O judô e a lei; as olimpíadas e a vida.

Créditos da imagem: Reuters / Kim Kyung-Hoon

Nota: Este texto foi escrito em 31 de julho, mas publicado em 1 de agosto de 2024.

O judô nos ajuda a entender que a preocupação é um desperdício de energia.

KANO, Jigoro.

Poxa, Kano-Sama… Fico sem graça de admitir, mas talvez seja o caso de eu devolver a minha faixa ao Katchborian-Sensei. Ela nem é tão graduada… Tá ali, no meio da lista dos kyus ( = faixas coloridas)… Mas eu não aprendi a parar de me preocupar ou, ao menos, a tratar as preocupações da vida como desperdício (e, portanto, ativamente evitá-las). Em qual dan (que é o grau da faixa preta) o senhor estimava que o Judô ensinaria isso ao judoka (“ka” ~= “praticante”)? Só pra eu ter uma noção do quão longe estou dessa iluminação…

Quem me acompanha mais de perto por aqui, sabe que sou apaixonado por olimpíadas. Claro que acompanho copa do mundo de futebol; nasci no Brasil, isso está no contrato social do país. Mas olímpiadas, eu tiro férias. Nada é mais importante dentre “as coisas sem importância” na minha vida, durante essas 3 semanas.

Cesare Pavese disse que toda a vida é política. Ele também é o dono da frase tão repetida por aí de que “política é a arte do possível”. Lembro de Pavese porque há quem não consiga tratar nada pelo seu valor de face. De outro modo, para algumas pessoas, tudo tem uma agenda oculta e, tendo, não se pode apreciar nada pelo que está imediatamente disponível no seu corpo de significados mais visível. Ainda, de outra forma, as olimpíadas, enquanto evento organizado e mantido por instituições privadas, atenderiam a interesses tais que sua função de superestrutura é evidente (numa classificação Marxista, importante para o argumento, porquanto se põe como teoria crítica da sociedade capitalista que teria fundado também os jogos e seus propósitos menos óbvios).

Não tô me fazendo entender? Vamos de novo: para muitas pessoas, todos os eventos que envolvem lucro financeiro têm apenas a função de enganar e distrair as massas enquanto os verdadeiros fenômenos de controle e submissão são ainda mais apertados contra os nossos lombos. Pão e circo na sua forma mais refinada, é o que é uma olímpiada. Se for em 4K então, vixe…

Então, como é que eu gosto de olímpiadas se a missão dos jogos é me enganar para a verdade da minha situação, sempre mais precária do que ontem? É simples: eu não compro a explicação que acabei de dar. Ou, melhor dizendo, eu não compro a parte em que ela faz dos jogos olímpicos algo a se detestar.

Oras, ninguém tem duvidas do poder do “Sportswashing”, tem? Alguém acha que os países árabes injetam caminhões de dinheiros em clubes de ligas europeias ou compram uma porção de jogadores que custam milhões de dólares mensais (eu disse “milhões de dólares… mensais…”) porque “amam muito ver futebol de alto nível”? Sério? Alguém acha que o Catar brigou para sediar a copa do mundo de futebol, por amar futebol? A seleção profissional do Catar não passou da fase de grupos e fez um mísero gol! Que amor pelo futebol é esse?

Mas aqui vem uma dualidade: Se as pessoas orquestrando esses eventos não amam os eventos que orquestram, as pessoas que participam da feitura deles (de forma direita ou indireta) e que assistem a eles, os amam. Eu amo, pelo menos. O que eu recebo do esporte é exatamente o que ele me dá, na hora em que me dá, sem efeitos anteriores ou ulteriores. A transação é imediata. Eu me irrito, eu comemoro, eu me emociono e eu vibro, no momento em que tudo está acontecendo. Não esqueço de nada do que vai mal antes e depois do evento. Não lembro de mais nada, durante.

Mas os esportes olímpicos têm algo a mais, para mim. Há algo inato do espírito olímpico e que me encanta. Em especial, a capacidade de transformar histórias comuns em “contos de fadas” esportivos. Geralmente, muito sofrimento e dedicação, sem recompensa certa, histórias iguais a da gata borralheira. Mas quem salva o atleta não é um príncipe, senão o próprio atleta e sua jornada até o topo do Olimpo (“olímpiada” vem daí, espero que saiba). Tem gente que vem “do nada” e brilha numa competição. Tem gente que faz parte de uma dinastia e continua a brilhar. Quem não tem tradição, posse, título ou nobreza e, ainda assim, escreve seu nome eternamente na história dos jogos e dos países que representaram. E quem vem para provar os motivos de sua fama e supremacia herdadas. Tem de tudo. É realmente representativo da vida real. É democrático, neste sentido.

Eu não faço a menor ideia de qual é o tamanho do judô no México, mas toda a vez que um (ou uma) mexicano(a) encostar no tema “judô + México”, terá de passar pelo nome de Prisca Awiti, primeira medalhista olímpica na categoria, conquistando a prata no mesmo dia em que esse texto foi escrito. Isso também é verdade para o/a brasileiro/a que encosta em “judô” e “Brasil”, mas aí, a lista é tanto quanto mais longa. O judô é o esporte mais vitorioso para o Brasil em toda a história dos jogos olímpicos modernos. De Chiaki Ishii em Munique, 1972, até William Lima e Larissa Pimenta [UPDATE: Beatriz Souza ganhou ouro e o time misto do Brasil foi bronze] em Paris2024, há gerações de atletas que não podem ser esquecidos pelo judoka brasileiro, consagrados no fogo dos jogos olímpicos, trazendo várias medalhas a cada edição da competição.

E como isso desemboca em “lei”? “Lei”? Pois é: “lei”. Foi o que coloquei no título, né? Tem que fazer algum sentido. Ou não. Mas prefiro que sim.

Hoje, acordei cedo. 6h da manhã. Deveria ter acordado mais cedo. A primeira luta de Rafael Macedo, judoka brasileiro na categoria até os 90 quilos, estava prevista para a sétima posição do programa que começou às 5h da manhã, hora de Brasilia. Só que eu não estava totalmente convencido das chances “de ir longe” que Rafael tinha, e eu tenho acordado cedo quase todos os dias então eu pensei “me desculpe, Macedo: se você fizer por merecer, terá todo meu apoio em sua segunda luta, a partir das 6h”.

E Macedo disse “ah é, seu gordo desgraçado?! Eu vou fazer você perder o dia inteiro comigo, pra você aprender a respeitar o meu esforço!”. Eu não tenho provas, mas fontes confiáveis me disseram que Macedo ficou extremamente motivado quando descobriu que um judoka amador e que não terminou o ciclo básico de masterização da arte, decidiu dormir ao invés de assistir a ele nas olimpíadas. Essa coisa de atleta tirar motivação de qualquer lugar… Incrível.

Preciso confessar que a pesagem em que Macedo luta não me emociona. Os 90 quilos começam a ter uma característica que acho muito irritante no judô contemporâneo, que é a tendencia a renunciar da técnica em prol do emprego da força bruta como meio de derrubar o oponente. Tudo que Jigoro Kano, criador do judô, disse para não fazer. Se engana, porém, quem vem com a explicação que “judô” quer dizer literalmente “caminho suave”. Essa interpretação é meio equivocada. Primeiro porque Jigoro Kano era um homem das ciências. Ele não acreditava em forças místicas e inexplicáveis, e ele entendia muito bem os princípios de alavanca que a física já havia consagrado, bem antes do seu tempo de vida. Portanto, Kano-Sensei sempre soube que ninguém tira 100 quilos do chão usando apenas a força do cosmos ou do ki, tampouco por meio da “suavidade”. O que Kano-Sensei se perguntava sempre é “como eu faço isso da forma mais eficiente quanto possível?”. Essa é a essência do judô.

O primeiro princípio do judô é o Senryoku Zen’Yo: máxima eficiência com o menor esforço. Os outros dois princípios do judô seriam o Jita Kyoei, ou “benefícios mútuos” (um treino ou uma luta só são bons para mim se forem bons para meu parceiro de treino) e o último, Ju, significando “gentileza” (uma preocupação que vinha do aspecto mais educador de Jigoro Kano, formado em educação física, e muito preocupado com os impactos do judô na formação dos alunos, para além dos tatames. Tem bem mais a ver com a conduta do judoka do que efetivamente com expectativas de “gentileza” durante os combates no treino [que chamamos de randori]).

