Sobre Perdas & Danos

Aquele que, por ato ilícito, causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.

Art. 927, Código Civil de 2002.

Este vai ser um daqueles…

Começo, de cara, com um “disclaimer”, para gastar minha cota de inglês desnecessário e, também, para te avisar de que você, talvez, queira calibrar o que vai ler.

Mas, calibrar como?
Bem, imagine um segmento de reta com dois pontos extremos entre si, numa graduação centesimal de 1 a 100, sendo que à extrema esquerda, temos o otimismo, e à extrema direita, o pessimismo. O que você vai ler deve estar, em sua forma in natura, muito próximo da marcação de “70”, ou até mesmo “80”, já perto do fim do lado direito deste segmento proposto.

E, aqui, temos um duplo exercício: Um exercício simplório de geometria, misturado com um exercício avançado de disposição da liberdade. Cabe a você, caro(a) leitor(a), decidir se o que digo está muito distante da realidade porque é deveras pessimista, ou se está muito longe da verdade porque ainda não é pessimista o suficiente.

Você também pode concluir por uma terceira via: O texto atinge o patamar de “realidade”, pois, ele tem o pessimismo que a realidade circunstancial pede. Mas, se este for seu caminho, você escolheu olhar para a questão por um ângulo pessimista, já que no exercício original, eu propus que minhas palavras tenderão à extrema-direita do segmento; na altura da marcação em que se lê “70” ou “80”, em um segmento com graduação centesimal de 1 a 100.

Todos os modelos estão errados

Mas, alguns são úteis…

Quem dera a frase fosse minha. O autor (para alguns, apenas o difusor) dela, o estatístico britânico George Box, a cunhou diante de um desafio estatístico que lhe foi destacado. Eu já falei dele por aqui. Eu lembro. Lembro de tudo que escrevi. Isso é, muitas vezes, uma maldição, já que me ajuda a pensar em quanta coisa eu já disse e quantas delas eu queria poder ter dito melhor, diferente, ou nem ter dito. Estou fugindo do tópico. Voltando, porque “recordar é viver” (que também não é minha) e na raiz da palavra “recordar” achamos “repassar através do coração”. Como este é um texto emotivo, segue:

George Box a popularizou depois de perceber que o problema com as fórmulas e representações, não só no campo da Estatística, mas, também, nas Ciências de modo geral, se dava porque um modelo só pode representar um certo tanto de dados, variáveis e informações. Não importa o quão agressivo seja o teu esforço em coletar tantos dados e aperfeiçoar tanto quanto possível suas fórmulas e equações, elas são, naturalmente, só uma tentativa de representar uma pequena parte da Realidade e jamais Ela por inteiro (com letra maiúscula, como se fosse uma entidade).

Como modelo, eu adotei o Pessimismo

E isso já me causou todo tipo de problemas…

Todo mundo que convive comigo sabe que eu raramente considero que tudo vai dar certo “de largada”. E essa é uma decisão racional de como encarar o mundo e tudo o que reside nele.

Para a maioria dos brasileiros, o Otimismo é quase uma marca registrada da “brasilidade”, ou, do que é ser brasileiro. Assim, o fato de eu ser aberta e conscientemente pessimista causa uma certa surpresa, quase sempre seguida de uma certa rejeição porque, como já dito, ser otimista é uma marca do que é ser brasileiro, e ser pessimista é uma negação de boa parte da brasilidade.

Isso tudo já foi tema de algumas sessões de terapia, claro, porque, modo geral, as pessoas ao meu redor sempre esperam que eu seja mais otimista. Ainda que eu conseguisse, eu não escolheria ser, enfim. Não é quem eu sou, nem o caminho pelo qual eu percorri. A conclusão, junto à minha psicóloga, foi de que meu pessimismo não é um problema. Nas palavras dela, eu tenho uma percepção acentuadamente analítica das situações e, por inúmeras experiências passadas, e por lembrar delas, eu tendo a não crer nos melhores resultados, porque, bem… Porque os melhores resultados não são a regra, nunca. Prova?

Em Probabilidade, um ramo da Matemática, sabemos que em um jogo de 6 números escolhidos entre 1 e 60, temos uma chance de sucesso, contra 50.063.859 (cinquenta milhões, sessenta e três mil, oitocentos e cinquenta e nove) de fracasso. Estou falando da Mega-Sena, claro, mas, aplique o mesmo modelo (lembrando que todos estão errados, mas, alguns são úteis) e você verá que o Otimismo “à brasileira”, como seu irmão, o Pessimismo extremo, é uma distorção da Distribuição Normal de eventos em uma dada série. Em resumo, o jeito otimista do brasileiro é um problema porque não nos revoltamos com o que está errado, sempre contando que na nossa vez vai dar certo (embora a probabilidade diga o exato oposto). E, claro, se você perguntar para o último ganhador da Mega-Sena, dane-se as probabilidades: Ele jogaria todos os dias da vida dele (porque, óbvio, para ele a probabilidade foi “a uma”, e não as 50.063.859 que todo o resto de nós experiencia durante a vida toda).

Voltando ao meu divã, minha psicóloga e eu concluímos que meu pessimismo ainda não é um problema. Ele é acentuado, claro, construído às custas da pilha de experiências que eu vivi, e do resultado das minhas tentativas, mas, nas palavras dela (de novo): O pessimismo só se torna um problema quando você deixa de tentar por temor das probabilidades contra si ou contra o intento. De outra forma: Enquanto meu pessimismo não me impedir de tentar, ele apenas me fará ter menos amigos e menos simpatia. Em troca disso, ele também me ajuda a prever o que a maioria não conta que possa acontecer. Desse modo, se eu for inteligente o suficiente, posso usar isto a meu favor. Basta prever os riscos que os outros negligenciam, e preparar planos para cada cenário de falha. Não neutraliza o resultado final da probabilidade (a Mega continua resultando em uma chance “pró” em mais de 50 milhões “contra”), mas me faz contar menos e menos com o “final feliz automático”, e mais com a diversificação de planos e caminhos para atingir as metas que tenho.

Mas, eu posso justificar racionalmente o Pessimismo como uma forma inteligente de encarar as situações. É o que faço a seguir.

Todo sistema é entrópico

Melhor dizendo: Todo sistema real é entrópico…

A Entropia é uma propriedade originária do ramo da Termodinâmica, e determina o grau de desordem de um dado sistema. Essa desordem não deve ser confundida com “bagunça”. O exemplo clássico é o cenário do pote com dois grupos de bolas, cada um de uma cor, preenchendo 2/3 do pote. O terço restante está vazio. No estado inicial, as bolas azuis estão no fundo do pote, e as vermelhas por cima das azuis, totalmente separadas. Então, tampamos o pote (portanto, esse sistema é, agora, hermético) e balançamos um pouco. As bolas vão se misturar. E depois, balançamos mais um pouco. Elas se misturam mais. A Entropia é a medida de quanta desordem há no sistema atual, desde a situação inicial dele. O que ocorre é que, não importa o quanto balancemos o pote, ele nunca mais voltará à situação inicial.

É por causa disto que, com a tecnologia que temos, e respeitando as leis da Termodinâmica, nunca conseguiremos criar um sistema moto-perpétuo. Um sistema em que um gerador alimente um motor, e este alimente de volta o gerador, está fadado a desligar, não importa o quão eficiente seja o gerador ou o motor. Todos estão sujeitos a perder energia na forma de calor, e a entropia do sistema garante que nada voltará à forma original. Portanto, é impossível conservar a energia original (no exemplo, a rotação do eixo do motor) e convertê-la de maneira ordenada para outra forma de energia (como a energia elétrica do gerador) sem que este processo gere um desvio considerável de energia na forma térmica.

E assim é com todos os sistemas. Não importa o quanto cuidemos do nosso corpo, a perda de vitalidade ocorre ao longo da vida. Não importa o quanto cuidemos de uma máquina, o destino dela é parar de funcionar pelo desgaste. Mesmo em sistemas financeiros, onde o acúmulo de capital sempre alavanca o crescimento deste mesmo capital, a regra tende a permanecer: Para manter o poder de compra de um dólar estado-unidense de 1860, o consumidor norte-americano precisa desembolsar 30,99 dólares atuais (fonte). E estamos falando de uma economia que, com erros e depressões, deu mais certo do que errado ao longo dos últimos dois séculos. Em outros sistemas financeiros, a perda é mais evidente, embora sistemas financeiros não se comportem como sistemas termodinâmicos. No primeiro caso, as coisas valem o que acreditamos que elas valem. No segundo caso, não importa a opinião, os sistemas vão gerar calor e desgastar. Ainda assim, o primeiro se comporta, muitas vezes, como o segundo.

E tudo isso para demonstrar que a escolha pelo Pessimismo é uma escolha lógica. Na natureza, e mesmo nos sistemas artificiais (em grande parte), a Entropia está presente, e todos os sistemas tendem à decadência. No campo da Probabilidade, a Distribuição Normal de eventos, tanto contra, quanto a favor de uma dada situação, demonstra que a situação ótima é tão remota quanto a pior, e o que resta são situações que podem ser boas ou não, mas, se só uma situação lhe serve (como no caso da Mega-Sena, ou em outras situações decisivas com apenas um desfecho bom), as chances estão todas contra.

Assim, eu contrario a brasilidade. Eu contrario um dos traços mais marcantes do meu povo: Contar com o melhor. E, com isso, não faço tantos amigos, nem sou tão popular quanto poderia ser se adotasse um estilo altamente positivo e otimista (quem sabe, com falas de coach e um coque samurai) em relação ao desenrolar das coisas e dos atos da minha existência. Curiosamente, isso me agrada. Viver em função do que os outros esperam de você é sempre um enorme desgaste (porque os sistemas, como eu já disse, sofrem com a entropia, e as relações humanas não escapam disso). Manter relações com base em otimismo requer um enorme dispêndio energético para repor o que se perde com a entropia delas.

Eu não terei a vaga de gerente de vendas. Isso é certo. Ele precisa vender sonhos, e eu não acredito neles por essência do meu pensamento. Também, deve ser difícil me tornar um político de destaque. Meu povo conta com gente que venda um otimismo enorme, e raramente meu povo reage bem a pessoas com uma visão cética da realidade. Ainda assim, a Escola Cética tem representantes em todos os campos da política, em vários momentos históricos, e – contraditoriamente o bastante – há alguma esperança para um pessimista como eu.

Ter uma abordagem pessimista, se basear numa análise pessimista da realidade, de maneira nenhuma me impede de ter metas, planos e até sonhos. Apenas me coloca numa situação de não empolgar ninguém com o que tenho a dizer. Eu não consigo, modo geral, dizer para as pessoas que tudo vai acabar bem enquanto elas estão amarradas na linha do trem de carga. O que consigo fazer, por outro lado, é dizer a elas que se decidiram enfrentar bandidos ferroviários, o melhor a se fazer é andar por aí com facas e canivetes e, se possível, ter alguém escondido para cortar as cordas na hora derradeira. Não é tão motivador. Sei disso. Mas, me trouxe até aqui, e onde outros tropeçaram, eu prosperei. Por outro lado, minha análise me diz que não vou tão longe quanto quem pula por cima de precipícios do mesmo modo que pula da calçada para a rua, por sobre o meio-fio. Estou em paz com isso, todavia.

A antiga cultura chinesa (seja no Confucionismo ou no Taoismo, ou mesmo antes dessas Escolas) sempre ensinou que o equilíbrio é a mais importante virtude de alguém sábio. Mais importante do que ser muito otimista ou muito pessimista, muito prático ou muito teórico, muito sonhador ou muito cético. E assim, o que tento fazer é me cercar de pessoas que “calibrem” esse modelo de análise do mundo que tenho, de tal modo que eu tenda ao equilíbrio, mesmo que de forma externa e imperfeita. Trazer esse balanço para dentro de mim ocorreria de forma artificial e não é quem eu sou, portanto, esse tem me parecido o melhor remédio contra um eventual desequilíbrio tendente ao pessimismo extremo.

Mas, não é só sobre mim que eu quero falar. Já falei o que você precisa saber para entender “de onde vim”, e como eu vejo a situação a ser exposta em seguida.

Meus amigos foram embora

De novo…

Todos os anos, nos últimos tempos, o Daniel e a Heloísa têm feito um sacrifício árduo. Saem de suas casas, ao Norte, e vem para o Brasil. Isso tem alto custo. Moraram no México. Agora, moram nos EUA.

Eu me lembro bem de quando foram de vez. O Daniel me ligou no meio de uma semana comum e sem qualquer ocorrência de grande vulto, e disse que precisava conversar comigo e de alguns conselhos.

Somos amigos desde os meus 15. Já passamos por todo tipo de história. Momentos de profunda depressão, e de grande alegria. As bandas de rock, as desventuras amorosas. Os churrascos, as festas, as roubadas. Atravessar parte do litoral paulista sem plano e sem renda, o “sal de forno”, a noite na rodoviária. O cursinho, o ingresso na faculdade pública, o abandono de certos planos e sonhos. O começo da carreira, mais desilusão, e a fase da ascensão. Cada um viveu isso em um dado momento, e contou com e para o outro.
Foi, sem sombra de dúvidas, uma amizade que definiu bastante como um e o outro cresceram e lidaram com uma fase turbulenta e delineadora do que é a vida humana. “Foi”, mas continua sendo, claro. “Foi”, porque a distância, o fuso e outras coisas tornam ela menos presente e menos constante. Mas, também continua sendo porque, sempre que podemos, estamos interagindo dentro dos limites impostos pela realidade. Além disso, depois dos 30, você não se transforma por completo, então, a amizade não se torna mais a parte que define como você vai ser. Você, no máximo, apara algumas arestas, fortalece conceitos e preconceitos, e vai ganhando experiência para preencher seu empirismo adiante.

O Daniel é um homem muito inteligente e, uma vez em uma multinacional, não demorou para começar a ganhar notoriedade, desafios e cargos maiores. Hoje, gerencia quem gerencia, e está cada vez mais perto do nível estratégico. E é bom dizer que, no meio disso, ainda houve uma demissão durante a crise, e foram buscá-lo quando a coisa normalizou. Não é preciso defender adiante, portanto, o nível diferenciado de profissional que ele sustenta.

O título dessa parte pode soar meio ofensivo a todos os outros amigos que ficaram (e os que ficaram são mais numerosos do que os que foram). Não é a intenção, e lamento se alguém se sentiu “menos amigo”; isso nunca foi a missão. Mas, eu precisava falar sobre perdas e danos.

Eu perco e sinto os danos, toda a vez que eles se vão. E isso ocorre, felizmente, uma vez por ano, nos últimos anos. É caro e doloroso para o Daniel e para a Heloísa. E para mim, é só doloroso. Mas, se isso é tudo o que podemos ter, pela realidade imposta, é melhor passar por isso do que não ter em absoluto. Óbvio.

Voltando para a conversa que tivemos antes do Daniel bater o martelo pelo plano de assumir um time no México, nós passamos pouco mais de duas horas avaliando o que sabíamos dos dois cenários. Aquele em que ele não fazia nada para sair daqui, e aquele em que ele “encarava o mundão”.

Eu juro: Eu procurei.

Procurei uma única razão para dizer “cara, é melhor sair dessa. Isso pode ser bom no curto prazo, mas não vai ser bom no médio e no longo”. Ou algo como “por mais tentador que seja, as oportunidades que você terá aqui serão mais recompensadoras do que qualquer aventura por lá”.

Acontece que eu não achei nada.

E eu tive que dizer “Daniel, eu lamento por nossa amizade e por tudo que fazemos juntos… Mas, não consigo achar uma só razão para você declinar esse convite”. E acho que ele disse algo como “É o que eu temia”, seguido de uma risada um pouco nervosa. Não havia alegria. Só razão e pessimismo.

Que o Dani e a Helô não me entendam mal: Eles e a Ruby (a companheira de quatro patas) estão muito bem. A vida tem sido leal com o esforço e com o sacrifício. Ele tem crescido mais e mais na empresa, e a Helô sempre elogia as experiências no México, e começa a ter novas experiências nos EUA, também. Tem a bagagem cultural, as línguas aprendidas, as vivências, as paisagens, os acessos aos bens de consumo de forma muito menos sofrida; enfim… Tem tudo isso.

Mas foi a razão e o pessimismo que nos fizeram perder o Dani e a Helô “para o mundo”. E eu posso dizer, sem medo de errar, que se eles tivessem um pouco mais do país que nasceram, não teriam ido. Um pouco mais de confiança. Um pouco mais de segurança. Um pouco mais de perspectiva. Um pouco mais de tudo. Porque quando eles decidiram fechar as malas, deixaram para trás a chance de conviver com todos os que faziam sua vida, até ali, tão preciosa. E ninguém abre mão disso “por pouco”.

Aqui, eu imagino que vão surgir filósofos à esquerda e à direita das correntes possíveis. Vão defender que um sonho requer sacrifícios. Outros dirão que eles não deixaram de fato, e que dá para amenizar a distância com tecnologia, enquanto outro fim de ano não chega. Haverá os que atacarão e apoiaram cada uma das escolhas na mesa. Ir. Não ir. Sacrifício. Raízes. Aventura. Família. Cada qual valoriza, na ordem em que aprendeu a valorizar, cada tipo de argumento. Para mim, são todos inúteis no caso concreto.

No caso concreto, só admito a resposta vinda do Daniel e da Heloísa. Eles sentiram na pele, eles pagaram e pagam o preço, e eles colhem os frutos, doces ou amargos, ou até agridoces… Mas, na falta deles, eu estava perto, participei, e ouvi quando o martelo foi batido. E o que não foi dito, mas estava lá, foi “Caramba… Então é isso mesmo? Vamos sair daqui? Vamos ter de sair…”.
Era um misto de decepção por não achar os motivos certos para dizer “não é a hora, não é pra mim, não é bom” … Com um misto de medo do desconhecido. Impulsionado pelo sonho quase omnipresente nas populações de países pobres de imigrar para lugares melhores, ou, para ser mais justo, “aparentemente melhores”, já que você pode ter uma vida boa no Brasil, e passar por apuros enormes ao morar na Finlândia; o que quero dizer com isso é que “melhor” depende absolutamente da resultante da tua experiência com o exterior, e não de indicadores mundialmente calibrados ou pesquisas de perspectiva nacional.

E acho que o lado preocupado do Daniel contou comigo para achar a razão inquestionável para não ir. Quero dizer: Quem me procura para esse tipo de assunto não pode nunca achar que vai ouvir algo como “nossa, vai ser demais, e você vai ver o mundo, e vai fazer outras amizades, e vai ser incrível”, ou “nossa, agora tenho uma casa pra ficar quando eu for naquele país” … Eu já disse: Se você me conhece há tempos, sabe que sou alguém com um modelo pessimista de análise, e que eu acredito na entropia dos sistemas. Se não me conhece, bastaria ter lido, com mais cuidado, o começo dessa publicação.

Para “azar” do lado preocupado do Daniel, meu modelo de análise não se corrompe para o lado que mais me agrada. Teria sido “fácil” (não moralmente fácil) manipular as situações, dados e perspectivas, e incitar os medos mais profundos do amigo, que já me ligou preocupado e aflito, e tudo para mantê-lo perto de mim e de todas as pessoas que compõem as nossas vidas, em comum ou não. O lado preocupado do Daniel talvez amasse a resposta “essa é uma péssima ideia”.

Não foi como decorreu. Analisamos o que estava na mesa. Analisamos a perspectiva do mercado brasileiro versus as expectativas que o Daniel tinha para a própria carreira. Analisamos o que ele esperava para a própria vida, para a vida a dois com a Heloísa, e o que ele queria proporcionar para si e para ela.
E sair do Brasil foi a decisão óbvia. Mesmo em 2014, quando tantos conterrâneos meus ainda achavam que o Brasil tinha entrado numa virtuosa crescente que nos levaria ao patamar de país que honraria a já trágica e eterna promessa de “país do futuro”. Trágica sim, porque, desde que isso foi prometido aos brasileiros, parece que todos nós que nascemos aqui, seguimos de braços cruzados esperando alguém (excluindo nós mesmos) fazer esse “país do futuro” acontecer.

E a lista não parou de crescer

E outros amigos e colegas seguem saindo…

Alguns eu conhecia bem, outros, eu cheguei a estar no casamento. Alguns, eu apenas gostava de trocar meia dúzia de palavras, mas, de todo modo, todos deixaram pessoas queridas aqui, como o Dani e a Helô.

Renato e Diego, esposas e filhos, foram para Lisboa.

O Rodrigo foi para Foster City, na California.

Antes deles, o Fernando já tinha ido para Vancouver.

O Paulão foi para Nova York.

O RodG já estava em Seattle.

O Leo Fagundes, esse iria para os EUA de qualquer jeito, em qualquer circunstância (legal, claro). Conheci poucas pessoas tão determinadas a morar lá.

Recentemente, o Mark, colega de trabalho na HP, voltou com a esposa brasileira para sua terra natal, a Holanda, depois de mais de uma década aqui.

Antes ainda, já havia outros colegas e amigos indo para o Texas, San Francisco, San Mateo, Seattle, Londres, Melbourne, Sidney, Helsinki…

A lista nunca desacelerou e, na verdade, depois de 2016, a lista apenas cresceu e ficou mais rápida, mais imprevisível. Gente com quem conversei um pouco antes e me disse que não tinha motivos para sair, saiu pouco depois da conversa. Senso de oportunidade, vai ver. Mas eu acho que não. Tem algo a mais.

Não há nada de errado em sair

Se pelos motivos certos…

Ora… O “motivo certo” não seria o motivo de cada um? Sim! E não…

A história da raça humana é também uma história de migração. Falar em “verdadeiro brasileiro”, ou “verdadeiro americano” é falar em povos indígenas, tão somente. E até mesmo eles (ou seria “principalmente eles”?) têm a constante movimentação pelo terreno como uma forma de permitir que a terra se regenere e permita um novo ciclo de consumo, mais tarde. Então, não: Não há, definitivamente, nada de errado em sair do seu país de origem e ir morar em outro lugar. Seus antepassados, todos eles, fizeram isso em algum momento; alguns, mais de uma vez. A Europa teve diversos impérios continentais com constante processo de migração dos seus povos. Nem mesmo a Europa setentrional/nórdica/escandinava pode se dizer isenta disso.

E os motivos para sair do país são sempre pessoais, é lógico. Se você nasceu em Londres e concluiu que o clima chuvoso não é pra você, você tem todo o direito de ir morar em Cape Town, ou mesmo na Austrália e, de quebra, não tem que reaprender um idioma inteiro, o que é muito bom pra você.

Então, o que eu construo, a seguir, não é uma crítica à vontade de mudar. Essa é, pra mim, sempre legítima e de justificativa de foro pessoal e não comparável.

Mas, o que se deu em parte relevante dos casos citados foi a exaustão da fé, da paciência, e a prosperidade do medo generalizado e da ansiedade quanto ao próprio futuro. E, sem qualquer intenção de justificar as escolhas de cada um (que são totalmente privadas e alheias a mim), a culpa por esses sentimentos e o esgotamento de parte deles é do meu país. Não das pessoas que se foram.

Parece não fazer sentido. Talvez, não faça mesmo. Mas toda vez que um conhecido parte do Brasil em busca de uma vida melhor, na minha cabeça fica a ideia: “Devemos desculpas a ele/ela/eles”.

Ninguém deveria ser expulso (ainda que de forma silenciosa) do país em que nasceu, mas, recentemente, o Brasil forçou, sistematicamente, aqueles com condições a sair daqui. Forçou com medidas estatais e forçou com atitudes do povo que ficou. E, claro, isso não agrada a quem ficou. Mas, eu já disse que não falo ou escrevo o que agrada mais. Eu falo e escrevo o que consigo constatar por meios objetivos, como estatísticas, bem como por meios empíricos, como uma conversa com quem está deixando este lugar para trás.

