Ouro de tolo

Eu devia estar contente porque eu tenho um emprego
Sou o dito cidadão respeitável e ganho quatro mil cruzeiros por mês
Eu devia agradecer ao Senhor por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz porque consegui comprar um Corcel 73

Eu devia estar alegre e satisfeito por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome por dois anos aqui na Cidade Maravilhosa
Ah, eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa

Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso, abestalhado, que eu estou decepcionado
Porque foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto: E daí?
Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado

Eu devia estar feliz pelo Senhor ter me concedido o domingo
Pra ir com a família no Jardim Zoológico dar pipoca aos macacos
Ah, mas que sujeito chato sou eu, que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco

É você olhar no espelho, se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua cabeça animal
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social

Eu é que não me sento no trono de um apartamento
Com a boca escancarada, cheia de dentes
Esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador

Créditos: Raul Seixas

A morte trágica de Charlie Kirk é a subsunção do contrato social ocidental hodierno à realidade

Créditos da imagem: Phill Magakoe / AFP – Getty Images

Significado de tragédia
substantivo feminino
[Figurado] Acontecimento funesto, trágico, terrível; desgraça: enchentes são tragédias.

fonte: https://www.dicio.com.br/tragedia/

No último dia 10 de setembro de 2025, um atirador matou Charlie Kirk utilizando um fuzil (ou rifle, se preferir a terminologia em inglês) Mauser, calibre 30-06 (que equivale a um 7,62x63mm), com acionamento por ferrolho (bolt-action), e mira telescópica, configuração ideal para a caça de animais de porte médio (como alces e veados), como também viável ao tiro de comprometimento (ou “tiro de sniper”), embora não seja 0 tipo mais comum entre as forças policiais/militares mais conhecidas, que preferem os tradicionais calibres . 300~338 (magnum), ou o consagrado 7,62x51mm, provavelmente o mais utilizado por atiradores de elite. O assassinato se deu num evento na Universidade do Vale de Utah, em que Charlie fazia um evento aberto com o público daquela instituição, visando o debate e possível recrutamento de jovens para seu movimento político, materializado na organização “Turning Point USA” (TPUSA), fundada pela vítima.

O disparo ocorreu enquanto Charlie Kirk respondia à uma pergunta do público sobre armas de fogo nos EUA. A vítima, notória defensora do acesso irrestrito a armas de fogo, sob a argumentação de que a segunda emenda americana não pode ser contida tampouco extinta, acabou vitima de um evento trágico e muito comum na história recente dos EUA: os tiroteios. Quando têm múltiplas vitimas (4 ou mais) são nomeados como “mass shootings” (tiroteio em massa). No ano de 2024, por exemplo, foram mais de 500 registrados. Só para lembrar, um ano tem 365 dias (e 6h, se não for bissexto). Faça as contas. Desde 2020, ano de início de pandemia, os números de tiroteios em massa cresceram 1/3 nos EUA. Nestes mesmos Estados Unidos da América, há 120 armas para cada 100 residentes. É isso mesmo que você leu: há mais armas do que pessoas. Todas as informações são públicas e estão compiladas (em inglês) aqui. Se visitar a página, sugiro ver o menu “charts and maps” que sugere também a concentração das ocorrências no leste no sul dos EUA, bem como o (um pouco macabro) menu “last 72 hours” que registra as ocorrências dos últimos 3 dias. Há dois comentários finais a fazer sobre essa questão: o primeiro é que, ao menos em 2022, foi mais fácil ser morto por armas de fogo nos EUA, do que no Brasil (ainda que seja uma comparação imperfeita, admito). Segundo que ano após ano, o número de suicídios com armas de fogo é maior que o número de homicídios naquele país. Suicídios são questão de saúde pública e sociologia, não exatamente segurança pública ou violência urbana, mas é impressionante como a facilidade de acesso à arma de fogo coopera com essa “vitória” do suicídio sobre os homicídios por lá, ano após ano.

Depois, vem todo o mar de lama que o mundo se acostumou a assistir: da morte eclode a campanha política, eu diria até que em uma forma de necropolítica – não exatamente nos termos que Achille Mbebe propôs, mas… – em que os lados que disputam o poder fazem uso da tragédia para propulsionarem suas bandeiras, suas ideias, e atacar o outro lado. Acontece em todo o episódio, e é usado por todos os movimentos, seja pela situação, seja pela oposição. Neste episódio Trump lançou mão da tática, poucas semanas depois dos democratas fazerem o expediente com a morte da deputada estadual Melissa Hortman, em junho deste ano, e agora acontece com a morte de Charlie Kirk. Se o uso é justificado ou não, isto supera em muito meu argumento que foca no fato da espetacularização e exploração política do sofrimento de familiares e amigos.

No caso de Kirk, tudo fica mais delicado porque mesmo sua viúva fez questão de afirmar publicamente que os ideias políticos do marido assassinado seriam levados ainda mais adiante, como se ela tivesse certeza de que a morte foi obra do “outro lado” e precisasse dar um recado “ao front de batalha”. Seus aliados e seguidores rapidamente tentaram atribuir a morte como sendo “uma ação de um partidário ‘progressista'[“de Esquerda”]), mas a realidade e o avanço da investigação contra o atual acusado, Tyler Robinson, embaralharam bem a leitura de quais eram as intenções, a consciência política e até a saúde mental do atirador ao decidir levar a cabo o ato horrendo que perpetrou. Robinson é filho de um policial aposentado, criado num lar que fez questão de se declarar cristão aos jornais, com costumeiro acesso a armas, e era frequentador de fóruns de videogame de onde parece ter obtido inspiração para as frases que escreveu nos estojos da munição e que poderiam o ligar a qualquer lado (uma frase dizia “pegue isso, fascista”, enquanto outra dizia “se você está lendo isso, você é gay”… Não faz muito o estilo de nenhum dos lados). Mais tarde, sugeriu-se até que o atirador poderia estar ligado a grupos de extrema-direita, como um que se denomina groyper, tendo vies nacionalista, supremacista branco, e que seria liderado por Nick Fuentes, um ideólogo totalmente radicalizado.

Charlie Kirk, 31 anos, deixou duas crianças e a própria esposa. Esta frase por si só já explica porque é uma tragédia. Uma família foi despedaçada de forma irremediável. Não faço ideia do que é crescer órfão, mas garanto que não torna a vida de ninguém mais fácil. O argumento de que “Charlie Kirk incitava ódio e violência” só pode ser aceito como justificativa para “celebrar” (celebrar o que, exatamente? Que, agora, “o outro lado” está em estado de prontidão para a guerra? Ou que duas crianças vão crescer sem o pai? Ou que um homicídio brutal foi concretizado diante de centenas de pessoas com sucesso? Sobre qual desses fatos você quer comemorar, por curiosidade?) a desgraça, se você já tiver se entregado à violência como única saída. Neste caso, você, como eles, já concluiu que não há mais remédio para a grave e visível secessão social, seja lá nos EUA, seja aqui no Brasil (cada qual, é verdade, em um grau diferente da cisma).

O próximo (e único) passo lógico é se preparar para a guerra civil. Sim, porque, se chegamos no ponto em que a morte “do outro lado” genuinamente nos alegra, já não se pode mais falar em “nação”. “Sociedade” nem pensar. E ainda há o problema de consciência e de moral que é: o polo que se alinha “à Esquerda” ou se diz “progressista”, ou seja lá como você queira chamar, é movido por ideias básicas de que os direitos humanos devem ser aplicados a todos, mesmo para os piores indivíduos. Isto porque a não aplicação de tais direitos leva à brutalização de todos e, no fim, garantir os direitos humanos de todo ser humano é um bem que se faz ao coletivo e não só ao individuo. Por mais virulento que fosse o discurso de Charlie Kirk – e era – em que ponto ele deixou de merecer a vida? Existe resposta objetiva para isso? Em que ponto ele deixou de merecer “direitos humanos”? Não há maneira lógica de comemorar a morte de Charlie Kirk e ainda se supor “moralmente superior” ao “outro lado”. Se você comemorou a morte dele, você é como o “outro lado”, apenas com valores idealizados um pouco diferentes, mas também está dizendo quem deve morrer e quem deve viver, e quem é “de bem” e quem é “do mal”. Se você ainda acha que tem o que comemorar nessa tragédia, eu sugiro, como elemento pedagógico e revelador de quem você realmente é, que assista o vídeo da morte dele. Na era onde tudo é gravado, não faltam vídeos com o momento em que o disparo atinge seu pescoço. O resto é como os melhores filmes de horror pressupõem. Não sabe como procurar para fazer o experimento? Eu te ajudo: procure no reddit.com por “Charlie Kirk video” e depois pergunte-se, despido de retóricas e falácias (como “mas ele também […]”), o que é que você realmente está comemorando.

Eu claramente não ignoro a ironia em mais elevado grau na morte de um ideólogo trumpista, justo pelos meios e fenômenos que ele defendia ou justificava como “inevitáveis”. Aliás, é um raro caso de ironia, de fato. Na maioria das vezes, o que chamam de “ironia” é só sarcasmo, e não são a mesma coisa. Kirk foi porta-voz de Trump entre os jovens e escreveu livros justificando o trumpismo (o mais famoso sendo o “The MAGA doctrine: the only ideas that will win the future“). No livro, como em todo o seu repertório de falas públicas, ele ataca os “bilionários das costas [Leste e Oeste]”, “a BigPharma” (indústria farmacêutica), os “procuradores fora de controle” (agentes do judiciário que defendem os interesses do Estado e das instituições e, portanto, da República), “a educação superior liberal”, os “fascistas apreensores de armas” e, claro, a mídia. É um panfleto político-ideológico. Passa longe de ser uma tese bem desenvolvida e trabalhada em dialética, pesquisa e contrapontos, até porque ele sabia para qual público ele escrevia. Kirk sempre se gabou de ter desistido do ensino superior “e ainda conseguir debater em pé de igualdade com alunos e professores nas universidades”.

E você pode se sentir tentado a me perguntar “Rodrigo, você leu o livro?”. Jamais leria, não é preciso, e não vai somar absolutamente nada para mim. Então, a segunda pergunta poderia ser “e como você tem tanta certeza dessa natureza panfletária e de que não é um pesquisa séria?”. Bem, é uma pergunta justa. Um livro que tenta enquadrar “tudo que vai de errado para o cidadão comum nos EUA de 2020” e que tem tantos inimigos (reais ou imaginados) e fala “de tudo isso” em 256 páginas JAMAIS poderia ser sério. Não tem como explicar a complexidade da concentração de renda nas costas dos EUA, a relação daquela república com o lobby da indústria militar, as oligarquias nos meios de comunicação e todo o resto que ele cita no resumo da obra, em 256 páginas. Simplesmente não é possível. Qual o caminho, então? Simplificar o que não pode ser simplificado, usar emoções para responder a dilemas racionais e muito complexos e, bem… Fazer o que o trumpismo sempre fez com excelência: mentir, distorcer e desinformar. Outras evidências de que não se trata de um trabalho sério: a amostra do livro revela que a obra não tem um capítulo com bibliografia ou referências externas, e os capítulos não tem notas de rodapé, nem nenhum meio de validar o que diz o autor. A fonte de informação é tão somente a visão de mundo de quem escreveu a obra e só.

Ademais, públicas e notórias as afirmações de Charlie Kirk sobre a necessidade de conviver com tiroteios em massa em nome “das liberdades garantidas” pelo acesso praticamente pleno a armas. Também, defendeu a validade de que criminosos fossem executados de forma pública para que todos, inclusive crianças, assistissem e isto teria caráter “pedagógico”. Se ele tivesse frequentado a faculdade, que tanto desprezava, nas áreas de ciências políticas, direito, sociologia, ou mesmo em história, teria a chance de se deparar com a obra de Victor Hugo, de 1829, intitulada “O último dia de um condenado”, em que toda a ideia da serventia da execução pública é desmontada.

Todavia, ele nunca aprenderia porque olhando para suas ideias, mais de perto, Charlie Kirk era alguém muito agressivo no trato com a esfera pública e com a sociedade atual dos EUA; uma sociedade necessariamente multicultural, pela própria história daquele país. Suas opiniões eram francamente racistas, misóginas e em algum nível, supremacistas (no sentido de que há um tipo ideal de americano: o branco, cristão, hetero, adepto à posse de armas, superior hierárquico às mulheres[…]). E eu sei que se você, leitor, não se sente alinhado com o que se chama de “Esquerda” ou, no caso americano, “progressistas”, “liberais”, ou simplesmente “democratas”, o uso de palavras como “racista” e “misoginia” já disparam um alarme para o risco de “patrulha moral”. Infelizmente, o uso indiscriminado de palavras como “cis-normativo”, “misógino” ou o já desbotado “fascista”, levam qualquer novo emprego dessas palavras a pôr em xeque a credibilidade de quem escreve. Como separar a panfletagem do uso adequado? Conhecendo o que os termos significam, na origem e no passar do tempo. Eu certamente concordo que as pessoas que se identificam com a Esquerda normalizaram o uso de “fascista” como termo para qualquer um que não tenha as mesmas opiniões que elas têm sobre prioridades sociais, de governo, e visões de mundo. Basta ir contra essas opiniões e o rótulo já está lá, esperando por você.

Mas, a bem da verdade, isso é exatamente o que ocorre quando pessoas que se consideram de “Direita” chamam qualquer um no campo progressista de “comunistas”, sem jamais conseguir dar uma explicação concisa e certeira sobre o que seria o comunismo, ou quais as ideologias comunistas identificadas em quem é acusado de sê-lo. No fim, esses rótulos são simplificações do “outro lado” que ajudam o pessoal “do seu lado” a remover as nuances da existência e do pensamento adversário. É muito problemático considerar a hipótese de que há problemas reais na vida dos brancos de classe média nos EUA, e que são problemas sempre menosprezados pelos progressistas quando no poder. Mais fácil chamá-los de racistas, fascistas, burgueses […]… Você escolhe. Também é muito complicado admitir que a distribuição de renda no capitalismo é inaceitável, que os super-ricos vão destruir o planeta enquanto enchem os bolsos, e que a violência policial é maior contra comunidades negras. Muito mais fácil chamar isso de comunismo (mesmo não tendo NADA a ver com comunismo).

Charlie Kirk, enquanto pessoa pública, não é do tipo que fará falta ao debate político do nosso tempo. Estou certo disso. Suas convicções apenas expressavam o seu ódio pelo que não se conformava com o constructo do cidadão ideal que, sabe Allah como, Charlie concluiu por ser “a salvação da América”. “Salvação do que, salvação de quem?”, eu sempre me pergunto. A ideia de que sua morte enfraquece o trumpismo é, na melhor hipótese, inocentemente otimista. Para propagar a mensagem de que “o inferno são os outros”, os movimentos políticos (em todo o espectro) estão todos habilmente preparados com quadros bem servidos de mensageiros mais e menos hábeis. É verdade que Kirk tinha uma habilidade inata de interagir e engajar com os jovens, o que é crítico para políticos de Direita e populistas radicais deste espectro que, historicamente, não consegue performar neste demográfico, mas, haverá quem o suceda, cedo ou tarde.

O que me interessa na morte pública e trágica de Charlie Kirk é tão somente o termômetro da fervura da crise social americana (em inglês, há uma expressão que diz “we are cooked“, que seria traduzida para cá como “estamos fritos”). A morte dele denuncia um estado de espírito francamente conflagrado e reativo por todos os lados. Comemorar seu bárbaro assassinato, registrado por tantas câmeras, dá o tom do desprezo que sentimos de um lado ao outro. E é verdade que “o outro lado” nunca se importou muito com a morte de algumas figuras estridentes (ou simplesmente representativas) do campo progressista, mas essa característica, a característica de se importar com direitos humanos, de se importar com a proliferação e normalização da violência, da decadência da urbanidade, da capacidade de coexistência […] tudo isto eram traços clássicos dos que se definiam como “progressistas”. Se isto desapareceu, como o episódio parece deixar claro, é bastante seguro afirmar que o contrato social atual está prestes a ruir. A reação de escárnio ao fim de uma vida – que, à priori, não ameaçava outras naquele momento – é só uma pequena amostra disso.

Tente outra vez / O rufar dos tambores da guerra

Direitos de imagem: artrepresent.com/Kabul Knight/Abdul Azim Fakhri

Advinha, doutor, quem está de volta na praça! É… Tá bom… Não tem nem 1% do impacto que o original causava… Também, é só eu escrevendo de novo por estas bandas. Não dá pra depositar tanta expectativa assim, não é? 🤷‍♂️

Enfim, como eu havia compartilhado, em meu último post, eu cogitava sair de todas as redes sociais (e assim o fiz, exceção ao LinkedIn e ao YouTube), e também, de última hora, decidi manter o blog. Ele venceria em meados de junho, eu cheguei a deixar vencer, mas veio um e-mail, muito bem feito por sinal, do time da WordPress manipulando várias emoções, misturando com números, fatos e relembrando momentos do blog… Ah, o algoritmo… Sempre tão bem escrito para manter todos nós na linha…

Como disse Raul, em uma de suas mais belas canções (os clássicos merecem esse substantivo), “não pense que a cabeça aguenta se você parar”… Eu fechei tudo (o que podia), ganhei tempo, me sinto mais leve e não sinto nenhuma falta das redes. Mas, os problemas continuaram. Continuei inquieto, irritado, descontente, aflito. E percebi que “a cabeça realmente não aguenta se você para”. E, de verdade, eu não sai das redes para parar. Eu sai para não contribuir com aquele show de horrores de gangues políticas, mentiras e desinformação. Então, agora eu vivo no paraíso? Bem, não. Eu só parei de jogar aquele jogo. E, como eu também disse na ocasião, isso não me tornou melhor em qualquer sentido. Foi só uma farpa que arranquei da minha mão e que me incomodava.

Então é isso, o blog vai continuar, pelo menos por mais um ano. Eu não vou ser injusto com você, que ainda visita essa página cheia de pó, e prometer que agora a frequência de artigos vai subir. Eu já prometi isso antes. E deu errado. Prometer de novo seria insistir no erro. Mas, sim, sem promessas, a vontade é de escrever mais por aqui. Eu não vou tentar “recuperar o tempo perdido” dos últimos meses. Teve vários assuntos que quase fizeram eu voltar aqui, mas desisti na última hora.

Tente outra vez!


O rufar dos tambores da 3a guerra

Como disse um personagem icônico do cinema nacional:

Ciente, Carvalho… Já avisei que vai dar merda isso…

– Capitão Nascimento

Tem algo de grande – e ruim – acontecendo. Você tem o direito de zombar de mim. O Rodrigo de 10 anos atrás zombaria de mim. Mas o mal-estar do nosso tempo é sensível, se você parar o piloto automático que o mantém vivo e prestar atenção nos sinais.

A real pergunta passa a ser, então: como separar fatos, versões e paranoia? E a resposta, se é que existe uma, é um belo de um “veja bem…”. Aqui é o ponto em que o jornalismo (profissional ou amador [como eu tendo a praticar]) vira mais arte do que ciência, no já escasso território em que esta última tem para existir neste plano da experiência humana.

Eu não vou conseguir fazer o trabalho tão bem quanto eu gostaria. Resta aderir a máxima que aprendi com um dos meus mentores na Microsoft:

Melhor um final horrível do que um horror sem fim…

– Euclides Miguel (se a frase não é dele, foi ele quem me disse)

Portanto, eu não sei se vai destruir a experiência textual, a estilística, ou o que diabos de ruim isto vai fazer com esse post, mas aqui vamos nós.

