A morte trágica de Charlie Kirk é a subsunção do contrato social ocidental hodierno à realidade

Créditos da imagem: Phill Magakoe / AFP – Getty Images

Significado de tragédia
substantivo feminino
[Figurado] Acontecimento funesto, trágico, terrível; desgraça: enchentes são tragédias.

fonte: https://www.dicio.com.br/tragedia/

No último dia 10 de setembro de 2025, um atirador matou Charlie Kirk utilizando um fuzil (ou rifle, se preferir a terminologia em inglês) Mauser, calibre 30-06 (que equivale a um 7,62x63mm), com acionamento por ferrolho (bolt-action), e mira telescópica, configuração ideal para a caça de animais de porte médio (como alces e veados), como também viável ao tiro de comprometimento (ou “tiro de sniper”), embora não seja 0 tipo mais comum entre as forças policiais/militares mais conhecidas, que preferem os tradicionais calibres . 300~338 (magnum), ou o consagrado 7,62x51mm, provavelmente o mais utilizado por atiradores de elite. O assassinato se deu num evento na Universidade do Vale de Utah, em que Charlie fazia um evento aberto com o público daquela instituição, visando o debate e possível recrutamento de jovens para seu movimento político, materializado na organização “Turning Point USA” (TPUSA), fundada pela vítima.

O disparo ocorreu enquanto Charlie Kirk respondia à uma pergunta do público sobre armas de fogo nos EUA. A vítima, notória defensora do acesso irrestrito a armas de fogo, sob a argumentação de que a segunda emenda americana não pode ser contida tampouco extinta, acabou vitima de um evento trágico e muito comum na história recente dos EUA: os tiroteios. Quando têm múltiplas vitimas (4 ou mais) são nomeados como “mass shootings” (tiroteio em massa). No ano de 2024, por exemplo, foram mais de 500 registrados. Só para lembrar, um ano tem 365 dias (e 6h, se não for bissexto). Faça as contas. Desde 2020, ano de início de pandemia, os números de tiroteios em massa cresceram 1/3 nos EUA. Nestes mesmos Estados Unidos da América, há 120 armas para cada 100 residentes. É isso mesmo que você leu: há mais armas do que pessoas. Todas as informações são públicas e estão compiladas (em inglês) aqui. Se visitar a página, sugiro ver o menu “charts and maps” que sugere também a concentração das ocorrências no leste no sul dos EUA, bem como o (um pouco macabro) menu “last 72 hours” que registra as ocorrências dos últimos 3 dias. Há dois comentários finais a fazer sobre essa questão: o primeiro é que, ao menos em 2022, foi mais fácil ser morto por armas de fogo nos EUA, do que no Brasil (ainda que seja uma comparação imperfeita, admito). Segundo que ano após ano, o número de suicídios com armas de fogo é maior que o número de homicídios naquele país. Suicídios são questão de saúde pública e sociologia, não exatamente segurança pública ou violência urbana, mas é impressionante como a facilidade de acesso à arma de fogo coopera com essa “vitória” do suicídio sobre os homicídios por lá, ano após ano.

Depois, vem todo o mar de lama que o mundo se acostumou a assistir: da morte eclode a campanha política, eu diria até que em uma forma de necropolítica – não exatamente nos termos que Achille Mbebe propôs, mas… – em que os lados que disputam o poder fazem uso da tragédia para propulsionarem suas bandeiras, suas ideias, e atacar o outro lado. Acontece em todo o episódio, e é usado por todos os movimentos, seja pela situação, seja pela oposição. Neste episódio Trump lançou mão da tática, poucas semanas depois dos democratas fazerem o expediente com a morte da deputada estadual Melissa Hortman, em junho deste ano, e agora acontece com a morte de Charlie Kirk. Se o uso é justificado ou não, isto supera em muito meu argumento que foca no fato da espetacularização e exploração política do sofrimento de familiares e amigos.

No caso de Kirk, tudo fica mais delicado porque mesmo sua viúva fez questão de afirmar publicamente que os ideias políticos do marido assassinado seriam levados ainda mais adiante, como se ela tivesse certeza de que a morte foi obra do “outro lado” e precisasse dar um recado “ao front de batalha”. Seus aliados e seguidores rapidamente tentaram atribuir a morte como sendo “uma ação de um partidário ‘progressista'[“de Esquerda”]), mas a realidade e o avanço da investigação contra o atual acusado, Tyler Robinson, embaralharam bem a leitura de quais eram as intenções, a consciência política e até a saúde mental do atirador ao decidir levar a cabo o ato horrendo que perpetrou. Robinson é filho de um policial aposentado, criado num lar que fez questão de se declarar cristão aos jornais, com costumeiro acesso a armas, e era frequentador de fóruns de videogame de onde parece ter obtido inspiração para as frases que escreveu nos estojos da munição e que poderiam o ligar a qualquer lado (uma frase dizia “pegue isso, fascista”, enquanto outra dizia “se você está lendo isso, você é gay”… Não faz muito o estilo de nenhum dos lados). Mais tarde, sugeriu-se até que o atirador poderia estar ligado a grupos de extrema-direita, como um que se denomina groyper, tendo vies nacionalista, supremacista branco, e que seria liderado por Nick Fuentes, um ideólogo totalmente radicalizado.

Charlie Kirk, 31 anos, deixou duas crianças e a própria esposa. Esta frase por si só já explica porque é uma tragédia. Uma família foi despedaçada de forma irremediável. Não faço ideia do que é crescer órfão, mas garanto que não torna a vida de ninguém mais fácil. O argumento de que “Charlie Kirk incitava ódio e violência” só pode ser aceito como justificativa para “celebrar” (celebrar o que, exatamente? Que, agora, “o outro lado” está em estado de prontidão para a guerra? Ou que duas crianças vão crescer sem o pai? Ou que um homicídio brutal foi concretizado diante de centenas de pessoas com sucesso? Sobre qual desses fatos você quer comemorar, por curiosidade?) a desgraça, se você já tiver se entregado à violência como única saída. Neste caso, você, como eles, já concluiu que não há mais remédio para a grave e visível secessão social, seja lá nos EUA, seja aqui no Brasil (cada qual, é verdade, em um grau diferente da cisma).

O próximo (e único) passo lógico é se preparar para a guerra civil. Sim, porque, se chegamos no ponto em que a morte “do outro lado” genuinamente nos alegra, já não se pode mais falar em “nação”. “Sociedade” nem pensar. E ainda há o problema de consciência e de moral que é: o polo que se alinha “à Esquerda” ou se diz “progressista”, ou seja lá como você queira chamar, é movido por ideias básicas de que os direitos humanos devem ser aplicados a todos, mesmo para os piores indivíduos. Isto porque a não aplicação de tais direitos leva à brutalização de todos e, no fim, garantir os direitos humanos de todo ser humano é um bem que se faz ao coletivo e não só ao individuo. Por mais virulento que fosse o discurso de Charlie Kirk – e era – em que ponto ele deixou de merecer a vida? Existe resposta objetiva para isso? Em que ponto ele deixou de merecer “direitos humanos”? Não há maneira lógica de comemorar a morte de Charlie Kirk e ainda se supor “moralmente superior” ao “outro lado”. Se você comemorou a morte dele, você é como o “outro lado”, apenas com valores idealizados um pouco diferentes, mas também está dizendo quem deve morrer e quem deve viver, e quem é “de bem” e quem é “do mal”. Se você ainda acha que tem o que comemorar nessa tragédia, eu sugiro, como elemento pedagógico e revelador de quem você realmente é, que assista o vídeo da morte dele. Na era onde tudo é gravado, não faltam vídeos com o momento em que o disparo atinge seu pescoço. O resto é como os melhores filmes de horror pressupõem. Não sabe como procurar para fazer o experimento? Eu te ajudo: procure no reddit.com por “Charlie Kirk video” e depois pergunte-se, despido de retóricas e falácias (como “mas ele também […]”), o que é que você realmente está comemorando.

Eu claramente não ignoro a ironia em mais elevado grau na morte de um ideólogo trumpista, justo pelos meios e fenômenos que ele defendia ou justificava como “inevitáveis”. Aliás, é um raro caso de ironia, de fato. Na maioria das vezes, o que chamam de “ironia” é só sarcasmo, e não são a mesma coisa. Kirk foi porta-voz de Trump entre os jovens e escreveu livros justificando o trumpismo (o mais famoso sendo o “The MAGA doctrine: the only ideas that will win the future“). No livro, como em todo o seu repertório de falas públicas, ele ataca os “bilionários das costas [Leste e Oeste]”, “a BigPharma” (indústria farmacêutica), os “procuradores fora de controle” (agentes do judiciário que defendem os interesses do Estado e das instituições e, portanto, da República), “a educação superior liberal”, os “fascistas apreensores de armas” e, claro, a mídia. É um panfleto político-ideológico. Passa longe de ser uma tese bem desenvolvida e trabalhada em dialética, pesquisa e contrapontos, até porque ele sabia para qual público ele escrevia. Kirk sempre se gabou de ter desistido do ensino superior “e ainda conseguir debater em pé de igualdade com alunos e professores nas universidades”.

E você pode se sentir tentado a me perguntar “Rodrigo, você leu o livro?”. Jamais leria, não é preciso, e não vai somar absolutamente nada para mim. Então, a segunda pergunta poderia ser “e como você tem tanta certeza dessa natureza panfletária e de que não é um pesquisa séria?”. Bem, é uma pergunta justa. Um livro que tenta enquadrar “tudo que vai de errado para o cidadão comum nos EUA de 2020” e que tem tantos inimigos (reais ou imaginados) e fala “de tudo isso” em 256 páginas JAMAIS poderia ser sério. Não tem como explicar a complexidade da concentração de renda nas costas dos EUA, a relação daquela república com o lobby da indústria militar, as oligarquias nos meios de comunicação e todo o resto que ele cita no resumo da obra, em 256 páginas. Simplesmente não é possível. Qual o caminho, então? Simplificar o que não pode ser simplificado, usar emoções para responder a dilemas racionais e muito complexos e, bem… Fazer o que o trumpismo sempre fez com excelência: mentir, distorcer e desinformar. Outras evidências de que não se trata de um trabalho sério: a amostra do livro revela que a obra não tem um capítulo com bibliografia ou referências externas, e os capítulos não tem notas de rodapé, nem nenhum meio de validar o que diz o autor. A fonte de informação é tão somente a visão de mundo de quem escreveu a obra e só.

Ademais, públicas e notórias as afirmações de Charlie Kirk sobre a necessidade de conviver com tiroteios em massa em nome “das liberdades garantidas” pelo acesso praticamente pleno a armas. Também, defendeu a validade de que criminosos fossem executados de forma pública para que todos, inclusive crianças, assistissem e isto teria caráter “pedagógico”. Se ele tivesse frequentado a faculdade, que tanto desprezava, nas áreas de ciências políticas, direito, sociologia, ou mesmo em história, teria a chance de se deparar com a obra de Victor Hugo, de 1829, intitulada “O último dia de um condenado”, em que toda a ideia da serventia da execução pública é desmontada.

Todavia, ele nunca aprenderia porque olhando para suas ideias, mais de perto, Charlie Kirk era alguém muito agressivo no trato com a esfera pública e com a sociedade atual dos EUA; uma sociedade necessariamente multicultural, pela própria história daquele país. Suas opiniões eram francamente racistas, misóginas e em algum nível, supremacistas (no sentido de que há um tipo ideal de americano: o branco, cristão, hetero, adepto à posse de armas, superior hierárquico às mulheres[…]). E eu sei que se você, leitor, não se sente alinhado com o que se chama de “Esquerda” ou, no caso americano, “progressistas”, “liberais”, ou simplesmente “democratas”, o uso de palavras como “racista” e “misoginia” já disparam um alarme para o risco de “patrulha moral”. Infelizmente, o uso indiscriminado de palavras como “cis-normativo”, “misógino” ou o já desbotado “fascista”, levam qualquer novo emprego dessas palavras a pôr em xeque a credibilidade de quem escreve. Como separar a panfletagem do uso adequado? Conhecendo o que os termos significam, na origem e no passar do tempo. Eu certamente concordo que as pessoas que se identificam com a Esquerda normalizaram o uso de “fascista” como termo para qualquer um que não tenha as mesmas opiniões que elas têm sobre prioridades sociais, de governo, e visões de mundo. Basta ir contra essas opiniões e o rótulo já está lá, esperando por você.

