Pensando em dar “tchau” (talvez, só para as redes sociais. Talvez, não…)

Sempre fui contra “pregar para convertidos”. Tirando o maneirismo do aforismo, eu acredito que passamos tempo demais “falando” com telas e algoritmos. E isso está ferrando (ainda é horário nobre) com todos nós.

Aliás, você aí! Sabe explicar o que é o tal “algoritmo” que tanta gente fala? Veja bem: Não é “algarismo”, hein?… “Algarismo” são os números, arábicos (1, 2, 3) romanos (I, II, III) e zaz… Te perguntei de “algoritmo“.

Algoritmo é termo da matemática, e você encontrará referências para ele já na Pérsia Antiga, nove séculos depois de Cristo. O nome mais comum que surge é do matemático Mohamed Ben Musa. Depois, o termo ressurge nos primórdios dos computadores mecânicos, com gente como Ada Lovelace (séc. XIX) utilizando-o e, mais tarde, Alan Turing, “o pai da ‘moderna computação'” (que, aos olhos do progresso atual, de “moderna” não tem mais nada). Rigorosamente, “algoritmo” quer dizer “conjunto de operações matemáticas finitas, desenhadas a fim de resolver um dado problema, eficientemente”. Ou seja: é uma “receita de bolo” para lidar com algum desafio conhecido e bem mapeado (ao menos razoavelmente), da forma mais inteligente quanto o possível.

Há diversos tipos de algoritmo e várias notações/representações, e eu não vou percorrer esse caminho com você, hoje, mas vamos a exemplos, pois eles sempre ajudam:

Queria dar os créditos, mas a página que traduziu o fluxograma (nome de um tipo de diagrama que pode representar um algoritmo) sequer está no ar. Obrigado Helldane. Esteja onde estiver…

Pois bem, nosso fluxograma, acima, representa o algoritmo que foi desenhado para lidar com algo que estava funcionando e parou. Você começa no topo (a bagaça funciona?) e vai respondendo “sim” ou “não”, até chegar em alguma “caixinha” (de verdade, seria um processo) para o qual não há nenhuma saída nova, representando o fim da rotina prescrita pelo algoritmo apresentado. É só um desenho engraçadinho, no entanto, poderíamos facilmente codificar um programa de computador que implementasse essa lógica descrita e tomasse decisões através das aproximações sucessivas que ela pressupõe.

Isso é o algoritmo: não o desenho (o desenho só representa graficamente o algoritmo), mas sim o conjunto de passos lógicos descritos previamente para lidar com o(s) problema(s) que foi(ram) mapeado(s) e responder às partes que compõem esse(s) problema(s), uma a uma, da maneira mais racional e eficiente possível. O foco no “eficiente” é bem importante para o algoritmo. Se no seu smartphone, repleto de cores de processamento e 4 ou 8 GiB de RAM, essa eficiência é desejável e faz falta, em sistemas primordiais de computação a falta de eficiência era a diferença entre conseguir executar e não executar o programa (é como nós, os antigos, chamávamos os “apps” = programas [o português tem palavras, sabia? Você pode deixar o inglês para quando ele for necessário…]).

Tá… E daí? E “daí” que quando você fica falando (ou ouve falar) “o algoritmo isso”, “o algoritmo aquilo”, ou “treinei/ensinei meu algoritmo pra X”, é disso que estamos falando: um programa que foi desenhado, com passos lógicos e eficientemente agrupados para lidar com o problema ao qual foram desenhados como possível resposta.

E qual é o problema que os algoritmos de redes sociais precisam resolver? Acima de qualquer outro, o problema (risco) de você querer parar de usar. Esse é o principal. Rede social só dá dinheiro se a galera “engaja”. Pode engajar no amor ou no ódio, desde que engaje. O que se vende para as agências de publicidade é basicamente: alcance (quanta gente a rede abarca, e isso tem tudo a ver com engajamento) e conhecimento populacional (o quão bem os gestores das redes sociais conhecem seus usuários [não necessariamente de forma individualizada, pois nem precisam], seus hábitos, gostos e preferências. Sobre tudo: da pizza ao político preferido e o odiado.).

Em 2022, eu li o livro do Jaron Lanier, “Ten arguments for deleting your social media accounts right now” como parte da pesquisa que fiz para o trabalho de conclusão de curso em Direito (acredito que a versão em português tem o mesmo nome, traduzido, ou seja “dez argumentos para você apagar suas redes sociais, agora” – ou coisa do tipo). Li em inglês para evitar problemas com tradução de alguma ideia que o autor poderia querer passar e a tradução “matou”. É raro mas acontece muito e eu, inclusive, achei uma dessas na amostra do livro em BR…

Jaron elenca os 10 argumentos em forma de capítulos:

  1. Você está perdendo seu livre arbítrio
  2. Sair das redes sociais é o jeito mais acertado de lidar com a insanidade dos nossos tempos
  3. As redes sociais estão te tornando um cuzão (palavras dele, não minhas)
  4. As redes sociais estão minando o conceito de “verdade”
  5. As redes sociais estão fazendo o que você fala ser insignificante
  6. As redes sociais estão destruindo sua capacidade de ter empatia
  7. As redes sociais estão te fazendo infeliz
  8. As redes sociais não querem que você tenha dignidade econômica
  9. As redes sociais estão tornando a política impossível
  10. As redes sociais odeiam a sua alma (wow?!)