A pesagem que mais gosto no masculino é 73kg. Também assisto com gosto (porque assistir, eu assisto tudo) o pessoal dos 66 e 81 e, geralmente, as lutas são muito boas. Mas, eu acho que a melhor combinação “força/agilidade” está mesmo nos 73 quilos. Para mulheres, as categorias que mais me animam são as de 57 e 63 quilos, pelos mesmíssimos motivos já expostos. Haverá lutas incríveis nos 70kg feminino? Claro. Lutas incríveis podem ocorrer em todas as pesagens (e ocorrem, por isso eu assisto a todas). A questão realmente é sobre as chances das grandes lutas acontecerem e de não acabar em algo em que os atletas são muito leves (e aí a luta é frenética, mas sem força para grandes golpes), ou muito pesados (e aí é só força, quase nenhuma velocidade, e o gás acaba no primeiro minuto de combate… Costuma ser entediante assistir).

Então, aqui estou eu, tentando falar de Macedo. O que houve com Macedo, afinal?

Bem, se você trabalhou o dia todo (lamento por você) e não teve chance de ver nada das Olímpiadas 2024 hoje, Rafael Macedo estava no caminho da final olímpica, tropeçou nas quartas-de-final, passou pela repescagem e foi disputar um dos bronzes (o judô-competição entrega 2 bronzes, uma prata e um ouro por categoria de pesagem). O caminho até a luta pelo bronze, que ocorreria perto das 12h30 (Brasília) foi incrível e Rafael não teve uma jornada fácil até lá. Mas, tampouco ele assistiu a isso tudo acontecer. Ele foi determinante no próprio sucesso, lutou muito, teve um volume de combate incrível e, ao final, chegaria à derradeira luta contra um representante dos donos da casa, Maxime-Gael Ngayap Hambou. Macedo, com 29 anos, segundo ciclo olímpico depois de Tokyo2020, enfrentaria um jovem de 23 anos, em seu primeiro ciclo olímpico. Macedo, que ocupava o 11º lugar no ranking IJF, com 3863 pontos conquistados, contra um Hambou, em 38º lugar, com 1870 pontos acumulados antes da luta.

“E para que serve saber as posições do ranking?”, você pode se perguntar. Ao que respondo: para nada. O ranking não luta por você. O ranking não garante absolutamente nada na luta à sua frente; no máximo, conta o que você já passou para estar ali. O ranking, aqui, demonstra como Macedo era (e é) mais experiente e mais calejado pelo judô-competição do que o jovem francês, em início de carreira profissional. Hambou, aliás, entrou na seleção francesa “de última hora”, por uma vaga que surgiu de forma inesperada.

Inesperado, também, foi o resultado da luta. No judô contemporâneo, a luta dura 4 minutos. Se ninguém pontuou nada, inicia-se o Golden Score. No judô atual, há dois pontos possíveis: o Ippon (o ponto perfeito, que encerra a luta imediatamente), e o Waza-ari (se lê uaza-ri, não é “vazari”. A língua é japonesa, não alemã – mas claro, você pode seguir falando errado; direito seu…). O Waza-ari é um “quase-Ippon” onde algum elemento previsto nas normas para a definição do ponto perfeito não foi atingido. Pode ser falta de força na projeção, pode ser que o atleta atingido não tenha caído da forma como a regra exige (geralmente de costas, ou se defendendo com a “ponte” feita usando o pescoço, ou com os dois cotovelos), ou quando há o rolamento de uma omoplata à outra… Pode ser que o judoka que aplicou o golpe não demonstre o total controle durante a queda, mas só parte dele. O golpe pode ocorrer em dois breves e consecutivos momentos e não de uma vez só… Enfim, há muito julgamento para explicar porquê um Waza-ari não chegou a Ippon. Mas você só precisa saber que o Ippon termina a luta instantaneamente, enquanto o Waza-ari mantém a luta em andamento. Exceto se houver um segundo Waza-ari (o que se converte em um Ippon), OU, se a luta está no golden score. Aí, qualquer pontuação encerra o combate.

Há uma terceira forma de uma luta de judô acabar e essa forma, acrescento, é a mais lamentável de todas para o esporte em si. Ocorre quando um dos atletas sofre três punições do corpo de árbitros. Essas punições são chamadas de “shidô”. E 3 shidô’s levam à desclassificação ou (hansoku-make). Algumas faltas são tão graves que você sofre a desclassificação imediatamente, sem passar pelos 2 shidô’s de aviso. Um soco na cara, por exemplo. Os shidô’s, por outro lado, ocorrem por motivos banais como falta de combatividade, falso-ataque (fingir o golpe sem fazer nada para realizá-lo de verdade), postura muito defensiva (evitar a pegada do adversário no seu judo-gi [o famoso – e impreciso – “kimono”]).

Bem, a luta entre Macedo e Hambou estava ótima (eu disse que, independentemente da pesagem, há lutas boas em todos os pesos, não disse?), e apesar da vantagem na envergadura (o francês sendo mais alto que o brasileiro), em dado momento, Hambou não tinha mais energia para enfrentar Macedo. O brasileiro estava dominando a luta aos 3m55s, há apenas 5 segundos do golden score, onde qualquer punição ou ponto encerraria a luta.
Aliás, ambos os atletas estavam empatados em shidô’s por falta de combatividade e postura muito defensiva (evitar a pegada). 2 para cada. O próximo shidô, para qualquer um, encerraria a luta.

Há 5 segundos, Rafael Macedo consegue uma projeção (o resultado ilusta este post), projeção que eu já vi outros juízes marcarem como waza-ari. Mas ainda era o tempo regulamentar, e faltavam 5 segundos, portanto, a luta continuaria. Porém, o arbitro, sr. Vyacheslav Pereteyko, não marcou a pontuação. No solo, faltando 5 segundos, Macedo caiu com o adversário em posição de vantagem, e começou o trabalho de solo, que chamamos genericamente de “ne-waza” (se lê “nê uaza”). Macedo estava perto de imobilizar o adversário, situação em que o juiz deve dar o comando de voz “osaekomi”, literalmente “imobilização”. Abre-se a contagem e, em 10 segundos de Osaekomi é concedido a nota de waza-ari a quem está imobilizando. 20 segundos é o fim do combate por Ippon em favor de quem aplicou a imobilização. Macedo estava perto do bronze. Muito perto.

Depois do triste primeiro ciclo em Tokyo2020, onde caiu na primeira luta, com poucos segundos de combate, Macedo ia ser medalhista olímpico. Mas, o comando de “mate” (parar) ao invés do “osaekomi”, emitido pelo arbitro, anunciava o pior.

Uma revisão começou a ser feita pela comissão de árbitros (além do sr. Pereteyko, o judô de alto rendimento também conta com algo similar ao VAR do futebol) e, de repente, o arbitro ordenou que os dois atletas se reposicionassem no tatame como que para o reinício da luta e, ato contínuo, sinalizou a desclassificação de Macedo.

Rafael Macedo ficou perplexo. Seu técnico, puto. Eu, idem. Estavam, de novo, me fazendo reviver o horror das cenas que fizeram Maria Portela passar. O sangue já sobe, só de lembrar do assalto a Portela. Macedo projetou Hambou em 3 ou 4 situações. Ok, nenhuma delas era um claríssimo Ippon, nem mesmo um Waza-ari inquestionável, mas, de novo, já vi atletas receberem pontuações como essas por golpes piores em execução. E por que isso importa? Porque se o arbitro tivesse aplicado os mesmos critérios que seus colegas de arbitragem haviam aplicado antes, inclusive na mesma Paris2024, Macedo não precisaria correr os mesmos riscos, nem ir tão longe para conseguir o bronze. Macedo poderia estar para sempre no pódio de Paris. Mas não esteve. E não tem mais como estar.

A decisão da arbitragem é uma lambança, até agora. Vá lá conferir enquanto a lambança segue, no site oficial das Olimpiadas de 2024. A desclassificação de Macedo segue explicada como “motivo indeterminado”. A razão disso, em parte, é que houve um conflito de entendimento entre o arbitro no tatame e os 2 árbitros da mesa. Um deles viu uma possível segurada na parte interna da manga do judo-gi. Isso é, em tese, proibido, pelas regras atuais do judô. Guarde essa informação. Outra possibilidade foi aventada pelos canais que cobriam o evento e suspeita-se que um movimento de imobilização feito no adversário, utilizando o joelho e os tornozelos ao redor do pescoço do imobilizado, movimento conhecido como “sankaku-jime” e popularizado como “triangulo”, teria sido feito por Macedo. Tal movimento é banido no judô por elevado risco de lesão à cervical da “vítima”. A imagem deste post mostra esse golpe aplicado, ainda válido, como explico a seguir.

