Tente outra vez / O rufar dos tambores da guerra

Direitos de imagem: artrepresent.com/Kabul Knight/Abdul Azim Fakhri

Advinha, doutor, quem está de volta na praça! É… Tá bom… Não tem nem 1% do impacto que o original causava… Também, é só eu escrevendo de novo por estas bandas. Não dá pra depositar tanta expectativa assim, não é? 🤷‍♂️

Enfim, como eu havia compartilhado, em meu último post, eu cogitava sair de todas as redes sociais (e assim o fiz, exceção ao LinkedIn e ao YouTube), e também, de última hora, decidi manter o blog. Ele venceria em meados de junho, eu cheguei a deixar vencer, mas veio um e-mail, muito bem feito por sinal, do time da WordPress manipulando várias emoções, misturando com números, fatos e relembrando momentos do blog… Ah, o algoritmo… Sempre tão bem escrito para manter todos nós na linha…

Como disse Raul, em uma de suas mais belas canções (os clássicos merecem esse substantivo), “não pense que a cabeça aguenta se você parar”… Eu fechei tudo (o que podia), ganhei tempo, me sinto mais leve e não sinto nenhuma falta das redes. Mas, os problemas continuaram. Continuei inquieto, irritado, descontente, aflito. E percebi que “a cabeça realmente não aguenta se você para”. E, de verdade, eu não sai das redes para parar. Eu sai para não contribuir com aquele show de horrores de gangues políticas, mentiras e desinformação. Então, agora eu vivo no paraíso? Bem, não. Eu só parei de jogar aquele jogo. E, como eu também disse na ocasião, isso não me tornou melhor em qualquer sentido. Foi só uma farpa que arranquei da minha mão e que me incomodava.

Então é isso, o blog vai continuar, pelo menos por mais um ano. Eu não vou ser injusto com você, que ainda visita essa página cheia de pó, e prometer que agora a frequência de artigos vai subir. Eu já prometi isso antes. E deu errado. Prometer de novo seria insistir no erro. Mas, sim, sem promessas, a vontade é de escrever mais por aqui. Eu não vou tentar “recuperar o tempo perdido” dos últimos meses. Teve vários assuntos que quase fizeram eu voltar aqui, mas desisti na última hora.

Tente outra vez!


O rufar dos tambores da 3a guerra

Como disse um personagem icônico do cinema nacional:

Ciente, Carvalho… Já avisei que vai dar merda isso…

– Capitão Nascimento

Tem algo de grande – e ruim – acontecendo. Você tem o direito de zombar de mim. O Rodrigo de 10 anos atrás zombaria de mim. Mas o mal-estar do nosso tempo é sensível, se você parar o piloto automático que o mantém vivo e prestar atenção nos sinais.

A real pergunta passa a ser, então: como separar fatos, versões e paranoia? E a resposta, se é que existe uma, é um belo de um “veja bem…”. Aqui é o ponto em que o jornalismo (profissional ou amador [como eu tendo a praticar]) vira mais arte do que ciência, no já escasso território em que esta última tem para existir neste plano da experiência humana.

Eu não vou conseguir fazer o trabalho tão bem quanto eu gostaria. Resta aderir a máxima que aprendi com um dos meus mentores na Microsoft:

Melhor um final horrível do que um horror sem fim…

– Euclides Miguel (se a frase não é dele, foi ele quem me disse)

Portanto, eu não sei se vai destruir a experiência textual, a estilística, ou o que diabos de ruim isto vai fazer com esse post, mas aqui vamos nós.