Agora… Bem… Só pelos títulos dos capítulos, acho que você já percebeu duas coisas: 1) o estilo de escrita do Jaron é bem-humorado. 2) Ele odeia as redes sociais – por bons motivos, acho.

Eu, como você já sabe, sou contra falácias como meios de sustentar um debate. Seria falacioso falar que a mãe dele tem chulé (ad hominem) e seria falacioso discorrer sobre as credenciais do homi e como são elevadas (falácia de apelo à autoridade). Porém, ao mesmo tempo, o mundo real precisa de alguma amostra de quem porta a mensagem para, pelo menos, saber se a pessoa que fala entende do que fala. O que mais tem nesse mundo moderno de meu Deus é gente falando do que não sabe.

Jaron é um cientista da computação, com formação sólida na área de realidade virtual; trabalhou para diversas empresas, incluindo a Microsoft, e esteve em diversas universidades (Berkeley, São Francisco, Columbia). Em resumo, não é como se ele falasse de algo que “ouviu alguém dizer”, tampouco é como se isso fosse a mera impressão pessoal alçada a fato, sobre uma área (a internet e as redes) que ele não sabe nem se é de comer ou de passar no cabelo.

Eu não pretendo, seja por extensão, seja por respeito ao direito autoral, entrar em detalhes de cada um dos itens da lista dele. Mas a real é que só de bater o olho nos títulos, você meio que sabe do que ele está falando. Se quer realmente entender o que ele tem a dizer para cada item, compre o livro. Dá uma moral pro trabalho do cara. Tá baratinho e tem a versão online se quiser ler rápido (é bem curto, menos de 200 páginas).

Alguns são autoexplicativos, mas vamos passar por todos, a 30 mil pés de altitude:

Você está perdendo seu livre arbítrio porque o livre arbítrio não é exatamente amigo do vício, e redes sociais são desenhadas para viciar (lembra do primeiro problema que o algoritmo tenta resolver? Pois é…). Empresas que mantêm redes sociais gastam tanto dinheiro com desenvolvedores quanto gastam com psicólogos, publicitários e todo tipo de profissional que os ajude a prender a sua atenção na rede social deles. Alguns fazem isso de forma porca, outros de forma espetacularmente cruel, vilanesca e, principalmente, eficaz.

Sair das redes sociais é o jeito mais acertado de lidar com a insanidade dos nossos tempos porque a forma como as redes foram desenhadas se aproveita dos nossos medos, traumas e desejos para nos prender lá. Isso é quase que um desdobramento do primeiro apontamento. Ou seja: para te prender na rede social e torná-la um sucesso para seus clientes (dica: você não é o cliente da rede social. Você é o produto…), eles vão te incentivar a compartilhar sua vida no feed (assim, eles conhecem você enquanto produto); vão te empurrar conteúdo que você não quer (quantas vezes você pulou o anúncio, hoje? Já desistiu e comprou o serviço premium? Até quando eles mantêm o premium sem anúncios [e criam o premium++, este sim, sem anúncios {por um tempo…}]? Já clicou no jogo que é uma enganação e não faz nada do que é mostrado na publicidade?); vão te fazer ter medo, ou se revoltar com algo que incomoda os donos da rede, o cliente deles, ou simplesmente que precisa ser repudiado para gerar “engajamento”; e vão dar um jeito de vender toda essa atrocidade e fazer dinheiro com a sua vida e as consequências de tudo isso, ora descrito. Qual a melhor forma de não passar por essa manipulação que te usa para ganhar rios de dinheiro? Não fazer parte dela.

As redes sociais estão te tornando um cuzão porque os pontos 1 e 2 da lista estão funcionando muito bem. Ou seja: a rede social é viciante e te mantém nela o máximo de tempo possível. Logo, o algoritmo resolveu o primeiro problema. O segundo problema é que ela precisa dar lucro, então o algoritmo faz com que você engaje, conte quem você é e, em troca, ele te afaga ao conectar você com gente que pensa como você e premia atitudes, conteúdos, […] engajamentos que gerem o máximo de alcance e conexão com outros usuários do seu perfil. A escolha, aqui, é amoral (e não necessariamente imoral), ou seja: o objetivo é ter pessoas conectando com o conteúdo, reagindo positiva ou negativamente, contando suas vidas, marcando posições, e alimentando tanto o quanto a rede social sabe do seu público, como ficando mais tempo no app da rede, vendo mais publicidade, pulando mais vídeo, etc. etc. etc…