Se você procurar o vídeo da luta, vai ver que Macedo realmente começa um sankaku-jime naqueles aflitivos 5 segundos antes do golden score, tentando achar uma chave de braço (kansetsu waza), ou ajudar na imobilização (só ele sabe o que pensou), mas ele não está buscando o estrangulamento (shime waza), até porque está na direção oposta a do adversário, ambos caídos no solo após a tentativa de projeção do brasileiro. O francês tenta se defender, sem sucesso, e, nessa hora, recolhe o braço que protegia o pescoço. Pescoço que segue sob “a trava” do sankaku-jime de Macedo. A ação, reflexa ou deliberada, é tomada pelo francês, não pelo brasileiro. Não importa. O resultado é catastrófico para o nosso atleta.

A desclassificação leva Macedo da incredulidade ao choro, rapidamente reprimido pelo atleta.

Há muita confusão, o técnico brasileiro segue sem entender, a transmissão da Globo, contando com 2 judokas (Tiago Camilo e Maria Suelen Altheman) não consegue chegar a consenso do que houve. Olham o replay, acham que foi a manga, acham que foi o sankaku… Enfim…

Na entrevista após a eliminação, visivelmente abalado, Macedo segue o protocolo fúnebre estabelecido entre atletas e imprensa: pede desculpas pelo fracasso, fala que Deus sabe a hora certa para tudo, diz que não entendeu o que houve, mas se resigna dizendo que os juízes sabem o porquê e devem estar certos.

A partir deste ponto da história, eu começo a encerrar esse post. O judô doutrina, quase religiosamente, seus atletas para não enfrentar as decisões de arbitragem. Os motivos são, basicamente 2: Primeiro, porque é absolutamente inútil. Uma expulsão desse tipo simplesmente não é revertida. Revisão de Ippon para Waza-ari e vice-versa, vá lá. Recontagem de shidô’s também. Mas “a justeza das decisões” nunca volta atrás por reclamação do atleta. Se o juiz viu “infração”, ninguém o demove do que viu, exceto se os outros 2 discordarem (o que é raro). É quase um dogma do judô, digamos. E o outro motivo é mais complexo: o judô é uma arte marcial de origem japonesa. Hierarquia e respeito a figuras de autoridade estão intrínsecas em todos os ensinamentos que a arte passa. Você agradece o senpai (seu colega, mais velho que você [e normalmente mais graduado]) por toda a sessão de treino, mesmo que você passe a aula inteira caindo para ele treinar os golpes dele. Você agradece o sensei por cada palavra, cada lição. Os juízes também são judokas, a maioria, aposentados da parte competitiva, mas ainda ativos no ensinamento da arte. Não se discute, ponto. “É a lei”…

E o problema está aí: Ao não discutir, o judô vem piorando enquanto competição, ano após ano. O judô enquanto produto, como todo desporto que preza por público para fazer dinheiro, passa por um processo de “otimização” para os paladares mais diversos. Gente que nunca vê judô, na Olimpíada, espera por aquele golpe lá, “o ippon”. Você já aprendeu aqui que ippon é o valor do golpe. É um “10” que acaba o combate na hora. Posso aplicar um tai otoshi que vale ippon, e posso aplicar o mesmo golpe que valerá waza-ari. Depende de como faço o golpe e depende de como meu oponente se defende dele. Mas não é disso que quero falar. Quero falar que nesse processo de dita “otimização”, a luta, a arte marcial, está tendo seus valores de origem retalhados.

Exemplo: Jigoro Kano propôs um sistema de 40 golpes iniciais, chamados “Go kyo”. Um desses golpes se chama “kata guruma”, um lindo golpe que envolve um movimento de quadril e uma alavanca com as mãos, suspendendo o adversário por trás das suas costas, quase formando uma cruz entre ele e você (que está de pé). Depois, você termina de projetar o adversário ao solo. Um golpe lindo, plástico, completamente fiel ao Senryoku Zen’Yo e, no entanto, atualmente proibido. Proibido porque, em algum momento no começo dos anos 2000, alguém achou por bem que era melhor proibir “as catadas de perna”. Estariam esses movimentos “desvirtuando o judô”. No entanto, um golpe perfeitamente valido e funcional, criado pelo fundador da arte marcial, hoje, não pode ser feito em competições. Pelo menos, não pode ser feito com a eficiência com que foi desenhado.

No Direito, o estudo da “intenção das leis” é palco de imenso debate e esforço. Há livros e mais livros, teses e mais teses, autores que dedicaram a vida ao conflito entre o que passava na cabeça do legislador e o que o texto da lei, de fato, permite, obriga ou veda. Esse estudo da lei passa por um campo muito importante que é o campo da “hermenêutica jurídica”, palavra bonita para “interpretação da lei”. Esse texto já vai batendo a casa das 6 páginas e eu não vou transformar isso num artigo científico, prometo, mas eu preciso que você entenda a minha frustração por completo, quando eu vejo que a hermenêutica das regras do judô acontece, hoje, da forma mais grosseira e danosa possível à arte marcial, aos atletas e ao esporte. A hermenêutica do judô vem sendo feita ao arrepio da leitura sistêmica do que é a arte marcial, quais são seus princípios e do que ela visa ser. Qual é o contrato social entre judô e judoka? O que o judô promete à sua sociedade (os praticantes da arte e, claro, seus espectadores) e o que ele pede em troca? O que ele permite, o que ele obriga e o que ele veda?

Nada disso… Nada disso que eu disse, acima, parece ser levado em conta quando alguém “escreve a lei do judô”, nem quando alguém aplica a “lei do judô”. Tudo parece isolado, desconexo e, por vezes, contraditório. Em muitos momentos, a regra do judô parece ser a entidade que mais odeia essa luta. É como se o regulamento de arbitragem do judô tivesse sido escrito pelo pior desafeto de Jigoro Kano. Alguém tão odioso ao fundador da arte, que sua única meta é destruir a criação do desafeto por completo.

Eu tenho certeza de que se eu for ler a regra, vou achar 2 ou 3 pontos que explicam como é IDIOTA a desclassificação de Macedo, do jeito e pelos motivos que se deu. “Ah, mas ele pôs a mão na parte de dentro”, ao que pergunto, com toda a sinceridade, “E DAÍ?”. E se você disser “mas está escrito que não pode” e achar que isso basta, você seria o pior tipo de advogado. E também seria o pior tipo de juiz. Não quero ofender, mas é como vejo.

Em Direito, sempre recorremos a exemplos e todo professor de hermenêutica vai usar o clássico exemplo do direito de ir e vir. O direito de ir e vir é tão sagrado que é constitucional (significando que é mais bem protegido). Está lá no art. 5º da CF/88. Quer dizer, então, que como vossa senhoria tem o direito constitucional de ir e vir, ninguém pode impedir seu carro de passar nas rodovias sem pagar pedágio, certo? Você sabe que não. O mesmo sagrado direito de ir vir permite que você arrombe a porta da minha casa, e com uma marreta, faça outro rombo no fundo do meu quintal, pois assim é mais fácil ir de uma rua a outra, sem ter que dobrar à esquina, correto? Claro que não, de novo…

Então, que diabos de direito de ir e vir, sagrado e constitucional é esse, que eu não posso usar ele a hora que quero e como quero? Mas, esse é exatamente o ponto de estudar uma faculdade de Direito. Ninguém vai lá pra ler a lei. Isso, qualquer um com internet pode fazer. A lei tem que ser interpretada. E a interpretação da lei faz ela ser boa ou ruim, bem aplicada ou mal aplicada. Tal interpretação não se desvencilha de uma leitura sistêmica e principiológica do arcabouço jurídico em que ela se insere. É preciso entender as antinomias aparentes entre leis e direitos em colisão, e saber como resolver esses conflitos e contradições. É preciso saber quando um princípio flexiona a lei para que ela deixe de ter a interpretação fria que o texto puro lhe concede, para se tornar algo muito maior, muito mais abrangente, muito mais poderoso do que as a palavras por si só. Ou, em outros casos, poderes menores, escopos menores, tudo ao contrário. Quem define se é um ou outro? O advogado. E o juiz. E o promotor. E todos os agentes e operadores da lei.

Esta, senhoras e senhores, é uma das belezas do Direito: ele é vivo, e nenhum caso é igual a outro. O primeiro conflito do aluno de Direito é aceitar que “direito” e “justiça” raramente são sinônimos, mas quando o são, é um dia especial. Às vezes, o direito de um é injusto com outro. Cabe aos operadores do Direito equacionarem em que ponto um direito deve ser cumprido, ainda que injusto, e em qual ponto um direito deve ser suprimido para se fazer justiça, ainda que se reduza o direito “em tese”/abstrato de alguém. Como no caso do exemplo de “ir e vir”.

