismo) e, mais tarde, no art. 5º, famoso por ser rol maior dos direitos constitucionais fundamentais do cidadão brasileiro, que define o terrorismo como crime inafiançável, conforme inciso XLIII (43), onde se definem inafiançáveis, também, os crimes de tortura e tráfico de drogas. É a conhecida – por quem estudou Direito – trinca “TTT” de crimes. Isso tudo dito, nada explica a Constituição acerca do que é “terrorismo”. E não há crime sem lei anterior que o defina, como comanda a mesma CRFB, neste mesmo art. 5º, inciso XXXIX (39).

Se pesquisarmos o Código Penal, Decreto-Lei 2.848/1940, tampouco encontraremos definição do que vem a ser “terrorismo”. Isso porque a regulamentação do que é terrorismo ocorre em Lei esparsa (fora do Código Penal) e tivemos a edição da Lei Federal n° 13.260/2016.

É essa Lei, conhecida como “Lei antiterrorismo” (embora eu discorde do “anti”, já que ela não se dedica a criar meios de combate ao terrorismo), que define em seu artigo 2º o que é terrorismo para o Estado democrático de direito brasileiro, numa perspectiva legal (jurídica).

Art. 2º O terrorismo consiste na prática por um ou mais indivíduos dos atos previstos neste artigo, por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública.

§ 1º São atos de terrorismo:

I – usar ou ameaçar usar, transportar, guardar, portar ou trazer consigo explosivos, gases tóxicos, venenos, conteúdos biológicos, químicos, nucleares ou outros meios capazes de causar danos ou promover destruição em massa;

II – (VETADO);

III – (VETADO);

IV – sabotar o funcionamento ou apoderar-se, com violência, grave ameaça a pessoa ou servindo-se de mecanismos cibernéticos, do controle total ou parcial, ainda que de modo temporário, de meio de comunicação ou de transporte, de portos, aeroportos, estações ferroviárias ou rodoviárias, hospitais, casas de saúde, escolas, estádios esportivos, instalações públicas ou locais onde funcionem serviços públicos essenciais, instalações de geração ou transmissão de energia, instalações militares, instalações de exploração, refino e processamento de petróleo e gás e instituições bancárias e sua rede de atendimento;

V – atentar contra a vida ou a integridade física de pessoa:

Pena – reclusão, de doze a trinta anos, além das sanções correspondentes à ameaça ou à violência.

§ 2º O disposto neste artigo não se aplica à conduta individual ou coletiva de pessoas em manifestações políticas, movimentos sociais, sindicais, religiosos, de classe ou de categoria profissional, direcionados por propósitos sociais ou reivindicatórios, visando a contestar, criticar, protestar ou apoiar, com o objetivo de defender direitos, garantias e liberdades constitucionais, sem prejuízo da tipificação penal contida em lei.

O primeiro entendimento que alcanço, portanto, é de que a Lei antiterrorismo não se aplica aos golpistas do último dia 8. E aqui cabe alguma contextualização histórica: o diploma legal em comento foi promulgado pela ex-Presidente Dilma Rousseff. Seu passado pessoal em grupos paramilitares pró comunismo, bem como sua posterior filiação ao Partido dos Trabalhadores que é fortemente baseado em movimentos sociais históricos do Brasil (MST, CUT, APEOESP, etc.) levou a todo tipo de pressão no Congresso Nacional para que a Lei antiterrorismo alcançasse tão somente o conceito “internacional” de terrorismo (o terrorismo de grupos religiosos, de grupos supremacistas por etnia, etc.), excluindo qualquer alcance ao “terrorismo doméstico” (grupos de nacionais que decidem executar atos violentos contra o governo em exercício, por qualquer razão). Daí a redação do parágrafo segundo. É este mesmo § 2º que livrará os bolsonaristas envolvidos no 8 de janeiro de se verem acusados de terrorismo nos termos do art. 1º, inc. IV, da Lei supra.

Portanto, “terrorismo”, juridicamente falando, diante do arcabouço (conjunto) do ordenamento pátrio vigente, não é crime pelo qual os vândalos possam ser denunciados. E o Direito Penal é extremamente fóbico a qualquer inovação em entendimento que permita a elasticidade do alcance dos tipos penais. Em outras palavras: o Direito Penal não tolera entendimento que facilite o enquadramento de condutas do indivíduo em crimes legalmente previstos, mas que não citam claramente a conduta perpetrada. E com razão. Fosse o Direito Penal amigável a essa liberdade do Poder Acusatório, todos que incomodassem o Estado (ou o governante) acabariam facilmente atrás das grades. Pelo mesmo motivo, mesmo que o Congresso Nacional editasse nova Lei ainda hoje e o Presidente Lula a promulgasse, ainda assim os bolsonaristas não poderiam ser processados sob a figura da nova Lei. Porque a Lei penal só retroage em favor do réu, nunca contra (art. 5º, XL [40], CRFB).