O Brasil se tornou um país hostil para pessoas inteligentes, com competência e talento acima da média, e todos os que tiverem a chance de sair devem acabar saindo, senão por ideologia (como eu, só por ora).

A pergunta lógica a seguir seria “por que?”. O “porquê” dessa questão tem muitas respostas possíveis, mas, se tentarmos manter critérios objetivos, evitando variações de humor e de ponto de vista, veremos que o Brasil tornou-se inóspito a quem contrariar qualquer parte do status quo. Mas, o ponto de pressão sobre aqueles que têm meios de sair parece ter chegado ao limite de alimentar o rompimento com a terra natal de maneira escalar.

Analisemos:

Ser miserável nos EUA ou aqui não é exatamente diferente. Em ambos os casos, você não tem o bastante para seguir vivendo, e sua existência é feita de dor, de ausência, e de exclusão.

Se você é rico (rico mesmo… Estou falando e alguém com mais de 10 milhões de dólares acumulados), tanto faz se você mora no Brasil ou nos EUA. A sua experiência de vida é de acesso pleno aos bens de consumo, saúde de primeiro nível, e você consegue o que quer em ambos os lugares. Poderíamos discutir que a segurança no Brasil é um problema, mesmo para os ricos, mas alguém com 10 milhões de dólares ou mais não terá muitos problemas com isso, mesmo aqui. Para balancear, devemos lembrar que nossa Justiça e Legislação favorecem constantemente os mais ricos, e que nosso clima é sempre regular, sem excessos ou catástrofes naturais como no território dos primos ricos do Norte. “All in all”, eu diria que não faz diferença onde você mora, com o poder aquisitivo alto.

Mas, se você está numa classe flutuante como a classe média… De origem nem tão pobre, nem tão rica, com o sonho constante de ascender, mas sempre diante do risco iminente de sucumbir… Nesse caso, o Brasil é um dos países mais hostis que você poderia morar. Você tem inteligência suficiente para crescer na vida, mas não o bastante para criar uma tecnologia nova e fundar uma empresa multimilionária. Com isso, empreender com pouco dinheiro te expõe a todo tipo de mazela que o Estado brasileiro é capaz de propor. Você ganha bem o bastante para ter seguro, mas não para blindar seu carro ou ter seguranças em casa. Você até que mora bem, mas corre riscos com enchentes e deslizamentos, e ainda depende do transporte público para manter a economia nos trilhos. Você tem acesso à saúde, mas só enquanto for empregado e tiver o convênio de bom porte que sua empresa banca… Se você está nesse grupo que nunca foi rico, mas está longe do real sentido da palavra “pobreza”, o Brasil é, de fato, um país muito hostil para seus planos e sonhos.

Eu sei o que alguns estão pensando: “Pobre classe média e seus problemas de branco”. Eu conheço esse pseudo-argumento. Acontece que a classe média é o assalariado deste país. E essa classe média que emprega a maior parte das pessoas em um país com constante desindustrialização e um aumento do ramo de serviços. É essa mesma classe-média que arca com a maior parte do custeio da máquina pública (incluindo os programas sociais), seja porque ela é numericamente relevante na demografia, seja porque o modelo fiscal brasileiro a esmaga entre os benefícios (legais e ilegais) aos mais ricos, e as isenções (justíssimas, destaco) aos mais pobres. Quando você se sente nesse rolo compressor e há uma saída para fora desse modelo, é mais do que óbvio que você vai tentar escapar.

Só para uma comparação objetiva:

O pior estado dos EUA, quanto ao IDH-M (Índice de Desenvolvimento Humano) é o Mississippi (fonte), com base em dados de 2017. O estado atingiu um IDH de 0.866, equivalente ao IDH médio da Polônia que, bem sabemos, não anda lá um lugar bacana de se viver, com seu governo autoritário e outros problemas sociais como uma população voltando a se apaixonar por contos de supremacia das raças, etc…. Ainda assim, o Alabama, quadragésimo nono na lista, atingiu o IDH de 0.882, equivalente ao IDH da Itália. Dali para cima, o IDH só melhora, e a comparação também. Alguns estados são comparáveis à Suíça e Noruega.

Já, no Brasil, o melhor estado é, obviamente, o mais desenvolvido, e estamos falando de São Paulo (fonte). Seu IDH-M é de 0.826. O pior Estado do Brasil, Alagoas, tem o IDH de 0.683. O melhor estado brasileiro tem o IDH 40 pontos menor que o pior estado americano. Se você morasse no Mississippi, estaria, ainda assim, melhor assistido nos itens “índice de educação”, “longevidade” e “renda”, todos abarcados pelo IDH-M, do que poderia estar em São Paulo. E, como eu já sustentei, isso faz diferença especialmente para você que não é nem rico, nem pobre, e que depende da capacidade final do seu poder de compra para ascender ou, ao menos, evitar o descenso.

O Brasil se tornou um pesadelo para pessoas capazes

E não há mal que não possa piorar…

Brain Drain” é um termo conhecido no exterior quando o tema discutido é a “fuga de cérebros” de um dado país. Em 2011, a Receita Federal informou que ~8 mil declararam saída definitiva do Brasil. Em 2014, o número subiu para ~12 mil. Já, no período passado, o número de declarações de saída definitiva foi de ~22 mil (fonte). E se estamos falando em saída definitiva na Receita, estamos falando de pessoas que emigraram legalmente e que foram para fora com visto certo e, possivelmente, empregos com qualificação satisfatória. Ou seja: A chance dessas pessoas voltarem é bem remota porque emigraram legalmente e com solidez. Também, porque o Brasil nunca melhorou de lá pra cá. Pelo contrário.

O ranking da respeitada IMD (International Institute for Management Development), da Suíça, colocava o Brasil, em 2009, na 14º colocação dos países com menor Brain Drain. Em 2018, o ranking colocou o país em 39º. Agora, o país ocupa a 3ª pior posição (fonte). Na América do Sul, só perde para a Venezuela, a primeira da região em “fuga de cérebros” (e onde o suicídio está ascendendo) (fonte). Cabe reforçar: O ranking só lista 63 países. E somos o 61º pior. Pior do que nós só Venezuela e Mongólia, respectivamente.

Claro: É um ranking parcial e não global. Mas, para a 9ª maior economia do mundo (e que já foi a 6ª, em meados de 2012) (fonte), figurar no fim da fila da retenção de talentos é a medida do fracasso. E tem gente comemorando: “Se não servem pra ajudar o Brasil, melhor irem embora mesmo” dizem os insanos que, cegos por um senso tresloucado de patriotismo, não entendem que sem as pessoas “certas” (certas = certas para ajudar no desenvolvimento de tecnologias, patentes, produtos e serviços que o mundo queira pagar caro por), toda terra é só um pedaço de terra. O pedaço de terra chamado Brasil, sem pessoas competentes, vale tanto quanto o fundo do mar ou a superfície da Lua valem, agora.

Como alguém da área de TI, me sinto mais do que confiante em demonstrar episódios dessa triste história brasileira:

O criador do HoloLens, tecnologia de Realidade Aumentada/Mixada da Microsoft, é o curitibano Alex Kipman. Recentemente, foi indicado ao prêmio “Inventor Europeu” do Instituto Europeu de Patentes, pelos feitos na área de pesquisa de AR/MR em que é líder (fonte).

Um sujeito importante (dentre outros, claro) nos projetos de Computação Quântica da Microsoft, depois do Google e atualmente da Amazon, é o mineiro Fernando Brandão. Ficou famoso com o anúncio da Google sobre o atingimento da Supremacia Quântica, projeto em que foi fundamental (fonte).

Eu teria vários outros nomes para citar, mas vou ficar nos dois, pelo tempo e pelo comprimento desse texto.

Gente que está lá fora, dando o que falar, positivamente (ao contrário da turma ministerial deste lugar). E poderia estar aqui, gerando patentes e conhecimento, que gerariam emprego e rios de dinheiro.

Por que não está? Claro que o Estado Brasileiro tem sua culpa nisso. Mas nosso povo – a grande massa que o compõe – também tem.

Sugiro procurar qualquer artigo em que um dos dois conversou sobre as chances de voltar para o país natal (ambos já disseram: nulas) e vá nos comentários. É a mesma animalidade de sempre. “Melhor nem voltar”, “É um favor! O Brasil não precisa de vocês!”, “Elite é um lixo, recebem tudo de bom e do melhor, e não sabem devolver nada”.
Se você tivesse um cérebro acima da média, um governo que odeia Ciência e Verdade científica, décadas de destruição dos sistemas de ensino e pesquisa (fato que não pode ficar só na conta do atual Governo, devo frisar, mas que vem sofrendo ainda mais com cortes e represálias demagógicas e ideológicas deste) e uma população igualmente animalesca, você ficaria aqui, diante de um convite para estar em um país que leva sua área de pesquisa a sério? Acho que sabemos a resposta. Os números mostram o mesmo.

A solução para o Brasil é Guarulhos

Mas espero – em vão – que, um dia, deixe de ser…

Uma das brincadeiras entre PFEs (o nome da posição que ocupo) é que a solução para o Brasil é Guarulhos. Ou seja: Ir embora do país, pelo maior aeroporto internacional da América do Sul.

E se você é um dos desesperados em sair daqui, tenho que te dizer que você quer muito trabalhar onde eu trabalho. As opções para sair com emprego são inúmeras e constantes. Literalmente, dezenas de vagas e lugares, o tempo todo.

Obviamente, você precisa de um binômio chamado “qualificação & sorte”. Qualificação para competir com o resto do mundo tentando. Sorte para ser política e economicamente viável para o dono da vaga trazê-lo para a terra dele. Mas, mesmo dependendo disso, acontece com muita frequência.

A real solução para o Brasil seria que a sociedade brasileira, que é composta por todos nós (e esqueçam Brasília por um tempo, por favor), deixasse de ter os traços que Durkheim chamou de “solidariedade mecânica” e migrasse para a “solidariedade orgânica”.
Durkheim já foi sucedido de todos os modos. É datado, fundou a Sociologia e, portanto, não a viu florescer como já ocorreu. Teve seus estudos e conceitos propostos postos à prova, diversas vezes, tendo em vista o quão rudimentar acabou se tornando com o tempo. E mesmo sendo tão “datado”, ainda explica o problema do Brasil tão bem.

Ele diria que a solidariedade mecânica está fortemente pautada na coerção imediata, violenta e punitiva, e que as ligações entre as pessoas não vão além de seus círculos sociais imediatos. Como homem europeu e branco, ele estava obviamente sugerindo que essa solidariedade mecânica se aplicasse às tribos e civilizações não industrializadas. Contudo, ao olhar o modelo de “civilização” e respeito que se desenrola no Brasil, eu vejo o que Durkheim propôs: Nos organizamos em tribos (a tribo dos que querem andar armados, a tribo dos que querem ridicularizar a religião, a tribo dos religiosos, a tribo dos médicos, a tribo dos motoristas de Uber, a tribo dos taxistas, a tribo dos juízes, a tribo dos políticos), e dentro dessas tribos, há um certo grau de respeito, ora por admiração, ora por medo. Para fora delas, não há respeito algum. É cada um por si… E a lei precisa ser altamente regulatória e punitiva, porque, sem esse comportamento do legislador, não sabemos, simplesmente, como nos respeitar. Então, como um bando de crianças (ou homens das cavernas) precisamos ser tratados pela figura do Estado.
Durkheim foi criticado por sua visão muito eurocêntrica do que representava o “progresso”, e de ter significado que não ser como a Europa era um sinal de simploriedade e atraso. Ele se referia aos povos nativos e/ou tribos africanas. Mas, se tivesse conhecido o caso do Brasil há tempo, sua imagem poderia ter sido menos arranhada com uma prova cabal…

E a pergunta que me persegue…

(Tanto quanto “você vai deixar a TI ao final da faculdade de Direito?”) é “por que você não deixa o Brasil?”…

A resposta já foi muito certa dentro de mim. Sete anos atrás eu diria algo como “eu ainda não tentei tudo que posso tentar nesse lugar. Quero tentar ajudar o Brasil a procurar outros rumos, para longe dos ciclos de sujeira e jogos de cartas marcadas que sempre ocorreram aqui”.

E aí, eu envelheci. Não só na idade, mas mental e emocionalmente.

Olho para os comentários (não só os virtuais, claro) dos meus conterrâneos, e duvido cada vez mais que esse lugar possa ser salvo.

As pessoas olham para a elegante Brasília como o centro de todos os problemas daqui. Eu olho para o grupo de Whatsapp da minha família. Eu olho para os cafés em que vou tomar uma dose com os amigos do trabalho. Olho para os meus clientes, meus colegas de trabalho. O noticiário local, regional, nacional.

São mentiras, preconceitos, ideias estapafúrdias, soluções simplistas para problemas muito complexos e profundos. Lugar comum. Senso comum. Slogans repletos de ufanismo, crendices, clubismo.
Pouco estudo, pouca Ciência, pouca sabedoria; muito achismo.
E, em cima disso, se faz o tecido social que forma “o grosso” do Brasil. É também em cima desse tecido que políticos populistas tentam capitalizar. E capitalizam.

Volte um pouco no tempo e veja como terminaram os homens e mulheres que tentaram abrir os olhos de sociedades cegas. Tomadas por crenças em seres mágicos, em valores absolutos, em ideologias partidárias e/ou religiosas.
Não se trata de “religiosos demais” ou “ateus demais”. Não estou falando sobre um país adoecido por “ser de esquerda” ou “ser de direita”. Estou falando do que ocorreu com gente que ousou enfrentar populações “certas demais” quanto ao que acreditavam ser “a verdade”.

O problema central é a paixão. Que eu também já tratei por aqui e tem o mesmo radical de “doença”. O povo brasileiro é um povo que se comporta ao sabor das emoções. E um povo assim é um povo destrutivo.
Claro: É o melhor povo para se ter amizades, tudo muito caloroso etc., mas, é um dos piores para criar um país pautado em inteligência e sabedoria. Porque, diante da verdade alicerçada em fatos e não em opiniões, ainda assim caem de joelhos agarrados em suas crenças e crendices. De que o mundo é melhor com Deus, de que o mundo é melhor sem Deus. De que o problema é a Esquerda. De que o problema é a Direita.
E não importa o que você faça, não importa o quão feroz você seja em demonstrar por meio de método, pesquisa, dados (escolha suas armas à vontade) os reais problemas do país (que não têm a ver com Direita ou Esquerda, Ateísmo ou Cristianismo, mas com a estrutura social, nos moldes propostos por Durkheim) ninguém te ouvirá e ninguém apoiará. Porque as paixões não deixam. E, no fim, embaralham fato com opinião.

Mas, principalmente, porque o maior do problema do Brasil mora (sempre morou, e sempre morará) no espelho mais próximo, é que eu tenho menos e menos certezas.
Nossa relação, uns com os outros é, em geral, tóxica e desleal.
E sempre há alguém mais forte e mais poderoso do que eu e você, e esse alguém sabe que ser tóxico e desleal é o jeito que as coisas são por aqui. E isso progride em escala geométrica até chegar, agora sim (e só agora), em Brasília. Não é o governo brasileiro que não presta, é a nossa relação social; o governo é mera consequência da sociedade, não o oposto. O jeito que lidamos uns com os outros no dia-a-dia. O senso forte de que cada um é cada um, e que ninguém é conterrâneo de ninguém. E mesmo quando esse tipo de valor surge (de que o outro é um compatriota) quase sempre surge para atender aos interesses privados e, tantas vezes, ilegais. Nunca (ou quase nunca) surge no sentido de “vou preservar isto que não me pertence, porque sei que pertence a Fulano, e Fulano é meu compatriota. Ele faria isso por mim. E eu farei isso por ele”.
Não tem nada a ver com “cidade grande” ou “cidade pequena”. Tem a ver com nossa alma nacional. O brasileiro parece ter levado muito a sério a ideia bíblica em Ezequiel de que “a salvação é individual”.

Levou-a tão a sério que se salva até quando não precisa se salvar de nada.
Salva-se da pobreza (que não o aflige) desviando milhares de reais de sistemas públicos. Salva-se da esperteza alheia sendo o mais esperto, primeiro. Vive se salvando de males que não sabe se sofrerá, sempre com a máxima “se eu não fizer, alguém vai fazer, então que eu faça antes que façam comigo”.

E quando tudo isso é posto em xeque, a defesa é sempre a mesma: “O outro fez igual, senão pior”, “O sistema é assim”, “Quando assumi, era até pior”, “Eu não sabia que estava prejudicando alguém”. Todo brasileiro é treinado para driblar, de forma extremamente sofisticada, a berlinda que é ter que admitir “eu prejudiquei alguém e o que fiz é errado, não importa em que ângulo eu analise minha ação”.

Toda sociedade tem problemas. Alguns são intoleráveis como “raça ariana” ou governos que obrigam todos a seguir um certo deus (seja ele Allah ou Jesus, tanto faz). Outros são menos problemáticos, como a falta de senso de humor, ou uma certa rigidez de etiqueta que tende a artificializar a convivência.

O problema brasileiro não é tão grave quanto uma teocracia (por ora), ou uma ideia de superioridade de uma raça ou povo por sobre os demais (também, por ora). Mas, o problema brasileiro é dos mais difíceis de se resolver porque ele está arraigado em nossa sociedade, e ele nos é ensinado desde crianças. “Você não pode deixar ninguém levar vantagem sobre você”, “Filho meu tem que ser esperto”, “Pirateio mesmo, isso não faz mal pra ninguém, eles já têm muito dinheiro”, “Se eu não pegar, outro vem e pega”. Sempre temos uma desculpa e somos apaixonados por elas. E a paixão é um traço fortíssimo do nosso povo. E a paixão nos cega, como uma doença (no grego, Pathos, que também vemos em “Patologia”).

O meu governo e o meu povo jamais dirão o que eu acho necessário.
Mas, pelo menos pra vocês, Daniel e Heloísa (e, na verdade, para todos os que saíram por perderem a esperança), eu mesmo digo: Espero que um dia vocês perdoem seu país pelo que ele fez com vocês e pelo que ele fez vocês abrirem mão, só para ter uma vida melhor, mesmo que só por um pouco. Vocês mereciam mais, e este lugar poderia ter sido mais. Tanto mais.

“Por que você não deixa o Brasil?”

Eu já soube a resposta “de cor” (que descende do francês “Savoir par coeur” e quer dizer, literalmente, “saber através do coração” – novamente, as emoções no comando).

Tenho me esquecido das razões da resposta atual, cada dia mais.

O permanente silêncio dos bons

Está sendo uma semana muito dura…

No fim de semana, senti a necessidade de falar sobre Democracia e sobre nossa obrigação de não cruzar com a “cadela que está sempre no cio” e vem uivando, mais do que nunca, especialmente através de figuras que deveriam ser os mais ferrenhos defensores do sistema vigente, mas não são.

Um dia depois do post, o filho do Presidente (com letra maiúscula, só em respeito à instituição da Presidência da República) publicou um tweet onde explicou para sua tropa: O país não mudará conforme eles querem, via Democracia. A Democracia é, portanto, um empecilho para o filho do Presidente, democraticamente eleito, e que também é, ele próprio, ocupante de cargo eletivo na Câmara de Vereadores Carioca.

Fiquei “satisfeito” de ter escrito sobre o tema, pouco antes do arroubo do “Pitbull do Clã”. “Clã” … Ainda somos uma Democracia? Sigo insistindo que, por pior que seja (e está “bastante pior”), a Constituição ainda continua válida e as Instituições ainda operam minimamente conforme o ordenamento jurídico, e tão impessoais quanto sempre foram. Mas, já me pego pensando se estou olhando para uma casca saudável de um ovo podre… Tenho que vigiar os pensamentos. É muito fácil afundar na desesperança. Razões para acreditar diminuem dia após dia, notícia após notícia. Tweet após tweet…

Como não é diferente de qualquer família, a minha também tem seu grupo de Whatsapp. Entre os cem “bom dia’s” e os duzentos “feliz aniversário’s” (quando alguém é o felizardo, claro), surge sempre uma frase em prol de um ato totalitário, quase sempre, fake news. Absurdos de todos os tipos e tamanhos… O “esgoto” da fake news política passa por lá. Faço uma pausa para pedir desculpas se um familiar meu ler isto e se ofender. Não foi a intenção. Não foi mesmo. Mas o “esgoto” continua lá, com a ordem do Presidente para prender ministros do STF, a ordem do Ministro da Justiça para invadir “a casa dos Petralhas”, a “prontidão dos militares para fechar o Congresso”, e por aí vai. Tudo tem foto, tudo tem fonte. Nada é de verdade, óbvio. Tão óbvio que seguimos aqui, mesmo que aos trancos e barrancos, e nenhuma das profecias se cumpriu, jamais. Mas isso não importa em nada. Eles seguem “bombando” o fake news de que alguém está para “acabar com a roubalheira” (o nome que dão para Instituições democráticas que, sim, podem estar sob o comando de depravados e vigaristas, mas, já falamos no Domingo sobre o dilema do bebê e da água suja).

Eu nunca entendi o fascínio dos meus compatriotas pela Ditadura. Já refleti sobre isso por horas… Dias, até. Nunca entendi como o país, comandado por homens fardados, sob forte ordem militar, onde quase nunca se questiona o que vem de cima, onde só existe “missão e obstáculos” (se você não ajuda na missão, você é obstáculo), e que sempre dizem, em tom de chacota, “paisano ( = civil; eu e você) é bom, mas tem muito”, pode ser melhor do que o que temos agora. E não é por causa da piada, porque como profissional de TI, eu também tiro sarro de algumas condutas de usuários da Tecnologia. E, novamente, preciso parar e pedir desculpas se ofendo alguém com essa elucubração.

Venho de uma família de militares, pra dizer o mínimo. Tenho admiração e, até os 27 anos, cogitei ingressar na força policial, seriamente. Nunca foi pelo dinheiro (que é ridículo), mas, foi sempre por um forte ideal de entrar, aprender, sofrer, e mudar a instituição, devagar e sempre, e por dentro (o único caminho comprovado e aceito pela tropa. A PM é uma instituição hermética e mudanças vindas de fora são, em sua maioria, descartadas; a despeito da possível validade delas). Já estou longe do argumento inicial…

Meu ponto é que jamais compreendi o fascínio de familiares, amigos, e tantos civis (em 2017, pesquisa realizada em 24 estados, com 95% de confiança, mostrou que um em cada três brasileiros [~35%] apoia uma intervenção militar) com uma possível volta da Ditadura militar. Não porque militares sejam maus. Mas, simplesmente, porque eles foram doutrinados para viver sem inúmeras liberdades. Pensar livremente e tomar decisões por si só, não é, nem de longe, o ideal para o serviço militar.

Eu não achava um mínimo de razão nesse apoio. Até ontem.


Vou adiantar o óbvio: Nada mudou em mim. Só há um lado certo na nossa História, e é o lado que protege e luta pela manutenção (e melhoria) da nossa Democracia. É desse lado que estou e vai ser muito difícil que eu mude, até o fim da minha existência.

Mas, hoje, vários canais de comunicação trouxeram à tona a fala monstruosa do Procurador (como no caso do Presidente, em maiúscula por respeitar o cargo, não o ser que o ocupa) de Minas Gerais, Leonardo Azeredo dos Santos, que alegou em reunião da Procuradoria de Minas Gerais, entre outras alucinações, que seu salário líquido de R$24 mil reais é um “miserê, e que ele já está “deixando de gastar 20 mil no cartão, cortando para só 8 mil, para sobreviver”. Disse, ainda – como se não bastasse o horror que já havia dito – que “infelizmente, não tem origem humilde e não está acostumado a viver com tanta limitação”.

O estado de Minas Gerais está enfrentando uma fortíssima crise fiscal, e está em vias de fechar uma Recuperação Fiscal com a União, o que significa, em palavras mais diretas (e imprecisas), “reconhecer que deve pra geral, e pagará quando puder” …

A história só piora. Segundo o Portal da Transparência de MG, o sofrido servidor (que esqueceu o que “servir” significa) em questão, teve vencimentos na casa dos R$78 mil líquidos, em junho, por uma dúzia de benefícios, auxílios e indenizações. Muitos desses “extras” sequer são alvo de tributação.