E COMO DIABOS ISSO SE CONECTA COM A HISTÓRIA DE MACEDO, RODRIGO, SEU BIZONHO LAZARENTO!!!

Calma… Respira…

A resposta é: Não se conecta em nada.

TÔ ZUANDO… Se conecta em tudo, ô calabreso… Você não prestou atenção enquanto lia, não? Vou ser explicito, então: NÃO IMPORTA se a regra diz que o sankaku no pescoço é causa de desqualificação. Importa se o arbitro entende que:

  1. o aplicador da técnica visou, dolosamente, executar uma manobra proibida (lembre-se que quando o braço está entre pescoço e o “triângulo”, a técnica passa a ser aceita como meio de imobilizar ou buscar a chave de braço. Não se pode usá-la para estrangular o pescoço do coleguinha, somente).
  2. A técnica causou mal à saúde do atleta ou, ao menos, se o risco, ainda que em abstrato, estava lá por inteiro.
  3. A parcela de culpa do atleta “vítima” da técnica, na conversão de um movimento, até então legal, para um movimento proibido.
  4. O que a regra em abstrato (o texto da regra, frio e escrito muito antes da luta) tenta autorizar, obrigar ou prevenir? Qual é o “espírito” dessa lei, dentro dos valores do judô?

A mesma discussão vai para a suspeita de “gancho” na parte de dentro da manga do judo-gi. Mesmas perguntas. Acrescida de uma: no solo, durante uma imobilização, qual a vantagem prática ao atleta atacando de fazer o “guarda-chuva” nas mangas, sendo que isso não impede o atleta vítima da técnica de parar a imobilização? Qual é a vantagem indevida que o atleta, no chão, ganha com isso? Em pé, claro, eu sei que é vantajoso. Mas e no chão?

“Rodrigo, você é louco? Que arbitro de esporte vai analisar tudo isso para aplicar uma simples regra desportiva? E em segundos?!?!?!”

E aqui está o motivo da minha agonia. Ninguém entende o que é passar, no mínimo, 4 anos se preparando para apenas um dia de luta. Alguns só tem uma chance. Idade, lesões, politicagem, eventos da vida (ser pai, mãe, acidente de trânsito, tragédia na família, sei lá…). Eu não entendo o que é passar 4 anos me dedicando para apenas um dia em que todo meu sofrimento, todas as minhas renúncias, toda a minha raiva e dor poderão, quem sabe, se converter num momento de glória. Eu só tenho uma chance e ela depende, em muito, da justa aplicação das regras do jogo. Não, eu não faço a menor ideia do que isso significa. Do que é ter um sonho tão grandioso, que cobra tão caro, que obriga tantas privações, e que lhe é tomado porque “ninguém vai estudar para aplicar as regras do jeito certo”. Não tem recurso. Não tem segunda instância. Não tem a próxima luta. Tudo começa e termina ali. Um ippon não marcado (em vista da incerteza do que vem depois) ou marcado equivocadamente (fechando a luta de imediato), e acabou.

Ok, eu aceito que esporte não é lugar natural para justiça. Aceito que os atletas conhecem as regras antes da competição. Aceito que ele poderia ser mais cuidadoso, evitar qualquer chance de desclassificação. Aceito todos esses argumentos no caso em concreto. Nenhum deles, no entanto, afasta o elefante na sala e que segue sendo: o que as atuais regras do judô querem proteger? O atleta, a luta, a essência, o espetáculo, o negócio de entretenimento[…] O QUE? Eu fico tranquilo com o silêncio, porque eu sei que ninguém sabe responder. Nem as pessoas que supostamente escreveram a última revisão das regras, porque nenhuma delas está pensando sistemicamente na arte marcial – se estivesse, este texto não teria razões de ser. Eles só se preocupam com a forma final do judô, que é o “judo para a televisão”, aquele que dá dinheiro e garante patrocinadores. Exemplo: se a regra atual espantar talentos mirins que, frustrados depois de perder um campeonato por uma regra mal aplicada, abandonam o esporte, foda-se. O que importa é o espetáculo atrativo.

Se fazem isso por malicia ou estupidez, ou ambos, já me escapa.

Mas, Rafael Macedo, esteja onde estiver, eu quero que você saiba que não acordei cedo pra te ver lutar, mas fui dormir tarde para escrever esse texto por você. Eu tô cagando para o que diz o placar oficial dos jogos de Paris, até porque, até agora, ele diz que nem eles sabem porquê tiraram a medalha de bronze de você. Cedo ou tarde, vão vir com uma resposta pronta e que os blinda, mas já é tarde. A prova de que você foi lesado por uma aplicação acéfala de regras está para sempre lá. Tem print pra todo lado, e quem acompanha o esporte de perto não vai se esquecer dessa bizarra manipulação (culposa ou dolosa) dos resultados em Paris2024.

Meu senpai, que foi quem me apresentou ao judô, Fernando, me disse: “será que não rola uma medalha Pierre de Coubertin pro Macedo?”. A medalha em questão é a maior honraria que o Comitê Olímpico Internacional concede a alguém.  Eu, honestamente, tenho até dúvidas se o caso de Macedo merece tanto. Não sei. Acho que é mais nossa revolta e menos o espírito olímpico. Comparativamente, nosso querido Vanderlei Cordeiro de Lima, agarrado por um louco nas Olimpíadas de Atenas, 2004, caiu e perdeu a liderança da prova, terminando em terceiro. Ao invés de se irritar, desistir, ou qualquer outra atitude compreensível, se levantou, mesmo com dores terríveis, e terminou a prova com um sorriso no rosto, de quem estava feliz de participar dos jogos, apesar dos diachos que a vida lhe impôs. Porém, cabendo a Coubertin para Macedo ou não, não posso me esquecer que isso envolve um comitê olímpico nacional e uma federação do desporto nacional sérios. COB e CBJ não são exemplos pra ninguém. Quanto mais, em brigar contra seus “superiores” internacionais, no caso, COI e IJF, por uma lesão tão complicada de provar, a um atleta de menor relevância como é o pobre Rafael Macedo, campeão de nada em Olimpiadas. Se fosse um Phelps do judô (neste caso, um Nomura ou um Riner), quem sabe. Mas não um Macedo.

Vai ver que, no fim, estavam certos os que acham que tudo é política, e que nada acontece sem uma agenda oculta.

Mas eu só quero mesmo que o Rafael Macedo saiba, de um judoka porcaria para um campeão olímpico: Eu sempre vou saber que Maria Portela era pra estar no pódio de Tokyo em 2020. E eu sempre vou saber que você deveria ser medalhista de bronze em 2024. De que isso vale? Nada. Mas é tudo que posso oferecer a quem me deu tantos sentimentos enquanto torci por vocês dois. Por favor, insistam, seja lá qual for o caminho de cada um. Portela já parou com as competições. O tempo passa, as lesões doem mais, e a vida não rebobina.

Observe cuidadosamente a si mesmo e sua situação, observe cuidadosamente os outros e observe cuidadosamente seu ambiente. Considere de forma completa. Aja decisivamente.

KANO, Jigoro.

É, Kano-Sama… Os judokas precisam voltar a aprender com o senhor. Todos eles, em todos os níveis e de todas as entidades ligadas ao tesouro com o qual o senhor nos brindou. Se verdadeiramente gostarem do judô, é claro…

ATUALIZAÇÃO: Embora o texto tenha sido escrito ontem (31 de julho), ficou tarde para revisar e deixei para publicar hoje. Isso me permitiu saber da fala do chefe da equipe brasileira de judô, Marcelo Theotonio, (que não é o chefe do COB, nem da CBJ). Ele disse que “punição a Macedo foi bastante controversa”. Se esse tipo de cargo não está pacificando a questão, tem coelho nesse mato…

ATUALIZAÇÃO 2: Podendo assistir às lutas de até 100kg no dia de hoje (1 de agosto), vi INÚMERAS marcações de waza-ari para golpes muito menos claros do que aqueles efetuados por Macedo. Também, foi um dia repleto de bizarrices nas decisões de arbitragem. Até “troca de lado” para a medalha de bronze ocorreu. Teve, realmente, de tudo (de ruim). De novo.

A minha semana na Rio 2016 (Ou “Porque eu amo os Jogos Olímpicos”) – Parte 1

De 1992 para 2016, as Olimpíadas são o evento feito pelo homem, que mais mexe comigo. Aqui, eu conto o porquê.

