Pensando em dar “tchau” (talvez, só para as redes sociais. Talvez, não…)

Sempre fui contra “pregar para convertidos”. Tirando o maneirismo do aforismo, eu acredito que passamos tempo demais “falando” com telas e algoritmos. E isso está ferrando (ainda é horário nobre) com todos nós.

Aliás, você aí! Sabe explicar o que é o tal “algoritmo” que tanta gente fala? Veja bem: Não é “algarismo”, hein?… “Algarismo” são os números, arábicos (1, 2, 3) romanos (I, II, III) e zaz… Te perguntei de “algoritmo“.

Algoritmo é termo da matemática, e você encontrará referências para ele já na Pérsia Antiga, nove séculos depois de Cristo. O nome mais comum que surge é do matemático Mohamed Ben Musa. Depois, o termo ressurge nos primórdios dos computadores mecânicos, com gente como Ada Lovelace (séc. XIX) utilizando-o e, mais tarde, Alan Turing, “o pai da ‘moderna computação'” (que, aos olhos do progresso atual, de “moderna” não tem mais nada). Rigorosamente, “algoritmo” quer dizer “conjunto de operações matemáticas finitas, desenhadas a fim de resolver um dado problema, eficientemente”. Ou seja: é uma “receita de bolo” para lidar com algum desafio conhecido e bem mapeado (ao menos razoavelmente), da forma mais inteligente quanto o possível.

Há diversos tipos de algoritmo e várias notações/representações, e eu não vou percorrer esse caminho com você, hoje, mas vamos a exemplos, pois eles sempre ajudam:

Queria dar os créditos, mas a página que traduziu o fluxograma (nome de um tipo de diagrama que pode representar um algoritmo) sequer está no ar. Obrigado Helldane. Esteja onde estiver…

Pois bem, nosso fluxograma, acima, representa o algoritmo que foi desenhado para lidar com algo que estava funcionando e parou. Você começa no topo (a bagaça funciona?) e vai respondendo “sim” ou “não”, até chegar em alguma “caixinha” (de verdade, seria um processo) para o qual não há nenhuma saída nova, representando o fim da rotina prescrita pelo algoritmo apresentado. É só um desenho engraçadinho, no entanto, poderíamos facilmente codificar um programa de computador que implementasse essa lógica descrita e tomasse decisões através das aproximações sucessivas que ela pressupõe.

Isso é o algoritmo: não o desenho (o desenho só representa graficamente o algoritmo), mas sim o conjunto de passos lógicos descritos previamente para lidar com o(s) problema(s) que foi(ram) mapeado(s) e responder às partes que compõem esse(s) problema(s), uma a uma, da maneira mais racional e eficiente possível. O foco no “eficiente” é bem importante para o algoritmo. Se no seu smartphone, repleto de cores de processamento e 4 ou 8 GiB de RAM, essa eficiência é desejável e faz falta, em sistemas primordiais de computação a falta de eficiência era a diferença entre conseguir executar e não executar o programa (é como nós, os antigos, chamávamos os “apps” = programas [o português tem palavras, sabia? Você pode deixar o inglês para quando ele for necessário…]).

Tá… E daí? E “daí” que quando você fica falando (ou ouve falar) “o algoritmo isso”, “o algoritmo aquilo”, ou “treinei/ensinei meu algoritmo pra X”, é disso que estamos falando: um programa que foi desenhado, com passos lógicos e eficientemente agrupados para lidar com o problema ao qual foram desenhados como possível resposta.

E qual é o problema que os algoritmos de redes sociais precisam resolver? Acima de qualquer outro, o problema (risco) de você querer parar de usar. Esse é o principal. Rede social só dá dinheiro se a galera “engaja”. Pode engajar no amor ou no ódio, desde que engaje. O que se vende para as agências de publicidade é basicamente: alcance (quanta gente a rede abarca, e isso tem tudo a ver com engajamento) e conhecimento populacional (o quão bem os gestores das redes sociais conhecem seus usuários [não necessariamente de forma individualizada, pois nem precisam], seus hábitos, gostos e preferências. Sobre tudo: da pizza ao político preferido e o odiado.).

Em 2022, eu li o livro do Jaron Lanier, “Ten arguments for deleting your social media accounts right now” como parte da pesquisa que fiz para o trabalho de conclusão de curso em Direito (acredito que a versão em português tem o mesmo nome, traduzido, ou seja “dez argumentos para você apagar suas redes sociais, agora” – ou coisa do tipo). Li em inglês para evitar problemas com tradução de alguma ideia que o autor poderia querer passar e a tradução “matou”. É raro mas acontece muito e eu, inclusive, achei uma dessas na amostra do livro em BR…

Jaron elenca os 10 argumentos em forma de capítulos:

  1. Você está perdendo seu livre arbítrio
  2. Sair das redes sociais é o jeito mais acertado de lidar com a insanidade dos nossos tempos
  3. As redes sociais estão te tornando um cuzão (palavras dele, não minhas)
  4. As redes sociais estão minando o conceito de “verdade”
  5. As redes sociais estão fazendo o que você fala ser insignificante
  6. As redes sociais estão destruindo sua capacidade de ter empatia
  7. As redes sociais estão te fazendo infeliz
  8. As redes sociais não querem que você tenha dignidade econômica
  9. As redes sociais estão tornando a política impossível
  10. As redes sociais odeiam a sua alma (wow?!)

Agora… Bem… Só pelos títulos dos capítulos, acho que você já percebeu duas coisas: 1) o estilo de escrita do Jaron é bem-humorado. 2) Ele odeia as redes sociais – por bons motivos, acho.

Eu, como você já sabe, sou contra falácias como meios de sustentar um debate. Seria falacioso falar que a mãe dele tem chulé (ad hominem) e seria falacioso discorrer sobre as credenciais do homi e como são elevadas (falácia de apelo à autoridade). Porém, ao mesmo tempo, o mundo real precisa de alguma amostra de quem porta a mensagem para, pelo menos, saber se a pessoa que fala entende do que fala. O que mais tem nesse mundo moderno de meu Deus é gente falando do que não sabe.