As redes sociais estão minando o conceito de “verdade” e olha: isso aqui é até uma perda de tempo de demonstrar. Todo mundo sabe que estão. O bolsonarista sabe que está. O ptista sabe que está. O terraplanista sabe que está. O astrofísico sabe que está. O antivaxxer sabe que está. E o microbiologista também sabe que está. Oras, se todo mundo tem certeza que a verdade não está nas redes sociais, se tudo que sai nas notícias, nos canais, em todo lugar é mentira, então É ÓBVIO que a verdade está sendo minada. A única pequena dificuldade é descobrir quem tem razão e em que caso.
Contudo, redes sociais têm perto de zero compromisso com conceitos complexos como “verdade”, especialmente se isso passar à frente dos dois grandes objetivos de qualquer rede social: engajamento e lucro. Quando você pega um canal de YouTube onde um cara sem qualquer qualificação acadêmica rebate cientistas da NASA, falando sobre mudança climática, você tem 50% de chance de perceber que a verdade está sendo minada pelas redes (exceto, claro, se você for do time que acha que mudança climática não existe… Aí, são os canais “oficiais” [também nas redes sociais] a espalhar mentiras, na sua opinião). E, espia: falando em YouTube, se você já assistiu a algum dos seus “influencers” falando em como a rede se comporta e o que ela incentiva o produtor de conteúdo a fazer pra tirar algum $$$ dali, você sabe que o compromisso é com tudo, menos com a verdade: um cara faz 10 vídeos por semana e fica no topo da página inicial. O outro faz 1 vídeo por mês e desaparece do radar. Em momento algum a qualidade dos vídeos entrou em consideração para dizer quem tem destaque (e, esperadamente, mais audiência [= mais dinheiro]) e quem não.

As redes sociais estão fazendo o que você fala ser insignificante porque como 99% das pessoas que andam nas redes já pensaram em ganhar dinheiro com elas (eu sei que já pensei), “4 minutos se passaram e ninguém viu, o podcast que nasceu em algum lugar do Brasil”. E se “pluralidade de ideias” ou “vasta oferta de qualidade e quantidade de conteúdo” não são automaticamente sinônimos de “lixo”, o “lixo” é exponencialmente criado com essa proliferação “sem um predador” para pôr ordem no ecossistema.
Eu ou você podemos, agora mesmo, abrir um canal no YouTube, uma live no Insta, ou seja lá qual o nome no TikTok e começar a falar. E mostrar gráficos e compartilhar vídeos e imagens…. E o quanto do que vamos veicular é verdade ou não, faz sentido ou não, está sendo analisado dentro do contexto correto ou não… Bem, a única pessoa capaz de decidir tudo isso é quem assiste. Todavia, o que acontece se quem assiste não sabe separar o joio do trigo? Ferrou (de novo: horário nobre…) não é mesmo? E se você for um microbiologista advogando pelas vacinas, e eu for um antivaxxer rebatendo tudo que você fala? E se você for menos carismático do que eu, e eu for mais vendedor de automóveis que você? O que importa o que você fala? E se todos falam, e se a cada esquina tem um mesa-cast sendo gravado com convidados dos mais ilustres aos mais ignóbeis… O que importa o que qualquer um tem a dizer, sobre qualquer coisa?

As redes sociais estão destruindo sua capacidade de ter empatia. Eu preciso mesmo demonstrar esse? É simples até: as redes sociais “brincam” com nossos instintos primais e, para nos manter horas “rolando a tela do celular”, fazem com que criemos nossas “tribos”. Todo esse desenho faz com que o bullying te conecte com quem pensa como você e massacre o outro lado. E não importa se você é (ou acha que é) de Esquerda ou Direita. Você faz bullying com o outro lado. Eu sei que faz. Eu já vi gente dos n lados fazendo, eu já sofri e eu já fiz (em algum nível).

As redes sociais estão te fazendo infeliz. Olha, se você leu até aqui e não ficou infeliz, só de ler… Sei lá o que te move. Eu estou infeliz de escrever, e olha que eu escolhi escrever sobre isso. Vou contar uma anedota só para dar a dimensão de como a coisa toda é imprevisível. Tenho um grande amigo que ficou extremamente mal com a vitória de Trump. Óbvio, nenhuma pessoa que quer um futuro melhor para TODOS (e não só para os americanos brancos) ficou feliz com isso. Porém, ele ficou especialmente mal. Um dos N fatores a contribuir com a profunda depressão é de que ele estava convicto, apostando todas as fichas e até assumindo responsabilidades desnecessárias pela aposta na vitória de Kamala, falas e posturas que ele não deveria ter se estivesse racionalmente analisando a situação.
Eu o avisei um sem-número de vezes que todas as pesquisas mais sóbrias e sólidas (se você analisa política há tempos, você acaba aprendendo quem faz o trabalho e quem é do oba-oba) mostravam um quadro MUITO difícil para a Kamala, e ele rebatia dizendo que confiava no que ele estava lendo e ouvindo. Agora, eu sei que esse cara é MUITO inteligente, e eu sei que ele não estava interpretando errado o que recebia. O problema – na minha opinião – foi mais simples: ele foi enganado “pela rede do bem” que ele formou ao seu redor. Essa, na verdade, é outra mentira da rede social: a que você pode fazer uma curadoria do que consome e recebe, de tal forma a se manter informado e, ao mesmo tempo, imune ao esgoto que corre nela. Aqui está o dilema: é ou um, ou outro. Ou você é feliz (e enganado), ou é triste (e, talvez, informado – depende muito, viu?). Seja como for, as redes sociais até “quando te deixam no poder” (dica: elas nunca deixam, mesmo) te fazem infeliz, cedo ou tarde.