Arena Olímpica na Rio 2016
A visão da Arena Olímpica do Rio, no Parque Olímpico da Rio 2016, em nossa despedida, na noite de Sábado, dia 13 de Agosto. Foto: Bruna Andako

Acabou. :-\

Bem, para mim, “o melhor” já tinha acabado no último dia 14, quando, com uma precoce – e, honestamente, inesperada – tristeza nostálgica, me despedi do Rio de Janeiro, deixando o Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim (o “Galeão”) e, me dirigindo de volta à terra da garoa.
Dizer “adeus” aos Jogos olímpicos sempre me deixa um pouco chateado…

Os quase 9 dias que passei no Rio de Janeiro, em plena Olimpíada, foram uma das experiências mais marcantes da minha vida, em parte pelo meu forte carinho pelo Judô, mas, também, pela minha ligação com os Jogos olímpicos e a valorização que eu faço quanto ao evento.

Para provar que não é conversa de quem “de repente” virou o “fã número 1”, compartilho alguns fatos que justificam esse carinho.

Em rápido esforço, tento me lembrar da situação mais antiga da qual consigo recordar, na minha vida inteira. E lembro de 3 coisas:

  1. Ganhar uma estrela amarela que falava/cantava e piscava, dos meus tios maternos, em 1990.
  2. A chegada do meu irmão, em casa, em 1991.
  3. O acendimento da Pira Olímpica, pelo arqueiro para-olímpico (me recuso a escrever “paralímpico”), Antonio Rebollo, em Barcelona, 1992; o que vi pela televisão.

Juro por tudo que pode ser jurado que essas são as 3 primeiras coisas mais marcantes que me lembro.

É óbvio que, em 1992, com 6 anos, eu não sabia nem que o arqueiro era para-olímpico e, muito menos, que se chamava Antonio. Muito menos sabia que era polêmica a história sobre se a flecha acendeu mesmo a Pira, e sobre toda a maluquice de terem 4 arqueiros (selecionados entre 200) de prontidão, e de que o nome do arqueiro saiu no último minuto, e de que ele foi instruído a errar o tiro, por segurança da platéia na abertura (mas, que acertou as pessoas do lado de fora do Estádio, sem nenhum cuidado maior). Nada disso, realmente, me ocorria na época.

Ao som do movimento mais conhecido de “Carmina Burana”, (que não é uma Opera, mas um conjunto de 254 poemas dos séculos XI~XIII, o que eu também não tinha a menor idéia, em 1992) chamado “O Fortuna”,(um dos 24 poemas musicalizados pelo alemão Carl Orff, sendo a peça clássica mais conhecida da Terra)  que narra a sujeição de todos nós à Roda da Fortuna, que inflige ora dor, ora alegria no destino dos homens; aquela era a coisa mais grandiosa que eu já tinha visto. Tal abertura dos Jogos de 1992, devia ser “o maior espetáculo da Terra”, eu pensava… Dos jogos em si, confesso que lembro muito pouco. Mas a abertura ficou gravada para sempre.
Lembro-me também de perguntar para meu pai qual era a “mecânica” dos jogos (não usei essas palavras, certamente), e lembro de receber uma resposta simples, mas, bem válida: Os melhores do mundo em cada esporte, são chamados e, então, competem entre si para saberem quem é o melhor. Simples, um tanto quanto impreciso, mas marcante: Já eram os melhores. Restava saber qual era O melhor.

Em 94, o Brasil de Bebeto, Romário, Dunga e companhia foi tetracampeão do futebol mundial, e isso, para um garoto de 8 anos, nascido no país do futebol, tirou um pouco do meu foco nas Olimpíadas. A prova disso é que, em Atlanta, 1996, eu praticamente não acompanhei os jogos. Aposto que os próprios adultos – baseado no que ouço dos mais velhos de hoje – da época menosprezavam as Olimpíadas, tendo em vista nossa histórica má performance nos jogos, e o alívio imediato de dizer “Podem ficar com seus jogos. Somos os reis intocáveis do Futebol”. Diante disso, a história de 1996 é, pra mim, um simulacro: Eu sei da história de 1996, da abertura, dos resultados e etc., não porque vivi e tive aquilo marcado em mim, mas, porque assisti depois de adulto aos filmes oficiais do evento e etc.

Em 1998, o Brasil faria o papelão diante da França de Zidane, e machucaria um pouco do meu prazer de amar só e somente o futebol. Hoje, não posso não ser grato a Zidane, por isto. Triste seria minha limitação, até como ser humano, se só tivesse alegria no futebol, e não tivesse aberto meus olhos ao universo dos esportes que vão MUITO além do esporte bretão. No embalo que eu vinha, e tendo em vista minha ignorância à Atlanta-96, cercado pelo discurso dos mais velhos que em nada se alterava: “Nosso negócio é futebol. Deixa esse negócio de Medalhinha para os gringos.”, ou “Copa do mundo é MUITO melhor que Olimpiada”, o destino era a ignorância esportiva e o raso conhecimento de quem só assiste “se valer ouro”.

Sidney 2000

A derrota para Zidane me fez voltar a assistir, com mais seriedade, à Sidney 2000. Lembro da abertura, e lembro de várias competições.
Lembro de ouvir falar de “um tal” Tiago Camilo (sim, em 2000) que ganhara a Prata, no Judo. Carlos Honorato trouxe outra. Nessa época, o Judo não significava nada pra mim, mas eu já sabia, de tanto ouvir os comentaristas, que este era o “carro-chefe” do Brasil, em todas as edições dos Jogos, até então. Eu não poderia imaginar que eu ia me emocionar de conhecer um deles, 16 anos depois.
Os velejadores Robert Scheidt (prata) e Torben Grael (bronze), eram os queridinhos da mídia nacional, e estavam sempre aparecendo.
Na natação, o “monstro” Gustavo Borges era nosso sonho de Ouro, mas tivemos que nos contentar com o Bronze. O Xuxa (Fernando Scherer) estava presente também, e angariou outro bronze. A natação, ao lado do Judo, sempre foi a modalidade onde mais depositávamos esperança de medalha. Nessa edição, trouxe uma.
Assistir os jogos e competições de madrugada, em canal aberto, era um grande desafio. Até porque, eu acordava cedo para ir à aula no outro dia. Pelo menos, o fuso-horário salvou os jogos de terem de competir com o Brasileirão, ou a Novela. Até porque, se competissem, iam ser sempre os últimos no “pódio” das prioridades da grade.

Quando alguém reclamar da performance do Brasil em 2016, lembre esse alguém que em 2000, só tivemos 12 medalhas (6/6), e nenhuma era de Ouro. Terminamos em 52º lugar no ranking de medalhas. Muito pior que nosso definitivo 13º lugar de agora, com 7/6/6 medalhas.

Tantas coisas ocorreram em 2000, em especial, em prol das mulheres, como mostrou o filme oficial de Sidney, recentemente reprisado na ESPN; como de costume, antes da abertura de novas edições dos Jogos. Eu não tinha consciência da importância de Sidney para muitas delas. Pesquise e você também poderá se surpreender.

Em 2002, o Brasil, novamente, ganha a Copa, e eu volto a oscilar entre o que vivi em 2000, torcendo por dezenas de atletas, em diferentes modalidades, e o reacendimento da chama que dizia : “Brasil, o país do futebol”.

Atenas 2004

Mas, com 18 anos e bem mais consciente, não me deixei levar e assisti, tanto quanto pude (já que não tinha TV a cabo), a Atenas-2004. Emocionante retorno dos Jogos ao seu berço, uma abertura fantástica e rica em cultura (afinal, era da Grécia que estávamos falando!) e mesmo com toda a dificuldade de depender da rede Globo para assistir, tive a “sorte” de não ingressar na Fatec-SP de primeira, o que me permitiu ter mais tempo para ficar em casa e ver os jogos mais de perto.

Em 2004, arrasamos nossa marca anterior, terminando em 16º colocados, com 5/2/3 medalhas (ouro/prata/bronze). Até a Rio 2016, a nossa melhor atuação, sem dúvida.
Tivemos nosso Volleyball masculino brilhando com Nalbert, Giba, Dante, Mauricio, Sérginho e tantos outros, com o ouro no peito.
Tivemos Scheidt e Grael, agora com o ouro reluzente pendurado neles.
Tivemos Rodrigo Pessoa com aquele 100% inesperado ouro no Hipismo (Hipismo? No Brasil?).
Tivemos as meninas do futebol, com Marta em campo, chegando na final e ficando com a prata.
Tivemos Leandro Guilheiro e Flávio Canto, no Judo, com 2 bronzes.