Fatos & Versões

  • Fato: 11 de setembro de 2001: ataques terroristas aos EUA. Versão (ou “porquê considero relevante como indicador de um novo conflito global?“): para mim (e até onde sei, para muitos) este episódio encerra um ciclo histórico que levou alguns autores a concluir que a “História” estaria encerrada (em outras palavras, não haveriam mais revoluções sociais, econômicas ou culturais capazes de mudar o paradigma do final do século XX e início do XXI), com a constatável vitória das democracias liberais e do sistema capitalista por sobre todas as alternativas até então testadas, expectativa especialmente avalizada no perecimento do regime soviético no fim da década de 1980. O atentado às Torres Gêmeas marca o declínio do otimismo liberal (político e econômico – embora sejam conceitos distintos) e o início de uma era de vigilância do Estado contra todos, especialmente contra seus próprios cidadãos (algo diametralmente oposto à ideia de “Estado democrático liberal”). Leis de segurança nacional (como por exemplo, o Patriot Act) são criadas ou reforçadas (e.g.: FISA act), diminuindo garantias e liberdades individuais em nome da proteção nacional. O medo passa a ser a tônica das relações sociais e governamentais.
  • Fato: 2001–2003: invasões do Afeganistão (outubro de 2001) e do Iraque (março de 2003) pelas forças da OTAN, lideradas pelos EUA. Versão: Pela primeira vez em sua relativamente jovem história (a independência americana é de 1776, contemporânea a do Brasil, portanto, são dois países “jovens”) os EUA e seu povo sentem medo e descobrem que não são tão invulneráveis quanto largamente se imaginava, seja pela história em conflitos tradicionais, seja pela produção sempre ufanista de sua indústria cultural. O terrorismo, muito pior do que o enfrentamento com uma grande potência, permite que o medo se instale em todos os lugares (não só nas fronteiras, mas nas ruas, nos parques, nas escolas, no transporte público, nos hospitais, aeroportos […]), e todos são um inimigo em potencial. Bush “filho”, bem menos preparado para o cargo que o pai (que já não era grandes coisas), mas muito menos boçal do que a mídia democrata o fazia parecer, decide invadir e ocupar, primeiro o Afeganistão, sob a alegação de que seria a base dos terroristas do 11 de setembro. Depois, em 2003, invade o Iraque alegando que o ditador Saddam Hussein teria “armas de destruição em massa” (o que jamais se comprovou, parecendo muito mais um desígnio familiar de terminar o serviço que seu pai não entregou no começo dos anos 1990), sendo esses eventos os que inauguram duas décadas de ocupação e insurgências na região. A morte de Hussein, aliás, é tida como causa-raiz para boa parte das desestabilizações, caos, violência e surgimento de grupos terroristas (como o Estado Islâmico, tornado mundialmente famoso em 2013) na região do Oriente Médio e adjacências. Hussein seria o “Mal menor” que mantinha o resto “na linha”. A invasão do Iraque foi um desastre para o moral americano e para sua imagem de “Xerife do mundo” (adquirida no pós-2a guerra), custando mais de 2 TRILHÕES de dólares aos contribuintes, e ceifando a vida de mais de 4 mil soldados daquele país. A saída do Afeganistão, em 2021, também ajudou a despedaçar a imagem americana, com seus soldados produzindo cenas de fuga e abandono desesperado nos aeroportos. Dias depois, o grupo terrorista que foi um dos principais motivos públicos para a invasão, o Talebã, retomou o poder do país ocupado pelos EUA. O Talebã rapidamente instaurou uma teocracia ferrenha, perseguidora de mulheres bem como de “colaboradores dos invasores” (como se muitos deles pudessem não colaborar com os EUA naqueles 20 anos de ocupação…). Talvez, a impressão mais importante de todo este capítulo: a invasão do Afeganistão e do Iraque é a primeira ocorrência de um desrespeito total ao conselho de segurança da ONU, por parte dos EUA, e o começo do fim da credibilidade de organismos multilaterais (e, porque a ironia nunca tem fim, muitos deles, criados com total apoio e esforço da diplomacia americana [ONU, OMC, OMS…]). Depois disso, ficou fácil para os demais países desrespeitarem mecanismos multilaterais (“se os EUA podem, por que nós não poderíamos?”).
  • Fato: 7 de julho de 2005: atentados no sistema de transporte público de Londres. Versão: O atentado a Londres inicia uma linha de interpretação ainda corrente do terrorismo global por parte dos países desenvolvidos, reafirmando as razões do medo e irracionalidade dos povos ditos “do primeiro mundo” quanto à persistência do terrorismo internacional como meio e arma dos povos “do terceiro mundo”. O medo de estrangeiros, especialmente quando a feição árabe/muçulmana surgia (generalização claramente ineficaz para impedir novos ataques) passa a ser constante, e a xenofobia ganha novos contornos na Europa e nos EUA. O acirramento das tensões internas e o “esquentamento” de partidos nacionalistas e xenofóbicos, constatavelmente “nanicos” até ali – muito por conta de suas ligações com ideologias fascistas, até então odiadas por toda a Europa, levando em conta o que foi a 2a guerra – passa a ter força e apoio popular, e ideias que não poderiam ser defendidas na penumbra dos bares, passam a ser discutidas em rede nacional.
  • Fato: 2008: quebra do Lehman Brothers e colapso financeiro global. Versão: A bolha imobiliária americana corroeu a confiança nos mercados e impulsionou intervenção estatal maciça em todos os lugares. Essa intervenção teve resultados diversos: na Islândia, por exemplo, protegeu as pessoas e desapropriou os responsáveis pela bagunça (os banqueiros). Mas na maior parte do mundo não foi assim. Especialmente nos EUA, o esforço do governo foi, não na direção de salvar as pessoas, mas de salvar os banqueiros (que deram causa à bolha). Daqui em diante, o mundo ficará cada vez mais polarizado, com a pobreza voltando a ressurgir em diversos lugares onde havia sumido com o ciclo de prosperidade vivido até ali (aumento da produção mundial, aumento da demanda por commodities, e por aí vai [foi]). A visão da política também muda, com a oposição dos governos (sejam de esquerda ou de direita) passando a atacar os partidos no poder. Um sentimento “antissistema” começa a tomar corpo, na medida em que a pobreza e a raiva avançam na camada mais pobre, enquanto o Estado, via de regra, salva apenas os mais ricos.
  • Fato: 2009–2012: crise na zona do Euro, Grécia em recessão e sob forte pacote de austeridade fiscal imposto pelo bloco europeu. Portugal e Espanha passariam por dificuldades similares, nos anos seguintes. Versão: o estouro da bolha imobiliária dos EUA, no ano anterior, era só o começo de um maremoto que afetaria e muito a vida de vários países do bloco e seus povos. Talvez, o mais emblemático dos casos seja o da Grécia que arrastava um deficit público sempre crescente mas, em 2010, teve que pedir por um resgate emergencial de aproximados 110 bilhões de euros ao bloco europeu. O pedido de resgate veio sob a condição de que a Grécia congelasse salários e benefícios para todos e, sem dúvidas, tais medidas foram causa de muitos conflitos políticos, frustração e quebra de confiança dentro do país e entre o povo grego e os povos do norte no bloco. Os países do sul da Europa (Portugal, Espanha, Grécia, Itália…) passaram a registrar manifestações populares de insatisfação com a postura impositiva dos países do norte da UE. O desgaste e desprestígio por organizações multilaterais voltaria a crescer, especialmente pelo que era visto pelos nacionais dos países afetados como “intervenção internacional em sua soberania”. Em 2010, Portugal pediria cerca de 78 bilhões de euros em resgate emergencial para obter liquidez para seu sistema bancário, fortemente abalado pelo estouro da bolha de 2008. Em 2012 seria a vez da Espanha, com um pedido de 100 bilhões de euros. Todos os países passariam pela imposição de regras de austeridade impostas pelo bloco.
  • Fato: 2010–2012: Primavera Árabe, seguida pela guerra civil na Síria. Versão: a primavera árabe, iniciada na Tunísia e com marco no triste ato de Mohamed Boazizi ao atear fogo ao próprio corpo, parecia o sinal de que todos os povos da Terra estavam cansados de governos corruptos e interventores. À primeira vista, poder-se-ia dizer que o fim da primavera árabe seria um Oriente Médio que tenderia à modernização dos Estados, rumo a um liberalismo político e, mais tarde, econômico. Não foi o que aconteceu. Na prática, a primavera árabe gerou várias crises humanitárias (por conta de conflitos entre facções e/ou entre população e ditaduras) e realimentou o extremismo e tensões sectárias em toda a região. A população que tinha capacidade de fugir da região, o fez, com destino prioritário em países da Europa.
  • Fato: 2011-2016: Êxodo sírio para Grécia e Turquia, Alemanha recebe mais de 890 mil pedidos de asilo em 2015, e acordo UE-Turquia para bloquear a chegada de novos imigrantes e refugiados ao bloco. Versão: Com a guerra civil em andamento na Síria, guerra esta que foi uma guerra indireta (“por procuração” sendo o termo comumente utilizado [proxy war]) entre Rússia, Irã e Hezbollah (que apoiavam o ditador Bashar al-Assad) vs. EUA, Turquia, Arábia Saudita e Qatar (que apoiavam os vários grupos rebeldes), os mais de 20 milhões de sírios se viram no meio de um inferno em vida. Milhões começaram a fugir do país em colapso e, no ano de 2015, a Alemanha chegou a receber quase um milhão de pedidos de asilo de refugiados vindos principalmente pela Grécia e Turquia. No ano de 2016, a União Europeia firmou acordo com a Turquia para praticamente cessar o acesso de refugiados ao resto do bloco, no que foi considerando como mais um episódio de demonstração da hipocrisia dos europeus para com a questão humanitária da região do Oriente Médio; região frequentemente desestabilizada por parceiros estratégicos da própria União Europeia, quando não, diretamente desestabilizada pela ação dos membros do bloco (como, por exemplo, a participação de França e Reino Unidos nos conflitos daquela década).
  • Fato: 2013: vazamento de documentos por Edward Snowden. Versão: o vazamento da NSA confirmou e que muitos desconfiavam: o alcance global da vigilância de inteligência dos EUA contra aliados e inimigos. A paranoia do governo americano o fazia espionar do partido comunista chinês ao primeiro-ministro britânico. O isolamento dos EUA enquanto figura de autoridade no mundo cresce e acelera. As reações são diversas, mas uma delas é a escalada por capacidades de inteligência e contrainteligência avançadas. O mundo passa a se reamar (ainda aqui, com tecnologia e não com armas em si) e o isolamento de nações antes muito afinadas entre si, começa a ficar evidente.
  • Fato: 2014: anexação da Crimeia pela Rússia. Versão: Vladimir Putin não é um líder populista qualquer. O início do conflito armado no leste da Ucrânia dá só o indício da forma de ver o mundo e as relações internacionais que o ex-chefe da KGB tem para si. Putin, diversas vezes, comentou como a União Soviética foi um equívoco na trajetória da Rússia que deveria regressar a sua época de império (Czarismo). Muitas das vezes, esse discurso está velado. Em outras (e mais recentes) ocasiões, Putin não teve receio de dizer que “o povo da Ucrânia e da Rússia é um só” e que “a Ucrânia inteira pertence à Rússia”, numa clara explicação do que considera como território legitimo de seu país e dos demais.
  • Fato: 2015–2016: atentados na França deixam centenas de mortos e aumentam as hostilidades contra povos muçulmanos ou de aparência “árabe”, legitimando o avanço da vigilância estatal em toda a Europa. Versão: A França enfrentou, em janeiro de 2015, novembro de 2015 e julho de 2016, três graves atentados em seu solo, perpetrados por agentes da Al-Qaeda, de nacionais franceses e belgas com ascendência argelina e (supostamente) síria, treinados pelo Estado Islâmico (EI), e de um tunisiano radicalizado e que se dizia fiel ao EI. No primeiro, a revista satírica Charlie Hebdo, teve sua sede invadida e 12 pessoas foram mortas pelos terroristas da Al-Qaeda. No segundo, vários ataques a tiros e bombas, perpetrados por franceses e belgas de ascendência argelina e (supostamente) síria, treinados pelo EI, levaram à morte de mais de 130 pessoas com a maior mortalidade ocorrendo no teatro Bataclan. O governo de François Hollande foi fortemente abalado por esse ataque, mas acabou usando o episódio para endurecer suas medidas “contra o terror” dentro e fora da França, aumentando temporariamente a participação do país nas frentes de guerra na Síria e dificultando a entrada de estrangeiros de origem árabe. 70 anos depois da 2a guerra, Paris voltaria a ter um toque de recolher em vigor. Depois, em julho de 2016, o ataque com um caminhão, perpetrado por um tunisiano que declarou lealdade ao EI, no calçadão chamado “Promenade des Anglais”, atropelaria e mataria 86 pessoas. O atentado reacendeu fortemente os debates anti-imigração em toda a Europa, servindo de enorme vitrine aos partidos de extrema-direita no país e na região, e desde então as barrerias nunca deixaram de crescer em alcance e discriminação.
  • Fato: junho de 2016: referendo BrExit no Reino Unido. Versão: O BrExit marca o aumento da fragmentação política e econômica na Europa, mas também marca a ascensão do populismo de direita no mundo. Claro: já havia Putin, já havia Orbán, já havia Erdogan e os sinais já estavam por toda parte. Mas a vitória do BrExit não passa pelas mãos de Boris Johnson (primeiro-ministro escandaloso e midiático de 2019 em diante), tanto quanto passa pelas mãos de Nigel Farage, este sim, um elemento perturbador da política tradicional inglesa, muito afeito ao uso da mídia digital para targeting, empregador assíduo de outro mecanismo que iria ganhar as manchetes no mundo: as fake news. O BrExit marca a interferência de forças transnacionais nos processos políticos dos países desenvolvidos, e figuras como Steve Bannon, Aleksandr Dugin e Crabridge Analytica passam a ser mais famosos no noticiário e análise política dessas nações.
  • Fato: novembro de 2016: eleição de Donald Trump nos EUA. Versão: para coroar a franca ascensão de líderes populistas no globo, e a decadência de alianças multilaterais, nada melhor que a eleição de um “outsider“, não é mesmo? Donald J. Trump passaria quatro anos, de 2016 a 2020, testando todos os limites da combalida democracia americana, após o suspiro dos anos Obama. A confusão entre público e privado e a erosão de instituições fundamentais à ideia de República são marcas deste primeiro mandato.
  • Fato: 2018–2019: escalada da guerra comercial entre EUA e China. Versão: Trump passa a retirar os EUA de áreas como defesa de interesses além-mar e acordos militares com aliados, e começa uma campanha de “tornar os EUA grandes de novo” (MAGA – Make America Great Again), e tenta fazer isso, em boa medida, através da imposição de tarifas, tensionando cadeias globais de suprimentos. Obviamente, as tarifas são reciprocadas e isso aumenta o custo de vida e a inflação no mercado interno dos EUA. A vida para os americanos começa a ficar mais cara, num país que sempre teve pouco a oferecer a sua classe baixa e média (em alguma medida) senão pelo consumo de bens mais acessível do globo.
  • Fato: 2019–2020: protestos de Hong Kong e pandemia de Covid-19. Versão: bem, há um livro inteiro para explicar este arco histórico (“Germes, armas e aço” por Jared Diamond, escrito em 1997), mas é importante entender que o conflito de Hong Kong (por um grupo que tensionava a independência da região) justifica – em partes – a corrida armamentista chinesa, que já lida com o que chama de “problema separatista” em Taiwan (por não reconhecer, como Taiwan se afirma, que trata-se de uma nação soberana), e não poderia permitir que Hong Kong ingressasse na mesma tendência. A pandemia agrava tudo o que já estava em curso: as tensões sociais, a guerra de narrativas entre os polos políticos, a pressão social [manipulada ou legitima] sobre governos (ora porque fazem o lockdown, ora porque não fazem), sobre a ciência e a medicina (porque são culpadas pela origem do vírus, porque não desenvolvem a vacina rápido o bastante, ou porque não autorizam a “cura milagrosa” [cloroquina, ivermectina, e por aí vai]), o aumento das fake news, desemprego crescente, falências, fechamento de fronteiras e disputas por recursos (de máscaras à vacinas). O mundo, que já andava fragmentado, recebe uma dose cavalar de um poderoso catalisador deste processo de erosão.
  • Fato: agosto de 2021: retirada dos EUA do Afeganistão, retorno do Talibã e questionamento da credibilidade ocidental nas intervenções militares. Versão: já discutimos os efeitos da ocupação americana, iniciada em 2001, lá no começo desta lista. Mas a repetição, além de respeitar a ordem cronológica, reforça a hipótese de como os efeitos deletérios das ações no começo do século XXI, começam a ressurgir, 20 anos depois.
  • Fato: fevereiro de 2022: invasão russa na Ucrânia. Versão: sendo o maior conflito em solo europeu desde a 2a guerra e catalisador de nova corrida armamentista por todo o continente, este talvez seja um marco equivalente ao que foram os atentados às Torre Gêmeas. Isto porque se, em alguma medida, é “só a continuação” da anexação da Crimeia (2014), por outro lado mostra uma lógica imperialista e a voracidade com que Putin seguirá lidando com os “problemas” (reais ou imaginados) em sua região. Pela primeira vez fica claro que não há mecanismos de pressão suficientes para parar a Rússia. As sanções políticas não são suficientes. As sanções econômicas não são suficientes. Não há coesão nem multilateralismo vigente para que as medidas impostas pela “comunidade internacional” (que já não é mais tão internacional assim, mas se resume a Europa ocidental + EUA) realmente alcancem a elite russa e os membros do governo Putin.
  • Fato: outubro de 2023: Guerra entre Israel e Hamas e tensionamento das relações entre Irã e potências ocidentais. Versão: Num dos episódios mais traumáticos da região, o Hamas invadiu o território israelense em 7 de outubro de 2023, matando mais de mil pessoas, ferindo mais de 3 mil e sequestrando quase 250 delas, entre judeus e estrangeiros que visitavam o país. Em resposta, o governo Nethanyahu começou uma operação militar de invasão e ocupação da faixa de Gaza que, até o fim de agosto de 2025, matou mais de 60 mil palestinos, incluindo muitas crianças e mulheres da faixa. A situação de fome e de colapso das estruturas de saúde é tal que acaba levando vários países, liderados pela África do Sul, a acusarem formalmente Israel pelo cometimento de genocídio na região. O governo Nethanyahu testa novamente todos os limites das organizações multilaterais, mostrando o mais absoluto desrespeito a qualquer ação coordenada por órgãos como ONU e similares. Com o apoio do novo governo Trump, Nethanyahu se sente capaz de fazer o que quiser com a faixa de Gaza e a Cisjordânia. Manifestações internas contra o governo começam a ganhar força, mas logo são abafadas pelo conflito de mísseis e drones entre Israel e Irã. O conflito desmobiliza os manifestantes contra Nethanyahu, fortalecendo seu governo diante da necessidade de lidar com a ameaça existencial que o Irã representa ao Estado de Israel. O conflito ainda arrasta os EUA para mais uma intervenção na região, mesmo que a priori limite-se a forças militares no mar mediterrâneo e golfo do pérsico.
  • Fato: 2023–2024: disputas no oceano Indo-Pacífico, desdobramentos do programa AUKUS e aumento de patrulhas de EUA e aliados ao redor de Taiwan. Versão: no fim dos anos Biden, o governo democrata dos EUA ainda tentava mostrar um mundo organizado, multilateral, sim, mas sob a clara liderança americana e oposto “às forças desestabilizadoras de China e Rússia”. Várias das proibições, taxas e embargos promovidos por Trump em seu primeiro mandato foram mantidas, senão agravadas no governo Joe Biden. O posicionamento de democratas americanos em favor da soberania taiwanesa agravou muito as tensões na região, com demonstrações militares tanto da China, quanto dos aliados americanos. O governo da Austrália decidiu “comprar” a briga pela garantia do domínio militar das águas do pacífico que banham seu território e que são vitais para manter as linhas de suprimentos que mantém a Austrália abastecida. Nesse sentido surge o programa AUKUS (Australia, Reino Unido e EUA, na sigla em inglês) que tem dois principais objetivos: o fornecimento de submarinos nucleares pelos EUA à Austrália, para que esta imponha seus interesses militares na região, em direta ameaça aos interesses chineses nos mesmos mares. O segundo objetivo é o do desenvolvimento de capacidades de guerra em múltiplas disciplinas: Cyber-guerra, IA, mísseis hipersônicos e contramedidas a esse tipo de armamento… O AUKUS é um programa para criar um rival local à China, apoiado por nada menos que os EUA e sua indústria bélica.
  • Fato: janeiro de 2025: Donald J. Trump, presidente reeleito para o segundo e, teoricamente, último mandato a frente dos EUA, toma posse. Relatório “Global Risks” do Fórum Econômico Mundial identifica “conflito armado entre Estados” como o principal risco imediato para 2025. Versão: o conceituado relatório “Global Risks” elencou como principal risco para o mundo em 2025, não outra pandemia, nem algum desastre natural, e nem mesmo o “agravamento econômico da pobreza no mundo” foi capaz de desbancar o primeiro lugar. Não. O principal risco do relatório de 2025 foi o “conflito armado entre Estados (nações)”. Este não é um relatório feito para ser polêmico ou caçar cliques, mas uma análise com +900 especialistas em relações internacionais, economia, estratégia militar, diplomacia, meio ambiente e tantos outros setores e que deve nortear os países-membros do Fórum Econômico Mundial pelo próximo período. Para entender o quão grave é esta indicação, de todos os consultados para a elaboração do relatório, 25% (1/4) concluem que o risco de uma guerra entre nações é o maior perigo para o ano de 2025. Para se ter imagem do quadro geral, o segundo risco da lista, aquele sobre graves tragédias ambientais, foi apontado por apenas 14% dos especialistas como o maior risco para 2025.
  • Fato: 20 de junho de 2025: Vladimir Putin declara preocupação com potencial crescente de conflitos mundiais e alerta para risco de 3ª Guerra Mundial, mencionando Ucrânia e guerra entre Israel e Irã. Versão: na ocasião, Putin falou do risco para “todos os envolvidos” no conflito Israel-Irã (no caso, sobrariam EUA, do lado israelense, e a própria Rússia, do lado iraniano) de acabarem engolfados por uma conflagração ainda maior entre si. Foi neste episódio, também, que Putin disse que a “Ucrânia inteira pertencia à Rússia”. Aparentemente, suas intenções expansionistas não precisam nem mais de desculpas ou meias palavras.
  • Fato: 04 de setembro de 2025: o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, classifica Rússia e China como “ameaças crescentes” e defende maior investimento em defesa na Europa. Versão: desde a ascensão de Trump e da demonstração de sua agenda para a política externa durante seu primeiro termo, bem como a confirmação da postura norte-americana de não mais honrar acordos do passado sobre a proteção militar da Europa (na realidade, a proteção dos países alinhados aos EUA), a União Europeia iniciou uma corrida armamentista. O mais…. Como posso dizer… “estranho”…. disso tudo é ver que países como França e Reino Unido vem pedindo que a Alemanha (veja só) acelere o seu rearmamento, bem como aumente a produção de armas para exportação… É como… Se somente eu me lembrasse do que ocorreu na 2a guerra… É desconcertante… De toda forma, o tom do discurso é de que a guerra não é mais uma questão de “se” e sim de “quando” (“[…]This trend is not going to shift or reverse anytime soon. Russia is – and for the foreseeable future will remain – a destabilising and confrontational force in Europe and the world.” – “[…]Essa tendência não vai mudar ou reverter no futuro próximo. A Rússia é – e pelo futuro previsível se manterá – uma força desestabilizadora e confrontadora na Europa e no Mundo”). O discurso completo (mas em inglês) do secretário da OTAN pode ser lido aqui.

E a paranoia? Onde fica?

Bem, depois dessa retrospectiva desde os atentados de 2001, eu já acho que não sei separar paranoia do resto. Paranoia, afinal, é o sentimento ou sensação de que estamos sendo alvos de um processo de perseguição ou uma conspiração.

Ao analisar os fatos até aqui e tentar interpretá-los (como fiz a partir das “versões” que escrevi) à luz dos requisitos de um confronto armado global, é um tanto quanto difícil não ficar paranoico com a ideia de que a 3a guerra mundial é iminente.

A pressão sobre as classes sociais mais baixas (e também, mais numerosas, e mais prejudicadas), o rompimento dos mecanismos de regulação multilateral, o enfraquecimento da confiança em atores globais, a falta de qualquer capacidade de prever ou ao menos ter expectativas sobre o que esperar dos “players” globais, a ascensão de líderes populistas, com forte vocação autocrática, quando não, abertamente imperialista, e toda a corrida armamentista… Sabe…

Mas, eu vou entregar o que prometi: vou compartilhar três ou quatro das minhas paranoias no presente tópico:

Paranoia 1: Trump disse que não colocaria os EUA em novas guerras e que removeria o país de todas as outras não iniciadas por ele, promessa de campanha da qual muitos de seus eleitores o cobram. No entanto, está, neste exato momento, com uma “pequena” frota naval “parada em frente” à nossa vizinha, Venezuela. A “justificativa”, diz ele, é combater o narcoterrorismo do “Cartel de Tren de Aragua”, como também o desmantelamento de um tal “Cartel dos Sóis”, organização que teria até mesmo o ditador Nicolas Maduro entre seus líderes. Mas, acontece que quase todos os analistas militares consideram o tamanho da força militar empregada completamente desproporcional à missão alegada. Até o momento em que publico este post, os EUA têm 3 destroyers (chamamos de “contratorpedeiros” por aqui), 1 cruzador de mísseis, 3 navios anfíbios, sendo um de assalto (“rápido”) , destinados a incursão de tropas, a 22a unidade de fuzileiros navais (cerca de 2 mil homens para incursão por terra), um submarino com mísseis tomahawk, 2 aviões espiões e de vigilância do espaço aéreo e mais 10 caças F-35 de última geração, que estão “por perto”, em Porto Rico (“do outro lado” do mar do Caribe, com uma distância de engajamento extremamente fácil de se cobrir para esse tipo de aeronave). Qual é o “endgame” de Trump? Será que ao menos ele sabe? Pior do que um presidente ruim é um presidente instável. Com o primeiro, você pode prever como a banda vai tocar. Com o segundo, as coisas mudam de uma hora para outra.

Paranoia 2: Várias fontes confiáveis (só um exemplo) têm citado documentos vazados em que a ministra da saúde da França, Catherine Vautrin, oficiou toda a rede pública de hospitais do país para se preparem para receber e tratar de 10 a 50 mil soldados que seriam vitimas de “um confronto militar de larga escala”, com data estimada até março de 2026. Procurado, o governo Macron não negou a carta, mas disse que se tratava apenas de um “exercício de preparação para cenários possíveis”. Enquanto é bom saber que um governo tem gente pensando em todos os cenários, as estimativas de feridos, tempo de internação e data limite para que o conflito ecloda são… alarmantes, ao menos para mim.

Paranoia 3: O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), integrante do governo “Lula 3” (atual governo do Brasil) pediu abertamente que o país considere o desenvolvimento de arsenal nuclear como meio de proteção da soberania nacional bem como para dissuasão de atores externos. Muito embora eu possa ver Dr. Enéas Carneiro sorrindo de onde quer que esteja, eu tenho tantas questões sobre essa temática, que eu precisaria de outro post inteiro só para falar de “Brasil & nukes“. Pra começar, num país onde quartéis são assaltados por criminosos e/ou furtados pelos próprios militares, vamos querer ter ogivas nucleares guardadas neles? Segundo, fazer uma arma nuclear é só metade da brincadeira. A outra metade é ter meios de “entregar o pacote” no colo de quem você está de mal, e nesse sentido, o Brasil é o mais pleno atraso em forma de programa de mísseis e foguetes. A FAB e os projetos espaciais envolvendo a Barreira do Inferno eram um meio de adquirir essas competências, mas o tempo passou, o Brasil sempre tem menos dinheiro para investir, e não se desenvolvem essas competências da noite para o dia. Falar das sanções internacionais e repercussão na trativa de outros países com o Brasil (que perderia o status diplomático que hoje detém) já me cansa, só de pensar. Eu não estou vetando a discussão (Allah sabe como meu coração belicoso pensa), só estou dizendo que não é simplesmente “vamos, então, fazer o PAC da bomba atômica”, corta a faixa do prédio e “kumbaya, meu Deus/bumba-meu-boi”…

Sabe… A diferença entre uma panela de pressão e uma granada de mão é só uma: a panela de pressão tem uma válvula para não ultrapassar certos limites operacionais. Retire a válvula da primeira e você não vai notar muita diferença com a segunda, não… O mundo, mesmo nos felizes anos 1990 e começo dos 2000, sempre foi uma panela de pressão. A prosperidade aumentou, o mundo parecia mais conectado, mais integrado, mais isso e mais aquilo. Eu volto a recuperar o argumento daqueles que achavam que “a História havia terminado” (já que nada mais iria mudar), e eu até compreendo como eles puderam ser tão cegos. Era um sentimento de puro triunfo da civilização contra a barbárie. Da meritocracia contra a mediocridade. Da cidadania contra o autoritarismo. Da economia dinâmica contra a planificação dos mercados. “Foguete não dá ré!”. Só não contavam que, como a SpaceX, o mundo também aprenderia a voltar “dis costas“.

São os anos 20 terminando e os 30 começando. E eu não vejo profundas diferenças nos fatos macro dessas décadas na comparação entre o “agora” e o século passado, a não ser pelo fato das belas telas planas que nos conectam, neste momento.

Hegel disse que os povos não têm nada a aprender com a História porque os tempos, as condições e, basicamente, tudo é diferente no “agora” e no passado. Um famoso historiador brasileiro contemporâneo disse que acha graça no fato de que pessoas procuram historiadores para perguntar o que vai acontecer no futuro, uma vez que um historiador é um “especialista em passado”. Seja como for, se a História não se repete e se ela não tem nada a ensinar para os vivos de 2020, ao menos fiquemos atentos a um aspecto que parece evidente: os ecos da música e os movimentos coreografados e em ensaio parecem os mesmos daqueles que soaram alto e foram encenados na última vez em que o rufar dos tambores da guerra foram ouvidos por todos os cantos do mundo.

Pensando em dar “tchau” (talvez, só para as redes sociais. Talvez, não…)

Sempre fui contra “pregar para convertidos”. Tirando o maneirismo do aforismo, eu acredito que passamos tempo demais “falando” com telas e algoritmos. E isso está ferrando (ainda é horário nobre) com todos nós.

Aliás, você aí! Sabe explicar o que é o tal “algoritmo” que tanta gente fala? Veja bem: Não é “algarismo”, hein?… “Algarismo” são os números, arábicos (1, 2, 3) romanos (I, II, III) e zaz… Te perguntei de “algoritmo“.

Algoritmo é termo da matemática, e você encontrará referências para ele já na Pérsia Antiga, nove séculos depois de Cristo. O nome mais comum que surge é do matemático Mohamed Ben Musa. Depois, o termo ressurge nos primórdios dos computadores mecânicos, com gente como Ada Lovelace (séc. XIX) utilizando-o e, mais tarde, Alan Turing, “o pai da ‘moderna computação'” (que, aos olhos do progresso atual, de “moderna” não tem mais nada). Rigorosamente, “algoritmo” quer dizer “conjunto de operações matemáticas finitas, desenhadas a fim de resolver um dado problema, eficientemente”. Ou seja: é uma “receita de bolo” para lidar com algum desafio conhecido e bem mapeado (ao menos razoavelmente), da forma mais inteligente quanto o possível.

Há diversos tipos de algoritmo e várias notações/representações, e eu não vou percorrer esse caminho com você, hoje, mas vamos a exemplos, pois eles sempre ajudam:

Queria dar os créditos, mas a página que traduziu o fluxograma (nome de um tipo de diagrama que pode representar um algoritmo) sequer está no ar. Obrigado Helldane. Esteja onde estiver…

Pois bem, nosso fluxograma, acima, representa o algoritmo que foi desenhado para lidar com algo que estava funcionando e parou. Você começa no topo (a bagaça funciona?) e vai respondendo “sim” ou “não”, até chegar em alguma “caixinha” (de verdade, seria um processo) para o qual não há nenhuma saída nova, representando o fim da rotina prescrita pelo algoritmo apresentado. É só um desenho engraçadinho, no entanto, poderíamos facilmente codificar um programa de computador que implementasse essa lógica descrita e tomasse decisões através das aproximações sucessivas que ela pressupõe.

Isso é o algoritmo: não o desenho (o desenho só representa graficamente o algoritmo), mas sim o conjunto de passos lógicos descritos previamente para lidar com o(s) problema(s) que foi(ram) mapeado(s) e responder às partes que compõem esse(s) problema(s), uma a uma, da maneira mais racional e eficiente possível. O foco no “eficiente” é bem importante para o algoritmo. Se no seu smartphone, repleto de cores de processamento e 4 ou 8 GiB de RAM, essa eficiência é desejável e faz falta, em sistemas primordiais de computação a falta de eficiência era a diferença entre conseguir executar e não executar o programa (é como nós, os antigos, chamávamos os “apps” = programas [o português tem palavras, sabia? Você pode deixar o inglês para quando ele for necessário…]).

Tá… E daí? E “daí” que quando você fica falando (ou ouve falar) “o algoritmo isso”, “o algoritmo aquilo”, ou “treinei/ensinei meu algoritmo pra X”, é disso que estamos falando: um programa que foi desenhado, com passos lógicos e eficientemente agrupados para lidar com o problema ao qual foram desenhados como possível resposta.

E qual é o problema que os algoritmos de redes sociais precisam resolver? Acima de qualquer outro, o problema (risco) de você querer parar de usar. Esse é o principal. Rede social só dá dinheiro se a galera “engaja”. Pode engajar no amor ou no ódio, desde que engaje. O que se vende para as agências de publicidade é basicamente: alcance (quanta gente a rede abarca, e isso tem tudo a ver com engajamento) e conhecimento populacional (o quão bem os gestores das redes sociais conhecem seus usuários [não necessariamente de forma individualizada, pois nem precisam], seus hábitos, gostos e preferências. Sobre tudo: da pizza ao político preferido e o odiado.).

Em 2022, eu li o livro do Jaron Lanier, “Ten arguments for deleting your social media accounts right now” como parte da pesquisa que fiz para o trabalho de conclusão de curso em Direito (acredito que a versão em português tem o mesmo nome, traduzido, ou seja “dez argumentos para você apagar suas redes sociais, agora” – ou coisa do tipo). Li em inglês para evitar problemas com tradução de alguma ideia que o autor poderia querer passar e a tradução “matou”. É raro mas acontece muito e eu, inclusive, achei uma dessas na amostra do livro em BR…

Jaron elenca os 10 argumentos em forma de capítulos:

  1. Você está perdendo seu livre arbítrio
  2. Sair das redes sociais é o jeito mais acertado de lidar com a insanidade dos nossos tempos
  3. As redes sociais estão te tornando um cuzão (palavras dele, não minhas)
  4. As redes sociais estão minando o conceito de “verdade”
  5. As redes sociais estão fazendo o que você fala ser insignificante
  6. As redes sociais estão destruindo sua capacidade de ter empatia
  7. As redes sociais estão te fazendo infeliz
  8. As redes sociais não querem que você tenha dignidade econômica
  9. As redes sociais estão tornando a política impossível
  10. As redes sociais odeiam a sua alma (wow?!)

Agora… Bem… Só pelos títulos dos capítulos, acho que você já percebeu duas coisas: 1) o estilo de escrita do Jaron é bem-humorado. 2) Ele odeia as redes sociais – por bons motivos, acho.

Eu, como você já sabe, sou contra falácias como meios de sustentar um debate. Seria falacioso falar que a mãe dele tem chulé (ad hominem) e seria falacioso discorrer sobre as credenciais do homi e como são elevadas (falácia de apelo à autoridade). Porém, ao mesmo tempo, o mundo real precisa de alguma amostra de quem porta a mensagem para, pelo menos, saber se a pessoa que fala entende do que fala. O que mais tem nesse mundo moderno de meu Deus é gente falando do que não sabe.