E se você está esbravejando por concluir que os bandidos de domingo sairão livres, veja isto por outro ângulo: é uma excelente oportunidade para falar para seu parente/amigo bolsonarista sobre a importância dos Direitos Humanos, da legalidade, da obediência à Lei por parte das instituições e do Estado-Juiz, e porquê vale defender um Estado democrático de direito. Fosse uma ditadura, o(s) ditador(es) poderia(m) mudar todo esse entendimento sem maiores melindres e poderia(m) condenar todos os arruaceiros à pena de morte, mesmo que retroativamente.

Mas, e o “terrorismo” no sentido político? Este certamente é termo adequado para os bolsonaristas nas ruas.  Embora o mundo nunca tenha chegado a uma definição universal do que é “terrorismo” (porque é um crime de definição “cinzenta” – toda revolução é ilegal, exceto se der certo…), os Comitês das Nações Unidas que se debruçaram nesse tema, nos idos dos anos 2000, chegaram à seguinte definição do que é a conduta terrorista:

“quando o propósito da conduta, por sua natureza ou contexto, é intimidar uma população, ou obrigar um governo ou uma organização internacional a que faça ou se abstenha de fazer qualquer ato. Toda pessoa nessas circunstâncias comete um delito sob o alcance da referida Convenção, se essa pessoa, por qualquer meio, ilícita e intencionalmente, produz: (a) a morte ou lesões corporais graves a uma pessoa ou; (b) danos graves à propriedade pública ou privada, incluindo um lugar de uso público, uma instalação pública ou de governo, uma rede de transporte público, uma instalação de infraestrutura, ou ao meio ambiente ou; (c) danos aos bens, aos locais, às instalações ou às redes mencionadas no parágrafo 1 (b) desse artigo, quando resultarem ou possam resultar em perdas econômicas relevantes”.

Portanto, sim, não há dúvidas de que os movimentos bolsonaristas nas ruas são terroristas, dentro de uma definição política, bastante aceita e atual (ONU, anos 2000). Mas para que se possa falar em crime de terrorismo, este precisa existir na legislação nacional, anteriormente ao(s) ato(s), para que se possa processar, julgar e prender o(s) individuo(s) que praticou(am) tal ação. É óbvio: há diversos outros crimes para acusar a horda de tresloucados. Dano, lesão corporal (contra os agentes que foram espancados), ameaça, crimes contra o patrimônio cultural (Lei 9.605/1998), a própria figura do Golpe de Estado (art. 359-M do Código Penal) que foi criada em 2021, enfim… Muitas possibilidades, mas não a figura do crime de terrorismo. E, com ela, se vai a característica do crime inafiançável. Ainda terão ao favor de suas defesas, atenuantes do art. 65 do Código Penal, como aquela concedida ao crime cometido sob influência de multidão.

Neste breve resumo, quero alertar para fato que me parece claro: o Brasil, o Estado brasileiro, as instituições, a Lei, nenhum deles está pronto para lidar com o terrorismo bolsonarista. A Lei, como está, não os alcança em magnitude e não protege o Estado brasileiro e os cidadãos que o respeitam em suficiente. Fora da Lei, não há diferença entre bandidos e um Estado de exceção. Como não havia diferença entre os terroristas de Esquerda, planejando sequestros para forçar sua ideologia, ou os terroristas fardados, usando a máquina do Estado para perseguir e aniquilar quem os incomodava. Fora da legalidade e do prévio conhecimento das regras do jogo, vale tudo. E o vale-tudo não pode ter lugar na civilização e na cidadania.

Espectros

Os espectros, os fantasmas, o passado da história brasileira voltaram a aparecer com força inédita, desde a redemocratização. O que se assistiu no domingo passado e o que se ensaia para hoje, no início da noite, foi (e será) nada aquém do que uma tentativa de golpe de Estado. O que queriam os criminosos era que, diante da desordem instalada por eles, as tropas das forças armadas fossem às ruas, e sendo elas recheadas de simpatizantes pelos desordeiros, virassem-se contra Constituição de 1988, tomando o poder político das mãos dos que foram eleitos. Se ainda somos uma democracia é somente porque o cenário internacional não favorece um golpe e as famílias dos militares não querem perder o direito de ir pra Disney. Se não houvesse uma pressão internacional (especialmente dos EUA – ah, a ironia) em sentido contrário ao golpismo, já teríamos a voz do Brasil passando até no Twitter, à essa altura.

O problema é que a história sociopolítica do Brasil é feita de golpes de Estado. O caminho “natural” nunca existiu para a sociedade brasileira. Não. Aqui, política nova se faz com ruptura e solavanco. É verdade que em quase todo país do Ocidente, a história se repetiu do mesmo modo no início, mas o caso brasileiro é especialmente alarmante porque essa lógica jamais foi superada:

A queda da monarquia e o início da República se dá com um golpe dos militares contra o Imperador, em 1889.