As redes sociais não querem que você tenha dignidade econômica. Este ponto é bem complexo, talvez o mais complexo do livro. Além de complexo ele é controverso. Só lendo pra saber a zona cinza que o autor percorre. Fala sobre um modelo de negócios que nasce de um valor bem-intencionado, mas que fatalmente gera o monstro que agora tememos (é o argumento dele). Ele discute como a ideia de software gratuito (free as in beer) e de manter a internet “de graça” acaba nos levando para um mundo em que as empresas apenas pensam em lucratividade por publicidade (ad-revenue) e como isso molda todo o algoritmo e as características (todas as narradas, e todas as demais) de uma rede social moderna. A dignidade econômica removida seria, então, o fato de que como você não paga por nada (tirando a conexão e o aparelho), as empresas escolhem o que fazem com você, seus dados, sua vida, e tudo o mais. Você não paga, logo você não é o cliente, mas o produto deles. E o dono do produto faz o que quer com o produto.

As redes sociais estão tornando a política impossível. De novo: chega a ser idiota tentar explicar o que todo mundo sabe. Então, ao invés de explicar o que todos já sabem, eu vou dizer o que nem todo mundo tem em mente: nós já tentamos o caminho sem a política. Nós temos séculos, senão milênios, de História humana onde a política ou era um apêndice enganoso, ou estava apenas engatinhando na organização do espaço social de cada nação. Seja como for, nós tentamos o mundo onde os fortes governam, onde os deuses governam, onde as tribos se organizam (e guerreiam com as demais), onde os militares mandam… E… Todos esses modelos foram uma grande bosta. Só pode elogiar quem vislumbra fazer parte de um dos sempre exclusivos grupos de poder. Claro: podemos fazer um longo debate de como a vida política atual (especialmente nas Américas) se assemelha a uma casta separada e sobre como essa vida política não habilita a verdadeira democracia, mas só a demagogia, o nepotismo e a corrupção. O meu ponto de partida é: o sistema atual é um sistema falho, porém perfectível. Ou seja: a política tem odiosas características que, com uma sociedade civil organizada, podem ser combatidas. A boa e velha Ficha Limpa tá aí pra dar ao menos um exemplo. Tem vários outros e não vou percorrer eles todos, mas me chama e a gente fala do que melhorou desde que a política (e não a violência, e não Deus, e não os militares[…]) passou a dar vida ao Estado nacional. E tudo isso está em risco, e as redes sociais são incríveis vetores de ataque e grandes catalisadores do ódio e da irracionalidade na política. Elas não querem sociedade civil organizada. Isso remove o poder que elas precisam ter para te engajar e (escravizar) fidelizar.

As redes sociais odeiam a sua alma, e o autor fecha o livro assim porque a mensagem dele é clara em sentido: redes sociais são o oposto de “livre expressão”, “individualidade” (não confundir com “individualismo”, o que é ruim), sociedade harmônica e pacificação política. Tudo isso é o contrário do que redes sociais buscam, não porque elas sejam VILANESCAS na origem, mas porque o modelo de negócio delas depende de “dedo no cu e gritaria” (acabou o horário nobre) e eles não podem fomentar um mundo de “verdade” e “verificação de fatos”, porque… Por que? Você já assistiu ao Big Brother? Eu não. Mas eu sei (porque tenho amigos e orelhas) que as pessoas assistem aquele negócio pra ver aquele mini-mundo pegar fogo.
Num espaço onde a verdade é a regra e os fatos são rigorosamente checados, nada realmente pega fogo. Pode ser super empolgante, mas quem entendeu, entendeu e quem não entendeu vai seguir tentando entender, e nada mais. Não tem conflito, não tem dedo em riste, não dá engajamento. Por isso, e não por serem a cria do Capeta, redes sociais não podem incentivar um mundo melhor para os humanos. Porque se o engajamento cair, o produto “rede social” perde o valor. E como elas ganham dinheiro conhecendo bem o produto delas (você), isso não pode acontecer. E a melhor forma de engajar – descobriram os donos das redes – é na confusão e no conflito.