Jaron é um cientista da computação, com formação sólida na área de realidade virtual; trabalhou para diversas empresas, incluindo a Microsoft, e esteve em diversas universidades (Berkeley, São Francisco, Columbia). Em resumo, não é como se ele falasse de algo que “ouviu alguém dizer”, tampouco é como se isso fosse a mera impressão pessoal alçada a fato, sobre uma área (a internet e as redes) que ele não sabe nem se é de comer ou de passar no cabelo.

Eu não pretendo, seja por extensão, seja por respeito ao direito autoral, entrar em detalhes de cada um dos itens da lista dele. Mas a real é que só de bater o olho nos títulos, você meio que sabe do que ele está falando. Se quer realmente entender o que ele tem a dizer para cada item, compre o livro. Dá uma moral pro trabalho do cara. Tá baratinho e tem a versão online se quiser ler rápido (é bem curto, menos de 200 páginas).

Alguns são autoexplicativos, mas vamos passar por todos, a 30 mil pés de altitude:

Você está perdendo seu livre arbítrio porque o livre arbítrio não é exatamente amigo do vício, e redes sociais são desenhadas para viciar (lembra do primeiro problema que o algoritmo tenta resolver? Pois é…). Empresas que mantêm redes sociais gastam tanto dinheiro com desenvolvedores quanto gastam com psicólogos, publicitários e todo tipo de profissional que os ajude a prender a sua atenção na rede social deles. Alguns fazem isso de forma porca, outros de forma espetacularmente cruel, vilanesca e, principalmente, eficaz.

Sair das redes sociais é o jeito mais acertado de lidar com a insanidade dos nossos tempos porque a forma como as redes foram desenhadas se aproveita dos nossos medos, traumas e desejos para nos prender lá. Isso é quase que um desdobramento do primeiro apontamento. Ou seja: para te prender na rede social e torná-la um sucesso para seus clientes (dica: você não é o cliente da rede social. Você é o produto…), eles vão te incentivar a compartilhar sua vida no feed (assim, eles conhecem você enquanto produto); vão te empurrar conteúdo que você não quer (quantas vezes você pulou o anúncio, hoje? Já desistiu e comprou o serviço premium? Até quando eles mantêm o premium sem anúncios [e criam o premium++, este sim, sem anúncios {por um tempo…}]? Já clicou no jogo que é uma enganação e não faz nada do que é mostrado na publicidade?); vão te fazer ter medo, ou se revoltar com algo que incomoda os donos da rede, o cliente deles, ou simplesmente que precisa ser repudiado para gerar “engajamento”; e vão dar um jeito de vender toda essa atrocidade e fazer dinheiro com a sua vida e as consequências de tudo isso, ora descrito. Qual a melhor forma de não passar por essa manipulação que te usa para ganhar rios de dinheiro? Não fazer parte dela.

As redes sociais estão te tornando um cuzão porque os pontos 1 e 2 da lista estão funcionando muito bem. Ou seja: a rede social é viciante e te mantém nela o máximo de tempo possível. Logo, o algoritmo resolveu o primeiro problema. O segundo problema é que ela precisa dar lucro, então o algoritmo faz com que você engaje, conte quem você é e, em troca, ele te afaga ao conectar você com gente que pensa como você e premia atitudes, conteúdos, […] engajamentos que gerem o máximo de alcance e conexão com outros usuários do seu perfil. A escolha, aqui, é amoral (e não necessariamente imoral), ou seja: o objetivo é ter pessoas conectando com o conteúdo, reagindo positiva ou negativamente, contando suas vidas, marcando posições, e alimentando tanto o quanto a rede social sabe do seu público, como ficando mais tempo no app da rede, vendo mais publicidade, pulando mais vídeo, etc. etc. etc…

As redes sociais estão minando o conceito de “verdade” e olha: isso aqui é até uma perda de tempo de demonstrar. Todo mundo sabe que estão. O bolsonarista sabe que está. O ptista sabe que está. O terraplanista sabe que está. O astrofísico sabe que está. O antivaxxer sabe que está. E o microbiologista também sabe que está. Oras, se todo mundo tem certeza que a verdade não está nas redes sociais, se tudo que sai nas notícias, nos canais, em todo lugar é mentira, então É ÓBVIO que a verdade está sendo minada. A única pequena dificuldade é descobrir quem tem razão e em que caso.
Contudo, redes sociais têm perto de zero compromisso com conceitos complexos como “verdade”, especialmente se isso passar à frente dos dois grandes objetivos de qualquer rede social: engajamento e lucro. Quando você pega um canal de YouTube onde um cara sem qualquer qualificação acadêmica rebate cientistas da NASA, falando sobre mudança climática, você tem 50% de chance de perceber que a verdade está sendo minada pelas redes (exceto, claro, se você for do time que acha que mudança climática não existe… Aí, são os canais “oficiais” [também nas redes sociais] a espalhar mentiras, na sua opinião). E, espia: falando em YouTube, se você já assistiu a algum dos seus “influencers” falando em como a rede se comporta e o que ela incentiva o produtor de conteúdo a fazer pra tirar algum $$$ dali, você sabe que o compromisso é com tudo, menos com a verdade: um cara faz 10 vídeos por semana e fica no topo da página inicial. O outro faz 1 vídeo por mês e desaparece do radar. Em momento algum a qualidade dos vídeos entrou em consideração para dizer quem tem destaque (e, esperadamente, mais audiência [= mais dinheiro]) e quem não.

As redes sociais estão fazendo o que você fala ser insignificante porque como 99% das pessoas que andam nas redes já pensaram em ganhar dinheiro com elas (eu sei que já pensei), “4 minutos se passaram e ninguém viu, o podcast que nasceu em algum lugar do Brasil”. E se “pluralidade de ideias” ou “vasta oferta de qualidade e quantidade de conteúdo” não são automaticamente sinônimos de “lixo”, o “lixo” é exponencialmente criado com essa proliferação “sem um predador” para pôr ordem no ecossistema.
Eu ou você podemos, agora mesmo, abrir um canal no YouTube, uma live no Insta, ou seja lá qual o nome no TikTok e começar a falar. E mostrar gráficos e compartilhar vídeos e imagens…. E o quanto do que vamos veicular é verdade ou não, faz sentido ou não, está sendo analisado dentro do contexto correto ou não… Bem, a única pessoa capaz de decidir tudo isso é quem assiste. Todavia, o que acontece se quem assiste não sabe separar o joio do trigo? Ferrou (de novo: horário nobre…) não é mesmo? E se você for um microbiologista advogando pelas vacinas, e eu for um antivaxxer rebatendo tudo que você fala? E se você for menos carismático do que eu, e eu for mais vendedor de automóveis que você? O que importa o que você fala? E se todos falam, e se a cada esquina tem um mesa-cast sendo gravado com convidados dos mais ilustres aos mais ignóbeis… O que importa o que qualquer um tem a dizer, sobre qualquer coisa?

As redes sociais estão destruindo sua capacidade de ter empatia. Eu preciso mesmo demonstrar esse? É simples até: as redes sociais “brincam” com nossos instintos primais e, para nos manter horas “rolando a tela do celular”, fazem com que criemos nossas “tribos”. Todo esse desenho faz com que o bullying te conecte com quem pensa como você e massacre o outro lado. E não importa se você é (ou acha que é) de Esquerda ou Direita. Você faz bullying com o outro lado. Eu sei que faz. Eu já vi gente dos n lados fazendo, eu já sofri e eu já fiz (em algum nível).

As redes sociais estão te fazendo infeliz. Olha, se você leu até aqui e não ficou infeliz, só de ler… Sei lá o que te move. Eu estou infeliz de escrever, e olha que eu escolhi escrever sobre isso. Vou contar uma anedota só para dar a dimensão de como a coisa toda é imprevisível. Tenho um grande amigo que ficou extremamente mal com a vitória de Trump. Óbvio, nenhuma pessoa que quer um futuro melhor para TODOS (e não só para os americanos brancos) ficou feliz com isso. Porém, ele ficou especialmente mal. Um dos N fatores a contribuir com a profunda depressão é de que ele estava convicto, apostando todas as fichas e até assumindo responsabilidades desnecessárias pela aposta na vitória de Kamala, falas e posturas que ele não deveria ter se estivesse racionalmente analisando a situação.
Eu o avisei um sem-número de vezes que todas as pesquisas mais sóbrias e sólidas (se você analisa política há tempos, você acaba aprendendo quem faz o trabalho e quem é do oba-oba) mostravam um quadro MUITO difícil para a Kamala, e ele rebatia dizendo que confiava no que ele estava lendo e ouvindo. Agora, eu sei que esse cara é MUITO inteligente, e eu sei que ele não estava interpretando errado o que recebia. O problema – na minha opinião – foi mais simples: ele foi enganado “pela rede do bem” que ele formou ao seu redor. Essa, na verdade, é outra mentira da rede social: a que você pode fazer uma curadoria do que consome e recebe, de tal forma a se manter informado e, ao mesmo tempo, imune ao esgoto que corre nela. Aqui está o dilema: é ou um, ou outro. Ou você é feliz (e enganado), ou é triste (e, talvez, informado – depende muito, viu?). Seja como for, as redes sociais até “quando te deixam no poder” (dica: elas nunca deixam, mesmo) te fazem infeliz, cedo ou tarde.

As redes sociais não querem que você tenha dignidade econômica. Este ponto é bem complexo, talvez o mais complexo do livro. Além de complexo ele é controverso. Só lendo pra saber a zona cinza que o autor percorre. Fala sobre um modelo de negócios que nasce de um valor bem-intencionado, mas que fatalmente gera o monstro que agora tememos (é o argumento dele). Ele discute como a ideia de software gratuito (free as in beer) e de manter a internet “de graça” acaba nos levando para um mundo em que as empresas apenas pensam em lucratividade por publicidade (ad-revenue) e como isso molda todo o algoritmo e as características (todas as narradas, e todas as demais) de uma rede social moderna. A dignidade econômica removida seria, então, o fato de que como você não paga por nada (tirando a conexão e o aparelho), as empresas escolhem o que fazem com você, seus dados, sua vida, e tudo o mais. Você não paga, logo você não é o cliente, mas o produto deles. E o dono do produto faz o que quer com o produto.

As redes sociais estão tornando a política impossível. De novo: chega a ser idiota tentar explicar o que todo mundo sabe. Então, ao invés de explicar o que todos já sabem, eu vou dizer o que nem todo mundo tem em mente: nós já tentamos o caminho sem a política. Nós temos séculos, senão milênios, de História humana onde a política ou era um apêndice enganoso, ou estava apenas engatinhando na organização do espaço social de cada nação. Seja como for, nós tentamos o mundo onde os fortes governam, onde os deuses governam, onde as tribos se organizam (e guerreiam com as demais), onde os militares mandam… E… Todos esses modelos foram uma grande bosta. Só pode elogiar quem vislumbra fazer parte de um dos sempre exclusivos grupos de poder. Claro: podemos fazer um longo debate de como a vida política atual (especialmente nas Américas) se assemelha a uma casta separada e sobre como essa vida política não habilita a verdadeira democracia, mas só a demagogia, o nepotismo e a corrupção. O meu ponto de partida é: o sistema atual é um sistema falho, porém perfectível. Ou seja: a política tem odiosas características que, com uma sociedade civil organizada, podem ser combatidas. A boa e velha Ficha Limpa tá aí pra dar ao menos um exemplo. Tem vários outros e não vou percorrer eles todos, mas me chama e a gente fala do que melhorou desde que a política (e não a violência, e não Deus, e não os militares[…]) passou a dar vida ao Estado nacional. E tudo isso está em risco, e as redes sociais são incríveis vetores de ataque e grandes catalisadores do ódio e da irracionalidade na política. Elas não querem sociedade civil organizada. Isso remove o poder que elas precisam ter para te engajar e (escravizar) fidelizar.

As redes sociais odeiam a sua alma, e o autor fecha o livro assim porque a mensagem dele é clara em sentido: redes sociais são o oposto de “livre expressão”, “individualidade” (não confundir com “individualismo”, o que é ruim), sociedade harmônica e pacificação política. Tudo isso é o contrário do que redes sociais buscam, não porque elas sejam VILANESCAS na origem, mas porque o modelo de negócio delas depende de “dedo no cu e gritaria” (acabou o horário nobre) e eles não podem fomentar um mundo de “verdade” e “verificação de fatos”, porque… Por que? Você já assistiu ao Big Brother? Eu não. Mas eu sei (porque tenho amigos e orelhas) que as pessoas assistem aquele negócio pra ver aquele mini-mundo pegar fogo.
Num espaço onde a verdade é a regra e os fatos são rigorosamente checados, nada realmente pega fogo. Pode ser super empolgante, mas quem entendeu, entendeu e quem não entendeu vai seguir tentando entender, e nada mais. Não tem conflito, não tem dedo em riste, não dá engajamento. Por isso, e não por serem a cria do Capeta, redes sociais não podem incentivar um mundo melhor para os humanos. Porque se o engajamento cair, o produto “rede social” perde o valor. E como elas ganham dinheiro conhecendo bem o produto delas (você), isso não pode acontecer. E a melhor forma de engajar – descobriram os donos das redes – é na confusão e no conflito.

O autor ainda lembra que ele escolheu 10 pontos “porque sim”. Ele poderia ter falado, só por exemplo, da distorção da realidade que redes sociais geram, da ansiedade, dos gatilhos de consumo, de alimentação, das obsessões, dos conflitos familiares, amorosos… Enfim… Ele escolheu o que era mais “neutro” em termos de concordância ou não, justamente porque são pontos que envolvem menos as discussões mais sentimentais e, muitas vezes, irracionais. A mensagem final dele é clara: Se o leitor encerrará suas contas ou não, é uma escolha absolutamente pessoal. Porém, se o leitor mantiver suas redes sociais, que o faça sabendo o que as redes fazem com ele(a) a fim de ganhar dinheiro e obter poder (o poder de “informar” [com o que querem], o poder de manobrar seus usuários, o poder de se defender de ataques de concorrentes, de dobrar o Estado, de fugir da Lei…).

E o que eu vou fazer? Eu não sei. Na verdade, eu não vim aqui escrever sobre um suicídio virtual em que encerro todas as minhas contas e sumo da Internet for good (olha o inglês desnecessário aí!) com esta nota longa de adeus. Eu nunca poderia, por exemplo, fechar o LinkedIn e perder um poderoso meio de arranjar um novo emprego, se esse dia chegar (nota para mim mesmo: ele vai chegar…). Eu também não me vejo sem os canais de YouTube que uso tanto para conhecimento (Petit Journal, Meio, Manual do Mundo, Aviões e Músicas, FDUSP, IREE TV, XKCD What if, Adam Something, NetworkChuck, OverSimplified e TANTOS OUTROS), quanto para me divertir (Cauê Moura, Serial Trippers, Planeta Aves, Cinema Therapy, Aprofundo, Voice Makers e TANTOS OUTROS)…

Aliás, se eu li esse livro em 2022, por que estou falando em “dar tchau” em 2025? Quanto tempo para refletir sobre um livro com menos de 200 páginas, não é?

Sei lá… Eu já disse isso antes, mas as redes sociais não me ajudam em nada. Mesmo o LinkedIn, que eu disse que preservaria de qualquer forma, está há 12 anos sem fazer nada por mim. Qualquer conhecimento que circule por lá é menos do que adquiro com livros oficiais das áreas que estudo, e as conexões só esquentam de tempos em tempos, quando alguém está buscando recolocação, por exemplo. Do mais, só quem tem “tino” para a auto-propaganda contínua abre o LinkedIn de segunda à sexta, para manter o “footprint“. Do resto, é uma rede sempre morna. Eu também nem sei o que eu faria e como me sentira se fosse uma rede “quente” (como o TikTok, por exemplo). Só constatei um fato.

Eu só acho que a minha presença ali faz as relações humanas que tenho serem sempre mais frias. A pessoa pode me adicionar como contato no WhatsApp e até ter meu telefone celular pessoal (que é diferente) e, ainda assim, nossas interações se resumirão a um video compartilhado, um joia, um coração e é isso. Por que eu estou ali? Por que meus dados estão ali? Por que meu celular tem um app que sabe Allah o que coleta e captura do meu dia a dia, independentemente do meu consentimento?

Eu poderia, alternativamente, simplesmente desinstalar o aplicativo e ficar com a conta aberta, não? Aí surge um problema humano: as pessoas veem minha conta lá e imaginam que eu estou por ali, que vou ver uma chamada, um chat, algo do tipo quando, de verdade, eu não vou ver nada disso ou verei meses depois. Aconteceu, inclusive no LinkedIn. Se elas souberem que não estou lá, por outro lado, a história muda. Se precisarem falar comigo, terão que usar o WhatsApp ou o bom e velho discador de telefone.

Além do mais, o que fui procurar na rede social, simplesmente não está lá. Não é a praça pública, a Ágora Ateniense, onde ideias e problemas são debatidos e o poder coletivo é utilizado em prol do maior número de pessoas. Não. É exatamente o oposto disso. São vitrines de sonhos impossíveis e meias-verdades, onde a mercadoria circula achando que é o usuário (ou, mais ilusório ainda, o cliente), mas ela é só isso mesmo: mercadoria.

Sair da rede social não me fará melhor do que nada, nem ninguém. Eu não ficarei mais inteligente, mais correto, mais digno[…]. Vai ter gente ganhando milhões com rede social enquanto não estou lá. Sempre teve e vai continuar tendo. Eu não sou um desses. Não tenho o tino, nem o talento, nem o tempo, nem o estômago. Fechar tudo também é utopia. Vou fechar o e-mail pessoal, ligado ao YouTube? Vou desaparecer da Internet, onde o governo usa meu e-mail para me permitir agendar a emissão do passaporte, do RG, pagar IPTU, ajustar o IRPF? E o WhatsApp? Ele também é uma rede social. Vou encerrar?

Não, não dá pra radicalizar sem virar indigente. E eu ainda não estou nesse grau da loucura (mas, quem sabe…). Contudo, outro dia me peguei impaciente, usando o celular no Instagram, rolando a lista de fotos de qualquer merda que já não me lembro… Eu rolava aquele feed infinito como se eu fosse achar o fim. E quanto mais eu descia, mais irritado eu ficava, porque pensava “okay, eu já vi o suficiente. Chega.”, só que continuava descendo. E tenho que dizer que, como alguém da tecnologia, meu uso de redes sociais e entretenimento online é bastante reduzido. Estou longe de ser “power user“, “heavy consumer” ou qualquer outro termo desnecessário em inglês para redes sociais e derivados.

Mas esta é a conclusão que eu chego: eu estava entediado, devendo sair do sofá pra quebrar o tédio com alguma atividade (tipo, caminhar. Tipo, ler um livro. Tipo, tocar violão…). Ao invés disso, meu cérebro disse “e se você pesquisar aquele negócio que você queria no Instagram, para ver umas ideias?”. E eu devo ter perdido uns 40 minutos ali, olhando para um feed infinito e que não me acrescentou nada. E ficando mais irritado ao invés de quebrar o ciclo de tédio, ansiedade, marasmo, sei lá o que mais havia naquele drink dos infernos que eu preparei (com ajuda da rede, e meu consentimento, e meus dados) e bebi.

Não me acrescenta nada. Não me conecta com gente que quer discutir coisas novas e resolver problemas velhos, não me aproxima das pessoas queridas, me trata como mercadoria, e ainda faz eu perder tempo. Tudo isso me fez pensar em dar tchau para as redes.

E, bem… Este blog faz parte de uma rede social (WordPress). E ele também não tem me conectado a quase ninguém (afirmo isso com base nas estatísticas de cada novo post). Pra piorar, aqui, eu sou premium, então, estou pagando por esse espaço que não me entrega nada e ainda tira de mim alguma coisa (sabe-se lá o que, além da anualidade). Preciso pensar no futuro das minhas redes, este blog incluso. Mas, ao menos até o fim do período de assinatura (7 de junho), ele fica aqui.

Se eu optar por encerrar o blog, obrigado por todo o tempo que você, nobre leitor(a) colocou nas linhas mal-escritas desse escritor frustrado e sem talento. Espero que mesmo que tenha sido cansativo, tantas e tantas vezes, ainda assim, eu tenha somado alguma coisa BOA pra você (tem que ser boa; de ruim, basta o que as redes trazem).

Como não terminar com uma nerdice, não é?

Um mundo em desencanto

Se Trump fosse eleito explicitamente pela fé em dias melhores – mesmo que não para todos, mas para larga maioria dos americanos – eu penso que eu seria capaz de compreender o que está a dizer a população dos EUA, nas urnas, ainda que eu discordasse.

Veja: nós não precisamos concordar sobre qual é “o caminho feliz” para qualquer problema que tenhamos em conjunto. Você pode achar que o que melhora o mundo é mais famílias com mais filhos e que isso vai levar ao reaquecimento econômico, e mais empregos e […]. Do outro lado, eu posso achar que o que melhora o mundo é menos gente, menos consumo, menos agressão ao meio ambiente, menos atividade econômica “artificialmente criada” (obsolescência programada, demanda artificialmente criada) e […]. Aliás, são só hipóteses e não estou dizendo se acho isso ou aquilo. Ainda assim, são visões antagônicas, mas ambas têm algo fundamental em comum: a meta de um mundo melhor, senão para todos, para a maioria de nós – afinal, o primeiro sinal de maturidade é saber que nada (nem ninguém) agrada a todo mundo, não importa o quão bom possa ser ou parecer.

O que reelege Trump, na contramão da ideia de “mundo melhor”, é a revanche, a vingança e o ressentimento. Ele é “o malvado favorito” da América, mas sem o humor ou a fofa família para compartilhar com seus espectadores. Mas o show começa em janeiro e, querendo ou não, todos assistiremos, e isso porque, como eu já disse quando Trump venceu Hillary, a eleição nos EUA não é como a eleição na Argentina. A segunda impacta pouco mais de 46 milhões de pessoas, mas a primeira impacta todo o globo e seus mais de 8 bilhões de humanos (e todo o resto da vida, sendo franco). Em tempo: Trump, ora eleito, por duas eleições vitorioso, em duas eleições contra adversárias mulheres, e só sofreu revés ao disputar contra um candidato branco, ainda mais velho do que ele… É só um dado… Ou não? Não sei. Nem é meu foco para hoje. Porém, salta aos olhos.

Os EUA ainda são a maior economia do mundo (28.7 trilhões de dólares), acompanhada relativamente de longe pelo segundo lugar, a China e seus 18.5 trilhões de dólares (fonte). E a economia sempre manda e sempre mandou no mundo: da política às guerras, arregimentando todo o progresso científico em sua pletora de formas e resultados.

Os EUA também são a maior potência militar do globo (fonte). Segundo o relatório Global Firepower, seguem em primeiro do ranking (de onde nunca saíram), investindo práticos 1 trilhão de dólares anuais em armamentos e pessoal. Embora Rússia (2ª) e China (3ª) não estejam distantes no rankeamento, seu investimento é bem menor: A Rússia investiu cerca de 61 bilhões de dólares em 2021 e, por causa da guerra, planeja ousados 145 bilhões de dólares investidos em 2025, quase 7% do seu PIB. “Ousados” porque, em áreas estratégicas, ter o dinheiro não é necessariamente a parte mais difícil: saber como e onde gastar é bem mais complicado; você pode gastar mal um caminhão de dinheiro e não chegar a lugar algum. Já a China, mesmo em 3º no ranking, investiu algo em torno de 240 bilhões de dólares em 2022, e está perto dos 500 bilhões de dólares em 2024. Vale uma ressalva: há dúvidas sobre os números divulgados e mesmo o governo americano estima que a China “esconde o jogo” (o que faria sentido), podendo estar mais perto dos 700 bilhões de dólares anuais do que os “módicos” 470 bilhões estimados para este ano. Seja como for, ainda não é o trilhão de dólares americano, tampouco o é pelo tempo que os EUA investem em guerra. E aqui, o acúmulo de investimento ao longo do tempo faz grande diferença, seja em treinamento e aptidão do pessoal, seja em acumulo de tecnologia e armamentos (você pode até achar que um F-15 já é um avião de caça obsoleto, mas ele ainda vai acabar com muitos aviões de outras potências, se a chance for ofertada).

Por tudo isso (e muito mais), a eleição nos EUA é algo que guarda relação com o resto do mundo, e não é algo que só deva ser observado por cientistas políticos ou “baba-ovos” de todos os espectros políticos. Ela efetivamente decide um tanto do futuro do planeta, para o bem e para o mal.

Superada a justificativa, retomo o raciocínio que me fez querer escrever. Trump é o candidato da revanche, da vingança e do ressentimento. Claro, isso não é o mesmo que dizer que o eleitor de Trump não tem fé nele. Claro que tem. A fé é a de que a vida vai melhorar para si, com a torcida de que piore “para o outro lado”. E por “outro lado” inclua-se aí qualquer um que não se pareça com ele(a), ou que tenha sido definido como “ameaça” (mesmo que, de verdade, não seja). Então, é uma fé dupla: de que a vida vai melhorar para o grupo “dos eleitos” e de que vai piorar para quem não diz “amém”.

Agora, se estivéssemos falando algo como “a vida do cidadão vai melhorar porque a dos criminosos vai piorar”, mesmo duvidando muito da proposição (porque isso praticamente nunca entrega muito além de violência policial), ela ainda carrega em si a ideia de “o melhor para o maior número de pessoas” (já que criminosos não são a maioria do povo). Não é disso que se trata, agora. Se trata de algo na linha “quero que a vida do eleitor médio de Trump melhore [homem (47%), branco (71%), cristão (59%), sem nível superior (57%)…] (fonte e fonte), mesmo que isso signifique a piora para 47.8 milhões de imigrantes (fonte), e 42 milhões de pretos (fonte), e parte expressiva das 169 milhões de mulheres (fonte) que não concordam com nossas visões de mundo”.

Claro: é impossível ignorar as mudanças do perfil de seu eleitorado e que geraram surpresa para quem imaginava o oposto do que se deu: em realidade, Trump melhorou sua performance EM TODOS os recortes demográficos, exceto na faixa acima de 65 anos e no grupo de mulheres brancas universitárias (fonte). Trump teve (muito) mais apoio latino, teve mais apoio negro e teve (muito) mais apoio de jovens (18 a 29 anos). Estamos falando de uma mudança real e não de algo marginal, como se fosse possível tratar isso tudo como “mera flutuação”. Pelo contrário: são tendências claras e inequívocas de preferência daquela demografia (a dos EUA). Só pelo exemplo: Trump cresceu espantosos 25% em sua base de latinos apoiadores; entre os jovens (18-29 anos) ele cresceu 11%, e entre as mulheres, 10%. Ainda que o voto feminino e negro (pretos e pardos) ainda seja majoritariamente Democrata, o avanço dos Republicanos nesses recortes é notável.

Agora, o aparente (e, talvez, só aparente) mistério é aquele em que as bandeiras políticas e ideológicas Trumpistas desafiam a segurança, em especial, dos grupos que decidiram o apoiar com mais força. Trump disse que deportará imigrantes aos milhões, inclusive com a ajuda dos militares (fonte). Em nome do “Projeto 2025” (algo assustador e que nem sei se recomendo que você leia, mas talvez, sim, você deva), Trump pode vir a tomar diversas medidas para cessar o aborto, ainda que estadual e legalmente autorizado (fonte). Trump já disse que não manterá qualquer medida que proteja o meio ambiente se a considerar um entrave para suas metas – especialmente as econômicas (fonte). Todas essas pautas falam diretamente com temores que imigrantes, mulheres e jovens deveriam ter; exatamente os grupos que decidiram apoiá-lo mais em 2024.

Seria um desejo coletivo pela aniquilação? A tal “pulsão de morte” Freudiana? Essa parece uma resposta plausível quando vemos alguém que toma veneno esperando que outros morram. Contudo, essa também parece a resposta mais pobre em imaginação; uma tentativa de responder com simplicidade a um problema (bem) complexo. Problemas complexos requerem soluções complexas, ainda que a explicação da solução possa (e, sempre que possível, deva) ser simples.