O fim da primeira República (iniciada em 1889) e o início do Estado Novo se dá com um golpe de Getúlio, apoiado pelos militares que lhe eram simpáticos, em 1937. Acabou em 1945, também sob ameaça de um novo golpe de Estado e novamente por ação dos militares, agora, opostos a Getúlio.

Chega 1964 e a Democracia cessa outra vez, com os militares dando um golpe de Estado para impedir que o vice de Jânio Quadros, João Goulart, erigido a presidente pela renúncia do primeiro, pudesse levar a cabo seus planos político-econômicos, sob a alegação de que Goulart instalaria um regime comunista no Brasil. Detalhe: Goulart era tão comunista quanto eu ou você. Seu nacional desenvolvimentismo era de matriz Getulista (aliás, ambos eram do PTB, fundado por Getúlio justamente para “roubar” votos da classe trabalhadora, contra partidos abertamente comunistas).

Chegam os anos 1980, os donos da ditadura brasileira, general Geisel (penúltimo presidente do regime militar) e general Couto e Silva (o melhor “político fardado” que dispunham), percebem que vão sofrer uma revolução popular e, antes disso, desarmam a bomba-relógio “se adiantando” e devolvendo a República ao controle popular pelo voto (numa análise reducionista: democracia). Esse adiantamento foi letal para o equilíbrio porque, iniciado no meio dos anos 1970, permitiu que os militares programassem como “perderiam o poder”. E ainda ocupando o poder, obrigaram o outro lado (o nosso) a aceitar os termos postos à mesa. Perderam e não perderam. Influenciaram toda a redação da Constituição e garantiram para si uma Lei de anistia extremamente bondosa e protetora de seus interesses. Não foram julgados, não tiveram sua vasta corrupção investigada. Saíram vitoriosos e ainda poderosos. Vide os moldes atuais da previdência militar.

Chegamos à redemocratização em 1988 e nos dias de hoje. E como já foi dito muitas vezes, nos últimos dias, porque um deputado pôde homenagear um torturador (ele não homenageou um presidente do regime, mas o torturador dos porões; é bom que se entenda a diferença) durante seu voto no impeachment de Dilma e não sair de lá algemado, aqui estamos: discutindo se a democracia brasileira aguenta muito mais tempo sob esse tipo de ataque. Imagine se o parlamento alemão aceitasse que alguém homenageasse Hitler nos dias de hoje. Seria escandaloso.

O Brasil

“Nos deram espelhos e vimos um mundo doente.”

ou

“Ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação.”…

Talvez, haja obras mais atuais a sumarizar os tempos vividos. Mas eu já estou velho e essas são as músicas da minha geração. Citar Vandré seria pretensioso, já que ele veio bem antes. Buscar o presente seria engodo, já que eu não tenho escutado muito os novos artistas brasileiros.

A pesquisa Atlas-Intel, publicada no último dia 10, entrevistou a população e concluiu que 75.8% não concorda com os atos de vandalismo, enquanto 18.4% concordam. 18% é muita gente de acordo com a barbárie, mesmo que pareça pouco. Quando movemos o recorte para eleitores do Messias, vemos que 38.1% apoiam, enquanto 48.6% repudiam, o que é surpreendente e até positivo. Mas, quando mudamos para religião e olhamos para os que se declaram evangélicos, o problema dispara de novo: 31.2% concordam, contra 14.3% de católicos e 6.4% de outras religiões. Clique no link acima para conferir o tamanho do estrago na sociedade, após ao menos 4 anos de barbárie verbal e prática.

Seja como for, temos que olhar para o material humano disponível no Brasil. Não é possível atribuir tudo à figura do grande mito messiânico que essa horda decidiu seguir. É impossível lhe eximir da responsabilidade, igualmente. Palavras têm força, e na boca ou nos textos de pessoas pelas quais temos apreço, devagar ou rápido, passam a ecoar no nosso imaginário e formar – em parte ou no todo – a nossa opinião.

Não, um presidente que grita “vamu metralhar a petralhada” (sic) não está apenas fazendo um discurso. Não é mero simbolismo, figura de linguagem… Ele está, no médio ou longo prazo, autorizando a violência contra quem não concorda com ele(s). Ademais, praticamente tudo na vida humana é simbólico. O seu contrato de trabalho é simbólico, o casamento dos seus pais é simbólico, a escritura pública da sua casa própria é simbólica, e o contrato de aluguel também é.