Se o Procurador não consegue viver com dignidade com os vencimentos apontados, me parece alucinógeno pensar na situação de cinquenta e cinco milhões de brasileiros (portanto, ¼ da população) que vivem com até 400 reais por mês.

E alguém vai dizer, “nossa, que argumento mais populista”. Não. Não há nada de populista em pensar no próximo, e reconhecer a desgraça que acomete a economia nacional, e que tem demandando sacrifícios de uma classe trabalhadora inteira, que já sabe que não se aposentará (pelo menos, não em breve), que não tem o direito de discutir o próprio salário, senão através da qualificação constante e da troca de empregadores, aqui e ali. Reconhecer tudo isso e reconhecer que seu salário é, sim, assombroso e desproporcional – não importa o quão merecedor dele você seja – e que seu holerite te coloca numa parcela de menos de 2 dígitos percentuais da população, para que você tenha qualquer condição moral de terminar essa discussão sem parecer (com sorte, só parecer) um completo imbecil.

Alguém pode levantar que, digamos, em 10 anos, o MPMG não teve correção da inflação. E eu insistirei: Seu estado está quebrado, sua população passou por duas tragédias ambientais recentes e devastadoras. O desemprego atinge ~11.2% da força de trabalho mineira, estimada em 11.1 milhões de pessoas e, portanto, com 1.24 milhões de desempregados. Repito: É um estado quebrado, procurando proteção para poder parar de pagar dívidas, na tentativa de se reestruturar. O Governador disse, agora há pouco, que os servidores públicos “comuns” ficarão sem receber, se o RRF não for aprovado. A fala do Procurador é tudo, menos consciente.

Agora, se imagine na fila do desemprego. A vida vai mal, todo dia você deixa de consumir uma refeição decente para que o dinheiro renda mais. E você ouve um conterrâneo dizendo que seu salário de 24 mil é pouco, e que se não aumentarem, ele vai passar necessidades. Pronto: Você começa a entender porquê alguém tem coragem de apoiar uma Ditadura militar.

É claro… Eu não estou dizendo a idiotice de que militares são mais honestos, mais leais, mais qualquer coisa, só por usarem farda e marcharem em ordem unida. A farda não faz ninguém melhor ou mais honesto, e militares no Poder podem cometer os mesmos crimes de civis e outros piores. Com o agravante de que, em eventual Ditadura, a mídia sequer poderá fazer o trabalho investigativo que faz e que só ela pode mostrar situações revoltantes como essa do pobre Procurador de Minas. Sem a Imprensa livre, jamais teríamos sabido disto.

Então, não. Esse Blog jamais fará uma defesa pró-Ditadura. Esse post é apenas um reconhecimento da racionalidade do ódio, muito bem alimentado por gente como o Procurador citado. Gente que ocupa cargos públicos não pela vocação, não pelo sonho de fazer um trabalho diferenciado para sua comunidade, mas, com fins de enriquecer às custas de uma sociedade que vem sendo fortemente espremida para se aposentar mais tarde, pagar mais impostos, e viver com menos (muito menos) do que um minúsculo universo de pessoas ganhando mais de 20 mil reais mensais líquidos.

A máquina pública brasileira é um monstro que precisa ser esquartejado

Novamente: Não estou falando contra a Democracia. Se você está entendendo assim, precisa melhorar sua interpretação de texto. O que segue aqui é o cansativo dilema do bebê e da água suja.

Tive uma discussão com o João, bom amigo de outras bandas, e falávamos sobre o duelo entre um Estado grande com fins sociais, e o Liberalismo, cada um com seus defeitos e potências. Foi uma conversa muito boa (eu acho). Diante do que se seguiu, hoje, acho que ele está rindo um pouco mais por estar do lado que defende a redução máxima do Estado, em qualquer caso e cenário. Hoje, eu não o culparia (o que não quer dizer que desisti de tudo o que acreditava ainda ontem; não sou bipolar e minhas opiniões não se formam conforme a banda toca… Mudar assim, de uma hora pra outra, demonstraria um pensamento levianamente fundamentado).

Ocorre que não é a Democracia que inviabiliza a máquina. Tampouco um sistema de Estado preocupado e engajado com os problemas sociais. O que inviabiliza a máquina é um sistema em que benefícios e privilégios se tornam sempre cumulativos, jamais diminuem, e quem decide quanto vale o trabalho é o próprio trabalhador (há uma simplificação aqui: embora exista lei que regule os vencimentos máximos, aqueles que usufruem de altos salários driblam as restrições com manobras que, se não ilegais, são totalmente imorais).

Você já imaginou que insano seria se eu pudesse definir quanto eu devo ganhar? Não obstante eu gerar muito mais dinheiro do que ganho (se não fosse assim, eu seria demitido) minha empresa, uma das maiores do mundo, faliria caso cada colega meu pudesse decidir o valor dos próprios vencimentos.
Mas, é assim que a máquina pública brasileira se estruturou.

CLARO… “A máquina pública”, em áreas bem específicas… No Judiciário e no Legislativo, especialmente. Em todo o resto, nossos funcionários públicos costumam passar maus bocados… Professores, Policiais, Serventes de manutenção pública… Essa massa tão importante não tem qualquer autonomia para decidir o quanto ganha, óbvio.

Poderíamos dizer que a máquina pública é sempre cara e sempre ineficiente. Esse é quase que um lema (ou seria um fetiche?) dos Liberais, mas, além de não ser uma verdade absoluta (já que os EUA têm uma máquina mais cara que a nossa), um pouco de pesquisa mostra que o problema é o Brasil, mesmo. Temos uma das máquinas mais caras e ineficientes do mundo. Para demonstrar, vou compartilhar apenas um gráfico da matéria da BBC:

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46427803

Quem dera esse fosse um problema restrito ao Congresso Nacional. Se eu colocar os custos do Judiciário, dos Ministérios, e etc., você e eu enlouqueceremos no processo.

O que você precisa saber é que a máquina é tão inchada que, atualmente, nós brasileiros desembolsamos algo em torno de ~215 bilhões de reais anuais para pagar quase 900 mil funcionários públicos nas mais variadas posições. E, se você tem bom senso, sabe que o grosso desse dinheiro não está acabando no bolso da Professorinha na sala com goteiras e lousa com buracos, nem no bolso do Policial que vai pra rua com colete vencido e arma avariada.

Uma classe unida contra toda uma sociedade

Diz a Bíblia (1 Pedro 3, 18) que devemos “amar o pecador, mas odiar o pecado”, segundo o exemplo de Jesus Cristo. Isso resume bem a minha relação com trabalhadores e seus sindicatos/associações, em quase 100% dos casos.

Essa não é uma discussão nova.

Toda a santa vez que alguém reclamou do custo da máquina ou rebateu uma proposta de um novo imposto com cortes possíveis (auxílio paletó? Auxílio moradia? Para quem ganha mais [muito mais] de 24 mil líquidos? Só pode ser brincadeira), as classes privilegiadas (que, repito, são uma elite dentro do serviço público) se unem, barram, e abafam (porque não podem discutir à luz da sociedade o que realmente pensam) qualquer projeto nesse sentido. Suas associações e sindicatos são perfeitos no Lobby e sempre vencem o debate (que não é um debate, já que nasce morto).

Mas, fatalmente, uma hora, teremos de combater os extremamente privilegiados deste país (~28% da riqueza nacional está nas mãos de ~1% da população). A maior parte deles desempenha funções necessárias e essenciais (acho que ninguém com o juízo no lugar ignora a utilidade do Ministério Público em uma Democracia, só por exemplo). Mas, esse desempenho não pode ser pretexto para que estes vivam em uma realidade tão diabólica ao ponto de fazer um Procurador se sentir mortalmente ultrajado por ter que sobreviver com “apenas” 24 mil reais líquidos mensais, e moralmente sustentado para expor isso, sabendo que era gravado publicamente.

Mas, vou te dizer o que mais me magoou nessa história toda: O que mais me magoou foi ouvir o áudio inteiro, em uma reunião com o Procurador Geral de MG, e outros Procuradores, e diante da fala monstruosa de um playboy que não merece o cargo que tem, nenhum dos colegas de profissão, investidos no gloriosíssimo cargo de Procuradores e Promotores (Promotor = que promove) de Justiça, terem se insurgido contra a barbárie no comentário do colega.

São 5h da manhã, estou acabado. Mas, para ter paz de espírito eu tinha de vir aqui e quebrar o silêncio sobre isso. Incomodou-me de forma que eu não sentia há muito tempo. Vontade de ir embora daqui e outros sentimentos ruins que eu não sentia há tempos. Todo dia, um novo 7 a 1 nessa divisão do inferno que eu ainda chamo de “meu lugar”. E esse 7 a 1 veio até do lugar certo: Minas.

Pra fechar, parafraseio o PhD, Nobel da Paz, Medalha Presidencial da Liberdade (EUA), incessante guerreiro pelos direitos civis de tantos oprimidos, e todo o estandarte de ética e postura digna que o infame Procurador de Minas jamais ostentará:

O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.

No Brasil, o silêncio anda horripilantemente ensurdecedor.

Não, Democracia não é qualquer coisa

O meu pensador de referência para frases soltas (já que eu jamais li alguma obra dele) é H.L. Mencken. Uma das mais celebres é

“Para todo problema complexo, existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada.”

Isso resume a História do Brasil de ponta a ponta, melhor do que qualquer redação poderia fazer.

E, no momento, estamos tentando resolver problemas complexos com soluções simples. E vai dar errado. Como sempre.

Mencken tem outras frases “perfeitas” (pra mim), então, fica a dica de ler a breve coletânea (aqui e aqui). Eu concordo com a maioria, especialmente sobre filósofos, partidos, dizer a verdade, e pé de coelho. Mencken está longe de ser perfeito, e sua biografia é controversa, como costuma ser com quem não é idêntico aos demais. Mas, o maior defeito de sua filosofia é a absoluta certeza de que o cinismo é a única saída para lidar com a realidade, especialmente a política. É divertido e ácido, do jeito que eu gosto, mas quando aplicado à vida política… Bem, falaremos disso mais tarde…

Se você saísse às ruas, no ano passado, e perguntasse “como você acha que (qualquer) uma Democracia termina?”, a maioria dos respondentes iria opinar – acredito – “através de um golpe, com armas e sangue”, ou qualquer combinação desses fatores.

É um fato bem consolidado na cabeça das pessoas, seja pelo cinema, seja pela História, que a Democracia suporta muitas coisas e que ela só fali diante de tiranos militares, guerras, matança, sangue nas ruas…

Ocorre que estamos assistindo um momento inédito na memória da Ciência Política mundial. A Democracia surge ameaçada, mas, não por armas. É por uma doença que a corrói e a ataca por dentro. A Democracia pode morrer logo logo, em alguns cantos do mundo, e não vai haver um só disparo de arma de fogo para isso. A Democracia é ameaçada, como nunca se viu, pelo populismo. Populismo que não é orientado ideologicamente, está acessível para todos e já foi usado por todos os lados.

Mas o populismo é mais perigoso para a Democracia do que as armas de fogo porque, representado por lideres absolutamente medíocres, pessoas sem a mínima qualificação para uma vida política razoavelmente positiva para as pautas de um povo, o sistema político vai se enchendo de oportunistas, cínicos profissionais, e pessoas que solapam a legitimidade (mesmo que esta já andasse na corda bamba) do sistema Democrático, com fins de alcançar ou se manter no poder.

E essa não é uma análise que só eu acredito correta. A “The Economist” fez uma coluna brilhante sobre o risco real que as Democracias (das mais velhas às mais novas) correm no mundo atual, dando exemplos concretos. Sugiro a leitura (em inglês).

Quero, agora, dar um passo atrás e estabelecer porque nós deveríamos nos preocupar. Todos nós. Negros, brancos, heteros, homos, ateus, religiosos, pobres e ricos.

Não é qualquer coisa…

Como o título já diz, “não, Democracia não é qualquer coisa”. A maioria dos meus compatriotas tem pouca ou nenhuma educação política. E isso é um grave problema. Trabalho com gente que acredita que “Democracia é o sistema onde a maioria escolhe os rumos do país”. E isso não poderia estar mais errado.

E se a pessoa trabalha comigo, ela tem, pelo menos, nível superior. Nos dias de hoje, não significa nada para quem vive nos grandes centros, onde faculdades brotam nas esquinas com a mesma facilidade das lojas de paletas mexicanas que dominaram São Paulo, anos atrás. Realmente, estar formado no nível superior já não é sinal de nada, senão de mínima preocupação com o próprio futuro (em média, salário ~30% maior em comparação com formados no ensino médio, apenas). Mas, quando posto em perspectiva com o Brasil, isso ainda torna essas pessoas privilegiadas: No Brasil de 2018, segundo o PNAD do IBGE, apenas 16,5% dos adultos (25+ anos) tinham ensino superior. Mais: 52% de todos os brasileiros sequer terminaram o ensino médio (o “colegial”).
Portanto, não: Ter nível superior não diz se alguém é inteligente, mas põe a pessoa em um grupo de apenas ~17% da população adulta nacional. Parte da formação superior é a leitura, e a maioria dos currículos apresenta uma formação que leva o sujeito a discutir questões diversas como sociedade, ética, desenvolvimento sustentável… Enfim. Saber sobre o sistema político (não sobre bandeira de partido A, ou o que está acontecendo na aliança de B) vigente do país, portanto, ainda que em linhas gerais, deveria ser algo comum para quem quer entender o mundo em que vive, entender a dinâmica da sua área com a comunidade onde vai trabalhar, e daí por diante.

Eu acredito na tese da ignorância racional, recentemente abordada por Pondé, e para não ficar muito longo, sugiro a leitura. O importante dessa tese é a explicação de como as pessoas lidam com a responsabilidade eleitoral. Como consideram insignificante a relevância matemática do próprio voto, ninguém gasta tempo o suficiente se informando sobre o sistema, muito menos sobre em quem vai votar. Isso explica boa parte do nosso desinteresse por política. O grosso da população considera o próprio voto irrisório, então, saber sobre política também passa a ser irrelevante. Perda de tempo. Numa visão utilitarista, gastar mais tempo escolhendo o próximo smartphone do que o próximo Presidente faz todo sentido, já que o aparelho é mais relevante para o dia-a-dia da pessoa do que a relevância do próprio voto para o resultado nacional.

Entendendo o Sistema Democrático

A missão original desse Blog sempre foi de ajudar, através da pesquisa de fontes e referências verificáveis, na formação de opinião sobre assuntos do cotidiano. E, claro, em cima disto, eu exponho a minha opinião. Você não precisa e sequer deveria concordar com ela. Mas a parte informativa não depende de opinião. É o que é.

Vou tentar definir o que é uma moderna e saudável Democracia, para que você não tenha dúvidas. Porque Democracia não pode ser qualquer coisa. Você precisa saber exatamente o que ela é para entender o quão caro vai ser perdê-la. Afinal, é impossível dar valor ao que não se compreende.

A Democracia moderna é um sistema (dentre outros possíveis) de exercício da Soberania de um Povo sobre um Território. Este exercício de Soberania feito por um Povo num dado Território é, também, o que define as fronteiras de onde começa um Estado (Nação) e onde acaba outro.

Uma Democracia moderna apresenta aos seus cidadãos:

  • Sufrágio Universal (sistema de voto para representação política, disponível a todos os cidadãos, sem diferenciação por origem, cor, credo, patrimônio [em oposição ao antigo sistema Censitário]) – Art. 14 da CF/88 .
  • Instituições que organizam o Estado, moderam e exercem seu Poder, vigiam a convivência, bem como vigiam umas às outras, sempre em prol do bem-comum da sociedade – Arts 18 a 114 da CF/88 (da definição do que é União, estado, município, passando por funções do Presidente, Ministros, falando da organização do Judiciário, da Segurança Pública, chegando até o emprego do Estado de Sítio, e etc.).
  • Um sistema de freios e contrapesos, no nosso caso, inspirado na Teoria separação dos poderes de Montesquieu, que gera o que conhecemos como os “Três Poderes” = Executivo, Legislativo, Judiciário, que são harmônicos e independentes entre si – Aspas no “Três Poderes” porque um cientista político nos lembrará que o Poder do Estado é uno e indivisível. O que se divide é a função, não o Poder (art. 2º da CF/88).
  • O titular da Soberania é SEMPRE o Povo, e esta não pode ser raptada pelos representantes, sob qualquer pretexto (conceito que vemos presente no nosso art. 1º, Parágrafo Único, da CF/88).
  • Um ordenamento jurídico onde as leis, as regras, os limites, os procedimentos e tudo o mais o que é necessário para se conviver em harmonia, e lidar de maneira regulada com o Estado, é previamente conhecido e disponível à consulta de todos. Ninguém fará ou deixará de fazer nada, senão em virtude de lei (art. 5º, Inc. II da CF/88), e não há crime sem lei prévia que o defina (art. 5º, Inc. XXXIX da CF/88).

Já tentamos vários sistemas: de Monarquias, Estados Absolutistas, passando por Aristocracias e Oligarquias, até Estados Totalitários, Fascistas, Ditaduras, e assim por diante. Então, chegamos na fórmula de uma Democracia moderna que está ancorada e solidificada nas prescrições da Constituição Federal de 1988. É óbvio que nossa Democracia bebe de outros “berços”. Não fomos os inventores do modelo. Houve a Magna Carta de 1215 na Inglaterra e, depois dela, muita coisa aconteceu. A Independência das 13 Colônias Americanas, a Revolução Francesa, nas décadas de 70 e 90 do século XVIII, respectivamente. Mais tarde, a Constituinte de Weimar, em 1919, a Constituinte Mexicana, pouco antes, em 1917. Todos esses movimentos influenciaram o Brasil, antes, durante ou depois de suas diversas Constituições, com a mais antiga, outorgada em 1824, e a mais nova – espero que você saiba – promulgada em 1988. Os impactos das Grandes Guerras: A Liga das Nações surge na esteira da Primeira, e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, da Segunda. Não se pode ignorar tais eventos nesse processo de constante (re)modelagem do que é a Democracia.

Porém, tudo o que discuti até esse ponto é muito mais teórico do que efetivamente prático. Na realidade, eu deveria ter dito que isso é o “como” se faz uma Democracia moderna. Mas não é isso que ela é. O que ela realmente é, eu empresto do trabalho superior elaborado pelo Professor Michel Mascarenhas Silva, Mestre em Direito Constitucional, docente da Universidade Federal do Ceará:

“(…) a democracia se baseia em dois elementos: a liberdade e a igualdade. Como regime de liberdade, “a democracia se caracteriza como um regime de franquias, garantidor da plenitude individual e hostil, portanto, a toda ideia de privilégio e submissão”. Entre os corolários da liberdade estão a segurança de direitos, a impessoalidade no exercício do poder, a prudência e a publicidade. Quanto a igualdade, significa que a democracia não pode ser um regime de franquias, isto é, não pode implicar apenas nas declarações de direitos. Como forma de assegurar a igualdade e não apenas a liberdade, deve ser estabelecido, ao lado das franquias, “certas providências relativas ao uso nocivo da liberdade, que consiste no seu emprego antissocial, anti-igualitário”. (…)”

Acrescento, da mesma fonte:

“(…)Aos elementos da democracia – liberdade e igualdade – é possível acrescentar, hoje, a dignidade. Se a democracia, embora com o sistema de frenagem recíproco proporcionado pela liberdade e pela igualdade, não for temperada com a dignidade, estará ela sempre fadada a deixar de lado sua principal razão de ser: o bem-estar do ser humano. Para que a dignidade possa ser assegurada num regime democrático é preciso a presença de três fundamentos: o reconhecimento de valores personalíssimos, inerentes a toda pessoa, que não podem ser relativizados; o respeito a liberdade espiritual; e a participação efetiva e ativa dos indivíduos na formação da vontade política.”(…).

Eu poderia debater por mais 10 páginas os significados por de trás desses excertos, mas, não é preciso para o principal: Democracia não é o sistema da maioria. E Democracia requer liberdade, igualdade, e dignidade, em sentidos e dimensões mais amplos do que o senso comum permite conceber, para todos os cidadãos (e “todos” significa “todos“). Esses valores e ideais não se negociam e não se relativizam.

Portanto, não: a Democracia não surge do nada. Ela não é qualquer coisa. São ideias que permeiam o coletivo humano ao longo dos últimos 8 ou 9 séculos de História (ignorando sua origem remota na Grécia, e ficando somente com a moderna concepção do sistema), e que evoluíram de maneiras diversas, ora convergentes, ora divergentes, nos últimos 100 anos. É muito tempo discutindo a moderna Democracia. Quase um milênio. E não se joga isso fora sem a devida consideração de tudo o que se passou.

E agora, sem muito pensar, as pessoas em diversas sociedades (Hungria, Polônia, Itália, Brasil e, porque não, Estados Unidos e Inglaterra) estão vendendo barato o que não tem preço. Herdar um país democrático (a despeito das enormes dificuldades que vivemos por aqui) é um privilégio pelo qual muitos morreram para construir, e o qual muitos jamais terão o privilégio de vivenciar… Alguns nascerão e morrerão em regimes totalitários, fascistas, de um Estado-Leviatã (como já discutimos aqui) que a todos esmaga. Deveríamos saber melhor sobre o a seriedade do que estamos tentando sabotar.

A Democracia asfixiada pelo Populismo

Nossa conversa começa com uma discussão sobre o que pode matar as Democracias.

E eu contextualizo que, enquanto a maioria das pessoas considera que só um golpe ou uma guerra sangrenta podem matá-la, eu sigo a linha do The Economist: O que a está matando, em lenta asfixia, com requintes de crueldade, é o populismo em fase metástica, se espalhando como um câncer pela política mundial, sem predileção por espectros à Esquerda ou Direita; Liberais, Conservadores, Progressistas. É a ironia de um “câncer democrático” (pois, atinge a todos) e que mata Democracias.

O populismo de Lula é o mesmo populismo de Bolsonaro. Não estou comparando governos, bandeiras, estilos e resultados. Estou comparando o tratamento dispensado ao sistema político por ambos. O resto não é objeto da minha análise, hoje.

E, afinal, o que é o Populismo?

O Populismo é a estética política que explicava, especialmente, governos do século passado na América Latina (especialmente, mas não só).

Suas características principais são:

  • um líder carismático que foge da imagem e atuação institucional, e tenta se ligar diretamente às parcelas mais pobres e/ou carentes da sociedade, tentando se passar por “gente da gente”.
  • Um forte nacionalismo econômico, e um ufanismo sobre aspectos sociais e geográficos que quase sempre são insondáveis, exceto para aquele que sustenta tais aspectos.
  • Forte lógica clientelista: O eleitor é cliente do político. Mantê-lo satisfeito com pequenos agrados e afagos basta para “fidelizá-lo”, com fins de se manter no Poder.
  • Fragilização do sistema político: Mais um “pré-requisito” do que uma característica, o populismo surge com força em momentos em que partidos e o sistema político ficam fragilizados, especialmente por escândalos, pela degradação da imagem das instituições políticas, e o descrédito e raiva da população contra seus representantes.

Adicionalmente, o “populismo de Direita”, como os cientistas políticos vêm chamando essa nova manifestação dos últimos 30 anos na Direita, tem algumas características adicionas, como:

  • Discursos anti-elites (mesmo quando o populista pertence a elas)
  • Combate ao Intelectualismo e às fontes de conhecimento que possam descredibilizar o senso comum (senso comum = “leite com manga mata”) que é base de argumentação e retórica do populista.
  • O constante ataque às instituições que a população considera como ruins, e a constante lembrança de que o populista é um outsider, alguém de fora de “tudo isso que está aí”, ainda que este candidato/político seja completamente ligado ao mundo da política, ou pertencente às elites que ele mesmo ataca (qualquer semelhança com Bolsonaro e Trump, respectivamente, não é coincidência).