Mas, acima de todos esses nomes, pódios e rankings, tivemos Vanderlei Cordeiro de Lima: Sem sombra de dúvidas, o brasileiro que melhor representou o Brasil para o mundo nas Olimpíadas de 2004. Liderando uma prova de maratona, e perto do fim que o coroaria com o ouro, Vanderlei foi atacado por um Cristão lunático Irlandês. Perdeu tempo, ritmo, força, mas, nunca desistiu.
E mesmo ficando com o bronze, quando deveria ser ouro, sorria como um menino feliz ao entrar no Estádio onde a prova se encerrava. Um exemplo que, na época, eu não conseguia entender (por que ele não esmurrou o ex-padre? Eu matava o cara de porrada se me levasse a chance clara de ouro, como levou), mas que tocou o mundo do desporto, e fez com que o COI o presenteasse com a medalha “Pierre de Coubertin” (o patrono da moderna Olimpíada). A maior honraria que um atleta olímpico pode receber. Muito maior do que um ouro e entregue, até hoje, a somente 18 pessoas… Eu só soube disso depois, e se ele tivesse agido como eu imaginava agir, jamais teria ganhado essa honra.

2004 foi o nosso melhor momento, e eu tive a sorte de ver, tanto quanto pude, essa festa mundial do esporte.

Em 2006, o Brasil do melhor futebol do mundo, voltaria a cair para a França, com uma Seleção que, no papel, deveria ser o estado da arte. Na prática, contudo… Deu no que deu.

À essa altura, eu estava mais e mais convencido de que o futebol recebia muito amor do brasileiro, por pouco “resultado” de performance (não títulos, necessariamente, mas qualidade da exibição). Para mim, no auge da polarização, “atleta de verdade” era Vanderlei, que treinava no chão de terra, e não com as chuteiras mais caras do mundo, como Ronaldo Fenômeno.
Claro que, hoje, diante do que eu sei, percebo o quão bobo era o meu comentário: Eram todos Atletas com A maiúsculo. Por suas biografias no esporte, seus caminhos, tropeços e recomeços. Cada um, no entanto, exposto à uma realidade bem diferente de incentivo – o que não: Não pode ser colocado como culpa do atleta, em si.

Em 2007, iniciei meu treinamento no Judo, graças ao convite do amigo, Fernando de Bem, e logo descobri que aquele era meu lugar nos esportes. Eu me sentia muito à vontade (o que não quer dizer que eu era bom. Apenas que amava aquilo). Assistir ao PAN de 2007 foi um “esquenta para o que estava por vir”. É claro que eu queria assistir, muito mais pelo Judo, mas o PAN tinha uma cara de “mini-olimpíada” e, num dado ponto, eu já estava torcendo por 5 ou 6 modalidades.

Beijing (Pequim) 2008

Chegou 2008 e Beijing (Pequim, se preferirem) também. Muitas pessoas assinavam TV à cabo, para ter mais filmes, mais canais com cultura útil (o que é discutível), e etc. Eu assinei só para poder ver as Olimpíadas. Não me envergonho. Aliás, no meu primeiro emprego com carteira assinada, eu fiz questão de pagar a cara TV a cabo brasileira, com aquele salário de 622 reais, e ainda me desdobrei para aprovarem minhas férias no mesmo mês dos Jogos. A meta era só uma: Assistir o máximo de eventos possíveis.

Foi a minha primeira Olimpíada de “gente grande”. Chega da palhaçada de ter que ver a luta do Judo no quadradinho menor da tela. Chega de perder o jogo de Vôlei no meio, só porque o técnico de futebol local estava dando entrevista. Agora, eu tinha quase um canal por modalidade, e todo o tempo do mundo. Eu estava muito feliz.

E que sorte! Foi a abertura mais sensacional, megalomaníaca, alucinógena, profunda (contar a história da China… Não faltou assunto) e cara (~R$300 mi), da história dos jogos.

Em 2008, a China foi um monstro na competição, engolindo todas as medalhas que apareciam. A performance chinesa atropelou EUA e Rússia, sempre tão tradicionais, sem muito apuro.

O Brasil teve 3/4/9 medalhas, ficando em 23º lugar.
Tivemos o Vôlei femino, Maurren Magi, e Cielo, trazendo a mais dourada medalha para casa.
Tivemos a prata na Vela, no Vôlei masculino…
Tivemos Katleyn Quadros, Guilheiro e, novamente, Camilo, com o Bronze no Judo…

Enfim, 2008 foi o ano em que, definitivamente, eu passei a amar mais a Olimpíada do que o futebol. E isso apenas se ratificou nos eventos seguintes.

Londres 2012

2008 foi um ano muito difícil para o mundo. A crise dos mercados devastou o velho continente e, claro, engolfou a Grã-Bretanha e, obviamente, a Inglaterra. Não tenho toda essa memória, então, talvez esteja falando bobagens, mas, não lembro de um caso de cidade-sede dos Jogos com tantos protestos contra sua realização.
O temor do londrino era que gastassem tanto dinheiro que a cidade – que é o coração econômico da terra do Chá das 17h – viesse ao colapso financeiro inexorável.
Surpreendentemente, e em total oposição – podemos dizer: em um irônico Yin e Yang à Beijing, a abertura de Londres foi totalmente cost-smart. Os valores gastos na abertura de Londres (cerca de R$120 milhões) foram muito enxutos para os padrões Olímpicos, mas a execução foi primorosa o bastante para que os expectadores não ficassem horrorizados ao comparar Beijing 2008 (que custou quase R$300 milhões) e Londres 2012. Palmas para os britânicos.

Mais uma vez, no meu segundo emprego com carteira assinada, eu “me virei nos 30” e fiz minhas férias casarem com os jogos. Eu tinha que estar totalmente disponível para um evento que só ocorre à cada 4 anos. Pecado era não ter tempo de assistir nada.

A transmissão de 2012 foi muito mais inteligente do que as anteriores, muito embora 2008 não tenha sido ruim. No entanto, a maestria com a qual Londres foi televisionada criou, em minha opinião, uma nova marca na barra de qualidade da cobertura televisiva e jornalística do evento mundial.

Em 2012, o Brasil terminou em 22º, com 3/5/9 medalhas.
Mesmo sendo “fresco” na memória da maior parte das pessoas, relembro que Sarah Menezes trouxe o Ouro inédito no Judo.
Arthur Zanetti detonou nas argolas e trouxe a medalha dourada, também.
O Volleyball feminino de Jacqueline, Thaísa, Dani Lins, Sheila, Fabi, e tantas outras; mais um ouro.
Ainda tivemos a surpresa de Thiago Pereira na prata, com a Natação.
Os times de Futebol e Volleyball masculino, mais uma vez, trazendo a prata pra casa.
E, talvez, a maior surpresa tenha sido Esquiva Falcão, com sua prata inesperada.
Kitadai, Mayra Aguiar e Rafael “Baby” Silva, o Bronze, no Judo.
Scheidt sempre medalhando, e Cielo, também trazendo o Bronze para o Brasil.
E como não falar de Yane Marques e a inesperada medalha de Bronze no Pentatlo (Pentatlo? 🙂 )?

Em resumo, Londres 2012 foi fantástica, não por ter melhorado nossa marca no ranking, ou superado a melhor marca que continuava sendo Atenas, em 2004. Mas, foi o melhor ciclo olímpico para apresentar diversidade de esportes com potencial, e que mereciam a atenção e o apoio dos brasileiros.

Nesse sentido, eu acredito que Londres ajudou a “evangelizar” nossa população sobre a beleza de se assistir à uma Olimpíada, como nenhuma outra edição conseguiu fazer.

(Terminei de redigir esse texto às 4h18 da manhã, e ainda pretendo reler e, talvez, precise editar algo. Peço desculpas de antemão, caso tenha algum erro grosseiro de português ou de argumentação, mas, prometo corrigir mais tarde. No entanto, eu queria muito lançá-lo hoje, no primeiro horário. Daí a pressa).

No próximo post, vou falar, exclusivamente, do que vi, ouvi, senti, vivi (vocês entenderam a idéia, né?) na Rio 2016, in loco, e pela TV.

Nota em 2019, agosto: Quando escrevi esse artigo, a ideia era mesmo que ele possuísse duas partes. A segunda era para falar sobre como as olímpiadas tinham a chance de mudar a interação entre o povo do Rio e sua cidade, as possibilidades para os jovens, especialmente aqueles que costumam não ter acesso à oportunidades, eo que restou das Olímpiadas no Rio pós-2016.