A Lei. Especialmente a Lei. Essa é muito simbólica. É um símbolo de que nós todos, unidos pela língua, cultura, território e época, decidimos renunciar a boa parte da (senão a toda) capacidade física e coercitiva de obrigar o outro a fazer o que queremos, e depositamos esse poder em um terceiro ente, idealmente capaz de usar a força na hora certa e mediar a nossa coexistência de forma menos brutal, bestial, animalesca.

Quando um bolsonarista quebra os vidros do STF, ele não está ofendendo o ministro Alexandre de Moraes.

Quando um camisa-amarela fura o painel de Di Cavalcanti, ele não está machucando o Presidente Lula, muito menos a Di Cavalcanti que já está morto há 46 anos. Tampouco machucam os ex-Presidentes cujos quadros foram estilhaçados e jogados ao chão.

Quando um milico da reserva ou policial de folga, raivoso, irrompe contra o mobiliário do Congresso Nacional, em parte trazido da antiga capital nacional (o Rio), quebrando mesas e móveis centenários, ele não está fazendo Pacheco ou Lira chorarem.

Não é aos Presidentes dos Três Poderes que o Governador do DF, agora afastado, Ibaneis Rocha, deve desculpas. As desculpas são devidas aos 215.5 milhões de brasileiros e brasileiras que tiveram seu patrimônio depredado por capricho e loucura, de forma bestial e animalesca.

Ou defecar sobre a fotocopiadora virou sinal de patriotismo? Que as palavras andavam sem sentido, vá lá, mas isso já é demais.

Quando um bolsonarista joga o escudo da República para tomar chuva, não é o ministro do STF que ele está agredindo. É a mim. É a você. O ministro agora é um. Amanhã será outro. Aquele espaço onde o STF existe (e onde existem os demais Poderes), é sagrado no sentido de abrigar o nosso pacto, a nossa esperança de que possamos coexistir enquanto sociedade, no mesmo espaço e no mesmo tempo, dividindo alguns (jamais todos) valores comuns e tornando nosso país em um lugar melhor de se viver do que já foi ontem.

O ato foi, até aqui, em vão. Serviu, isto sim, para acelerar o desmonte dos acampamentos golpistas e reaglutinar instituições da República que andavam, há muito, separadas. Mas parar nesse entendimento é uma visão demasiadamente otimista, até pueril, eu diria. O bolsonarismo finalmente mostrou a que veio. Se não podem vencer nas ideias e no voto, vencerão de outro modo. Vale-tudo. Barbárie. Terrorismo. Esse é o bolsonarismo.

Espero que o espelho não lhe mostre de camisa da CBF. Se mostrar, fica o recado de quem espera que você saia dessa: você está doente e imerso num mundo igualmente doente. Não dá para respeitar a Constituição, o nosso acordo de coexistência, ou acreditar no futuro da nação e ser bolsonarista. Simplesmente não dá. É uma questão de lógica. E de civilização.

A entropia do Brasil

Meia-noite. Primeiro minuto do dia 30 de outubro de 2022. O último domingo de outubro, conforme comanda a Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, em seu artigo 77. Hoje, se faz História em meu país. Para o bem ou para o mal.

Falando em tempo, existia um mundo antes das 9h46 a.m. (horário de Brasília) do dia 11 de setembro de 2001 (uma terça-feira), e um outro mundo eclodiu, depois. Talvez, a depender do ano em que você nasceu, você sequer seja capaz de entender como aquele minuto mudou a história do Ocidente (poderíamos ficar apenas no aspecto político-econômico) e, por consequência, a história do mundo.

Eu já falei “bem” sobre entropia. Quer dizer, eu já expliquei por aqui o conceito da termodinâmica, porcamente. Para quem não tem tanta disposição, segue a versão de uma frase: entropia é a medida pela qual se avalia a desorganização de um sistema. Qualquer sistema. O exemplo do jarro com bolinhas coloridas; vermelhas, do fundo até a metade; azuis, da metade até perto da tampa: você chacoalha o jarro, as bolinhas se movimentam e passam a se misturar. Quanto mais você chacoalha, mais elas se misturam. O tamanho dessa “desorganização” em face do sistema originário é a entropia. Um ponto central da entropia em sistemas reais é que, não importa o quanto você “balance a jarra” (interfira no sistema), o sistema não voltará ao estado original em que todas as bolinhas estavam separadas “organizadamente”.

Porém, a entropia não deve ser confundida com “bagunça”, sob o risco de se supor que tudo é melhor “na origem”. Ora, não fosse a “entropia” do óvulo fecundado no ventre da senhora sua mãe, tudo ficaria exatamente como estava no início daquele novo sistema (você, o “pra sempre girino” [zigoto]).

Seja como for, o Brasil – como quase tudo que existe – pode ser lido como um sistema. Na realidade, um sistema de sistemas; quase infinitos sistemas. Sistemas geológicos, sistemas biológicos, ecossistemas, sistemas de povos, de cultura, de economia, de política… Enfim… Sistemas… E todos eles passam por entropia.