A principal face do Populismo, portanto, é um forte cinismo contra o estabilishment, ainda que este populista tenha feito, ou siga fazendo parte desse mesmo establishment. É um sistema que aposta e se banca no “quanto pior, melhor”, pois, isso aumenta a raiva contra as instituições e apoia o argumento central do populista.

Um populista jamais pacifica e unifica. Ele sempre apostará no “nós contra eles”, e na divisão como forma de se manter no poder. Sempre haverão “os inimigos da Nação” ou “do Povo”.

Algumas pessoas dirão “oras, qual é o problema de votarmos em quem fala a verdade de que os políticos não prestam, se eles realmente não prestam?”. Desconfiar do Estado e dos governantes, eu diria que é uma obrigação.

“O preço da liberdade é a eterna vigilância”

…disse Thomas Jefferson. O problema não é desconfiar dos políticos e do sistema. O problema é o cinismo.

Esse cinismo que é típico e essencial ao Populismo – esse escárnio, essa constante insinuação (quando não escancarada) de que “ninguém presta” (além de quem fala, claro), e de que todo o sistema é podre – tem um grave poder destrutivo: Ele desacredita e deslegitima todas as instituições, e tudo o que caracteriza a Democracia. E com isso, de dentro para fora (pois, o populista foi democraticamente eleito) a Democracia morre. Isto porque as pessoas precisam acreditar na legitimidade do sistema para jogar pelas regras.

Há um velho ditado que diz que “não se joga a criança fora só porque a água está suja”, ou coisa do tipo. “A criança”, no caso, é a Democracia. “A água suja” são as peças que todos nós ajudamos a colocar lá, à Esquerda ou à Direita.

Mas, o discurso de quem está no topo da pirâmide (respaldado por milhões de eleitores que seguem dizendo “isso mesmo!”) é de que o sistema não presta, as instituições devem acabar, serem fechadas, devem ser amordaçadas.

E as perseguições às liberdades e o combate à igualdade e dignidade começam a ganhar força; tudo sob a proteção do discurso cínico de que ninguém age senão por interesses privados e egoístas.

Sob o cinismo, destroçamos a ideia do preâmbulo constitucional que assim o diz “(…)instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social”(…).

A Democracia pode sufocar até morrer. E não é necessário nenhum disparo de arma de fogo. Aliás, como a Hungria de Viktor Orbán (Primeiro Ministro), ou a Inglaterra de Boris Johnson (P.M. também) vem demonstrando, não é preciso qualquer golpe: Não precisamos fechar o STF, fechar o Congresso, ou qualquer medida drástica para matar a Democracia: Se você consegue manobrar o sistema legislativo a ponto de levá-lo a aprovar leis que minem o sistema de freios e contrapesos, a Democracia pode ser morta “dentro da Lei”, sem nenhuma truculência visível.

O combate a quem combate a Democracia é o único lado certo.

Winston Churchill disse

“A Democracia é o pior dos regimes, mas não há nenhum melhor que ela”

Em algum momento, a Democracia como a conhecemos surgiu. E como todo evento histórico, ela pode muito bem acabar. Não defendo que ela resista para sempre, mesmo quando já não for o melhor sistema. No entanto, não podemos abrir mão dela se algo melhor não surgiu ainda. E eu garanto, com base em tudo que escrevi e pesquisei até aqui: Nada melhor surgiu.

Churchill resumiu tudo.

Vivemos a Era da pós-verdade. As pessoas realmente acham que “tudo é questão de opinião”. Como bem colocou um professor universitário americano, Mick Cullen

“dizer ‘essa é a minha opinião’ não torna o que você diz imune a estar completamente errado”

Nem tudo é questão de opinião. Defender a Democracia não é uma questão de opinião; é o único lado certo. Não importa qual seja o seu argumento, a Democracia é o sistema dos países que deram certo (afirmação com base objetiva, como no IDH). E não surgiu nada melhor do que ela, ainda.

A Constituição está aqui, escrita e promulgada, e é clara quanto ao que fazer e o que almejar como sociedade democrática (liberdade, igualdade, dignidade para todos, em uma sociedade que luta para ser livre de preconceitos quanto à cor, credo, raça, orientação sexual, crença religiosa etc.). Dizer que isso é “utopia” é se acovardar diante da missão que outros povos já conseguiram encarar (em algum grau, ao menos). É dizer “sim, só merecemos migalhas”.

A Democracia é o lado certo da História. E quem não gosta de suas regras, seus limites, suas instituições, também não gosta da sociedade que a Democracia representa. E contra esse tipo de gente, eu sempre me oporei.

Fica a única missão de quem é realmente “de bem” e quer, de fato, o bem da família brasileira (em toda a sua pluralidade de constituições e configurações, conforme o guardião da Constituição, o STF, já declarou em 2011).

Nas palavras da Constituição Federal de 1988, art. 3º:

Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

I – construir uma sociedade livre, justa e solidária;

II – garantir o desenvolvimento nacional;

III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

E se você não acredita nesses ideias, porque lhe parece muito infantil, muito sonhador, ou porque você realmente não acha – ou tem a certeza contraria – de que todos (repetindo: “todos” significa “todos”) merecem igualdade, liberdade e dignidade, então eu e você estamos em lados opostos da História.

Acreditar em ideais não é o mesmo que dizer que eles são fáceis. Na verdade, é exatamente por serem difíceis que mais precisamos acreditar e lutar por eles.

Porque tudo o que temos hoje (liberdade de expressão, direito de escolher quem manda no Estado, etc.), e tratamos como se tivesse acontecido “de graça”, já foi “impossível” um dia, e muitos morreram para que tivéssemos o que, agora, desprezamos.

Não, Democracia não é qualquer coisa. Lutar por ela, para além de ideologias políticas, é o único lado certo da História.

Como Chernobyl (HBO) me convenceu de que Lula precisa ser solto

O que acontece quando um Estado atua, sem limites claros e predefinidos?

Se você conseguiu passar do título, parabéns:

É menos radical do que a maior parte daqueles que convivem (convivem?!) nas redes sociais. Não, essa conta não foi hackeada. Sou eu mesmo, Rodrigo, escrevendo isto, desta forma, com o desfecho que segue. Se você me conhece bem, não deveria ser nenhuma surpresa, contudo…

Bem, como a maioria (dos que me prestigiam por aqui) sabe, escrever tem sido um hobby do qual estou sendo privado. Não por cruel destino, mas, porque escolhi fazer outra formação. As provas do semestre terminaram na última sexta e, até agora, vou bem (ufa!). Falta uma! Solta a nota, f-sor! Libera nóis! 😛

Por que isso é relevante? Bem, eu não tenho tido tempo para muitas coisas. Na verdade, em vários temas eu só tomo conhecimento quando já viraram memes. Foi assim com “juntos e shallow now”, por exemplo. Só entendi a porcaria do meme quando fiquei sabendo da porcaria maior que o originou. Isto dito, tenho perdido muito da cultura POP dos meus dias e as séries não têm privilégio. Nunca vi Game of Thrones. Também não vi Black Mirror ou Stranger Things. Não vi algumas franquias que gosto (como o último Missão Impossível) no cinema. A vida de quem leva o estudo minimamente a sério é assim. E eu levo (não porque sou demais, mas, pra começo de conversa, porque eu pago o boleto e é integral).

Bem, ocorre que o Marcião e o Samuca (amigos de labuta) me infernizaram na última semana de provas sobre uma tal minissérie da HBO chamada “Chernobyl”. Foi cruel. A forma como debatiam o tema foi como saborear um BigMac na frente do gordinho que está começando um regime. O assunto me é de um fascínio enorme. É um evento histórico que muda o curso da Guerra Fria, ocorre a menos de 20 dias do momento em que nasci e tem tantas controvérsias e reviravoltas quanto as melhores obras de Tom Clancy. Enfim: foi fascinação total e absoluta, de cara. Quando me disseram que não era uma série com temporadas, sem necessidade de jurar amor eterno, mas sim uma obra fechada em 5 episódios, eu gamei de imediato. Tanto que assinei a HBO para poder assistir. E valeu cada centavo.

Eu não vou dar spoiler (pergunta colateral: É possível dar spoiler de algo real que aconteceu há mais de 30 anos?), mas o que a série fixa bem é que há um amontoado de mentiras e atalhos em um projeto crítico, mantidas por uma complexa e pesada “mão estatal” que a todos assusta e corrompe, em um modelo de autoridade inquestionável como era a então União Soviética. E a frase mais marcante está, justamente, no fim. Legasov (e não vou explicar nada do personagem, para que você tenha que assistir) explica que “o reator explodiu por causa das mentiras”. Finaliza com o que ganhou do episódio de Chernobyl – adaptado aqui – “Se antes eu tinha medo de dizer a verdade, agora eu apenas me pergunto: qual o custo das mentiras?”. Essa fala me atingiu com muita força.

Qual o custo das mentiras?

Eu assisti Chernobyl sob o choque do horror do envenenamento por radiação, cruelmente retratado na dimensão humana, na fauna e flora. Mas, pessoalmente, as cenas de maior horror para mim, raramente envolviam as camas de hospital ou os animais mortos. As cenas de horror, para mim, estavam nas salas de reunião, nas decisões de engravatados sobre a vida de milhares e até milhões. “30 mortos ‘diretos’” é o que diz o relatório oficial. Se mataram menos de 100 mil pessoas é de se admirar.

No fim, o horror da série, para mim, não estava no quarto de hospital onde o bombeiro apodrecia como uma banana velha. O horror, pra mim, estava no aparato estatal. Na frieza daqueles que decidiam quantos mil saiam e entravam em contato com os mais de 15 mil Roentgens emitidos pelo núcleo aberto do reator 4. “O que são 15 mil Roentgens?”, você pode perguntar… Bem, 1 Roentgen vale 9,33 milisievert (msv). Um raio-x de tórax te expõe a 0,02 msv; uma tomografia, 0,15 msv… Quando até os robôs quebraram (por mais mentiras dos soviéticos aos alemães que emprestaram o equipamento) e Scherbina se desespera e estraçalha o telefone, a decisão que resta é uma só: Mandar (mais) gente fazer o trabalho que os robôs não conseguiram.

Dezenas de bombeiros. Os operários da usina. Os mais de 400 mineiros. O pedido por mais de 700 mil homens (que ficaram conhecidos como “liquidadores”) a serem recrutados para os trabalhos de isolamento do reator 4 e de toda a planta em Pryp’yat’, e de toda a limpeza da área imediata à usina.

Mentiras. Mortes. Mais mentiras. Sob a égide de um Estado que não podia ser questionado e que não ouvia ninguém senão aqueles que concordavam em moldes sacerdotais, sem hesitar.

Hobbes e o Leviatã

Ocorre que Hobbes, cientista político importante para a Teoria dos Contratos Sociais, já havia advertido sobre o que é o Estado. O Estado é um monstro: O Leviatã. Essa é a imagem-tema deste post, feita por Gustave Doré e, hoje, de domínio público.

Ser mitológico que na leitura judaico-cristã é o demônio da Inveja, citado no livro de Jó; ser de proporções bestiais, ora serpente, ora polvo, ora dragão. É assim que o Hobbes descreve o Estado. Uma monstruosidade.
Para quem não é familiarizado com a obra, Hobbes não é contra o Estado. Não. Para Hobbes, o Estado é um mal necessário porque em sua ausência existe apenas a “guerra de todos contra todos” (bellum omnium contra omnes), e o homem é mau em sua essência natural (“o homem é lobo do homem”, ele dirá).

O mais importante da teoria contratualista (seja em Hobbes, em Rousseau, ou Locke) é que cada homem e mulher abre mão de suas forças naturais e até mesmo tecnológicas para ter seus interesses e conflitos regulados por um ente fictício e invisível que é o Estado. Parece óbvio dizer, mas o Estado não existe sem a sociedade, embora muita gente tente inverter a ordem dessas duas coisas, seja na forma de construir as responsabilidades de cada um, seja na forma de encarar o papel que lhes cabe.

E qual é a importância disso tudo? A importância disso tudo é que porque o Estado é uma Besta, uma monstruosidade, mas, também a forma que a história humana encontrou para regular nosso convívio, foi preciso criar mecanismos que não apenas regulam as ações deste Estado, mas também o submetem a uma série de obrigações de não-fazer. Tais obrigações de não-fazer e regras de engajamento do ente estatal colocam a força bestial do Estado em uma situação domada, controlada, previsível e relativamente balanceada com as forças individuais do cidadão que lida com a Besta omnipresente.

O “Estado Democrático de Direito” é exatamente isso: Um Estado, uno quanto ao seu Poder, cujos representantes das repartições do Poder estão lá porque representam parte da população e por esta foram eleitos, e a parte mais importante: “DE DIREITO”. Ou seja, não é um Estado de Exceção. Não é um Estado Totalitário, um Estado Absolutista… Nada disso. É um Estado de Direito… E um Estado de Direito se baliza, se move e, principalmente, se limita, pelo Direito.

Direito, às vezes, de costumes, de relevância social, de precedentes, de aplicação mais flexível e discricionária ao aplicador como o é no Direito Anglo-Saxão da “Common Law”. Ou, também, o Direito mais tradicionalista, Germânico-Romano (Civil law), de formalidades e de transformações sedimentares, processuais, que busca maior estabilidade e previsibilidade nos códigos e nos ritos processuais utilizados ao longo da aplicação da Justiça.

Os modelos Anglo-Saxônico e Germânico-Romano não são melhores uns que os outros, per si. São modelos com qualidades e defeitos. Nenhuma sociedade é refém de suas leis. Todos os povos, pelo poder da autodeterminação, podem reescrever suas Constituições, seus valores morais e que, mais tarde, serão codificados (ou não, como no caso da Constituição no Reino Unido que é apenas tácita) em forma de lei a ser conhecida por todos (mesmo aqueles que não sabem ler e que não sabem ler por falhas da família, da sociedade, e do Estado, NESTA ORDEM – outro post, outra hora).

O nosso povo, em seu momento Constitucionalista mais recente (1988), optou por permanecer ligado ao modelo Germânico-Romano-Canônico (posso colocar referências por mais umas duas linhas)… E, até onde sabemos, não houve outra evocação do Poder Constituinte Originário, capaz de reformar nossa base de Estado Democrático de Direito de maneira tão profunda. Portanto, normas escritas, rito, tradição, seguem – cientificamente falando sobre Direito – mais importantes do que outros valores.

Cacete, que horas o Lula fica livre por causa de Chernobyl?

Aqui.

Eu precisava (para não parecer travestido em militante do PT, ou um lunático sensacionalista) te dar a base do meu raciocínio para te levar às conclusões que tomo agora:

Porque o Estado é um mal necessário;

Porque o Estado reúne força descomunal, bestial e, em sua condição desregrada, a todos esmaga e massacra (se tem dúvidas, visite um Estado totalitário e tente falar livremente sobre o que pensa);

Porque o Estado Brasileiro é um Estado democrático de direito;

Porque o Direito brasileiro é um Direito de orientação tradicionalista, ritualística, fundada em norma escrita e que não prioriza costumes, ou discricionariedade (vontades) do operador da Lei;

Porque a Lei brasileira é clara quanto ao rito do Estado brasileiro de direito contra o acusado de crimes, através do Código Penal (Direito material) e, mais especificamente, via Código de Processo Penal (Direito formal) que estabiliza e garante a previsibilidade de como a Besta (Estado) processará e, eventualmente, condenará o indivíduo;

Por todas as razões supracitadas (mais algumas outras que não ajudam a concluir o post), Lula precisa ser libertado de sua prisão que, se não é imoral (na hipótese de que ele é mesmo criminoso – hipótese que requer provas e não pode depender de “forte sentimento”), é flagrantemente ilegal. Seu julgamento que gerou a condenação precisa ser anulado. Sob pena de não mais vivermos em um Estado democrático de direito, mas sim em um Estado de exceção, como a Coréia do Norte, Sudão, Venezuela, Arábia Saudita (que, cabe a nota, é amiga intima dos EUA, aquele país que luta contra ditaduras – quando interessa, claro) …

Na ânsia de ativar o Estado (representação de todos nós) contra aqueles que o lesavam (lesando a todos nós), os envolvidos no recente vazamento de conversas privadas (o que também pode ser crime, mas, dois erros não fazem um acerto), Moro e Dallagnol traíram aquilo que juraram defender: A ordem legal. O vazamento revela (e os acusados não tentaram desmentir a veracidade das conversas) que os operadores do Direito ignoraram completamente as amarras que estavam lá para domar a Besta estatal.

Aprendemos desde cedo, no Direito, que a Jurisdição (dizer o que é certo e o que é errado; qual é o direito de cada um) é função inafastável do Estado. O Estado jamais pode se eximir de dizer o Direito.

Para que esse mecanismo de dizer o que é certo e é errado, de maneira inquestionável, jamais possa ser raptado pelos interesses de uns – por mais nobres que tais interesses possam ser – criou-se uma dezena de mecanismos e um deles é o mecanismo que faz o Judiciário se submeter à inércia; ou seja: Sem provocação (dos cidadãos ou do Ministério Público), um Juiz JAMAIS pode sair de sua cadeira e distribuir sentenças, AINDA que o crime esteja ali, diante de sua face. Ele tem meios expressos de acionar a máquina, claro, mas não consegue mover a Justiça sozinho (se as regras forem levadas a sério, quero dizer).

É como uma arma de fogo: O Juiz é o revolver. O Promotor é a munição (ou função que tenha direito de mover ação no Judiciário). Sozinhos, nenhum dos dois conseguem ferir ninguém. Juntos, são arma pronta para disparo. Mas se esta arma é a Justiça e a Justiça deve ser cega para que possa ser imparcial, então, “bala” e “revolver” não podem nunca “combinar o jogo”. Você pode se sentir tentado a dizer que essa é a minha opinião, mas não é só “minha opinião”. Minha opinião não faz nada ser verdade. Essa é a Lei.

Código de Processo Penal, artigos 104, 112, e mais importante, 564, inciso I, onde se lê que a nulidade ocorrerá por incompetência, suspeição ou suborno do juiz. Não, não se trata do que eu acho. Se trata do que diz a Lei. A Lei que foi pactuada por todos nós, quando aceitamos viver sob a égide de um Estado.

E por que diabos eu quero um Estado fraco, amarrado, e incapaz de combater aqueles que fazem o mal?

Bem, essa talvez seja a parte mais fácil de explicar, se você leu com atenção até aqui.

O Estado é uma Besta. Uma criatura de força descomunal. Pense no pior criminoso que você conhece. Digamos que há uma cria gerada a partir dos condenados – desta vez, os condenados com provas – pela lava jato, mais Marcola do PCC e Beira-Mar do CV. Dessa junção monstruosa nasce o Mal encarnado em um único ser humano. Conseguiu visualizar? Bem… Esse ser humano é uma “pulga” para o Estado brasileiro. Uma pulga. Se o Estado determinasse que esta cria do mal fosse exterminada, usando todas as armas que o Estado detém, esta “pulga” não teria qualquer chance. Não importa o quão “sangue-ruim” seja um ser humano. Diante de um Estado funcional, ele não é nada. Nada. Osama Bin Laden foi o mais temido terrorista da história recente. E mesmo cercado por uma tropa de fiéis, escondido por mais de uma década em um Estado estrangeiro e não amigável aos EUA, ele foi finalmente eliminado. Ele era uma pulga. Irritante e perigosa, claro. Mas uma pulga. E foi esmagado. Não tinha como revidar contra um Estado inteiro focado em eliminá-lo.

Se Lula é criminoso (eu acredito que sim, mas acreditar não é o bastante), cabe a Besta que é o Estado, com todos os seus meios legais e regulados pela Processo Penal e Civil, provar, sem dúvidas, de que ele é mesmo criminoso. Estado que tem BacenJud, InfoJud, RenaJud, Polícia Federal, Peritos, Grampos, Parcerias internacionais, ABIN… Se com essas agências e mecanismos o Estado não conseguir provar – sem achismos – a culpa de alguém… Deus nos ajude….

Coloque isso na sua cabeça, não importa se você concorda sobre Lula, ou não: A relevância de uma pessoa é insignificante, por mais importante que ela seja, caso ela decida lutar contra um Estado ilimitado, bestial, e que não está amarrado por regras. As regras precisam existir para que o Estado não decida esmagar eu ou você, quando qualquer pessoa desafeta a nós chegar às rédeas do Poder. Regras que precisam não quebrar, regras que não podem ser ignoradas, nem aplicadas “ad-hoc” (quando convém). O Estado, se democrático e de Direito, jamais pode atuar pela exceção. Exceto diante da guerra com outro Estado. Aí, a própria Lei prevê as exceções (e.g.: o estado de sítio) e escalona o poder da Besta (sanções políticas, econômicas, intervenção militar, uso de armas de destruição em massa etc.).

E, hoje, um Estado de exceção se aplica contra Lula. E você ri. Ri porque o odeia com todas as suas forças e fibras do seu corpo. E você tem esse direito (de odiá-lo). Tem esse direito porque vive em um Estado de Direito que o permite sentir ódio (mas não agir com base nele) de alguém que você não gosta.

Eu, pessoalmente, não gosto de Lula. Não gosto de sua imagem cuidadosamente construída para ser o novo “pai dos pobres” (em uma sociedade viciada em esperar pela ação alheia, enquanto procrastina diante da sua própria obrigação). De seu proselitismo político, de sua retórica preconceituosa com gente como eu que decidiu estudar as questões e discordar, e não se mover ou se vender ao seu populismo – o mesmo populismo que, nas mãos da Direita, conduziu um completo despreparado à Presidência do meu país, que se afunda no abismo, dia após dia.

Não. Eu não gosto de Lula. Também não desgosto. Apenas acho que ele não tem a(s) solução(es) que meu país tanto precisa.

Mas esse gostar/não-gostar não me faz esquecer que ele é só um homem. E que, contra ele, há um Leviatã com poderes quase infinitos, que tudo pode, e que a única forma de estabilizar a balança (da Justiça, a quem estou me dedicado e pretendo defender um dia) é via regras que não admitem exceções. Nem para os que odeio, nem para os que amo, nem para os quais sou indiferente. Um Estado de Direito. Não de exceção.

Porque hoje é Lula. Mas amanhã pode ser eu diante da Besta. E ai de mim – e de qualquer um – se enfrentá-la sem nenhuma amarra e proteção contra ela.

#LulaLivre – Não porque gosto ou desgosto dele. Mas, porque gosto da Lei e do Estado democrático de direito. E aprendi com Chernobyl que quando não há limite, nem vigília, o Estado me esmaga sem qualquer chance para mim.

Você pode achar que os fins justificam os meios e que para prender Lula, vale tudo, inclusive ignorar as regras e mentir sobre os reais motivos que o mantém preso. Mas eu te pergunto agora, com a tristeza e sinceridade de quem teme que a Democracia morra pelas mãos de quem pensa a defender:

Qual é o custo das nossas mentiras?

Foi um longo inverno (ou, “Porquê você quer mais Tempo, mesmo que não saiba?”)…

Estou de volta. Foi um longo inverno por aqui, concordo e lamento. Como penitência, faço um texto longuíssimo. (Pensando bem, a penitência é sua que vai tentar ler isso tudo… Me perdoe, de coração).

Acomodar uma nova formação acadêmica em minha vida foi tarefa mais desafiadora do que eu poderia imaginar. Mas, claro, não foi só isso. Escrever só por escrever nunca foi a minha vontade. E 2018 teve tanta pauta e tanta lama, que parecia ser impossível discutir qualquer tema relevante sem muito esforço e muito estudo. E tudo isso demandava tempo. Tempo: O commodity que eu não tinha.