Para meu total pesar, e de qualquer um que sente carinho pelos jogos olímpicos, lamentavelmente, o que restou no Rio foram escombros, e a situação apenas decaiu até o mais baixo nível de Estado. Um estado quebrado pela corrupção, fálido e estupidamente violento. Diante disso, desisti de tentar ver “o lado bom” da história porque, sinceramente, não houve nenhum. Por este motivo, não haverá uma parte II. De todo modo, o texto segue aqui, inalterado, senão por uma tentativa de melhorar o português contra o qual eu sempre peco, aqui e ali.

Mas, por que – e, de novo – a França?

França: Território nas cores da bandeira e o símbolo de Luto por cima dele.
O território francês, nas cores da bandeira nacional, sob o símbolo do luto de uma nação que está, tristemente, se acostumando com o Terror. Fonte: Montagem própria com Wikipedia + Internet.

Começar o texto com uma pergunta que não pode ser respondida – ao menos, não com “‘A’ resposta certa” – não é a jogada mais inteligente…

Por outro lado, fazê-la parece-me inevitável. Afinal: mas por que, de novo, a França?

É preciso lembrar tudo o que já ocorreu – de ruim – no território onde os gauleses viveram e fazer menções à alguns aspectos que talvez, e só talvez, possam explicar o porquê do terror ter escolhido a França como seu novo alvo predileto.

O número de ataques à França não é pequeno. É o país desenvolvido mais atacado pelo DAESH (ou ISIS, como preferir…) em todo o mundo ocidental, desde o começo da escalada do novo emissário do terror.

O primeiro ataque da organização à França ocorreu entre 7 e 9 de janeiro de 2015, quando a sede parisiense da revista Charlie Hebdo foi alvo de 2 atiradores, os irmãos Kuachi, franco-argelinos com pouco mais de 30 anos. Na mesma série, outro atirador na mesma faixa de idade, Amedy Coulibaly, tomou um comércio de donos judeus. Ao todo, 17 pessoas foram mortas durante 3 dias em que a França ficou acuada e trancada dentro de casa, enquanto as autoridades tentavam achar os terroristas.

Depois, em Fevereiro de 2015, um homem de 30 anos esfaqueia 3 soldados que protegiam uma rádio Judaica em Nice. Sim, a mesma do lunático motorista do caminhão da última quinta-feira.
Intrigantemente, o agressor tem o mesmo sobrenome do terceiro atirador da primeira onda de Terror. Não há divulgação concreta sob o parentesco dos 2 (mas, no caso da Charlie Hedbo, sabe-se que eram irmãos e nacionais descendentes de argelinos).
Sendo o primeiro terrorista capturado vivo (os 3 primeiros morreram), Moussa declara, em depoimento, “ódio à França, aos militares, ao governo, e aos judeus e infiéis”.

Após essas duas ocorrências, em abril, outro argelino, Sid Ahmed Ghlam, com visto de estudante, é detido em Paris sobre suspeita de homicídio e de estar preparando um atentado contra os trens da cidade, onde o objetivo seria “matar 150 infiéis ou mais”. O alvo secundário era a basílica Sacré-Coeur.

Mais tarde, em junho de 2015, um homem é decapitado em Lyon, dentro de uma fábrica de combustíveis. O autor é o seu funcionário, Yassin Salhi, de 35 anos. Ele é nascido na França com pai argelino e mãe marroquina. Depois da decapitação, envolto em bandeiras com símbolos do Islã, ele tenta explodir toda a planta, mas sem sucesso. Foi capturado pelas forças policiais.

O ponto mais assustador é atingido em novembro de 2015 quando Paris sofre uma série de ataques coordenados, com o pior ocorrendo na casa de Shows “Bataclan”. 130 pessoas foram mortas e 350 ficaram feridas.
Salah Abdeslam, o único envolvido com o atentado a sobreviver nas buscas e confrontos policiais, se nega a comentar qualquer questão relacionada ao caso após ter sido extraditado para a França, tendo sido capturado depois de uma longa operação no território belga. Com 26 anos e de origem belga, é o terrorista mais novo da lista até agora. Com pais de origem argelina, ele engrossa a lista de ligações com aquele país e os atentados na França.

No mais recente episódio de terror na Gália o motorista Mohamed Bouhlel, tunisiano de 31 anos, atropelou e matou 84 pessoas (mais dezenas de feridos em estado crítico) ao longo de 2 quilômetros percorridos com um caminhão-baú, na Promenade des Anglais (Passeio dos Ingleses), onde a cidade de Nice comemorava a data histórica da Queda da Bastilha (14 de julho) que é fundamental na história da Revolução Francesa.
O DAESH assumiu a autoria do ataque, mas tudo ainda soa incerto. As fontes, versões e fatos vão se desdobrando e os órgãos de inteligência ainda não sabem com quem Mohamed se relacionava; seus contatos no celular, no computador e detalhes podem ajuder a compreender a dimensão de seu ato.
Por ora, apenas um casal de albaneses que ajudaram Mohamed, com acesso a armamentos, foram detidos por troca de SMSs com conteúdo incriminador entre o marido e o tunisiano.
Entre a chance de blefe do DAESH e as alegações de algumas fontes de que trata-se de um ato de um desequilibrado mental que foi indevidamente capitalizado pelo grupo terrorista, nenhuma hipótese pode ser totalmente descartada ainda.

Não vamos falar sobre os ataques em Orlando, San Bernardino e Boston (EUA), Bélgica, Iraque e Turquia, pois falar da França já rende assunto o bastante. No entanto, parece evidente a escalada da violência do grupo terrorista e não somente algo pontual e localizado.

Alguns analistas apontam que embora o DAESH mire em todo o ocidente, a França, por ser símbolo das revoluções que pavimentaram o Iluminismo, a forte crença de seu povo em valores como Democracia, República e Laicismo, é um contraponto absoluto a tudo que o DAESH prega, e deve ser destruída como prova maior da determinação dos terroristas.
De maneira mais objetiva (ou menos simbólica), podemos citar o tratado de 1916, Sykes-Picot, assinado entre França e Reino Unido e que acabou com o império Otomano, criando fronteiras artificiais (de onde surgiram, por exemplo, Síria e Iraque), destruindo a base do sonho de muitos radicais sobre um Califado que dominasse todo o Oriente Médio, por vezes, referido como Oumma (Comunidade de crentes).
Todos esses motivos podem ser a real causa do porquê Abu Mohamed Al-Adnani, porta-voz oficial do DAESH, disse, em 2014, “Mate com pedras, facas, ou seu carro (…) em especial, os sujos e desprezíveis franceses”.

Jovens, homens, 30 anos, nacionais com descendência islâmica.

Não se trata de profiling (preconceito), mas como eu identifiquei, ao longo da história recente dos ataques à França existe, sim, um padrão de “recrutamento”.

A esmagadora maioria dos agressores tem a origem na Argélia.

A Argélia é um país entre o Norte da África e o Saara e já foi colônia francesa. A colonização não foi nada pacífica (a França invade a Argélia em 1830, mas só toma o território, por completo, no meio do século XX) e para não chegar às 8000 palavras, eu vou resumir dizendo que houve um “mini-apartheid”, aos moldes dos colonizadores holandeses na África do Sul.

Só ao fim de vários conflitos é que a França estendeu direitos de cidadania aos argelinos muçulmanos (por muito tempo os argelinos morando na França não eram considerados cidadãos e os índices de analfabetismo – por exemplo – eram agressivos para essa parte da sociedade francesa).

A independência argelina só ocorre no fim do século XX e é pavimentada através de muito terrorismo. A guerra civil é uma realidade entre tropas francesas, a FLN (Frente de Libertação Nacional) e a OAS (Organização do Exército Secreto).

A FLN representa parte da sociedade reprimida pelas décadas de opressão dos colonizadores e o OAS é um braço radical do Exército argelino, guiado por um general islâmico, sendo que o terrorismo é arma comum a ambos. Mais tarde, OAS e FLN se enfrentariam com mais terrorismo.

Em 1962, Charles de Gaulle, presidente francês, se vê forçado a assinar armistício com essas organizações em que reconhece a independência da Argélia, mas que também garantiria direitos aos franceses ainda residentes na Argélia.

Ao fim do processo apenas 1% de cristãos restam no território e o novo governo, formado pela FLN, edita decreto que restringe o culto ao Cristianismo, e a perseguição aos cristãos começa. Terrorismo, como se percebe, é o triste meio pelo qual a Argélia moderna é constituída ao longo de sua história recente.