A explicação que ensaio a seguir é a de que este é um mundo em desencanto. O fim da Guerra Fria trouxe um triunfalismo jamais visto ao regime democrático liberal, impulsionado por ganhos estonteantes do capitalismo, com integração dos mercados, cadeias globais de produção, “novos mercados” (para os “velhos mercados” tomarem pra si) e… A maior parte de nós tinha a certeza de que nenhum modelo era melhor. Até que tudo isso passou. O mundo se integrou até onde conseguiu, mas outras economias (especialmente a chinesa) encontraram o caminho para deixarem de ser o quintal americano e se tornaram séria ameaça à hegemonia do tio Sam. O crescente fluxo de pessoas, mas principalmente, de informação, passou a nivelar a percepção de privilégio e consequentemente, da realidade, e o poder de compra deixou de ser um absoluto marco da realização pessoal, especialmente nos EUA, “terra das oportunidades”. A oportunidades seguem lá, mas você não vai “dar certo” mesmo se não fizer muito para que isso ocorra, algo que era possível, antes.

São as “vacas magras”. Juntarem-se aos bovinos desnutridos a organização – espontânea e provocada – de grupos sociais reivindicando que a tal democracia liberal entregasse sua maior promessa: a igualdade de oportunidades para todos. Tal igualdade é ainda mais difícil quando os mercados se contraem e as chances rareiam para os grupos que estavam historicamente posicionados para aproveitá-las. Imagine-se, então, o cenário de aproveitamento para os grupos “recém-chegados na festa”. O atrito é inevitável. E os grupos recém-chegados fazem questão de utilizar um vocabulário que lhe empreste certa “verdade científica”, uma palpável arrogância de se estar “do lado certo”, seja lá o que isso significa, mas nada que crie pontes e diálogos; pelo contrário. Estão, em grande medida, convencidos de que “nada se consegue neste mundo pedindo ‘por favor’”, frase que já ouvi algumas vezes nesses ambientes. São, acima de tudo, rancorosos no discurso e não fazem amigos por onde passam. MAS… Seria um bode expiatório óbvio atribuir a esse grupo a “culpa” pelo resultado eleitoral mais importante do ano (e, porquê não, do próximos quatro anos). Seria desleal, também. Contudo, eu disse que é um problema complexo, e estou dando conta de parte da complexidade do problema.

Da desestabilização econômica surgem as respostas padrão da humanidade: os lobbies, o protecionismo, a interferência extraterritorial (por vezes dublada como “imperialismo”) e, então, partindo de palavras afiadas, chegamos às lâminas afiadas ( = guerras).

O capitalismo, por sua vez, não mais se envergonha de mostrar que não depende da democracia para sobreviver. Por conta da Guerra Fria, o capitalismo gostava de mentir que precisava de “democracia” para mostrar seu melhor, e os EUA, no polo oposto ao comunismo soviético, decidiam “levar a democracia” para todos os cantos do globo, através de bombardeios, torturas e execuções (essa referência aqui, poucos vão pegar, aposto). Porém, nos anos mais recentes, o capitalismo não se acanha em apertar as mãos de ditaduras terríveis como a saudita, ou veladas como a turca, ou em projeto, como a indiana ou a húngara, enquanto condena “ditaduras terríveis” no Irã, na Coréia do Norte, e em outros locais que não lhe interessem por ora. Para mim, toda a ausência de instituições democráticas que mantenham o Estado livre da grilagem por parte de interesses privados, seja na Venezuela, seja em Israel, são situações de governos nefastos e que devem ser indubitavelmente repudiados. E, também por isso, não estou na carreira política. Porque em política, e especialmente na política internacional, falar a verdade não tem nada a ver com o jogo bem jogado.

E quem é esse tal de “capitalismo”? São os reais donos do jogo. Alguns tem a coragem de colocar a cara no mundo, como o mega narcisista do Musk e seus 130 milhões de dólares investidos só na campanha de Trump (e um retorno assombroso de 134 vezes o valor, só no dia seguinte à eleição de seu favorecido – fonte). Outros ficam nas sombras, atuando sempre por lobbies, operam enormes volumes nas bolsas de valores mundiais, bolsas que cada vez mais se assemelham a cassinos em roupa de “assunto sério/econômico” do mundo adulto – farei uma ressalva no meu ensaio de boteco: o mercado de capitais não é necessariamente um mal, mas a forma como ele tem sido usado para pressionar governos e nações é (outro post, outro dia).

Aqui está o problema (complexo) cuja resposta eu não tenho: há (pelo menos) um mundo real de poder por trás do mundo imaginado de poder. O mundo real é aquele em que habitam os que têm muitos recursos (no nosso mundo presente, recurso = dinheiro) e que não ligam se estão no melhor restaurante da democrática Nova York, ou no melhor lounge da ditadora Riad. Tanto faz. Quando se tem dinheiro o suficiente, todo lugar que você vai é uma festa, com gente que vota ou que é torturada. De verdade, tanto faz… E, por cima desse mundo de poder real, o mundo imaginado de regimes democráticos se fez, não porque o mundo de poder real precisasse dele para gerar sua riqueza, mas, sim, porque esse mundo imaginado “mantém os que não têm nada na linha”.

Impossível pensar essa ideia sem colidir com os conceitos marxistas de Super e Infraestrutura. E eu não vou pôr muita energia nisso, mas não: eu não acredito nem 1% na efetividade atual das soluções que Marx apresentou para os problemas que ele corretamente – creio – delineou. Como sempre digo, o diagnóstico marxista sobre o capitalismo me parece acertado, mas a solução dada por ele ignora a realidade e a constituição do que é o homem (antes e agora) e, por isso, não tem como funcionar. Além do mais, a solução marxista envolve ditaduras, conceito que eu jamais apoiarei (a não ser que o ditador seja eu… Aí discutimos…).

Então, a democracia é um engodo, uma farsa, um mero esquema de fingir que o poder se distribui entre todos (por exemplo, por meio do voto) quando, em verdade, o poder continua onde sempre esteve: com os grupos que o detinham antes de a democracia ser instaurada. “Também isso” seria a minha resposta curta, cínica e grossa. Há aquela velha pichação, muito usada por grupos anárquicos, que assim diz “se votar mudasse algo, eles tornariam isso ilegal”. Eu não sou o tipo de pessoa que nega os fatos, e os fatos são que nos últimos 30 anos, tanto fez quem governou o mundo para fins de diminuição da desigualdade e aumento das oportunidades para todos (e não para grupo A ou B).

Todavia, se a democracia é essa Superestrutura que serve apenas para manter os numerosos mais fracos “na linha”, ela também é, factualmente, o regime que mais habilitou pessoas a quebrarem certas barreiras sociais e econômicas, e com o menor derramamento de sangue possível (em comparação às alternativas e ao passado). Se isso é “mera ilusão”, então, talvez precisemos gostar um pouco de nos iludir, pois eu não gosto do caminho em que todos se matam até que restem apenas os que concordam (até porque, historicamente, os que concordam comigo hoje são sempre menos do que ontem e os expurgos tendem ao perpétuo).

É sobre isso que eu queria falar: o mundo está em desencanto. Não acreditamos, coletivamente, em nada. Mesmo os que dizem crer no Deus de Israel, Pai de Jesus Cristo, creem a partir de perspectivas muito diferentes entre si; em casos extremos, de maneira irreconciliável. Quase não parece ser o mesmo Deus em certos embates.

E parece que a eleição de Trump é nada menos do que um prelúdio de rebelião popular. Que a Pax americana estava agonizando desde os 2000, não chega a ser novidade, mas estamos entrando em outro nível de ruptura: a do contrato social. Um sistema federativo como o americano requer que os estados (unidades federativas) reconheçam certos valores e premissas comumente importantes, encarnados no papel da e nas expectativas para a União (o ente federal do Estado).

O voto em Trump, ainda mais dos estratos que vem, diz para mim que aquele povo não mais concorda com os rumos gerais da nação. Ao ponto de declarar como “inimigos” aqueles que servem o café, varrem as casas, cuidam das crianças. Colegas de sala de aula ou trabalho. É um profundo e grave “não reconhecimento mútuo” ao olhar para o outro lado da calçada. O outro, ali, não é um conterrâneo, mas um incomodo e quiçá um risco. De “mal necessário”, agora já passam a discutir a validade da necessidade.

Contratos sociais acabam de dois modos: a) um novo contrato, aperfeiçoado, é criado e todos (“todos”, aqui = ampla maioria) concordam que esse novo contrato faz sentido. b) uma ruptura forçada e normalmente combatida pela União, eventualmente até pela força, para que o ente rebelado volte a obedecer ao antigo acordo, então repudiado. Seja como for, envolve ódio, destruição, perda de vidas e, em vários casos, deixa feridas que não se cicatrizam a depender do tamanho da barbárie cometida do começo ao fim do processo, independentemente do resultado (divórcio ou reconciliação do membro rebelado com a União e o resto dos entes que não se rebelaram).

Eu não consigo vislumbrar qualquer viabilidade de um novo contrato, capaz de unir tantos grupos de poder e, ao mesmo tempo, grupos sociais reivindicando mais, sob um mesmo ideal. Qualquer que seja a proposta, ela não vai agradar o suficiente para selar a paz social entre o maior número de pessoas possível. Especialmente porque está faltando o que distribuir, como defendo a seguir.

A ruptura violenta ainda parece cenário distante (amém, até por todas as vidas envolvidas), mas ninguém nunca sabe qual é ou onde está o pavio dessa dinamite. A Queda da Bastilha, evento-marco da Revolução Francesa de 1789, começa com a simples demissão de um ministro, seguida de ligeiro aumento no preço dos pães. “Não é pelos 20 centavos” diriam os revolucionários, se fossem brasileiros e se arregimentassem em 2013… Em um sistema complexo, de incontáveis variáveis e pressões de todos os lados, um ato que pode parecer pequeno em isolado gera um efeito estarrecedor uma vez dentro do circuito.

E enquanto escrevo isso, pensando naqueles Estados Unidos da América, não consigo deixar de pensar que em dois anos é a nossa vez de, quem sabe, tomar a mesma decisão. Uma decisão pautada não em esperança para todos (quantos se possam abarcar), mas em revanche, vingança e ressentimento.

Num mundo em que até mesmo o sentido da Cristandade mudou radicalmente de “O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (João 15:12) para “[…]Deus deu riquezas e bens, e lhe deu poder para delas comer e tomar a sua porção, e gozar do seu trabalho, isto é dom de Deus”, eu não deveria me dar por surpreso. Em verdade, as duas mensagens podem ser encontradas na bíblia do Cristianismo. Mas enquanto a última faz parte do Velho Testamento (Eclesiastes 5:19) e é escrita por um profeta hebreu que não se sabe ao certo quem foi, a primeira é a mensagem do próprio Jesus Cristo, aquele que empresta o nome para a religião Cristã. Como advogado, é como se eu visse alguém dizendo que a lei municipal vale mais que a Constituição, quando em conflito (que, no caso, sequer é conflito real, mas aparente, fruto de mera e equivocada interpretação).

Continua sendo a palavra de Jesus aquela que diz que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma Agulha (posto alfandegário das cidades antigas em que supostamente se passaram as histórias narradas na Bíblia), do que um homem rico ganhar a vida eterna (Matheus 19:24). E se você se incomoda com os ensinamentos de Jesus Cristo, então, vai ver que você não quer ser cristão, mas outra coisa. É do jogo. Eu, por exemplo, não sou nada. Ao menos, nunca digo que faço A ou B movido por valores religiosos. É menos covarde, assim. Usar a religião como desculpa para a barbárie sempre foi um traço dos piores momentos da breve história humana.

E como viemos parar aqui, na religião? Bem, ela é central para campanhas da Direita Radical e Extrema (a diferença sendo que a primeira aceita atacar o sistema e eventualmente se dar mal [se preciso for], e a segunda quer abolir o sistema sem pagar por isso,  caso dê errado). É a pedra angular dos discursos de gente como Trump, Bolsonaro e afins, este discurso de que promovem verdadeira cruzada para proteger o Ocidente cristão de ataques de seus mais odiosos inimigos. Falta apenas combinar com Cristo, pelo que expus até aqui. Mas tudo bem, afinal a religião, junto com a democracia, diria Marx, é só mais uma Superestrutura para manter os jogadores bonzinhos. Eu prefiro dizer “é também isso”.

No fim, os tempos são pautados pelo egoísmo. É como se o único ditado que tivesse sobrado para a educação de todos nós fosse o icônico “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Não tem nada a ver com ser cristão, islâmico, homem ou mulher, trans ou cisgênero, preto ou latino ou X. Tem a ver com o sentimento de que o mundo está literalmente acabando. E que sobrou pouco para, não dividir, mas tomar.

O que assistimos é o espetáculo da (re)formação das facções. Acha-se algum arranjo mínimo, que dê alguma coerência e consistência ao bando que se alinha. No caso de Trump é o cristianismo, o “true american”, qualquer ideia mofada de um excepcionalismo que não existe no analisar dos fatos. Mas tudo isso é desculpa. O mundo real que essa gente vive é o que diz “ tudo está acabando e temos que pegar a maior parte possível para nós, os que concordam com algumas abstrações e parecem ser do mesmo time”. Não é que a Esquerda também não pense assim, mas no caso dos EUA, o pensamento radicalizado daquela Direita se alinha mais a mais grupos (e, por isso, é maior no momento). É o que disseram as urnas, pelo menos.

O desencanto nunca foi com a democracia porque as pessoas não compram democracia, não vestem democracia, e não comem democracia. O desencanto sempre foi com a falta de fartura de possibilidades de consumo. O John Doe, tal qual o nosso José Silva, não faz ideia do que “democracia” quer realmente dizer. Muita gente estudando Direito também não sabe, portanto, não se sinta mal se for teu caso. O Que John Doe e José Silva realmente sabem é que dava pra trocar de carro mais vezes no passado e agora não dá. A casa podia ser maior e agora é o “studio” de 25m². Não tem nada a ver com democracia. Tem a ver com dinheiro. E, no nosso mundo atual, dinheiro tem a ver com poder.

Os donos do jogo costumavam deixar uma fatia na mesa para que todos nós – os demais – sentíssemos que comemos o bolo, mesmo que pouco. Os donos do jogo perderam o recato e mal deixam migalhas, agora. Fariam isso, fosse todo o mundo democrata-liberal, totalitário ou comunista. Porque sempre tem um grupo que dá um jeito de ficar dono do jogo, mesmo nos mais difíceis cenários. A Rússia matou dezena de magnatas e oligarcas e, no entanto, tantos outros rostos novos surgiram no lugar. Porque o poder não aceita vácuo. A China parece ter tido mais sucesso, mas se o valor que investem em militaria é maquilado (como se desconfia), o seu sucesso quanto à paz social interna também é. Há repressão, há crise (imobiliária, especialmente), há guetos opressores para minorias étnicas. Não, Esquerdinha do DCE que ainda faz o masoquismo de me ler: o comunismo não salvou ninguém da malvada miséria humana. No máximo, tornou mais difícil mostrar o que vai mal. Como toda boa ditadura (com ou sem comunismo envolvido, registre-se).

Foi notícia (fonte): O salário médio anual de CEOs (imprecisamente: presidentes) de grandes empresas, no Brasil, é de 15 milhões de reais. Pesquisa feita com 84 representantes do cargo e outros 775 em cargos de diretoria. Então, imagine que você pudesse ganhar 15 mil por mês. Em um ano, com 13º salário, seriam 195 mil reais, certo? Quantas pessoas em seu círculo menor de família e amigos têm empregos pagando 15 mil reais por mês? Eu conto nos dedos das mãos. É um salário para pessoas com uma qualificação bastante sólida, no nosso mercado de trabalho. Agora, a pergunta principal: O que faz um presidente de empresa (CEO) ser TÃO MELHOR, ao ponto de que isso possa justificar que ele(a) ganhe 77 vezes mais do que alguém muito bem qualificado e que estudou muito para ganhar 15 mil reais por mês? E se não for um cargo de muita qualificação, e se for alguém limpando banheiros, digamos, ganhando dois salários-mínimos (para o cargo, isso é considerado um salário bom, viu?), então a diferença passa a ser de 408 vezes entre CEO e a querida da tia cuidando diariamente dos banheiros das nossas empresas inclusivas e responsáveis socialmente e ambientalmente e espiritualmente e ludicamente […].

Esta é, para mim, a origem do Mal (letra maiúscula) dos nossos tempos. Não o capitalismo; não a ideia de que quem investe mais (tempo, recursos, esforços) recebe mais; não a ideia de que alguém que toma mais risco (civil, criminal, ambiental, político) tem o direito de lucrar mais (o risco é do empregador, art. 2º/CLT).  Nada disso é o Mal. Mas, sim, a incrível, inexplicável e injustificável disparidade de como 88 pessoas podem ganhar médias anuais de 15 milhões de reais, enquanto milhões de pessoas ganham o equivalente a dois ou três salários mínimos mensais, a vida toda – quando ganham

E as pessoas que ganham tanto dinheiro fazem um jogo onde a culpa é da democracia, a culpa é da Esquerda, ou até da Direita (se valer a pena e fizer venderem mais), porém, em última instância, a culpa é e sempre foi sua, que não tem o “mindset vencedor”. De Pablo Marçal a Bispo Edir, todos os mensageiros dos donos do jogo querem te convencer que se você passa fome, a culpa é só sua. Por detrás disso tudo, a permanente mentalidade que os norteia e diz “se eu posso ter mais, por que eu não teria mais?”, mas é preciso que você (e eu) não se revolte com esse jogo, daí o teor da mensagem dos “guias para o sucesso”. Levada a extremos, é essa mentalidade de “ter sempre mais” o que promove o fim dos recursos naturais e do próprio equilíbrio ambiental. Não é que seja necessário, é que simplesmente não há ninguém que possa impedi-los de fazer o que fazem. Compram a tudo e a todos, e quem hipoteticamente não se vende (se é que existe/existiu alguém incorrompível [eu começo a negociar na dezena de milhões de reais, caso interesse]) acaba envolvido em algum triste desfecho. Afinal, o único crime que realmente existe é o de ser descoberto. Se fizer do jeito certo, dá pra seguir vendendo palestra de ética e responsabilidade social com sorriso no rosto (e os bolsos cheios).

E eu discordo de quem imagina que esses vilões ficam num country club do mal, no alto de uma montanha estilizada à moda Drácula. Essa gente é tão dívida quanto nós, porém, eles têm algo que falta demais às massas: consciência de classe social. Podem ter visões agressivamente diferentes do que fazer com o brinquedo chamado Terra: uns querem cuidar dela como um pet (“coma menos carne, a Terra agradece” – fecha a porta do jatinho que joga duas vacas no ar por hora), e outros querem destruir como um brinquedo dado à criança mal-criada (“é tudo meu, e eu quebro se quiser”). Mas de uma coisa eles todos sabem bem: se um deles está em risco pelo motivo de ser rico, os outros também estão. No fim, acho que é isso que mais falta ao resto de nós, meros mortais: entender que se o madeireiro e o petroleiro (os donos, claro) estão felizes com os prospectos de vitória do candidato X, a chance desse candidato ser bom para o resto de nós é perto de zero.

E que o Esquerdinha do DCE não me entenda mal, só pelo último parágrafo. Os governos Lula 1 e 2 deram condições para que banqueiros lucrassem oito vezes mais do que com seu antecessor, FHC (fonte). Todos os lados (Esquerda e Direita) sabem que não jogam o jogo sem que os donos do verdadeiro poder permitam. Começou a peitar demais e vem “o rodo”. Todavia, a Esquerda (não “a Esquerda” do PT [o PT que se exploda], mas a ideológica, aquela que na Revolução Francesa ficou do lado dos mais esfarrapados) ainda é o lado que diz “não está bom do jeito que está, precisamos rebalancear o sistema”. A Direita se basta em dizer “o mundo é de quem está preparado para vencer, e quem quer mais que lute”, mesmo que a luta já comece perdida para a maior parte de nós, por fatores objetivos. Eu sei qual lado melhora a promessa democrática-liberal de mais igualdade nas oportunidades vs. qual lado prefere manter tudo como está. E também sei que nenhum dos lados é meu amigo de verdade. Afinal a maioria dos líderes de partido, sejam de Esquerda ou de Direita, estudaram nas mesmas escolas e frequentaram as mesmas festas. São – quase sempre – gente da mesma classe social e que não é a minha.

Contudo, é uma questão pragmática: o jogo é jogado por quem se habilita nele, e o espaço de escolha é limitado pela realidade imposta. Preciso escolher o lado que, se não resolve todos os defeitos que vejo, pelo menos não joga aberta e francamente para o lado que quer me ver esmagado nas engrenagens da máquina que mantém a própria ganância.

A frustração, seja aqui nos Estados Unidos do Brasil™ (©1889-1968), seja nos Estados Unidos da América (Est. 1776), não passa muito pela democracia em si, embora seja o que os jornais digam. As pessoas nem sabem bem o que é democracia, repito. A frustração é essencialmente material e de perspectivas práticas de exercício do poder de consumo. Há pouco sobre a mesa e a culpa não é do regime político, mas da eterna insaciedade dos donos do jogo real de poder. Tem um lado tentando convencer que ainda dá para dividir, mas esse lado pouco mexe nas fatias do bolo de quem tem muito mais do que precisa. Ele só quer dividir as migalhas que sobram por sobre a mesa entre os que achavam que comiam bem (classe média) e os que não comem nada (todo o resto). O outro lado, ora vencedor nos EUA de 2024, diz “o jogo é duro e quem não aguenta que pereça”. Cristãos esse tanto…

Revanche, vingança e ressentimento… Nunca deu errado para os peões do jogo quando esses valores vieram à tona no passado. #Confia

E se você tem dúvidas sobre o tipo de peça que é nesse tabuleiro, apenas responda para si se você pode dar uma bica no sistema inteiro e manter seu estilo de vida sem que nada mude. Se sim, parabéns: você é um dos poucos felizardos. Eu sei que não sou.

Um mundo em desencanto é um mundo sem esperança. É um labirinto em que parece que todas as alternativas foram tentadas e só resta voltar para trás. Mas, extrapolando a metáfora de Bobbio que aqui empresto, o perigo da mistura entre labirintos e o povo é a tentação de voltar sobre os próprios passos para um passado seguro, um passado em que tudo faz sentido e um passado que só pôde existir sob condições objetivas que não mais estão lá. E, ainda que estivessem, é um passado em que uma pequena parte do povo comia uma fatia de bolo e todo o resto passava fome. Agora, restaram as migalhas, enquanto os donos do jogo ficam com 15 fatias por ano (se é que você entende a minha metáfora), ainda que pudessem ter os buchos justamente cheios já na 3ª ou 4ª fatia.

Todavia, dizia Marx – sempre certo nos diagnósticos, sempre errado nas soluções (muito mais por culpa dos que ainda querem aplicar suas respostas para o século XIX no século XXI, anote-se):

Sem sombra de dúvida, a vontade do capitalista consiste em encher os bolsos, o mais que possa. E o que temos a fazer não é divagar acerca da sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o caráter desses limites.

E é essa vontade que não conhece limites e que tem todo o poder o que leva ao mundo que vemos pela janela. Não o regime político, não o candidato A ou B. Mas um sistema que cria um mundo que nos força a lutar por migalhas contra outros esfomeados, enquanto há sempre um menor número de refinados e distintos bolsos, sempre mais cheios de bolo, muito mais do que qualquer mortal precisaria ter e comer.

Eis, senhoras e senhores, o meu diagnóstico. A solução? Eu não ousaria…

Entre remédios e venenos: vale tudo?

Créditos da imagem: perfil “PlebeusOciosos” no Instagram.

Eu quero um mundo sem Alexandre de Moraes. Calma, calma… Respira… Não vem um ataque ao ministro. Tampouco, vem uma defesa. O que tento, a seguir, é uma análise conjuntural da saúde da democracia brasileira após quatro anos de Bolsonaro e com práticos dois anos de Lula “3”. E a primeira frase (um mundo sem Xandão) é quase que o fim da análise. Então, se você tiver paciência, eu quero (re)começar o raciocínio do começo.

E já começo acabando com qualquer mistério. A pergunta do título é retórica: é claro que não vale tudo. É por isso, só por exemplo, que existem crimes de guerra. Se é possível aniquilar um exército inimigo com chumbo e fogo, e “terraplanar” um pedaço de território com bombardeiros e canhões, mas ainda assim, há limites que, uma vez transpassados, merecem represália especial, então não “vale tudo”, em lugar nenhum. Se quiser consultar exemplos de crimes de guerra veja o Estatuto de Roma, ratificado e promulgado no Decreto 4.388/2002, a partir do art. 8º. Nem mesmo na luta de “vale tudo” (de onde o termo veio) realmente vale tudo. Tente lutar com as mãos cobertas por cacos de vidro e você vai ver que não vai ter luta.

O que estamos tentando evitar (estamos, mesmo? Quem?)? Eu acho que nem isso é claro para todos, então eu repito o que pelo menos eu quero evitar: eu quero evitar a volta da barbárie, de uma sociedade em estado de natureza pura, como aquele descrito em Hobbes, onde o homem mais forte vence, mas só enquanto for mais forte. Se ele gosta da minha casa, me expulsa e/ou me mata. Se gosta da minha mulher, idem. Se eu tenho um problema com meu vizinho, bato nele ou apanho – quem for mais forte tem a razão. Mas, o mais forte também dorme. O mais forte também adoece. O mais forte – do tipo “sortudo” – envelhece. E foi assim, de forma muito porcamente reduzida, que a raça humana, em algum ponto de sua história, disse – não de maneira uníssona, claro – “chega… a gente precisa regular os conflitos de uma forma que a força física não seja a régua a estabelecer quem está certo”. Cada tribo e povoado, cada reinado e império; cada qual a seu tempo; chegaram todos à conclusão de que era preciso superar o estado bestial da violência como única baliza a resolver as diferenças, porque a força necessária à violência não serve o homem por muito tempo (velhice), tampouco o serve o tempo todo (sono, doenças[…]), de tal modo que até mesmo parte daqueles que se beneficiavam da violência concordaram que era hora de superar esse meio de resolução. Todos? Não. Nunca somos “todos”. Mas o fomos em quantidade suficiente para que esse abandono de um direito natural ( = pautado nas leis da natureza) em prol de um direito de base social fosse a regra de convívio para nossa espécie.

Não preciso dizer que se estou resumindo algo em torno de dez ou doze mil anos de História (pelo menos isso desde que o homem fundou a agricultura e, com ela, o sedentarismo [em oposição ao nomadismo], germinando as vilas e cidades), também estou sendo extremamente grosseiro (ou seria “romântico”?) com a forma como isso se deu. Se alguém entendeu, pelo meu texto até aqui, que essa compreensão e adoção foi linear e inexoravelmente irreversível, perdão. Mil vezes “perdão”. Mas eu não tenho tempo, nem conhecimento, para contar tal capítulo “do jeito certo”.

O que posso garantir é que o que eu defendo é um modelo de sociedade em que não vence o mais forte, mas vence quem tem certa razão lógica. E “razão” é um desses termos que foi esvaziado de significado. Como eu já apontei, na minha visão, o maior problema dos nossos tempos reside na completa falta de significados compartilhados entre os indivíduos de um grupamento social. Não falamos mais a mesma língua, mesmo quando achamos que sim. Pai e filho, vizinhos, cidadãos… Dizemos o mesmo significante, mas não atribuímos o mesmo significado. E, quando a comunicação regride aos seus níveis mais primordiais, “violência” é um tipo de comunicação basilar. Talvez, o primeiro. Animais irracionais que mantêm os filhotes por perto (nem todos mantêm) adestram suas crias principalmente através da dor. Mordidas, patadas e por aí vai. Algumas geram graves lesões nesse processo “educacional”.