Fatos & Versões

  • Fato: 11 de setembro de 2001: ataques terroristas aos EUA. Versão (ou “porquê considero relevante como indicador de um novo conflito global?“): para mim (e até onde sei, para muitos) este episódio encerra um ciclo histórico que levou alguns autores a concluir que a “História” estaria encerrada (em outras palavras, não haveriam mais revoluções sociais, econômicas ou culturais capazes de mudar o paradigma do final do século XX e início do XXI), com a constatável vitória das democracias liberais e do sistema capitalista por sobre todas as alternativas até então testadas, expectativa especialmente avalizada no perecimento do regime soviético no fim da década de 1980. O atentado às Torres Gêmeas marca o declínio do otimismo liberal (político e econômico – embora sejam conceitos distintos) e o início de uma era de vigilância do Estado contra todos, especialmente contra seus próprios cidadãos (algo diametralmente oposto à ideia de “Estado democrático liberal”). Leis de segurança nacional (como por exemplo, o Patriot Act) são criadas ou reforçadas (e.g.: FISA act), diminuindo garantias e liberdades individuais em nome da proteção nacional. O medo passa a ser a tônica das relações sociais e governamentais.
  • Fato: 2001–2003: invasões do Afeganistão (outubro de 2001) e do Iraque (março de 2003) pelas forças da OTAN, lideradas pelos EUA. Versão: Pela primeira vez em sua relativamente jovem história (a independência americana é de 1776, contemporânea a do Brasil, portanto, são dois países “jovens”) os EUA e seu povo sentem medo e descobrem que não são tão invulneráveis quanto largamente se imaginava, seja pela história em conflitos tradicionais, seja pela produção sempre ufanista de sua indústria cultural. O terrorismo, muito pior do que o enfrentamento com uma grande potência, permite que o medo se instale em todos os lugares (não só nas fronteiras, mas nas ruas, nos parques, nas escolas, no transporte público, nos hospitais, aeroportos […]), e todos são um inimigo em potencial. Bush “filho”, bem menos preparado para o cargo que o pai (que já não era grandes coisas), mas muito menos boçal do que a mídia democrata o fazia parecer, decide invadir e ocupar, primeiro o Afeganistão, sob a alegação de que seria a base dos terroristas do 11 de setembro. Depois, em 2003, invade o Iraque alegando que o ditador Saddam Hussein teria “armas de destruição em massa” (o que jamais se comprovou, parecendo muito mais um desígnio familiar de terminar o serviço que seu pai não entregou no começo dos anos 1990), sendo esses eventos os que inauguram duas décadas de ocupação e insurgências na região. A morte de Hussein, aliás, é tida como causa-raiz para boa parte das desestabilizações, caos, violência e surgimento de grupos terroristas (como o Estado Islâmico, tornado mundialmente famoso em 2013) na região do Oriente Médio e adjacências. Hussein seria o “Mal menor” que mantinha o resto “na linha”. A invasão do Iraque foi um desastre para o moral americano e para sua imagem de “Xerife do mundo” (adquirida no pós-2a guerra), custando mais de 2 TRILHÕES de dólares aos contribuintes, e ceifando a vida de mais de 4 mil soldados daquele país. A saída do Afeganistão, em 2021, também ajudou a despedaçar a imagem americana, com seus soldados produzindo cenas de fuga e abandono desesperado nos aeroportos. Dias depois, o grupo terrorista que foi um dos principais motivos públicos para a invasão, o Talebã, retomou o poder do país ocupado pelos EUA. O Talebã rapidamente instaurou uma teocracia ferrenha, perseguidora de mulheres bem como de “colaboradores dos invasores” (como se muitos deles pudessem não colaborar com os EUA naqueles 20 anos de ocupação…). Talvez, a impressão mais importante de todo este capítulo: a invasão do Afeganistão e do Iraque é a primeira ocorrência de um desrespeito total ao conselho de segurança da ONU, por parte dos EUA, e o começo do fim da credibilidade de organismos multilaterais (e, porque a ironia nunca tem fim, muitos deles, criados com total apoio e esforço da diplomacia americana [ONU, OMC, OMS…]). Depois disso, ficou fácil para os demais países desrespeitarem mecanismos multilaterais (“se os EUA podem, por que nós não poderíamos?”).
  • Fato: 7 de julho de 2005: atentados no sistema de transporte público de Londres. Versão: O atentado a Londres inicia uma linha de interpretação ainda corrente do terrorismo global por parte dos países desenvolvidos, reafirmando as razões do medo e irracionalidade dos povos ditos “do primeiro mundo” quanto à persistência do terrorismo internacional como meio e arma dos povos “do terceiro mundo”. O medo de estrangeiros, especialmente quando a feição árabe/muçulmana surgia (generalização claramente ineficaz para impedir novos ataques) passa a ser constante, e a xenofobia ganha novos contornos na Europa e nos EUA. O acirramento das tensões internas e o “esquentamento” de partidos nacionalistas e xenofóbicos, constatavelmente “nanicos” até ali – muito por conta de suas ligações com ideologias fascistas, até então odiadas por toda a Europa, levando em conta o que foi a 2a guerra – passa a ter força e apoio popular, e ideias que não poderiam ser defendidas na penumbra dos bares, passam a ser discutidas em rede nacional.
  • Fato: 2008: quebra do Lehman Brothers e colapso financeiro global. Versão: A bolha imobiliária americana corroeu a confiança nos mercados e impulsionou intervenção estatal maciça em todos os lugares. Essa intervenção teve resultados diversos: na Islândia, por exemplo, protegeu as pessoas e desapropriou os responsáveis pela bagunça (os banqueiros). Mas na maior parte do mundo não foi assim. Especialmente nos EUA, o esforço do governo foi, não na direção de salvar as pessoas, mas de salvar os banqueiros (que deram causa à bolha). Daqui em diante, o mundo ficará cada vez mais polarizado, com a pobreza voltando a ressurgir em diversos lugares onde havia sumido com o ciclo de prosperidade vivido até ali (aumento da produção mundial, aumento da demanda por commodities, e por aí vai [foi]). A visão da política também muda, com a oposição dos governos (sejam de esquerda ou de direita) passando a atacar os partidos no poder. Um sentimento “antissistema” começa a tomar corpo, na medida em que a pobreza e a raiva avançam na camada mais pobre, enquanto o Estado, via de regra, salva apenas os mais ricos.
  • Fato: 2009–2012: crise na zona do Euro, Grécia em recessão e sob forte pacote de austeridade fiscal imposto pelo bloco europeu. Portugal e Espanha passariam por dificuldades similares, nos anos seguintes. Versão: o estouro da bolha imobiliária dos EUA, no ano anterior, era só o começo de um maremoto que afetaria e muito a vida de vários países do bloco e seus povos. Talvez, o mais emblemático dos casos seja o da Grécia que arrastava um deficit público sempre crescente mas, em 2010, teve que pedir por um resgate emergencial de aproximados 110 bilhões de euros ao bloco europeu. O pedido de resgate veio sob a condição de que a Grécia congelasse salários e benefícios para todos e, sem dúvidas, tais medidas foram causa de muitos conflitos políticos, frustração e quebra de confiança dentro do país e entre o povo grego e os povos do norte no bloco. Os países do sul da Europa (Portugal, Espanha, Grécia, Itália…) passaram a registrar manifestações populares de insatisfação com a postura impositiva dos países do norte da UE. O desgaste e desprestígio por organizações multilaterais voltaria a crescer, especialmente pelo que era visto pelos nacionais dos países afetados como “intervenção internacional em sua soberania”. Em 2010, Portugal pediria cerca de 78 bilhões de euros em resgate emergencial para obter liquidez para seu sistema bancário, fortemente abalado pelo estouro da bolha de 2008. Em 2012 seria a vez da Espanha, com um pedido de 100 bilhões de euros. Todos os países passariam pela imposição de regras de austeridade impostas pelo bloco.
  • Fato: 2010–2012: Primavera Árabe, seguida pela guerra civil na Síria. Versão: a primavera árabe, iniciada na Tunísia e com marco no triste ato de Mohamed Boazizi ao atear fogo ao próprio corpo, parecia o sinal de que todos os povos da Terra estavam cansados de governos corruptos e interventores. À primeira vista, poder-se-ia dizer que o fim da primavera árabe seria um Oriente Médio que tenderia à modernização dos Estados, rumo a um liberalismo político e, mais tarde, econômico. Não foi o que aconteceu. Na prática, a primavera árabe gerou várias crises humanitárias (por conta de conflitos entre facções e/ou entre população e ditaduras) e realimentou o extremismo e tensões sectárias em toda a região. A população que tinha capacidade de fugir da região, o fez, com destino prioritário em países da Europa.
  • Fato: 2011-2016: Êxodo sírio para Grécia e Turquia, Alemanha recebe mais de 890 mil pedidos de asilo em 2015, e acordo UE-Turquia para bloquear a chegada de novos imigrantes e refugiados ao bloco. Versão: Com a guerra civil em andamento na Síria, guerra esta que foi uma guerra indireta (“por procuração” sendo o termo comumente utilizado [proxy war]) entre Rússia, Irã e Hezbollah (que apoiavam o ditador Bashar al-Assad) vs. EUA, Turquia, Arábia Saudita e Qatar (que apoiavam os vários grupos rebeldes), os mais de 20 milhões de sírios se viram no meio de um inferno em vida. Milhões começaram a fugir do país em colapso e, no ano de 2015, a Alemanha chegou a receber quase um milhão de pedidos de asilo de refugiados vindos principalmente pela Grécia e Turquia. No ano de 2016, a União Europeia firmou acordo com a Turquia para praticamente cessar o acesso de refugiados ao resto do bloco, no que foi considerando como mais um episódio de demonstração da hipocrisia dos europeus para com a questão humanitária da região do Oriente Médio; região frequentemente desestabilizada por parceiros estratégicos da própria União Europeia, quando não, diretamente desestabilizada pela ação dos membros do bloco (como, por exemplo, a participação de França e Reino Unidos nos conflitos daquela década).
  • Fato: 2013: vazamento de documentos por Edward Snowden. Versão: o vazamento da NSA confirmou e que muitos desconfiavam: o alcance global da vigilância de inteligência dos EUA contra aliados e inimigos. A paranoia do governo americano o fazia espionar do partido comunista chinês ao primeiro-ministro britânico. O isolamento dos EUA enquanto figura de autoridade no mundo cresce e acelera. As reações são diversas, mas uma delas é a escalada por capacidades de inteligência e contrainteligência avançadas. O mundo passa a se reamar (ainda aqui, com tecnologia e não com armas em si) e o isolamento de nações antes muito afinadas entre si, começa a ficar evidente.
  • Fato: 2014: anexação da Crimeia pela Rússia. Versão: Vladimir Putin não é um líder populista qualquer. O início do conflito armado no leste da Ucrânia dá só o indício da forma de ver o mundo e as relações internacionais que o ex-chefe da KGB tem para si. Putin, diversas vezes, comentou como a União Soviética foi um equívoco na trajetória da Rússia que deveria regressar a sua época de império (Czarismo). Muitas das vezes, esse discurso está velado. Em outras (e mais recentes) ocasiões, Putin não teve receio de dizer que “o povo da Ucrânia e da Rússia é um só” e que “a Ucrânia inteira pertence à Rússia”, numa clara explicação do que considera como território legitimo de seu país e dos demais.