Jaron é um cientista da computação, com formação sólida na área de realidade virtual; trabalhou para diversas empresas, incluindo a Microsoft, e esteve em diversas universidades (Berkeley, São Francisco, Columbia). Em resumo, não é como se ele falasse de algo que “ouviu alguém dizer”, tampouco é como se isso fosse a mera impressão pessoal alçada a fato, sobre uma área (a internet e as redes) que ele não sabe nem se é de comer ou de passar no cabelo.

Eu não pretendo, seja por extensão, seja por respeito ao direito autoral, entrar em detalhes de cada um dos itens da lista dele. Mas a real é que só de bater o olho nos títulos, você meio que sabe do que ele está falando. Se quer realmente entender o que ele tem a dizer para cada item, compre o livro. Dá uma moral pro trabalho do cara. Tá baratinho e tem a versão online se quiser ler rápido (é bem curto, menos de 200 páginas).

Alguns são autoexplicativos, mas vamos passar por todos, a 30 mil pés de altitude:

Você está perdendo seu livre arbítrio porque o livre arbítrio não é exatamente amigo do vício, e redes sociais são desenhadas para viciar (lembra do primeiro problema que o algoritmo tenta resolver? Pois é…). Empresas que mantêm redes sociais gastam tanto dinheiro com desenvolvedores quanto gastam com psicólogos, publicitários e todo tipo de profissional que os ajude a prender a sua atenção na rede social deles. Alguns fazem isso de forma porca, outros de forma espetacularmente cruel, vilanesca e, principalmente, eficaz.

Sair das redes sociais é o jeito mais acertado de lidar com a insanidade dos nossos tempos porque a forma como as redes foram desenhadas se aproveita dos nossos medos, traumas e desejos para nos prender lá. Isso é quase que um desdobramento do primeiro apontamento. Ou seja: para te prender na rede social e torná-la um sucesso para seus clientes (dica: você não é o cliente da rede social. Você é o produto…), eles vão te incentivar a compartilhar sua vida no feed (assim, eles conhecem você enquanto produto); vão te empurrar conteúdo que você não quer (quantas vezes você pulou o anúncio, hoje? Já desistiu e comprou o serviço premium? Até quando eles mantêm o premium sem anúncios [e criam o premium++, este sim, sem anúncios {por um tempo…}]? Já clicou no jogo que é uma enganação e não faz nada do que é mostrado na publicidade?); vão te fazer ter medo, ou se revoltar com algo que incomoda os donos da rede, o cliente deles, ou simplesmente que precisa ser repudiado para gerar “engajamento”; e vão dar um jeito de vender toda essa atrocidade e fazer dinheiro com a sua vida e as consequências de tudo isso, ora descrito. Qual a melhor forma de não passar por essa manipulação que te usa para ganhar rios de dinheiro? Não fazer parte dela.

As redes sociais estão te tornando um cuzão porque os pontos 1 e 2 da lista estão funcionando muito bem. Ou seja: a rede social é viciante e te mantém nela o máximo de tempo possível. Logo, o algoritmo resolveu o primeiro problema. O segundo problema é que ela precisa dar lucro, então o algoritmo faz com que você engaje, conte quem você é e, em troca, ele te afaga ao conectar você com gente que pensa como você e premia atitudes, conteúdos, […] engajamentos que gerem o máximo de alcance e conexão com outros usuários do seu perfil. A escolha, aqui, é amoral (e não necessariamente imoral), ou seja: o objetivo é ter pessoas conectando com o conteúdo, reagindo positiva ou negativamente, contando suas vidas, marcando posições, e alimentando tanto o quanto a rede social sabe do seu público, como ficando mais tempo no app da rede, vendo mais publicidade, pulando mais vídeo, etc. etc. etc…

As redes sociais estão minando o conceito de “verdade” e olha: isso aqui é até uma perda de tempo de demonstrar. Todo mundo sabe que estão. O bolsonarista sabe que está. O ptista sabe que está. O terraplanista sabe que está. O astrofísico sabe que está. O antivaxxer sabe que está. E o microbiologista também sabe que está. Oras, se todo mundo tem certeza que a verdade não está nas redes sociais, se tudo que sai nas notícias, nos canais, em todo lugar é mentira, então É ÓBVIO que a verdade está sendo minada. A única pequena dificuldade é descobrir quem tem razão e em que caso.
Contudo, redes sociais têm perto de zero compromisso com conceitos complexos como “verdade”, especialmente se isso passar à frente dos dois grandes objetivos de qualquer rede social: engajamento e lucro. Quando você pega um canal de YouTube onde um cara sem qualquer qualificação acadêmica rebate cientistas da NASA, falando sobre mudança climática, você tem 50% de chance de perceber que a verdade está sendo minada pelas redes (exceto, claro, se você for do time que acha que mudança climática não existe… Aí, são os canais “oficiais” [também nas redes sociais] a espalhar mentiras, na sua opinião). E, espia: falando em YouTube, se você já assistiu a algum dos seus “influencers” falando em como a rede se comporta e o que ela incentiva o produtor de conteúdo a fazer pra tirar algum $$$ dali, você sabe que o compromisso é com tudo, menos com a verdade: um cara faz 10 vídeos por semana e fica no topo da página inicial. O outro faz 1 vídeo por mês e desaparece do radar. Em momento algum a qualidade dos vídeos entrou em consideração para dizer quem tem destaque (e, esperadamente, mais audiência [= mais dinheiro]) e quem não.