O autor ainda lembra que ele escolheu 10 pontos “porque sim”. Ele poderia ter falado, só por exemplo, da distorção da realidade que redes sociais geram, da ansiedade, dos gatilhos de consumo, de alimentação, das obsessões, dos conflitos familiares, amorosos… Enfim… Ele escolheu o que era mais “neutro” em termos de concordância ou não, justamente porque são pontos que envolvem menos as discussões mais sentimentais e, muitas vezes, irracionais. A mensagem final dele é clara: Se o leitor encerrará suas contas ou não, é uma escolha absolutamente pessoal. Porém, se o leitor mantiver suas redes sociais, que o faça sabendo o que as redes fazem com ele(a) a fim de ganhar dinheiro e obter poder (o poder de “informar” [com o que querem], o poder de manobrar seus usuários, o poder de se defender de ataques de concorrentes, de dobrar o Estado, de fugir da Lei…).

E o que eu vou fazer? Eu não sei. Na verdade, eu não vim aqui escrever sobre um suicídio virtual em que encerro todas as minhas contas e sumo da Internet for good (olha o inglês desnecessário aí!) com esta nota longa de adeus. Eu nunca poderia, por exemplo, fechar o LinkedIn e perder um poderoso meio de arranjar um novo emprego, se esse dia chegar (nota para mim mesmo: ele vai chegar…). Eu também não me vejo sem os canais de YouTube que uso tanto para conhecimento (Petit Journal, Meio, Manual do Mundo, Aviões e Músicas, FDUSP, IREE TV, XKCD What if, Adam Something, NetworkChuck, OverSimplified e TANTOS OUTROS), quanto para me divertir (Cauê Moura, Serial Trippers, Planeta Aves, Cinema Therapy, Aprofundo, Voice Makers e TANTOS OUTROS)…

Aliás, se eu li esse livro em 2022, por que estou falando em “dar tchau” em 2025? Quanto tempo para refletir sobre um livro com menos de 200 páginas, não é?

Sei lá… Eu já disse isso antes, mas as redes sociais não me ajudam em nada. Mesmo o LinkedIn, que eu disse que preservaria de qualquer forma, está há 12 anos sem fazer nada por mim. Qualquer conhecimento que circule por lá é menos do que adquiro com livros oficiais das áreas que estudo, e as conexões só esquentam de tempos em tempos, quando alguém está buscando recolocação, por exemplo. Do mais, só quem tem “tino” para a auto-propaganda contínua abre o LinkedIn de segunda à sexta, para manter o “footprint“. Do resto, é uma rede sempre morna. Eu também nem sei o que eu faria e como me sentira se fosse uma rede “quente” (como o TikTok, por exemplo). Só constatei um fato.

Eu só acho que a minha presença ali faz as relações humanas que tenho serem sempre mais frias. A pessoa pode me adicionar como contato no WhatsApp e até ter meu telefone celular pessoal (que é diferente) e, ainda assim, nossas interações se resumirão a um video compartilhado, um joia, um coração e é isso. Por que eu estou ali? Por que meus dados estão ali? Por que meu celular tem um app que sabe Allah o que coleta e captura do meu dia a dia, independentemente do meu consentimento?

Eu poderia, alternativamente, simplesmente desinstalar o aplicativo e ficar com a conta aberta, não? Aí surge um problema humano: as pessoas veem minha conta lá e imaginam que eu estou por ali, que vou ver uma chamada, um chat, algo do tipo quando, de verdade, eu não vou ver nada disso ou verei meses depois. Aconteceu, inclusive no LinkedIn. Se elas souberem que não estou lá, por outro lado, a história muda. Se precisarem falar comigo, terão que usar o WhatsApp ou o bom e velho discador de telefone.

Além do mais, o que fui procurar na rede social, simplesmente não está lá. Não é a praça pública, a Ágora Ateniense, onde ideias e problemas são debatidos e o poder coletivo é utilizado em prol do maior número de pessoas. Não. É exatamente o oposto disso. São vitrines de sonhos impossíveis e meias-verdades, onde a mercadoria circula achando que é o usuário (ou, mais ilusório ainda, o cliente), mas ela é só isso mesmo: mercadoria.

Sair da rede social não me fará melhor do que nada, nem ninguém. Eu não ficarei mais inteligente, mais correto, mais digno[…]. Vai ter gente ganhando milhões com rede social enquanto não estou lá. Sempre teve e vai continuar tendo. Eu não sou um desses. Não tenho o tino, nem o talento, nem o tempo, nem o estômago. Fechar tudo também é utopia. Vou fechar o e-mail pessoal, ligado ao YouTube? Vou desaparecer da Internet, onde o governo usa meu e-mail para me permitir agendar a emissão do passaporte, do RG, pagar IPTU, ajustar o IRPF? E o WhatsApp? Ele também é uma rede social. Vou encerrar?