E a França está no epicentro disso tudo por todos os seus atos e medidas para com sua ex-colônia.

Mais que isso, o processo, em larga escala contínuo, de imigração da região do Maghreb (o noroeste do continente africano) para a França e a criação de “ghettos” ao redor de Paris onde essa população é “estocada” – na falta de palavra melhor – só aprofunda a gigantesca cisão com o sentimento de pertencimento desses indivíduos que habitam o território francês. Antes de supor a culpa dessas pessoas é bom lembrar que a França bancou e patrocinou essa imigração para fins de reconstruir a nação no pós-guerra. O país encontrava-se devastado pela ocupação alemã e os demais desdobramentos históricos.

A França é mais vulnerável ao terrorismo?

Difícil de responder (comparado a quem?), embora tudo indique que não.

A França é a quinta maior economia do mundo (PIB nominal), sendo a segunda maior dentro da Europa.

A França também tem o terceiro maior orçamento militar do mundo. Mas, em contrapartida (para compreender o risco a que está exposta), também é o país mais visitado por turistas no mundo todo. Por ano, são 82 milhões deles. Para ter uma ideia do que isso representa a população regular da França é da ordem de ~65 milhões. Significa que praticamente “outra França + 1/3” entra e sai das fronteiras do país, todos os anos.

Como líder mundial, a França pode se orgulhar de ser uma das nações fundadoras da União Europeia, além de possuir a maior área e a segunda maior economia do bloco. Também ajudou a fundar a Organização das Nações Unidas, além de pertencer ao G8, ao G20, à OTAN, à OCDE e à OMC.

Acredito que, diante do exposto, fica difícil supor que a França não invista valor considerável na manutenção de sua segurança nacional, ou que seja imatura em lidar com imigração, controle de fronteiras etc.. Ela investe muito (o 2º maior investimento) e ela lida com um volume de estrangeiros sem igual (sua própria população + 1/3, anualmente).

Mas… O terrorismo nas fronteiras francesas não é aquele “terrorismo regular”, hollywoodiano, que tanto nos acostumamos a imaginar com os filmes da década de 80 e 90.

Como o perfil dos agressores bem demonstra, a gritante maioria é de franceses (e não de estrangeiros, viajando com a missão de perpetrar os ataques, furando barreiras e controles de imigração…), descendentes de pais com outra nacionalidade (em especial, argelinos). Portanto, a guerra travada contra o terrorismo além-mar não consegue gerar um “escudo protetor” no país porque seus inimigos nasceram e estão lá dentro, desde sempre. Não há barreira ou proteção a ser superada.

Na minha opinião, a recente política externa da França com fulcro no aprofundamento da relação (e exploração) com suas colônias começa a cobrar um alto preço. Especialmente, a forma como esses imigrantes foram tratados – renegados aos ghettos parisienses – parece gerar a condição perfeita de mágoa, não-pertencimento, frustração, segregação e ausência de identificação com os valores nacionais, tornando esses indivíduos alvos perfeitos para o recrutamento de organizações terroristas, especialmente o DAESH.

O que pode ser feito?

Cansativo fazer um texto para o qual as respostas são vagas ou imprecisas, assunto onde não há consenso.

O que a grande maioria dos cientistas políticos e professores de Lei vão dizer (não sem oposição respeitável e considerável) é o seguinte:

  1. A guerra ao DAESH precisa ser feita e levada em seus territórios de domínio. Se colocar homens em solo talvez (e só talvez, já que pode não haver real alternativa) venha a ser má ideia (como outras forças de ocupação já demonstraram ser, antes), continuar lançando bombas teleguiadas não fará nenhum efeito na força do grupo terrorista. Não funcionou até agora.
    A guerra precisará ocorrer porque, atualmente, o poder físico e territorial do DAESH mantém o grupo armado, alimentado, organizado, com moral e poderoso. A ideia de que o DAESH estava acabado com os recuos no território iraquiano foi enganosa e descolada da realidade. Na verdade, a aceleração dos eventos de terror e o número de ataques sugerem exatamente o contrário: O DAESH tem ficado cada vez mais poderoso e tem células em diversos países. Estima-se que, atualmente, o DAESH está atuando em 50 países, seja por meio de territórios dominados ou países-alvos de ataques.
  2. A guerra ao DAESH não se resume à ação militar. O DAESH criou um novo tipo de terror onde o agressor não atravessa fronteiras mas, para desespero das autoridades, nasce e vive, desde o princípio, no seu alvo. Essa capacidade mobilizante e de propaganda que atinge, principalmente, homens jovens, por volta dos 30 anos, residentes nos países-alvo e com descendência de famílias de fé islâmica precisa ser estancada e combatida. O discurso e a retórica do DAESH precisa deixar de ser tão contundente nos corações e mentes dessas populações. E se é tão efetivo, é sinal de que essas populações estão desassistidas e isoladas da sociedade desses países; principal motivo pelo qual a mensagem é tão efetiva, creio.

De um ponto de vista histórico, o radicalismo islâmico tem sido sustentado muito por conta do abismo no desenvolvimento social desses povos. A miséria do indivíduo é justificada como fruto do seu distanciamento da lei de Allah.
A distorção do Corão – não obstante o fato de que seu texto seja, por vezes, patrocinador da guerra abençoada (embora, ela possa ser interpretada de forma light como uma “guerra” só no campo da fé e das ideias) – para justificar a Jihad tem o poder de arrebatar aqueles que estão completamente descrentes de uma chance de vida digna.
Vale dizer, também, que tal radicalismo não é exclusivo do Corão. A bíblia do Cristianismo, em seu velho testamento, justifica atrocidades não muito distantes do que pregam os radicais do Islã.

A diferença é que o ocidente continuou seguindo em frente e chegou no século XXI (com seus defeitos e qualidades, cabe enfatizar).
As sociedades do Oriente Médio, no entanto, parecem ter parado no século XI e ainda vivem os dilemas e valores das épocas das Cruzadas europeias: Sociedades com castas claras e intransponíveis, hierarquias familiares e dogmas inquestionáveis, a submissão da mulher ao status de objeto e propriedade e, por fim, o triste conceito de que em nome da fé não há limite, nem ato, que possa ser execrado, dada a aprovação de uma deidade – que, curiosamente, só pode ser ouvida por alguns indivíduos que nunca se matam, mas mandam outros para a morte.

Como fica a Rio 2016?

Quantas vezes já citei esse evento? Bem, pode parecer sensacionalismo, mas não é brilhante, nem exige uma mente maligna e genial, perceber que o evento que concatena dezenas de países será um alvo muito tentador ao DAESH e outras organizações que propagam sua ideologia através do terror (exempli gratia: Al-Qaeda).

Para se ter uma ideia, vamos a breve análise:

A Copa de 2014, no Brasil, teve ~350 mil pedidos de credenciamento entre autoridades, delegações, jornalistas, profissionais envolvidos com os jogos etc.

A Olimpíada de Londres, em 2012, teve ~420 mil.

A Olimpíada do Rio já tem 460 mil pedidos de credenciamento. Destes, 11 mil foram indeferidos.
E já sabemos: Nesse mar de gente, 4 deles estão, comprovadamente, envolvidos com o terrorismo internacional.

Não quer dizer que um ataque ao Rio é inevitável. Mas quer, sim, dizer que o alvo interessa.

Vai viajar de avião, dentro do Brasil? Chegue bem mais cedo…

Pessoal, esse é um post “utilidade pública”.

Está em vigor, desde já, o novo procedimento de inspeção da ANAC (Agência Nacional da Aviação Civil).

O que isso significa?

Bem, eu sempre me programava para chegar 1h, antes do meu vôo doméstico. Isso não vai funcionar mais.

Eu gastei 30 minutos a mais, só para passar pela inspeção (raio-x, revista e verificação), em um vôo e horário vazio, com baixo volume de passageiros no aeroporto.

Em horários de pico, os passageiros estão levando até 2h só para passar da entrada do aeroporto, até os gates de onde partem os vôos.

O novo procedimento inclui o tradicional raio-x da bagagem de mão, revista corporal “frente e verso”, inspeção minuciosa de todos os compartimentos das malas e mochilas levadas à bordo (eles estão abrindo todas, sem amostragem), e separação do notebook, da bagagem principal.

A operação será mantida ao longo de toda a duração dos Jogos Olímpicos e Para-Olímpicos do Rio de Janeiro.
O motivo do novo procedimento é o alto nível de ameaça terrorista ao país, por conta dos jogos.

Mais informações: http://www.anac.gov.br/noticias/procedimentos-de-inspecao-no-transporte-aereo