As redes sociais estão fazendo o que você fala ser insignificante porque como 99% das pessoas que andam nas redes já pensaram em ganhar dinheiro com elas (eu sei que já pensei), “4 minutos se passaram e ninguém viu, o podcast que nasceu em algum lugar do Brasil”. E se “pluralidade de ideias” ou “vasta oferta de qualidade e quantidade de conteúdo” não são automaticamente sinônimos de “lixo”, o “lixo” é exponencialmente criado com essa proliferação “sem um predador” para pôr ordem no ecossistema.
Eu ou você podemos, agora mesmo, abrir um canal no YouTube, uma live no Insta, ou seja lá qual o nome no TikTok e começar a falar. E mostrar gráficos e compartilhar vídeos e imagens…. E o quanto do que vamos veicular é verdade ou não, faz sentido ou não, está sendo analisado dentro do contexto correto ou não… Bem, a única pessoa capaz de decidir tudo isso é quem assiste. Todavia, o que acontece se quem assiste não sabe separar o joio do trigo? Ferrou (de novo: horário nobre…) não é mesmo? E se você for um microbiologista advogando pelas vacinas, e eu for um antivaxxer rebatendo tudo que você fala? E se você for menos carismático do que eu, e eu for mais vendedor de automóveis que você? O que importa o que você fala? E se todos falam, e se a cada esquina tem um mesa-cast sendo gravado com convidados dos mais ilustres aos mais ignóbeis… O que importa o que qualquer um tem a dizer, sobre qualquer coisa?

As redes sociais estão destruindo sua capacidade de ter empatia. Eu preciso mesmo demonstrar esse? É simples até: as redes sociais “brincam” com nossos instintos primais e, para nos manter horas “rolando a tela do celular”, fazem com que criemos nossas “tribos”. Todo esse desenho faz com que o bullying te conecte com quem pensa como você e massacre o outro lado. E não importa se você é (ou acha que é) de Esquerda ou Direita. Você faz bullying com o outro lado. Eu sei que faz. Eu já vi gente dos n lados fazendo, eu já sofri e eu já fiz (em algum nível).

As redes sociais estão te fazendo infeliz. Olha, se você leu até aqui e não ficou infeliz, só de ler… Sei lá o que te move. Eu estou infeliz de escrever, e olha que eu escolhi escrever sobre isso. Vou contar uma anedota só para dar a dimensão de como a coisa toda é imprevisível. Tenho um grande amigo que ficou extremamente mal com a vitória de Trump. Óbvio, nenhuma pessoa que quer um futuro melhor para TODOS (e não só para os americanos brancos) ficou feliz com isso. Porém, ele ficou especialmente mal. Um dos N fatores a contribuir com a profunda depressão é de que ele estava convicto, apostando todas as fichas e até assumindo responsabilidades desnecessárias pela aposta na vitória de Kamala, falas e posturas que ele não deveria ter se estivesse racionalmente analisando a situação.
Eu o avisei um sem-número de vezes que todas as pesquisas mais sóbrias e sólidas (se você analisa política há tempos, você acaba aprendendo quem faz o trabalho e quem é do oba-oba) mostravam um quadro MUITO difícil para a Kamala, e ele rebatia dizendo que confiava no que ele estava lendo e ouvindo. Agora, eu sei que esse cara é MUITO inteligente, e eu sei que ele não estava interpretando errado o que recebia. O problema – na minha opinião – foi mais simples: ele foi enganado “pela rede do bem” que ele formou ao seu redor. Essa, na verdade, é outra mentira da rede social: a que você pode fazer uma curadoria do que consome e recebe, de tal forma a se manter informado e, ao mesmo tempo, imune ao esgoto que corre nela. Aqui está o dilema: é ou um, ou outro. Ou você é feliz (e enganado), ou é triste (e, talvez, informado – depende muito, viu?). Seja como for, as redes sociais até “quando te deixam no poder” (dica: elas nunca deixam, mesmo) te fazem infeliz, cedo ou tarde.

As redes sociais não querem que você tenha dignidade econômica. Este ponto é bem complexo, talvez o mais complexo do livro. Além de complexo ele é controverso. Só lendo pra saber a zona cinza que o autor percorre. Fala sobre um modelo de negócios que nasce de um valor bem-intencionado, mas que fatalmente gera o monstro que agora tememos (é o argumento dele). Ele discute como a ideia de software gratuito (free as in beer) e de manter a internet “de graça” acaba nos levando para um mundo em que as empresas apenas pensam em lucratividade por publicidade (ad-revenue) e como isso molda todo o algoritmo e as características (todas as narradas, e todas as demais) de uma rede social moderna. A dignidade econômica removida seria, então, o fato de que como você não paga por nada (tirando a conexão e o aparelho), as empresas escolhem o que fazem com você, seus dados, sua vida, e tudo o mais. Você não paga, logo você não é o cliente, mas o produto deles. E o dono do produto faz o que quer com o produto.

As redes sociais estão tornando a política impossível. De novo: chega a ser idiota tentar explicar o que todo mundo sabe. Então, ao invés de explicar o que todos já sabem, eu vou dizer o que nem todo mundo tem em mente: nós já tentamos o caminho sem a política. Nós temos séculos, senão milênios, de História humana onde a política ou era um apêndice enganoso, ou estava apenas engatinhando na organização do espaço social de cada nação. Seja como for, nós tentamos o mundo onde os fortes governam, onde os deuses governam, onde as tribos se organizam (e guerreiam com as demais), onde os militares mandam… E… Todos esses modelos foram uma grande bosta. Só pode elogiar quem vislumbra fazer parte de um dos sempre exclusivos grupos de poder. Claro: podemos fazer um longo debate de como a vida política atual (especialmente nas Américas) se assemelha a uma casta separada e sobre como essa vida política não habilita a verdadeira democracia, mas só a demagogia, o nepotismo e a corrupção. O meu ponto de partida é: o sistema atual é um sistema falho, porém perfectível. Ou seja: a política tem odiosas características que, com uma sociedade civil organizada, podem ser combatidas. A boa e velha Ficha Limpa tá aí pra dar ao menos um exemplo. Tem vários outros e não vou percorrer eles todos, mas me chama e a gente fala do que melhorou desde que a política (e não a violência, e não Deus, e não os militares[…]) passou a dar vida ao Estado nacional. E tudo isso está em risco, e as redes sociais são incríveis vetores de ataque e grandes catalisadores do ódio e da irracionalidade na política. Elas não querem sociedade civil organizada. Isso remove o poder que elas precisam ter para te engajar e (escravizar) fidelizar.