Onde eu estava? Ah, sim: o que eu defendo. Eu defendo a democracia liberal, recriada – ou, ao menos, solidificada – no pós-segunda guerra. Ela nasce das rebeliões contra reis absolutistas no século XIII (daí o “liberal” em seu título, e que nada tem a ver com doutrinas econômicas), mas vai ganhar os contornos que temos por agora, só depois dos anos 1960. É essa democracia que defendo; aquela que me garante um conjunto elementar de direitos (à vida, à liberdade, à dignidade[…]), e que, ao mesmo tempo, garante àqueles ao meu redor (a sociedade) que eu não vou abusar desses direitos de forma a fazer mal à essa coletividade abstrata, inominada, porém, sempre presente. Ninguém vive sozinho. Nem quem diz que vive (se diz, diz para alguém). De quebra, essa democracia que defendo me garante o direito de opinar, de tempos em tempos, em como será construído o Estado: seja pela minha indicação de quem quero no comando dos botões (via eleições), seja me consultado diretamente sobre temas de relevância (consulta pública, referendos, plebiscitos etc.).

Para complicar mais esse desenho de ficção e que se presta a resolver conflitos sem permitir que a violência seja a maior baliza (a esta ficção damos o nome de “Estado”), esse desenho reparte funções do poder estatal para que cada função vigie uma à outra, cuidando que não haja excesso que capture o poder estatal para este ou aquele grupo. Afinal, em troca do direito natural de decidir os conflitos pela força, nos foi dito que o Estado seria o que nós não podemos ser: justo. “Justo” vem de “justiça” e já disse que creio vivermos a era do esvaziamento dos sentidos. Para ficar claro, reestabeleço o que chamo de um “Estado justo” e que nem nos mais loucos sonhos é um sentido cunhado por mim, um insignificante ninguém que escreve a esmo na internê: Estado justo é o Estado que trata os iguais igualmente, e os desiguais desigualmente, na medida de sua desigualdade. Há outro milhão de definições e as outras definições podem ser melhores. Esta é a mais simples de explicar e eu gosto dessa simplicidade por ser didática.

Se meu vizinho e eu temos as mesmas possibilidades, posses e razões (por exemplo, para brigar), o Estado nos tratará igualmente diante do conflito, estabelecendo o que é direito de um e de outro com base em lei prévia ao desacordo. Se não há lei prévia, o Estado, que não tem o direito de se furtar à responsabilidade de resolver o entrevero (a isso damos o nome de “princípio da inafastabilidade da jurisdição”), utilizará de interpretação análoga de outra lei (digamos: uma lei marítima que resolve um problema em terra para o qual não há lei específica) ou a aplicação de princípios basilares do Direito, para achar uma solução para o caso concreto. Se forem muitos os casos concretos que envolvem o mesmo conflito e sem lei prévia que defina o que é certo e errado, o judiciário poderá, então, uniformizar o entendimento que o juiz deve aplicar para resolver aquela situação. Só para exemplo dessa uniformização, mas longe de ser o único meio possível, através da edição de uma súmula vinculante (SV) que, em modernas constituições, só pode ser feita pelo órgão de cúpula do judiciário – no nosso caso, o STF. Até que chegue o dia – tomará, meu Deus, tomará – em que o legislativo saia de seu sono esplendido e realize a função precípua que lhe cabe: legislar ( = criar leis).

Falei que na falta de lei, e de lei que permita aplicação por analogia, cabe a aplicação de princípios, certo? Vejamos um exemplo: No Brasil, a primeira lei que o aluno de direito deveria estudar é a LINDB (Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro). Ela está materializada no Decreto-Lei n° 4.657/1942 (não é como se não houvesse regras antes de 1942… É só o que há de “mais novo” no tema). Há uma série de regras sobre como será interpretado e aplicado o Direito (~= as leis) no Brasil. Só por exemplo, o art. 3º fixa que ninguém pode deixar de cumprir a lei sob a alegação de não conhecê-la. Parece meio óbvio, não é? Mas sem uma lei que diga isso, o Estado democrático não funciona bem porque temos que lembrar que, aos indivíduos, tudo é lícito exceto o que foi expressamente proibido (Constituição Federal, art. 5º, inc. II). Se não há lei que obrigue o sujeito a respeitar todas as leis, seria lógico que o cidadão dissesse “não cumpri essa lei porque não a conhecia e não há nada que me obrigue a conhecer”. Mas, vem a LINDB e obriga todos a conhecer todas as leis. Isso é possível? Lógico que não. Nem o mais competente jurista, vivo ou morto, conhece todas as leis de um país. É impossível. O que esse princípio gera é um “dever de cuidado”. Se você vai abrir uma pastelaria, convém ler o que é preciso para obter um alvará, contratar alguém, respeitar o consumidor e a vigilância sanitária. Você precisa ler sobre impostos de importação? Provavelmente não. Mas o risco é seu e o cuidado de se preparar para as obrigações legais, também. O mesmo ocorre quando você decide deixar de ser pedestre (na origem, todos somos) e passa a ser condutor. Todos devem conhecer a lei de trânsito (CTB), incluindo pedestres! Mas o condutor deve conhecer em detalhes. Senão, vai perder o carro, a carteira e até a liberdade.

Mas não era exatamente disso que eu queria falar em terras de LINDB. Eu queria falar do que ela comanda quando não há lei específica para o problema que o judiciário precisa responder – e, lembre-se: o judiciário SEMPRE precisa responder [negativa ou positivamente] às provocações que lhe são oferecidas através de processo judicial. SEMPRE. Se o judiciário, repartição do poder estatal, pudesse se negar a apreciar ação judicial por qualquer motivo, viveríamos em um inferno ainda pior do que se pode pensar sobre o estado de coisas atual; inferno em que não poderíamos resolver nossos próprios problemas (porque a lei veda o exercício arbitrário das próprias razões – art. 345 do Código Penal) e o Estado – que nos disse para abandonarmos a violência porque ele resolveria as contendas – poderia então, do nada, do nadão, dizer “ah, hoje eu não tô afim não, tá… passa mais tarde…” para sempre.

A LINDB, então, determina ao aplicador da lei – em geral, o juiz, mas não só ele – que, no caso em que [o conjunto de] lei[s] for insuficiente à resolução do problema, deve-se:

Art. 4o decidir o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito.

Art. 5o Na aplicação da lei, atender aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum.

Mais tarde, durante o aprendizado da hermenêutica (interpretação) jurídica, o aluno passa a conviver com princípios como da precaução, prevenção e prudência. Entre outras coisas, aprende que mesmo quando os n lados do conflito tem razões jurídicas amparadas em lei (o que é altamente possível com a “fúria legiferante brasileira” [o excesso de leis]), deve-se privilegiar o lado que tentou evitar um dano diante daquele lado que não se precaveu. Claro: só o caso prático pode tornar essa análise uma resposta concreta. Em abstrato, o Direito é para sempre um grande “depende”. Mas há vários cuidados que ditarão o resultado ótimo de um processo (resultado que nem sempre o juiz do mundo real realiza; mas um juiz-modelo deveria realizar).

Três páginas e eu não cheguei em lugar nenhum, não é mesmo? Vai ficar pior…

Para Raymundo Faoro, autor interessante para quem quer falar em sociologia no Brasil (ao lado dos clássicos de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. e Celso Furtado), especialmente em sua opus magnum (caramba, como estamos chiques, hoje!) “Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro”, há uma diferença fundamental na formação da República Brasileira na comparação com outras repúblicas modernas, e essa diferença reside especialmente na falta de uma verdadeira revolução burguesa como gatilho a iniciar a transição de um modelo monárquico, imperial (ou seja lá qual era sua matriz) para um modelo verdadeiramente republicano. Indo um pouco mais nas premissas de Faoro, vemos que as elites que fundam a colônia portuguesa por aqui nunca se afastaram da fundação do Estado modernizado, de tal modo que as instituições republicanas que surgiram jamais tiveram chance de ter raízes mais profundas neste Estado. Em comparação, a instrumentalização do Estado brasileiro para a defesa e o avanço dos interesses oligárquicos dessas elites sempre foi uma constante no pré e pós “República”. Há toda uma discussão se Faoro realmente entendia o todo que decidiu criticar, já que a ideia de um país inteiramente atrasado porque seu “estamento burocrático” (funcionalismo público) assim o quer é um tanto quanto… Difícil de provar… No mínimo.

Isto não é o mesmo que dizer que em países onde a mudança para sistemas republicanos se deu por verdadeiras revoluções burguesas ( = uma classe sem origens nobiliárias mas, sim, formada por trabalhadores, artesões e comerciantes, doutos em seus ofícios, capazes e competentes o bastante para dominar o destino da economia nacional) estão ou estiveram livres da influência de suas elites no funcionamento das instituições daquele lugar. O que Faoro defende, isto sim, é que a própria construção republicana no Brasil é um arremedo ao valor contido na ideário de “República”. A rés [coisa], no Brasil, jamais foi pública [de todos] (“rés-publica” = república). Para Faoro, o patrimonialismo que faz o agente público entender o Estado e seus mecanismos como extensão de suas posses pessoais, jamais deixou de ser a regra por aqui. Todas as instituições que atuam em nome e em prol do Estado brasileiro foram criadas por aqueles que já eram donos – primeiro da colônia e, depois, da nação – do Brasil, antes da República Brasileira nascer [de um golpe militar contra a monarquia] em 1889. Logo, suas instituições estão, como sempre estiveram, a serviço de seus arquitetos – que se são, sim, parte do povo brasileiro, jamais pensaram as instituições como defensoras de um Estado que visa “um país para todos”.

Oras… O que estou dizendo, então? Tudo está arruinado; não resta nada a salvar; é um edifício condenado esse tal de “Estado democrático de Direito” da “República federativa do Brasil”? Olha… Se eu não morasse “no edifício”, talvez eu achasse mais fácil jogar no chão e fazer de novo. Talvez seja, mesmo, este o ponto crucial que me separa dos fatalistas e dos anárquicos correntes. Eu moro no prédio e não quero que ponham ele abaixo, comigo dentro. É claro que é o caminho fácil, mas também é o caminho fácil matar todo mundo que discorda de mim. Deve ter outras razões, então, que me impedem de adotar quaisquer desses caminhos. E esse é o dilema com qualquer país, com qualquer estado, com qualquer município, com qualquer grupamento de pessoas. Você praticamente nunca tem a chance de “pôr tudo abaixo e começar do zero”. É o avião que está em constante reparo e melhoria enquanto voa. Não pode pousar, não pode ser desmantelado enquanto voa. Partes cruciais precisam ser mantidas a todo custo, mesmo que não sejam ótimas, uma vez que ele saiu do chão. Alô Mangabeira Unger! Alô imaginação institucional! (Outro tópico, outro dia).

E, claro: há aviões que vão de encontro à terra. Na analogia aos países, há os que se acabam, geralmente em guerra civil, em pobreza extrema, em dominação, anexação e outras catástrofes para esses povos. De novo: morando dentro do prédio (ou de carona nesse avião metafórico), eu não quero nada disso para o meus país, não…

As instituições, por outro lado, são os sistemas de bordo ou o piloto-automático do nosso avião. Quando alguém diz que o mais importante em uma democracia (seja ela republicana ou monárquica) são “instituições fortes” é exatamente nesse sentido de combater o rapto do Estado – que detém o monopólio da violência – por parte de quem quer mantê-lo (ou adicioná-lo) como seu patrimônio pessoal. Instituições podem ter nomes de órgãos e prédios, como “Ministério Público” ou “INSS”. Mas, instituições podem ser conceitos ao invés de lugares ou repartições. Por exemplo, a instituição “devido processo legal” pode ser forte ou fraca. A instituição “sistema universal de saúde” pode ser empoderada ou inviabilizada.

“Instituição” vem da ideia de “instituto” e do ato de “instituir” que, neste contexto, transmite a ideia de atribuir (a si mesmo ou a outros) uma missão. Quanto mais duradoura é a missão (por exemplo, garantir o direito à assistência jurídica aos que não tem condições financeiras), melhor é o instituto (no caso exemplificado, a Defensoria Pública), no sentido de que é possível criar uma cultura de valores e importância daquela instituição ao longo dos anos, tanto para a sociedade que passa a conviver com aquela instituição e ver seus frutos (bons e ruins), quanto internamente para aqueles que dão vida à instituição ao longo de gerações de trabalhadores que por ali passam.

Meu raciocínio está ficando mais claro pra você? O patrimonialismo denunciado por Faoro seria uma má-formação congênita de uma república em que pequenos grupos, muito poderosos, até permitem que a república se forme e o Estado passa a existir não pela vontade de um monarca, mas sim porque o povo assim quer que seja. Esse patrimonialismo permitiria que a república exista, mas ele desejaria instituições fracas. Porque instituições fortes fazem o que sua missão manda, doa a quem doer. E isso não pode acontecer jamais. O Ministério Público não pode denunciar “doa a quem doer”. A Polícia não pode investigar e prender “doa a quem doer”. A Escola não pode ensinar “doa a quem doer”. O Hospital não pode curar “doa a quem doer” (imagina! Pobre vivendo muito! Quem vai pagar essa conta? Daqui a pouco, falam em taxar fortunas de novo…). E é neste ponto de que discordo de Faoro, porque, diferentemente do que ele considera como a origem do mal (o funcionário público “hereditário”, de família naquela instituição e por aí vai), eu acho que esse funcionário que desvia a máquina em seu favor é só mais uma consequência do que uma causa-raiz e está longe de ser a regra no serviço público; há muito servidor tentando viver e dar vida à missão institucional. Para mim, o problema continua sendo da elite que “autoriza” a República brasileira, como indicou Oliveira Viana ou Victor Nunes Leal.

O Brasil é uma República “doa a quem for mais fraco”. Não pode ser do outro tipo porque quem permitiu que a República se fundasse por aqui não quer que isso ocorra – e, não: eles não estão todos numa sala à meia-luz, tomando whisky de milhões e fumando charutos de bilhões… Isso é fantasia de “cumpanheiru”. Essas elites sequer concordam quanto aos rumos a tomar, a seguir… A elite agrária de um país raramente concorda com os interesses da elite industrial – só por exemplo. O que essas elites apenas sabem é que não querem um Estado que possa lhes impedir de fazer o que querem, quando querem; nisso, todas elas concordam. E para não ser uma República “do outro tipo” (“doa a quem doer”), instituições não podem ser fortes (no sentido de ter uma missão clara, tão imparcial quanto se possa conceber, aplicada contra tudo e contra todos, ao longo dos tempos, todas as vezes).

Um dos meios de criar instituições fracas é deixar suas missões embaralhadas, dúbias, incertas, erráticas… Outra forma de enfraquecer instituições é colocar figuras personalistas e populistas em sua direção.

Eu já desenvolvi contigo o porquê de estarmos nessa: do porquê abrimos mão do direito natural de resolver tudo na força; do porquê um Estado democrático dividir seu poder em funções; do porquê um Estado democrático dever ser protegido, já que ele garante meus direitos e te garante que eu não abusarei deles, ao contrário de outros tipos de Estado (totalitário, absolutista, de exceção…). Já discorri sobre o porquê da função do Estado chamada Estado-Juiz, ou judiciário, não poder se negar a resolver as desavenças que lhe são denunciadas. Também falei o porquê não gosto da ideia de jogar tudo fora e começar de novo, comigo morando dentro do prédio que (hipoteticamente) você quer demolir. Finalmente, falei de porquê o Brasil teima em ser uma república meia-boca, e como as instituições são elementares no processo de fundamentação de uma real república, coisa que o Brasil nunca chegou a ser à vera (de novo, vide Oliveira Viana, vide Victor Nunes Leal – o loteamento do país é uma constante, ora por um tipo de força, ora por outra).

O que está faltando? Está faltando falar sobre a defesa da Democracia. Eu já disse o porquê eu acho que ela deve ser defendida. É um sistema com falhas e vícios, contudo, todos são. Só que os defeitos dela ainda são menos horríveis do que os defeitos de outros sistemas. Se a Democracia será presidencialista, parlamentarista ou até monárquica (como é o caso do Reino Unido e sua monarquia parlamentar – “monarquia” que, em nossos tempos, ainda é o oposto de “república”, mas não de “democracia”) isso não me importa por agora, embora eu também tenha preferências nesse campo.

O que eu quero é salvar um Estado que se rege e se restringe pela Lei (com letra maiúscula, pois aqui funciona como uma instituição). E aqui, a coisa toda começa a tomar forma: enquanto o cidadão pode fazer tudo aquilo que a Lei não proíbe (lembra da CF, art. 5º, inc. II ?), o Estado democrático de Direito só pode fazer aquilo que a Lei PERMITE. A isto, damos o nome de princípio da (estrita) legalidade (vários lugares na Lei o evocam. Ex.: art. 37 da CFRB). Essa não é uma conversa nova se você costuma ler as bobagens que publico por aqui. Porém, é sempre importante (para mim) ter a certeza de que o texto que apresento tenha certa consistência em si e permita a apreciação por qualquer um: quem chegou agora nesta seara e quem já está aqui há muito tempo.

O dilema atual da defesa das democracias é que, diferente dos anos 20 e 30 do século XX (1900s), os ataques às democracias não vêm de países sob regimes totalitários. Nem mesmo vêm de grupos extremos internacionais, como sugeriu-se que ocorreria com o terrorismo que aflorou no início dos anos 2000. O ataque às democracias no século XXI, década de 10 e 20, vem quase sempre “de dentro”. Do povo. Do povo que, em tese, autorizou a fundação do Estado democrático de Direito.

Nós poderíamos passar mais 80 páginas discutindo o porquê dessa ruptura entre criador e criatura, mas ficam dois bons livros para entender o cenário dessa onda atual de ataques às democracias. O primeiro é o bem conhecido “O Povo contra a Democracia” de Yascha Mounk. O segundo é o também popular “Como as democracias morrem” de Steven Levitsky e Daniel Ziblat.

O primeiro livro teorizará que a democracia está sob ataque por n fatores, como os econômicos e sociais (estagnação do poder de consumo, medo da imigração e o choque cultural, efeito do uso de redes sociais e da disseminação de desinformação) influenciando aquelas sociedades (no caso deste livro, o autor foca nos motivos para EUA e Reino Unido), a percepção de que os interesses privados de cada um são mais importantes que os objetivos coletivos, e de que o acordo social em vigência (em geral, uma constituição) não foi autorizado por si e, portanto, não é válido; a tudo isso soma-se a descoberta por atores políticos reacionários ( = que desejam o retrocesso das conquistas sociais atuais [em geral, das liberdades individuais e garantias de grupos historicamente perseguidos]) sobre como fazer um governo autoritário, no entanto, dentro das regras legais.

O segundo livro dirá que as democracias já não morrem por meio de violentos golpes de Estado, mas através de uma erosão silenciosa e contínua das instituições democráticas. Levitsky criticará a falta de regras democráticas que exijam de todos os atores políticos a obrigação de conviver com adversários e opositores e, ao mesmo tempo, a falta de capacidade para impedir que o governo em exercício “abuse” dos poderes institucionais [ainda que de forma legitima], pois, assim que forças adversárias chegam ao Poder, a primeira providência é limitar os poderes institucionais que causaram incomodo, enfraquecendo as instituições. Igualmente, o autor apontará como culpados os partidos políticos tradicionais que, sabendo do apelo de personagens populistas radicais (à esquerda e à direita), tentam convidar esses atores para dentro do sistema político sonhando que poderão controlá-los, uma vez eleitos. O livro ainda faz um paralelo interessante navegando pela recente história de países europeus (notadamente, Hungria) e latino-americanos (ex.: Venezuela ou Nicaragua) que percorreram esse caminho de “erosão por dentro”. Finalmente, o autor deixa um roteiro de “alerta” para detectar a “erosão por dentro” de forma prematura: ataques ensaiados e orquestrados à imprensa livre, ao poder judiciário e às instituições que vigiam o cumprimento das variadas normas em uma democracia (no nosso caso, são exemplos: CGU, Anvisa, Ibama…).

O desafio de defender a democracia nos nossos tempos é que o ataque é interno. O ataque vem de quem deveria defendê-la. E, talvez, esse seja o sinal mais claro de que deveríamos deixar ela morrer. Afinal, é como se eu estivesse há alguns meses da queda da Bastilha e seguisse escrevendo num folhetim para distribuição às margens do Senna: “franceses raivosos querem pôr tudo a perder, só porque não gostam de como tratam os presos na Bastilha!”. Se o povo quer o fim da democracia no Brasil ou em qualquer lugar, o povo está certo, não é mesmo? … Sei não…

Se estivéssemos discutindo o fim da democracia por um sistema novo, que se discutiu aqui e ali, que só um país está testando (digamos, um sistema gerido por IA – [Ave Maria… É só exemplo, hein?]) poder-se-ia dizer que tudo o que se disse até aqui foi apenas impulsionado por “medo de algo novo”. Acontece que não é isso o que está se passando. O que as pessoas com raiva da democracia querem é o fim desta e o retorno de sistemas já testados no passado, como o totalitarismo das ditaduras, geralmente com tons fascistas quando não, o retorno de oligarquias que deem soluções óbvias e fáceis para problemas complexos (tá faltando emprego? Que tal voltarmos a extrair carvão das minas?). São soluções óbvias e fáceis, como também são absolutamente erradas. E vão fazer os mais fracos (em todos os sentidos) sofrerem mais.

Este é o dilema dos nossos tempos: é claro que o Estado brasileiro de 2024 está aquém dos anseios de seu próprio povo. E o Estado brasileiro de 1960 também estava. E o Estado brasileiro nunca esteve além dos anseios de seu povo, nem mesmo nos melhores anos de FHC ou Lula. Claro, teve-se um vislumbre, um brilho, uma esperança aqui e ali. Contudo, nada disso durou mais que “dois Mississipi[s]”… É o Cristo Redentor começar a voar na capa da The Economist para alguém da elite brasileira se enfezar com o pobre vencendo na vida [“pobre”, na visão deles, é todo mundo que precisa trabalhar pra viver] e vir derrubar la puerra tueda… Ora a elite econômica, ora a elite intelectual, ora a elite jurídica (porque não é surpresa para ninguém que filho de desembargador e ministro, dembargadorzinho e ministrinho é, certo?). Até porque, nas polêmicas palavras de Faoro, isso aqui nunca foi uma República e o Poder sempre teve dono[s].

Bem, qual é o mega-drama então? A defesa da democracia não pode, diante desse novo estado de ânimos e forma de ataques, se dar em abstrato. Ou seja: com ataques que a corroem por dentro, e vindo de todos os lados (seu povo, redes sociais governadas por [leis de] países e [interesses de] empresas e pessoas externas ao Brasil, elites sociais querendo a diminuição do poder das instituições que lhes incomodam[…]), o Estado não pode esperar que tudo apodreça para que, só aí, medidas comecem a ser tomadas.

Ok, mas eu também disse que o Estado só pode fazer aquilo que a Lei permite. Senão, não é mais democracia. Porém, a lei nunca é escrita de forma a prever todos os casos do mundo real porque, advinha: é impossível prever todos os casos. Por outro lado, é um perigo escrever uma lei que descreve genericamente um crime, porque se a descrição é genérica, o agente estatal pode decidir se a aplica ou não. Então, não ter uma lei específica para proteger a democracia é ruim, mas ter uma muito abrangente também não funciona. E pior ainda seria uma lei que é genérica a dizer o que são crimes contra a democracia, permitindo que cada governo de momento aplicasse esta lei contra seus desafetos. Qual a solução? Até parece que eu sei. Ninguém sabe, de verdade. O que se tem hoje são, isto sim, indícios.

Deixo e sugiro a leitura do bom trabalho (relativamente curto) de Jan-Werner Müller, infelizmente em inglês, sobre “democracias militantes”. O conceito tem sua fundação relacionada ao fim do regime nazista na Alemanha e descreve uma postura em que o regime democrático mata “a serpente ainda no ovo”. Toda vez que um “ator político” (não necessariamente filiado a partidos, ou anunciado candidato a nada) passa a ventilar ideias que visam desmontar a democracia, ideias que, como visto nas obras de Mounk ou Levitsky, visam enfraquecer instituições, frear a capacidade da lei de ser aplicada a este ou aquele, remover proteções de abusos de direitos individuais e tudo aquilo que contraria o “tripé democrático” (liberdades, proteção coletiva contra o abuso das liberdades, participação popular na formação dos governos), então é chegada a hora da democracia militante atuar e acabar com essa farra. O “acabar com a farra” deve, é claro, seguir algum pressuposto legal, e não estamos tratando de uma “democracia que tortura e mata opositores” para se defender. Contudo, se há lei já prevendo restrição de direitos (e.g. apreensão de passaportes), inquéritos, interceptações telemáticas, e até mesmo prisões preventivas para lidar, digamos, com o tráfico de drogas, por que essas mesmas leis não poderiam ser utilizadas para investigar quem quer acabar com o Estado democrático de Direito?

Eu não vou, por uma questão óbvia de extensão, revisar todo o artigo de Müller, mas eu posso afirmar que nesse conceito de “democracia militante” há um divórcio incontornável entre uma visão de democracia estrita e, por assim dizer, positivista (se está escrito: pode; se não está: não pode), e uma visão mais jusnatural ou jusracionalista (de um direito maior, que emana de princípios anteriores à concepção do próprio Estado), ou até mesmo, atualizando para termos correntes da Academia, mais Dworkiana, de um “Direito interpretativista, idealista”, que se adapta a certas noções de um bem maior, numa sociedade que parrilha de um certo norte moral, que não para na letra fria da Lei e que exige e demanda um profundo exercício cognitivo do aplicador da lei, em todas as instâncias.

Para os positivistas clássicos (exclusivos) é errado emprestar o sentido de uma lei que é clara em sua formulação para a aplicação em outro lugar completamente distinto da origem a qual a lei versou. Isso seria, nesta visão, também o fim do princípio da estrita legalidade já que, agora, o Estado até usa a lei para se embasar, mas a usa com “muita liberdade de interpretação”.

Para “o outro lado”, numa leitura mais apoiada em Dworkin e com maior ligação ao sistema da Common Law americana ou inglesa (em oposição ao nosso sistema romano-germânico, de Civil Law) o Direito versa sobre a vida em sociedade, sociedade que não para e não pode parar. Portanto, é uma estupidez sem tamanho esperar que a lei vá cobrir todos os casos e hipóteses do mundo, antes de poder ser utilizada para o seu fim maior: harmonizar as relações humanas e garantir que o monopólio da violência continue com quem deve ficar: o Estado. Afinal, diriam, o nosso Código Civil é de 2002, última vez que a seleção de futebol brasileira ganhou uma copa do mundo. Metade do meu público não estava nascido, e a outra metade ainda estava há três anos do lançamento do primeiro celular da Apple, um tal de iPhone.

Claro: de lá pra cá, o Código Civil brasileiro já sofreu diversas emendas e alterações. As leis podem ser (e são) reformadas. Mas é humanamente impossível imaginar que a Lei esteja “em dia” com as mudanças sociais (e em alguns cenários – como no direito penal – isso sequer é saudável), e é absurdo pedir que o Estado não faça nada até que o Congresso Nacional decida legislar sobre um novo tema. Esse “não fazer nada” é um convite ao retorno da violência entre os pares, porque eu não vou esperar dez anos até a lei ser elaborada, enquanto meu vizinho me inferniza com um – digamos – drone passando na minha janela, filmando minha vida privada, fazendo um barulho chato pra danar no meu quarto logo cedo. Não… Já temos leis que dizem os limites para as liberdades individuais. Já temos garantias coletivas contra os abusos dessas liberdades, já temos instituições que podem vigiar essas relações (no caso hipotético: ANAC, DECEA, polícia federal, civil, militar…). Por que esperar? Por que não agir e proteger a convivência enquanto ainda há uma convivência para proteger? Lembra do princípio da prevenção, e da predileção do Direito por quem age para evitar o dano?