Diz “o Livro da Economia” (Ed. Globo, 2012) que a primeira lição da Economia é a Escassez: Não há nada que queiramos em quantidade suficiente para todos os que querem. Pela diversão, embora fuja ao ponto, a segunda parte dessa lição cita que a primeira lição da Política é ignorar completamente a primeira lição da Economia. Mas, voltando… Commodities

Bem, novamente, no ramo da Economia, as commodities são as matérias-primas de circulação mundial, isso porque sem elas, nada pode ser produzido. O aço, a água, o milho…

Um outro commodity é o Tempo. Ok, não vejo como vender tempo, no sentido literal da tradição, de tal modo que eu venha a viver um ano a menos e você, um ano a mais, mediante um pagamento substancial de dinheiro seu para mim… Outro problema em colocar o Tempo como commodity é que a definição clássica espera que um commodity tenha um preço quase tabelado ao redor do Globo, não importando sua origem ou sua história. Quer dizer: Um saco de milho do Brasil não tem muito motivo para ser 2x mais caro, melhor, mais milho, ou 2x mais barato, pior, ou menos milho do que um saco desse commodity vindo dos EUA. Claro que há todo o problema tarifário, tecnológico, de infraestrutura, mas ei… Não é disso que quero falar… A teoria pura das commodities diz que esses materiais básicos para a produção são 100% fungíveis e têm preços muito semelhantes quando feitos por competidores do mesmo tamanho. Isso porque por serem matérias-primas e, portanto, não refinadas, nem trabalhadas para serem o produto final, o valor agregado é o menor possível. Daí a pasteurização pecuniária.

Não é bem assim com o Tempo… Como Marx propõe no capítulo I do livro “O Capital”, percebemos que o Tempo de um empregado hábil, com ferramentas, tecnologia, ciência, nunca custará o mesmo que o tempo de um empregado sem essas características. E assim é com a vida:

Uma hora a mais de vida para alguém a beira da morte parece valer qualquer esforço. Para um jovem de 17 anos, as horas são um recurso em sobra e até irritantes: Ele não vê a hora de atingir os 18. Pularia todo aquele ano enfadonho se a opção lhe fosse dada.

Pois bem, já me parece razoável a certeza de que a ideia de que as horas de nossas vidas não custam a mesma coisa está clara para quem lê. Não é a mesma sequer para a mesma pessoa (o jovem que pularia todo o tempo dos 17 para os 18, não cederia um minuto de vida, se assim pudesse evitar, quando chegasse a hora derradeira).
Mas afinal, do que estamos falando por aqui? Na verdade, e sendo bem sincero: De nada. Diferente de outros textos que já escrevi, este aqui só quer conversar contigo. Sem pretensões. Só meus achismos.

Com 32, indo para 33, sinto desejo por algo novo: O tempo é tudo que eu quero. Nem casa na praia, nem carro do ano. Troco tudo isso por mais tempo. Você vai dizer “tá bom… Vamos ver se recusará se alguém bater na sua porta e te der tudo isso”. E aí te direi “você entendeu tudo errado: Claro que vou aceitar. Mas, para poder vender tudo e, com esse dinheiro, comprar mais tempo pra mim”.

Aí que está a teoria de tudo: Tempo é commodity. E commodity é um bem que se compra. Já expliquei isso antes. E daqui, ocorre-me outro desdobramento: A insanidade com a qual convivemos pacificamente é que trabalhamos para comprar de volta o que sempre foi nosso: O Tempo. Vamos perder um tempo (já sentiu o prejuízo, hein?) nessa parte…

O que você vende para a empresa onde trabalha é seu tempo. Se for o dono da empresa, a empresa passa a ser sua razão de existir e, com isso, todo seu tempo é dela. Assim, empregado ou dono, você vende seu tempo de vida para alguém (mesmo que o patrão seja você).

Você recebe, em troca, dinheiro. A quantidade desse dinheiro depende de muitos fatores, alguns até imorais (como o incompetente filho do dono, que tem cargo de diretor). Outros são a expressão máxima da ideia de meritocracia, como a faculdade com bom nome, o histórico com notas altas, a pós-graduação, os idiomas, as especializações… Por aí vai.

Porém, embora você, engenheiro, médico, advogado ( = chavões) venda suas ~8h de forma mais cara do que o desqualificado, não necessariamente você vive mais (ou melhor) do que ele. Senão vejamos:

Um gerente de empresas tem um salário – bem – maior do que o estagiário. Mas quando as férias escolares chegam, é o estagiário que vai para a balada e, depois, transa mais que funileiro gaúcho (piada interna, perdão), enquanto o gerente pode estar fazendo turnos de 10 a 12 horas diárias, chegando em casa quando os filhos já dormem e a mulher já saiu do clima de festinha, se é que me entende… Parece exagerado, eu sei. Quem dera o fosse. Não é.

Eu trabalho com as maiores corporações do país, graças ao emprego que tenho (em uma das 5 companhias mais valiosas do mundo). Eu lido rotineiramente com líderes de equipe, quando não com diretores e, em geral, todos sofreram um bocado para estarem onde estão. E o que vejo e ouço na vivência com eles me garante: Eles não são mais livres ou vivem mais que o analista júnior. Comparar com o estagiário é até mancada. Não o farei mais.

Alguém vai me derrubar “do devaneio” que estou construindo. Vão me dizer “Tá bom… Mas o gerente passa as férias nas Bahamas e vai ao Aeroporto de Mercedes. Seu analista júnior não pode comer bife todos os dias da semana, ou vai à falência”.
O argumento é cruel; não posso deixar de reconhecer a obviedade de que meus gostos e meus sonhos só podem ser alcançados sendo o Engenheiro e jamais o Estagiário. Mostra o tipo de sociedade consumista em que nos moldamos. “Você é o que você tem e pode mostrar”, a maioria vai dizer. É uma realidade. Mas também é uma mentira. E eu vou tentar provar o erro que me parece existir nessa filosofia.

O primeiro aspecto a considerar é um tanto óbvio, porém, continuamente ignorado. O Estagiário realmente não vai às Bahamas. Não dá. Não com o que ele ganha. Mas eu tenho CERTEZA que ele se encontra “com os parças”, toda semana. E quando o dinheiro do goró (jovens, vocês ainda usam “goró”?) acaba, isso não importa. Um faz “o corre” do outro. E se ninguém tiver, não tem problema 2.0: Sentam na sala da casa da mãe de um deles e jogam conversa fora. O Tang é bom. A conversa, melhor ainda.

O Gerente, o Diretor, realmente vão às Bahamas. A cada quantos anos? Dois? Três? Só quando o casamento está acabando? Quando pegaram a mulher no Tinder, cansada de se deitar sozinha? Vão levar os filhos também, aquelas crianças que eles não sabem nada a respeito, mas que sabem que trouxeram ao mundo. Eles verão e desfrutarão coisas que o Estagiário só pode sonhar. Por 7 ou 15 dias a cada 2 ou 3 anos.

Não consigo me decidir de quem tenho mais dó.

Não sou hipócrita: Tenho sonhos, gostos e hobbies caros. Tenho um padrão de vida que não pode ser adquirido com sorriso no rosto e vida bucólica. Conheci os EUA em várias partes, o Chile, a África do Sul de Sul a Norte. Não dá para fazer o que faço com mil e duzentos reais por mês. Simplesmente não dá.

Mas eu jamais me permito esquecer: A única coisa que faz valer a pena sair da cama para perder 10 ou 12 horas do meu dia enriquecendo acionistas não é o dinheiro em si. É o que ele me permite fazer.

Daqui, decorrem mais alguns fatos para você analisar – como eu faço agora: Ninguém sobrevive num emprego como o que tenho, trabalhando 8h por dia. Ninguém. Podem lhe contar a mentira que quiserem. Não dá. Os mais “pé no freio”, como eu, fazem 10h. Os gerentes fazem 12h. Os alucinados, esses já não sabem mais dizer ao certo. Outro fato é que, realmente, é mentira se alguém lhe disser que a empresa nos obriga a isso. Ela não obriga. Você apenas não tem condições de entregar o que o cliente final contratou e ainda se manter em dia com as obrigações como funcionário dela. A armadilha está montada. Ela não te pede isso. Apenas é impossível ser um profissional bom sem fazer isso. E os profissionais não-bons, não-duram (com o perdão do “trocadilho gráfico”).

Eu trabalho para viver ou vivo para trabalhar? Tem horas que a diferença é impossível de se ver a olho nu. Porém, é só se lembrar de algo doloroso de se encarar: Você nasceu em uma família e cresceu com amigos. A carreira só veio bem depois na sua vida, lá pelos 16 ou até mesmo 20 anos. E você quer voluntariamente passar mais tempo com a última em preterição aos 2 grupos primeiros?
Que você não se engane: Ninguém aqui está vendendo sonhos. Só pode descansar no galho alto da árvore quem se deu ao trabalho de subir até lá. E se você nasceu pobre como eu, em uma periferia que nem asfalto tinha, a subida é uma merda, eu sei. Só que aqui mora o truque supremo do Diabo: Para que (e não por que) você quer ir até o galho mais alto? A maioria das pessoas com quem falei não soube responder com grande clareza. Algumas ensaiam um “é pela vista”. Ao que retruco “e quem vai subir com você até lá para discutir aquilo tudo que se vê e como foi a viagem até ali?”. A maioria desisti aqui. Alguns são o exército de um homem só: “Quem não aguentar a subida não é digno do que nos aguarda lá no alto”. Ok, Rambo… É seu direito pensar assim. O mundo só pode ser separado em vencedores e perdedores, você me diz. Respeito. É tosco pra mim. Mas respeito que funcione pra você.

Do meu lado, está bem claro: Não faz o menor sentido ter o melhor vinho de 2018 na minha adega para abri-lo sozinho e tomá-lo inteiro, sem ninguém para comentar todos aqueles aromas e sensações. Isso [de tomar uma garrafa, solo] é coisa de alcoólatra; não quero ser um.

Cada um sabe qual é o seu WLB (Work-Life Balance, sigla da nave-mãe onde vendo minha vida), é bem verdade. Para mim, WLB é ter a ajuda do meu gerente para estar na faculdade, por mais 4 anos no mínimo, das 19h às 22h, segunda a sexta, no período tipicamente letivo do Brasil. Para outros colegas, WLB é ter milhas infinitas para viajar de graça. Nenhum dos dois está errado. É só cada um correndo atrás do que quer. Só que tem uma coisa: Eu já passei tempo demais em saguão de aeroporto, hall de hotel e dentro de carros para saber que essas horas não voltam. Nenhuma delas, não importa como você as empregue, voltam, na verdade.

10 horas numa festa com os amigos, ou 10 horas dormindo. Ou ainda, 10 horas em uma UTI de hospital. Já passei por todas. São 10 horas. E nenhuma delas tem o mesmo preço. Marx all over again

Eu vou te contar o melhor que ocorreu em 2018, comigo: Eu passei 4 dias com minha segunda família. Aquela feita pelas amizades que forjei no caminho que já percorri. Nem todos estavam lá, verdade. A vida não deixa que nada seja pleno, perfeito ou eterno. É parte da ironia que nos maltrata e que também a deixa tão bonita. Não foi de graça, claro. Pagar metade de um salário-mínimo é um luxo, num país com 13 milhões de desempregados. Não sou idiota e entendo como eu pude fazer isso.

Mas quer saber?

Somos nós que criamos as prisões em que nos trancafiamos. Nós dizemos qual é o preço. Nós dizemos que para ver os amigos, rir, falar besteira, aos 33 anos de idade, precisa custar X vezes mais do que custava quando éramos todos estudantes pobres em uma escola pública por aí. Novamente, não sou idiota: Eu quero estar com eles, tomar boa cerveja, comer carne na brasa, ter café da manhã com todos os requintes que desejo. E tudo isso custa dinheiro… Mas esse não é o problema… O problema vem abaixo.

Estamos, todos nós, morrendo, o tempo todo. Nesse exato minuto, você e eu estamos mais perto da morte. E ninguém sobrevive a ela. Eu garanto. Só que o sistema que criamos (e se não criamos, no mínimo, sustentamos com cada escolha que fazemos) diz que a única forma de viver com conforto, corretamente, dignamente – use o adjetivo preferido – é vendo o cliente 40 ou 60 horas por semana, e vendo os amigos 3 horas por mês, ou indo com a mulher para as Bahamas a cada 2 anos, por 15 míseros dias. Seu filho deu o primeiro passo e você estava fazendo hora-extra. E você diz “é por ele”. Bem, só tome o cuidado de não pôr tudo na conta dele. Não se assuste se um dia você chegar em casa e ele estiver com barba. A escolha foi sua, nunca dele. Se você for um completo estranho para aquele cara com 15 anos que ainda ontem você trocava fraldas, não diga que foi tudo por ele. Me parece um pouco covarde ou desonesto. Foi por você. Como meus hobbies são por mim. Se eu preciso ter uma adega com 30 garrafas dentro, não é pela adega. Não é pela minha noiva, nem pela minha mãe. É por mim. E tem um preço. O preço é medido em dias da minha vida. Dias e horas que não me pertencem, porque eu os vendo. Se vendo por um preço justo, a história que fiz e faço dirá.

Para todo o apaixonado pelo vil metal, pelo contracheque, pelos zeros que se acumulam na conta… Fica só uma sugestão: Tome cuidado para não gastar tudo que acumulou, sozinho e/ou numa cama de hospital. Ter um milhão é legal, claro. Olhar pro lado e saber que você não poderia estar melhor acompanhado (família, amor, amigos, cachorro, whatever) é muito melhor. Se você conseguiu os dois, te parabenizo e te invejo. Quem sabe um dia. Mas te garanto que conhecer a Savana africana com 30 é melhor do que conhecer com 60 ou 70, quando as costas já não aguentam mais a dor da estrada de terra. O tempo do garoto não custa o mesmo do velho, lembre-se disso sempre.

Toda vez que você vende barato o que não tem preço (a.k.a. seu tempo nesse mundo), você está sempre dizendo que é pelos outros, ou pelo futuro, ou sabe lá em nome do que. Enquanto isso, o que escorre pelas suas mãos é a vida. A única que você terá aqui. Se houver outra, só tem um jeito de saber, e é um preço caro demais para se pagar e confirmar.

Eu disse que não ia vender sonhos. E continuo dizendo: Semana que vem eu vou estar no trabalho. Os boletos continuam chegando. Da faculdade, do aluguel, do vinho. Eu quero tudo isso. Mas as prioridades têm de ser claras para mim. Eu não vou vender o tempo que sempre foi meu para conseguir mais dinheiro, para guardar mais, para ter mais bens que não vou utilizar (porque estarei fazendo hora-extra em algum lugar, para enriquecer alguém que não sou eu), para um dia, quem sabe, se a loucura do hospício que é o mundo adulto não tiver me roubado toda a saúde, eu, enfim, aproveitar isso tudo. Lembrando o que eu já disse: Miami com 30 anos é bem melhor que Miami com 60. E com 20, é melhor que com 30. A disposição, a aventura, a doçura das memórias; essas coisas não podem ser compradas.

Estamos todos em rota de colisão com o fim. A vida é agora. Longe de mim entrar na onda idiota do “Carpe Diem”, lema romano usado no fim do império, já na decadência, para justificar abusos e inconsequências. Quem me conhece sabe muito bem que esse não sou eu.

Mas, 2019 será um ano que dedicarei a viver com menos. Eu vou enxugar os gastos, reduzir o que puder, sem tornar a vida enfadonha, sem tornar o emprego insuportável (eu vou para lá por tudo o que ele me permite fazer fora de lá; nunca me esqueço dessa ordem) e, então, eu vou saber de quanto preciso para manter a roda girando. E em 2020, a meta é trabalhar menos.

O homem planeja e Deus ri, é verdade. Só estou compartilhando um plano. Planos mudam. Nem por isso devemos deixar de fazê-los… Eles nos dão Norte para seguir nas horas mais escuras.

Mas eu sei o que faz a vida valer a pena. E não tem nada a ver com meu cargo, meu e-mail, ou meu currículo. Não que essas coisas sejam ruins. Pelo contrário: É o melhor lugar em que já trabalhei em toda a minha vida. O melhor gerente, a melhor equipe. Mas houve um tempo em que todas as horas da minha vida eram minhas, e como o estagiário, eu via constantemente as pessoas que fazem o mundo ser um lugar que vale a pena estar. É isso que eu quero. O caixão não terá cofre. Só vão lembrar de mim as pessoas com quem eu me relacionei humanamente. Nenhuma empresa em que troquei o servidor de e-mails fará uma homenagem quando eu partir.

Agora, eu vendo minhas horas por um preço que não atinge 13% do valor que elas geram para minha companhia. Detalhe sórdido: Fiz a conta com o salário bruto, como se não houvessem impostos. E alguns dos meus colegas estão determinados a não ver os amigos, não ver os filhos, perder a mulher para o encanador… Alguns porque tem um plano e o sacrifício é valido, com começo, meio e fim. Eles têm minha admiração, no entanto ela valha de nada. Porém, outros tantos o fazem porque disseram para si que “não há outra forma”. Pois, minha meta será achar outra forma. Porque estou morrendo. Todos estamos.

Memento mori, diziam os sábios antigos.

Eu me lembro. Eu realmente me lembro…

2017 acabou… 2018 será um Novo Ano… (Spoiler Alert: Mentira.)

É 31 de dezembro, e uma obsessão toma os corações e mentes dos meus parentes, amigos, e até do desconhecido com quem trombei no mercado, hoje…

… Ele escolhia um vinho e, ao me pedir licença, decidiu fazer votos de Feliz Ano-Novo ao gordinho desconhecido que havia incomodado (com razão, pois, eu o atrapalhava enquanto me decidia). No votos, fez questão de dizer que estava cheio de esperança e fé de que nós todos teríamos um ano brilhante em 2018.
Era o que ele sentia “no ar”. Eu sentia cheiro de Pinho-Sol, porque alguém fez o favor de derrubar uma garrafa no chão.
A encarregada da limpeza, assim como eu, sabia – pelo menos, naquele momento, em que trabalhava em pleno dia 31 de dezembro – que não tinha nada de diferente “no ar”. É um banho de realidade frustrante. E de Pinho-Sol, também. Para ela, 31 vai ser igual à 1 de janeiro – porque ela folgou no Natal inteiro, e vai trabalhar os 2 dias, o que me revelou conforme conversei com ela sobre a infelicidade de lidar com o vinho derramado…

Réveillon:
Do francês, “RÉVEILLER”, ou seja, “acordar”, herança da palavra em Latim, “VELARE”, ou “fazer vigília”.

Sim. É só isso. Nada além.
Não significa, por exemplo, “momento em que os ciclos universais se alinham e tudo na galaxia é reiniciado, para que você tenha mais uma folha em branco, nas mãos, ó ser mais importante do Cosmos: Você.”…

Quanto às reais diferenças entre “2017” e “2018”, fica ainda pior porque, essa medição do tempo (a.k.a.: ” Éon, Eras, Períodos, Épocas, Milênios, Séculos, Décadas, Anos, Meses, Semanas, Dias, Horas, Minutos, Segundos… Décimos (de seg.), Centésimos, Milésimos (e segue))… Essa medição de tempo é artificial.
Como quase toda observação científica que o homem realiza, “medir o tempo” é o jeito que a Ciência achou para “colocar em caixinhas” (= explicar por um modelo reproduzível) a degradação natural do Universo (e tudo [incluindo você] dentro dele) com o passar do Tempo (“Tempo”… Outro conceito humano)…

O problema é que o Universo está TÃO CAGANDO pra nossa medição, que ele SEQUER se dá ao trabalho de fazer a translação da Terra ser “perfeita”…
Bem, vamos lá… A Terra nunca “despencou” no vazio (“cima” e “baixo” no Espaço Sideral são conceitos inúteis… “Despencar”, portanto, é outro desses inúteis conceitos…)… Se ela nunca despencou, falar que a translação “não é perfeita”, é um pouco arrogante da minha parte…
Mas, em minha defesa, a “palhaçada” é  que a Terra leva 365 dias de 24 horas, MAIS 6 horas (Na verdade, o número preciso é 365,256 dias, o que dá uma sobra de pouco mais de 6 horas [6.144 horas]… MAS, QUEM ESTÁ CONTANDO,  NÃO É MESMO??? [Enquanto visto minha roupa branca nova, para a mais importante meia-noite do ano]), para fechar uma volta elliptical em torno do nosso Sol, uma estrela de classe espectral G (tipo G2V), informalmente chamada de “Anã Amarela” (e, antigamente, chamávamos de “Estrela de 5ª grandeza”…); de novo: Definições humanas, para coisas que estavam bem, muito bem mesmo, antes de nós classificarmos todas elas.

Defendo-me, de novo, (os tempos de hostilidade virtual tornam o indivíduo covarde, ao ponto de se defender previamente de quase tudo que ele possa imaginar que vão acusá-lo, mais tarde) dizendo que não sou contra o árduo e valoroso trabalho científico, feito por gerações, para estabelecer padrões, sistemas, regras de classificação e tudo aquilo que nos ajuda a entender o Universo em que vivemos…

A crítica aqui é bem mais simples e bem menos pretensiosa do que desmoralizar todo o sistema de classificação do Tempo, das Estrelas, das dimensões espaciais (e da po@#$@# toda)… A real crítica é:

Não há NADA de mágico, místico, cósmico, e/ou significativo, universalmente perfeito e engendrado…

…para suportar a ideia de que “um novo Ano se inicia, a partir da meia-noite”. E, no lugar da palavra “Ano”, coloque a semântica de “ciclo”, “fase da raça humana”, “nova etapa da sua vida” e etc….

Se você acha que “tudo vai ser diferente”, somente porque “2017 acabou”, ou porque você supõe (incorretamente) que a Terra perfez uma volta completa em torno do Sol, saiba que você se engana em dose dupla.

A Terra não terminou de dar uma volta ao redor do Sol.

Sua vida não vai mudar “um milésimo de segundo” na Bússola imaginaria que a norteia, só porque agora, o calendário de 2017 tem sua última folhinha arrancada, e começa 2018…

Existe um sem número de boas razões para se medir o Tempo, como a importância disso para a Agricultura, nosso modelo de Medicina (da gestão de uma gravidez, até o tratamento contra as Neoplasias e etc….). Tudo isso é balizado com o Tempo em mente.

Mas, por outro lado, existe essa insana tara de que “o ano que vem” vai mudar sua vida, só porque antes era um número impar, e agora vai ser um número par.

“Em 2018, vou emagrecer”… “No Ano Novo, eu assumo o controle da minha carreira”… “Ano que vem, o Brasil vai sair da lama”…
Desculpe-me pela sinceridade e indelicadeza: Quanta bobagem.

O tedioso momento “Paulo Coelho”, e a arte de escrever auto-ajuda em 15 minutos…

…me forçam a dizer algo que é bem óbvio mas que costuma ser a última coisa a ser lembrada: Sua vida – ou algum aspecto dela – não vai mudar de estado “A” para “B”, só porque você se vestiu de branco, comeu lentilha, tomou Champagne (eu não tenho dinheiro para Champagne de verdade… Vou tomar espumante mesmo), pulou ondinha, queimou fogos, abraçou as pessoas que não viu o ano todo… E zaz…

A Mastercard adora isso.
A Vivo também.
Na verdade, a Publicidade sabe como brincar com almas e mentes, em um período tão emocional como as festas de fim de ano, e é por isso que as peças publicitárias de fim de ano são cheias de chavões como “Começar o ano com quem você ama: Não tem preço”, ou “Em 2018, viva mais o sim, e menos o não”, ou ainda “Abrace as novas idéias, e abandone os preconceitos em 2018″…
BULL…SHIT…

Se você ama alguém, melhor amar sempre que possível (mas, não o tempo todo, porque isso não é normal, nem sadio e, de novo, isso não é um comercial de TV), porque é muita presunção sua, achar que ela(e) (ou você!) vai estar viva(o) até a próxima queima de fogos… Se você esperou até o Ano Novo pra notar como essa pessoa muda sua vida (ao ponto de fazer o Novo Ano ser diferente do anterior, só por estar presente), você é muito TAPADO(A).