As redes sociais odeiam a sua alma, e o autor fecha o livro assim porque a mensagem dele é clara em sentido: redes sociais são o oposto de “livre expressão”, “individualidade” (não confundir com “individualismo”, o que é ruim), sociedade harmônica e pacificação política. Tudo isso é o contrário do que redes sociais buscam, não porque elas sejam VILANESCAS na origem, mas porque o modelo de negócio delas depende de “dedo no cu e gritaria” (acabou o horário nobre) e eles não podem fomentar um mundo de “verdade” e “verificação de fatos”, porque… Por que? Você já assistiu ao Big Brother? Eu não. Mas eu sei (porque tenho amigos e orelhas) que as pessoas assistem aquele negócio pra ver aquele mini-mundo pegar fogo.
Num espaço onde a verdade é a regra e os fatos são rigorosamente checados, nada realmente pega fogo. Pode ser super empolgante, mas quem entendeu, entendeu e quem não entendeu vai seguir tentando entender, e nada mais. Não tem conflito, não tem dedo em riste, não dá engajamento. Por isso, e não por serem a cria do Capeta, redes sociais não podem incentivar um mundo melhor para os humanos. Porque se o engajamento cair, o produto “rede social” perde o valor. E como elas ganham dinheiro conhecendo bem o produto delas (você), isso não pode acontecer. E a melhor forma de engajar – descobriram os donos das redes – é na confusão e no conflito.

O autor ainda lembra que ele escolheu 10 pontos “porque sim”. Ele poderia ter falado, só por exemplo, da distorção da realidade que redes sociais geram, da ansiedade, dos gatilhos de consumo, de alimentação, das obsessões, dos conflitos familiares, amorosos… Enfim… Ele escolheu o que era mais “neutro” em termos de concordância ou não, justamente porque são pontos que envolvem menos as discussões mais sentimentais e, muitas vezes, irracionais. A mensagem final dele é clara: Se o leitor encerrará suas contas ou não, é uma escolha absolutamente pessoal. Porém, se o leitor mantiver suas redes sociais, que o faça sabendo o que as redes fazem com ele(a) a fim de ganhar dinheiro e obter poder (o poder de “informar” [com o que querem], o poder de manobrar seus usuários, o poder de se defender de ataques de concorrentes, de dobrar o Estado, de fugir da Lei…).

E o que eu vou fazer? Eu não sei. Na verdade, eu não vim aqui escrever sobre um suicídio virtual em que encerro todas as minhas contas e sumo da Internet for good (olha o inglês desnecessário aí!) com esta nota longa de adeus. Eu nunca poderia, por exemplo, fechar o LinkedIn e perder um poderoso meio de arranjar um novo emprego, se esse dia chegar (nota para mim mesmo: ele vai chegar…). Eu também não me vejo sem os canais de YouTube que uso tanto para conhecimento (Petit Journal, Meio, Manual do Mundo, Aviões e Músicas, FDUSP, IREE TV, XKCD What if, Adam Something, NetworkChuck, OverSimplified e TANTOS OUTROS), quanto para me divertir (Cauê Moura, Serial Trippers, Planeta Aves, Cinema Therapy, Aprofundo, Voice Makers e TANTOS OUTROS)…

Aliás, se eu li esse livro em 2022, por que estou falando em “dar tchau” em 2025? Quanto tempo para refletir sobre um livro com menos de 200 páginas, não é?

Sei lá… Eu já disse isso antes, mas as redes sociais não me ajudam em nada. Mesmo o LinkedIn, que eu disse que preservaria de qualquer forma, está há 12 anos sem fazer nada por mim. Qualquer conhecimento que circule por lá é menos do que adquiro com livros oficiais das áreas que estudo, e as conexões só esquentam de tempos em tempos, quando alguém está buscando recolocação, por exemplo. Do mais, só quem tem “tino” para a auto-propaganda contínua abre o LinkedIn de segunda à sexta, para manter o “footprint“. Do resto, é uma rede sempre morna. Eu também nem sei o que eu faria e como me sentira se fosse uma rede “quente” (como o TikTok, por exemplo). Só constatei um fato.

Eu só acho que a minha presença ali faz as relações humanas que tenho serem sempre mais frias. A pessoa pode me adicionar como contato no WhatsApp e até ter meu telefone celular pessoal (que é diferente) e, ainda assim, nossas interações se resumirão a um video compartilhado, um joia, um coração e é isso. Por que eu estou ali? Por que meus dados estão ali? Por que meu celular tem um app que sabe Allah o que coleta e captura do meu dia a dia, independentemente do meu consentimento?

Eu poderia, alternativamente, simplesmente desinstalar o aplicativo e ficar com a conta aberta, não? Aí surge um problema humano: as pessoas veem minha conta lá e imaginam que eu estou por ali, que vou ver uma chamada, um chat, algo do tipo quando, de verdade, eu não vou ver nada disso ou verei meses depois. Aconteceu, inclusive no LinkedIn. Se elas souberem que não estou lá, por outro lado, a história muda. Se precisarem falar comigo, terão que usar o WhatsApp ou o bom e velho discador de telefone.

Além do mais, o que fui procurar na rede social, simplesmente não está lá. Não é a praça pública, a Ágora Ateniense, onde ideias e problemas são debatidos e o poder coletivo é utilizado em prol do maior número de pessoas. Não. É exatamente o oposto disso. São vitrines de sonhos impossíveis e meias-verdades, onde a mercadoria circula achando que é o usuário (ou, mais ilusório ainda, o cliente), mas ela é só isso mesmo: mercadoria.