Não, não dá pra radicalizar sem virar indigente. E eu ainda não estou nesse grau da loucura (mas, quem sabe…). Contudo, outro dia me peguei impaciente, usando o celular no Instagram, rolando a lista de fotos de qualquer merda que já não me lembro… Eu rolava aquele feed infinito como se eu fosse achar o fim. E quanto mais eu descia, mais irritado eu ficava, porque pensava “okay, eu já vi o suficiente. Chega.”, só que continuava descendo. E tenho que dizer que, como alguém da tecnologia, meu uso de redes sociais e entretenimento online é bastante reduzido. Estou longe de ser “power user“, “heavy consumer” ou qualquer outro termo desnecessário em inglês para redes sociais e derivados.

Mas esta é a conclusão que eu chego: eu estava entediado, devendo sair do sofá pra quebrar o tédio com alguma atividade (tipo, caminhar. Tipo, ler um livro. Tipo, tocar violão…). Ao invés disso, meu cérebro disse “e se você pesquisar aquele negócio que você queria no Instagram, para ver umas ideias?”. E eu devo ter perdido uns 40 minutos ali, olhando para um feed infinito e que não me acrescentou nada. E ficando mais irritado ao invés de quebrar o ciclo de tédio, ansiedade, marasmo, sei lá o que mais havia naquele drink dos infernos que eu preparei (com ajuda da rede, e meu consentimento, e meus dados) e bebi.

Não me acrescenta nada. Não me conecta com gente que quer discutir coisas novas e resolver problemas velhos, não me aproxima das pessoas queridas, me trata como mercadoria, e ainda faz eu perder tempo. Tudo isso me fez pensar em dar tchau para as redes.

E, bem… Este blog faz parte de uma rede social (WordPress). E ele também não tem me conectado a quase ninguém (afirmo isso com base nas estatísticas de cada novo post). Pra piorar, aqui, eu sou premium, então, estou pagando por esse espaço que não me entrega nada e ainda tira de mim alguma coisa (sabe-se lá o que, além da anualidade). Preciso pensar no futuro das minhas redes, este blog incluso. Mas, ao menos até o fim do período de assinatura (7 de junho), ele fica aqui.

Se eu optar por encerrar o blog, obrigado por todo o tempo que você, nobre leitor(a) colocou nas linhas mal-escritas desse escritor frustrado e sem talento. Espero que mesmo que tenha sido cansativo, tantas e tantas vezes, ainda assim, eu tenha somado alguma coisa BOA pra você (tem que ser boa; de ruim, basta o que as redes trazem).

Como não terminar com uma nerdice, não é?

Um problema aberto e a comunicação

Esse é um texto de opinião. Se você veio em busca de algo muito sólido, com pesquisas e fontes em suporte ao que falo a seguir, eu vou lhe desapontar. À essa altura, contudo, eu espero que você já não se desaponte com nenhuma das groselhas que surgem aqui, a cada seis ou dez meses. Queria escrever mais groselha, mas a endócrino proibiu tanto açúcar…

Quando eu criei o Sobre Tudo & Todos, eu imaginava que iria escrever por aqui com uma alta frequência. Foi ali no ocaso do Facebook como rede social mais utilizada no Brasil que eu decidi começar um blog. Mas, enquanto proposta, eu não poderia estar mais na contramão de tudo [parece rebeldia? Mas é só burrice.]. Mesmo o YouTube já dava alguns sinais de cansaço e tudo indicava que as pessoas queriam menos e menos conteúdo escrito e mais e mais conteúdo audiovisual – de preferência, curto. Aparentemente, para grande parte da raça humana é difícil focar em algo por mais do que um minuto. Uma pena.

Mas eu quase nunca aprendo as lições que a vida quer me ensinar. Eu ainda acredito que o texto tem algo mágico e só seu, algo que o vídeo não consegue fazer e que é, justamente, dar liberdade a quem escreve e a quem lê para imaginar frases e contextos da forma que melhor lhes aprouver. Há algumas regras nesse jogo, é claro, mas elas são bem flexíveis e a liberdade é tamanha.

A pergunta, então, passa a ser o que tem de bom nessa tal liberdade. Quando eu escrevo, você me imagina falando o que falo com arrogância no semblante ou com uma cara de louco quero dizer… neurodivergente?
Quando você lê, você consegue entender o que me corrói? Você entende que o que me faz escrever é uma sensação de mal-estar com algo ou alguém, ou… Comigo mesmo… Você consegue imaginar o que me motiva?
Escrever, para mim, surge de uma irritação. É um processo de urticária: algo irrita a pele e você tem que coçar. São milhares de anos de evolução biológica e a resposta ao estimulo é esta.