Mas, a bem da verdade, isso é exatamente o que ocorre quando pessoas que se consideram de “Direita” chamam qualquer um no campo progressista de “comunistas”, sem jamais conseguir dar uma explicação concisa e certeira sobre o que seria o comunismo, ou quais as ideologias comunistas identificadas em quem é acusado de sê-lo. No fim, esses rótulos são simplificações do “outro lado” que ajudam o pessoal “do seu lado” a remover as nuances da existência e do pensamento adversário. É muito problemático considerar a hipótese de que há problemas reais na vida dos brancos de classe média nos EUA, e que são problemas sempre menosprezados pelos progressistas quando no poder. Mais fácil chamá-los de racistas, fascistas, burgueses […]… Você escolhe. Também é muito complicado admitir que a distribuição de renda no capitalismo é inaceitável, que os super-ricos vão destruir o planeta enquanto enchem os bolsos, e que a violência policial é maior contra comunidades negras. Muito mais fácil chamar isso de comunismo (mesmo não tendo NADA a ver com comunismo).

Charlie Kirk, enquanto pessoa pública, não é do tipo que fará falta ao debate político do nosso tempo. Estou certo disso. Suas convicções apenas expressavam o seu ódio pelo que não se conformava com o constructo do cidadão ideal que, sabe Allah como, Charlie concluiu por ser “a salvação da América”. “Salvação do que, salvação de quem?”, eu sempre me pergunto. A ideia de que sua morte enfraquece o trumpismo é, na melhor hipótese, inocentemente otimista. Para propagar a mensagem de que “o inferno são os outros”, os movimentos políticos (em todo o espectro) estão todos habilmente preparados com quadros bem servidos de mensageiros mais e menos hábeis. É verdade que Kirk tinha uma habilidade inata de interagir e engajar com os jovens, o que é crítico para políticos de Direita e populistas radicais deste espectro que, historicamente, não consegue performar neste demográfico, mas, haverá quem o suceda, cedo ou tarde.

O que me interessa na morte pública e trágica de Charlie Kirk é tão somente o termômetro da fervura da crise social americana (em inglês, há uma expressão que diz “we are cooked“, que seria traduzida para cá como “estamos fritos”). A morte dele denuncia um estado de espírito francamente conflagrado e reativo por todos os lados. Comemorar seu bárbaro assassinato, registrado por tantas câmeras, dá o tom do desprezo que sentimos de um lado ao outro. E é verdade que “o outro lado” nunca se importou muito com a morte de algumas figuras estridentes (ou simplesmente representativas) do campo progressista, mas essa característica, a característica de se importar com direitos humanos, de se importar com a proliferação e normalização da violência, da decadência da urbanidade, da capacidade de coexistência […] tudo isto eram traços clássicos dos que se definiam como “progressistas”. Se isto desapareceu, como o episódio parece deixar claro, é bastante seguro afirmar que o contrato social atual está prestes a ruir. A reação de escárnio ao fim de uma vida – que, à priori, não ameaçava outras naquele momento – é só uma pequena amostra disso.

Pensando em dar “tchau” (talvez, só para as redes sociais. Talvez, não…)

Sempre fui contra “pregar para convertidos”. Tirando o maneirismo do aforismo, eu acredito que passamos tempo demais “falando” com telas e algoritmos. E isso está ferrando (ainda é horário nobre) com todos nós.

Aliás, você aí! Sabe explicar o que é o tal “algoritmo” que tanta gente fala? Veja bem: Não é “algarismo”, hein?… “Algarismo” são os números, arábicos (1, 2, 3) romanos (I, II, III) e zaz… Te perguntei de “algoritmo“.

Algoritmo é termo da matemática, e você encontrará referências para ele já na Pérsia Antiga, nove séculos depois de Cristo. O nome mais comum que surge é do matemático Mohamed Ben Musa. Depois, o termo ressurge nos primórdios dos computadores mecânicos, com gente como Ada Lovelace (séc. XIX) utilizando-o e, mais tarde, Alan Turing, “o pai da ‘moderna computação'” (que, aos olhos do progresso atual, de “moderna” não tem mais nada). Rigorosamente, “algoritmo” quer dizer “conjunto de operações matemáticas finitas, desenhadas a fim de resolver um dado problema, eficientemente”. Ou seja: é uma “receita de bolo” para lidar com algum desafio conhecido e bem mapeado (ao menos razoavelmente), da forma mais inteligente quanto o possível.

Há diversos tipos de algoritmo e várias notações/representações, e eu não vou percorrer esse caminho com você, hoje, mas vamos a exemplos, pois eles sempre ajudam:

Queria dar os créditos, mas a página que traduziu o fluxograma (nome de um tipo de diagrama que pode representar um algoritmo) sequer está no ar. Obrigado Helldane. Esteja onde estiver…

Pois bem, nosso fluxograma, acima, representa o algoritmo que foi desenhado para lidar com algo que estava funcionando e parou. Você começa no topo (a bagaça funciona?) e vai respondendo “sim” ou “não”, até chegar em alguma “caixinha” (de verdade, seria um processo) para o qual não há nenhuma saída nova, representando o fim da rotina prescrita pelo algoritmo apresentado. É só um desenho engraçadinho, no entanto, poderíamos facilmente codificar um programa de computador que implementasse essa lógica descrita e tomasse decisões através das aproximações sucessivas que ela pressupõe.

Isso é o algoritmo: não o desenho (o desenho só representa graficamente o algoritmo), mas sim o conjunto de passos lógicos descritos previamente para lidar com o(s) problema(s) que foi(ram) mapeado(s) e responder às partes que compõem esse(s) problema(s), uma a uma, da maneira mais racional e eficiente possível. O foco no “eficiente” é bem importante para o algoritmo. Se no seu smartphone, repleto de cores de processamento e 4 ou 8 GiB de RAM, essa eficiência é desejável e faz falta, em sistemas primordiais de computação a falta de eficiência era a diferença entre conseguir executar e não executar o programa (é como nós, os antigos, chamávamos os “apps” = programas [o português tem palavras, sabia? Você pode deixar o inglês para quando ele for necessário…]).

Tá… E daí? E “daí” que quando você fica falando (ou ouve falar) “o algoritmo isso”, “o algoritmo aquilo”, ou “treinei/ensinei meu algoritmo pra X”, é disso que estamos falando: um programa que foi desenhado, com passos lógicos e eficientemente agrupados para lidar com o problema ao qual foram desenhados como possível resposta.

E qual é o problema que os algoritmos de redes sociais precisam resolver? Acima de qualquer outro, o problema (risco) de você querer parar de usar. Esse é o principal. Rede social só dá dinheiro se a galera “engaja”. Pode engajar no amor ou no ódio, desde que engaje. O que se vende para as agências de publicidade é basicamente: alcance (quanta gente a rede abarca, e isso tem tudo a ver com engajamento) e conhecimento populacional (o quão bem os gestores das redes sociais conhecem seus usuários [não necessariamente de forma individualizada, pois nem precisam], seus hábitos, gostos e preferências. Sobre tudo: da pizza ao político preferido e o odiado.).

Em 2022, eu li o livro do Jaron Lanier, “Ten arguments for deleting your social media accounts right now” como parte da pesquisa que fiz para o trabalho de conclusão de curso em Direito (acredito que a versão em português tem o mesmo nome, traduzido, ou seja “dez argumentos para você apagar suas redes sociais, agora” – ou coisa do tipo). Li em inglês para evitar problemas com tradução de alguma ideia que o autor poderia querer passar e a tradução “matou”. É raro mas acontece muito e eu, inclusive, achei uma dessas na amostra do livro em BR…

Jaron elenca os 10 argumentos em forma de capítulos:

  1. Você está perdendo seu livre arbítrio
  2. Sair das redes sociais é o jeito mais acertado de lidar com a insanidade dos nossos tempos
  3. As redes sociais estão te tornando um cuzão (palavras dele, não minhas)
  4. As redes sociais estão minando o conceito de “verdade”
  5. As redes sociais estão fazendo o que você fala ser insignificante
  6. As redes sociais estão destruindo sua capacidade de ter empatia
  7. As redes sociais estão te fazendo infeliz
  8. As redes sociais não querem que você tenha dignidade econômica
  9. As redes sociais estão tornando a política impossível
  10. As redes sociais odeiam a sua alma (wow?!)

Agora… Bem… Só pelos títulos dos capítulos, acho que você já percebeu duas coisas: 1) o estilo de escrita do Jaron é bem-humorado. 2) Ele odeia as redes sociais – por bons motivos, acho.

Eu, como você já sabe, sou contra falácias como meios de sustentar um debate. Seria falacioso falar que a mãe dele tem chulé (ad hominem) e seria falacioso discorrer sobre as credenciais do homi e como são elevadas (falácia de apelo à autoridade). Porém, ao mesmo tempo, o mundo real precisa de alguma amostra de quem porta a mensagem para, pelo menos, saber se a pessoa que fala entende do que fala. O que mais tem nesse mundo moderno de meu Deus é gente falando do que não sabe.

Jaron é um cientista da computação, com formação sólida na área de realidade virtual; trabalhou para diversas empresas, incluindo a Microsoft, e esteve em diversas universidades (Berkeley, São Francisco, Columbia). Em resumo, não é como se ele falasse de algo que “ouviu alguém dizer”, tampouco é como se isso fosse a mera impressão pessoal alçada a fato, sobre uma área (a internet e as redes) que ele não sabe nem se é de comer ou de passar no cabelo.

Eu não pretendo, seja por extensão, seja por respeito ao direito autoral, entrar em detalhes de cada um dos itens da lista dele. Mas a real é que só de bater o olho nos títulos, você meio que sabe do que ele está falando. Se quer realmente entender o que ele tem a dizer para cada item, compre o livro. Dá uma moral pro trabalho do cara. Tá baratinho e tem a versão online se quiser ler rápido (é bem curto, menos de 200 páginas).

Alguns são autoexplicativos, mas vamos passar por todos, a 30 mil pés de altitude:

Você está perdendo seu livre arbítrio porque o livre arbítrio não é exatamente amigo do vício, e redes sociais são desenhadas para viciar (lembra do primeiro problema que o algoritmo tenta resolver? Pois é…). Empresas que mantêm redes sociais gastam tanto dinheiro com desenvolvedores quanto gastam com psicólogos, publicitários e todo tipo de profissional que os ajude a prender a sua atenção na rede social deles. Alguns fazem isso de forma porca, outros de forma espetacularmente cruel, vilanesca e, principalmente, eficaz.