É difícil fazer previsões, mas soa razoável supor que hoje, às 21h (também de Brasília), já saberemos o resultado das eleições gerais de 2022. Isso porque são menos votos (na maior parte, só para Presidente; apenas doze estados terão segundo turno para governador), e também porque é razoável esperar que a Justiça Eleitoral tenha aprendido com as lições e motivos que tornaram o primeiro turno mais lento (biometria, transferência de dados, processos…). Quer dizer que, em mais ou menos vinte e uma horas, nós poderemos medir a nova entropia do Brasil, enquanto sistema sociopolítico.

As decisões que os eleitores consagrarão nas urnas, hoje, percutirão efeitos importantes no jarro de bolinhas que é o Brasil. Por outro lado, como sistema real que é, o jarro do Brasil não está com a tampa fechada. Algumas bolinhas caem, outras entram. O sistema funciona, ora sob regime hermético, ora sob forte influência dos ecos de outros sistemas. Isso bagunça um bocado com as leis da termodinâmica e, consequentemente, com o conceito de entropia. Então, vamos mudar. Vamos pros comunistas 😈!

Foi Marx (calma, respira… não é sobre o seu temido comunismo, hoje, eu prometo) quem concluiu, após analisar a frase original de Hegel, que a história se repete duas vezes: uma como tragédia, outra como farsa. “Tragédia e Farsa”, no contexto em que Marx escreve, estão ligadas aos gêneros de teatro grego.

A tragédia grega é, bem, … trágica. A característica desse teatro é, basicamente, que o protagonista já inicia sua jornada em meio a tensões e incertezas e acaba infeliz e cercado por tragédias. A peça de “Édipo Rei”, que (spoiler alert) atravessa o mundo para não acabar casado com a própria mãe, graças a uma maldição por ter cometido parricídio, e ainda assim com ela se casa, é um exemplo clássico (em todos os sentidos) desse gênero teatral.
Já a farsa, no teatro grego, é o humor em sua forma mais escarnecida. A farsa não tem real compromisso com filosofias, discussões e críticas sociais (bem mais caras ao humor “moderno”), de valores morais ou (a)temporais. O objetivo real de uma peça de farsa é a gargalhada. Aristófanes é um autor famoso do estilo, e sua peça Lisístrata (ou “A greve do sexo”) é igualmente conhecida no gênero.

Portanto, quando Marx diz que a história se repete (como afirmou Hegel), adicionando que uma vez como tragédia e outra como farsa, o que ele queria explicar é que da primeira vez, os fatos históricos “inéditos” de uma nação são intensos, reais, vividos à flor da pele. Na segunda vez em que esses fatos ocorrem, são caricaturas, arremedos, uma cópia, uma emulação do que se deu no passado. O Brasil está diante de uma farsa. Ou melhor, estamos diante da farsa da farsa da […], pelo menos se recortarmos o arco histórico desde a Proclamação da República, em 1891.

Getúlio Vargas foi o primeiro, desde o fim do império, a realizar um golpe de Estado, concluso em 10 de novembro de 1937. Numa sociedade brasileira que via, com a mesma ojeriza típica que vemos hoje, o comunismo crescendo na Europa pós primeira-guerra e sendo Getúlio um admirador do Fascismo italiano que eclodia com força, desde 1919 naquele lugar, foi fácil falar em “nacionalismo, anticomunismo, valores nacionais”. Sim, você já viu esse filme, recentemente.

Depois (bem depois), em 2 de dezembro de 1959 (uma quarta-feira), um avião da Panair (vixe… faz tempo…), com políticos a bordo foi sequestrado por brasileiros militares e terroristas que, admiradores cegos do populista Jânio Quadros (o “Vassourinha”), planejavam um golpe de Estado usando armas, explosivos, reféns de renome, aviões furtados da FAB […] para pavimentar o caminho para o grande líder. Em seu manifesto, os terroristas alertavam o povo brasileiro de que “o comunismo estava infiltrado em diversos segmentos da sociedade, incluindo o setor público. Havia corrupção das lideranças políticas, em especial no Executivo, além da omissão do Judiciário e do Legislativo” … Já viu essa ladainha? Pois é…

Jânio, eleito em 1960, renunciaria em 1961, com seu famoso discurso sobre as “forças ocultas”, e não esperava nada menos do que a recondução ao Poder (como confessou ao parente), após a renúncia, nos braços do Povo e dos Militares para encontrar-se com um novo Poder, agora ilimitado. Tanto que renunciou, não sem querer, no Dia do Soldado, 25 de agosto… Deu errado. E deu TÃO errado, que a crise iniciada por Jânio, na renúncia, fundou as bases para o Golpe de 1964.