O que me irrita? Desde sempre, a deterioração social em marcha. Ela já foi mais brasileira do que de outros países mas, hoje, francamente, ela é mundial. Não, não é como se nós brasileiros tivéssemos partido de um sonho dourado e chegado no presente. Isso é tolice, posto que as provas e evidências dizem exatamente o contrário. É como dizer que videogames causam a violência no mundo e não explicar qual videogame jogavam aqueles que morreram e mataram na Segunda Grande Guerra Mundial, o mais violento dos conflitos armados em nossa breve História. Não, o passado não era melhor. Isso é uma armadilha na qual a mente humana cai com extrema facilidade.

O passado sempre parece melhor pelo simples fato de que nós já o vivemos. Aquele tempo e aquelas ocasiões estão todos resolvidos. Não importa se foram ruins, você sabe como a história terminou. Nosso cérebro já identificou os atores, as ações e os resultados. O passado é sempre seguro. O futuro é sempre incerto. Incertezas dão medo. E nós não gostamos de senti-lo.

Estou muito coach? Desculpe, eu não queria te ofender desse jeito. É que eu não sei bem o que fazer com essa liberdade. “Liberdade”… Isso se tornou uma obsessão bizarra, especialmente – mas não só – na política. Todos falam em “liberdade” de maneira compulsiva, quase em síncope. É um culto, um credo. Jamais explicam o que é essa “liberdade”, mas todos estão lutando por ela. “Liberdade”. “Corrupção”. “Igualdade”. “Inclusão”. O que isso realmente quer dizer? A resposta não pode ser outra que não um “depende”.

Está muito vago? Você já está pra desistir disso aqui? Eu não te culpo. A culpa é mesmo toda minha. A culpa é sempre de quem tenta dizer algo, mas falha em transmitir a mensagem. Pode falhar por não ter clareza sobre o que quer dizer. Pode falhar por ser muito conciso ou extremamente prolixo [eu, geralmente, estou no segundo time]. Falha porque erra o objeto ou confunde os meios com os fins.

Mas, esse é o paradoxo dos nossos tempos: somos uma espécie de animal que depende fortemente do social. Não temos as qualidades para viver completamente isolados. Talvez, mais gregários do que sociais, mas, ainda assim, comunicação é parte fundamental do que nos faz humanos. A comunicação leva à cultura, um dos últimos mitos fundantes e ainda de pé (mas cambaleando) da divisão entre homem e o resto da fauna.
E aquele sujeito vivendo na montanha, matando animais com a mão e comendo carne crua? Ainda que ele exista, ele não é um animal que prescinde do social. Sem amamentação, sem cuidados, […] sem uma sociedade que o levasse até os seus 14 ou 16 anos, quando se deu conta de si e do que queria fazer dali por diante, sua renuncia ao mundo social seria impossível. Há animais que realmente nascem e crescem sozinhos, desde o primeiro dia. Esse não é o ser humano.
“Onde mora o paradoxo?” você se pergunta. E eu te digo: somos uma espécie de animal social. A comunicação é vital para o sucesso desta espécie (não só do indivíduo. Da espécie). Porém, quando a comunicação falha e falha de novo e chega ao fundo do poço de falhas acumuladas, a forma mais baixa de comunicação que existe passa a ocorrer: a violência.

Somos animais sociais, fadados à comunicação como pressuposto ao sucesso da raça; e quando essa comunicação vai mal, por muito tempo, acabamos por apelar à violência. Violência que nos assusta e, assustados, nos comunicamos pior. O que gera mais violência. E a solução para quebrar o ciclo está naquilo que inicia o ciclo: a comunicação. Eis o paradoxo.

Todos os nossos atritos nascem, de uma forma ou de outra, da má comunicação. Agora, calma, calma, eu sei: você não gosta de filosofia de boteco, e “teorias sobre tudo” – que visam explicar o macro e o micro – parecem fadadas ao fracasso. Mas, em verdade, “fracasso” e “sucesso”, neste contexto, são apenas medidas binárias para dizer quantas vezes o modelo explica a realidade com precisão. E como eu não canso de repetir o dizer alheio, “todos os modelos estão errados, mas algum são úteis”.

Então, se (por exemplo) você não aguenta mais sua mulher (ou marido), melhorar a comunicação pode não ser a resposta para a melhora da relação. Mas é A RESPOSTA e ponto. Por que?
Porque se na origem vocês se comunicaram mal e a relação cresceu por sobre um cadafalso de frases pela metade e mal-entendidos, todas as premissas adotadas pelas partes dessa comunicação estão (e provavelmente são) invalidas. Quero dizer que significante e significado são de todo diferentes no vocabulário compartilhado pelos atores da sua relação.
Manga é manga, claro! Mas esse é o significante. Como você bem sabe, o significado é obviamente a fruta (exceto que para a outra parte o significado é obviamente o recorte da camisa).