Todavia, aqui… Aqui, a conversa é BEM mais embaixo… Não estamos falando de um voo de drone, ou de o uso de uma rede social, mas do próprio direito (hipotético) do coletivo em “perder a paciência” com o Estado que o regula. Regula ao ponto de proibir que esse coletivo use a violência, seu primeiro direito, abdicado em prol de uma vida menos… Violenta. Mais longa. Menos hostil. Mais previsível.

Se a lei pode ser utilizada [pelo Estado] para impedir que um grupo enorme de pessoas diga que não quer mais viver sob os moldes constitucionais atuais, como isso se diferencia das ditaduras? Só porque há uma constituição escrita que diz o que é certo e o que é errado? Como Müller magistralmente lembra em seu artigo, Stalin mandou redigir uma constituição de 1936 que era um sonho-molhado-erótico pra democrata nenhum botar defeito. As assembleias populares do nazismo, que tinham forçam legiferante no regime, proclamavam os louros de um modelo que respeitava as diferenças políticas. “Porque está na lei” é um péssimo argumento, a qualquer tempo, para constituir obrigações e restringir direitos.

Então, como diabos saber qual a diferença entre uma democracia sadia, virtuosa, moralmente adequada, que se protege justamente de atacantes covardes e numerosos antes que eles possam efetivamente solapá-la, vs. uma ditadura que esmaga qualquer um que pense diferente, com base só numa leitura porca, malfeita, enviesada e inconstante do que essa mesma ditadura considera – e ela mesma produz – como “lei”?

Outra vez, a resposta é: “e eu sei lá?!”…

Talvez, só talvez… Seja como ter uma religião dentro de si. Não importa o que os outros digam você sabe quem é seu(sua) Deus(a), o que Ele(a) prometeu, e porque Ele(a) é o verdadeiro(a) enquanto todos os demais são falsos (se não são falsos, são só uma leitura desviada do verdadeiro Deus(a) que só o seu grupo conhece e segue, corretamente). Talvez não tenha, mesmo, como demonstrar racionalmente o porquê uma democracia pode passar por cima dos limites legais habituais para se proteger de quem quer destruí-la, antes que seja tarde. Ou, mais gravemente afirmando: talvez não seja possível fazer isso, mantendo essa democracia moralmente superior a um regime autoritário.

No entanto, já se foram nove páginas e eu não consegui sequer tocar no assunto principal. Fica em paz, porque não vêm outras nove páginas. Na verdade, eu não falei do “assunto principal” porque não há nada – de verdade – pra falar do assunto principal. Isso tudo não tem a ver com o ministro Alexandre de Moraes, na realidade. Ele é só um personagem que esse arco da História brasileira propiciou o aparecimento.

Querem que eu faça um artigo justificando tecnicamente, dentro da interpretação disponível no Direito brasileiro hodierno, todas a decisões de Moraes no bojo dos inquéritos que ele conduz (Fake News [INQ 4781] e Milicias Digitais [INQ 4874])? Eu faço. É fácil. Juro. Tem autor para citar, jurista pra recorrer, jurisprudência para apontar. Juro que é fácil justificar, tecnicamente, todas as atitudes dele. Citação por rede social? Fácil: art. 196 do Código de Processo Civil e resoluções 354/2020 e 455/2022 do CNJ. Moleza… Querem que eu justifique intimar dono de rede social para constituir representação legal em território brasileiro? Muito fácil: Lei 12.966/2014 [Marco Civil da Internet], combinada com Código Civil (na parte de responsabilidade pela PJ) e Código de Defesa do Consumidor combinado com a LGPD (e as obrigações que surgem à PJ que guarda ou trata dados de nacionais), mais um punhado de regulamentações infralegais emitidas por várias agências reguladoras. É, de verdade, fácil justificar. Então, por que eu não faço isso?

Porque nada disso vai mudar o sentimento de ninguém. Quem já acha que a justiça brasileira tem que ser obedecida, já acha isso antes da justificativa técnica. Quem já acha que o STF é amigo do Lula e inimigo do povo brasileiro seguirá achando exatamente isso, não importando que eu apresente as flagrantes violações de soberania cometidas pelo bilionário que mija no Brasil mas dá a barriguinha pra Índia, China, Hungria, Turquia… Não importa que eu demonstre que não se pode enfrentar um golpe de Estado só quando ele já aconteceu (pois, será tarde demais para a Ordem Constitucional atual).

Não é, faz muito tempo, uma discussão técnico-jurídica. Ela é 100% política e, como tenho defendido, especialmente após ler a obra de Bryan Caplan, “O mito do eleitor racional” é o maior dos mitos aquele que diz que as pessoas se informam e, com base nisso, decidem o que (ou quem) apoiam. Se assim fosse, bastava todo mundo ler os mesmos jornais ou assistir aos mesmos programas, e todos iriam para um lado ou para o outro. Na verdade, todos já escolheram seus lados e, na esmagadora maioria de casos, de forma irracional, misturando sentimentos com visões pessoais de mundo que se baseiam tanto em experiencias muito particulares quanto em preconceitos e, por cima disso tudo, passaram um verniz que tenta sempre juntar o maior número de argumentos a favor daquilo que creem, mesmo que o número (e qualidade) de argumentos em contrário seja muito superior (ou melhor).

Existe parcela expressiva da população (de novo, quase 50%) que acredita que o Estado brasileiro é um problema em si, sua existência deve ser extirpada ou violentamente reduzida, e as liberdades individuais devem ser perto de totais, erga omnis (tô gostando do rebuscado: “oponíveis a todos”). Cada cachorro que lamba sua caceta, “solidariedade social” é “meuzovo”, todo governo não presta, eu não concordei com nada disso que está em vigor e querem que eu aceite na marra, então vamos para o “tudo ou nada”. Inclusive, valendo massacre (“vamu fuzilar a ptralhada aqui do Acre…”). “Ah, é só força de expressão, retórica, piada de mau gosto” … Sempre é. Até não ser mais e passar a ser outra coisa. O nazismo, contam os livros de História, não nasceu monstruoso.

Do outro lado dessa briga de torcidas, também tem um pessoal chato pra danar, que fica falando em “fascismo” sem conseguir explicar o que é o fascismo, “letramento [bote-aqui-o-que-quiser]”, “falas problemáticas” e um bando de outras “senhas” para demonstrar a própria iluminação para seus grupelhos, mas que não ajudam a pousar no chão da realidade uma ideia sequer de como resolver um país na antessala da guerra civil. É a turma da “reparação histórica” que não tem outra finalidade senão a vingança. Que acha que boa parte da sociedade brasileira precisa abaixar a cabeça e pedir perdão por um passado que é absolutamente grotesco e lamentável, sim, mas que não tem o condão de contratar culpa ou responsabilidade para as novas gerações, sob a perigosa hipótese de fraturarmos o amalgama social de uma nação em definitivo. Assim eu penso. Esse identitarismo é, para mim, parte da gênese da alopração que vivemos atualmente. Mas, não vai caber aqui mesmo sendo importante.

Aí, tem um mundaréu de gente no meio dessas duas grandes torcidas organizadas, sem certeza alguma de quem está certo e desconfiados de que a situação é muito mais complexa do que “fascistas vs. esquerdistas/comunistas” querem fazer crer que é. Não basta que um lado vença, não basta que o outro lado suma. Não parece haver volta para um momento em que todos pareciam apostar no contrato social em vigor. A cada ciclo eleitoral e a cada radicalização de parte expressiva da população, vai ficando mais evidente para esse grupo de pessoas que a política nacional e local é cada vez mais hostil e não há volta. No limite dessa radicalização o rompimento surge como único prêmio e, como eu já havia dito, a História conta que esses são cenários onde, dado o tamanho parecido dos grupos sociais em confronto, a violência ou a guerra civil são o resultado.

“P&%#a Rodrigo, cê falou em guerra civil? Exagero, não?”. Duas observações: por uma visão estereotipada do que é a sociedade brasileira, bem como um desejo das elites em ter margem de manobra e controle sobre os ânimos do povão, fomos ensinados que o cidadão brasileiro é um sujeito pacífico por natureza, contrário à violência e naturalmente tendente à paz. E é por isso que matamos quarenta mil (40.000) nas estradas anualmente (392.000 se somarmos a década de 2011), e outros quarenta mil (40.000) na violência-de-cada-dia-nos-dai-hoje em 2023. Porque somos pacíficos. O segundo ponto é que, de fato, tivemos inúmeras guerras civis na história do Brasil, mas nunca receberam este nome. Era um tal de “Revolta disso”, “Revolução daquilo”, “Levante de não sei quem”… Para ficar em três episódios dentre dezenas: Inconfidência mineira, Cabanada e Tenentismo… Só três… Mas tem MUITO mais episódios de todos os tamanhos e épocas. Até guerra civil por vacinação teve (qualquer coincidência com os dias atuais não é mera coincidência). Guerra civil é isso: uma parte da sociedade se organiza e se arma (com o que tiver para se armar) e ataca [e é atacada pelo] o “Estado oficial”.

Nós vamos, daqui por diante, sair da antessala da guerra civil e entrar num novo conflito de ruptura da sociedade brasileira? Sei lá, a bola de cristal tá com problema no platinado, não tá pegando nem no tranco. Deixo previsões para quem tem “letramento em cultura cartomântica”. O que posso dizer (olhando para trás e não para frente, sempre lembrando que a História não serve pra prever o futuro, mas pra aprender sobre a dinâmica de como esses movimentos se deram no passado) é que toda vez que parte expressiva de um povo chegou na conclusão de que um dado acordo social, geralmente plasmado em uma constituição, não era mais do interesse desse grupo, porém, tal grupo não tinha massa suficiente para reformar tal acordo social pelo caminho legal, a solução se deu na porrada. Às vezes, com a fundação de novas nações. Às vezes com a capitulação ou, até mesmo, o massacre de um dos lados.

Eu queria um mundo sem Alexandre de Moraes. Não pelo que ele faz ou deixa de fazer, porque eu até concordo que alguém tinha que fazer, já que defendo a continuação da Democracia brasileira, refundada em 1988. Porém, se o STF fosse uma instituição forte, em uma República de verdade, um Alexandre de Moraes não precisaria jamais existir. O fato de ele liderar as ações de combate àqueles que participaram da tentativa de golpe no 8 de janeiro, e de tudo que aconteceu antes – bem antes, já em 2019, quando do primeiro inquérito instaurado – é simplesmente uma questão de perfil. Certamente, ele é um dos mais combativos dentre os onze ministros e aquela instituição decidiu que ele colheria os bônus e os ônus dessa atuação como “homem de frente”. Também, afirmo que se a instituição STF não concordasse com as medidas que Moraes toma e tomou elas já teriam sido cassadas há tempos, e ele teria saído da condução dos inquéritos “por motivos pessoais, de saúde, de família, de o raio-que-o-parta”.

A ideia de um STF, órgão de cúpula (= “que tampa a pirâmide”) do judiciário brasileiro, descendo do degrau de instituição máxima do Estado-Juiz e passando a figurar no imaginário de parte expressiva do povo como só mais um ator político, como seria o caso do senador do partido X ou governador do partido Y, é de todo danosa à saúde e longevidade da instituição de uma Suprema Corte numa democracia. Que o STF desempenha um papel político (como a Presidência ou o Congresso), isso é óbvio e tem que ser assim já que ele é apenas uma repartição do poder do Estado brasileiro. Poder que é sempre uno. Que o STF desempenha papel na política nacional não é nada de novo. É para desempenhar, mesmo. O que não pode acontecer é isto ser entendido como atividade político-partidária. Porque os partidos, numa democracia saudável, se alternam no Poder. Mas o STF estará lá “para sempre” (enquanto durar a ordem constitucional de 1988).

Por outro lado, não há instituições, nem democracia, nem Estado democrático, se ninguém defender essas ideias e instituições das agressões que as miram. Todavia, “defender a democracia” de quem? Do seu próprio povo? E no caso hipotético de um povo que está sendo movido por motivações egoístas, antissociais, totalitárias e autoritárias, sendo manipulado em seu ódio por meio de grandes corporações que, com suas redes sociais configuradas para espalhar mentiras e meias-verdades, atingem a toda a massa em questão de segundos, sem chances de uma reação com a verificação dos fatos por parte de órgãos de imprensa livre ou instituições oficiais do Estado… Vamos salvar a democracia para quem? Quem somos “nós”? “Nós” quantos?

O Direito e sua teoria não têm respostas definitivas, porque a realidade é sempre móvel. No caso concreto que comento por aqui, ele tem ainda menos respostas porque a natureza do problema não é exatamente um conflito entre “legal” ou “ilegal” (= técnica), mas entre “legitimo” e “ilegítimo” ( = moral) e o Direito, enquanto área aplicada da sociologia, só pode existir numa sociedade que considera o Estado democrático de Direito como algo legitimo, para começo de conversa. O Direito (as leis, as lógicas, as regras, as obrigações[…]) que emana desse Estado democrático, pressupõe sua própria legitimidade a partir da concordância e anuência do povo (ao menos, concordância e anuência de ampla maioria) acerca da legitimidade, não das leis, mas do Estado democrático de Direito como um todo.

Se o Estado democrático de Direito é fundado a partir da assembleia constituinte e se o produto disso – a Constituição – não é mais considerado legítimo por parte expressiva da sociedade, não há, sinceramente, nada que o Direito – enquanto ciência – possa fazer a respeito. E se estou errado e a maior parte da população entende que a Constituição de 1988 ainda é legítima como acordo social entre todos nós, então, a atuação de Moraes encontra guarida constitucional nos mais variados prismas da análise, ainda que possamos discordar em certas inovações no rito de seu expediente. Todavia, o Direito Constitucional, excetuando-se o que tange ao julgamento de crimes, socorre-se do Direito Processual Civil, e do Direito Processual Civil decorre o princípio da liberdade das formas que estipula certa supremacia dos objetivos por sobre os meios. Ou seja: desde que os métodos atingiam os fins ao que se destinam, não há ilegalidade presumida (vale tudo? você já deveria saber que não).

No entanto, nada disso seria preciso se a instituição “República Democrática” fosse forte no Brasil. E Moraes não seria preciso porque o povo (ou sua esmagadora maioria) não admitiria qualquer tentativa de atrofia ao Estado brasileiro ou às suas instituições que dão vida à promessa constitucional de 1988 (fundando uma nação mais segura para todos os tipos de pessoas [não importa a cor, o gênero, a religião…], materialmente menos desigual, de uma sociedade mais fraterna, onde quem tem mais deve oferecer mais e quem tem menos deve receber mais ajuda porque, no fim, a sociedade brasileira quer a melhor oportunidade para todos – tudo isso está lá). E todos os limites e acordos de convivência costurados àquela época visando o nosso futuro como sociedade e nação seriam protegidos com unhas e dentes. E as instituições (não os atores) se defenderiam, e defenderiam às demais, cada qual com sua missão clara, vindo à vida todos os dias. As polícias investigariam os abusos via inquérito; os Ministérios Públicos e Procuradorias denunciaram os crimes, se manifestados nas investigações; os juízes, desembargadores e ministros julgariam as ações e condenariam quem conspirasse contra a Ordem Constitucional em vigor, fosse civil ou fosse militar, fosse rico ou fosse pobre, fosse de direita, de centro ou de esquerda. O STF e seus onze ministros assistiriam a tudo, apenas garantido que a missão da CF/1988 estava sendo cumprida e jamais violada, por ninguém (e “ninguém” quer dizer ninguém). No choque entre direitos constitucionais, o STF daria razão a quem tentou evitar o dano à Democracia, antes de qualquer outro caso.

Dizem que a diferença entre “sonho” e “delírio” é o tamanho da chance de transformá-los em realidade.

É… Complicado…

O judô e a lei; as olimpíadas e a vida.

Créditos da imagem: Reuters / Kim Kyung-Hoon

Nota: Este texto foi escrito em 31 de julho, mas publicado em 1 de agosto de 2024.

O judô nos ajuda a entender que a preocupação é um desperdício de energia.

KANO, Jigoro.

Poxa, Kano-Sama… Fico sem graça de admitir, mas talvez seja o caso de eu devolver a minha faixa ao Katchborian-Sensei. Ela nem é tão graduada… Tá ali, no meio da lista dos kyus ( = faixas coloridas)… Mas eu não aprendi a parar de me preocupar ou, ao menos, a tratar as preocupações da vida como desperdício (e, portanto, ativamente evitá-las). Em qual dan (que é o grau da faixa preta) o senhor estimava que o Judô ensinaria isso ao judoka (“ka” ~= “praticante”)? Só pra eu ter uma noção do quão longe estou dessa iluminação…

Quem me acompanha mais de perto por aqui, sabe que sou apaixonado por olimpíadas. Claro que acompanho copa do mundo de futebol; nasci no Brasil, isso está no contrato social do país. Mas olímpiadas, eu tiro férias. Nada é mais importante dentre “as coisas sem importância” na minha vida, durante essas 3 semanas.

Cesare Pavese disse que toda a vida é política. Ele também é o dono da frase tão repetida por aí de que “política é a arte do possível”. Lembro de Pavese porque há quem não consiga tratar nada pelo seu valor de face. De outro modo, para algumas pessoas, tudo tem uma agenda oculta e, tendo, não se pode apreciar nada pelo que está imediatamente disponível no seu corpo de significados mais visível. Ainda, de outra forma, as olimpíadas, enquanto evento organizado e mantido por instituições privadas, atenderiam a interesses tais que sua função de superestrutura é evidente (numa classificação Marxista, importante para o argumento, porquanto se põe como teoria crítica da sociedade capitalista que teria fundado também os jogos e seus propósitos menos óbvios).

Não tô me fazendo entender? Vamos de novo: para muitas pessoas, todos os eventos que envolvem lucro financeiro têm apenas a função de enganar e distrair as massas enquanto os verdadeiros fenômenos de controle e submissão são ainda mais apertados contra os nossos lombos. Pão e circo na sua forma mais refinada, é o que é uma olímpiada. Se for em 4K então, vixe…

Então, como é que eu gosto de olímpiadas se a missão dos jogos é me enganar para a verdade da minha situação, sempre mais precária do que ontem? É simples: eu não compro a explicação que acabei de dar. Ou, melhor dizendo, eu não compro a parte em que ela faz dos jogos olímpicos algo a se detestar.

Oras, ninguém tem duvidas do poder do “Sportswashing”, tem? Alguém acha que os países árabes injetam caminhões de dinheiros em clubes de ligas europeias ou compram uma porção de jogadores que custam milhões de dólares mensais (eu disse “milhões de dólares… mensais…”) porque “amam muito ver futebol de alto nível”? Sério? Alguém acha que o Catar brigou para sediar a copa do mundo de futebol, por amar futebol? A seleção profissional do Catar não passou da fase de grupos e fez um mísero gol! Que amor pelo futebol é esse?

Mas aqui vem uma dualidade: Se as pessoas orquestrando esses eventos não amam os eventos que orquestram, as pessoas que participam da feitura deles (de forma direita ou indireta) e que assistem a eles, os amam. Eu amo, pelo menos. O que eu recebo do esporte é exatamente o que ele me dá, na hora em que me dá, sem efeitos anteriores ou ulteriores. A transação é imediata. Eu me irrito, eu comemoro, eu me emociono e eu vibro, no momento em que tudo está acontecendo. Não esqueço de nada do que vai mal antes e depois do evento. Não lembro de mais nada, durante.

Mas os esportes olímpicos têm algo a mais, para mim. Há algo inato do espírito olímpico e que me encanta. Em especial, a capacidade de transformar histórias comuns em “contos de fadas” esportivos. Geralmente, muito sofrimento e dedicação, sem recompensa certa, histórias iguais a da gata borralheira. Mas quem salva o atleta não é um príncipe, senão o próprio atleta e sua jornada até o topo do Olimpo (“olímpiada” vem daí, espero que saiba). Tem gente que vem “do nada” e brilha numa competição. Tem gente que faz parte de uma dinastia e continua a brilhar. Quem não tem tradição, posse, título ou nobreza e, ainda assim, escreve seu nome eternamente na história dos jogos e dos países que representaram. E quem vem para provar os motivos de sua fama e supremacia herdadas. Tem de tudo. É realmente representativo da vida real. É democrático, neste sentido.

Eu não faço a menor ideia de qual é o tamanho do judô no México, mas toda a vez que um (ou uma) mexicano(a) encostar no tema “judô + México”, terá de passar pelo nome de Prisca Awiti, primeira medalhista olímpica na categoria, conquistando a prata no mesmo dia em que esse texto foi escrito. Isso também é verdade para o/a brasileiro/a que encosta em “judô” e “Brasil”, mas aí, a lista é tanto quanto mais longa. O judô é o esporte mais vitorioso para o Brasil em toda a história dos jogos olímpicos modernos. De Chiaki Ishii em Munique, 1972, até William Lima e Larissa Pimenta [UPDATE: Beatriz Souza ganhou ouro e o time misto do Brasil foi bronze] em Paris2024, há gerações de atletas que não podem ser esquecidos pelo judoka brasileiro, consagrados no fogo dos jogos olímpicos, trazendo várias medalhas a cada edição da competição.

E como isso desemboca em “lei”? “Lei”? Pois é: “lei”. Foi o que coloquei no título, né? Tem que fazer algum sentido. Ou não. Mas prefiro que sim.

Hoje, acordei cedo. 6h da manhã. Deveria ter acordado mais cedo. A primeira luta de Rafael Macedo, judoka brasileiro na categoria até os 90 quilos, estava prevista para a sétima posição do programa que começou às 5h da manhã, hora de Brasilia. Só que eu não estava totalmente convencido das chances “de ir longe” que Rafael tinha, e eu tenho acordado cedo quase todos os dias então eu pensei “me desculpe, Macedo: se você fizer por merecer, terá todo meu apoio em sua segunda luta, a partir das 6h”.

E Macedo disse “ah é, seu gordo desgraçado?! Eu vou fazer você perder o dia inteiro comigo, pra você aprender a respeitar o meu esforço!”. Eu não tenho provas, mas fontes confiáveis me disseram que Macedo ficou extremamente motivado quando descobriu que um judoka amador e que não terminou o ciclo básico de masterização da arte, decidiu dormir ao invés de assistir a ele nas olimpíadas. Essa coisa de atleta tirar motivação de qualquer lugar… Incrível.

Preciso confessar que a pesagem em que Macedo luta não me emociona. Os 90 quilos começam a ter uma característica que acho muito irritante no judô contemporâneo, que é a tendencia a renunciar da técnica em prol do emprego da força bruta como meio de derrubar o oponente. Tudo que Jigoro Kano, criador do judô, disse para não fazer. Se engana, porém, quem vem com a explicação que “judô” quer dizer literalmente “caminho suave”. Essa interpretação é meio equivocada. Primeiro porque Jigoro Kano era um homem das ciências. Ele não acreditava em forças místicas e inexplicáveis, e ele entendia muito bem os princípios de alavanca que a física já havia consagrado, bem antes do seu tempo de vida. Portanto, Kano-Sensei sempre soube que ninguém tira 100 quilos do chão usando apenas a força do cosmos ou do ki, tampouco por meio da “suavidade”. O que Kano-Sensei se perguntava sempre é “como eu faço isso da forma mais eficiente quanto possível?”. Essa é a essência do judô.

O primeiro princípio do judô é o Senryoku Zen’Yo: máxima eficiência com o menor esforço. Os outros dois princípios do judô seriam o Jita Kyoei, ou “benefícios mútuos” (um treino ou uma luta só são bons para mim se forem bons para meu parceiro de treino) e o último, Ju, significando “gentileza” (uma preocupação que vinha do aspecto mais educador de Jigoro Kano, formado em educação física, e muito preocupado com os impactos do judô na formação dos alunos, para além dos tatames. Tem bem mais a ver com a conduta do judoka do que efetivamente com expectativas de “gentileza” durante os combates no treino [que chamamos de randori]).

A pesagem que mais gosto no masculino é 73kg. Também assisto com gosto (porque assistir, eu assisto tudo) o pessoal dos 66 e 81 e, geralmente, as lutas são muito boas. Mas, eu acho que a melhor combinação “força/agilidade” está mesmo nos 73 quilos. Para mulheres, as categorias que mais me animam são as de 57 e 63 quilos, pelos mesmíssimos motivos já expostos. Haverá lutas incríveis nos 70kg feminino? Claro. Lutas incríveis podem ocorrer em todas as pesagens (e ocorrem, por isso eu assisto a todas). A questão realmente é sobre as chances das grandes lutas acontecerem e de não acabar em algo em que os atletas são muito leves (e aí a luta é frenética, mas sem força para grandes golpes), ou muito pesados (e aí é só força, quase nenhuma velocidade, e o gás acaba no primeiro minuto de combate… Costuma ser entediante assistir).

Então, aqui estou eu, tentando falar de Macedo. O que houve com Macedo, afinal?

Bem, se você trabalhou o dia todo (lamento por você) e não teve chance de ver nada das Olímpiadas 2024 hoje, Rafael Macedo estava no caminho da final olímpica, tropeçou nas quartas-de-final, passou pela repescagem e foi disputar um dos bronzes (o judô-competição entrega 2 bronzes, uma prata e um ouro por categoria de pesagem). O caminho até a luta pelo bronze, que ocorreria perto das 12h30 (Brasília) foi incrível e Rafael não teve uma jornada fácil até lá. Mas, tampouco ele assistiu a isso tudo acontecer. Ele foi determinante no próprio sucesso, lutou muito, teve um volume de combate incrível e, ao final, chegaria à derradeira luta contra um representante dos donos da casa, Maxime-Gael Ngayap Hambou. Macedo, com 29 anos, segundo ciclo olímpico depois de Tokyo2020, enfrentaria um jovem de 23 anos, em seu primeiro ciclo olímpico. Macedo, que ocupava o 11º lugar no ranking IJF, com 3863 pontos conquistados, contra um Hambou, em 38º lugar, com 1870 pontos acumulados antes da luta.

“E para que serve saber as posições do ranking?”, você pode se perguntar. Ao que respondo: para nada. O ranking não luta por você. O ranking não garante absolutamente nada na luta à sua frente; no máximo, conta o que você já passou para estar ali. O ranking, aqui, demonstra como Macedo era (e é) mais experiente e mais calejado pelo judô-competição do que o jovem francês, em início de carreira profissional. Hambou, aliás, entrou na seleção francesa “de última hora”, por uma vaga que surgiu de forma inesperada.

Inesperado, também, foi o resultado da luta. No judô contemporâneo, a luta dura 4 minutos. Se ninguém pontuou nada, inicia-se o Golden Score. No judô atual, há dois pontos possíveis: o Ippon (o ponto perfeito, que encerra a luta imediatamente), e o Waza-ari (se lê uaza-ri, não é “vazari”. A língua é japonesa, não alemã – mas claro, você pode seguir falando errado; direito seu…). O Waza-ari é um “quase-Ippon” onde algum elemento previsto nas normas para a definição do ponto perfeito não foi atingido. Pode ser falta de força na projeção, pode ser que o atleta atingido não tenha caído da forma como a regra exige (geralmente de costas, ou se defendendo com a “ponte” feita usando o pescoço, ou com os dois cotovelos), ou quando há o rolamento de uma omoplata à outra… Pode ser que o judoka que aplicou o golpe não demonstre o total controle durante a queda, mas só parte dele. O golpe pode ocorrer em dois breves e consecutivos momentos e não de uma vez só… Enfim, há muito julgamento para explicar porquê um Waza-ari não chegou a Ippon. Mas você só precisa saber que o Ippon termina a luta instantaneamente, enquanto o Waza-ari mantém a luta em andamento. Exceto se houver um segundo Waza-ari (o que se converte em um Ippon), OU, se a luta está no golden score. Aí, qualquer pontuação encerra o combate.