Sair das redes sociais é o jeito mais acertado de lidar com a insanidade dos nossos tempos porque a forma como as redes foram desenhadas se aproveita dos nossos medos, traumas e desejos para nos prender lá. Isso é quase que um desdobramento do primeiro apontamento. Ou seja: para te prender na rede social e torná-la um sucesso para seus clientes (dica: você não é o cliente da rede social. Você é o produto…), eles vão te incentivar a compartilhar sua vida no feed (assim, eles conhecem você enquanto produto); vão te empurrar conteúdo que você não quer (quantas vezes você pulou o anúncio, hoje? Já desistiu e comprou o serviço premium? Até quando eles mantêm o premium sem anúncios [e criam o premium++, este sim, sem anúncios {por um tempo…}]? Já clicou no jogo que é uma enganação e não faz nada do que é mostrado na publicidade?); vão te fazer ter medo, ou se revoltar com algo que incomoda os donos da rede, o cliente deles, ou simplesmente que precisa ser repudiado para gerar “engajamento”; e vão dar um jeito de vender toda essa atrocidade e fazer dinheiro com a sua vida e as consequências de tudo isso, ora descrito. Qual a melhor forma de não passar por essa manipulação que te usa para ganhar rios de dinheiro? Não fazer parte dela.

As redes sociais estão te tornando um cuzão porque os pontos 1 e 2 da lista estão funcionando muito bem. Ou seja: a rede social é viciante e te mantém nela o máximo de tempo possível. Logo, o algoritmo resolveu o primeiro problema. O segundo problema é que ela precisa dar lucro, então o algoritmo faz com que você engaje, conte quem você é e, em troca, ele te afaga ao conectar você com gente que pensa como você e premia atitudes, conteúdos, […] engajamentos que gerem o máximo de alcance e conexão com outros usuários do seu perfil. A escolha, aqui, é amoral (e não necessariamente imoral), ou seja: o objetivo é ter pessoas conectando com o conteúdo, reagindo positiva ou negativamente, contando suas vidas, marcando posições, e alimentando tanto o quanto a rede social sabe do seu público, como ficando mais tempo no app da rede, vendo mais publicidade, pulando mais vídeo, etc. etc. etc…

As redes sociais estão minando o conceito de “verdade” e olha: isso aqui é até uma perda de tempo de demonstrar. Todo mundo sabe que estão. O bolsonarista sabe que está. O ptista sabe que está. O terraplanista sabe que está. O astrofísico sabe que está. O antivaxxer sabe que está. E o microbiologista também sabe que está. Oras, se todo mundo tem certeza que a verdade não está nas redes sociais, se tudo que sai nas notícias, nos canais, em todo lugar é mentira, então É ÓBVIO que a verdade está sendo minada. A única pequena dificuldade é descobrir quem tem razão e em que caso.
Contudo, redes sociais têm perto de zero compromisso com conceitos complexos como “verdade”, especialmente se isso passar à frente dos dois grandes objetivos de qualquer rede social: engajamento e lucro. Quando você pega um canal de YouTube onde um cara sem qualquer qualificação acadêmica rebate cientistas da NASA, falando sobre mudança climática, você tem 50% de chance de perceber que a verdade está sendo minada pelas redes (exceto, claro, se você for do time que acha que mudança climática não existe… Aí, são os canais “oficiais” [também nas redes sociais] a espalhar mentiras, na sua opinião). E, espia: falando em YouTube, se você já assistiu a algum dos seus “influencers” falando em como a rede se comporta e o que ela incentiva o produtor de conteúdo a fazer pra tirar algum $$$ dali, você sabe que o compromisso é com tudo, menos com a verdade: um cara faz 10 vídeos por semana e fica no topo da página inicial. O outro faz 1 vídeo por mês e desaparece do radar. Em momento algum a qualidade dos vídeos entrou em consideração para dizer quem tem destaque (e, esperadamente, mais audiência [= mais dinheiro]) e quem não.

As redes sociais estão fazendo o que você fala ser insignificante porque como 99% das pessoas que andam nas redes já pensaram em ganhar dinheiro com elas (eu sei que já pensei), “4 minutos se passaram e ninguém viu, o podcast que nasceu em algum lugar do Brasil”. E se “pluralidade de ideias” ou “vasta oferta de qualidade e quantidade de conteúdo” não são automaticamente sinônimos de “lixo”, o “lixo” é exponencialmente criado com essa proliferação “sem um predador” para pôr ordem no ecossistema.
Eu ou você podemos, agora mesmo, abrir um canal no YouTube, uma live no Insta, ou seja lá qual o nome no TikTok e começar a falar. E mostrar gráficos e compartilhar vídeos e imagens…. E o quanto do que vamos veicular é verdade ou não, faz sentido ou não, está sendo analisado dentro do contexto correto ou não… Bem, a única pessoa capaz de decidir tudo isso é quem assiste. Todavia, o que acontece se quem assiste não sabe separar o joio do trigo? Ferrou (de novo: horário nobre…) não é mesmo? E se você for um microbiologista advogando pelas vacinas, e eu for um antivaxxer rebatendo tudo que você fala? E se você for menos carismático do que eu, e eu for mais vendedor de automóveis que você? O que importa o que você fala? E se todos falam, e se a cada esquina tem um mesa-cast sendo gravado com convidados dos mais ilustres aos mais ignóbeis… O que importa o que qualquer um tem a dizer, sobre qualquer coisa?

As redes sociais estão destruindo sua capacidade de ter empatia. Eu preciso mesmo demonstrar esse? É simples até: as redes sociais “brincam” com nossos instintos primais e, para nos manter horas “rolando a tela do celular”, fazem com que criemos nossas “tribos”. Todo esse desenho faz com que o bullying te conecte com quem pensa como você e massacre o outro lado. E não importa se você é (ou acha que é) de Esquerda ou Direita. Você faz bullying com o outro lado. Eu sei que faz. Eu já vi gente dos n lados fazendo, eu já sofri e eu já fiz (em algum nível).

As redes sociais estão te fazendo infeliz. Olha, se você leu até aqui e não ficou infeliz, só de ler… Sei lá o que te move. Eu estou infeliz de escrever, e olha que eu escolhi escrever sobre isso. Vou contar uma anedota só para dar a dimensão de como a coisa toda é imprevisível. Tenho um grande amigo que ficou extremamente mal com a vitória de Trump. Óbvio, nenhuma pessoa que quer um futuro melhor para TODOS (e não só para os americanos brancos) ficou feliz com isso. Porém, ele ficou especialmente mal. Um dos N fatores a contribuir com a profunda depressão é de que ele estava convicto, apostando todas as fichas e até assumindo responsabilidades desnecessárias pela aposta na vitória de Kamala, falas e posturas que ele não deveria ter se estivesse racionalmente analisando a situação.
Eu o avisei um sem-número de vezes que todas as pesquisas mais sóbrias e sólidas (se você analisa política há tempos, você acaba aprendendo quem faz o trabalho e quem é do oba-oba) mostravam um quadro MUITO difícil para a Kamala, e ele rebatia dizendo que confiava no que ele estava lendo e ouvindo. Agora, eu sei que esse cara é MUITO inteligente, e eu sei que ele não estava interpretando errado o que recebia. O problema – na minha opinião – foi mais simples: ele foi enganado “pela rede do bem” que ele formou ao seu redor. Essa, na verdade, é outra mentira da rede social: a que você pode fazer uma curadoria do que consome e recebe, de tal forma a se manter informado e, ao mesmo tempo, imune ao esgoto que corre nela. Aqui está o dilema: é ou um, ou outro. Ou você é feliz (e enganado), ou é triste (e, talvez, informado – depende muito, viu?). Seja como for, as redes sociais até “quando te deixam no poder” (dica: elas nunca deixam, mesmo) te fazem infeliz, cedo ou tarde.

As redes sociais não querem que você tenha dignidade econômica. Este ponto é bem complexo, talvez o mais complexo do livro. Além de complexo ele é controverso. Só lendo pra saber a zona cinza que o autor percorre. Fala sobre um modelo de negócios que nasce de um valor bem-intencionado, mas que fatalmente gera o monstro que agora tememos (é o argumento dele). Ele discute como a ideia de software gratuito (free as in beer) e de manter a internet “de graça” acaba nos levando para um mundo em que as empresas apenas pensam em lucratividade por publicidade (ad-revenue) e como isso molda todo o algoritmo e as características (todas as narradas, e todas as demais) de uma rede social moderna. A dignidade econômica removida seria, então, o fato de que como você não paga por nada (tirando a conexão e o aparelho), as empresas escolhem o que fazem com você, seus dados, sua vida, e tudo o mais. Você não paga, logo você não é o cliente, mas o produto deles. E o dono do produto faz o que quer com o produto.

As redes sociais estão tornando a política impossível. De novo: chega a ser idiota tentar explicar o que todo mundo sabe. Então, ao invés de explicar o que todos já sabem, eu vou dizer o que nem todo mundo tem em mente: nós já tentamos o caminho sem a política. Nós temos séculos, senão milênios, de História humana onde a política ou era um apêndice enganoso, ou estava apenas engatinhando na organização do espaço social de cada nação. Seja como for, nós tentamos o mundo onde os fortes governam, onde os deuses governam, onde as tribos se organizam (e guerreiam com as demais), onde os militares mandam… E… Todos esses modelos foram uma grande bosta. Só pode elogiar quem vislumbra fazer parte de um dos sempre exclusivos grupos de poder. Claro: podemos fazer um longo debate de como a vida política atual (especialmente nas Américas) se assemelha a uma casta separada e sobre como essa vida política não habilita a verdadeira democracia, mas só a demagogia, o nepotismo e a corrupção. O meu ponto de partida é: o sistema atual é um sistema falho, porém perfectível. Ou seja: a política tem odiosas características que, com uma sociedade civil organizada, podem ser combatidas. A boa e velha Ficha Limpa tá aí pra dar ao menos um exemplo. Tem vários outros e não vou percorrer eles todos, mas me chama e a gente fala do que melhorou desde que a política (e não a violência, e não Deus, e não os militares[…]) passou a dar vida ao Estado nacional. E tudo isso está em risco, e as redes sociais são incríveis vetores de ataque e grandes catalisadores do ódio e da irracionalidade na política. Elas não querem sociedade civil organizada. Isso remove o poder que elas precisam ter para te engajar e (escravizar) fidelizar.

As redes sociais odeiam a sua alma, e o autor fecha o livro assim porque a mensagem dele é clara em sentido: redes sociais são o oposto de “livre expressão”, “individualidade” (não confundir com “individualismo”, o que é ruim), sociedade harmônica e pacificação política. Tudo isso é o contrário do que redes sociais buscam, não porque elas sejam VILANESCAS na origem, mas porque o modelo de negócio delas depende de “dedo no cu e gritaria” (acabou o horário nobre) e eles não podem fomentar um mundo de “verdade” e “verificação de fatos”, porque… Por que? Você já assistiu ao Big Brother? Eu não. Mas eu sei (porque tenho amigos e orelhas) que as pessoas assistem aquele negócio pra ver aquele mini-mundo pegar fogo.
Num espaço onde a verdade é a regra e os fatos são rigorosamente checados, nada realmente pega fogo. Pode ser super empolgante, mas quem entendeu, entendeu e quem não entendeu vai seguir tentando entender, e nada mais. Não tem conflito, não tem dedo em riste, não dá engajamento. Por isso, e não por serem a cria do Capeta, redes sociais não podem incentivar um mundo melhor para os humanos. Porque se o engajamento cair, o produto “rede social” perde o valor. E como elas ganham dinheiro conhecendo bem o produto delas (você), isso não pode acontecer. E a melhor forma de engajar – descobriram os donos das redes – é na confusão e no conflito.

O autor ainda lembra que ele escolheu 10 pontos “porque sim”. Ele poderia ter falado, só por exemplo, da distorção da realidade que redes sociais geram, da ansiedade, dos gatilhos de consumo, de alimentação, das obsessões, dos conflitos familiares, amorosos… Enfim… Ele escolheu o que era mais “neutro” em termos de concordância ou não, justamente porque são pontos que envolvem menos as discussões mais sentimentais e, muitas vezes, irracionais. A mensagem final dele é clara: Se o leitor encerrará suas contas ou não, é uma escolha absolutamente pessoal. Porém, se o leitor mantiver suas redes sociais, que o faça sabendo o que as redes fazem com ele(a) a fim de ganhar dinheiro e obter poder (o poder de “informar” [com o que querem], o poder de manobrar seus usuários, o poder de se defender de ataques de concorrentes, de dobrar o Estado, de fugir da Lei…).