  • Fato: 2015–2016: atentados na França deixam centenas de mortos e aumentam as hostilidades contra povos muçulmanos ou de aparência “árabe”, legitimando o avanço da vigilância estatal em toda a Europa. Versão: A França enfrentou, em janeiro de 2015, novembro de 2015 e julho de 2016, três graves atentados em seu solo, perpetrados por agentes da Al-Qaeda, de nacionais franceses e belgas com ascendência argelina e (supostamente) síria, treinados pelo Estado Islâmico (EI), e de um tunisiano radicalizado e que se dizia fiel ao EI. No primeiro, a revista satírica Charlie Hebdo, teve sua sede invadida e 12 pessoas foram mortas pelos terroristas da Al-Qaeda. No segundo, vários ataques a tiros e bombas, perpetrados por franceses e belgas de ascendência argelina e (supostamente) síria, treinados pelo EI, levaram à morte de mais de 130 pessoas com a maior mortalidade ocorrendo no teatro Bataclan. O governo de François Hollande foi fortemente abalado por esse ataque, mas acabou usando o episódio para endurecer suas medidas “contra o terror” dentro e fora da França, aumentando temporariamente a participação do país nas frentes de guerra na Síria e dificultando a entrada de estrangeiros de origem árabe. 70 anos depois da 2a guerra, Paris voltaria a ter um toque de recolher em vigor. Depois, em julho de 2016, o ataque com um caminhão, perpetrado por um tunisiano que declarou lealdade ao EI, no calçadão chamado “Promenade des Anglais”, atropelaria e mataria 86 pessoas. O atentado reacendeu fortemente os debates anti-imigração em toda a Europa, servindo de enorme vitrine aos partidos de extrema-direita no país e na região, e desde então as barrerias nunca deixaram de crescer em alcance e discriminação.
  • Fato: junho de 2016: referendo BrExit no Reino Unido. Versão: O BrExit marca o aumento da fragmentação política e econômica na Europa, mas também marca a ascensão do populismo de direita no mundo. Claro: já havia Putin, já havia Orbán, já havia Erdogan e os sinais já estavam por toda parte. Mas a vitória do BrExit não passa pelas mãos de Boris Johnson (primeiro-ministro escandaloso e midiático de 2019 em diante), tanto quanto passa pelas mãos de Nigel Farage, este sim, um elemento perturbador da política tradicional inglesa, muito afeito ao uso da mídia digital para targeting, empregador assíduo de outro mecanismo que iria ganhar as manchetes no mundo: as fake news. O BrExit marca a interferência de forças transnacionais nos processos políticos dos países desenvolvidos, e figuras como Steve Bannon, Aleksandr Dugin e Crabridge Analytica passam a ser mais famosos no noticiário e análise política dessas nações.
  • Fato: novembro de 2016: eleição de Donald Trump nos EUA. Versão: para coroar a franca ascensão de líderes populistas no globo, e a decadência de alianças multilaterais, nada melhor que a eleição de um “outsider“, não é mesmo? Donald J. Trump passaria quatro anos, de 2016 a 2020, testando todos os limites da combalida democracia americana, após o suspiro dos anos Obama. A confusão entre público e privado e a erosão de instituições fundamentais à ideia de República são marcas deste primeiro mandato.
  • Fato: 2018–2019: escalada da guerra comercial entre EUA e China. Versão: Trump passa a retirar os EUA de áreas como defesa de interesses além-mar e acordos militares com aliados, e começa uma campanha de “tornar os EUA grandes de novo” (MAGA – Make America Great Again), e tenta fazer isso, em boa medida, através da imposição de tarifas, tensionando cadeias globais de suprimentos. Obviamente, as tarifas são reciprocadas e isso aumenta o custo de vida e a inflação no mercado interno dos EUA. A vida para os americanos começa a ficar mais cara, num país que sempre teve pouco a oferecer a sua classe baixa e média (em alguma medida) senão pelo consumo de bens mais acessível do globo.
  • Fato: 2019–2020: protestos de Hong Kong e pandemia de Covid-19. Versão: bem, há um livro inteiro para explicar este arco histórico (“Germes, armas e aço” por Jared Diamond, escrito em 1997), mas é importante entender que o conflito de Hong Kong (por um grupo que tensionava a independência da região) justifica – em partes – a corrida armamentista chinesa, que já lida com o que chama de “problema separatista” em Taiwan (por não reconhecer, como Taiwan se afirma, que trata-se de uma nação soberana), e não poderia permitir que Hong Kong ingressasse na mesma tendência. A pandemia agrava tudo o que já estava em curso: as tensões sociais, a guerra de narrativas entre os polos políticos, a pressão social [manipulada ou legitima] sobre governos (ora porque fazem o lockdown, ora porque não fazem), sobre a ciência e a medicina (porque são culpadas pela origem do vírus, porque não desenvolvem a vacina rápido o bastante, ou porque não autorizam a “cura milagrosa” [cloroquina, ivermectina, e por aí vai]), o aumento das fake news, desemprego crescente, falências, fechamento de fronteiras e disputas por recursos (de máscaras à vacinas). O mundo, que já andava fragmentado, recebe uma dose cavalar de um poderoso catalisador deste processo de erosão.
  • Fato: agosto de 2021: retirada dos EUA do Afeganistão, retorno do Talibã e questionamento da credibilidade ocidental nas intervenções militares. Versão: já discutimos os efeitos da ocupação americana, iniciada em 2001, lá no começo desta lista. Mas a repetição, além de respeitar a ordem cronológica, reforça a hipótese de como os efeitos deletérios das ações no começo do século XXI, começam a ressurgir, 20 anos depois.
  • Fato: fevereiro de 2022: invasão russa na Ucrânia. Versão: sendo o maior conflito em solo europeu desde a 2a guerra e catalisador de nova corrida armamentista por todo o continente, este talvez seja um marco equivalente ao que foram os atentados às Torre Gêmeas. Isto porque se, em alguma medida, é “só a continuação” da anexação da Crimeia (2014), por outro lado mostra uma lógica imperialista e a voracidade com que Putin seguirá lidando com os “problemas” (reais ou imaginados) em sua região. Pela primeira vez fica claro que não há mecanismos de pressão suficientes para parar a Rússia. As sanções políticas não são suficientes. As sanções econômicas não são suficientes. Não há coesão nem multilateralismo vigente para que as medidas impostas pela “comunidade internacional” (que já não é mais tão internacional assim, mas se resume a Europa ocidental + EUA) realmente alcancem a elite russa e os membros do governo Putin.
  • Fato: outubro de 2023: Guerra entre Israel e Hamas e tensionamento das relações entre Irã e potências ocidentais. Versão: Num dos episódios mais traumáticos da região, o Hamas invadiu o território israelense em 7 de outubro de 2023, matando mais de mil pessoas, ferindo mais de 3 mil e sequestrando quase 250 delas, entre judeus e estrangeiros que visitavam o país. Em resposta, o governo Nethanyahu começou uma operação militar de invasão e ocupação da faixa de Gaza que, até o fim de agosto de 2025, matou mais de 60 mil palestinos, incluindo muitas crianças e mulheres da faixa. A situação de fome e de colapso das estruturas de saúde é tal que acaba levando vários países, liderados pela África do Sul, a acusarem formalmente Israel pelo cometimento de genocídio na região. O governo Nethanyahu testa novamente todos os limites das organizações multilaterais, mostrando o mais absoluto desrespeito a qualquer ação coordenada por órgãos como ONU e similares. Com o apoio do novo governo Trump, Nethanyahu se sente capaz de fazer o que quiser com a faixa de Gaza e a Cisjordânia. Manifestações internas contra o governo começam a ganhar força, mas logo são abafadas pelo conflito de mísseis e drones entre Israel e Irã. O conflito desmobiliza os manifestantes contra Nethanyahu, fortalecendo seu governo diante da necessidade de lidar com a ameaça existencial que o Irã representa ao Estado de Israel. O conflito ainda arrasta os EUA para mais uma intervenção na região, mesmo que a priori limite-se a forças militares no mar mediterrâneo e golfo do pérsico.
  • Fato: 2023–2024: disputas no oceano Indo-Pacífico, desdobramentos do programa AUKUS e aumento de patrulhas de EUA e aliados ao redor de Taiwan. Versão: no fim dos anos Biden, o governo democrata dos EUA ainda tentava mostrar um mundo organizado, multilateral, sim, mas sob a clara liderança americana e oposto “às forças desestabilizadoras de China e Rússia”. Várias das proibições, taxas e embargos promovidos por Trump em seu primeiro mandato foram mantidas, senão agravadas no governo Joe Biden. O posicionamento de democratas americanos em favor da soberania taiwanesa agravou muito as tensões na região, com demonstrações militares tanto da China, quanto dos aliados americanos. O governo da Austrália decidiu “comprar” a briga pela garantia do domínio militar das águas do pacífico que banham seu território e que são vitais para manter as linhas de suprimentos que mantém a Austrália abastecida. Nesse sentido surge o programa AUKUS (Australia, Reino Unido e EUA, na sigla em inglês) que tem dois principais objetivos: o fornecimento de submarinos nucleares pelos EUA à Austrália, para que esta imponha seus interesses militares na região, em direta ameaça aos interesses chineses nos mesmos mares. O segundo objetivo é o do desenvolvimento de capacidades de guerra em múltiplas disciplinas: Cyber-guerra, IA, mísseis hipersônicos e contramedidas a esse tipo de armamento… O AUKUS é um programa para criar um rival local à China, apoiado por nada menos que os EUA e sua indústria bélica.
  • Fato: janeiro de 2025: Donald J. Trump, presidente reeleito para o segundo e, teoricamente, último mandato a frente dos EUA, toma posse. Relatório “Global Risks” do Fórum Econômico Mundial identifica “conflito armado entre Estados” como o principal risco imediato para 2025. Versão: o conceituado relatório “Global Risks” elencou como principal risco para o mundo em 2025, não outra pandemia, nem algum desastre natural, e nem mesmo o “agravamento econômico da pobreza no mundo” foi capaz de desbancar o primeiro lugar. Não. O principal risco do relatório de 2025 foi o “conflito armado entre Estados (nações)”. Este não é um relatório feito para ser polêmico ou caçar cliques, mas uma análise com +900 especialistas em relações internacionais, economia, estratégia militar, diplomacia, meio ambiente e tantos outros setores e que deve nortear os países-membros do Fórum Econômico Mundial pelo próximo período. Para entender o quão grave é esta indicação, de todos os consultados para a elaboração do relatório, 25% (1/4) concluem que o risco de uma guerra entre nações é o maior perigo para o ano de 2025. Para se ter imagem do quadro geral, o segundo risco da lista, aquele sobre graves tragédias ambientais, foi apontado por apenas 14% dos especialistas como o maior risco para 2025.
  • Fato: 20 de junho de 2025: Vladimir Putin declara preocupação com potencial crescente de conflitos mundiais e alerta para risco de 3ª Guerra Mundial, mencionando Ucrânia e guerra entre Israel e Irã. Versão: na ocasião, Putin falou do risco para “todos os envolvidos” no conflito Israel-Irã (no caso, sobrariam EUA, do lado israelense, e a própria Rússia, do lado iraniano) de acabarem engolfados por uma conflagração ainda maior entre si. Foi neste episódio, também, que Putin disse que a “Ucrânia inteira pertencia à Rússia”. Aparentemente, suas intenções expansionistas não precisam nem mais de desculpas ou meias palavras.
  • Fato: 04 de setembro de 2025: o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, classifica Rússia e China como “ameaças crescentes” e defende maior investimento em defesa na Europa. Versão: desde a ascensão de Trump e da demonstração de sua agenda para a política externa durante seu primeiro termo, bem como a confirmação da postura norte-americana de não mais honrar acordos do passado sobre a proteção militar da Europa (na realidade, a proteção dos países alinhados aos EUA), a União Europeia iniciou uma corrida armamentista. O mais…. Como posso dizer… “estranho”…. disso tudo é ver que países como França e Reino Unido vem pedindo que a Alemanha (veja só) acelere o seu rearmamento, bem como aumente a produção de armas para exportação… É como… Se somente eu me lembrasse do que ocorreu na 2a guerra… É desconcertante… De toda forma, o tom do discurso é de que a guerra não é mais uma questão de “se” e sim de “quando” (“[…]This trend is not going to shift or reverse anytime soon. Russia is – and for the foreseeable future will remain – a destabilising and confrontational force in Europe and the world.” – “[…]Essa tendência não vai mudar ou reverter no futuro próximo. A Rússia é – e pelo futuro previsível se manterá – uma força desestabilizadora e confrontadora na Europa e no Mundo”). O discurso completo (mas em inglês) do secretário da OTAN pode ser lido aqui.