Aliás, lembra aqueles militares que sequestraram o avião da Panair com os políticos brasileiros dentro? Sim, eles foram anistiados por Juscelino Kubitscheck no mesmo ano do terrorismo perpetrado. E quer saber se eles ajudaram no Golpe de 1964? COM CERTEZA… Hehe… Ah, História… Você ainda me mata (literalmente)…

Tem ouvido falar em anistia para Bolsonaro e sua quadrilha trupe, especialmente da boca de um vampirão que aprontou altas confusões com uma turminha do barulho em 2017 e 2018? Pois é…

Teve, ainda, o nosso eterno caçador de marajás. Ah sim… O bonitão, herói-antissistema. Que confiscou a conta-poupança de toda a gente e fez uma porção de brasileiros cometerem suicídio (sem brincadeira). Sim, o nosso primeiro presidente impedido, que andava demais pela casa da Dinda… “Pois é” outra vez…

Hoje, o Brasil, LAMENTAVELMENTE, não discutirá projetos, nem visões de política, governo ou sociedade. Hoje é sobre Civilização vs. Barbárie. Sim, não há qualquer exagero na afirmação. Viu Zambelli apontando uma quadrada na cara de um opositor político que não pediu perdão “por existir”? Como ele ousa afirmar que ela está errada? Viu o boletim de ocorrência onde ela narrou que “usaram um negro para agredi-la”? Isso é só uma pequena amostra de como se comportam os Camisas Negras tupiniquins de Bolsonaro. “ANAUÊ!” … Já ouviu ou leu essa palhaçada de “anauê” por aí? Pois é³…

Já se disse muito sobre o paradoxo da tolerância de Popper, e não vou esganiçar esse velho tecido que, a bem da verdade, nem foi muito desenvolvido por Karl. Ele propôs, mas não aprofundou.

O que você precisa saber para poder tomar a única decisão certa que restou é que diante da barbárie, suspendem-se pontos de vista mais ou menos alinhados, e preferências por modelos e pensamentos econômicos vão para segundo plano. É exatamente por isso que gente que não tem nada a perder ou a ganhar com Bolsonaro, gente como FHC (um senhor, rico, branco, velho, realizado), Pérsio Arida (economista responsável pelo plano Real e fortemente criticado pelo PT à época), Joaquim Barbosa (ex-Ministro do STF, ferrenho [mas justo] “juiz” da Ação Penal n°470 [o “Mensalão”]) estão todos apoiando o mesmo candidato. Eles e, claro, MUITOS outros… Pessoas como João Amoedo, como Simone Tebet, como Marina Silva… São tantas visões conflitantes no mundo da política, economia, sociedade… E, ainda assim, fechados em torno do nome de Luís Inácio Lula da Silva.

A razão desse apoio deles respeita a sabedoria da Navalha de Occam: Entre duas teorias que explicam igualmente os mesmos fatos, a mais simples tende a ser a correta. E quais são as teorias? Uma teoria é de que essa gente toda, com todo o currículo, vida pública, e história que tem, está do lado do “Ladrão de 9 dedos, comunista, da mamadeira de piroca e banheiro unissex, porque são satanistas, fechados com o islã [acrescente aqui a sua paranoia] e odiosos da família brasileira”. A outra teoria é “porque reconhecem que, com todos os defeitos, Lula é um ser humano e é um político bom, enquanto Bolsonaro não é nem um, nem outro”.

E esse é o ponto central: Eu divirjo de Lula no campo político-democrático. Falei sobre isso, ainda na quinta passada. Mas eu divirjo de Bolsonaro no campo do que é ser um ser humano. Eu divirjo com o “mito” (que apelido apropriado para alguém que mente o tempo todo) no andar de baixo da vida política, divirjo com ele no campo da civilização vs. barbárie. Não há doutrina política, no campo da democracia, que tolere “exterminar os adversários”, rir de gente sufocando na UTI, sentir um clima com menores que acabaram de entrar na puberdade… Eu vou parar por aqui, não porque faltam horrores para seguir, mas porque ele e seus fiéis seguidores têm pouca ou nenhuma vergonha de tais ocorridos.

No fim eu sempre soube, entristecido, de que “prego para convertidos”. Quer dizer, qual a chance de um bolsonarista alucinado ler este blog? Na real, eu atinjo um público tão, tão pequeno, que é difícil justificar racionalmente o porquê eu escrevo. A razão – que não é razão – acaba por ser sentimental. Esperança. Esperança de um cético. Esperança de que, sei lá… Aquele cara ou aquela mina, indecisos, morrendo de medo de Lula, seja por motivos fundados (corrupção, conchavos, ideologias), seja por motivos infundados (comunismo, mamadeira de piroca, banheiro unissex […]), acreditam que Bolsonaro é o mal menor… E podem cair aqui…