Sair da rede social não me fará melhor do que nada, nem ninguém. Eu não ficarei mais inteligente, mais correto, mais digno[…]. Vai ter gente ganhando milhões com rede social enquanto não estou lá. Sempre teve e vai continuar tendo. Eu não sou um desses. Não tenho o tino, nem o talento, nem o tempo, nem o estômago. Fechar tudo também é utopia. Vou fechar o e-mail pessoal, ligado ao YouTube? Vou desaparecer da Internet, onde o governo usa meu e-mail para me permitir agendar a emissão do passaporte, do RG, pagar IPTU, ajustar o IRPF? E o WhatsApp? Ele também é uma rede social. Vou encerrar?

Não, não dá pra radicalizar sem virar indigente. E eu ainda não estou nesse grau da loucura (mas, quem sabe…). Contudo, outro dia me peguei impaciente, usando o celular no Instagram, rolando a lista de fotos de qualquer merda que já não me lembro… Eu rolava aquele feed infinito como se eu fosse achar o fim. E quanto mais eu descia, mais irritado eu ficava, porque pensava “okay, eu já vi o suficiente. Chega.”, só que continuava descendo. E tenho que dizer que, como alguém da tecnologia, meu uso de redes sociais e entretenimento online é bastante reduzido. Estou longe de ser “power user“, “heavy consumer” ou qualquer outro termo desnecessário em inglês para redes sociais e derivados.

Mas esta é a conclusão que eu chego: eu estava entediado, devendo sair do sofá pra quebrar o tédio com alguma atividade (tipo, caminhar. Tipo, ler um livro. Tipo, tocar violão…). Ao invés disso, meu cérebro disse “e se você pesquisar aquele negócio que você queria no Instagram, para ver umas ideias?”. E eu devo ter perdido uns 40 minutos ali, olhando para um feed infinito e que não me acrescentou nada. E ficando mais irritado ao invés de quebrar o ciclo de tédio, ansiedade, marasmo, sei lá o que mais havia naquele drink dos infernos que eu preparei (com ajuda da rede, e meu consentimento, e meus dados) e bebi.

Não me acrescenta nada. Não me conecta com gente que quer discutir coisas novas e resolver problemas velhos, não me aproxima das pessoas queridas, me trata como mercadoria, e ainda faz eu perder tempo. Tudo isso me fez pensar em dar tchau para as redes.

E, bem… Este blog faz parte de uma rede social (WordPress). E ele também não tem me conectado a quase ninguém (afirmo isso com base nas estatísticas de cada novo post). Pra piorar, aqui, eu sou premium, então, estou pagando por esse espaço que não me entrega nada e ainda tira de mim alguma coisa (sabe-se lá o que, além da anualidade). Preciso pensar no futuro das minhas redes, este blog incluso. Mas, ao menos até o fim do período de assinatura (7 de junho), ele fica aqui.

Se eu optar por encerrar o blog, obrigado por todo o tempo que você, nobre leitor(a) colocou nas linhas mal-escritas desse escritor frustrado e sem talento. Espero que mesmo que tenha sido cansativo, tantas e tantas vezes, ainda assim, eu tenha somado alguma coisa BOA pra você (tem que ser boa; de ruim, basta o que as redes trazem).

Como não terminar com uma nerdice, não é?

Um problema aberto e a comunicação

Esse é um texto de opinião. Se você veio em busca de algo muito sólido, com pesquisas e fontes em suporte ao que falo a seguir, eu vou lhe desapontar. À essa altura, contudo, eu espero que você já não se desaponte com nenhuma das groselhas que surgem aqui, a cada seis ou dez meses. Queria escrever mais groselha, mas a endócrino proibiu tanto açúcar…

Quando eu criei o Sobre Tudo & Todos, eu imaginava que iria escrever por aqui com uma alta frequência. Foi ali no ocaso do Facebook como rede social mais utilizada no Brasil que eu decidi começar um blog. Mas, enquanto proposta, eu não poderia estar mais na contramão de tudo [parece rebeldia? Mas é só burrice.]. Mesmo o YouTube já dava alguns sinais de cansaço e tudo indicava que as pessoas queriam menos e menos conteúdo escrito e mais e mais conteúdo audiovisual – de preferência, curto. Aparentemente, para grande parte da raça humana é difícil focar em algo por mais do que um minuto. Uma pena.

Mas eu quase nunca aprendo as lições que a vida quer me ensinar. Eu ainda acredito que o texto tem algo mágico e só seu, algo que o vídeo não consegue fazer e que é, justamente, dar liberdade a quem escreve e a quem lê para imaginar frases e contextos da forma que melhor lhes aprouver. Há algumas regras nesse jogo, é claro, mas elas são bem flexíveis e a liberdade é tamanha.

A pergunta, então, passa a ser o que tem de bom nessa tal liberdade. Quando eu escrevo, você me imagina falando o que falo com arrogância no semblante ou com uma cara de louco quero dizer… neurodivergente?
Quando você lê, você consegue entender o que me corrói? Você entende que o que me faz escrever é uma sensação de mal-estar com algo ou alguém, ou… Comigo mesmo… Você consegue imaginar o que me motiva?
Escrever, para mim, surge de uma irritação. É um processo de urticária: algo irrita a pele e você tem que coçar. São milhares de anos de evolução biológica e a resposta ao estimulo é esta.

O que me irrita? Desde sempre, a deterioração social em marcha. Ela já foi mais brasileira do que de outros países mas, hoje, francamente, ela é mundial. Não, não é como se nós brasileiros tivéssemos partido de um sonho dourado e chegado no presente. Isso é tolice, posto que as provas e evidências dizem exatamente o contrário. É como dizer que videogames causam a violência no mundo e não explicar qual videogame jogavam aqueles que morreram e mataram na Segunda Grande Guerra Mundial, o mais violento dos conflitos armados em nossa breve História. Não, o passado não era melhor. Isso é uma armadilha na qual a mente humana cai com extrema facilidade.

O passado sempre parece melhor pelo simples fato de que nós já o vivemos. Aquele tempo e aquelas ocasiões estão todos resolvidos. Não importa se foram ruins, você sabe como a história terminou. Nosso cérebro já identificou os atores, as ações e os resultados. O passado é sempre seguro. O futuro é sempre incerto. Incertezas dão medo. E nós não gostamos de senti-lo.