Se você quer combater preconceitos que você tem e exercita contra os outros – em tempo, ponto pra você por querer mudar isso – pelo amor de qualquer coisa que você acredite: Comece ontem… Comece mês passado. Não espere o Ano Novo, não… É um desserviço o que você está fazendo com os outros e com você…

Se você quer emagrecer… Esperar o Ano Novo é uma dupla roubada:

a) As academias estarão fechadas no dia 1 de janeiro (a menos que sejam de donos retardados e sem humanidade pelos funcionários e suas famílias).

b) Você esperou a época do ano em que mais se come, e em que mais se come pratos de alta caloria para, em seguida, entrar em um regime forte… Significa que seu corpo foi mimado com 4 mil Kilo-calorias numa Semana-Ceia constantes, e agora você espera que ele trabalhe com 1.800 KCal, daqui pra frente… Genial da sua parte…

Todos os exemplos acima, se resumem em uma explicação AGRESSIVAMENTE caricata de livros de auto-ajuda – que eu detesto, por motivos que não tenho como defender aqui, sem misturar demais – :
A única forma de mudar sua vida, os rumos, os aspectos, os resultados e os caminhos dela; é se você quiser mudar suas atitudes, suas opiniões, suas ações e, no fim, você mesmo.

Eu disse que fedia à auto-ajuda… Fazer o que, se é a mensagem correta… Mas isso não promove a auto-ajuda à emissária da verdade… Até um relógio mecânico, quando quebrado, está certo 2 vezes por dia…

E esse é todo o ponto que me motivou a escrever hoje…

Vejo todos esperançosos com 2018… Fazendo o mesmo que fizeram em 2017, que já faziam em 2016, e que já tinham feito em 2015…

A ilusão não é má (por exemplo, o menino que crê no Coelho da Páscoa, ou a menina que acredita na Princesa), exceto quando essa ilusão desvia o foco do iludido para longe do que realmente causa o que o incomodou, em primeiro lugar…

2017 não me engordou uma grama…

…foi bem mais (tipo… 100%) o hábito de comer hambúrgueres deliciosos (mas gordurosos) + ficar no sofá vendo TV, ao invés de ir pra Academia, o que realmente me arrebentou na luta com a balança (“luta” que eu não travei… Não era minha meta emagrecer neste ano; muito embora, estar em dia com o peso seja sempre bem-vindo, não me propus à isso, em primeiro lugar).

Eu prometi ler um livro por mês; sai até do convívio diário com as redes sociais sob a idéia de estudar mais, de ler mais os grandes autores… E terminei lendo apenas 4 dos 12 livros que deveria ter lido… 4 é melhor que zero, claro… Mas, 4 está bem longe dos 12 que eu me propus…

“Em 2018, vou ler os 12!”… Bem, EU (e não 2018) poderia ter quebrado um galho para essa meta e, ao invés de passar 1 hora escrevendo esse texto, ter iniciado “o primeiro livro de 2018”, já em 2017… Preferi procrastinar por aqui…

E é por este tipo de coisa que o Brasil (e a sua e a minha vida) vai seguir sendo uma porcaria em 2018…

…porque, mesmo com 47 mil mortos nas vias públicas brasileiras em 2017 (fonte) – mais que as guerras da Síria e do Iraque mataram no ano que se encerra – a cada 10 veículos vistoriados pela PRF (Polícia Rodoviária Federal), 6 foram multados por infrações graves como cintos de segurança quebrados, pneus carecas, ou embriaguez ao volante (mais combos de criança sem cadeira de segurança no banco de trás, e sem cinto), conforme matéria que foi ao ar na Globo News, ontem.

Assim sendo, o simples desejo de que “o Mundo seja melhor”, contanto que você não precise fazer um único esforço nesse mesmo sentido, é o que mantém as engrenagens da realidade em que vivemos, idênticas, ao longo dos anos. As datas em si, são meras espectadoras da nossa estupidez.

Os políticos do país em 2017, seguem sendo os mesmos em 2018.
As pessoas jogando lixo na rua, pichando muros, ouvindo “música” (à empresa Vivo e sua peça publicitária: Não, não é Cultura. É Lixo, mesmo. Fede. Muito.) alta e incomodando toda a vizinhança, seguem agindo assim.
Você segue sem ir pra academia, e eu sigo sem ler os livros que prometi e queimando tempo nesses posts que – quase – ninguém lê.

Os lunáticos no poder, mundo afora, seguem lunáticos, e com poder (Trump, Kim Jong-Un, Maduro, ISIS, Bashar al-Assad… a lista é enorme), também em 2018…

Tudo está garantido para que 2018 seja idêntico ao ano que termina, hoje – ou pior, a considerar o ano de eleições para a presidência da Republica do Brasil, e as opções que vão se destacando…

Alguns vão ler esse post como um post negativo… Pessimista.
Eu, autor dele, por outro lado, enxergo como uma visita ao espelho: Nada muda em 2018. Nada. A não ser que eu mude primeiro.

Esperar por 2018 ou 20xx (onde “xx” é o seu número predileto) é tão lógico e/ou eficiente quanto descobrir um câncer mas, esperar que ele melhore em 3 ou 4 anos, e suspender as visitas ao médico, até lá.
Boa sorte com essa estratégia!

Ao pensar no porquê lutamos tanto contra mudanças; no estilo de vida, na alimentação, nos horários e atividades,  nas regras trabalhistas (não ouso significar, neste momento, que são boas ou más), nas regras da previdência (idem à anterior), na nossa relação com a Lei e com a Ordem, na nossa conduta um com o outro…
Ocorre-me o que aprendi em uma das leituras sobre psicologia: Mudança SEMPRE causa dor.
E a única forma de empurrar um ser humano saudável no caminho da dor, é se continuar no caminho atual causar mais dor do que trilhar o novo caminho (que seria a mudança, neste caso).

E é por este e outros motivos, que até para cima de uma mudança artificial, e sem respaldo algum da natureza (lembre-se que a Terra não fechará mais 1 ano sideral, hoje, à meia-noite), tentamos – sem sucesso – empurrar a nossa responsabilidade de assumir o que deu errado, e tomar as medidas que precisam ser tomadas para não persistir no erro.
Pensando bem, coitado do Ano Novo: Já nasce com o peso das expectativas de todo o mundo (literalmente) nas suas costas… Expectativas que deveriam recair sobre cada um, e não nele.

Para encerrar, atribui-se erroneamente à Einstein, a frase:

“Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.”

Mas nem pela incorreta atribuição, a frase deixa de ser verdade. E é essa reflexão que desejo a você, não em 2018 mas, imediatamente.

Porque, disse Paulo Coelho (agora sim, corretamente atribuído): “Há verdades mais verdadeiras que a própria verdade”. E essa é uma delas:

Se você acha que 2018 vai ser diferente, mas pretende fazer tudo como sempre fez até aqui, você é insano(a).

Feliz 2018!

PS: Não se engane: Tendo sentido ou não, eu vou aproveitar a grande festa de Ano Novo com amigos e pessoas queridas, sem dúvidas! Espero que você faça o mesmo. 

Brasil: A Sociedade Decadente

O que acontece quando um povo perde a capacidade de entender (e dominar) o que lhe fez – e faz – prosperar?

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:THOMAS_COUTURE_-_Los_Romanos_de_la_Decadencia_(Museo_de_Orsay,_1847._%C3%93leo_sobre_lienzo,_472_x_772_cm).jpg
A obra de Thomas Couture, “Los Romanos de La Decadencia”, retrata a Decadência (em maiúsculo, como uma entidade) atingindo a sociedade romana, com sua acepção mais clássica e arraigada em nossa interpretação: Os excessos humanos; o uso de entorpecentes, o sexo, a falta de compostura, e outros pecados capitais, levando a corrosão de todas as aspirações e qualidades de nossa raça; tudo encarnado no trabalho em óleo sobre tela.

de·ca·dên·ci·a

sf

1 Estado daquele ou daquilo que decai, que se encaminha para a ruína; caimento, declínio.

2 Perda progressiva de poder, prosperidade ou valor; empobrecimento.

3 Época em que algo ou alguém passa pelo processo de degradação; degenerescência, ruína moral.

A nossa sociedade é decadente em vários aspectos.

Mas, talvez, você esteja pensando em uma sentido muito amplo e, quem sabe, até moralista dessa acepção; enquanto eu quero abordar um sentido estrito…

Uma das alegrias de conhecer gente verdadeiramente inteligente é ter a oportunidade de ter discussões fascinantes, receber o presente de ter os olhos abertos para um prisma novo; um angulo escondido… Algo que você demorou demais para notar.

Mas… Vez ou outra, a oportunidade acaba sendo um belo “presente de Grego” (a obra que retrata Roma… A menção ao Cavalo de Troia… Esse post será um clássico [Entendeu? Entendeu?] 🙂 )

Acontece que na última conversa minha com o Rafael, primo da Bruna, eu saí bem mais abatido e angustiado com a “dura circunstância da realidade que me cerca”, do que entrei.
A ideia de que na prévia ignorância eu era mais feliz não me deixou escapar, e aumentou em algum nível a minha tristeza com o que acabara de despertar sobre meu país.

Para aliviar minha insatisfação e desolamento, venho aqui compartilhar contigo o que descobri, ao melhor estilo “comigo não morreu”, e se você entender o problema, a angustia minha passa a ser sua também. Não precisa me agradecer…

Para entender o “Brasil Decadente”, vamos começar falando da metalurgia, na India.

“O que?”. É, isso mesmo: “India” e “Metalurgia”… Para entender o Brasil…

É difícil precisar, mas, a história da Metalurgia na Asia tem registros arqueológicos que vão além dos 3 mil anos antes de Cristo.

Registra-se, 1800 antes de Cristo (a.C.), a presença de ferro trabalhado em várias obras e monumentos indianos e estima-se que em 1300 a.C., o ferro de fundição era produzido em largas escalas naquele território. O domínio do processamento de metais é vital para classificar a evolução dos povos na História da humanidade.

Fato grátis: A diferença entre “metalurgia” e “siderurgia”, do ponto de vista acadêmico, jaz na especialização: Siderúrgicas são especialistas em fazer ferro refinado e vários tipos de aço, enquanto as Metalúrgicas trabalham em todos os tipos de metais (incluindo o ferro).

Conta a História, inclusive, que em 300 a.C., a India era a detentora de uma técnica suprema de produção de aço (A “Crucible technique”, ou “técnica do Cadinho” em bom português-metalúrgico) onde, por conhecimento químico apurado de seus ferreiros, era produzido um aço-carbono complexo, forjado em altas temperaturas com ferro de alta qualidade, carvão e vidro.
Nessa época, a India era, simplesmente, dona do monopólio do melhor aço que o mundo ocidental (e aqui, me refiro a Europa, na verdade) poderia desejar e comprar.

Não para por aqui, e se você quer saber mais, sugiro que procure pela História da Metalurgia na Asia, e a Metalurgia antiga da India e sua vasta gama de registros de ligas metálicas de altíssima qualidade (os registros dos feitos indianos nas primeiras ligas de Cobre e Latão são impressionantes, especialmente, considerando o grau de conhecimento que o resto do globo tinha sobre isso, tantos séculos antes de Cristo) e difícil obtenção, em períodos muito distantes da História humana, séculos antes das Expansão Européia por meio das Grandes Navegações chegar a estas bandas.

Sabe qual é a importância da India na Metalurgia global contemporânea? Nenhuma.

Não que a nação não produza ou processe metais para consumo próprio ou exportação mas, salvo algo bem específico, ela já não “dá as cartas” no jogo da transformação de “rocha” em produto-base (commodity) da indústria mundial. Limita-se a copiar o que os outros fazem, por vezes, com tecnologia patenteada além-pátria.

O que aconteceu com o conhecimento indiano sobre a metalurgia de ponta? Onde foram parar todos os seus ferreiros, especialistas, detentores de um conhecimento tão específico e tão vital para o trunfo de “dar as cartas” em um mundo que começava a se conectar (a famosa “rota para as Índias” era o centro econômico dessa Era, não porque os Europeus gostassem de Yoga ou do Hinduísmo) e um mundo que pagaria o quanto os indianos quisessem por metais processados de tanta qualidade (e raridade)?

Na opinião do Rafael, que também passou a ser a minha, ocorreu que a sociedade indiana tornou-se decadente…

A definição que ele deu foi muito precisa e suponho que, por não ter achado referências em nenhum lugar com acepção parecida, só possa ser de cunho dele mesmo; motivo pelo qual faço questão do crédito e do registro da terminologia, a ele:

“Sociedade Decadente (ou ‘em decadência’), é aquela que se torna, ao longo do tempo, incapaz de compreender e dominar os processos de transformação da Natureza que permitiram (e permitem) que ela ocupe o status que hoje detém.”.

Resumindo, via exemplo: Você vangloria-se (ou simplesmente se satisfaz) de viver em uma sociedade que cura, facilmente, grande parte das infecções bacterianas mas, essa mesma sociedade perde, cada vez mais, a compreensão e o domínio de como se produzem os antibióticos que te fazem prosperar onde seus antepassados pereceram.

É sobre esse stricto-sensu de “Decadência” que quero tratar. E que, no meu entender (e do Rafael, ao qual sou grato por me apresentar o conceito mas, fico na cisma pela depressão que incutiu), é a mais pura realidade da Sociedade Brasileira atual.

Ninguém decai do chão para a chão…

Para decair, contudo, é preciso, em algum momento, ter tido qualquer patamar (ou, ao menos, o vislumbre desse patamar) superior ao que se está rumando agora. Ninguém decai do chão para o chão, já que é o tipo de situação onde aplica-se o “pior do que está, não fica”…

O Brasil teve inúmeros momentos de progresso científico constatáveis e mesmo que seja totalmente reprovável como forma de governo, o fato é que especialmente a partir da Ditadura (a começar com o Golpe de 64), os brasileiros passaram a ter contato com o mundo exterior (e sua tecnologia) de forma mais acentuada e contínua.

Como exemplo, cito a ESG (Escola Superior de Guerra), assunto que já tratei em outro post, onde o intercâmbio de militares para os Estados Unidos da América (não sem a intenção deles de repelir a então União Soviética, vale dizer) fazia com que estes aprendessem muito da técnica militar com os estado-unidenses, e a trouxessem de volta para “a pátria amada, Brasil”…

Outro grande exemplo reside na fundação do então chamado “Complexo eletrônico brasileiro”, na década de 70, bancado pelo recém fundado (em 1952) BNDES, iniciativa que começou (novamente) com os militares da Marinha de Guerra Brasileira, bancando um projeto para construção de um computador 100% nacional.

A presença de Multinacionais já era grande, com menção honrosa à IBM que, em 60, tinha dois terços dos 90 sistemas computacionais instalados país à fora; e à Burroughs que instalou seu B-205 na PUC do Rio de Janeiro.

Diante disso tudo, é preciso ponderar que entre a Ditadura militar (que perdurou entre 1964 e 1985 – e, para me gabar, sem qualquer adição de conteúdo ou propósito, sou filho da Democracia, em 1986) e o fim da década de 80, os Brasileiros saíram de meros consumidores de “caixas-pretas” para um padrão de sociedade científica um pouco mais interessada em dominar os meios de produção que ditavam o progresso tecnológico do “primeiro mundo”.

Mas, algo deu errado: Talvez tenha sido a hiper-inflação (com seu pior momento entre Sarney e seu sucessor)… Talvez tenha sido a abertura da economia brasileira (por Collor, sucessor do já citado, e que não cito mais de uma vez, para não invocar maus espíritos) à importação de produtos em massa… De uma hora para outra e sem muita clareza do que sucedeu-se primeiro, nossa nação foi abandonando a vontade de dominar essas tecnologias.

Para saber mais: O Complexo Eletrônico Brasileiro

Nota: Cuidado com o excesso de ufanismo. É um texto de um órgão público engajado na propaganda…

Vontade não é tudo…

Quando penso na obstinação do povo dos EUA, especialmente estilizada e retratada no episódio de John F. Kennedy conclamando, em 1961, e com força de ordem executiva, a “América” a colocar o homem na Lua em menos de 10 anos, percebo a importância da vontade como motor de uma perseverança que não se abate diante das dificuldades.

Quem tem o mínimo de curiosidade sobre o tema, sabe muito bem que o programa espacial norte-americano não foi, nem de longe, uma “linha reta”: Revés, atrasos, acidentes, mortes, pesquisas infrutíferas, descobertas de conceitos equivocados (e, até aquele momento, alicerces do programa)… Teve de tudo.

Ainda assim, em Julho de 1969, Neil Armstrong plantou o primeiro pé humano por lá.
Eu NEM QUERO começar uma discussão sobre “se o homem foi mesmo lá”… Não tem nenhuma adição a este assunto… (Mas, eu penso que foi, sim, se você está curioso[a]).

Isto posto, quem conta que a corrida para pôr o primeiro homem na Lua foi uma história de “Vontade e Esforço”, está vendo novela da Globo por demais.
Vontade e Esforço são ótimos, claro… Mas, nas mãos de um imbecil, significam muito sacrífico, muito suor e lagrimas, e pouco resultado.

A parte, verdadeiramente bonita da corrida espacial, especialmente do lado “Yankee“, está no que significou aquela década para a educação americana, dos níveis fundamentais de ensino às universidades do país.

Nunca se importaram tantos doutores e mestres (a lista conta com gente de baixa relevância, como Einstein ou Von Braun [pai do sistema alemão de foguetes “V2”], e vou parar por aqui).
Nunca deu-se tanto valor ao domínio da Matemática aplicada, da Física e Astronomia de ponta. E nenhuma dessas ciências prospera se você não entende a língua na qual elas lhe são apresentadas (no caso deles, o Inglês)…

Sugiro, como complemento, o artigo da Harvard School: How Sputnik changed U.S. education

Quando eu crescer, quero ser cientista…

E talvez, nunca, na História da humanidade, tenha havido uma geração com tantos jovens que tinham ídolos que não eram de uma Boy-Band, ou de um Reality Show (até porque isso não existia), mas sim, astronautas, físicos e matemáticos.

Não é piada: Uma boa parte de crianças daquela geração cresceram tentando ser os próximos da lista de revoluções científicas do país, e alguns até tinham posteres desse estranho tipo de ídolo juvenil, nos seus quartos.
Não dá para não imaginar um poster de Stephen Hawking fazendo pose de mister-universo no quarto da menina de 15 anos em 1970 (não, não sei de tal poster… Só imaginei)…

Talvez, o filme “os Eleitos” (1983) faça um dos melhores trabalhos em dar um vislumbre do clima no sistema educacional estado-unidense com a Corrida Espacial à todo vapor (ok, cabe dizer: À todo vapor para não perder, de modo algum, para a URSS que já tinha posto o primeiro homem em órbita e lançado o satélite Sputnik).

O ponto central é: Vontade e determinação são muito importantes para levar uma sociedade de um ponto A até o ponto B. Mas, sem domínio cultural e científico, ela é tão útil quanto um fósforo comum no fundo da piscina. Não há ignição…

E o Brasil?

Bem, o Brasil nunca quis ganhar de ninguém. Nunca correu corrida alguma. Alguns setores e personalidades (tudo muito específico) podem até esbravejar comigo e dizer que estou muito enganado.
Mas, data maxima vênia, caros colegas, a única corrida da qual todo brasileiro entende é a corrida para pegar o ônibus lotado que já vai passando ali no ponto.

Nunca houve projeto nacional algum, de ser o melhor em um assunto tecnológico do que todo o resto do mundo.

Não me engano: Ninguém sabe fazer tudo sozinho. O país que domina a eletrônica não necessariamente é referência no processamento de petróleo ou minérios, e assim por diante. Então, não acho que precisamos dominar a técnica de todas as cadeias produtivas para sermos respeitáveis.

Mas, quando tudo que seu país sabe exportar é:

  • Commodity (ou seja, produtos de baixo valor agregado e que, mais tarde, compramos de volta, muito mais caro, por terem sido transformados em algo realmente útil) – Foi, inclusive, a desgraça que nos fez cair na armadilha de que o país estava em rota de um futuro econômico brilhante na Era Lula e no primeiro mandato de Dilma;
  • Drogas (O Brasil é: 1. O país que mais exporta produtos químicos para o refino de drogas na Colômbia; 2. A base de operação de quadrilhas africanas que enviam para Espanha, China e Reino Unido, via Correios [a nossa ECT]; 3. O maior exportador de drogas para os Estados Unidos [que, vale dizer, é o maior mercado consumidor de drogas do mundo]) – Dados de 2012;
  • Jogador de futebol (O Brasil é o primeiro do mundo em “exportação”[469 atletas], bem longe da França, no segundo lugar [com 312] – Dados de 2016);
  • E mulheres (não estou brincando: O tráfico de pessoas, no Brasil, é responsável por cerca de 65 mil brasileiras raptadas e escravizadas para fins, quase sempre, sexuais, em um “mercado” de 1.3 bilhão de dólares, só na América Latina – Dados de 2014);

… Fica difícil notar qualquer avanço que possa evitar a Decadência da Sociedade Brasileira contemporânea, sempre muito dependente da ajuda externa, e escrava do consumo de tecnologia internacional, por ser incapaz de dominar os meios produtivos que transformam o que ela tem (minérios em abundância, solo fértil, biodiversidade, quase todo o tipo de matéria-prima), no que ela quer ou precisa consumir (alimentos processados, remédios de ponta, tecnologia de telecomunicações, tecnologia aeroespacial, Inteligência artificial[…]). E tudo o que o noticiário local nos mostra durante o quadro “Internacional” no qual aparecemos há cada 10 anos, ocorre graças a um solitário cientista conterrâneo, em algum galpão sem estrutura, Brasil à fora, travando uma batalha particular, inglória e ingrata, por vezes em nome de valores que o resto de sua pátria sequer tem noção de como soletrar.

Quem mandou querer ser cientista?

Ele (e quase nunca “ela” – outro problema…) escolheu essa carreira, é verdade. Poderia ser servidor público, advogado, político. Poderia ser um Big Brother, ou um Youtuber… Um meio-campista ou um funkeiro…

Escolheu entender a função da apoptose (ou “suicídio celular”) na citologia do mamíferos primatas superiores…

Ou, escolheu entender porquê partículas subatômicas deixam de ser uma função de onda quando tenta-se medi-las com instrumentação, obtendo ou uma localização, ou velocidade, por exemplo (alias, se esse conceito lhe parece muito “frufru”, saiba que é uma das bases do próximo salto da computação, quando ela se tornar quântica).

A maioria dessas pessoas não viverá para ver respondida as questões que abordou.

Essa é a beleza “poética” da Ciência: Seu trabalho não é pra você, mas, para a humanidade… Se você tem qualquer crise em não ver seu trabalho iniciado, desenvolvido e finalizado, é melhor largar a Ciência e ficar na Construção Civil. Por lá, as obras costumam ter início, meio e fim. Na Ciência, isso é quase impossível.

Como menção honrosa para uma das poucas exceções à essa regra, vale citar um cientista, brasileiro (acredite se quiser): Carlos Chagas, o descobridor da doença de Chagas, que pôde estudá-la de “cabo a rabo”. Feito raro, é bom dizer.

Mas, não é – nem de longe – a norma na Ciência… Teorias postuladas no século 19 continuam sendo testadas e expandidas (ou refutadas) nos dias de hoje.

A Ciência é assim mesmo… Você constrói o seu bloco por cima dos blocos que seus colegas antepassados deixaram pra você. A obra só pode ser contemplada de longe, olhando a contribuição de cada um que, um dia, pode (e pode não) ser completada e transformada em algo prático, como, por exemplo, a imensa cadeia de conceitos, tecnologias e conhecimentos em interação que, finalmente, interligam o teclado em que digito esse texto, e a tela do seu computador ou celular, em qualquer lugar do mundo…

Esse brasileiro (e quase nunca, “brasileira”, repito com pesar) escolheu essa carreira. Verdade…
Mas, eu tenho que ser grato por tantos que tiveram a mesma escolha dele(a), décadas e, às vezes, séculos, antes de mim. Não pelo que ganho de imediato com isso. Mas por tudo o que já ganhei até aqui.