Eu estou aqui para garantir a você, como uma pessoa que nunca votou no PT antes de 2018, quando foi preciso ir contra Bolsonaro: Lula ainda é gente. Ainda é um político minimamente alinhado com o pensamento democrático (aquele sistema lá que garante que o seu vizinho mais forte não tenha paz, caso decida tirar sua vida pra ficar com sua propriedade e comer sua mulher, e zas e zas…). Lula ainda opera sob lógicas previsíveis de como um político atuará. Bolsonaro é o cachorro-louco. Comandou o Brasil como o moleque comanda a vendinha de limonada. Pode estar aberta, pode estar fechada, pode passar a vender cataventos com a mesma velocidade que pode sair do mercado. Isso NÃO É BOM para seu país. Essa governança desastrada, errática, imprevisível, personalista… Isso é PÉSSIMO para o Brasil. E eu nem falei do “efeito Bolsonaro” na sociedade. Estou falando só de razões e lógicas para não dar outros quatro anos para que ele termine de quebrar a banca. E ele vai. Prometo a você que ele vai.

No lado humano, existencial, Bolsonaro é o oposto do Cristianismo que a raça humana conheceu no século XX (e XXI). Talvez, no século XII, durante as Cruzadas, Bolsonaro fosse tratado apenas como “um homem de uma fé cristã um pouco aguerrida” … Estupra em nome de Deus, enfia a espada no bucho em nome de Deus, taca fogo na aldeia em nome de Deus… Mas, não chegaria a assombrar seus contemporâneos de idade média. Na releitura de um Deus de amor, que é feita na modernidade, no entanto, Bolsonaro não se encaixa como Cristão. Se ele é Cristão, o Satanismo é a salvação de todos nós (por ser o oposto da religião do grande líder, eu deduzo).

Repito: talvez você esteja fora de órbita tempo o bastante para não saber que sua adida, Carla Zambelli, reeleita para deputada federal por SP (por que, SP? 😢), sacou uma arma na região central de São Paulo, capital, e perseguiu um homem de visão política oposta à dela. Alegou, em boletim de ocorrência, mais tarde, que teriam “usado um negro” para agredi-la. Está vendo? Não é sobre política com essa gente. É sobre humanidade. E é sobre barbárie. E eles querem dar continuidade ao governo onde está tudo bem que pessoas saiam por aí apontando pistolas na cara de quem os irrita ou incomoda.

Ao votar 22, por medo de Lula, você, querendo ou não querendo, diz para eles, com o poder de anistia que seu voto carrega, que o terrorismo deles é bem-vindo na sociedade brasileira. Concordando comigo ou não, ao votar 22, você acredita que para chegar aonde você quer chegar, tudo bem empilhar alguns corpos no caminho, inclusive literalmente. “Se não tem outro jeito”, não é mesmo? Acontece que tem outro jeito. Eu estou afirmando que tem.

O mais triste é constatar, abestalhado, que eu conheço uma grande parte desses votos no 22 que não vêm do esgoto em forma de gente que Carla Zambelli é e ratificou ser, na tarde de hoje. Muitos, como eu disse, só tem medo e paúra do que Lula representa no imaginário de cada um deles. E estão achando que Bolsonaro é o mal menor. Análise equivocada, repito.

Quer dizer: como votar e reeleger “um ladrão condenado por corrupção”? Eu não vou contestar a tibieza desse ponto. Vou jogar com sua premissa. Lula é um ladrão. Ok. Do outro lado, temos um terrorista que (supostamente) planejou explodir batalhões do Exército, por não aceitar o salário. Também, um sádico (sem suposições) que riu de gente morrendo asfixiada. Também, um (suposto) “normalizador” de relações entre velhos de 70 anos e garotas de 14 (olha o tamanho da acrobacia que faço para não o chamar daquilo que ele [não eu] deu a entender que é). Também, um xenófobo que quer mandar em todos os brasileiros, mas tolera – eu não consigo imaginar que Bolsonaro goste de ninguém a não ser dele – só uma pequena parte deles. Ah, e também é o chefe de uma família muito unida e muito ouriçada que só comprou [ao longo do tempo] cinquenta e uma propriedades usando dinheiro vivo, no todo ou em parte… Ainda bem que ele não é corrupto, para além do monstro que é… Preciso continuar?

Vocês estão com medo de votar “no ladrão” e estão em paz de votar no proto-ditador fascista. Fascista, sim… Umberto Eco, pensador italiano contemporâneo, falecido em 2016 [portanto, não: ele não é um comunista contra Bolsonaro – mas seria contra, se vivo estivesse], listou catorze características comuns no fascismo em seu rápido e prático livro “Fascismo Eterno”. Compre aí, leitura curta e rápida. Bolsonaro atende à TODAS elas. Vamos ver se estou mentindo? Algumas dispensam explicação, mas vou dar, assim mesmo:

1 – Culto à tradição (Deus, pátria, família – ANAUÊ!).