Estou muito coach? Desculpe, eu não queria te ofender desse jeito. É que eu não sei bem o que fazer com essa liberdade. “Liberdade”… Isso se tornou uma obsessão bizarra, especialmente – mas não só – na política. Todos falam em “liberdade” de maneira compulsiva, quase em síncope. É um culto, um credo. Jamais explicam o que é essa “liberdade”, mas todos estão lutando por ela. “Liberdade”. “Corrupção”. “Igualdade”. “Inclusão”. O que isso realmente quer dizer? A resposta não pode ser outra que não um “depende”.

Está muito vago? Você já está pra desistir disso aqui? Eu não te culpo. A culpa é mesmo toda minha. A culpa é sempre de quem tenta dizer algo, mas falha em transmitir a mensagem. Pode falhar por não ter clareza sobre o que quer dizer. Pode falhar por ser muito conciso ou extremamente prolixo [eu, geralmente, estou no segundo time]. Falha porque erra o objeto ou confunde os meios com os fins.

Mas, esse é o paradoxo dos nossos tempos: somos uma espécie de animal que depende fortemente do social. Não temos as qualidades para viver completamente isolados. Talvez, mais gregários do que sociais, mas, ainda assim, comunicação é parte fundamental do que nos faz humanos. A comunicação leva à cultura, um dos últimos mitos fundantes e ainda de pé (mas cambaleando) da divisão entre homem e o resto da fauna.
E aquele sujeito vivendo na montanha, matando animais com a mão e comendo carne crua? Ainda que ele exista, ele não é um animal que prescinde do social. Sem amamentação, sem cuidados, […] sem uma sociedade que o levasse até os seus 14 ou 16 anos, quando se deu conta de si e do que queria fazer dali por diante, sua renuncia ao mundo social seria impossível. Há animais que realmente nascem e crescem sozinhos, desde o primeiro dia. Esse não é o ser humano.
“Onde mora o paradoxo?” você se pergunta. E eu te digo: somos uma espécie de animal social. A comunicação é vital para o sucesso desta espécie (não só do indivíduo. Da espécie). Porém, quando a comunicação falha e falha de novo e chega ao fundo do poço de falhas acumuladas, a forma mais baixa de comunicação que existe passa a ocorrer: a violência.

Somos animais sociais, fadados à comunicação como pressuposto ao sucesso da raça; e quando essa comunicação vai mal, por muito tempo, acabamos por apelar à violência. Violência que nos assusta e, assustados, nos comunicamos pior. O que gera mais violência. E a solução para quebrar o ciclo está naquilo que inicia o ciclo: a comunicação. Eis o paradoxo.

Todos os nossos atritos nascem, de uma forma ou de outra, da má comunicação. Agora, calma, calma, eu sei: você não gosta de filosofia de boteco, e “teorias sobre tudo” – que visam explicar o macro e o micro – parecem fadadas ao fracasso. Mas, em verdade, “fracasso” e “sucesso”, neste contexto, são apenas medidas binárias para dizer quantas vezes o modelo explica a realidade com precisão. E como eu não canso de repetir o dizer alheio, “todos os modelos estão errados, mas algum são úteis”.

Então, se (por exemplo) você não aguenta mais sua mulher (ou marido), melhorar a comunicação pode não ser a resposta para a melhora da relação. Mas é A RESPOSTA e ponto. Por que?
Porque se na origem vocês se comunicaram mal e a relação cresceu por sobre um cadafalso de frases pela metade e mal-entendidos, todas as premissas adotadas pelas partes dessa comunicação estão (e provavelmente são) invalidas. Quero dizer que significante e significado são de todo diferentes no vocabulário compartilhado pelos atores da sua relação.
Manga é manga, claro! Mas esse é o significante. Como você bem sabe, o significado é obviamente a fruta (exceto que para a outra parte o significado é obviamente o recorte da camisa).

E como melhorar a comunicação é A RESPOSTA? Bem, porque aumentando a clareza da comunicação, vocês dois descobrem que conseguem falar das mesmas coisas, usando os mesmos signos ( = significantes), sem jamais compartilhar dos mesmos valores (= significados). Se essa for a conclusão, o problema fica claro: uma relação fundada sobre premissas falsas não pode dar certo. É sobre o valor para as pessoas na relação, não é sobre o mérito da relação em si (poxa, mas a gente se ama tanto!), de seus motivos de partida (ela me ligou naquela tarde vazia!), tampouco dos seus objetivos de chegada (temos três lindos filhos juntos!). O maior problema é que toda comunicação, quando falha demais, por muito tempo, leva à violência. E “violência” é só o significante, aqui. O significado pode ser o famoso sopapo na cara, mas há TANTAS formas de violência: psicológica, moral, social. Até o soco na cara e o B.O. na delegacia, há todo um calvário de violências como ignorar e ser ignorado, as ofensas gratuitas, as palavras que desqualificam o outro como um ser humano intitulado a dignidade, simplesmente por ter nascido humano. Mesmo a indiferença contra alguém que diz nutrir algo de bom por você tem o condão de infligir dor.

“De novo atacando de coach, Rodrigo? Cacete, duas vezes no mesmo texto…”. Pois é. Porém, há um motivo mais importante quando a tentativa é a de falar de uma “teoria de tudo”. Eu disse, lá no começo, que o que me incomodava era a deterioração social e que eu arbitrariamente escolhi a escrita como forma de me expressar, mesmo sabendo que o momento é contrário a essa via.