E a paranoia? Onde fica?

Bem, depois dessa retrospectiva desde os atentados de 2001, eu já acho que não sei separar paranoia do resto. Paranoia, afinal, é o sentimento ou sensação de que estamos sendo alvos de um processo de perseguição ou uma conspiração.

Ao analisar os fatos até aqui e tentar interpretá-los (como fiz a partir das “versões” que escrevi) à luz dos requisitos de um confronto armado global, é um tanto quanto difícil não ficar paranoico com a ideia de que a 3a guerra mundial é iminente.

A pressão sobre as classes sociais mais baixas (e também, mais numerosas, e mais prejudicadas), o rompimento dos mecanismos de regulação multilateral, o enfraquecimento da confiança em atores globais, a falta de qualquer capacidade de prever ou ao menos ter expectativas sobre o que esperar dos “players” globais, a ascensão de líderes populistas, com forte vocação autocrática, quando não, abertamente imperialista, e toda a corrida armamentista… Sabe…

Mas, eu vou entregar o que prometi: vou compartilhar três ou quatro das minhas paranoias no presente tópico:

Paranoia 1: Trump disse que não colocaria os EUA em novas guerras e que removeria o país de todas as outras não iniciadas por ele, promessa de campanha da qual muitos de seus eleitores o cobram. No entanto, está, neste exato momento, com uma “pequena” frota naval “parada em frente” à nossa vizinha, Venezuela. A “justificativa”, diz ele, é combater o narcoterrorismo do “Cartel de Tren de Aragua”, como também o desmantelamento de um tal “Cartel dos Sóis”, organização que teria até mesmo o ditador Nicolas Maduro entre seus líderes. Mas, acontece que quase todos os analistas militares consideram o tamanho da força militar empregada completamente desproporcional à missão alegada. Até o momento em que publico este post, os EUA têm 3 destroyers (chamamos de “contratorpedeiros” por aqui), 1 cruzador de mísseis, 3 navios anfíbios, sendo um de assalto (“rápido”) , destinados a incursão de tropas, a 22a unidade de fuzileiros navais (cerca de 2 mil homens para incursão por terra), um submarino com mísseis tomahawk, 2 aviões espiões e de vigilância do espaço aéreo e mais 10 caças F-35 de última geração, que estão “por perto”, em Porto Rico (“do outro lado” do mar do Caribe, com uma distância de engajamento extremamente fácil de se cobrir para esse tipo de aeronave). Qual é o “endgame” de Trump? Será que ao menos ele sabe? Pior do que um presidente ruim é um presidente instável. Com o primeiro, você pode prever como a banda vai tocar. Com o segundo, as coisas mudam de uma hora para outra.

Paranoia 2: Várias fontes confiáveis (só um exemplo) têm citado documentos vazados em que a ministra da saúde da França, Catherine Vautrin, oficiou toda a rede pública de hospitais do país para se preparem para receber e tratar de 10 a 50 mil soldados que seriam vitimas de “um confronto militar de larga escala”, com data estimada até março de 2026. Procurado, o governo Macron não negou a carta, mas disse que se tratava apenas de um “exercício de preparação para cenários possíveis”. Enquanto é bom saber que um governo tem gente pensando em todos os cenários, as estimativas de feridos, tempo de internação e data limite para que o conflito ecloda são… alarmantes, ao menos para mim.

Paranoia 3: O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), integrante do governo “Lula 3” (atual governo do Brasil) pediu abertamente que o país considere o desenvolvimento de arsenal nuclear como meio de proteção da soberania nacional bem como para dissuasão de atores externos. Muito embora eu possa ver Dr. Enéas Carneiro sorrindo de onde quer que esteja, eu tenho tantas questões sobre essa temática, que eu precisaria de outro post inteiro só para falar de “Brasil & nukes“. Pra começar, num país onde quartéis são assaltados por criminosos e/ou furtados pelos próprios militares, vamos querer ter ogivas nucleares guardadas neles? Segundo, fazer uma arma nuclear é só metade da brincadeira. A outra metade é ter meios de “entregar o pacote” no colo de quem você está de mal, e nesse sentido, o Brasil é o mais pleno atraso em forma de programa de mísseis e foguetes. A FAB e os projetos espaciais envolvendo a Barreira do Inferno eram um meio de adquirir essas competências, mas o tempo passou, o Brasil sempre tem menos dinheiro para investir, e não se desenvolvem essas competências da noite para o dia. Falar das sanções internacionais e repercussão na trativa de outros países com o Brasil (que perderia o status diplomático que hoje detém) já me cansa, só de pensar. Eu não estou vetando a discussão (Allah sabe como meu coração belicoso pensa), só estou dizendo que não é simplesmente “vamos, então, fazer o PAC da bomba atômica”, corta a faixa do prédio e “kumbaya, meu Deus/bumba-meu-boi”…

Sabe… A diferença entre uma panela de pressão e uma granada de mão é só uma: a panela de pressão tem uma válvula para não ultrapassar certos limites operacionais. Retire a válvula da primeira e você não vai notar muita diferença com a segunda, não… O mundo, mesmo nos felizes anos 1990 e começo dos 2000, sempre foi uma panela de pressão. A prosperidade aumentou, o mundo parecia mais conectado, mais integrado, mais isso e mais aquilo. Eu volto a recuperar o argumento daqueles que achavam que “a História havia terminado” (já que nada mais iria mudar), e eu até compreendo como eles puderam ser tão cegos. Era um sentimento de puro triunfo da civilização contra a barbárie. Da meritocracia contra a mediocridade. Da cidadania contra o autoritarismo. Da economia dinâmica contra a planificação dos mercados. “Foguete não dá ré!”. Só não contavam que, como a SpaceX, o mundo também aprenderia a voltar “dis costas“.

São os anos 20 terminando e os 30 começando. E eu não vejo profundas diferenças nos fatos macro dessas décadas na comparação entre o “agora” e o século passado, a não ser pelo fato das belas telas planas que nos conectam, neste momento.

Hegel disse que os povos não têm nada a aprender com a História porque os tempos, as condições e, basicamente, tudo é diferente no “agora” e no passado. Um famoso historiador brasileiro contemporâneo disse que acha graça no fato de que pessoas procuram historiadores para perguntar o que vai acontecer no futuro, uma vez que um historiador é um “especialista em passado”. Seja como for, se a História não se repete e se ela não tem nada a ensinar para os vivos de 2020, ao menos fiquemos atentos a um aspecto que parece evidente: os ecos da música e os movimentos coreografados e em ensaio parecem os mesmos daqueles que soaram alto e foram encenados na última vez em que o rufar dos tambores da guerra foram ouvidos por todos os cantos do mundo.

Mas, por que – e, de novo – a França?

França: Território nas cores da bandeira e o símbolo de Luto por cima dele.
O território francês, nas cores da bandeira nacional, sob o símbolo do luto de uma nação que está, tristemente, se acostumando com o Terror. Fonte: Montagem própria com Wikipedia + Internet.

Começar o texto com uma pergunta que não pode ser respondida – ao menos, não com “‘A’ resposta certa” – não é a jogada mais inteligente…

Por outro lado, fazê-la parece-me inevitável. Afinal: mas por que, de novo, a França?

É preciso lembrar tudo o que já ocorreu – de ruim – no território onde os gauleses viveram e fazer menções à alguns aspectos que talvez, e só talvez, possam explicar o porquê do terror ter escolhido a França como seu novo alvo predileto.

O número de ataques à França não é pequeno. É o país desenvolvido mais atacado pelo DAESH (ou ISIS, como preferir…) em todo o mundo ocidental, desde o começo da escalada do novo emissário do terror.

O primeiro ataque da organização à França ocorreu entre 7 e 9 de janeiro de 2015, quando a sede parisiense da revista Charlie Hebdo foi alvo de 2 atiradores, os irmãos Kuachi, franco-argelinos com pouco mais de 30 anos. Na mesma série, outro atirador na mesma faixa de idade, Amedy Coulibaly, tomou um comércio de donos judeus. Ao todo, 17 pessoas foram mortas durante 3 dias em que a França ficou acuada e trancada dentro de casa, enquanto as autoridades tentavam achar os terroristas.

Depois, em Fevereiro de 2015, um homem de 30 anos esfaqueia 3 soldados que protegiam uma rádio Judaica em Nice. Sim, a mesma do lunático motorista do caminhão da última quinta-feira.
Intrigantemente, o agressor tem o mesmo sobrenome do terceiro atirador da primeira onda de Terror. Não há divulgação concreta sob o parentesco dos 2 (mas, no caso da Charlie Hedbo, sabe-se que eram irmãos e nacionais descendentes de argelinos).
Sendo o primeiro terrorista capturado vivo (os 3 primeiros morreram), Moussa declara, em depoimento, “ódio à França, aos militares, ao governo, e aos judeus e infiéis”.

Após essas duas ocorrências, em abril, outro argelino, Sid Ahmed Ghlam, com visto de estudante, é detido em Paris sobre suspeita de homicídio e de estar preparando um atentado contra os trens da cidade, onde o objetivo seria “matar 150 infiéis ou mais”. O alvo secundário era a basílica Sacré-Coeur.

Mais tarde, em junho de 2015, um homem é decapitado em Lyon, dentro de uma fábrica de combustíveis. O autor é o seu funcionário, Yassin Salhi, de 35 anos. Ele é nascido na França com pai argelino e mãe marroquina. Depois da decapitação, envolto em bandeiras com símbolos do Islã, ele tenta explodir toda a planta, mas sem sucesso. Foi capturado pelas forças policiais.