E o que eu vou fazer? Eu não sei. Na verdade, eu não vim aqui escrever sobre um suicídio virtual em que encerro todas as minhas contas e sumo da Internet for good (olha o inglês desnecessário aí!) com esta nota longa de adeus. Eu nunca poderia, por exemplo, fechar o LinkedIn e perder um poderoso meio de arranjar um novo emprego, se esse dia chegar (nota para mim mesmo: ele vai chegar…). Eu também não me vejo sem os canais de YouTube que uso tanto para conhecimento (Petit Journal, Meio, Manual do Mundo, Aviões e Músicas, FDUSP, IREE TV, XKCD What if, Adam Something, NetworkChuck, OverSimplified e TANTOS OUTROS), quanto para me divertir (Cauê Moura, Serial Trippers, Planeta Aves, Cinema Therapy, Aprofundo, Voice Makers e TANTOS OUTROS)…

Aliás, se eu li esse livro em 2022, por que estou falando em “dar tchau” em 2025? Quanto tempo para refletir sobre um livro com menos de 200 páginas, não é?

Sei lá… Eu já disse isso antes, mas as redes sociais não me ajudam em nada. Mesmo o LinkedIn, que eu disse que preservaria de qualquer forma, está há 12 anos sem fazer nada por mim. Qualquer conhecimento que circule por lá é menos do que adquiro com livros oficiais das áreas que estudo, e as conexões só esquentam de tempos em tempos, quando alguém está buscando recolocação, por exemplo. Do mais, só quem tem “tino” para a auto-propaganda contínua abre o LinkedIn de segunda à sexta, para manter o “footprint“. Do resto, é uma rede sempre morna. Eu também nem sei o que eu faria e como me sentira se fosse uma rede “quente” (como o TikTok, por exemplo). Só constatei um fato.

Eu só acho que a minha presença ali faz as relações humanas que tenho serem sempre mais frias. A pessoa pode me adicionar como contato no WhatsApp e até ter meu telefone celular pessoal (que é diferente) e, ainda assim, nossas interações se resumirão a um video compartilhado, um joia, um coração e é isso. Por que eu estou ali? Por que meus dados estão ali? Por que meu celular tem um app que sabe Allah o que coleta e captura do meu dia a dia, independentemente do meu consentimento?

Eu poderia, alternativamente, simplesmente desinstalar o aplicativo e ficar com a conta aberta, não? Aí surge um problema humano: as pessoas veem minha conta lá e imaginam que eu estou por ali, que vou ver uma chamada, um chat, algo do tipo quando, de verdade, eu não vou ver nada disso ou verei meses depois. Aconteceu, inclusive no LinkedIn. Se elas souberem que não estou lá, por outro lado, a história muda. Se precisarem falar comigo, terão que usar o WhatsApp ou o bom e velho discador de telefone.

Além do mais, o que fui procurar na rede social, simplesmente não está lá. Não é a praça pública, a Ágora Ateniense, onde ideias e problemas são debatidos e o poder coletivo é utilizado em prol do maior número de pessoas. Não. É exatamente o oposto disso. São vitrines de sonhos impossíveis e meias-verdades, onde a mercadoria circula achando que é o usuário (ou, mais ilusório ainda, o cliente), mas ela é só isso mesmo: mercadoria.

Sair da rede social não me fará melhor do que nada, nem ninguém. Eu não ficarei mais inteligente, mais correto, mais digno[…]. Vai ter gente ganhando milhões com rede social enquanto não estou lá. Sempre teve e vai continuar tendo. Eu não sou um desses. Não tenho o tino, nem o talento, nem o tempo, nem o estômago. Fechar tudo também é utopia. Vou fechar o e-mail pessoal, ligado ao YouTube? Vou desaparecer da Internet, onde o governo usa meu e-mail para me permitir agendar a emissão do passaporte, do RG, pagar IPTU, ajustar o IRPF? E o WhatsApp? Ele também é uma rede social. Vou encerrar?

Não, não dá pra radicalizar sem virar indigente. E eu ainda não estou nesse grau da loucura (mas, quem sabe…). Contudo, outro dia me peguei impaciente, usando o celular no Instagram, rolando a lista de fotos de qualquer merda que já não me lembro… Eu rolava aquele feed infinito como se eu fosse achar o fim. E quanto mais eu descia, mais irritado eu ficava, porque pensava “okay, eu já vi o suficiente. Chega.”, só que continuava descendo. E tenho que dizer que, como alguém da tecnologia, meu uso de redes sociais e entretenimento online é bastante reduzido. Estou longe de ser “power user“, “heavy consumer” ou qualquer outro termo desnecessário em inglês para redes sociais e derivados.

Mas esta é a conclusão que eu chego: eu estava entediado, devendo sair do sofá pra quebrar o tédio com alguma atividade (tipo, caminhar. Tipo, ler um livro. Tipo, tocar violão…). Ao invés disso, meu cérebro disse “e se você pesquisar aquele negócio que você queria no Instagram, para ver umas ideias?”. E eu devo ter perdido uns 40 minutos ali, olhando para um feed infinito e que não me acrescentou nada. E ficando mais irritado ao invés de quebrar o ciclo de tédio, ansiedade, marasmo, sei lá o que mais havia naquele drink dos infernos que eu preparei (com ajuda da rede, e meu consentimento, e meus dados) e bebi.

Não me acrescenta nada. Não me conecta com gente que quer discutir coisas novas e resolver problemas velhos, não me aproxima das pessoas queridas, me trata como mercadoria, e ainda faz eu perder tempo. Tudo isso me fez pensar em dar tchau para as redes.

E, bem… Este blog faz parte de uma rede social (WordPress). E ele também não tem me conectado a quase ninguém (afirmo isso com base nas estatísticas de cada novo post). Pra piorar, aqui, eu sou premium, então, estou pagando por esse espaço que não me entrega nada e ainda tira de mim alguma coisa (sabe-se lá o que, além da anualidade). Preciso pensar no futuro das minhas redes, este blog incluso. Mas, ao menos até o fim do período de assinatura (7 de junho), ele fica aqui.

Se eu optar por encerrar o blog, obrigado por todo o tempo que você, nobre leitor(a) colocou nas linhas mal-escritas desse escritor frustrado e sem talento. Espero que mesmo que tenha sido cansativo, tantas e tantas vezes, ainda assim, eu tenha somado alguma coisa BOA pra você (tem que ser boa; de ruim, basta o que as redes trazem).

Como não terminar com uma nerdice, não é?

Um mundo em desencanto

Se Trump fosse eleito explicitamente pela fé em dias melhores – mesmo que não para todos, mas para larga maioria dos americanos – eu penso que eu seria capaz de compreender o que está a dizer a população dos EUA, nas urnas, ainda que eu discordasse.

Veja: nós não precisamos concordar sobre qual é “o caminho feliz” para qualquer problema que tenhamos em conjunto. Você pode achar que o que melhora o mundo é mais famílias com mais filhos e que isso vai levar ao reaquecimento econômico, e mais empregos e […]. Do outro lado, eu posso achar que o que melhora o mundo é menos gente, menos consumo, menos agressão ao meio ambiente, menos atividade econômica “artificialmente criada” (obsolescência programada, demanda artificialmente criada) e […]. Aliás, são só hipóteses e não estou dizendo se acho isso ou aquilo. Ainda assim, são visões antagônicas, mas ambas têm algo fundamental em comum: a meta de um mundo melhor, senão para todos, para a maioria de nós – afinal, o primeiro sinal de maturidade é saber que nada (nem ninguém) agrada a todo mundo, não importa o quão bom possa ser ou parecer.

O que reelege Trump, na contramão da ideia de “mundo melhor”, é a revanche, a vingança e o ressentimento. Ele é “o malvado favorito” da América, mas sem o humor ou a fofa família para compartilhar com seus espectadores. Mas o show começa em janeiro e, querendo ou não, todos assistiremos, e isso porque, como eu já disse quando Trump venceu Hillary, a eleição nos EUA não é como a eleição na Argentina. A segunda impacta pouco mais de 46 milhões de pessoas, mas a primeira impacta todo o globo e seus mais de 8 bilhões de humanos (e todo o resto da vida, sendo franco). Em tempo: Trump, ora eleito, por duas eleições vitorioso, em duas eleições contra adversárias mulheres, e só sofreu revés ao disputar contra um candidato branco, ainda mais velho do que ele… É só um dado… Ou não? Não sei. Nem é meu foco para hoje. Porém, salta aos olhos.

Os EUA ainda são a maior economia do mundo (28.7 trilhões de dólares), acompanhada relativamente de longe pelo segundo lugar, a China e seus 18.5 trilhões de dólares (fonte). E a economia sempre manda e sempre mandou no mundo: da política às guerras, arregimentando todo o progresso científico em sua pletora de formas e resultados.

Os EUA também são a maior potência militar do globo (fonte). Segundo o relatório Global Firepower, seguem em primeiro do ranking (de onde nunca saíram), investindo práticos 1 trilhão de dólares anuais em armamentos e pessoal. Embora Rússia (2ª) e China (3ª) não estejam distantes no rankeamento, seu investimento é bem menor: A Rússia investiu cerca de 61 bilhões de dólares em 2021 e, por causa da guerra, planeja ousados 145 bilhões de dólares investidos em 2025, quase 7% do seu PIB. “Ousados” porque, em áreas estratégicas, ter o dinheiro não é necessariamente a parte mais difícil: saber como e onde gastar é bem mais complicado; você pode gastar mal um caminhão de dinheiro e não chegar a lugar algum. Já a China, mesmo em 3º no ranking, investiu algo em torno de 240 bilhões de dólares em 2022, e está perto dos 500 bilhões de dólares em 2024. Vale uma ressalva: há dúvidas sobre os números divulgados e mesmo o governo americano estima que a China “esconde o jogo” (o que faria sentido), podendo estar mais perto dos 700 bilhões de dólares anuais do que os “módicos” 470 bilhões estimados para este ano. Seja como for, ainda não é o trilhão de dólares americano, tampouco o é pelo tempo que os EUA investem em guerra. E aqui, o acúmulo de investimento ao longo do tempo faz grande diferença, seja em treinamento e aptidão do pessoal, seja em acumulo de tecnologia e armamentos (você pode até achar que um F-15 já é um avião de caça obsoleto, mas ele ainda vai acabar com muitos aviões de outras potências, se a chance for ofertada).

Por tudo isso (e muito mais), a eleição nos EUA é algo que guarda relação com o resto do mundo, e não é algo que só deva ser observado por cientistas políticos ou “baba-ovos” de todos os espectros políticos. Ela efetivamente decide um tanto do futuro do planeta, para o bem e para o mal.

Superada a justificativa, retomo o raciocínio que me fez querer escrever. Trump é o candidato da revanche, da vingança e do ressentimento. Claro, isso não é o mesmo que dizer que o eleitor de Trump não tem fé nele. Claro que tem. A fé é a de que a vida vai melhorar para si, com a torcida de que piore “para o outro lado”. E por “outro lado” inclua-se aí qualquer um que não se pareça com ele(a), ou que tenha sido definido como “ameaça” (mesmo que, de verdade, não seja). Então, é uma fé dupla: de que a vida vai melhorar para o grupo “dos eleitos” e de que vai piorar para quem não diz “amém”.