Estou tentando, de maneira iterativa (observe: iterativo, sem n) demonstrar que a comunicação, quando melhora, esclarece exatamente a natureza das relações humanas. Não é o mesmo que dizer que quando a comunicação melhora, as relações humanas que já estão postas melhoram. Porque pode ser que elas não tenham como melhorar, já que as partes envolvidas nelas podem não partilhar de significados equivalentes para os significantes sendo utilizados. Se isso vai longe, por muito tempo, a violência (que é a forma mais baixa de comunicação) surge. No seu surgimento, o processo iterativo de se comunicar se converte num ciclo vicioso. Uma espiral destrutiva. Por medo, nos comunicamos pior. Da pior comunicação, gera-se violência. E a violência causa medo.

Eu tenho que fazer uma breve pausa para pedir perdão: se isso parecer a você como algo absolutamente novo e revolucionário saiba que eu estou, não intencionalmente, te enganando. É claro que inúmeros intelectuais, do passado e do presente, se debruçaram nesse tema. Cada qual com seu enfoque. Cada qual privilegiando aquilo que lhes chamava mais a atenção, ou que parecia mais promissor como resposta ao problema que apresentaram.

O que eu faço “de novo” é propor a reflexão pública e em termos simples, sobre como a resposta “a comunicação ruim leva à violência que gera mais comunicação ruim, em infinitos ciclos” se adequa ao problema “a deterioração social de nossos tempos”.
Se quiser um autor, dentre tantos, Niklas Luhmann, falecido em 1998, já estudava a sociedade pelas lentes da Teoria de Sistemas e abordava a comunicação como o objeto a ser explorado, para compreender o que os n sistemas sociais deixam de eco uns para os outros, mutuamente se alimentado e mutando por meio dessa troca. É mais (bem mais) complexo do que isso, mas meu ponto por aqui é sempre o mesmo: não precisa ser sempre mais complexo. Precisamos, pelo contrário, cada vez mais, melhorar a comunicação e isso significa, de algum modo, baixar certas barras, abrir mão de certos rigores, viabilizar que pessoas “a dez por hora” alcancem quem já está “a sessenta por hora”.

Isso é “inclusão”? E eu sei lá?! Não estou preocupado com o bingo da responsabilidade social; não me preocupo com a formação da minha reputação a partir da opinião de gente que mal conheço. Por que não dependo deles (ui, ui, ui)? Quanta petulância eu teria se assim pensasse! Não. É porque eu simplesmente não controlo como essas pessoas me veem, tampouco controlo seus significados aos significantes que uso. O que controlo é quantas vezes eu consigo explicar o mesmo significante, de diferentes formas, tentando garantir que a redundância de explicações afaste o risco de um mal-entendido.

Estou preocupado com a deterioração social [ou do contrato social vigente] e elegi a comunicação (ou melhor dizendo, a [falta de] qualidade dela) como a resposta para o problema. Então, se todos nos comunicarmos melhor, o mundo será uma grande “ciranda, cirandinha”? Mas é óbvio que não. Há significados irreconciliáveis. Há valores que não permitem a convivência. Exemplifico:

Se o que você chama de “criminoso” é o “neguinho no farol” que toma o seu celular, mas não chama assim o empresário que destrói um ecossistema e explora descaradamente uma mão de obra alienada de sua própria realidade, eu não posso concordar com você sobre quais criminosos devemos combater com mais ou menos prioridade.
Porque por de trás da sua definição (seu significado) para o significante “criminoso” mora sua resoluta certeza de que o “neguinho” é preguiçoso e moralmente corrompido, mas brilha nos seus olhos que em nome do sucesso de um CNPJ vale (quase, espero) tudo. Desse ponto em diante, nós dois não temos como prosseguir em um contrato social que nos obriga a partilhar dos mesmos deveres e direitos, porque sempre vamos discordar frontalmente quanto à execução de tal contrato.

Está ficando estranho? Muito separatista? Muito “esquerdista”? Não era bem a intenção, mas comunicação tem dessas coisas. Bem feita ou mal feita, ela ainda gera colaterais que, por definição, não são desejados, mas ocorrem assim mesmo. Eu disse, antes: se a gente realmente entender qual é o significado (e deixar de acreditar no valor de face do significante) no discurso de cada parte, vai ficar mais claro o que é mal-entendido, o que é valor moral, o que é reconciliável e o que não é. Daí em diante fica TÃO mais fácil desenhar um caminho que passe longe da violência (em todos os seus significados). E o caminho pode ser, inclusive, o fim da comunicação entre as partes. Veja: isso é totalmente diferente de “guerra”. Guerra ainda é a tentativa de, por meio da violência, forçar o outro lado a aceitar aquilo que o lado agressor está propondo e comunicando. Ainda é comunicação.

Como eu não me comunico com ninguém em Kuala Lumpur e vice-versa, os malaios não me fazem qualquer mal e eu tampouco faço a eles. Agora, é claro, essa tese tem seus limites impostos por um sistema maior que o de origem humana, que é o próprio planeta. Se um malaio, mesmo sem qualquer comunicação comigo, afeta o rio do qual eu tiro a água que bebo, passamos a ter um problema e surge uma comunicação mal feita (se estivesse com boa fé, ele deveria ter suspeitado que mexer na água de um rio importante de outro país geraria consequências, mas decidiu fazê-lo sem maiores comunicações com os interessados. Cometeu uma violência, e violência é comunicação, mesmo que seja a pior delas).

E aqui, fica interessante. Neste caso hipotético, ele teria abusado da liberdade que imaginava ter, ou ele “só” falhou em se comunicar com os interessados? “Ambos” parece bem razoável como resposta, mas eu forço a barra mais um pouco: não é que ele teria abusado da liberdade e isso causaria um problema comunicacional.
A liberdade absoluta que ele pensa ter, motivada ou equivocada, só existe num contexto em que ele não precise se relacionar com mais ninguém. Na realidade de um mundo partilhado e de infinitos sistemas interconectados e retroalimentados, toda a ação, mesmo que individual, gera uma consequência que, se não prévia e propriamente comunicada a todos os interessados (que podem nem saber que o são), leva a um problema de má comunicação (que, se não corrigida, leva à violência, que leva…).