A Ciência não funciona para os egoístas.

Não funciona… Mas, sou sempre grato, sim, pelo que se descobre (e descobriu), até mesmo quando tudo sai errado e pelo que se edifica para as gerações que virão depois de mim, como os antepassados da Ciência fizeram pela geração atual, sem poder se beneficiar do que construíram, mas, em nome do ideal científico de ir além, de descobrir e entender como o Universo funciona, e como podemos moldá-lo em nosso favor.

Mas, não no Brasil…

Eu sei, de verdade, que antes fosse essa constatação exclusiva do lugar em que vivo. Como eu sempre digo, porém, é aqui no Brasil que eu vivo e aqui foi onde eu cresci. Esse é o lugar que mais me importa, no mundo, e é por isso que toda minha atenção e crítica são miradas para cá.

Honesta e deselegantemente, pouco me importa se 90% dos países do mundo estão se lixando para a Ciência, mais ou menos do que aqui. Quero saber o porquê do meu país ser idiota e estúpido de tomar essa decisão.

Meu país é feito de uma população extremamente deficitária no básico, em todos os sentidos. Ainda temos 27% dos pouco mais de 206 milhões de brasileiros, incapazes de ler uma manchete em um jornal (Dados de 2016).

Mesmo entre os que sabem ler os léxicos e transformar os “estranhos risquinhos” em letras e sílabas, a esmagadora maioria é incapaz de ler um texto como este que redijo. E nem estou levando em conta os que têm preguiça (porque escrevo muito, eu sei). Apenas os que não conseguiriam, mesmo se quisessem…

Uma rápida demonstração da nossa falência:

No começo de 2016, um estudo foi conduzido para avaliar a compreensão das ciências básicas do nosso povo. Considerou-se somente a população em idade produtiva, o que podemos dizer que equivale a 45 a 48% da nossa população total (outro dado preocupante). Só pela facilidade, vamos aceitar que dos 206 milhões de brasileiros, 100 milhões estão em idade produtiva (na verdade, esse número orbita na casa dos 80 mi).

O que o estudo feito pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa revelou é que desse universo de ~100 milhões de brasileiros, e respeitando a metodologia do INAF (Indicador de Alfabetismo Funcional), temos:

  • 4% de analfabetos;
  • 23% de rudimentares;
  • 42% de elementares;
  • 23% de intermediários;
  • e () 8% de proficientes;
    • E, a vantagem de usar 100 milhões como universo é que basta arrancar o simbolo de porcentagem para saber quantos milhões de brasileiros estão em cada categoria… Fácil! Se você não for analfabeto funcional…

Ainda, para os fins dessa pesquisa, Analfabetos e Rudimentares, somados, são o que compõe o universo de analfabetos funcionais brasileiros; pessoas que não conseguem (mesmo que capacitadas a decodificar minimamente as letras (léxicos), frases, sentenças, textos curtos e os números), desenvolver a habilidade de interpretação de textos simples e resolução de operações matemáticas elementares.

Já, na outra (pequena) ponta de 8% (ou 8 milhões de brasileiros), espera-se que o indivíduo consiga compreender e elaborar textos de diferentes tipos, como um e-mail, um verbete da Wikipedia, ou um editorial de jornal ou artigos de opinião (como este), além de conseguir opinar sobre o posicionamento ou estilo do autor de um dado texto.
Essa pessoa também deve interpretar tabelas e gráficos e compreender, por exemplo, que tendências se aponta ou que projeções podem ser feitas a partir destes.
Outra competência é a de resolução de situações (de diferentes tipos) sendo capaz de planejar, controlar e elaborar.

Para saber mais: No Brasil, apenas 8% têm plenas condições de compreender e se expressar

Para encerrar (este artigo)…

Vamos supor um cenário apocalíptico, mas sem zumbis (aaaahhhhhh…. :-/ ), onde o mundo decida “fechar as portas” para o Brasil de vez (e não é 100% ridículo de se pensar nisso com Trump nos EUA, Putin na Rússia, o BrExit inglês e, quem sabe, logo-logo, Le Pen na França)…

Quanto tempo até os Smartphones que nós TANTO amamos no Brasil, pararem de estar na prateleira?

Bem antes disso ocorrer, e supondo um fechamento total e em larga escala, o que acontece com todos seus aplicativos (WhatsApp, Instagram, Facebook), “rodando” fora da sua terra natal, quando seu atual aparelho não conseguir mais trafegar livremente pela rede, e usar o servidor de dados que fica em outro local?

Os satélites de comunicação que permitem celulares e TV’s em regiões distantes do nosso próprio território, ou ajudam a vigiar o espaço aéreo… Sabe quantos são nossos? E quantos têm alguma tecnologia nossa em sua fabricação???

E remédios? Quantos remédios avançados para combate ao Câncer, coquetéis contra AIDS, vacinação de recém-nascidos, antibióticos de quinta geração (a mais recente)… De tudo isso que mantém seu povo vivo e bem, quanto você acha que nós dominamos de seus meios de produção, e capacidade de produção em escala (produzir um frasco é uma coisa. Produzir mil não tem nada a ver com produzir um…)?

Você NÃO pode contar com as máquinas e fábricas das empresas que estão aqui… Nesse cenário, a Toyota leva embora seus braços robóticos e plantas do seu amado Corolla, a Bayer leva embora seus equipamentos de produção farmacêutica, e você precisa torcer para que alguém do seu país saiba como o ácido acetil-salicílico (a tosca Aspirina) é condensado em um comprimido.
O mesmo para a Prednisona, a Epinefrina, e todos os compostos que controlam diabetes, pressão alta, quadros de miopatias agudas ou crônicas…

Todas as outras multinacionais seguem o mesmo exemplo…

Enfim, em um mundo em que você (e seu povo) é altamente dependente, cada vez mais e mais de tecnologia de ponta; e seu povo e país não poderiam se importar menos com o como ela é adquirida, desenvolvida, e feita (em pequena e larga escala, volto a dizer – já que mesmo que alguém entenda o processo, nem sempre é fácil pegar o conhecimento de um livro na biblioteca ou de um cientista de laboratório, e produzir milhares e milhões daquilo que eles sabem, em um curto espaço de tempo); você está em uma Sociedade Decadente… Incapaz de produzir o que ela se gaba de ter…

Em resumo, o Brasil vem “dando certo” (expectativa de vida aumentando, produtos de ponta [embora custem uma fortuna]), simplesmente porque aceitamos pagar o preço que os “novos Indianos” impõem, sem maiores objeções.
Eles vêm aqui e vendem os “Aços-carbono” do século 21 pelo preço que quiserem, e nós pagamos.
Porque, se não pagarmos, vamos voltar a precisar de telefonistas trocando cabos, e um texto desse não vai ser possível, a não ser que uma rádio (essa tecnologia [eletrônica analógica da primeira guerra], acho que a gente domina suficientemente bem) decida narrá-lo, por 8 minutos.

E… Se algum dia, por qualquer motivo, esse pessoal decidir fechar as portas, não importa o quanto queiramos pagar… Ai de nós…

Há solução para a nossa decadência?

Trato disso em um próximo texto.

Vou falar da farsa de nosso orgulho com Embraer e Petrobras, como símbolos de exceção dessa decadência, e de que para a educação nacional dar tão errado, isso não pode ser mero acaso. Há um plano, e todos (eles e nós) estão jogando perfeitamente para que tudo continue igual ou pior.

Até o próximo post.

“Brasileiro é muito baba-ovo! Dá audiência até para eleição nos EUA!”: Diz o insensato…

Porquê você deveria estar muito preocupado, (e horrorizado com a chance enorme de Trump na Casa Branca) com a eleição presidencial estado-unidense…

A foto é intencionalmente maldosa: Não posso enganar você. Vejo Trump e vejo tragédia. Bush filho parece até inofensivo perto do que Trump prenuncia no meu horizonte de previsibilidades e expectativas para a política internacional dos próximos 4 anos, no mínimo.

São 2h14 da madrugada em Brasília, onde estou enquanto escrevo. Parece um tanto quanto cabalístico e levemente conveniente que eu esteja na Washington D.C. brasileira (ok, foi só uma piada. Não tenha um ataque ufanista contra mim, logo agora) enquanto isso tudo me ocorre.

Enquanto escrevo, vejo este mapa de apuração da corrida Presidencial Americana:

http://www.nytimes.com/
Mapa em tempo real, fornecido pelo New York Times, em seu site: http://www.nytimes.com/

O mapa preocupa e muito. O The New York Times, como qualquer outro veículo de comunicação, não é livre de opinião ou de viés. E mesmo sendo claramente a favor dos Democratas, o mapa que eles montam é terrível em sua cor vermelha (aqui, representante de Trump). Especialmente em estados como Winsconsin ou Michigan, onde os Democratas contavam com o apoio, o “rodo” foi enorme.

Um resumo para entender como funciona – o que, honestamente, eu também não entendo plenamente – a eleição americana é que cada estado tem um peso de votos… A soma de todos os votos disponíveis em cada estado é de 538. Ou seja, o primeiro candidato a obter 270 votos ganha, por ter metade, mais um, dos votos. Esse número, 538, não é igualitariamente disponível. O Texas, por exemplo, rende 38 votos, enquanto a Flórida rende 29. Utah, no entanto, só rende 6 votos para quem conseguir 50% +1 dos votos daquele estado. A mesma mecânica para os demais. tem estado que dá todos os votos para quem tem a maioria; alguns poucos racham o número de votos do estado proporcionalmente ao resultado das urnas… São 50 legislações eleitorais, e não uma unificada. Considero o caos.

Agora, porquê a eleição dos EUA importa para o brasileiro?

Bem (e em uma linha), porque seu país – o Brasil – quebrou, e depende muito de um mercado internacional estável, com um cambio – igualmente – estável, para voltar a crescer e controlar a inflação…

O problema nem é, de fato, as famigeradas commodities (matéria-prima). Se analisarmos o PIB brasileiro, as commodities respondem por menos de 10% do valor atingindo.

É claro que é ridículo que o país venda lingote de ferro para comprar, 3 vezes mais caro, uma chapa de aço usinada de forma não-usual (aço-carbono de alta qualidade, etc.). Claro que é ridícula a nossa incapacidade de ter uma cadeia de beneficiamento que venda o produto final, agregando valor real, para manter as cifras realmente relevantes aqui. Mas, não é isso, especialmente agora, que importa nessa avaliação do porquê se preocupar.

O que realmente importa é que o Brasil ainda não saiu da recessão. Ter um cenário econômico com acordos bilaterais (o que Dilma nunca fez, enquanto tínhamos Obama à frente da White house) e um câmbio entre o Real e o Dólar estável é a base para sair da recessão atual. É o jeito de recuperar empregos aqui e estabilizar o crescimento econômico na vida de todos nós.

Trump e a preocupante incógnita: O que é o personagem, e o que é a loucura…

Trump dá medo. Esse é o meu resumo do que representa a visão de um homem que vai assumir a maior potência financeira e bélica do mundo, e que, se é um personagem, é daqueles terríveis vilões de novela, pelos quais você não faz menos do que torcer pela hora da morte dele. Se é um personagem, é um de mal gosto. Ensina, ratifica e consolida que “vale tudo” para ganhar.

Esqueça dos muros entre Texas e México. Esqueça até do ódio às mulheres (misoginia que Hillary sentiu na pele, algumas vezes) e outras populações vulneráveis, como Gays e Negros. Vulneráveis sim, mas não necessariamente, minorias, já que em números, e só a título de exemplo, podem ser a maior parte da população (no caso de mulheres (51.6%) vs. homens (48.4%), em se falando de Brasil, e quase idêntica porcentagem para os EUA).

Trump prometeu agradar uma população que, analisada a grosso modo, parece ser de maioria retrógrada em suas declarações, convivência e tolerância; ultra-conservadora, sem grau de educação formal e – em boa medida – desempregada. Um vídeo com os apoiadores de Trump mostra o grau de insanidade dos seus mais fervorosos eleitores. Gente que acha que Obama é um terrorista de origem mulçumana, até hoje –  e só pra citar um caso.
Mas, não há burrice maior de nossa parte do que simplificar e diminuir o eleitorado dele. O preço dessa inferiorização artificial, estamos vendo agora com Hillary virtualmente derrotada, e todos os especialistas boquiabertos, sem saber como explicar o que houve.

E Trump prometeu uma nacionalização improvável mas, perigosa. Prometeu um protecionismo econômico na maior potência econômica do mundo, que move as fábricas da China, que compra materiais do Brasil, que importa mão-de-obra e viabiliza progressos científicos.
Tudo isso pode vir a ruir nas mãos de um bilionário controverso em sua maneira de fazer dinheiro, com possíveis rombos em seu patrimônio por má gestão, e com acusações de fraudes às leis tributárias.
Um homem do Real State, num mundo onde o verdadeiro valor está nas ideias e na informação, e não mais no ativo e no patrimônio fungível… Terá Trump as qualidades para lidar com a economia da super-potência, em um mundo que, teoricamente, ele não entende?

E esse homem passa a ter uma super-potência bélica em suas mãos, diante de um cenário internacional extremamente delicado no Leste Europeu, de Ucrânia e Rússia. De um Oriente Médio caótico, com Síria e ISIS, e de uma histórica e crônica Coréia do Norte apoiada pelo monstro chinês, mesmo diante de suas sandices.
E é esse homem, das declarações mais irracionais e de uma instabilidade emocional GRITANTE (em caps lock, gritando, como ele gosta de se pronunciar) que vai mandar no país com mais armas de destruição em massa e força bélica do mundo.

O que nós – e todo o resto do mundo – não entendemos sobre os Estados Unidos de Eleições Presidências em 2016?

Bom, se serve de consolo (enquanto Trump vai garantindo, mesmo, o acesso a 4 anos de poder sem igual, pela atualização do mapa que vou vendo aqui), não é realmente que só nós não entendemos.

A realidade grosseira e assustadora é que ninguém “com cérebro” entendeu.

Sem preconceitos! Não estou insinuando que só gente burra vota ou entende Trump. Já disse que essa declaração, sim, é a verdadeira burrice.

Mas, vendo os colunistas do Washington Post e do próprio The New York Times, a incredulidade e a incompreensão dessa “virada de mesa” – que agora, fica claro, nunca existiu de fato: Trump sempre esteve à frente – entre a boca de urna, e a performance acachapante do candidato dos Republicanos é geral e espanta até mesmo os intelectuais da ala conservadora. Nem eles esperavam ganhar tantas posições no Congresso, no Senado e, menos ainda, a Presidência, depois de tudo que Trump disse e fez ao longo da corrida presidencial.

A verdade é que não se sabe o que (ou como) a Sociologia e a Ciência Política vão poder explicar do eleitorado de Trump. Dizer que são todos rednecks, caipiras, burros, brancos racistas e ignorantes é o mesmíssimo e cretino posicionamento que o mundo tomou ao avaliar Hitler e sua Alemanha Nazista, de apoio cego às suas ideologias e planos. E, de maneira menos radical, é o mesmo pensamento que sustentam os que condenam a ascensão de religiosos na política brasileira, ou chamam de ladrões e petralhas todos os que acreditam nos valores do Partido dos Trabalhadores (e não necessariamente nas pessoas daquele partido). Em resumo: É grosseiro e pouco respeitável rebaixar o pensamento de uma quantidade tão grande de pessoas. O que eu quero ressaltar aqui é que o erro é nosso (de quem não apoiava a ideologia “Trump”), por não entendermos o porquê desse resultado.

Parece-me claro, agora, que existe algo profundamente errado no prisma como as capitais (que reúnem o dinheiro, o conhecimento, a formação e a geração de informação e opinião) estão enxergando o resto do mundo. Isso vale para o susto dos londrinos com o BrExit da Inglaterra. Vale para nosso susto com Crivella no Rio, e com o conservadorismo de ressurgimento potente no Brasil.
Vale para o eleitorado dos EUA que vai fazendo história – pelo que estamos projetando (e talvez, de forma igualmente errada), terrível – e que “cala a boca” de todos os críticos e intelectuais das áreas que se propõem a estudar a Política e as sociedades; neste caso, especialmente a estado-unidense.
O erro de avaliação é grosseiro e ninguém entendeu a realidade. Explicaram e nós mesmos explicamos, por meses, tudo errado. Acreditamos em tudo que não se realizou.

E Trump (tudo indica) ganhou.

Quando você (ou qualquer um) simplifica as coisas e diz que Trump ganhou porque todo mundo que votou nele é burro e preconceituoso, você diminui a importância dessa ocorrência, e isso te coloca em uma posição de “baixa guarda”. Desse mesmo lugar (grupo de pessoas) que você preferiu ridicularizar e simplificar, coisas muito piores podem vir, enquanto você diminui a importância disto.

Mas, afinal, o Conservadorismo é algo ruim?

Resposta direta: Não.

Mas o ultra-conservadorismo é.

O Conservador não é um monstro. Esqueça a bobagem que seu amigo fanboy de Esquerda diz.

Conservador é o cara que, tendo filhos e mulher em casa, espera que seu emprego se conserve.
É o sujeito que, diante dos planos de vida, espera que o dinheiro que suou para ganhar por décadas continue a valer o mesmo daqui outras tantas décadas.

Pasme – claro, se você se definir como “Esquerda” (seja lá o que isso significa pra você) – mas, quando o Sindicato dos Trabalhadores “quebra tudo” para evitar que haja qualquer flexibilização (boa ou má) de alguma lei trabalhista (suponhamos:  de desligamento simplificado de funcionários), ele está sendo muito conservador, às vezes, ao custo da geração de mais empregos no país, o que deveria interessar aos desempregados que o Sindicato diz se preocupar e representar.

Não há nada de errado em ser conservador, contanto que a racionalidade não se esvaia, e você não fique tão apegado à sua ideia de “real” que perverta o prisma de como vê as coisas ruins que precisam mudar, pelo bem de toda a sociedade.

O risco de Trump nem é tanto pelo Conservadorismo, porque, sinceramente, se você perguntar à instituições genuinamente conservadoras, propagadoras do pensamento Conservador; Trump quase não tem identidade político-filosófica com os pilares do Conservadorismo tradicional.

Trump é muito mais um risco porque cria a ideia de que a culpa dos problemas de uma grande parte da nação estado-unidense está no outro.
Sendo “o outro”, geralmente, o estrangeiro, a mulher, o negro, o gay, o país estrangeiro que produz o bem de consumo que se vende por lá, e enfim… “O inferno são os outros” é o lema central pelo qual Trump enxerga (ou diz enxergar) o mundo.
E isso pode justificar barbaridades em todos os níveis, para um Comandante-em-chefe que se sentirá invencível e, como eu disse: Talvez, nos cause saudades da época em que os EUA “só queriam matar uns barbudos no Oriente” e “lançar uns mísseis” aqui e acolá.

Pelo bem do Brasil (e do mundo), desejo que ocorra o menos pior na eleição dos EUA e nos fatos que dela se desdobrarão. Se Trump vencer, a torcida até seu primeiro dia de trabalho é para que ele seja apenas “um fanfarrão” que não mediu esforços para vencer, mas, não vai realizar as maluquices que propôs.
Se estivermos errados e Trump for 30% do que diz ser, o mundo vai amargar muito porque, goste você ou não, muita coisa, incluindo o preço do trigo que faz o pão que você acaba de comer (na hora em que esse artigo for publicado), depende das políticas e acordos que passarão pelas mãos desse homem e daquela nação.

Torcer pelo “melhor” já é, tecnicamente, impossível. Resta torcer para que seja o menos pior para todo o mundo. Afinal, moramos todos dentro de um mesmo planeta, e dele não vamos prescindir tão cedo. E os EUA têm um forte efeito na balança do destino deste lugar.

Tweet "da Alemanha" aos EUA, avisando dos perigos de Trump.
O Tweet que fervilhou no último dia da corrida presidencial dos EUA parece não ter surtido efeito algum. O texto faz referência aos gritos com que Trump faz seus discursos, e suas declarações de ódio a vários grupos vulneráveis. E termina dizendo que a Alemanha já esteve nessa posição e fez essa escolha, em clara alusão à ascensão de Hitler.

O dia em que “saí” do Facebook

Os motivos que me tiraram do Facebook, e me levaram a fazer o “Sobre Tudo e Todos”…

3 décadas, 30 anos, 10.950 dias, 262.860 horas… O último grande texto (o maior); E os próximos passos…

Para dar um pouco de contexto a quem não me conheceu pelo Facebook: Em 31 de maio de 2016, anunciei aos amigos e seguidores que deixaria de utilizar a rede social. Os motivos estão todos neste post (que é, também, o motivo inicial para eu ter criado este Blog).

Mini-game! Um universitário mediano dos EUA leria esse texto em 8 minutos. Marque quantos minutos você leva e descubra se seu hábito de ler está enferrujado ou não.

Aviso: Esse é um texto reflexivo, trata de como me sinto sobre alguns aspectos da convivência com a sociedade digital contemporânea e, sinceramente, eu entendo que ele pode não ser do interesse da maioria da minha rede de contatos.
Sinto por isso e por poluir a rede social com mais essa “potencial” inutilidade, mas, também, é uma espécie de despedida que merece alguma explicação, ainda mais em consideração aos 36 leitores (no Facebook) regulares que tenho e por quem sou profundamente grato por me honrarem com a atenção.

“Pobre Rei Lear; tornou-se velho antes de torna-se sábio…”, diz o bobo da corte ao rei traído e renegado por todos.
É o resumo do ato I, cena IV, da peça “King Lear” de Shakespeare.

Desde que fui apresentado à essa peça pelo excelentíssimo professor Leandro Karnal, percebi como esse pensamento passou a perseguir minha paz: o risco de estar ficando velho sem me tornar sábio parece-me o maior risco que corro neste momento.
E isso me entristece e tem impacto sobre minha ansiedade com alguns tópicos. Não que o medo de morrer para uma “bala encontrada” por minha cabeça ou em uma colisão veicular com um embriagado ao volante não seja bem mais factível e sensato de se ter no país em que vivo (a violência com armas de fogo fez mais de 61 mil mortos, e colisões automotivas mataram mais de 37 mil pessoas, tudo isso em 2016)…

A escolha pelo estudo e, em especial, o gosto pelas áreas de Política, Sociologia, e Direito sempre foi – eu acho – uma escolha ligada às chances: os livros sempre estiveram ao alcance de quem estivesse disposto a lê-los e a verdade é que a maioria do meu povo não está. Em 2014, 71% dos brasileiros não leram um único livro e somente um em cada três formados no nível médio de ensino têm alfabetização suficiente para ler [entender] um livro qualquer. E eu senti nisso a oportunidade de não ser mais um na multidão já que eu tenho o que boa maioria não tem (a vontade de ler e aprender).
Esse era meu plano para saltar da mediocridade para um lugar de destaque. “Vaidade” é um termo que explica parte deste comportamento, mas, por outro lado, peço que me aponte o ser humano minimamente são e que faz questão de ser idêntico aos outros 7 bilhões de sua espécie, ao ponto de escolher não fazer falta na face da Terra.

Bem, como isso tudo me leva ao desconforto tal qual sentiu o Rei ao ser confrontado pelo bobo de “King Lear”?
Eu acho que venho emburrecendo. E eu tenho certeza – pela data de nascimento que consta no meu RG – que “novo” não é mais o preciso sinônimo para minha situação…
Então, eu começo, lentamente, a caber na sentença “tornou-se velho, antes de tornar-se sábio”.

A sabedoria é um dos principais atributos de beleza de um candidato a ancião. Não há nada mais chato do que falar com uma pessoa idosa que não tem nenhuma sabedoria. E não, não acho que só os livros e diplomas atendem ao requisito anterior. Na verdade, eles só provam que você abordou – ou tentou – algo de maneira sistemática e científica.
Aqui, falo da sabedoria de maneira holística: A sabedoria empírica, a pragmática, a experimental, a teorética…

Sabedoria: Acúmulo de conhecimentos; ciência. Justo conhecimento das verdades.