Agora, se estivéssemos falando algo como “a vida do cidadão vai melhorar porque a dos criminosos vai piorar”, mesmo duvidando muito da proposição (porque isso praticamente nunca entrega muito além de violência policial), ela ainda carrega em si a ideia de “o melhor para o maior número de pessoas” (já que criminosos não são a maioria do povo). Não é disso que se trata, agora. Se trata de algo na linha “quero que a vida do eleitor médio de Trump melhore [homem (47%), branco (71%), cristão (59%), sem nível superior (57%)…] (fonte e fonte), mesmo que isso signifique a piora para 47.8 milhões de imigrantes (fonte), e 42 milhões de pretos (fonte), e parte expressiva das 169 milhões de mulheres (fonte) que não concordam com nossas visões de mundo”.

Claro: é impossível ignorar as mudanças do perfil de seu eleitorado e que geraram surpresa para quem imaginava o oposto do que se deu: em realidade, Trump melhorou sua performance EM TODOS os recortes demográficos, exceto na faixa acima de 65 anos e no grupo de mulheres brancas universitárias (fonte). Trump teve (muito) mais apoio latino, teve mais apoio negro e teve (muito) mais apoio de jovens (18 a 29 anos). Estamos falando de uma mudança real e não de algo marginal, como se fosse possível tratar isso tudo como “mera flutuação”. Pelo contrário: são tendências claras e inequívocas de preferência daquela demografia (a dos EUA). Só pelo exemplo: Trump cresceu espantosos 25% em sua base de latinos apoiadores; entre os jovens (18-29 anos) ele cresceu 11%, e entre as mulheres, 10%. Ainda que o voto feminino e negro (pretos e pardos) ainda seja majoritariamente Democrata, o avanço dos Republicanos nesses recortes é notável.

Agora, o aparente (e, talvez, só aparente) mistério é aquele em que as bandeiras políticas e ideológicas Trumpistas desafiam a segurança, em especial, dos grupos que decidiram o apoiar com mais força. Trump disse que deportará imigrantes aos milhões, inclusive com a ajuda dos militares (fonte). Em nome do “Projeto 2025” (algo assustador e que nem sei se recomendo que você leia, mas talvez, sim, você deva), Trump pode vir a tomar diversas medidas para cessar o aborto, ainda que estadual e legalmente autorizado (fonte). Trump já disse que não manterá qualquer medida que proteja o meio ambiente se a considerar um entrave para suas metas – especialmente as econômicas (fonte). Todas essas pautas falam diretamente com temores que imigrantes, mulheres e jovens deveriam ter; exatamente os grupos que decidiram apoiá-lo mais em 2024.

Seria um desejo coletivo pela aniquilação? A tal “pulsão de morte” Freudiana? Essa parece uma resposta plausível quando vemos alguém que toma veneno esperando que outros morram. Contudo, essa também parece a resposta mais pobre em imaginação; uma tentativa de responder com simplicidade a um problema (bem) complexo. Problemas complexos requerem soluções complexas, ainda que a explicação da solução possa (e, sempre que possível, deva) ser simples.

A explicação que ensaio a seguir é a de que este é um mundo em desencanto. O fim da Guerra Fria trouxe um triunfalismo jamais visto ao regime democrático liberal, impulsionado por ganhos estonteantes do capitalismo, com integração dos mercados, cadeias globais de produção, “novos mercados” (para os “velhos mercados” tomarem pra si) e… A maior parte de nós tinha a certeza de que nenhum modelo era melhor. Até que tudo isso passou. O mundo se integrou até onde conseguiu, mas outras economias (especialmente a chinesa) encontraram o caminho para deixarem de ser o quintal americano e se tornaram séria ameaça à hegemonia do tio Sam. O crescente fluxo de pessoas, mas principalmente, de informação, passou a nivelar a percepção de privilégio e consequentemente, da realidade, e o poder de compra deixou de ser um absoluto marco da realização pessoal, especialmente nos EUA, “terra das oportunidades”. A oportunidades seguem lá, mas você não vai “dar certo” mesmo se não fizer muito para que isso ocorra, algo que era possível, antes.

São as “vacas magras”. Juntarem-se aos bovinos desnutridos a organização – espontânea e provocada – de grupos sociais reivindicando que a tal democracia liberal entregasse sua maior promessa: a igualdade de oportunidades para todos. Tal igualdade é ainda mais difícil quando os mercados se contraem e as chances rareiam para os grupos que estavam historicamente posicionados para aproveitá-las. Imagine-se, então, o cenário de aproveitamento para os grupos “recém-chegados na festa”. O atrito é inevitável. E os grupos recém-chegados fazem questão de utilizar um vocabulário que lhe empreste certa “verdade científica”, uma palpável arrogância de se estar “do lado certo”, seja lá o que isso significa, mas nada que crie pontes e diálogos; pelo contrário. Estão, em grande medida, convencidos de que “nada se consegue neste mundo pedindo ‘por favor’”, frase que já ouvi algumas vezes nesses ambientes. São, acima de tudo, rancorosos no discurso e não fazem amigos por onde passam. MAS… Seria um bode expiatório óbvio atribuir a esse grupo a “culpa” pelo resultado eleitoral mais importante do ano (e, porquê não, do próximos quatro anos). Seria desleal, também. Contudo, eu disse que é um problema complexo, e estou dando conta de parte da complexidade do problema.

Da desestabilização econômica surgem as respostas padrão da humanidade: os lobbies, o protecionismo, a interferência extraterritorial (por vezes dublada como “imperialismo”) e, então, partindo de palavras afiadas, chegamos às lâminas afiadas ( = guerras).

O capitalismo, por sua vez, não mais se envergonha de mostrar que não depende da democracia para sobreviver. Por conta da Guerra Fria, o capitalismo gostava de mentir que precisava de “democracia” para mostrar seu melhor, e os EUA, no polo oposto ao comunismo soviético, decidiam “levar a democracia” para todos os cantos do globo, através de bombardeios, torturas e execuções (essa referência aqui, poucos vão pegar, aposto). Porém, nos anos mais recentes, o capitalismo não se acanha em apertar as mãos de ditaduras terríveis como a saudita, ou veladas como a turca, ou em projeto, como a indiana ou a húngara, enquanto condena “ditaduras terríveis” no Irã, na Coréia do Norte, e em outros locais que não lhe interessem por ora. Para mim, toda a ausência de instituições democráticas que mantenham o Estado livre da grilagem por parte de interesses privados, seja na Venezuela, seja em Israel, são situações de governos nefastos e que devem ser indubitavelmente repudiados. E, também por isso, não estou na carreira política. Porque em política, e especialmente na política internacional, falar a verdade não tem nada a ver com o jogo bem jogado.

E quem é esse tal de “capitalismo”? São os reais donos do jogo. Alguns tem a coragem de colocar a cara no mundo, como o mega narcisista do Musk e seus 130 milhões de dólares investidos só na campanha de Trump (e um retorno assombroso de 134 vezes o valor, só no dia seguinte à eleição de seu favorecido – fonte). Outros ficam nas sombras, atuando sempre por lobbies, operam enormes volumes nas bolsas de valores mundiais, bolsas que cada vez mais se assemelham a cassinos em roupa de “assunto sério/econômico” do mundo adulto – farei uma ressalva no meu ensaio de boteco: o mercado de capitais não é necessariamente um mal, mas a forma como ele tem sido usado para pressionar governos e nações é (outro post, outro dia).

Aqui está o problema (complexo) cuja resposta eu não tenho: há (pelo menos) um mundo real de poder por trás do mundo imaginado de poder. O mundo real é aquele em que habitam os que têm muitos recursos (no nosso mundo presente, recurso = dinheiro) e que não ligam se estão no melhor restaurante da democrática Nova York, ou no melhor lounge da ditadora Riad. Tanto faz. Quando se tem dinheiro o suficiente, todo lugar que você vai é uma festa, com gente que vota ou que é torturada. De verdade, tanto faz… E, por cima desse mundo de poder real, o mundo imaginado de regimes democráticos se fez, não porque o mundo de poder real precisasse dele para gerar sua riqueza, mas, sim, porque esse mundo imaginado “mantém os que não têm nada na linha”.

Impossível pensar essa ideia sem colidir com os conceitos marxistas de Super e Infraestrutura. E eu não vou pôr muita energia nisso, mas não: eu não acredito nem 1% na efetividade atual das soluções que Marx apresentou para os problemas que ele corretamente – creio – delineou. Como sempre digo, o diagnóstico marxista sobre o capitalismo me parece acertado, mas a solução dada por ele ignora a realidade e a constituição do que é o homem (antes e agora) e, por isso, não tem como funcionar. Além do mais, a solução marxista envolve ditaduras, conceito que eu jamais apoiarei (a não ser que o ditador seja eu… Aí discutimos…).

Então, a democracia é um engodo, uma farsa, um mero esquema de fingir que o poder se distribui entre todos (por exemplo, por meio do voto) quando, em verdade, o poder continua onde sempre esteve: com os grupos que o detinham antes de a democracia ser instaurada. “Também isso” seria a minha resposta curta, cínica e grossa. Há aquela velha pichação, muito usada por grupos anárquicos, que assim diz “se votar mudasse algo, eles tornariam isso ilegal”. Eu não sou o tipo de pessoa que nega os fatos, e os fatos são que nos últimos 30 anos, tanto fez quem governou o mundo para fins de diminuição da desigualdade e aumento das oportunidades para todos (e não para grupo A ou B).

Todavia, se a democracia é essa Superestrutura que serve apenas para manter os numerosos mais fracos “na linha”, ela também é, factualmente, o regime que mais habilitou pessoas a quebrarem certas barreiras sociais e econômicas, e com o menor derramamento de sangue possível (em comparação às alternativas e ao passado). Se isso é “mera ilusão”, então, talvez precisemos gostar um pouco de nos iludir, pois eu não gosto do caminho em que todos se matam até que restem apenas os que concordam (até porque, historicamente, os que concordam comigo hoje são sempre menos do que ontem e os expurgos tendem ao perpétuo).

É sobre isso que eu queria falar: o mundo está em desencanto. Não acreditamos, coletivamente, em nada. Mesmo os que dizem crer no Deus de Israel, Pai de Jesus Cristo, creem a partir de perspectivas muito diferentes entre si; em casos extremos, de maneira irreconciliável. Quase não parece ser o mesmo Deus em certos embates.

E parece que a eleição de Trump é nada menos do que um prelúdio de rebelião popular. Que a Pax americana estava agonizando desde os 2000, não chega a ser novidade, mas estamos entrando em outro nível de ruptura: a do contrato social. Um sistema federativo como o americano requer que os estados (unidades federativas) reconheçam certos valores e premissas comumente importantes, encarnados no papel da e nas expectativas para a União (o ente federal do Estado).

O voto em Trump, ainda mais dos estratos que vem, diz para mim que aquele povo não mais concorda com os rumos gerais da nação. Ao ponto de declarar como “inimigos” aqueles que servem o café, varrem as casas, cuidam das crianças. Colegas de sala de aula ou trabalho. É um profundo e grave “não reconhecimento mútuo” ao olhar para o outro lado da calçada. O outro, ali, não é um conterrâneo, mas um incomodo e quiçá um risco. De “mal necessário”, agora já passam a discutir a validade da necessidade.

Contratos sociais acabam de dois modos: a) um novo contrato, aperfeiçoado, é criado e todos (“todos”, aqui = ampla maioria) concordam que esse novo contrato faz sentido. b) uma ruptura forçada e normalmente combatida pela União, eventualmente até pela força, para que o ente rebelado volte a obedecer ao antigo acordo, então repudiado. Seja como for, envolve ódio, destruição, perda de vidas e, em vários casos, deixa feridas que não se cicatrizam a depender do tamanho da barbárie cometida do começo ao fim do processo, independentemente do resultado (divórcio ou reconciliação do membro rebelado com a União e o resto dos entes que não se rebelaram).