O ponto mais assustador é atingido em novembro de 2015 quando Paris sofre uma série de ataques coordenados, com o pior ocorrendo na casa de Shows “Bataclan”. 130 pessoas foram mortas e 350 ficaram feridas.
Salah Abdeslam, o único envolvido com o atentado a sobreviver nas buscas e confrontos policiais, se nega a comentar qualquer questão relacionada ao caso após ter sido extraditado para a França, tendo sido capturado depois de uma longa operação no território belga. Com 26 anos e de origem belga, é o terrorista mais novo da lista até agora. Com pais de origem argelina, ele engrossa a lista de ligações com aquele país e os atentados na França.

No mais recente episódio de terror na Gália o motorista Mohamed Bouhlel, tunisiano de 31 anos, atropelou e matou 84 pessoas (mais dezenas de feridos em estado crítico) ao longo de 2 quilômetros percorridos com um caminhão-baú, na Promenade des Anglais (Passeio dos Ingleses), onde a cidade de Nice comemorava a data histórica da Queda da Bastilha (14 de julho) que é fundamental na história da Revolução Francesa.
O DAESH assumiu a autoria do ataque, mas tudo ainda soa incerto. As fontes, versões e fatos vão se desdobrando e os órgãos de inteligência ainda não sabem com quem Mohamed se relacionava; seus contatos no celular, no computador e detalhes podem ajuder a compreender a dimensão de seu ato.
Por ora, apenas um casal de albaneses que ajudaram Mohamed, com acesso a armamentos, foram detidos por troca de SMSs com conteúdo incriminador entre o marido e o tunisiano.
Entre a chance de blefe do DAESH e as alegações de algumas fontes de que trata-se de um ato de um desequilibrado mental que foi indevidamente capitalizado pelo grupo terrorista, nenhuma hipótese pode ser totalmente descartada ainda.

Não vamos falar sobre os ataques em Orlando, San Bernardino e Boston (EUA), Bélgica, Iraque e Turquia, pois falar da França já rende assunto o bastante. No entanto, parece evidente a escalada da violência do grupo terrorista e não somente algo pontual e localizado.

Alguns analistas apontam que embora o DAESH mire em todo o ocidente, a França, por ser símbolo das revoluções que pavimentaram o Iluminismo, a forte crença de seu povo em valores como Democracia, República e Laicismo, é um contraponto absoluto a tudo que o DAESH prega, e deve ser destruída como prova maior da determinação dos terroristas.
De maneira mais objetiva (ou menos simbólica), podemos citar o tratado de 1916, Sykes-Picot, assinado entre França e Reino Unido e que acabou com o império Otomano, criando fronteiras artificiais (de onde surgiram, por exemplo, Síria e Iraque), destruindo a base do sonho de muitos radicais sobre um Califado que dominasse todo o Oriente Médio, por vezes, referido como Oumma (Comunidade de crentes).
Todos esses motivos podem ser a real causa do porquê Abu Mohamed Al-Adnani, porta-voz oficial do DAESH, disse, em 2014, “Mate com pedras, facas, ou seu carro (…) em especial, os sujos e desprezíveis franceses”.

Jovens, homens, 30 anos, nacionais com descendência islâmica.

Não se trata de profiling (preconceito), mas como eu identifiquei, ao longo da história recente dos ataques à França existe, sim, um padrão de “recrutamento”.

A esmagadora maioria dos agressores tem a origem na Argélia.

A Argélia é um país entre o Norte da África e o Saara e já foi colônia francesa. A colonização não foi nada pacífica (a França invade a Argélia em 1830, mas só toma o território, por completo, no meio do século XX) e para não chegar às 8000 palavras, eu vou resumir dizendo que houve um “mini-apartheid”, aos moldes dos colonizadores holandeses na África do Sul.

Só ao fim de vários conflitos é que a França estendeu direitos de cidadania aos argelinos muçulmanos (por muito tempo os argelinos morando na França não eram considerados cidadãos e os índices de analfabetismo – por exemplo – eram agressivos para essa parte da sociedade francesa).

A independência argelina só ocorre no fim do século XX e é pavimentada através de muito terrorismo. A guerra civil é uma realidade entre tropas francesas, a FLN (Frente de Libertação Nacional) e a OAS (Organização do Exército Secreto).

A FLN representa parte da sociedade reprimida pelas décadas de opressão dos colonizadores e o OAS é um braço radical do Exército argelino, guiado por um general islâmico, sendo que o terrorismo é arma comum a ambos. Mais tarde, OAS e FLN se enfrentariam com mais terrorismo.

Em 1962, Charles de Gaulle, presidente francês, se vê forçado a assinar armistício com essas organizações em que reconhece a independência da Argélia, mas que também garantiria direitos aos franceses ainda residentes na Argélia.

Ao fim do processo apenas 1% de cristãos restam no território e o novo governo, formado pela FLN, edita decreto que restringe o culto ao Cristianismo, e a perseguição aos cristãos começa. Terrorismo, como se percebe, é o triste meio pelo qual a Argélia moderna é constituída ao longo de sua história recente.

E a França está no epicentro disso tudo por todos os seus atos e medidas para com sua ex-colônia.

Mais que isso, o processo, em larga escala contínuo, de imigração da região do Maghreb (o noroeste do continente africano) para a França e a criação de “ghettos” ao redor de Paris onde essa população é “estocada” – na falta de palavra melhor – só aprofunda a gigantesca cisão com o sentimento de pertencimento desses indivíduos que habitam o território francês. Antes de supor a culpa dessas pessoas é bom lembrar que a França bancou e patrocinou essa imigração para fins de reconstruir a nação no pós-guerra. O país encontrava-se devastado pela ocupação alemã e os demais desdobramentos históricos.

A França é mais vulnerável ao terrorismo?

Difícil de responder (comparado a quem?), embora tudo indique que não.

A França é a quinta maior economia do mundo (PIB nominal), sendo a segunda maior dentro da Europa.

A França também tem o terceiro maior orçamento militar do mundo. Mas, em contrapartida (para compreender o risco a que está exposta), também é o país mais visitado por turistas no mundo todo. Por ano, são 82 milhões deles. Para ter uma ideia do que isso representa a população regular da França é da ordem de ~65 milhões. Significa que praticamente “outra França + 1/3” entra e sai das fronteiras do país, todos os anos.

Como líder mundial, a França pode se orgulhar de ser uma das nações fundadoras da União Europeia, além de possuir a maior área e a segunda maior economia do bloco. Também ajudou a fundar a Organização das Nações Unidas, além de pertencer ao G8, ao G20, à OTAN, à OCDE e à OMC.

Acredito que, diante do exposto, fica difícil supor que a França não invista valor considerável na manutenção de sua segurança nacional, ou que seja imatura em lidar com imigração, controle de fronteiras etc.. Ela investe muito (o 2º maior investimento) e ela lida com um volume de estrangeiros sem igual (sua própria população + 1/3, anualmente).

Mas… O terrorismo nas fronteiras francesas não é aquele “terrorismo regular”, hollywoodiano, que tanto nos acostumamos a imaginar com os filmes da década de 80 e 90.

Como o perfil dos agressores bem demonstra, a gritante maioria é de franceses (e não de estrangeiros, viajando com a missão de perpetrar os ataques, furando barreiras e controles de imigração…), descendentes de pais com outra nacionalidade (em especial, argelinos). Portanto, a guerra travada contra o terrorismo além-mar não consegue gerar um “escudo protetor” no país porque seus inimigos nasceram e estão lá dentro, desde sempre. Não há barreira ou proteção a ser superada.

Na minha opinião, a recente política externa da França com fulcro no aprofundamento da relação (e exploração) com suas colônias começa a cobrar um alto preço. Especialmente, a forma como esses imigrantes foram tratados – renegados aos ghettos parisienses – parece gerar a condição perfeita de mágoa, não-pertencimento, frustração, segregação e ausência de identificação com os valores nacionais, tornando esses indivíduos alvos perfeitos para o recrutamento de organizações terroristas, especialmente o DAESH.

O que pode ser feito?

Cansativo fazer um texto para o qual as respostas são vagas ou imprecisas, assunto onde não há consenso.

O que a grande maioria dos cientistas políticos e professores de Lei vão dizer (não sem oposição respeitável e considerável) é o seguinte:

  1. A guerra ao DAESH precisa ser feita e levada em seus territórios de domínio. Se colocar homens em solo talvez (e só talvez, já que pode não haver real alternativa) venha a ser má ideia (como outras forças de ocupação já demonstraram ser, antes), continuar lançando bombas teleguiadas não fará nenhum efeito na força do grupo terrorista. Não funcionou até agora.
    A guerra precisará ocorrer porque, atualmente, o poder físico e territorial do DAESH mantém o grupo armado, alimentado, organizado, com moral e poderoso. A ideia de que o DAESH estava acabado com os recuos no território iraquiano foi enganosa e descolada da realidade. Na verdade, a aceleração dos eventos de terror e o número de ataques sugerem exatamente o contrário: O DAESH tem ficado cada vez mais poderoso e tem células em diversos países. Estima-se que, atualmente, o DAESH está atuando em 50 países, seja por meio de territórios dominados ou países-alvos de ataques.
  2. A guerra ao DAESH não se resume à ação militar. O DAESH criou um novo tipo de terror onde o agressor não atravessa fronteiras mas, para desespero das autoridades, nasce e vive, desde o princípio, no seu alvo. Essa capacidade mobilizante e de propaganda que atinge, principalmente, homens jovens, por volta dos 30 anos, residentes nos países-alvo e com descendência de famílias de fé islâmica precisa ser estancada e combatida. O discurso e a retórica do DAESH precisa deixar de ser tão contundente nos corações e mentes dessas populações. E se é tão efetivo, é sinal de que essas populações estão desassistidas e isoladas da sociedade desses países; principal motivo pelo qual a mensagem é tão efetiva, creio.