Há uma terceira forma de uma luta de judô acabar e essa forma, acrescento, é a mais lamentável de todas para o esporte em si. Ocorre quando um dos atletas sofre três punições do corpo de árbitros. Essas punições são chamadas de “shidô”. E 3 shidô’s levam à desclassificação ou (hansoku-make). Algumas faltas são tão graves que você sofre a desclassificação imediatamente, sem passar pelos 2 shidô’s de aviso. Um soco na cara, por exemplo. Os shidô’s, por outro lado, ocorrem por motivos banais como falta de combatividade, falso-ataque (fingir o golpe sem fazer nada para realizá-lo de verdade), postura muito defensiva (evitar a pegada do adversário no seu judo-gi [o famoso – e impreciso – “kimono”]).

Bem, a luta entre Macedo e Hambou estava ótima (eu disse que, independentemente da pesagem, há lutas boas em todos os pesos, não disse?), e apesar da vantagem na envergadura (o francês sendo mais alto que o brasileiro), em dado momento, Hambou não tinha mais energia para enfrentar Macedo. O brasileiro estava dominando a luta aos 3m55s, há apenas 5 segundos do golden score, onde qualquer punição ou ponto encerraria a luta.
Aliás, ambos os atletas estavam empatados em shidô’s por falta de combatividade e postura muito defensiva (evitar a pegada). 2 para cada. O próximo shidô, para qualquer um, encerraria a luta.

Há 5 segundos, Rafael Macedo consegue uma projeção (o resultado ilusta este post), projeção que eu já vi outros juízes marcarem como waza-ari. Mas ainda era o tempo regulamentar, e faltavam 5 segundos, portanto, a luta continuaria. Porém, o arbitro, sr. Vyacheslav Pereteyko, não marcou a pontuação. No solo, faltando 5 segundos, Macedo caiu com o adversário em posição de vantagem, e começou o trabalho de solo, que chamamos genericamente de “ne-waza” (se lê “nê uaza”). Macedo estava perto de imobilizar o adversário, situação em que o juiz deve dar o comando de voz “osaekomi”, literalmente “imobilização”. Abre-se a contagem e, em 10 segundos de Osaekomi é concedido a nota de waza-ari a quem está imobilizando. 20 segundos é o fim do combate por Ippon em favor de quem aplicou a imobilização. Macedo estava perto do bronze. Muito perto.

Depois do triste primeiro ciclo em Tokyo2020, onde caiu na primeira luta, com poucos segundos de combate, Macedo ia ser medalhista olímpico. Mas, o comando de “mate” (parar) ao invés do “osaekomi”, emitido pelo arbitro, anunciava o pior.

Uma revisão começou a ser feita pela comissão de árbitros (além do sr. Pereteyko, o judô de alto rendimento também conta com algo similar ao VAR do futebol) e, de repente, o arbitro ordenou que os dois atletas se reposicionassem no tatame como que para o reinício da luta e, ato contínuo, sinalizou a desclassificação de Macedo.

Rafael Macedo ficou perplexo. Seu técnico, puto. Eu, idem. Estavam, de novo, me fazendo reviver o horror das cenas que fizeram Maria Portela passar. O sangue já sobe, só de lembrar do assalto a Portela. Macedo projetou Hambou em 3 ou 4 situações. Ok, nenhuma delas era um claríssimo Ippon, nem mesmo um Waza-ari inquestionável, mas, de novo, já vi atletas receberem pontuações como essas por golpes piores em execução. E por que isso importa? Porque se o arbitro tivesse aplicado os mesmos critérios que seus colegas de arbitragem haviam aplicado antes, inclusive na mesma Paris2024, Macedo não precisaria correr os mesmos riscos, nem ir tão longe para conseguir o bronze. Macedo poderia estar para sempre no pódio de Paris. Mas não esteve. E não tem mais como estar.

A decisão da arbitragem é uma lambança, até agora. Vá lá conferir enquanto a lambança segue, no site oficial das Olimpiadas de 2024. A desclassificação de Macedo segue explicada como “motivo indeterminado”. A razão disso, em parte, é que houve um conflito de entendimento entre o arbitro no tatame e os 2 árbitros da mesa. Um deles viu uma possível segurada na parte interna da manga do judo-gi. Isso é, em tese, proibido, pelas regras atuais do judô. Guarde essa informação. Outra possibilidade foi aventada pelos canais que cobriam o evento e suspeita-se que um movimento de imobilização feito no adversário, utilizando o joelho e os tornozelos ao redor do pescoço do imobilizado, movimento conhecido como “sankaku-jime” e popularizado como “triangulo”, teria sido feito por Macedo. Tal movimento é banido no judô por elevado risco de lesão à cervical da “vítima”. A imagem deste post mostra esse golpe aplicado, ainda válido, como explico a seguir.

Se você procurar o vídeo da luta, vai ver que Macedo realmente começa um sankaku-jime naqueles aflitivos 5 segundos antes do golden score, tentando achar uma chave de braço (kansetsu waza), ou ajudar na imobilização (só ele sabe o que pensou), mas ele não está buscando o estrangulamento (shime waza), até porque está na direção oposta a do adversário, ambos caídos no solo após a tentativa de projeção do brasileiro. O francês tenta se defender, sem sucesso, e, nessa hora, recolhe o braço que protegia o pescoço. Pescoço que segue sob “a trava” do sankaku-jime de Macedo. A ação, reflexa ou deliberada, é tomada pelo francês, não pelo brasileiro. Não importa. O resultado é catastrófico para o nosso atleta.

A desclassificação leva Macedo da incredulidade ao choro, rapidamente reprimido pelo atleta.

Há muita confusão, o técnico brasileiro segue sem entender, a transmissão da Globo, contando com 2 judokas (Tiago Camilo e Maria Suelen Altheman) não consegue chegar a consenso do que houve. Olham o replay, acham que foi a manga, acham que foi o sankaku… Enfim…

Na entrevista após a eliminação, visivelmente abalado, Macedo segue o protocolo fúnebre estabelecido entre atletas e imprensa: pede desculpas pelo fracasso, fala que Deus sabe a hora certa para tudo, diz que não entendeu o que houve, mas se resigna dizendo que os juízes sabem o porquê e devem estar certos.

A partir deste ponto da história, eu começo a encerrar esse post. O judô doutrina, quase religiosamente, seus atletas para não enfrentar as decisões de arbitragem. Os motivos são, basicamente 2: Primeiro, porque é absolutamente inútil. Uma expulsão desse tipo simplesmente não é revertida. Revisão de Ippon para Waza-ari e vice-versa, vá lá. Recontagem de shidô’s também. Mas “a justeza das decisões” nunca volta atrás por reclamação do atleta. Se o juiz viu “infração”, ninguém o demove do que viu, exceto se os outros 2 discordarem (o que é raro). É quase um dogma do judô, digamos. E o outro motivo é mais complexo: o judô é uma arte marcial de origem japonesa. Hierarquia e respeito a figuras de autoridade estão intrínsecas em todos os ensinamentos que a arte passa. Você agradece o senpai (seu colega, mais velho que você [e normalmente mais graduado]) por toda a sessão de treino, mesmo que você passe a aula inteira caindo para ele treinar os golpes dele. Você agradece o sensei por cada palavra, cada lição. Os juízes também são judokas, a maioria, aposentados da parte competitiva, mas ainda ativos no ensinamento da arte. Não se discute, ponto. “É a lei”…

E o problema está aí: Ao não discutir, o judô vem piorando enquanto competição, ano após ano. O judô enquanto produto, como todo desporto que preza por público para fazer dinheiro, passa por um processo de “otimização” para os paladares mais diversos. Gente que nunca vê judô, na Olimpíada, espera por aquele golpe lá, “o ippon”. Você já aprendeu aqui que ippon é o valor do golpe. É um “10” que acaba o combate na hora. Posso aplicar um tai otoshi que vale ippon, e posso aplicar o mesmo golpe que valerá waza-ari. Depende de como faço o golpe e depende de como meu oponente se defende dele. Mas não é disso que quero falar. Quero falar que nesse processo de dita “otimização”, a luta, a arte marcial, está tendo seus valores de origem retalhados.

Exemplo: Jigoro Kano propôs um sistema de 40 golpes iniciais, chamados “Go kyo”. Um desses golpes se chama “kata guruma”, um lindo golpe que envolve um movimento de quadril e uma alavanca com as mãos, suspendendo o adversário por trás das suas costas, quase formando uma cruz entre ele e você (que está de pé). Depois, você termina de projetar o adversário ao solo. Um golpe lindo, plástico, completamente fiel ao Senryoku Zen’Yo e, no entanto, atualmente proibido. Proibido porque, em algum momento no começo dos anos 2000, alguém achou por bem que era melhor proibir “as catadas de perna”. Estariam esses movimentos “desvirtuando o judô”. No entanto, um golpe perfeitamente valido e funcional, criado pelo fundador da arte marcial, hoje, não pode ser feito em competições. Pelo menos, não pode ser feito com a eficiência com que foi desenhado.

No Direito, o estudo da “intenção das leis” é palco de imenso debate e esforço. Há livros e mais livros, teses e mais teses, autores que dedicaram a vida ao conflito entre o que passava na cabeça do legislador e o que o texto da lei, de fato, permite, obriga ou veda. Esse estudo da lei passa por um campo muito importante que é o campo da “hermenêutica jurídica”, palavra bonita para “interpretação da lei”. Esse texto já vai batendo a casa das 6 páginas e eu não vou transformar isso num artigo científico, prometo, mas eu preciso que você entenda a minha frustração por completo, quando eu vejo que a hermenêutica das regras do judô acontece, hoje, da forma mais grosseira e danosa possível à arte marcial, aos atletas e ao esporte. A hermenêutica do judô vem sendo feita ao arrepio da leitura sistêmica do que é a arte marcial, quais são seus princípios e do que ela visa ser. Qual é o contrato social entre judô e judoka? O que o judô promete à sua sociedade (os praticantes da arte e, claro, seus espectadores) e o que ele pede em troca? O que ele permite, o que ele obriga e o que ele veda?

Nada disso… Nada disso que eu disse, acima, parece ser levado em conta quando alguém “escreve a lei do judô”, nem quando alguém aplica a “lei do judô”. Tudo parece isolado, desconexo e, por vezes, contraditório. Em muitos momentos, a regra do judô parece ser a entidade que mais odeia essa luta. É como se o regulamento de arbitragem do judô tivesse sido escrito pelo pior desafeto de Jigoro Kano. Alguém tão odioso ao fundador da arte, que sua única meta é destruir a criação do desafeto por completo.

Eu tenho certeza de que se eu for ler a regra, vou achar 2 ou 3 pontos que explicam como é IDIOTA a desclassificação de Macedo, do jeito e pelos motivos que se deu. “Ah, mas ele pôs a mão na parte de dentro”, ao que pergunto, com toda a sinceridade, “E DAÍ?”. E se você disser “mas está escrito que não pode” e achar que isso basta, você seria o pior tipo de advogado. E também seria o pior tipo de juiz. Não quero ofender, mas é como vejo.

Em Direito, sempre recorremos a exemplos e todo professor de hermenêutica vai usar o clássico exemplo do direito de ir e vir. O direito de ir e vir é tão sagrado que é constitucional (significando que é mais bem protegido). Está lá no art. 5º da CF/88. Quer dizer, então, que como vossa senhoria tem o direito constitucional de ir e vir, ninguém pode impedir seu carro de passar nas rodovias sem pagar pedágio, certo? Você sabe que não. O mesmo sagrado direito de ir vir permite que você arrombe a porta da minha casa, e com uma marreta, faça outro rombo no fundo do meu quintal, pois assim é mais fácil ir de uma rua a outra, sem ter que dobrar à esquina, correto? Claro que não, de novo…

Então, que diabos de direito de ir e vir, sagrado e constitucional é esse, que eu não posso usar ele a hora que quero e como quero? Mas, esse é exatamente o ponto de estudar uma faculdade de Direito. Ninguém vai lá pra ler a lei. Isso, qualquer um com internet pode fazer. A lei tem que ser interpretada. E a interpretação da lei faz ela ser boa ou ruim, bem aplicada ou mal aplicada. Tal interpretação não se desvencilha de uma leitura sistêmica e principiológica do arcabouço jurídico em que ela se insere. É preciso entender as antinomias aparentes entre leis e direitos em colisão, e saber como resolver esses conflitos e contradições. É preciso saber quando um princípio flexiona a lei para que ela deixe de ter a interpretação fria que o texto puro lhe concede, para se tornar algo muito maior, muito mais abrangente, muito mais poderoso do que as a palavras por si só. Ou, em outros casos, poderes menores, escopos menores, tudo ao contrário. Quem define se é um ou outro? O advogado. E o juiz. E o promotor. E todos os agentes e operadores da lei.

Esta, senhoras e senhores, é uma das belezas do Direito: ele é vivo, e nenhum caso é igual a outro. O primeiro conflito do aluno de Direito é aceitar que “direito” e “justiça” raramente são sinônimos, mas quando o são, é um dia especial. Às vezes, o direito de um é injusto com outro. Cabe aos operadores do Direito equacionarem em que ponto um direito deve ser cumprido, ainda que injusto, e em qual ponto um direito deve ser suprimido para se fazer justiça, ainda que se reduza o direito “em tese”/abstrato de alguém. Como no caso do exemplo de “ir e vir”.

E COMO DIABOS ISSO SE CONECTA COM A HISTÓRIA DE MACEDO, RODRIGO, SEU BIZONHO LAZARENTO!!!

Calma… Respira…

A resposta é: Não se conecta em nada.

TÔ ZUANDO… Se conecta em tudo, ô calabreso… Você não prestou atenção enquanto lia, não? Vou ser explicito, então: NÃO IMPORTA se a regra diz que o sankaku no pescoço é causa de desqualificação. Importa se o arbitro entende que:

  1. o aplicador da técnica visou, dolosamente, executar uma manobra proibida (lembre-se que quando o braço está entre pescoço e o “triângulo”, a técnica passa a ser aceita como meio de imobilizar ou buscar a chave de braço. Não se pode usá-la para estrangular o pescoço do coleguinha, somente).
  2. A técnica causou mal à saúde do atleta ou, ao menos, se o risco, ainda que em abstrato, estava lá por inteiro.
  3. A parcela de culpa do atleta “vítima” da técnica, na conversão de um movimento, até então legal, para um movimento proibido.
  4. O que a regra em abstrato (o texto da regra, frio e escrito muito antes da luta) tenta autorizar, obrigar ou prevenir? Qual é o “espírito” dessa lei, dentro dos valores do judô?

A mesma discussão vai para a suspeita de “gancho” na parte de dentro da manga do judo-gi. Mesmas perguntas. Acrescida de uma: no solo, durante uma imobilização, qual a vantagem prática ao atleta atacando de fazer o “guarda-chuva” nas mangas, sendo que isso não impede o atleta vítima da técnica de parar a imobilização? Qual é a vantagem indevida que o atleta, no chão, ganha com isso? Em pé, claro, eu sei que é vantajoso. Mas e no chão?

“Rodrigo, você é louco? Que arbitro de esporte vai analisar tudo isso para aplicar uma simples regra desportiva? E em segundos?!?!?!”

E aqui está o motivo da minha agonia. Ninguém entende o que é passar, no mínimo, 4 anos se preparando para apenas um dia de luta. Alguns só tem uma chance. Idade, lesões, politicagem, eventos da vida (ser pai, mãe, acidente de trânsito, tragédia na família, sei lá…). Eu não entendo o que é passar 4 anos me dedicando para apenas um dia em que todo meu sofrimento, todas as minhas renúncias, toda a minha raiva e dor poderão, quem sabe, se converter num momento de glória. Eu só tenho uma chance e ela depende, em muito, da justa aplicação das regras do jogo. Não, eu não faço a menor ideia do que isso significa. Do que é ter um sonho tão grandioso, que cobra tão caro, que obriga tantas privações, e que lhe é tomado porque “ninguém vai estudar para aplicar as regras do jeito certo”. Não tem recurso. Não tem segunda instância. Não tem a próxima luta. Tudo começa e termina ali. Um ippon não marcado (em vista da incerteza do que vem depois) ou marcado equivocadamente (fechando a luta de imediato), e acabou.

Ok, eu aceito que esporte não é lugar natural para justiça. Aceito que os atletas conhecem as regras antes da competição. Aceito que ele poderia ser mais cuidadoso, evitar qualquer chance de desclassificação. Aceito todos esses argumentos no caso em concreto. Nenhum deles, no entanto, afasta o elefante na sala e que segue sendo: o que as atuais regras do judô querem proteger? O atleta, a luta, a essência, o espetáculo, o negócio de entretenimento[…] O QUE? Eu fico tranquilo com o silêncio, porque eu sei que ninguém sabe responder. Nem as pessoas que supostamente escreveram a última revisão das regras, porque nenhuma delas está pensando sistemicamente na arte marcial – se estivesse, este texto não teria razões de ser. Eles só se preocupam com a forma final do judô, que é o “judo para a televisão”, aquele que dá dinheiro e garante patrocinadores. Exemplo: se a regra atual espantar talentos mirins que, frustrados depois de perder um campeonato por uma regra mal aplicada, abandonam o esporte, foda-se. O que importa é o espetáculo atrativo.

Se fazem isso por malicia ou estupidez, ou ambos, já me escapa.

Mas, Rafael Macedo, esteja onde estiver, eu quero que você saiba que não acordei cedo pra te ver lutar, mas fui dormir tarde para escrever esse texto por você. Eu tô cagando para o que diz o placar oficial dos jogos de Paris, até porque, até agora, ele diz que nem eles sabem porquê tiraram a medalha de bronze de você. Cedo ou tarde, vão vir com uma resposta pronta e que os blinda, mas já é tarde. A prova de que você foi lesado por uma aplicação acéfala de regras está para sempre lá. Tem print pra todo lado, e quem acompanha o esporte de perto não vai se esquecer dessa bizarra manipulação (culposa ou dolosa) dos resultados em Paris2024.

Meu senpai, que foi quem me apresentou ao judô, Fernando, me disse: “será que não rola uma medalha Pierre de Coubertin pro Macedo?”. A medalha em questão é a maior honraria que o Comitê Olímpico Internacional concede a alguém.  Eu, honestamente, tenho até dúvidas se o caso de Macedo merece tanto. Não sei. Acho que é mais nossa revolta e menos o espírito olímpico. Comparativamente, nosso querido Vanderlei Cordeiro de Lima, agarrado por um louco nas Olimpíadas de Atenas, 2004, caiu e perdeu a liderança da prova, terminando em terceiro. Ao invés de se irritar, desistir, ou qualquer outra atitude compreensível, se levantou, mesmo com dores terríveis, e terminou a prova com um sorriso no rosto, de quem estava feliz de participar dos jogos, apesar dos diachos que a vida lhe impôs. Porém, cabendo a Coubertin para Macedo ou não, não posso me esquecer que isso envolve um comitê olímpico nacional e uma federação do desporto nacional sérios. COB e CBJ não são exemplos pra ninguém. Quanto mais, em brigar contra seus “superiores” internacionais, no caso, COI e IJF, por uma lesão tão complicada de provar, a um atleta de menor relevância como é o pobre Rafael Macedo, campeão de nada em Olimpiadas. Se fosse um Phelps do judô (neste caso, um Nomura ou um Riner), quem sabe. Mas não um Macedo.

Vai ver que, no fim, estavam certos os que acham que tudo é política, e que nada acontece sem uma agenda oculta.

Mas eu só quero mesmo que o Rafael Macedo saiba, de um judoka porcaria para um campeão olímpico: Eu sempre vou saber que Maria Portela era pra estar no pódio de Tokyo em 2020. E eu sempre vou saber que você deveria ser medalhista de bronze em 2024. De que isso vale? Nada. Mas é tudo que posso oferecer a quem me deu tantos sentimentos enquanto torci por vocês dois. Por favor, insistam, seja lá qual for o caminho de cada um. Portela já parou com as competições. O tempo passa, as lesões doem mais, e a vida não rebobina.

Observe cuidadosamente a si mesmo e sua situação, observe cuidadosamente os outros e observe cuidadosamente seu ambiente. Considere de forma completa. Aja decisivamente.

KANO, Jigoro.

É, Kano-Sama… Os judokas precisam voltar a aprender com o senhor. Todos eles, em todos os níveis e de todas as entidades ligadas ao tesouro com o qual o senhor nos brindou. Se verdadeiramente gostarem do judô, é claro…

ATUALIZAÇÃO: Embora o texto tenha sido escrito ontem (31 de julho), ficou tarde para revisar e deixei para publicar hoje. Isso me permitiu saber da fala do chefe da equipe brasileira de judô, Marcelo Theotonio, (que não é o chefe do COB, nem da CBJ). Ele disse que “punição a Macedo foi bastante controversa”. Se esse tipo de cargo não está pacificando a questão, tem coelho nesse mato…

ATUALIZAÇÃO 2: Podendo assistir às lutas de até 100kg no dia de hoje (1 de agosto), vi INÚMERAS marcações de waza-ari para golpes muito menos claros do que aqueles efetuados por Macedo. Também, foi um dia repleto de bizarrices nas decisões de arbitragem. Até “troca de lado” para a medalha de bronze ocorreu. Teve, realmente, de tudo (de ruim). De novo.

Venezuela, PT, “democracias relativas” e a permanente escolha do “menos pior”

Direitos de imagem: Creative Commons (CC)

Antes de mais nada, quero fazer um anúncio: dia histórico neste blog! Hoje, vai ter posting duplo (sobre assuntos diferentes, claro).

Para quem me acompanha no ambiente virtual, não há qualquer segredo de que votei no presidente Lula como forma de me opor aos planos de Bolsonaro e seus correligionários para o futuro do Brasil, de sua república e sua democracia.

Se você é um(a) desses(as) queridos(as) leitores(as) que me acompanham, você se lembra que eu não declarei apoio público ao então candidato do PT sem fazer ressalvas, tampouco prometi qualquer fidelidade político-ideológica a ele, ao projeto de nação do partido dele, ou qualquer submissão desta ordem de grandeza.

Na verdade, eu finalizei o post em que pedi para que os indecisos se decidissem, da seguinte forma: “[…]Não tem nada a ver com concordar com Lula, para um enorme número de eleitores a votar 13, hoje. Eu me incluo nessa lista. Se Lula vencer, estou na oposição democrática a ele, já em 1 de janeiro[…]”.

Aliás, eu relembrei isso em post onde eu critiquei a terrível decisão de Lula em indicar Zanin ao STF, sendo a decisão terrível, em especial, à instituição republicana brasileira. Os motivos para a afirmação estão todos por lá.

Mais uma vez é preciso me insurgir contra Lula, porém, desta vez, não só contra Lula. Contra ele, seu partido, seus porta-vozes e todos que diante da asfixia final de qualquer resquício democrático na vizinha Venezuela, agora se calam ou, pior – e como fez o partido do presidente – tentam vender um ar de “normalidade” na situação da nação ao norte do Brasil.

De largada e sem perder tempo, deixe-me ser absolutamente claro com você, que me dá o prestígio da companhia e da leitura: não há NADA de normal na situação da Venezuela e, igualmente, não há NADA de normal no último pleito eleitoral venezuelano, ocorrido no dia 28 de julho passado. Há pessoas sendo mortas. Há opositores ao atual governo sendo presos. Há o sumiço das atas/boletins de urnas. NADA disso é “normal”, “tranquilo”, “regular”, ou qualquer outro adjetivo que o Partido dos Trabalhadores, sua presidente e o presidente da República do Brasil queiram utilizar para aplicar algum verniz de legitimidade ao regime ditatorial de Nicolás Maduro.

O prestigioso instituto Carter Center que é formado em parceira com a Universidade de Emory, e visa vigiar e apoiar na manutenção das democracias e dos direitos humanos no mundo, emitiu a seguinte nota, no dia de ontem: “Venezuela’s 2024 presidential election did not meet international standards of electoral integrity and cannot be considered democratic[…]”. Em português, “a eleição presidencial de 2024 na Venezuela não atendeu aos padrões internacionais de integridade nas eleições e não pode ser considerada democrática” (tradução nossa). Ato seguinte, o Carter Center solicitou a retirada de seus observadores do território venezuelano por riscos aos direitos humanos destes observadores.

Obvio que não foi apenas o Carter Center a denunciar que não há nada democrático ocorrendo na Venezuela. Organização dos Estados Americanos (OEA), escritório de Direitos Humanos da ONU, e tantos outros órgãos internacionais e multilaterais denunciaram o óbvio: a Venezuela é, hoje, uma ditadura. A eleição presidencial é uma farsa e a vontade de formação do poder político com base no voto dos cidadãos foi completamente destruída. Não há qualquer espaço para relativizações aqui. Não espaço para “escalas de cinza”, não obstante a política seja basicamente uma grande escala de cinza e quase nada seja “preto no branco”. Contudo, aqui, como a exceção que confirma a regra, a situação é sim clara, preto no branco, sem espaço para relativizações ou retóricas.

Óbvio: isso tudo é verdade, se você, prezado(a) leitor(a), for honesto(a) na sua interpretação da realidade do estado atual do regime venezuelano e igualmente honesto na definição do que faz uma democracia, “democracia”. Está tudo bem se você disser que prefere ditaduras de Esquerda às ditaduras de Direita (e vice-versa) desde que você reconheça, de largada, que não tem restrições à ditaduras (desde que estejam no seu espectro político de preferência). Eu, por outro lado, sou radicalmente contra qualquer forma de ditadura. Por isso, sou contra o Comunismo como sistema de governo, por isso, sou contra quem diz querer salvar o Brasil do Comunismo e “proteger a família, a pátria, Deus” ou qualquer outro valor em si. Porque ambos os modelos requerem ditaduras para entregarem seus objetivos, digam eles abertamente quanto a essa necessidade ou não.

O PT não é comunista. Eu não vou pôr energia em te convencer disso. Se você acredita que o PT é comunista, não posso fazer nada contra isso; se você jamais considerou a possibilidade, tome cuidado para não ser pego de surpresa por crenças não verificadas. “Confiar desconfiado” é sempre o melhor caminho. De toda maneira, objetivamente, o comunismo pressupõe, dentre diversos outros pontos, o fim da propriedade privada, a planificação da economia com a centralização da atividade industrial e comercial nas mãos do Estado, bem como o fim de um sistema político livre que possa interromper a implementação da ideologia comunista, e esta finalização se dá por meio da chamada “ditadura do proletariado”. O PT, em seus 4 mandatos e meio na presidência (estou contando o meio mandato de Dilma e contando que Lula terminará este em vigor), nunca tomou medidas ou apresentou políticas que extinguissem a propriedade privada, que planificassem a economia brasileira, ou que tentassem impedir a ocorrência do pleito eleitoral com a esperada lisura, no Brasil. Objetivamente, isto é a verdade, mas aguardo eventuais provas (confiáveis e validáveis) que deponham contra essa breve exposição e formação de convicção que compartilhei.

Nada disso exime o PT e seus representantes (presidente do Brasil incluso) de zelarem pela democracia como um valor político indeclinável. O Brasil passou muito perto de um novo rompimento com o regime democrático. As provas são igualmente abundantes. É, com todo respeito, perda de tempo debater com quem ainda duvida que chegamos à beira de uma nova era de exceção e autoritarismo ao final do mandato de Jair Bolsonaro, em 2021. Se tudo o que já foi revelado não te convenceu, este texto não tem a menor chance de fazê-lo. “Me poupe, se poupe, nos poupe”, dizem os descolados. Eu não sou um deles, mas digo assim mesmo.