Eu não consigo vislumbrar qualquer viabilidade de um novo contrato, capaz de unir tantos grupos de poder e, ao mesmo tempo, grupos sociais reivindicando mais, sob um mesmo ideal. Qualquer que seja a proposta, ela não vai agradar o suficiente para selar a paz social entre o maior número de pessoas possível. Especialmente porque está faltando o que distribuir, como defendo a seguir.

A ruptura violenta ainda parece cenário distante (amém, até por todas as vidas envolvidas), mas ninguém nunca sabe qual é ou onde está o pavio dessa dinamite. A Queda da Bastilha, evento-marco da Revolução Francesa de 1789, começa com a simples demissão de um ministro, seguida de ligeiro aumento no preço dos pães. “Não é pelos 20 centavos” diriam os revolucionários, se fossem brasileiros e se arregimentassem em 2013… Em um sistema complexo, de incontáveis variáveis e pressões de todos os lados, um ato que pode parecer pequeno em isolado gera um efeito estarrecedor uma vez dentro do circuito.

E enquanto escrevo isso, pensando naqueles Estados Unidos da América, não consigo deixar de pensar que em dois anos é a nossa vez de, quem sabe, tomar a mesma decisão. Uma decisão pautada não em esperança para todos (quantos se possam abarcar), mas em revanche, vingança e ressentimento.

Num mundo em que até mesmo o sentido da Cristandade mudou radicalmente de “O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (João 15:12) para “[…]Deus deu riquezas e bens, e lhe deu poder para delas comer e tomar a sua porção, e gozar do seu trabalho, isto é dom de Deus”, eu não deveria me dar por surpreso. Em verdade, as duas mensagens podem ser encontradas na bíblia do Cristianismo. Mas enquanto a última faz parte do Velho Testamento (Eclesiastes 5:19) e é escrita por um profeta hebreu que não se sabe ao certo quem foi, a primeira é a mensagem do próprio Jesus Cristo, aquele que empresta o nome para a religião Cristã. Como advogado, é como se eu visse alguém dizendo que a lei municipal vale mais que a Constituição, quando em conflito (que, no caso, sequer é conflito real, mas aparente, fruto de mera e equivocada interpretação).

Continua sendo a palavra de Jesus aquela que diz que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma Agulha (posto alfandegário das cidades antigas em que supostamente se passaram as histórias narradas na Bíblia), do que um homem rico ganhar a vida eterna (Matheus 19:24). E se você se incomoda com os ensinamentos de Jesus Cristo, então, vai ver que você não quer ser cristão, mas outra coisa. É do jogo. Eu, por exemplo, não sou nada. Ao menos, nunca digo que faço A ou B movido por valores religiosos. É menos covarde, assim. Usar a religião como desculpa para a barbárie sempre foi um traço dos piores momentos da breve história humana.

E como viemos parar aqui, na religião? Bem, ela é central para campanhas da Direita Radical e Extrema (a diferença sendo que a primeira aceita atacar o sistema e eventualmente se dar mal [se preciso for], e a segunda quer abolir o sistema sem pagar por isso,  caso dê errado). É a pedra angular dos discursos de gente como Trump, Bolsonaro e afins, este discurso de que promovem verdadeira cruzada para proteger o Ocidente cristão de ataques de seus mais odiosos inimigos. Falta apenas combinar com Cristo, pelo que expus até aqui. Mas tudo bem, afinal a religião, junto com a democracia, diria Marx, é só mais uma Superestrutura para manter os jogadores bonzinhos. Eu prefiro dizer “é também isso”.

No fim, os tempos são pautados pelo egoísmo. É como se o único ditado que tivesse sobrado para a educação de todos nós fosse o icônico “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Não tem nada a ver com ser cristão, islâmico, homem ou mulher, trans ou cisgênero, preto ou latino ou X. Tem a ver com o sentimento de que o mundo está literalmente acabando. E que sobrou pouco para, não dividir, mas tomar.

O que assistimos é o espetáculo da (re)formação das facções. Acha-se algum arranjo mínimo, que dê alguma coerência e consistência ao bando que se alinha. No caso de Trump é o cristianismo, o “true american”, qualquer ideia mofada de um excepcionalismo que não existe no analisar dos fatos. Mas tudo isso é desculpa. O mundo real que essa gente vive é o que diz “ tudo está acabando e temos que pegar a maior parte possível para nós, os que concordam com algumas abstrações e parecem ser do mesmo time”. Não é que a Esquerda também não pense assim, mas no caso dos EUA, o pensamento radicalizado daquela Direita se alinha mais a mais grupos (e, por isso, é maior no momento). É o que disseram as urnas, pelo menos.

O desencanto nunca foi com a democracia porque as pessoas não compram democracia, não vestem democracia, e não comem democracia. O desencanto sempre foi com a falta de fartura de possibilidades de consumo. O John Doe, tal qual o nosso José Silva, não faz ideia do que “democracia” quer realmente dizer. Muita gente estudando Direito também não sabe, portanto, não se sinta mal se for teu caso. O Que John Doe e José Silva realmente sabem é que dava pra trocar de carro mais vezes no passado e agora não dá. A casa podia ser maior e agora é o “studio” de 25m². Não tem nada a ver com democracia. Tem a ver com dinheiro. E, no nosso mundo atual, dinheiro tem a ver com poder.

Os donos do jogo costumavam deixar uma fatia na mesa para que todos nós – os demais – sentíssemos que comemos o bolo, mesmo que pouco. Os donos do jogo perderam o recato e mal deixam migalhas, agora. Fariam isso, fosse todo o mundo democrata-liberal, totalitário ou comunista. Porque sempre tem um grupo que dá um jeito de ficar dono do jogo, mesmo nos mais difíceis cenários. A Rússia matou dezena de magnatas e oligarcas e, no entanto, tantos outros rostos novos surgiram no lugar. Porque o poder não aceita vácuo. A China parece ter tido mais sucesso, mas se o valor que investem em militaria é maquilado (como se desconfia), o seu sucesso quanto à paz social interna também é. Há repressão, há crise (imobiliária, especialmente), há guetos opressores para minorias étnicas. Não, Esquerdinha do DCE que ainda faz o masoquismo de me ler: o comunismo não salvou ninguém da malvada miséria humana. No máximo, tornou mais difícil mostrar o que vai mal. Como toda boa ditadura (com ou sem comunismo envolvido, registre-se).

Foi notícia (fonte): O salário médio anual de CEOs (imprecisamente: presidentes) de grandes empresas, no Brasil, é de 15 milhões de reais. Pesquisa feita com 84 representantes do cargo e outros 775 em cargos de diretoria. Então, imagine que você pudesse ganhar 15 mil por mês. Em um ano, com 13º salário, seriam 195 mil reais, certo? Quantas pessoas em seu círculo menor de família e amigos têm empregos pagando 15 mil reais por mês? Eu conto nos dedos das mãos. É um salário para pessoas com uma qualificação bastante sólida, no nosso mercado de trabalho. Agora, a pergunta principal: O que faz um presidente de empresa (CEO) ser TÃO MELHOR, ao ponto de que isso possa justificar que ele(a) ganhe 77 vezes mais do que alguém muito bem qualificado e que estudou muito para ganhar 15 mil reais por mês? E se não for um cargo de muita qualificação, e se for alguém limpando banheiros, digamos, ganhando dois salários-mínimos (para o cargo, isso é considerado um salário bom, viu?), então a diferença passa a ser de 408 vezes entre CEO e a querida da tia cuidando diariamente dos banheiros das nossas empresas inclusivas e responsáveis socialmente e ambientalmente e espiritualmente e ludicamente […].

Esta é, para mim, a origem do Mal (letra maiúscula) dos nossos tempos. Não o capitalismo; não a ideia de que quem investe mais (tempo, recursos, esforços) recebe mais; não a ideia de que alguém que toma mais risco (civil, criminal, ambiental, político) tem o direito de lucrar mais (o risco é do empregador, art. 2º/CLT).  Nada disso é o Mal. Mas, sim, a incrível, inexplicável e injustificável disparidade de como 88 pessoas podem ganhar médias anuais de 15 milhões de reais, enquanto milhões de pessoas ganham o equivalente a dois ou três salários mínimos mensais, a vida toda – quando ganham

E as pessoas que ganham tanto dinheiro fazem um jogo onde a culpa é da democracia, a culpa é da Esquerda, ou até da Direita (se valer a pena e fizer venderem mais), porém, em última instância, a culpa é e sempre foi sua, que não tem o “mindset vencedor”. De Pablo Marçal a Bispo Edir, todos os mensageiros dos donos do jogo querem te convencer que se você passa fome, a culpa é só sua. Por detrás disso tudo, a permanente mentalidade que os norteia e diz “se eu posso ter mais, por que eu não teria mais?”, mas é preciso que você (e eu) não se revolte com esse jogo, daí o teor da mensagem dos “guias para o sucesso”. Levada a extremos, é essa mentalidade de “ter sempre mais” o que promove o fim dos recursos naturais e do próprio equilíbrio ambiental. Não é que seja necessário, é que simplesmente não há ninguém que possa impedi-los de fazer o que fazem. Compram a tudo e a todos, e quem hipoteticamente não se vende (se é que existe/existiu alguém incorrompível [eu começo a negociar na dezena de milhões de reais, caso interesse]) acaba envolvido em algum triste desfecho. Afinal, o único crime que realmente existe é o de ser descoberto. Se fizer do jeito certo, dá pra seguir vendendo palestra de ética e responsabilidade social com sorriso no rosto (e os bolsos cheios).

E eu discordo de quem imagina que esses vilões ficam num country club do mal, no alto de uma montanha estilizada à moda Drácula. Essa gente é tão dívida quanto nós, porém, eles têm algo que falta demais às massas: consciência de classe social. Podem ter visões agressivamente diferentes do que fazer com o brinquedo chamado Terra: uns querem cuidar dela como um pet (“coma menos carne, a Terra agradece” – fecha a porta do jatinho que joga duas vacas no ar por hora), e outros querem destruir como um brinquedo dado à criança mal-criada (“é tudo meu, e eu quebro se quiser”). Mas de uma coisa eles todos sabem bem: se um deles está em risco pelo motivo de ser rico, os outros também estão. No fim, acho que é isso que mais falta ao resto de nós, meros mortais: entender que se o madeireiro e o petroleiro (os donos, claro) estão felizes com os prospectos de vitória do candidato X, a chance desse candidato ser bom para o resto de nós é perto de zero.

E que o Esquerdinha do DCE não me entenda mal, só pelo último parágrafo. Os governos Lula 1 e 2 deram condições para que banqueiros lucrassem oito vezes mais do que com seu antecessor, FHC (fonte). Todos os lados (Esquerda e Direita) sabem que não jogam o jogo sem que os donos do verdadeiro poder permitam. Começou a peitar demais e vem “o rodo”. Todavia, a Esquerda (não “a Esquerda” do PT [o PT que se exploda], mas a ideológica, aquela que na Revolução Francesa ficou do lado dos mais esfarrapados) ainda é o lado que diz “não está bom do jeito que está, precisamos rebalancear o sistema”. A Direita se basta em dizer “o mundo é de quem está preparado para vencer, e quem quer mais que lute”, mesmo que a luta já comece perdida para a maior parte de nós, por fatores objetivos. Eu sei qual lado melhora a promessa democrática-liberal de mais igualdade nas oportunidades vs. qual lado prefere manter tudo como está. E também sei que nenhum dos lados é meu amigo de verdade. Afinal a maioria dos líderes de partido, sejam de Esquerda ou de Direita, estudaram nas mesmas escolas e frequentaram as mesmas festas. São – quase sempre – gente da mesma classe social e que não é a minha.

Contudo, é uma questão pragmática: o jogo é jogado por quem se habilita nele, e o espaço de escolha é limitado pela realidade imposta. Preciso escolher o lado que, se não resolve todos os defeitos que vejo, pelo menos não joga aberta e francamente para o lado que quer me ver esmagado nas engrenagens da máquina que mantém a própria ganância.