Ser um velho inepto é tudo o que eu mais temo. E não se engane: assim como os canalhas, os burros também envelhecem… Velhice nunca foi sinônimo nem de bondade, nem de sabedoria.


O que você ganhou participando da minha neurose eu realmente não sei, mas, já que você chegou até esse ponto, vou descer um pouco mais nessa psicose e tentar chamar sua atenção para alguns movimentos e fatos que podem lhe interessar; vai ser minha contraparte por sua paciência.

Bem, eu acho, também, que estamos TODOS ficando mais burros (desculpem-me: é só o que acho) e acho, adicionalmente e não sem alguma análise, que a culpa disso está, em parte, nas redes sociais como o Facebook e nos modelos de vivência e convivência que tais redes ensejam, quando não impõem.
Motivo pelo qual pretendo, a partir da próxima semana, abandonar o uso dessa rede (o Facebook).
Vou me explicar, prometo. Não está havendo um “facebookcídio”; o objetivo final não é obter um tapinha nas costas, nem um pitoresco “fica, brother” coletivo. Seria bom ao ego, confesso, mas não é isso. Vou me explicar; aguente aí.

Quero compartilhar como conclui que não só o Facebook não me ajuda a me tornar mais sábio (nada de novo) como, também, ele tem colaborado para que eu fique mais burro (um risco que, talvez, você não tenha percebido ainda).

Mas, primeiro, alguém arrisca qual é a missão do Facebook como empresa? Eu compartilho:

“Fundado em 2004, a missão do Facebook é dar às pessoas o poder de compartilhar e tornar o mundo mais aberto e conectado. As pessoas usam o Facebook para ficar conectadas com amigos e familiares, para descobrir o que está acontecendo no mundo, e para compartilhar e expressar o que importa para elas. ”.

Oras! Tem algo MUITO errado com a execução dessa missão, seu Mark! (Obviamente, a culpa não é mais dele do que é de quem utiliza e constrói as regras deste espaço social [se estiver em dúvida: nós]).

O primeiro artigo que convido à leitura é este aqui: Facebook Manipulated User News Feeds To Create Emotional Responses
Para quem não tiver a paciência, ou mesmo para os que não gostam da língua inglesa, a matéria denuncia que o Facebook controla – ou já controlou – sem contar a ninguém, o seu feed de novos posts para obter resultados psicológicos, emocionais, de você (na verdade, dos estadounidenses mas, se fizeram com eles sem avisar… Penso no que fazem conosco…).
O estudo conduzido por “cientistas” (faltou alguma ética para ser mais “científico” né…) da empresa verificava como as pessoas reagiam ao serem expostas a posts e reações com maior tendência negativa ou positiva em relação a elas e suas opiniões iniciais. Burrhus Skinner e seus ratinhos morreriam de inveja.

Pior do que isso: Outra matéria que li em revista impressa demonstrou que o Facebook “aprende” o tipo de post e fonte de conteúdo que lhe interessa e, a partir disso, passa a lhe expor somente ao que você mais gosta, criando uma “falsa bolha”, tanto de “felicidade” como de “pertencimento” onde você, meu nobre leitor, é o experimento.
Trocando em miúdos, se você só curte páginas “de Esquerda” chances são que o Facebook exponha mais conteúdo relacionado a isto do que “à Direita” política (e vice-versa), fazendo com que você “seja feliz” pois “o mundo concorda com você”. É o que seu feed lhe indica, não?

Outro estudo (Social Media Sparked, Accelerated Egypt’s Revolutionary Fire) relata como o Facebook e Twitter foram fundamentais na primavera árabe. Quebrar as correntes de ditadores, eu acho ótimo. Parece-me um uso nobre do espaço de convívio social virtual. Mas, outra matéria revela que o Pentágono norte-americano tem gastado alguns milhares de dólares para manipular redes sociais com “bots” e perfis falsos, para conseguir apoio popular às metas das forças armadas daquele país (Revealed: US spy operation that manipulates social media).
Em resumo, com a manipulação “certa”, o Facebook pode ser usado para construir e destruir conceitos, pessoas e governos.

Como qualquer jornalista poderá explicar e demonstrar a consequência: A neutralidade da rede é zero. Como – não posso negar – também costuma tender a zero para qualquer veículo de comunicação, impresso, radio-difuso ou televisivo; é verdade.

O problema, para mim, está na legitimidade: Por motivos que, talvez, um sociólogo possa teorizar, as redes sociais ganharam status de verdade incontestável. Talvez por sua pluralidade, talvez por não ser um veículo com uma fonte de mão única de transmissão; as pessoas têm uma tendência a tomar como fato, com muita facilidade, o que as redes sociais ecoam.
E como a Wikipedia (com a qual contribuo inclusive com doações financeiras, por acreditar no valor da utopia do “conhecimento para todos, de graça”), as redes sociais podem ser fascinantes na transmissão de informação legitima, ou uma fossa sanitária de ideias enviesadas e ideologias mascaradas. Falando de Brasil (eu vivo aqui, e é dessa parte do mundo que eu “não-sei” menos), a segunda hipótese tem sido bem mais verdadeira do que o primeira, para meu total pesar.


Quando ingressei no Facebook em 2009~2010, a maioria dos meus amigos e colegas permanecia no Orkut. Ingressei por questões profissionais (todos os colegas de companhia estavam lá, afinal, o Orkut era do Google 🙂 ).
Na época – outra vantagem de ter 30 anos: poder usar expressões como “na minha época” – o Facebook era majoritariamente feito por recursos de texto. Imagens, só no álbum pessoal e nada no mural (não sei se a função não existia ou se as pessoas não tinham o hábito).

Quando eu vejo as pessoas “de saco cheio dos textões” acho até engraçado porque, originalmente, era disso que o Facebook se tratava: Textos. Pessoas troncando idéias sobre tudo e todos. Qual bom livro não é um “textão”? Embora, um textão não seja – por si só – garantia de qualidade, a boa ideia, respeitosa e bem-intencionada, deve ser bem explicada e enseja o cuidado que leva – ok: “quase sempre” se faz necessário aqui – ao longo texto. Não: não estou supondo – nem me ocorreu isso – que um texto longo é necessariamente bom. Só disse que todo bom texto costuma ser longo.

Claro que acho graça nos gif’s animados; claro que gosto dos vídeos engraçados e absurdos. Vivo compartilhando eles todos. Não é que o Face seria melhor se “elitizado” fosse… Não precisa ser o “cafofo de Homero” onde todo dia discorremos uma Ilíada.

Mas eu realmente acho que o Facebook foi para a “outra ponta da corda” entre o enfadonho (ou pomposo) e o fútil. E eu odeio futilidade como tônica da existência; pelo menos, da minha existência.

Usar uma rede social para socializar (procurem no dicionário: “Socializar” não se resume a fazer pose em fotos, nem ficar de porre em festas… Vão se surpreender…) é a última coisa que as pessoas querem por aqui, e isso remove de mim o propósito de “socializar” no Face.
A socialização só é bem-vinda se for rasa, oca, simulada. E, desculpem os amigos que gostam disto, mas eu odeio conversas rasas como parte integral do meu dia a dia.

O filósofo Orterga y Gasset, em seu livro “A rebelião das Massas”, advertia lá em 1929:

“Por toda a parte surgiu o homem-massa(…), um tipo de homem feito à pressa, montado apenas sobre umas quantas abstrações e que, por isso mesmo, é idêntico de uma ponta à outra (…) A ele, se deve o triste aspecto de monotonia asfixiante que a vida vai tomando(…) Este homem-massa é o homem previamente esvaziado de sua própria história, sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil a todas as disciplinas(…)”

Neste alerta, Ortega y Gasset demonstra que a sociedade ocidental vem premiando a mediocridade e reconhecendo nela o verdadeiro antro de formação da verdade. E mais do que isso: a vontade, o desejo de se destacar por uma sólida base racional, lógica e/ou bibliográfica, são combatidos como conduta reprovável, sendo uma espécie de “nova classe burguesa” a ser enfrentada e rechaçada:
A classe dos que leem e estudam antes de abrir a boca.
Uma espécie de “nova oligarquia nefasta” que comete “o crime” de desqualificar alguém que não sabe sobre o que está falando, por meio de argumentação embasada…
(Preciso acrescentar algo que é óbvio pra mim, mas pode não ser para quem lê: EU NÃO FAÇO PARTE desse grupo atacado. Tenho total noção da minha mediocridade acadêmica e intelectual. Estou estudando para fazer mais que isso um dia, mas não o faço agora… O que estou tratando aqui é sobre o desrespeito à opinião de gente que dedicou a vida inteira ao estudo e que é ridicularizada pelo Zé da Esquina em um post ou thread).

Nem mesmo os espaços digitais destinados ao debate funcionam mais para isso. São, antes, lugares de pregação e massificação de ideologia. Qualquer tentativa de questionar, com qualidade, o que ali se advoga é repreendida com o bloqueio de quem discordou. “Você pode ter opinião, contanto que seja igual a nossa” deveria ser o slogan das páginas “pensadoras” do Facebook.

Aí, vem outro problema do mundo contemporâneo: opinião. Todo mundo tem uma opinião. TODO MUNDO TEM QUE TER UMA. Não ter é outro “crime” dos nossos tempos. E disto surgem opiniões quase sempre prontas, inquestionáveis e irrefutáveis (assim pensa seu dono). Formadas, muitas vezes, em cima de desinformação, fontes não verificadas, boatos, preconceitos e nenhuma leitura de autores com alguma autoridade de pesquisa sobre o assunto (“autoridade” que não é mero título, mas, consequência de anos – em geral, décadas – de estudo de um único tema, senão de um sub-aspecto desse tema maior).

Exemplos parecem ensinar mais do que teses, então… Aqui vai um:
Eu debatia com um amigo que dizia que movimentos sociais sempre lutam por progresso social. Eu discorri que os movimentos trabalhistas na França e o movimento estudantil de Mato Grosso estão em uma luta CONSERVADORA, tentando manter um status quo que não necessariamente vai de encontro aos interesses das sociedades em questão, como um todo.
Logo, esses NÃO são movimentos progressistas por “osmose” (ou, o tempo todo)… Em resumo, esse foi um debate com alguém que tem opinião pronta. Até aí, tudo bem, já que eu também tinha uma: Mas quando expus novos fatos (ou pontos de vista), nada mudou para ele; e aí está o problema. Não houve evolução (não estou pedindo por conversão ao meu olhar, esclareço) do tema e dos envolvidos, algo esperado em um debate. Ele entende que quando alguém grita “companheiro” esse alguém não pode ser outra coisa senão um progressista. Fim de papo.

Umberto Eco, filósofo italiano, criou polêmica em recente declaração em 2011, em que disse:

“Embora tenha trazido muitas vantagens, a Internet também democratizou a imbecilidade” e “promoveu o idiota da aldeia, a porta-voz da verdade”.
[…] “Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas, agora, eles têm o mesmo direito à palavra que tem um Prêmio Nobel”.

Umberto gerou revolta; as pessoas o acusaram de retrógrado, antidemocrático, reacionário, arrogante…
Eu deveria ser um dos primeiros a ficar revoltado com Umberto, já que quem assina meus textos sou eu mesmo. Não há um curador/historiador, um editor; ninguém revendo minhas fontes e validando que não estou distorcendo a verdade. Eu tenho um compromisso de validar o que escrevo, mas, isso não anula o que Umberto enunciou. O idiota pode mesmo ser alçado ao grau de arauto da verdade.

Mas, eu não vi como um ataque. Para mim, ele não criticou o direito ao debate. Ele questionou o fato de que alguém que não leu um livro de história inteiro sinta-se pronto a dizer sobre “as benesses da ditadura” ou “como o Socialismo/Comunismo é melhor que o Capitalismo” e por aí vai. Ele questiona, na verdade, essa capacidade triste que a Internet revela de potencializar gente pronta a questionar, formar juízo de valor e criar proposições sem nenhum estudo do que já foi proposto quanto ao tema – de preferência, a favor e contra, pois opinião não costuma ser legitima se nega a chance do contraditório.

Como Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, postulou sobre o “mundo líquido” em que vivemos:

“(…)os tempos são tais que o fim das utopias representa a perda do caráter reflexivo em relação a sociedade e, por consequência, a perda da noção de progresso como um bem que deve ser partilhado. (…) Uma corrente de incerteza e insegurança guia o sujeito pós-moderno, que não tem mais referencial nenhum para construir sua vida, a não ser ele mesmo.”.

Para quem não entendeu o cerne da teoria de Bauman, aí vai o exemplo:

Um garoto de 20 anos sente-se pronto para questionar todo um conceito e invalidar Immanuel Kant e sua filosofia moral do Imperativo Categórico, após ler um resumo da Wikipédia; as décadas de Kant dedicadas ao estudo das classificações aristotélicas e o fato de ele ser “pai” da linhagem moderna de pensadores alemães do quilate de Hegel e Schopenhauer (para citar dois) são solenemente renegadas e desqualificadas por um garoto que só leu o resumo da obra enquanto se inteirava da tabela do Brasileirão 2016; os valores pessoais desse garoto, em plena formação, são muito mais válidos do que os valores construídos por centenas de anos (juntando Aristóteles e Kant) em iteração, revisão, contestação, conceito, prova e crítica.

Esse garoto pode vir a ser o próximo Kant? Pode. Sem estudar filosofia (e Kant) a fundo? Nunca.
Talvez esse garoto, em específico, seja assustadoramente genial, construa conceitos muito mais profundos que Kant sem jamais estudar e faça eu me calar mais tarde; mas, as chances de todos nós sermos essa “peça rara” são as mesmas de eu ser um alienígena.
Não: Não me sinto fazendo “uma defesa da aristocracia intelectual” ao esperar que a opinião de alguém sobre algo que não se resume a gosto (exemplo de gosto: odeio queijo, não importa o que os suíços mais importantes pensem disso), seja embasada no que já se estudou, contra e a favor do ponto defendido para que, depois, haja formulação de nova postulação (exemplo de teoria sobre um sistema de governo existente e já teorizado: Democracia não deve ser um sistema de governo que atende só à maioria; não importa sua opinião pessoal sobre isso).

Isso, na verdade, é pedir por honestidade intelectual. “Honestidade”, aliás, uma palavra que vem se tornando antiquada também.


E eu entendo uma parte disso: o Facebook é feito de personagens. As pessoas aqui não são as pessoas do mundo real. Seus posts, suas falas, suas frases de efeito… Tudo aqui costuma ser encenado e – mesmo que elas não se deem conta – em certo grau, premeditado.

Somos todos personagens. Eu sou um personagem. O Rodrigo da rede social não é o Rodrigo do dia a dia; impossível ser.
Além disso, a rede tem baixa – ou nenhuma – aceitação por pessoas que expõem outra face de seus sentimentos, além da positiva. Por este motivo Karnal diz que “Shakespeare é anti-Facebook”: Seus personagens têm “profundidade demais” e riem e choram publicamente, o que os tornaria detestáveis nessa rede.

E aqui vem outra crítica: o Facebook não serve para discutir – já constatei e provei – mas, tampouco serve para eu conhecer as pessoas, fazer e manter amizades e conviver mais com os que eu quero bem.
Como todos estão ocupados encenando felicidade e ostentando suas conquistas, eu estou fazendo um trabalho porco como amigo ao dar likes e usar frases como “aí sim!” quando o cara tira uma foto na piscina com uma cerveja, sem que eu saiba que em seu dia a dia, ele está às vésperas de se divorciar e perder o emprego ou atravessando uma grande depressão emocional, sozinho.
Um amigo “à moda antiga” saberia, porque na confidencialidade de uma conversa particular que não será julgada por centenas, senão milhares, ele pode ser o ser humano que ele precisa ser para desabafar, para dizer que “não, não está tudo bem” e daí por diante…

A vida que se compartilha no Facebook é a vida simulada e dissimulada. O Facebook, sem querer, ou querendo, traiu sua própria missão empresarial. E não é diferente nas outras redes. Na verdade, em redes como o Instagram isso fica ainda pior.

As pessoas que são contra o abandono da rede dizem “você vai perder o contato com seus amigos!”.
A verdade é que eu já perdi. O Facebook não me fez ver mais as pessoas. Pelo contrário. Agora, vejo fotos delas; facetas delas; só parte delas. Uma espécie de “melhores momentos”, eternamente. Mas, essa não é a vida real.
Não vejo, nem convivo, com as pessoas “de verdade”. Ouso dizer que o falso sentimento de que elas estão ali, todo o dia, “ao alcance do click”, me fez mais preguiçoso e descuidado no trato e no carinho com essas relações.
Substituímos o insubstituível contato humano e pessoal por um like virtual, aqui e ali.
Ok! O descuido pode ser só meu, admito essa hipótese. Mas, sinceramente, eu duvido que sou caso isolado.

Não é meu interesse encerrar a conta do Facebook. Isso poderia significar um pouco como “ei, olhem pra mim! estou indo embora!”.
Essa realmente não é a intenção disso tudo, como tentei demonstrar.
Só vou remover os aplicativos de acesso e “esquecer” a senha. O Messenger do FB – para quem precisar falar comigo – segue funcionando. 🙂

Outra pergunta que devem me fazer: Vou continuar escrevendo em outro lugar? Improvável. Mas, se eu mudar de ideia, farei com que saibam. 🙂
(PS: Agora vocês já sabem que sim, pois, estão lendo isso no meu Blog.) 🙂


E, de onde tirei que o Facebook era relevante para a problemática que discorro? Para ter uma ideia do quão significante era meu investimento de tempo na rede, eu instalei um programa no meu celular (“QualityTime” para quem se interessar) para medir quanto tempo passo por aqui. Em geral, uso o Facebook para debater e escrever sobre o que me interessa. Nos últimos 3 meses, eu superei 60 horas de uso do Facebook, fora algum momento em que usei o PC como método de acesso. Então, coloquemos 80 horas (um terço a mais).

Bem, um aluno universitário mediano deveria ler, em média, 450 palavras por minuto (Do You Read Fast Enough To Be Successful?). Usando uma fonte Arial, 12, com espaço simples, isso dá (também em média) uma página por minuto.

Isto me leva a concluir que eu poderia ter lido umas 4.800 páginas de teorias importantes, sobre os temas que mais gosto como Direito, Filosofia, Economia, Política, mas fiquei aqui, debatendo com meia dúzia de bons argumentadores (obrigado a todos vocês, de verdade – são fundamentais na minha evolução e o motivo de eu continuar pesquisando, aprendendo e escrevendo) e um bocado de gente que já me acusou de pedante, de inventar textos para ser bajulado, de gente que escreve “não concordo” mas não consegue ou não tem como defender o ponto que quer sustentar, e de gente que não perde tempo “com textão”… Eu não conheço nenhum bom livro feito com “textinho”, repito. É arrogância minha comparar um “textão” meu, com um bom livro? Definitivamente. Nem queria significar isso.

De todo modo e como nenhum dos que reclamam jamais leu um dos meus textos por inteiro, eles não têm como denunciar as falhas que fazem dos meus grandes textos (no sentido literal) apenas textos grandes (também, literalmente) e sem qualidade. Em suma, você só saberá se um “textão” é apenas um texto grande depois de ler.  Com o tempo, você passa a saber o que esperar daquela fonte. Para o bem e para o mal.

Há quem diga “não concordo” só para marcar uma posição que, como um torcedor de clube de futebol, sente ser a coisa certa a fazer. Mesmo que na lógica e na argumentação não caiba a paixão como motor de uma discussão… Paixão leva a irracionalidade e a irracionalidade leva a qualquer coisa, menos ao bom argumento.

O outro lado dessa história também não é muito motivador.
Eu não escrevo o que escrevo para que batam no meu ombro e digam “pô cara, que legal”.
Óbvio que fico feliz quando meu texto atinge padrão de construção textual e lógica ao ponto de merecer a parabenização, mas, mais do que isso, fico muito emocionado que ele mereça o tempo (este que é sempre menos do que havia ontem) de tantas pessoas.

Isso tudo realmente me deixa orgulhoso e feliz, mas, não: esse não é objetivo central da escrita que faço.
Bem mais que o “parabéns”, quando sou confrontado com opinião contrária, o melhor possível ocorre pra mim: sou obrigado a defender meus argumentos e melhorar a qualidade deles com novos autores e novos fatos. Isso é o melhor dos mundos! E se não consigo melhorar meus argumentos, melhor ainda! Acabo descobrindo que minha visão de mundo não é perfeita e não resiste à toda a complexidade da realidade. E aí, aprendo com quem está falando e me mostrando algo que não posso justificar com minha visão atual.
Mas, isso já quase não acontece mais. As pessoas não querem debater. Querem vencer. E se não vislumbram como “ganhar”, não se envolvem.
“Aprendizado” não é tido como prêmio suficiente de um debate. Os novos advogados só aceitam causas ganhas…


Outro grande objetivo com o que escrevo e escrevi, até hoje, era (e é) ajudar quem não tem uma opinião formada a procurar os autores e os argumentos que possam ajudar a embasar uma opinião, seja a favor ou seja contra o que exponho; de repente, quando escrevo algo que incomoda, meu texto leva a pessoa do simples “não gostar” ao saber de fato, pelo fato de ela ter que pesquisar para responder. Ela saiu com opinião contrária à minha, mas teve que aprender os porquês para poder se opor. E aí, sinto que fiz minha parte.

Mas, essa pessoa não existe (mais). Quem não tem opinião e segue “contrariando o Facebook” e a necessidade de ter uma opinião sempre (o que é péssimo) geralmente odeia os “textões”. Talvez – e aqui sou um pouco desleal, pois não tenho provas – essa pessoa esteja na estatística dos 71% que não gostam de ler.

Lamentavelmente, se o Facebook tem esse péssimo habito de criar “bolhas de felicidade” e ele não é nem representação da realidade, nem um espaço de convivência social, mas um grande massageador de egos, ou um espaço para compartilhar fotos legais e vídeos engraçados, e se essas são as únicas atividades consideradas “corretas” para serem feitas no Facebook, eu prefiro não perder mais tempo com ele.

Melhor do que 80 horas com fotos (fofas, não estou negando) de gatinhos e vídeos de acidentes engraçados (é preciso rir, claro que é), eu vou tentar combater o que o bobo da corte fica dizendo repetidas vezes na minha cabeça: De que estou ficando inevitavelmente velho sem me tornar sábio – o que poderia ser evitado.
Devo estudar mais, ler mais livros e buscar conhecimento que autoridades (não por força de Lei, mas por esmero e uma vida de dedicação) nos assuntos que me interesso, compartilharam com a raça humana.

Está tudo escrito, quando não está gravado em vídeo – meio que anda ficando mais comum para a divulgação de boas ideias. Como exemplo, os vídeos do TED.com, em grande parte já com legendas em português.

Agradeço, profundamente, a todos que sempre acompanharam, opinaram, e – segundo relatos dos mesmos 🙂 – esperaram pelo próximo texto.
É um grande orgulho que alguém sem a formação acadêmica em Jornalismo, História, Sociologia, Economia(…), como eu, possa fazer textos que mereçam a atenção e o tempo de qualquer pessoa.

Sinto certo orgulho por ter trazido à atenção do cotidiano corrido de cada um, temas que vislumbro atuais e fundamentais para o futuro do lugar e sociedade em que convivemos. É um pouco arrogante supor isso, eu sei, mas gosto de pensar que são temas importantes, sim.

Nesse sentido, sou feliz pelo tempo dedicado à esta rede social.

No entanto, eu sigo ficando mais velho, sem ficar mais sábio. Tudo que posso fazer é tentar usar meu tempo da melhor forma possível para reverter essa tendência, já que a idade é “inevitável”.

O Facebook (e outras redes sociais), com tudo que expus, não me parece mais uma boa forma de investir meu tempo.