De um ponto de vista histórico, o radicalismo islâmico tem sido sustentado muito por conta do abismo no desenvolvimento social desses povos. A miséria do indivíduo é justificada como fruto do seu distanciamento da lei de Allah.
A distorção do Corão – não obstante o fato de que seu texto seja, por vezes, patrocinador da guerra abençoada (embora, ela possa ser interpretada de forma light como uma “guerra” só no campo da fé e das ideias) – para justificar a Jihad tem o poder de arrebatar aqueles que estão completamente descrentes de uma chance de vida digna.
Vale dizer, também, que tal radicalismo não é exclusivo do Corão. A bíblia do Cristianismo, em seu velho testamento, justifica atrocidades não muito distantes do que pregam os radicais do Islã.

A diferença é que o ocidente continuou seguindo em frente e chegou no século XXI (com seus defeitos e qualidades, cabe enfatizar).
As sociedades do Oriente Médio, no entanto, parecem ter parado no século XI e ainda vivem os dilemas e valores das épocas das Cruzadas europeias: Sociedades com castas claras e intransponíveis, hierarquias familiares e dogmas inquestionáveis, a submissão da mulher ao status de objeto e propriedade e, por fim, o triste conceito de que em nome da fé não há limite, nem ato, que possa ser execrado, dada a aprovação de uma deidade – que, curiosamente, só pode ser ouvida por alguns indivíduos que nunca se matam, mas mandam outros para a morte.

Como fica a Rio 2016?

Quantas vezes já citei esse evento? Bem, pode parecer sensacionalismo, mas não é brilhante, nem exige uma mente maligna e genial, perceber que o evento que concatena dezenas de países será um alvo muito tentador ao DAESH e outras organizações que propagam sua ideologia através do terror (exempli gratia: Al-Qaeda).

Para se ter uma ideia, vamos a breve análise:

A Copa de 2014, no Brasil, teve ~350 mil pedidos de credenciamento entre autoridades, delegações, jornalistas, profissionais envolvidos com os jogos etc.

A Olimpíada de Londres, em 2012, teve ~420 mil.

A Olimpíada do Rio já tem 460 mil pedidos de credenciamento. Destes, 11 mil foram indeferidos.
E já sabemos: Nesse mar de gente, 4 deles estão, comprovadamente, envolvidos com o terrorismo internacional.

Não quer dizer que um ataque ao Rio é inevitável. Mas quer, sim, dizer que o alvo interessa.

O Brasil e a Segurança: A barbárie será, um dia, só um capítulo de nossa História?

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Foto de Andréa Farias / Agência O Dia / Rio de Janeiro

Bar·bá·ri·e
sf
1 Multidão de bárbaros.
2 Ação própria de bárbaros; atrocidade, barbarismo, crueldade..
3 Hábito de bárbaros.
4 Falta de civilização; atraso, barbarismo, grosseria, selvageria.

– Michaelis Online

Bem, não é preciso ser genial para perceber: O Brasil é um lugar muito inseguro.

“Uau! Parem as prensas! Já foi muita revelação para o meu fraco coração…”. ¬¬

Bem, eu acho que preciso ser mais enfático, mesmo: O Brasil é um lugar muito inseguro, comparado à países em guerra… Acho que melhorou, (a compreensão da desgraça) né?

Segundo o Atlas (também conhecido como “Mapa”) da Violência de 2016 (curiosamente, você não vai achar o estudo no site do IPEA [o link está “quebrado”, às vésperas das Olimpíadas, mas, isso pode ser só mais uma teoria conspiratória infundada, da minha parte], contudo, ele foi encontrado aqui:
http://infogbucket.s3.amazonaws.com/arquivos/2016/03/22/atlas_da_violencia_2016.pdf), o Brasil perde 59 mil e 500 indivíduos para a violência, todos os anos, com base no ano de 2014. Não há – ainda – consolidação dos dados para 2015 e 2016, o que é esperado para um estudo de consolidação estatística, feito por um órgão público.

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Fonte: IBGE/Diretoria de Pesquisas. Coordenação de População e Indicadores Sociais. Gerência de Estudos e Análises da Dinâmica Demográfica e MS/SVS/CGIAE – Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM

Em termos de taxa média, são 29,1 mortos para cada grupo de 100 mil habitantes, e isso é relativamente importante para não tornar o número, puro golpe midiático.

Explico-me: Se você mora em um país com 324 milhões de compatriotas (demografia dos EUA), a morte de 2.6 milhões de indivíduos por ano é absolutamente regular (dados, também, de 2014). Se seu país tem menos de 2 milhões de habitantes (como na Irlanda do Norte), por outro lado, 500 mil mortos anuais são 25% de toda a população – e seu país vai falir, ou ficar vazio (não necessariamente nessa ordem), em pouco tempo.
A taxa média nos ajuda a comparar laranjas com laranjas, e bananas com bananas, portanto.

Então, para te fazer perceber a estupidez do nosso número, aqui vai um TOP-5 macabro: Países com conflitos deflagrados (em guerra), os mortos em 2015, e a taxa para cada 100 mil habitantes.

País – População – Mortos em 2015 – Mortos/100 mil habitantes

Síria (Guerra civil[2011] + DAESH [ou “ISIS”]) – 17 milhões – 55.219 – 323,58

Afeganistão (desde 1978, em guerra) – 35.6 milhões – 36.345 –  102,09

Iraque (desde 2003) – 37.1 milhões –  21.433 – 57,77

Somália (em guerra civil, enfrentando insurgentes e engolfando até o Quênia, desde 1991) –  55.9 milhões* – 4.365 –  7,81
*Somália e Quênia somados, já que os mortos estão em todos os lados.

África (continente enfrenta o Boko Haram desde 2009) – 235.6* – 11.651 – 4.95
*Nigéria + Camarões + Níger + Chade somados: Todos sob ataque dos insurgentes.

Então, comparando a taxa nacional de mortes violentas para cada 100 mil habitantes, compensa continuar enfrentando o Boko Haram, ou morrendo de fome e na facada na calamitosa Somália. Você está mais seguro lá, do que aqui.

Em números absolutos, isso fica ainda pior. Nós matamos, violentamente, 59.5 mil brasileiros/ano. Isso é 7.7% acima do país com a guerra mais violenta no momento; a Síria. Portanto, matamos uma Síria por ano, mais 8% arredondados. Compensa, pelos 8% a menos de risco, ficar por lá.

E só ficamos “bem na foto” (se é que se pode dizer isto), pela média nacional… Se olharmos a taxa de mortos/100 mil habitantes nordestina, compensa (no, primeiro caso, por MUITO) ficar até mesmo no Iraque:

Alagoas: 63/100 mil;

Ceará: 52,2/100 mil;

Sergipe: 49.4/100 mil.

“Legal, estou convencido: Somos um país muito violento. Mas, o que tem de novo?”

Esse é, sem sombra de dúvidas, o maior problema: Não há nada de novo.

Sequer nos chocamos. Sequer nos apavoramos. Somos, enquanto sociedade, cidadãos, pais, irmãos, amigos, colegas; entorpecidos, anestesiados para “a Síria que morre” violentamente por ano, em nossa pátria. Melhor não citar “a outra Síria”, morta no trânsito brasileiro, anualmente, também.

A guerra do Vietnã durou 12 anos para os EUA (que entrou em 1963), e matou pouco mais de 58 mil norte-americanos. E o choque social dessas 58 mil mortes, ao longo de mais de uma década, pode ser sentido em movimentos sociais e frentes nacionais contemporâneos, ferrenhos em criticar a política externa norte-americana atual; horror e revolta provocada e mantida pela morte de militares, ao longo de uma Guerra de 12 anos e que já completou 36 anos de fracasso.

12 anos de combate. 58 mil militares mortos.

Matamos mais que isso por ano (crianças, mulheres, jovens e, não só militares [não que a vida de alguém valha menos, em função de sua profissão, claro]), sem remorso, sem susto, sem piedade, sem horror; conformados, calados, resolutos, resignados, apáticos… Nada mais nos comove, enquanto nação, enquanto sociedade civil; sociedade civil que é parte tanto da solução, quanto do problema.
Matamos sistematicamente, no que parece um macabro compromisso com a sustentação desses números, ano após ano, como se fosse um record a ser mantido e superado. Nosso maior desafio anual. Sabe como é: Com a gente, o negócio é deixar a meta aberta e dobrar!

Mas, “tristemente”, temos um desafiante nos destronando, e é hora de matar mais, porque o brasileiro não desiste nunca!

No momento, lamentavelmente, a coroa é da Venezuela com 90 mortos por 100 mil habitantes/ano. Oficialmente, o país que não está – declaradamente, ao menos – em guerra, mais violento do mundo.