A frustração, seja aqui nos Estados Unidos do Brasil™ (©1889-1968), seja nos Estados Unidos da América (Est. 1776), não passa muito pela democracia em si, embora seja o que os jornais digam. As pessoas nem sabem bem o que é democracia, repito. A frustração é essencialmente material e de perspectivas práticas de exercício do poder de consumo. Há pouco sobre a mesa e a culpa não é do regime político, mas da eterna insaciedade dos donos do jogo real de poder. Tem um lado tentando convencer que ainda dá para dividir, mas esse lado pouco mexe nas fatias do bolo de quem tem muito mais do que precisa. Ele só quer dividir as migalhas que sobram por sobre a mesa entre os que achavam que comiam bem (classe média) e os que não comem nada (todo o resto). O outro lado, ora vencedor nos EUA de 2024, diz “o jogo é duro e quem não aguenta que pereça”. Cristãos esse tanto…

Revanche, vingança e ressentimento… Nunca deu errado para os peões do jogo quando esses valores vieram à tona no passado. #Confia

E se você tem dúvidas sobre o tipo de peça que é nesse tabuleiro, apenas responda para si se você pode dar uma bica no sistema inteiro e manter seu estilo de vida sem que nada mude. Se sim, parabéns: você é um dos poucos felizardos. Eu sei que não sou.

Um mundo em desencanto é um mundo sem esperança. É um labirinto em que parece que todas as alternativas foram tentadas e só resta voltar para trás. Mas, extrapolando a metáfora de Bobbio que aqui empresto, o perigo da mistura entre labirintos e o povo é a tentação de voltar sobre os próprios passos para um passado seguro, um passado em que tudo faz sentido e um passado que só pôde existir sob condições objetivas que não mais estão lá. E, ainda que estivessem, é um passado em que uma pequena parte do povo comia uma fatia de bolo e todo o resto passava fome. Agora, restaram as migalhas, enquanto os donos do jogo ficam com 15 fatias por ano (se é que você entende a minha metáfora), ainda que pudessem ter os buchos justamente cheios já na 3ª ou 4ª fatia.

Todavia, dizia Marx – sempre certo nos diagnósticos, sempre errado nas soluções (muito mais por culpa dos que ainda querem aplicar suas respostas para o século XIX no século XXI, anote-se):

Sem sombra de dúvida, a vontade do capitalista consiste em encher os bolsos, o mais que possa. E o que temos a fazer não é divagar acerca da sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o caráter desses limites.

E é essa vontade que não conhece limites e que tem todo o poder o que leva ao mundo que vemos pela janela. Não o regime político, não o candidato A ou B. Mas um sistema que cria um mundo que nos força a lutar por migalhas contra outros esfomeados, enquanto há sempre um menor número de refinados e distintos bolsos, sempre mais cheios de bolo, muito mais do que qualquer mortal precisaria ter e comer.

Eis, senhoras e senhores, o meu diagnóstico. A solução? Eu não ousaria…

Um problema aberto e a comunicação

Esse é um texto de opinião. Se você veio em busca de algo muito sólido, com pesquisas e fontes em suporte ao que falo a seguir, eu vou lhe desapontar. À essa altura, contudo, eu espero que você já não se desaponte com nenhuma das groselhas que surgem aqui, a cada seis ou dez meses. Queria escrever mais groselha, mas a endócrino proibiu tanto açúcar…

Quando eu criei o Sobre Tudo & Todos, eu imaginava que iria escrever por aqui com uma alta frequência. Foi ali no ocaso do Facebook como rede social mais utilizada no Brasil que eu decidi começar um blog. Mas, enquanto proposta, eu não poderia estar mais na contramão de tudo [parece rebeldia? Mas é só burrice.]. Mesmo o YouTube já dava alguns sinais de cansaço e tudo indicava que as pessoas queriam menos e menos conteúdo escrito e mais e mais conteúdo audiovisual – de preferência, curto. Aparentemente, para grande parte da raça humana é difícil focar em algo por mais do que um minuto. Uma pena.

Mas eu quase nunca aprendo as lições que a vida quer me ensinar. Eu ainda acredito que o texto tem algo mágico e só seu, algo que o vídeo não consegue fazer e que é, justamente, dar liberdade a quem escreve e a quem lê para imaginar frases e contextos da forma que melhor lhes aprouver. Há algumas regras nesse jogo, é claro, mas elas são bem flexíveis e a liberdade é tamanha.

A pergunta, então, passa a ser o que tem de bom nessa tal liberdade. Quando eu escrevo, você me imagina falando o que falo com arrogância no semblante ou com uma cara de louco quero dizer… neurodivergente?
Quando você lê, você consegue entender o que me corrói? Você entende que o que me faz escrever é uma sensação de mal-estar com algo ou alguém, ou… Comigo mesmo… Você consegue imaginar o que me motiva?
Escrever, para mim, surge de uma irritação. É um processo de urticária: algo irrita a pele e você tem que coçar. São milhares de anos de evolução biológica e a resposta ao estimulo é esta.

O que me irrita? Desde sempre, a deterioração social em marcha. Ela já foi mais brasileira do que de outros países mas, hoje, francamente, ela é mundial. Não, não é como se nós brasileiros tivéssemos partido de um sonho dourado e chegado no presente. Isso é tolice, posto que as provas e evidências dizem exatamente o contrário. É como dizer que videogames causam a violência no mundo e não explicar qual videogame jogavam aqueles que morreram e mataram na Segunda Grande Guerra Mundial, o mais violento dos conflitos armados em nossa breve História. Não, o passado não era melhor. Isso é uma armadilha na qual a mente humana cai com extrema facilidade.

O passado sempre parece melhor pelo simples fato de que nós já o vivemos. Aquele tempo e aquelas ocasiões estão todos resolvidos. Não importa se foram ruins, você sabe como a história terminou. Nosso cérebro já identificou os atores, as ações e os resultados. O passado é sempre seguro. O futuro é sempre incerto. Incertezas dão medo. E nós não gostamos de senti-lo.

Estou muito coach? Desculpe, eu não queria te ofender desse jeito. É que eu não sei bem o que fazer com essa liberdade. “Liberdade”… Isso se tornou uma obsessão bizarra, especialmente – mas não só – na política. Todos falam em “liberdade” de maneira compulsiva, quase em síncope. É um culto, um credo. Jamais explicam o que é essa “liberdade”, mas todos estão lutando por ela. “Liberdade”. “Corrupção”. “Igualdade”. “Inclusão”. O que isso realmente quer dizer? A resposta não pode ser outra que não um “depende”.

Está muito vago? Você já está pra desistir disso aqui? Eu não te culpo. A culpa é mesmo toda minha. A culpa é sempre de quem tenta dizer algo, mas falha em transmitir a mensagem. Pode falhar por não ter clareza sobre o que quer dizer. Pode falhar por ser muito conciso ou extremamente prolixo [eu, geralmente, estou no segundo time]. Falha porque erra o objeto ou confunde os meios com os fins.

Mas, esse é o paradoxo dos nossos tempos: somos uma espécie de animal que depende fortemente do social. Não temos as qualidades para viver completamente isolados. Talvez, mais gregários do que sociais, mas, ainda assim, comunicação é parte fundamental do que nos faz humanos. A comunicação leva à cultura, um dos últimos mitos fundantes e ainda de pé (mas cambaleando) da divisão entre homem e o resto da fauna.
E aquele sujeito vivendo na montanha, matando animais com a mão e comendo carne crua? Ainda que ele exista, ele não é um animal que prescinde do social. Sem amamentação, sem cuidados, […] sem uma sociedade que o levasse até os seus 14 ou 16 anos, quando se deu conta de si e do que queria fazer dali por diante, sua renuncia ao mundo social seria impossível. Há animais que realmente nascem e crescem sozinhos, desde o primeiro dia. Esse não é o ser humano.
“Onde mora o paradoxo?” você se pergunta. E eu te digo: somos uma espécie de animal social. A comunicação é vital para o sucesso desta espécie (não só do indivíduo. Da espécie). Porém, quando a comunicação falha e falha de novo e chega ao fundo do poço de falhas acumuladas, a forma mais baixa de comunicação que existe passa a ocorrer: a violência.

Somos animais sociais, fadados à comunicação como pressuposto ao sucesso da raça; e quando essa comunicação vai mal, por muito tempo, acabamos por apelar à violência. Violência que nos assusta e, assustados, nos comunicamos pior. O que gera mais violência. E a solução para quebrar o ciclo está naquilo que inicia o ciclo: a comunicação. Eis o paradoxo.

Todos os nossos atritos nascem, de uma forma ou de outra, da má comunicação. Agora, calma, calma, eu sei: você não gosta de filosofia de boteco, e “teorias sobre tudo” – que visam explicar o macro e o micro – parecem fadadas ao fracasso. Mas, em verdade, “fracasso” e “sucesso”, neste contexto, são apenas medidas binárias para dizer quantas vezes o modelo explica a realidade com precisão. E como eu não canso de repetir o dizer alheio, “todos os modelos estão errados, mas algum são úteis”.

Então, se (por exemplo) você não aguenta mais sua mulher (ou marido), melhorar a comunicação pode não ser a resposta para a melhora da relação. Mas é A RESPOSTA e ponto. Por que?
Porque se na origem vocês se comunicaram mal e a relação cresceu por sobre um cadafalso de frases pela metade e mal-entendidos, todas as premissas adotadas pelas partes dessa comunicação estão (e provavelmente são) invalidas. Quero dizer que significante e significado são de todo diferentes no vocabulário compartilhado pelos atores da sua relação.
Manga é manga, claro! Mas esse é o significante. Como você bem sabe, o significado é obviamente a fruta (exceto que para a outra parte o significado é obviamente o recorte da camisa).

E como melhorar a comunicação é A RESPOSTA? Bem, porque aumentando a clareza da comunicação, vocês dois descobrem que conseguem falar das mesmas coisas, usando os mesmos signos ( = significantes), sem jamais compartilhar dos mesmos valores (= significados). Se essa for a conclusão, o problema fica claro: uma relação fundada sobre premissas falsas não pode dar certo. É sobre o valor para as pessoas na relação, não é sobre o mérito da relação em si (poxa, mas a gente se ama tanto!), de seus motivos de partida (ela me ligou naquela tarde vazia!), tampouco dos seus objetivos de chegada (temos três lindos filhos juntos!). O maior problema é que toda comunicação, quando falha demais, por muito tempo, leva à violência. E “violência” é só o significante, aqui. O significado pode ser o famoso sopapo na cara, mas há TANTAS formas de violência: psicológica, moral, social. Até o soco na cara e o B.O. na delegacia, há todo um calvário de violências como ignorar e ser ignorado, as ofensas gratuitas, as palavras que desqualificam o outro como um ser humano intitulado a dignidade, simplesmente por ter nascido humano. Mesmo a indiferença contra alguém que diz nutrir algo de bom por você tem o condão de infligir dor.

“De novo atacando de coach, Rodrigo? Cacete, duas vezes no mesmo texto…”. Pois é. Porém, há um motivo mais importante quando a tentativa é a de falar de uma “teoria de tudo”. Eu disse, lá no começo, que o que me incomodava era a deterioração social e que eu arbitrariamente escolhi a escrita como forma de me expressar, mesmo sabendo que o momento é contrário a essa via.