2 – Rejeição ao modernismo (é um perigo DANADO que dois homens se casem [pra quem?]).

3 – Culto à ação pela ação (pensar antes de fazer é para os fracos).

4 – Discordância é traição (*cof* *cof*, Mandetta, *cof* *cof* , Bebbiano, *cof* Santos Cruz […] ).

5 – Medo das diferenças (“as minorias têm que ser curvar às maiorias! Taóquei?”).

6 – Apelo à frustração social (“eu vim pra mudar tudo isso aí” – mesmo fazendo parte “disso aí” há 26 anos…).

7 – Obsessão por um enredo (“estão querendo acabar com a sua família, táóquei?”).

8 – O inimigo é perigoso, mas, ao mesmo tempo, é fraco e desprezível (não temos medo do lixo do PT, mas se perdermos, foi roubado…).

9 – Pacifismo é o mesmo que abraçar o inimigo (“Vamos fuzilar a ptralhada!”).

10 – Desprezo pelos considerados fracos (“Eu tenho 5 filhos. Foram 4 homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”).

11 – Todos têm que ser criados para serem heróis (e, se você é um herói e o seu líder supremo pede seu sacrifício… Tá esperando o que?)

12 – Machismo e armas. (Preciso explicar?)

13 – Populismo seletivo (um recorte do estrato social representa “o nacional de verdade” [o branco, macho top, que curte sertanejo, evangélico]; o resto é inimigo).

14 – O Fascista não tem vocabulário (uma coisa é se comunicar de forma simples e clara. O que Bolsonaro faz é um culto à pobreza intelectual. Já notou que ele não consegue não falar em relacionamentos ou órgãos genitais ao dar exemplos?).

Olha aí… Um homem italiano, com o currículo de Umberto Eco, morto em 2016, quando nós não sabíamos que éramos felizes no Brasil, escreve sobre o Fascismo que viu em primeira mão na Itália, lista catorze comportamentos dos grupos fascistas… E Bolsonaro “gabarita a prova” (deve ser o primeiro 10 da vida dele).

Então é isso, meu caro leitor e minha cara leitora: Hoje, votamos contra a barbárie. Não tem nada a ver com concordar com Lula, para um enorme número de eleitores a votar 13, hoje. Eu me incluo nessa lista. Se Lula vencer, estou na oposição democrática a ele, já em 1 de janeiro (também num domingo). Mas, hoje é contra a repetição da História brasileira como farsa. Hoje é contra o fascismo que, didaticamente explanado em catorze elementos por Eco, é gabaritado pelo candidato à reeleição presidencial.

Mas, como não poderia deixar de ser, eu tenho uma mensagem que pode ser triste de aceitar, mas precisa ser aceita: É impossível reverter a entropia do Brasil. Não há jeito de nossa sociedade voltar a ser o que era. Não há jeito de não sabermos mais que há, no meio de nós, muitos que riem e se comprazem na ideologia fascista de um homem que acredita que há fracos e inimigos dentro do povo que ele quis governar. E a esses fracos e inimigos ele reserva atitudes como as de Carla Zambelli ou Bob Jeff (que ganhou esse ar de nome gringo como apelido da tropa porque… Porque o fascismo brazuca é assim: se tiver que prestar continência para a bandeira americana, sendo presidente do Brasil, que mal tem? Eles são o exemplo de força, tá tudo certo…).

Não, não há como reverter a entropia. Nunca mais seremos os mesmos. A nação nunca mais será a mesma. Se o pesadelo acabar e Bolsonaro perder, serão mais dois meses até a passagem da faixa. Dois meses de guerra intensa do sequestrador do avião que chamamos de Brasil, e que vai forçar tudo que pode para conseguir anistia para si, seus comparsas e sua família. Fora os alucinados reconduzidos ao Poder por mais quatro ou oito anos, graças a um povo que se choca, mas não reage, como disse o Vassourinha.

Em nome do Paradoxo de Popper, espero que o governo brasileiro seja como os EUA – olha que paradoxo – e cace os terroristas que sequestraram o nosso avião, até o fim (deles). Porque se o Brasil for o mesmo Brasil que sempre teima em perdoar (para ajudar o presidente atual: como a mulher espancada e traída, que sempre acha que o marido vagabundo e violento vai melhorar), que sempre teima em se chocar sem reagir, nós vamos – sem sombra de dúvidas – repetir a história, de novo, como farsa; senão já, daqui a quatro anos.


Muitas foram as fontes que me inspiraram a escrever este artigo. Deixo duas das mais importantes:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2022/10/nos-cem-anos-da-marcha-sobre-roma-vale-lembrar-por-que-o-fascismo-triunfou.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

https://premium.canalmeio.com.br/edicao/192437/