Um tema pra lá de comum, quando esses números aparecem é:

“Ah, mas, no Brasil, a polícia mata demais! Quem mais morre são os negros, os pobres, os desassistidos e marginalizados!”.

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Foto: André Gustavo Stumpf – PM-DF

O mote, acima, tem uma porção de informações comprováveis, e outra porção de mitos, desinformação, e intenções questionáveis. Já adianto…

Verdade é que de 2013 para 2014, a letalidade policial subiu 37,2%.
Estima-se que ~3 mil pessoas foram mortas pelas forças policiais em 2014. Isso representa, no entanto 5% do total de mortes registradas no período. Embora pudesse ser perto de 0% e, embora possamos aceitar uma conspiração no sentido de que esse número está sub-notificado (aceitemos 10%, então, para a alegria dos opositores ao trabalho policial brasileiro; não obstante os dados de SP, RJ, sejam considerados realistas até por entidades ligadas à bandeiras típicas dos Direitos Humanos), ainda há que se falar em 90% dos 53 mil mortos, que não vêm da prática ruim do policiamento.

Mais: Para cada 4 pessoas mortas em confrontos com a Polícia, um policial morreu. A população do Estado de São Paulo? 43 milhões (segundo o SEADE). E a população da Polícia Paulista (PM, Civil, Cientifica)? 138 mil. Faça as contas da taxa por 100 mil, você mesmo, e diga-me quem deveria estar mais aterrorizado.

Também é verdade que jovens negros têm muito mais chances de morrer do que jovens de outras etnias (147% a mais, segundo o Atlas/2014). Mesmo considerando que mais da metade da nossa população é de negros e pardos (51%, segundo o Censo 2010), 147% a mais de chances, não é um número relativizável.

No entanto, o que se ignora é que educação é um fator preponderante de exposição à morte pelo crime. Grupos de jovens de 21 anos, de qualquer etnia e cor de pele, com menos de 7 anos de estudo formal, têm 16,9 vezes mais chances de morrer violentamente, do que aqueles que estudaram. Não é muito difícil supor, então,  que há uma grande abstenção escolar (maior do que nas demais etnias), entre os grupos de etnias afro-descendentes.

E, oras: Se mais da metade da nossa população é de negros e pardos, e se a Polícia “só” tem autoria em 5% (convencionamos 10%, para agradar os que acham o número sub-notificado), então é bastante provável que negros e pardos estejam matando negros e pardos, ou, o número de Carecas do ABC seja estrondosamente maior do que apontam as autoridades.
Brincadeiras (de mal gosto, eu sei; como os números que ignoramos) à parte, a guerra entre gangues rivais não é ficção. É a realidade periférica da nação.

Pedro Paulo Soares Pereira, “vulgo” Mano Brown, vocalista dos Racionais MC’s, em uma entrevista ao “Roda Viva” da TV Cultura, em 2007, declarou que para ele, o Brasil convive com 3 grandes enfrentamentos:

  1. Os ricos contra os pobres.
  2. Os negros contra os negros.
  3. Os brancos contra os negros.

Não obstante a minha discordância com os critérios dele para montar a lista, não posso negar que ele está muito mais envolvido com a conscientização do combate à violência, ao menos na periferia de São Paulo, do que eu estou. Deve, portanto, ter algum pesar em assumir essa consideração, tão triste para um líder (oficialmente ou não) do movimento de Consciência Negra.

Vou propor um rápido exercício: Só 5% dos 59 mil brasileiros morrem em confronto policial, então, pelo menos outros 50% têm que, seguindo a lógica, ser fruto do confronto entre os próprios criminosos. E outros 45%, imagino, entre criminosos e população. Não há, no estudo, números separados por “criminosos mortos” e “pais de família mortos”.
Toda essa divisão (exceto pelos 5% mortos pelas forças policiais), é arbitrária, claro.

Logo, tirando o que é morte por confronto com a polícia, não temos como saber quem morre mais:  Cidadão por bandido, ou bandido por bandido.
Então, antes de mais nada, longe de ser “bonzinho e amável”, o brasileiro é um indivíduo violento, só pela simples reflexão dos números expostos, até o momento, e sem falar da violência estatal.

Para dar “mais alento” à todos nós, fica o “calmante” de que para toda a criminalidade registrada nas delegacias, não são apurados mais do que 8% dos crimes.
Desses 8%, 2% são homicídios.

Eu vou diminuir – só um pouco – nossa vergonha, e não vou contabilizar o fato que juntando a estatística de mortos pela violência, e do mortos no transito brasileiro, matamos 2 guerras da Síria/ano.
Em resumo, sem falar de doenças, velhice, acidentes domésticos (todos estes, grandes ofensores da mortalidade nacional), só o crime e o trânsito superam os 100 mil mortos por ano, com facilidade e margem folgada.

A Segurança Pública como um “braço” da Segurança Nacional.

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Foto: Wikipedia.org – Forças Especiais em revista, no 7 de Setembro.

O capítulo “Segurança Nacional”, no Brasil, é bem complicado, controverso e feito de avanços e atrasos mensuráveis em décadas, em atos sub-sequentes.

Por “Segurança Nacional” quero significar aquela que se faz para proteger a Nação de agressores externos e internos, quanto aos interesses do Estado que, por sua vez, representa a sociedade que o empodera, e os interesses desta última, deve defender.

“Segurança Nacional” ≠ “Segurança Pública”

A Segurança Pública, de acordo com a nossa Constituição (art. 144), é assunto destinado aos estados. Daqui, já desdobra-se um dos efeitos dos anos de Ditadura: A desconfiança dos estados, em relação a uma Federação (União) intervencionista, levou os constituintes a garantirem a autonomia estadual quanto ao assunto, no Pacto Federativo.

Portanto, a organização, investimento, e políticas públicas que pautam as polícias civis, militares e órgãos correlatos, é do Chefe do Executivo Estadual (Governador[a]). Já a Polícia Federal é de responsabilidade do Chefe do Executivo Federal (Presidente).

Assim, temos essas situações bizarras de um Estado informatizando suas delegacias e interligando sua polícias com GPS, sistemas de câmera e OCR de placas de carro e etc. (SP), e um Estado onde as novas turmas de Policiais Militares são dispensadas ao meio-dia, todos os dias, por falta de dinheiro para pagar o almoço dos alunos (RJ). No entanto, mesmo sem a carga horária esperada, pode apostar que estes últimos estarão nas ruas, sem nenhuma reposição da carga perdida.
É claro que, sob a lupa, nem SP, nem RJ, têm seriedade no investimento (não só de verba, mas de qualidade e planejamento) que fazem para a Segurança Pública. Mas, essa “liberdade administrativa” total, gerou um desequilíbrio difícil de transpor, aprofundado por anos, e que gera aquele triste mapa do começo desse artigo.

A Segurança Nacional, no entanto, é uma política muito mais abrangente, e essencialmente, mais militarizada.
Segurança Nacional que, aliás, inexiste em nossa lei Federal, e muito menos na Constituição.
Não vou contar a longa história (acreditem, é bem mais longa do que vou expor). Vamos ficar com a curta:

A idéia de “Segurança Nacional” aparece, no Brasil, no pós Segunda Guerra Mundial. Especialmente, os militares de carreira com grau de oficialato, foram mandados para os Estados Unidos da América que treinou e ensinou o conceito norte-americano nesse assunto.
É bom contextualizar que o pós WW-II, é o começo das tensões entre URSS e EUA, e isso leva às páginas da bem conhecida Guerra Fria. Assim, os EUA, abertamente, ajudaram países a “resistir” ao avanço comunista, e esse programa de treinamento de militares era uma das faces desse portfólio.

Dessa leva de militares de carreira, formados nos moldes das escolas dos EUA, nasce a ESG (Escola Superior de Guerra), instituída pela lei 785/49, e diretamente ligada ao Ministério da Defesa.
Não respondendo á nenhuma das 3 forças armadas, mas, formada por todas elas, a ESG tem a missão atual de prover Altos Estudos de Política, Estratégia e Defesa, sendo um órgão de puro desenvolvimento Acadêmico (inclusive para civis), e não tendo desenvolvimento de táticas e exercícios militares práticos em seu currículo. Puras estratégia, política, diplomacia, e inteligência compõem a grade dos cursos.

A ESG tem uma história muito polêmica, pois, era considerada uma Escola de formação do pensamento conservador de Direita. É dessa escola que surge o embasamento para o Ato Institucional nº 1 que, entre várias medidas arbitrárias, tem a agressiva medida de mudar a eleição presidencial para o modelo indireto, colegiado (embora as pessoas apenas se lembrem do nome “AI-5” [que não é uma divisão ou um grupamento, mas, uma lei], é o AI-1 que inicia, legalmente, a ditadura no Brasil).

Mas, é também essa linha de pensamento que fundamenta a ESG, que fundamentaria o capítulo de Segurança Nacional da Constituição de 1946, e mais tarde, a própria ESG aumenta o entendimento de “Segurança Nacional” na CF/1967 (inclusive, com pena de morte para os crimes contra ela),  e que estabelece os padrões de atuação, engajamento, e estruturação da proteção Nacional, bem como dos órgãos de inteligência, como o finado SNI (Sistema Nacional de Inteligência), sendo um órgão que, a despeito do seu triste emprego ditatorial, era muito avançado e organizado.