Estou tentando, de maneira iterativa (observe: iterativo, sem n) demonstrar que a comunicação, quando melhora, esclarece exatamente a natureza das relações humanas. Não é o mesmo que dizer que quando a comunicação melhora, as relações humanas que já estão postas melhoram. Porque pode ser que elas não tenham como melhorar, já que as partes envolvidas nelas podem não partilhar de significados equivalentes para os significantes sendo utilizados. Se isso vai longe, por muito tempo, a violência (que é a forma mais baixa de comunicação) surge. No seu surgimento, o processo iterativo de se comunicar se converte num ciclo vicioso. Uma espiral destrutiva. Por medo, nos comunicamos pior. Da pior comunicação, gera-se violência. E a violência causa medo.

Eu tenho que fazer uma breve pausa para pedir perdão: se isso parecer a você como algo absolutamente novo e revolucionário saiba que eu estou, não intencionalmente, te enganando. É claro que inúmeros intelectuais, do passado e do presente, se debruçaram nesse tema. Cada qual com seu enfoque. Cada qual privilegiando aquilo que lhes chamava mais a atenção, ou que parecia mais promissor como resposta ao problema que apresentaram.

O que eu faço “de novo” é propor a reflexão pública e em termos simples, sobre como a resposta “a comunicação ruim leva à violência que gera mais comunicação ruim, em infinitos ciclos” se adequa ao problema “a deterioração social de nossos tempos”.
Se quiser um autor, dentre tantos, Niklas Luhmann, falecido em 1998, já estudava a sociedade pelas lentes da Teoria de Sistemas e abordava a comunicação como o objeto a ser explorado, para compreender o que os n sistemas sociais deixam de eco uns para os outros, mutuamente se alimentado e mutando por meio dessa troca. É mais (bem mais) complexo do que isso, mas meu ponto por aqui é sempre o mesmo: não precisa ser sempre mais complexo. Precisamos, pelo contrário, cada vez mais, melhorar a comunicação e isso significa, de algum modo, baixar certas barras, abrir mão de certos rigores, viabilizar que pessoas “a dez por hora” alcancem quem já está “a sessenta por hora”.

Isso é “inclusão”? E eu sei lá?! Não estou preocupado com o bingo da responsabilidade social; não me preocupo com a formação da minha reputação a partir da opinião de gente que mal conheço. Por que não dependo deles (ui, ui, ui)? Quanta petulância eu teria se assim pensasse! Não. É porque eu simplesmente não controlo como essas pessoas me veem, tampouco controlo seus significados aos significantes que uso. O que controlo é quantas vezes eu consigo explicar o mesmo significante, de diferentes formas, tentando garantir que a redundância de explicações afaste o risco de um mal-entendido.

Estou preocupado com a deterioração social [ou do contrato social vigente] e elegi a comunicação (ou melhor dizendo, a [falta de] qualidade dela) como a resposta para o problema. Então, se todos nos comunicarmos melhor, o mundo será uma grande “ciranda, cirandinha”? Mas é óbvio que não. Há significados irreconciliáveis. Há valores que não permitem a convivência. Exemplifico:

Se o que você chama de “criminoso” é o “neguinho no farol” que toma o seu celular, mas não chama assim o empresário que destrói um ecossistema e explora descaradamente uma mão de obra alienada de sua própria realidade, eu não posso concordar com você sobre quais criminosos devemos combater com mais ou menos prioridade.
Porque por de trás da sua definição (seu significado) para o significante “criminoso” mora sua resoluta certeza de que o “neguinho” é preguiçoso e moralmente corrompido, mas brilha nos seus olhos que em nome do sucesso de um CNPJ vale (quase, espero) tudo. Desse ponto em diante, nós dois não temos como prosseguir em um contrato social que nos obriga a partilhar dos mesmos deveres e direitos, porque sempre vamos discordar frontalmente quanto à execução de tal contrato.

Está ficando estranho? Muito separatista? Muito “esquerdista”? Não era bem a intenção, mas comunicação tem dessas coisas. Bem feita ou mal feita, ela ainda gera colaterais que, por definição, não são desejados, mas ocorrem assim mesmo. Eu disse, antes: se a gente realmente entender qual é o significado (e deixar de acreditar no valor de face do significante) no discurso de cada parte, vai ficar mais claro o que é mal-entendido, o que é valor moral, o que é reconciliável e o que não é. Daí em diante fica TÃO mais fácil desenhar um caminho que passe longe da violência (em todos os seus significados). E o caminho pode ser, inclusive, o fim da comunicação entre as partes. Veja: isso é totalmente diferente de “guerra”. Guerra ainda é a tentativa de, por meio da violência, forçar o outro lado a aceitar aquilo que o lado agressor está propondo e comunicando. Ainda é comunicação.

Como eu não me comunico com ninguém em Kuala Lumpur e vice-versa, os malaios não me fazem qualquer mal e eu tampouco faço a eles. Agora, é claro, essa tese tem seus limites impostos por um sistema maior que o de origem humana, que é o próprio planeta. Se um malaio, mesmo sem qualquer comunicação comigo, afeta o rio do qual eu tiro a água que bebo, passamos a ter um problema e surge uma comunicação mal feita (se estivesse com boa fé, ele deveria ter suspeitado que mexer na água de um rio importante de outro país geraria consequências, mas decidiu fazê-lo sem maiores comunicações com os interessados. Cometeu uma violência, e violência é comunicação, mesmo que seja a pior delas).

E aqui, fica interessante. Neste caso hipotético, ele teria abusado da liberdade que imaginava ter, ou ele “só” falhou em se comunicar com os interessados? “Ambos” parece bem razoável como resposta, mas eu forço a barra mais um pouco: não é que ele teria abusado da liberdade e isso causaria um problema comunicacional.
A liberdade absoluta que ele pensa ter, motivada ou equivocada, só existe num contexto em que ele não precise se relacionar com mais ninguém. Na realidade de um mundo partilhado e de infinitos sistemas interconectados e retroalimentados, toda a ação, mesmo que individual, gera uma consequência que, se não prévia e propriamente comunicada a todos os interessados (que podem nem saber que o são), leva a um problema de má comunicação (que, se não corrigida, leva à violência, que leva…).

Essa é uma outra forma -mais complexa forma, admito – de dizer “não, você não é livre para fazer o que quiser”. Esse tipo de liberdade incontida só é possível em sistemas fechados (como num videogame, por exemplo). No mundo real, praticamente todas as suas ações e comunicações geram efeitos nos n sistemas que lhe cercam, dos menores (como o almoço da família de domingo) aos maiores (como a eleição presidencial, de quatro em quatro anos).

Esse texto lhe parece muito “comunista”? O erro segue sendo meu. Sim, fingindo que essa dicotomia entre “esquerda” e “direita” é suficiente para explicar o pensamento político de alguém (dica: não é), eu me considero dotado de uma interpretação política mais ligada à esquerda, pelo simples fato de que eu não acho que o mundo e os contratos sociais estão bons do jeito que estão. Se eu tenho uma tendência à reforma, e especialmente ao tipo de reforma que busca tirar poder de grupos homogêneos e redistribuir esse poder para grupos mais fragmentados, ou mesmo de refundar instituições de Estado, logo, eu tendo ao pensamento comum à grande parte do que se chama de “esquerda”. Seja como for, ainda que eu não seja esquerda (posto que eu concordo quase sempre com os diagnósticos, mas raramente com as prescrições que a esquerda faz), “direita” eu certamente não sou. Eu não acho que tudo vai melhorar por si só, desde que todos obedeçam à Lei, pelo simples fato de que a Lei foi construída por sobre um enorme baldrame de más comunicações.

Por exemplo: é claro que a Lei brasileira beneficia quem tem mais dinheiro. Isso não é uma opinião, quero ser agressivamente claro quanto a isso. Isso é um fato. O desenho legal brasileiro permite que endinheirados escapem das punições com pouca ou nenhuma restrição às suas liberdades e direitos. É um universo paralelo onde ações não têm consequências ou se têm, elas são marginais, ínfimas. Ações sem consequências, em sistemas conectados e que se retroalimentam por meio da comunicação, por definição não podem existir. Exceto no universo paralelo criado para uma elite econômica, por meio da adequação do sistema legal que ocorreu por aqui.

Então, eu sou um defensor dos pobres e oprimidos? Meh… Que bobagem. Eu sei que sou oriundo da classe pobre, e sei que, correntemente, por n circunstâncias da vida, eu faço parte de uma decadente classe média que agoniza entre o chicote da classe alta e os dentes da classe mais pobre. Essa agonia não a torna uma classe de coitados, mas, certamente gera medo, e o medo… Bem, você já sabe. Agora, ter “consciência de classe”, como se diz por aí, não me faz vilanizar ricos e beatificar pobres. Na real, todo mundo sabe que tem filho da puta em todo tipo de estrato social. Não se enganem, senhoras e senhores do respeitável público: os canalhas vêm em todas as formas e cores, salgados e doces, brilhantes e opacos. E, acima de tudo, os canalhas também envelhecem. Tem canalha pai de família, tem canalha avô de família. Tem canalha solteiro e solteirão. E, claro, como não poderia deixar de ser, tem “canalha fêmea”, também. Canalha gay, canalha hetero… Infinitas possibilidades. Quero ser enfático para que a comunicação não se torne descolada do significado de cada significante utilizado.

Está ficando difícil fechar essa hemorragia em forma de texto. Por “fechar”, eu quero dizer “dar um sentido tal que as ideias compartilhadas ganhem coesão entre si e rumem para uma conclusão.”. E aí vem o paradoxo final da minha divagação de hoje: Na matemática, isso tudo seria um problema em aberto.

A resposta“, seja ela qual for, nunca será completa, porque o que motiva a busca por ela (ou seja, o problema) nunca está completo. O problema em aberto que nós todos, membros de n sociedades (da mesa de almoço na casa da sogra, passando pelo futebol de domingo com a moçada, indo até o bairro, a cidade, o estado e, ufa…, o país), precisamos encarar é o problema de que, sendo animais sociais, reféns com Estocolmo da comunicação como pré-requisito ao sucesso da espécie, estamos acreditando em uma porção mentiras que envenenaram a comunicação no que diz respeito a maioria dos significados.

Calma… Deixa eu me redimir antes de dar tchau: Eu não sei se são mentiras o que nos envenena. Eu não posso afirmar que são. Afirmar isso implicaria em eu ter que saber de cada vez que uma comunicação desse tipo foi feita e em que medida o(a) Emissor(a) conhecia ou não do risco de que os significados dos significantes que ele(a) empregou fossem diferentes nos Receptores (audiência) em que ele(a) mirou a mensagem. Ou seja: só é mentira se eu, comunicador, sei que o risco do que eu digo signifique algo diferente para você e, dolosamente, eu persigo que esse risco se realize. Se eu digo o que eu digo e você entende outra coisa, sem que eu realize esse risco, eu não estou mentido. Na pior hipótese, só me comunico mal.

Mentira ou mal-entendido, tanto faz: uma enorme parcela de nós, nas n sociedades [ = sistemas] em que somos parte, está com o significado errado para quase tudo o que se comunica por meio dos significantes que circulam.
Exemplos de conceitos equivocados, frutos da má comunicação: não dependemos de ninguém. Nosso sucesso (ou o de outros) é fruto único e irrevogável do nosso esforço e mais nada. Nossa liberdade permite qualquer coisa (de ouvir funk na praia, a pôr um crucifixo na vagina; passando por andar com um revolver na cintura, como se um xerife você fosse). Todos os valores são uma construção histórica e nada tem valor em si, logo, toda a moral é descartável.

Nós precisamos corrigir a nossa comunicação. Com a mulher, com o filho, com o patrão, com o vizinho. Com a polícia e com o bandido. Ao corrigir, não quer dizer que vamos todos cirandar. A promessa nunca foi essa. Mas nós vamos entender o que dá para salvar e o que não dá. E aí, se constrói o acordo possível.

O atual contrato social está fadado ao fracasso. Porque o significado que cada um lê nele não é partilhado pelos demais. E a comunicação já vem falhando há muito tempo. E quando ela falha por muito tempo…