Quando o PT divulga posição oficial do partido, ANTES MESMO do retorno e das impressões de Celso Amorim, enviado oficial do governo Lula para acompanhar as eleições presidências na Venezuela, e tal nota empresta a credibilidade democrática do partido para legitimar o pleito que ocorreu na Venezuela, o PT está dizendo, sem meias palavras, que a depender do espectro político que a ditadura diz defender, o partido justificará o fim de um regime democrático como “jornada pacífica, democrática e soberana”. Estas são as palavras da Executiva Nacional, sob a batuta de sua presidente, Gleisi Hoffmann. E é verdade que outras fontes dão a entender que Gleisi o fez de maneira bem antidemocrática, sem ampla consulta e divulgação para que os filiados habilitados ao partido pudessem votar, contra ou a favor, da posição sustentada. Vai ver, Gleisi e Maduro se merecem bem mais do que eu pensava.

Todavia, se Lula não é o PT e o PT não é Lula (e eu acredito nas duas premissas), PT e Lula estão do mesmo lado nessa. Tenho que me esforçar para tentar acrescentar “por motivos diferentes” à frase anterior. Tenho que me esforçar porque o jeito que Lula vê o mundo é diferente do jeito que Gleisi o vê. Mas, isso exige um enorme esforço de minha parte porque a consequência das declarações é exatamente a mesma, se não for pior quando quem fala é o presidente do Brasil. Brasil, que flertou com outro ciclo autoritário, faz mais ou menos 2 anos.

Lula disse, em sua declaração, que “[sobre o pleito na Venezuela] Não tem nada de grave, nada de assustador, vejo a imprensa brasileira tratando como se fosse a 3ª Guerra Mundial…[…]”. Então, Lula precisa se decidir se é ignorante ou mau-caráter em matéria de instituições democráticas e manutenção da democracia. Eu, pessoalmente, não acredito que seja o segundo caso, mas diferente desse pessoal que empresta a própria reputação sem pensar duas vezes, eu não faço promessas sobre a idoneidade do mandatário do Brasil. Prefiro, contudo, acreditar que Lula é ignorante porque, sendo, é algo que se resolve com educação. Ele supõe, por exemplo, que havendo divergências, a oposição pode se manifestar por meio de um poder Judiciário livre e imparcial. Acontece que este poder Judiciário não existe na Venezuela. São todos chavistas.

Se Lula for mau-caráter, bem… Não resta alternativa a não ser me esforçar para impedi-lo de se reeleger, de forma democrática. Por que tão radical opinião? Oras, porque se o filme Tropa de Elite nos ensinou alguma coisa é que “quem corrompe pro batalhão, mais tarde corrompe pra família”. Ou seja: se os valores morais do presidente dizem que democracia é cara, mas só quando ameaçada pelo lado político que não lhe agrada, quer dizer que se ofertado com a chance de romper com a democracia brasileira para preservar seu controle, pode vir cogitar em fazê-lo. E só de cogitar, deve ficar longe do Poder para sempre. Isso não é uma falácia, é uma operação lógica bastante simples de ser efetuada. Basta ser intelectual e moralmente honesto.

Se o que torna uma ditadura inadmissível e uma democracia inviolável é tão somente as cores e as palavras de ordens exaradas, ao fim do dia fica claro que o valor do presidente Lula e de seu partido, o PT, não é o de que democracia é inegociável, como eu exijo que seja. Não! Democracia se negocia. Só depende de quem está do outro lado do balcão para encerrá-la.

Eu tenho valores políticos um pouco mais altos. Democracia é um sistema para sempre imperfeito, mas para sempre perfectível (melhorável), em que os meus direitos individuais (no passado eram poucos e, agora, são bem mais) são garantidos diante do Estado; o Estado me proíbe de abusar desses direitos contra o bem da sociedade como um todo; e as pessoas a governar o Estado serão substituídas regularmente, de tempos em tempos, através do voto que eu posso consagrar como cidadão. Isso é democracia da maneira mais enxuta o possível. Qualquer parte dessas em falta, e o sistema passa a ser outra coisa. Pode até ser melhor (em tese), mas não é igual. Não sendo igual, não é democracia. E ninguém me convenceu de que há algo melhor do que democracia para constituir os governos que dirigem os Estados. Por isso, eu não aceito negociar o Estado democrático. Com quem quer que seja.

Lula foi, sim, a minha escolha em 2021. A opção a ele era um homem de valores deturpados e zero respeito pelos 3 pilares democráticos que elenquei acima. Mas Lula e o PT, agora, demonstram que não são convictos, como eu sou, de que democracia não se negocia. Entre condenar a eleição venezuelana por sua completa falta de lisura e legitimidade, romper com a Venezuela, declarar guerra ao Estado vizinho, ou fazer nada, há uma pletora de outras opções. É óbvio que ninguém racional diria ao Brasil, país que tem peso político enorme na América do Sul, para romper relações com Caracas, fechar fronteiras ou começar uma escalada de agressões, primeiro políticas, mas mais tarde, militares. Isso é uma idiotice em forma de proposta. Por outro lado, o PT não precisava abanar o rabinho para Maduro, um ditador, a única definição que se pode dar a quem rouba o poder de escolha política de um povo. Tampouco precisava,  a situação dos vizinhos, da lealdade canina do presidente da República Democrática do Brasil, sr. Lula. Todavia, foi exatamente esta a rota escolhida, seja pelo seu partido, seja pelo homem público e porta-voz do Brasil, que é o que Lula é.

A escolha política em uma democracia é, afinal, a escolha do “menos pior” dos cenários. Isso não remove a obrigação de cada um em consultar a consciência e decidir se não é possível propor cenários de escolhas “menos piores” do que o “menos pior atual”. Porque a amostra, agora, é de que sendo oportuno, conveniente, ideologicamente alinhado, o PT e seu expoente máximo não veem nada de grave, assustador ou anormal num regime autoritário que persegue opositores, sabota a inscrição de adversários políticos no pleito eleitoral, mata manifestantes nas ruas, some e sabota com urnas e seus boletins e atas de votação… Pelo contrário: a isso emprestam, PT e Lula, palavras e frases como “jornada pacífica, democrática e soberana”. “Nada de grave”.

E se dá para corromper o compromisso ético com a necessária defesa permanente da democracia como um valor em si (por ser o sistema que melhor nos protege da tirania de um grupo no poder), em nome de Maduro ou de qualquer outro ditador ideologicamente alinhado, também dá para corromper em casa, quando a conveniência e a oportunidade permitirem. E não dá para falar em ética se você exige aquilo que você não está disposto a fazer. O se proíbe aquilo que está disposto a violar.

Sim, a decisão política numa democracia pressupõe que, ao fim do processo de escolha, devemos escolher o que nos parece “menos pior” (já que a escolha do “melhor” quase sempre depende de um consenso que não costuma existir dentre os cidadãos de um povo). Mas, dentro dos meus valores, brevemente explanados e sustentados aqui, o PT e Lula passam a ser sempre a pior “das menos piores” escolhas. O episódio de apoio a Maduro e, consequentemente, de apoio à opressão da vontade do povo venezuelano, é só a comprovação fática e material dessa opinião. E se os EUA são “imperialistas e hipócritas” – dizem, em especial os aliados do PT e de Lula – ao atacarem certas ditaduras e manterem as mãos dadas com outras ditaduras, também é imperialista e hipócrita quem aceita e apoia ditaduras convenientes ao seu prisma político, ainda que sejam “revolucionárias”, “bolivarianas” ou qualquer outra palavra que não explica nada e não reduz a opressão da vontade política de um povo. E se todos nós somos hipócritas e amigos de ditaduras, o mundo só pode ser um lugar pior do que ontem, todos os novos dias. Eu prefiro, por outro lado, manter um fio de esperança de que essa não é a resposta certa, tampouco a única resposta possível.

Por fim, desejo, sinceramente, que o povo brasileiro me dê alternativas em 2024 e 2026. Alternativas que respeitem a democracia nos moldes que descrevi, para começar. Senão, segue o pior dos “menos piores” como única e terrível escolha a ser feita por mim.

Com a palavra (e a escolha, somente enquanto nossa democracia durar), o eleitorado brasileiro.

Um problema aberto e a comunicação

Esse é um texto de opinião. Se você veio em busca de algo muito sólido, com pesquisas e fontes em suporte ao que falo a seguir, eu vou lhe desapontar. À essa altura, contudo, eu espero que você já não se desaponte com nenhuma das groselhas que surgem aqui, a cada seis ou dez meses. Queria escrever mais groselha, mas a endócrino proibiu tanto açúcar…

Quando eu criei o Sobre Tudo & Todos, eu imaginava que iria escrever por aqui com uma alta frequência. Foi ali no ocaso do Facebook como rede social mais utilizada no Brasil que eu decidi começar um blog. Mas, enquanto proposta, eu não poderia estar mais na contramão de tudo [parece rebeldia? Mas é só burrice.]. Mesmo o YouTube já dava alguns sinais de cansaço e tudo indicava que as pessoas queriam menos e menos conteúdo escrito e mais e mais conteúdo audiovisual – de preferência, curto. Aparentemente, para grande parte da raça humana é difícil focar em algo por mais do que um minuto. Uma pena.

Mas eu quase nunca aprendo as lições que a vida quer me ensinar. Eu ainda acredito que o texto tem algo mágico e só seu, algo que o vídeo não consegue fazer e que é, justamente, dar liberdade a quem escreve e a quem lê para imaginar frases e contextos da forma que melhor lhes aprouver. Há algumas regras nesse jogo, é claro, mas elas são bem flexíveis e a liberdade é tamanha.

A pergunta, então, passa a ser o que tem de bom nessa tal liberdade. Quando eu escrevo, você me imagina falando o que falo com arrogância no semblante ou com uma cara de louco quero dizer… neurodivergente?
Quando você lê, você consegue entender o que me corrói? Você entende que o que me faz escrever é uma sensação de mal-estar com algo ou alguém, ou… Comigo mesmo… Você consegue imaginar o que me motiva?
Escrever, para mim, surge de uma irritação. É um processo de urticária: algo irrita a pele e você tem que coçar. São milhares de anos de evolução biológica e a resposta ao estimulo é esta.

O que me irrita? Desde sempre, a deterioração social em marcha. Ela já foi mais brasileira do que de outros países mas, hoje, francamente, ela é mundial. Não, não é como se nós brasileiros tivéssemos partido de um sonho dourado e chegado no presente. Isso é tolice, posto que as provas e evidências dizem exatamente o contrário. É como dizer que videogames causam a violência no mundo e não explicar qual videogame jogavam aqueles que morreram e mataram na Segunda Grande Guerra Mundial, o mais violento dos conflitos armados em nossa breve História. Não, o passado não era melhor. Isso é uma armadilha na qual a mente humana cai com extrema facilidade.

O passado sempre parece melhor pelo simples fato de que nós já o vivemos. Aquele tempo e aquelas ocasiões estão todos resolvidos. Não importa se foram ruins, você sabe como a história terminou. Nosso cérebro já identificou os atores, as ações e os resultados. O passado é sempre seguro. O futuro é sempre incerto. Incertezas dão medo. E nós não gostamos de senti-lo.

Estou muito coach? Desculpe, eu não queria te ofender desse jeito. É que eu não sei bem o que fazer com essa liberdade. “Liberdade”… Isso se tornou uma obsessão bizarra, especialmente – mas não só – na política. Todos falam em “liberdade” de maneira compulsiva, quase em síncope. É um culto, um credo. Jamais explicam o que é essa “liberdade”, mas todos estão lutando por ela. “Liberdade”. “Corrupção”. “Igualdade”. “Inclusão”. O que isso realmente quer dizer? A resposta não pode ser outra que não um “depende”.

Está muito vago? Você já está pra desistir disso aqui? Eu não te culpo. A culpa é mesmo toda minha. A culpa é sempre de quem tenta dizer algo, mas falha em transmitir a mensagem. Pode falhar por não ter clareza sobre o que quer dizer. Pode falhar por ser muito conciso ou extremamente prolixo [eu, geralmente, estou no segundo time]. Falha porque erra o objeto ou confunde os meios com os fins.

Mas, esse é o paradoxo dos nossos tempos: somos uma espécie de animal que depende fortemente do social. Não temos as qualidades para viver completamente isolados. Talvez, mais gregários do que sociais, mas, ainda assim, comunicação é parte fundamental do que nos faz humanos. A comunicação leva à cultura, um dos últimos mitos fundantes e ainda de pé (mas cambaleando) da divisão entre homem e o resto da fauna.
E aquele sujeito vivendo na montanha, matando animais com a mão e comendo carne crua? Ainda que ele exista, ele não é um animal que prescinde do social. Sem amamentação, sem cuidados, […] sem uma sociedade que o levasse até os seus 14 ou 16 anos, quando se deu conta de si e do que queria fazer dali por diante, sua renuncia ao mundo social seria impossível. Há animais que realmente nascem e crescem sozinhos, desde o primeiro dia. Esse não é o ser humano.
“Onde mora o paradoxo?” você se pergunta. E eu te digo: somos uma espécie de animal social. A comunicação é vital para o sucesso desta espécie (não só do indivíduo. Da espécie). Porém, quando a comunicação falha e falha de novo e chega ao fundo do poço de falhas acumuladas, a forma mais baixa de comunicação que existe passa a ocorrer: a violência.

Somos animais sociais, fadados à comunicação como pressuposto ao sucesso da raça; e quando essa comunicação vai mal, por muito tempo, acabamos por apelar à violência. Violência que nos assusta e, assustados, nos comunicamos pior. O que gera mais violência. E a solução para quebrar o ciclo está naquilo que inicia o ciclo: a comunicação. Eis o paradoxo.

Todos os nossos atritos nascem, de uma forma ou de outra, da má comunicação. Agora, calma, calma, eu sei: você não gosta de filosofia de boteco, e “teorias sobre tudo” – que visam explicar o macro e o micro – parecem fadadas ao fracasso. Mas, em verdade, “fracasso” e “sucesso”, neste contexto, são apenas medidas binárias para dizer quantas vezes o modelo explica a realidade com precisão. E como eu não canso de repetir o dizer alheio, “todos os modelos estão errados, mas algum são úteis”.

Então, se (por exemplo) você não aguenta mais sua mulher (ou marido), melhorar a comunicação pode não ser a resposta para a melhora da relação. Mas é A RESPOSTA e ponto. Por que?
Porque se na origem vocês se comunicaram mal e a relação cresceu por sobre um cadafalso de frases pela metade e mal-entendidos, todas as premissas adotadas pelas partes dessa comunicação estão (e provavelmente são) invalidas. Quero dizer que significante e significado são de todo diferentes no vocabulário compartilhado pelos atores da sua relação.
Manga é manga, claro! Mas esse é o significante. Como você bem sabe, o significado é obviamente a fruta (exceto que para a outra parte o significado é obviamente o recorte da camisa).

E como melhorar a comunicação é A RESPOSTA? Bem, porque aumentando a clareza da comunicação, vocês dois descobrem que conseguem falar das mesmas coisas, usando os mesmos signos ( = significantes), sem jamais compartilhar dos mesmos valores (= significados). Se essa for a conclusão, o problema fica claro: uma relação fundada sobre premissas falsas não pode dar certo. É sobre o valor para as pessoas na relação, não é sobre o mérito da relação em si (poxa, mas a gente se ama tanto!), de seus motivos de partida (ela me ligou naquela tarde vazia!), tampouco dos seus objetivos de chegada (temos três lindos filhos juntos!). O maior problema é que toda comunicação, quando falha demais, por muito tempo, leva à violência. E “violência” é só o significante, aqui. O significado pode ser o famoso sopapo na cara, mas há TANTAS formas de violência: psicológica, moral, social. Até o soco na cara e o B.O. na delegacia, há todo um calvário de violências como ignorar e ser ignorado, as ofensas gratuitas, as palavras que desqualificam o outro como um ser humano intitulado a dignidade, simplesmente por ter nascido humano. Mesmo a indiferença contra alguém que diz nutrir algo de bom por você tem o condão de infligir dor.

“De novo atacando de coach, Rodrigo? Cacete, duas vezes no mesmo texto…”. Pois é. Porém, há um motivo mais importante quando a tentativa é a de falar de uma “teoria de tudo”. Eu disse, lá no começo, que o que me incomodava era a deterioração social e que eu arbitrariamente escolhi a escrita como forma de me expressar, mesmo sabendo que o momento é contrário a essa via.

Estou tentando, de maneira iterativa (observe: iterativo, sem n) demonstrar que a comunicação, quando melhora, esclarece exatamente a natureza das relações humanas. Não é o mesmo que dizer que quando a comunicação melhora, as relações humanas que já estão postas melhoram. Porque pode ser que elas não tenham como melhorar, já que as partes envolvidas nelas podem não partilhar de significados equivalentes para os significantes sendo utilizados. Se isso vai longe, por muito tempo, a violência (que é a forma mais baixa de comunicação) surge. No seu surgimento, o processo iterativo de se comunicar se converte num ciclo vicioso. Uma espiral destrutiva. Por medo, nos comunicamos pior. Da pior comunicação, gera-se violência. E a violência causa medo.

Eu tenho que fazer uma breve pausa para pedir perdão: se isso parecer a você como algo absolutamente novo e revolucionário saiba que eu estou, não intencionalmente, te enganando. É claro que inúmeros intelectuais, do passado e do presente, se debruçaram nesse tema. Cada qual com seu enfoque. Cada qual privilegiando aquilo que lhes chamava mais a atenção, ou que parecia mais promissor como resposta ao problema que apresentaram.

O que eu faço “de novo” é propor a reflexão pública e em termos simples, sobre como a resposta “a comunicação ruim leva à violência que gera mais comunicação ruim, em infinitos ciclos” se adequa ao problema “a deterioração social de nossos tempos”.
Se quiser um autor, dentre tantos, Niklas Luhmann, falecido em 1998, já estudava a sociedade pelas lentes da Teoria de Sistemas e abordava a comunicação como o objeto a ser explorado, para compreender o que os n sistemas sociais deixam de eco uns para os outros, mutuamente se alimentado e mutando por meio dessa troca. É mais (bem mais) complexo do que isso, mas meu ponto por aqui é sempre o mesmo: não precisa ser sempre mais complexo. Precisamos, pelo contrário, cada vez mais, melhorar a comunicação e isso significa, de algum modo, baixar certas barras, abrir mão de certos rigores, viabilizar que pessoas “a dez por hora” alcancem quem já está “a sessenta por hora”.

Isso é “inclusão”? E eu sei lá?! Não estou preocupado com o bingo da responsabilidade social; não me preocupo com a formação da minha reputação a partir da opinião de gente que mal conheço. Por que não dependo deles (ui, ui, ui)? Quanta petulância eu teria se assim pensasse! Não. É porque eu simplesmente não controlo como essas pessoas me veem, tampouco controlo seus significados aos significantes que uso. O que controlo é quantas vezes eu consigo explicar o mesmo significante, de diferentes formas, tentando garantir que a redundância de explicações afaste o risco de um mal-entendido.

Estou preocupado com a deterioração social [ou do contrato social vigente] e elegi a comunicação (ou melhor dizendo, a [falta de] qualidade dela) como a resposta para o problema. Então, se todos nos comunicarmos melhor, o mundo será uma grande “ciranda, cirandinha”? Mas é óbvio que não. Há significados irreconciliáveis. Há valores que não permitem a convivência. Exemplifico:

Se o que você chama de “criminoso” é o “neguinho no farol” que toma o seu celular, mas não chama assim o empresário que destrói um ecossistema e explora descaradamente uma mão de obra alienada de sua própria realidade, eu não posso concordar com você sobre quais criminosos devemos combater com mais ou menos prioridade.
Porque por de trás da sua definição (seu significado) para o significante “criminoso” mora sua resoluta certeza de que o “neguinho” é preguiçoso e moralmente corrompido, mas brilha nos seus olhos que em nome do sucesso de um CNPJ vale (quase, espero) tudo. Desse ponto em diante, nós dois não temos como prosseguir em um contrato social que nos obriga a partilhar dos mesmos deveres e direitos, porque sempre vamos discordar frontalmente quanto à execução de tal contrato.

Está ficando estranho? Muito separatista? Muito “esquerdista”? Não era bem a intenção, mas comunicação tem dessas coisas. Bem feita ou mal feita, ela ainda gera colaterais que, por definição, não são desejados, mas ocorrem assim mesmo. Eu disse, antes: se a gente realmente entender qual é o significado (e deixar de acreditar no valor de face do significante) no discurso de cada parte, vai ficar mais claro o que é mal-entendido, o que é valor moral, o que é reconciliável e o que não é. Daí em diante fica TÃO mais fácil desenhar um caminho que passe longe da violência (em todos os seus significados). E o caminho pode ser, inclusive, o fim da comunicação entre as partes. Veja: isso é totalmente diferente de “guerra”. Guerra ainda é a tentativa de, por meio da violência, forçar o outro lado a aceitar aquilo que o lado agressor está propondo e comunicando. Ainda é comunicação.

Como eu não me comunico com ninguém em Kuala Lumpur e vice-versa, os malaios não me fazem qualquer mal e eu tampouco faço a eles. Agora, é claro, essa tese tem seus limites impostos por um sistema maior que o de origem humana, que é o próprio planeta. Se um malaio, mesmo sem qualquer comunicação comigo, afeta o rio do qual eu tiro a água que bebo, passamos a ter um problema e surge uma comunicação mal feita (se estivesse com boa fé, ele deveria ter suspeitado que mexer na água de um rio importante de outro país geraria consequências, mas decidiu fazê-lo sem maiores comunicações com os interessados. Cometeu uma violência, e violência é comunicação, mesmo que seja a pior delas).

E aqui, fica interessante. Neste caso hipotético, ele teria abusado da liberdade que imaginava ter, ou ele “só” falhou em se comunicar com os interessados? “Ambos” parece bem razoável como resposta, mas eu forço a barra mais um pouco: não é que ele teria abusado da liberdade e isso causaria um problema comunicacional.
A liberdade absoluta que ele pensa ter, motivada ou equivocada, só existe num contexto em que ele não precise se relacionar com mais ninguém. Na realidade de um mundo partilhado e de infinitos sistemas interconectados e retroalimentados, toda a ação, mesmo que individual, gera uma consequência que, se não prévia e propriamente comunicada a todos os interessados (que podem nem saber que o são), leva a um problema de má comunicação (que, se não corrigida, leva à violência, que leva…).

Essa é uma outra forma -mais complexa forma, admito – de dizer “não, você não é livre para fazer o que quiser”. Esse tipo de liberdade incontida só é possível em sistemas fechados (como num videogame, por exemplo). No mundo real, praticamente todas as suas ações e comunicações geram efeitos nos n sistemas que lhe cercam, dos menores (como o almoço da família de domingo) aos maiores (como a eleição presidencial, de quatro em quatro anos).

Esse texto lhe parece muito “comunista”? O erro segue sendo meu. Sim, fingindo que essa dicotomia entre “esquerda” e “direita” é suficiente para explicar o pensamento político de alguém (dica: não é), eu me considero dotado de uma interpretação política mais ligada à esquerda, pelo simples fato de que eu não acho que o mundo e os contratos sociais estão bons do jeito que estão. Se eu tenho uma tendência à reforma, e especialmente ao tipo de reforma que busca tirar poder de grupos homogêneos e redistribuir esse poder para grupos mais fragmentados, ou mesmo de refundar instituições de Estado, logo, eu tendo ao pensamento comum à grande parte do que se chama de “esquerda”. Seja como for, ainda que eu não seja esquerda (posto que eu concordo quase sempre com os diagnósticos, mas raramente com as prescrições que a esquerda faz), “direita” eu certamente não sou. Eu não acho que tudo vai melhorar por si só, desde que todos obedeçam à Lei, pelo simples fato de que a Lei foi construída por sobre um enorme baldrame de más comunicações.

Por exemplo: é claro que a Lei brasileira beneficia quem tem mais dinheiro. Isso não é uma opinião, quero ser agressivamente claro quanto a isso. Isso é um fato. O desenho legal brasileiro permite que endinheirados escapem das punições com pouca ou nenhuma restrição às suas liberdades e direitos. É um universo paralelo onde ações não têm consequências ou se têm, elas são marginais, ínfimas. Ações sem consequências, em sistemas conectados e que se retroalimentam por meio da comunicação, por definição não podem existir. Exceto no universo paralelo criado para uma elite econômica, por meio da adequação do sistema legal que ocorreu por aqui.

Então, eu sou um defensor dos pobres e oprimidos? Meh… Que bobagem. Eu sei que sou oriundo da classe pobre, e sei que, correntemente, por n circunstâncias da vida, eu faço parte de uma decadente classe média que agoniza entre o chicote da classe alta e os dentes da classe mais pobre. Essa agonia não a torna uma classe de coitados, mas, certamente gera medo, e o medo… Bem, você já sabe. Agora, ter “consciência de classe”, como se diz por aí, não me faz vilanizar ricos e beatificar pobres. Na real, todo mundo sabe que tem filho da puta em todo tipo de estrato social. Não se enganem, senhoras e senhores do respeitável público: os canalhas vêm em todas as formas e cores, salgados e doces, brilhantes e opacos. E, acima de tudo, os canalhas também envelhecem. Tem canalha pai de família, tem canalha avô de família. Tem canalha solteiro e solteirão. E, claro, como não poderia deixar de ser, tem “canalha fêmea”, também. Canalha gay, canalha hetero… Infinitas possibilidades. Quero ser enfático para que a comunicação não se torne descolada do significado de cada significante utilizado.

Está ficando difícil fechar essa hemorragia em forma de texto. Por “fechar”, eu quero dizer “dar um sentido tal que as ideias compartilhadas ganhem coesão entre si e rumem para uma conclusão.”. E aí vem o paradoxo final da minha divagação de hoje: Na matemática, isso tudo seria um problema em aberto.

A resposta“, seja ela qual for, nunca será completa, porque o que motiva a busca por ela (ou seja, o problema) nunca está completo. O problema em aberto que nós todos, membros de n sociedades (da mesa de almoço na casa da sogra, passando pelo futebol de domingo com a moçada, indo até o bairro, a cidade, o estado e, ufa…, o país), precisamos encarar é o problema de que, sendo animais sociais, reféns com Estocolmo da comunicação como pré-requisito ao sucesso da espécie, estamos acreditando em uma porção mentiras que envenenaram a comunicação no que diz respeito a maioria dos significados.

Calma… Deixa eu me redimir antes de dar tchau: Eu não sei se são mentiras o que nos envenena. Eu não posso afirmar que são. Afirmar isso implicaria em eu ter que saber de cada vez que uma comunicação desse tipo foi feita e em que medida o(a) Emissor(a) conhecia ou não do risco de que os significados dos significantes que ele(a) empregou fossem diferentes nos Receptores (audiência) em que ele(a) mirou a mensagem. Ou seja: só é mentira se eu, comunicador, sei que o risco do que eu digo signifique algo diferente para você e, dolosamente, eu persigo que esse risco se realize. Se eu digo o que eu digo e você entende outra coisa, sem que eu realize esse risco, eu não estou mentido. Na pior hipótese, só me comunico mal.

Mentira ou mal-entendido, tanto faz: uma enorme parcela de nós, nas n sociedades [ = sistemas] em que somos parte, está com o significado errado para quase tudo o que se comunica por meio dos significantes que circulam.
Exemplos de conceitos equivocados, frutos da má comunicação: não dependemos de ninguém. Nosso sucesso (ou o de outros) é fruto único e irrevogável do nosso esforço e mais nada. Nossa liberdade permite qualquer coisa (de ouvir funk na praia, a pôr um crucifixo na vagina; passando por andar com um revolver na cintura, como se um xerife você fosse). Todos os valores são uma construção histórica e nada tem valor em si, logo, toda a moral é descartável.

Nós precisamos corrigir a nossa comunicação. Com a mulher, com o filho, com o patrão, com o vizinho. Com a polícia e com o bandido. Ao corrigir, não quer dizer que vamos todos cirandar. A promessa nunca foi essa. Mas nós vamos entender o que dá para salvar e o que não dá. E aí, se constrói o acordo possível.

O atual contrato social está fadado ao fracasso. Porque o significado que cada um lê nele não é partilhado pelos demais. E a comunicação já vem falhando há muito tempo. E quando ela falha por muito tempo…