Com a redemocratização brasileira e, tendo em vista a grande fobia militar dos constituintes de 88 (que excluíram o capítulo de Segurança Nacional, e substituíram pelo atual capítulo III, “Segurança Pública”), culminando com a ascensão de Collor, em 1990, o presidente (que viria a ser impedido) decreta o fim do SNI. O fim do órgão não é só um momento de vácuo administrativo e executivo, mas, gera tal desordem na Inteligência brasileira que os operadores do Sistema deflagraram uma crise (que ficou conhecido como Escândalo dos Arapongas, na década de 90) onde espionavam candidatos e oposição, a serviço dos poderosos de Brasília.

Atualmente, o termo “Segurança Nacional” aparece apenas uma vez na CF/88, e sequer dá-se o tom do que ele significa para nossa Nação e para a própria lei. É mera citação, vazia e sem contexto.

Como não temos Segurança Nacional – nem o conceito, nem a lei, nem “nada” – as idéias são difusas, espalhadas, pontuais. Não há um grande plano, esquematizado, construído ao longo dos governos, e incrementado conforme a evolução do cenário global, das ameaças regionais, e dos objetivos do Estado Brasileiro. O que interessa é o agora. O que interessa é a Urna, no próximo turno.
E que Deus salve essa terra, de seus inimigos e vilanescamente interessados. Porque nós, povo, não temos nenhum compromisso respeitável com esse capítulo.

Para não passar total vergonha, podemos citar o SISFRON, projeto elogiado e estudado em países como os EUA, patrocinado e mantido pelo Ministério da Defesa Brasileiro, e que junta um tripé de vigilância, inteligência, captação e triagem de dados e informações, mais o emprego de grupamentos e equipes especializadas, nas áreas de fronteira mais perigosas do Brasil.
Atual e lamentavelmente, o programa só existe na fronteira com a Bolívia e Colômbia. Devido ao forte “tremor” político, o programa perdeu espaço, pauta, destaque, investimento e orçamento.
Seu futuro é, agora, incerto. Mesmo sendo internacionalmente elogiado, o programa que seria um grande aprendizado à Segurança Nacional, não tem prestígio em uma Nação onde população e políticos, só sabem discutir segurança de uma maneira remediativa, pontual, midiática e sensacionalista.

A ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) que foi recentemente instituída no ano de 1999, por FHC, tem seus acertos e melhorias, mas, não é preciso ser genial para saber que inteligência – do ponto de vista militar – é algo mantido com dinheiro. Inteligência não dá votos, em um país que não tem nenhum interesse no assunto.

Afinal, como todos sabem– e se não sabem, não deviam falar com a propriedade que demandam, sobre o assunto – o crime organizado brasileiro é totalmente baseado no tráfico de drogas e armas.
O “senhor do crime e seus asseclas”, nos morros desse Brasil à fora, não mantém seu controle com pistolas .380 (as únicas à disposição da população para auto-defesa, de forma legal) mas, com armas que, por vezes, sequer o Exército brasileiro possui.
A porosidade da nossa fronteira é conhecida para qualquer um que acompanha as apreensões de drogas e contrabando em geral. São dezenas de toneladas anuais.
A droga é a mercadoria do Morro. E a droga é a moeda que faz o caixa, o capital do crime. E a droga não é feita aqui (via de regra).

Então, quando pensamos em Segurança Pública de qualidade, ela é, na verdade, uma necessária decorrência de uma política séria, embasada, e de longo prazo, sobre o assunto “Segurança Nacional”. Sufocamos o contrabando internacional, e as drogas param de abastecer os morros, e as armas de longo alcance ficam sem munição e reposição.

Já vimos que, como programa, projeto de Estado (e não de governos que se sobrepõem e se recusam a continuar as idéias boas dos antecessores) a Segurança Pública é minada pela “liberdade administrativa”, como me referi, anteriormente.

E agora, com a completa ausência de um plano previsto, elaborado e amparado em lei, para falar em Segurança Nacional e começar a combater a origem do dinheiro do crime (as drogas que entram por todas as fronteiras nacionais), e a força que este emprega em sua manutenção territorial (as armas de grosso calibre e letalidade de “nível militar”, também, “imigrantes” em abundância, via fronteiras), fica bastante claro que a solução para a violência, no Brasil, está muito, muito distante.

O Brasil, diante das Olimpíadas, e a missão aterradora de fazer um evento pacifico, diante das ameaças do DAESH, e de uma ameaça bem mais presente: O crime do Rio.

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Colagens do DAESH, Comunidades do Rio ocupadas, e os Anéis das Olimpíadas. Imagens com reuso e modificação, para fins não-comerciais, autorizados.

Não quero me estender nesse tópico, mas, sinceramente, como um dos futuros expectadores dos Jogos, estou severamente preocupado com as Olimpíadas do Rio, a iniciarem-se em 4 de Agosto de 2016.

Mais do que com minha própria segurança, não consigo deixar de ver a falência de estratégias de Defesa e Segurança Nacional com décadas de bagagem, como é o caso da França, da Turquia (esta que, ao contrário da Europa, vive com a violência terrorista há muito tempo) e pensar: Como um país tão imaturo em, praticamente, tudo… Estamos prontos para enfrentar as ameaças externas e internas, à segurança e integridade de um “mini-mundo” a estadiar no Rio, pelos próximos 2 meses???
A França acaba de sofrer mais um atentado em seu território, e não faz nem um ano do Massacre na Casa de Shows de Paris. A Turquia lida com carros-bomba, regularmente. A estratégia de Defesa e Inteligência das duas nações (em especial, da França), está ano-luz do que engatinhamos por aqui. E não foi suficiente.

O Chefe do Estado Maior, Almirante Ademir Sobrinho, fez questão de demonstrar profunda tranquilidade com as informações disponíveis, e ratificou que as agências norte-americanas, europeias, e até Israel, trabalham ativamente com a ABIN e as Forças Armadas brasileiras, para detectar qualquer ameaça aos jogos. Mas, saberia a CIA, ou o Mossad, como monitorar as favelas da Maré, ou o Complexo do Alemão?
A pacificação do Rio falhou, miseravelmente, e basta ver o resgaste cinematográfico, recentemente perpetrado no Hospital do Rio, ver as faixas das organizações Policiais no saguão dos aeroportos, mais as recentes declarações de Eduardo Paes à jornais estrangeiros, para saber que, não: Não está tudo bem.

Polícia Interligada, Inteligência, Melhor armamento, Treinamento… É isso? Essa é a solução para a violência cotidiana, no Brasil?

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Foto: Wikipedia.org – Criança em lixão no Distrito Federal.

Não… Infelizmente, diferente dos vídeo-games de simulação, colocar delegacias, aumentar a verba da Segurança (Nacional e/ou Pública), abrir acadêmias de Inteligência… Nada disso; nada disso resolve o índice de “sucesso” do crime no Brasil.

A teoria básica para um Estado bem-sucedido, é fundada em três pilares:

  • Educação Pública, de qualidade, do fundamental ao médio (procurem os dados da nossa performance no PISA; é para morrer de desgosto).
  • Saúde Pública, Universalizada, ou, pelo menos, saúde privada, plenamente acessível (procurem o teste que o SUS idealizou [IDSUS] e em que ele mesmo não passou).
  • Segurança, em toda a sua complexidade e dimensão (releiam o post :-p ).

 

O Brasil é péssimo, em todos esses aspectos. Quero ver algum contra-argumento. Sério: Quero ver. Por favor, me animem com alguma boa notícia, em algum desses temas… É sério: Vou ficar grato.

Quando penso nas fileiras de candidatos às carreiras das Ciências exatas (famosas por gerar tecnologia, patentes, indústria, empregos)…
Quando penso no perfil estudantil da maior parte dos candidatos às carreiras de professorado (os piores alunos são esmagadora maioria dos que querem lecionar, no Brasil)…

Mas, principalmente, quando penso nos salários das profissões disponíveis para quem tem uma escolaridade tão triste, como a grande maioria da periferia… E comparo com o dinheiro (e o poder) que o tráfico e o crime oferecem à todos eles…
Colocando-me nos calçados (quando tem) de um menino, cujo pai é inexistente, e a mãe é uma viciada em crack; frequentando uma escola falida, com uma quadra esburacada, livros didáticos com erros de matemática, português, grafia de palavras… Professores com dificuldades de ler e compreender um texto…
Quando penso nesse menino… Nessa menina… Não consigo ver como pode o Estado Brasileiro; como pode a lei brasileira do Estado legítimo, ser o caminho escolhido para trilhar, desse futuro “projeto de problema social”.

Não: Não estou a fazer NENHUMA abonação, atenuação, ou sequer relativização sobre o certo e o errado: Obrigação de cada cidadão é de fazer o bem e ponto, independente da história de vida, pois, não existe Estado; não existe Nação, não existe nenhuma dessas construções sociais, sem a presença de cidadãos responsáveis, honestos, dedicados ao bem; exatamente o que esperam do país em que moram.

Mas, isto tudo dito e ratificado… Insisto que, não vejo como convencer um jovem engolido por esse mundo nefasto em que nasceu e cresceu, e como convencê-lo da validade de jamais desistir do bom caminho.

Afinal, diante da total privação de esperança, o homem deixa de temer o mal.

Nunca foi sensata a decisão de causar desespero nos homens, pois, quem não espera o bem, não teme o mal.

– Nicolau Maquiavel