Essa é uma outra forma -mais complexa forma, admito – de dizer “não, você não é livre para fazer o que quiser”. Esse tipo de liberdade incontida só é possível em sistemas fechados (como num videogame, por exemplo). No mundo real, praticamente todas as suas ações e comunicações geram efeitos nos n sistemas que lhe cercam, dos menores (como o almoço da família de domingo) aos maiores (como a eleição presidencial, de quatro em quatro anos).

Esse texto lhe parece muito “comunista”? O erro segue sendo meu. Sim, fingindo que essa dicotomia entre “esquerda” e “direita” é suficiente para explicar o pensamento político de alguém (dica: não é), eu me considero dotado de uma interpretação política mais ligada à esquerda, pelo simples fato de que eu não acho que o mundo e os contratos sociais estão bons do jeito que estão. Se eu tenho uma tendência à reforma, e especialmente ao tipo de reforma que busca tirar poder de grupos homogêneos e redistribuir esse poder para grupos mais fragmentados, ou mesmo de refundar instituições de Estado, logo, eu tendo ao pensamento comum à grande parte do que se chama de “esquerda”. Seja como for, ainda que eu não seja esquerda (posto que eu concordo quase sempre com os diagnósticos, mas raramente com as prescrições que a esquerda faz), “direita” eu certamente não sou. Eu não acho que tudo vai melhorar por si só, desde que todos obedeçam à Lei, pelo simples fato de que a Lei foi construída por sobre um enorme baldrame de más comunicações.

Por exemplo: é claro que a Lei brasileira beneficia quem tem mais dinheiro. Isso não é uma opinião, quero ser agressivamente claro quanto a isso. Isso é um fato. O desenho legal brasileiro permite que endinheirados escapem das punições com pouca ou nenhuma restrição às suas liberdades e direitos. É um universo paralelo onde ações não têm consequências ou se têm, elas são marginais, ínfimas. Ações sem consequências, em sistemas conectados e que se retroalimentam por meio da comunicação, por definição não podem existir. Exceto no universo paralelo criado para uma elite econômica, por meio da adequação do sistema legal que ocorreu por aqui.

Então, eu sou um defensor dos pobres e oprimidos? Meh… Que bobagem. Eu sei que sou oriundo da classe pobre, e sei que, correntemente, por n circunstâncias da vida, eu faço parte de uma decadente classe média que agoniza entre o chicote da classe alta e os dentes da classe mais pobre. Essa agonia não a torna uma classe de coitados, mas, certamente gera medo, e o medo… Bem, você já sabe. Agora, ter “consciência de classe”, como se diz por aí, não me faz vilanizar ricos e beatificar pobres. Na real, todo mundo sabe que tem filho da puta em todo tipo de estrato social. Não se enganem, senhoras e senhores do respeitável público: os canalhas vêm em todas as formas e cores, salgados e doces, brilhantes e opacos. E, acima de tudo, os canalhas também envelhecem. Tem canalha pai de família, tem canalha avô de família. Tem canalha solteiro e solteirão. E, claro, como não poderia deixar de ser, tem “canalha fêmea”, também. Canalha gay, canalha hetero… Infinitas possibilidades. Quero ser enfático para que a comunicação não se torne descolada do significado de cada significante utilizado.

Está ficando difícil fechar essa hemorragia em forma de texto. Por “fechar”, eu quero dizer “dar um sentido tal que as ideias compartilhadas ganhem coesão entre si e rumem para uma conclusão.”. E aí vem o paradoxo final da minha divagação de hoje: Na matemática, isso tudo seria um problema em aberto.

A resposta“, seja ela qual for, nunca será completa, porque o que motiva a busca por ela (ou seja, o problema) nunca está completo. O problema em aberto que nós todos, membros de n sociedades (da mesa de almoço na casa da sogra, passando pelo futebol de domingo com a moçada, indo até o bairro, a cidade, o estado e, ufa…, o país), precisamos encarar é o problema de que, sendo animais sociais, reféns com Estocolmo da comunicação como pré-requisito ao sucesso da espécie, estamos acreditando em uma porção mentiras que envenenaram a comunicação no que diz respeito a maioria dos significados.

Calma… Deixa eu me redimir antes de dar tchau: Eu não sei se são mentiras o que nos envenena. Eu não posso afirmar que são. Afirmar isso implicaria em eu ter que saber de cada vez que uma comunicação desse tipo foi feita e em que medida o(a) Emissor(a) conhecia ou não do risco de que os significados dos significantes que ele(a) empregou fossem diferentes nos Receptores (audiência) em que ele(a) mirou a mensagem. Ou seja: só é mentira se eu, comunicador, sei que o risco do que eu digo signifique algo diferente para você e, dolosamente, eu persigo que esse risco se realize. Se eu digo o que eu digo e você entende outra coisa, sem que eu realize esse risco, eu não estou mentido. Na pior hipótese, só me comunico mal.

Mentira ou mal-entendido, tanto faz: uma enorme parcela de nós, nas n sociedades [ = sistemas] em que somos parte, está com o significado errado para quase tudo o que se comunica por meio dos significantes que circulam.
Exemplos de conceitos equivocados, frutos da má comunicação: não dependemos de ninguém. Nosso sucesso (ou o de outros) é fruto único e irrevogável do nosso esforço e mais nada. Nossa liberdade permite qualquer coisa (de ouvir funk na praia, a pôr um crucifixo na vagina; passando por andar com um revolver na cintura, como se um xerife você fosse). Todos os valores são uma construção histórica e nada tem valor em si, logo, toda a moral é descartável.

Nós precisamos corrigir a nossa comunicação. Com a mulher, com o filho, com o patrão, com o vizinho. Com a polícia e com o bandido. Ao corrigir, não quer dizer que vamos todos cirandar. A promessa nunca foi essa. Mas nós vamos entender o que dá para salvar e o que não dá. E aí, se constrói o acordo possível.

O atual contrato social está fadado ao fracasso. Porque o significado que cada um lê nele não é partilhado pelos demais. E a comunicação já vem falhando há muito tempo. E quando ela falha por muito tempo…