E como melhorar a comunicação é A RESPOSTA? Bem, porque aumentando a clareza da comunicação, vocês dois descobrem que conseguem falar das mesmas coisas, usando os mesmos signos ( = significantes), sem jamais compartilhar dos mesmos valores (= significados). Se essa for a conclusão, o problema fica claro: uma relação fundada sobre premissas falsas não pode dar certo. É sobre o valor para as pessoas na relação, não é sobre o mérito da relação em si (poxa, mas a gente se ama tanto!), de seus motivos de partida (ela me ligou naquela tarde vazia!), tampouco dos seus objetivos de chegada (temos três lindos filhos juntos!). O maior problema é que toda comunicação, quando falha demais, por muito tempo, leva à violência. E “violência” é só o significante, aqui. O significado pode ser o famoso sopapo na cara, mas há TANTAS formas de violência: psicológica, moral, social. Até o soco na cara e o B.O. na delegacia, há todo um calvário de violências como ignorar e ser ignorado, as ofensas gratuitas, as palavras que desqualificam o outro como um ser humano intitulado a dignidade, simplesmente por ter nascido humano. Mesmo a indiferença contra alguém que diz nutrir algo de bom por você tem o condão de infligir dor.

“De novo atacando de coach, Rodrigo? Cacete, duas vezes no mesmo texto…”. Pois é. Porém, há um motivo mais importante quando a tentativa é a de falar de uma “teoria de tudo”. Eu disse, lá no começo, que o que me incomodava era a deterioração social e que eu arbitrariamente escolhi a escrita como forma de me expressar, mesmo sabendo que o momento é contrário a essa via.

Estou tentando, de maneira iterativa (observe: iterativo, sem n) demonstrar que a comunicação, quando melhora, esclarece exatamente a natureza das relações humanas. Não é o mesmo que dizer que quando a comunicação melhora, as relações humanas que já estão postas melhoram. Porque pode ser que elas não tenham como melhorar, já que as partes envolvidas nelas podem não partilhar de significados equivalentes para os significantes sendo utilizados. Se isso vai longe, por muito tempo, a violência (que é a forma mais baixa de comunicação) surge. No seu surgimento, o processo iterativo de se comunicar se converte num ciclo vicioso. Uma espiral destrutiva. Por medo, nos comunicamos pior. Da pior comunicação, gera-se violência. E a violência causa medo.

Eu tenho que fazer uma breve pausa para pedir perdão: se isso parecer a você como algo absolutamente novo e revolucionário saiba que eu estou, não intencionalmente, te enganando. É claro que inúmeros intelectuais, do passado e do presente, se debruçaram nesse tema. Cada qual com seu enfoque. Cada qual privilegiando aquilo que lhes chamava mais a atenção, ou que parecia mais promissor como resposta ao problema que apresentaram.

O que eu faço “de novo” é propor a reflexão pública e em termos simples, sobre como a resposta “a comunicação ruim leva à violência que gera mais comunicação ruim, em infinitos ciclos” se adequa ao problema “a deterioração social de nossos tempos”.
Se quiser um autor, dentre tantos, Niklas Luhmann, falecido em 1998, já estudava a sociedade pelas lentes da Teoria de Sistemas e abordava a comunicação como o objeto a ser explorado, para compreender o que os n sistemas sociais deixam de eco uns para os outros, mutuamente se alimentado e mutando por meio dessa troca. É mais (bem mais) complexo do que isso, mas meu ponto por aqui é sempre o mesmo: não precisa ser sempre mais complexo. Precisamos, pelo contrário, cada vez mais, melhorar a comunicação e isso significa, de algum modo, baixar certas barras, abrir mão de certos rigores, viabilizar que pessoas “a dez por hora” alcancem quem já está “a sessenta por hora”.

Isso é “inclusão”? E eu sei lá?! Não estou preocupado com o bingo da responsabilidade social; não me preocupo com a formação da minha reputação a partir da opinião de gente que mal conheço. Por que não dependo deles (ui, ui, ui)? Quanta petulância eu teria se assim pensasse! Não. É porque eu simplesmente não controlo como essas pessoas me veem, tampouco controlo seus significados aos significantes que uso. O que controlo é quantas vezes eu consigo explicar o mesmo significante, de diferentes formas, tentando garantir que a redundância de explicações afaste o risco de um mal-entendido.

Estou preocupado com a deterioração social [ou do contrato social vigente] e elegi a comunicação (ou melhor dizendo, a [falta de] qualidade dela) como a resposta para o problema. Então, se todos nos comunicarmos melhor, o mundo será uma grande “ciranda, cirandinha”? Mas é óbvio que não. Há significados irreconciliáveis. Há valores que não permitem a convivência. Exemplifico:

Se o que você chama de “criminoso” é o “neguinho no farol” que toma o seu celular, mas não chama assim o empresário que destrói um ecossistema e explora descaradamente uma mão de obra alienada de sua própria realidade, eu não posso concordar com você sobre quais criminosos devemos combater com mais ou menos prioridade.
Porque por de trás da sua definição (seu significado) para o significante “criminoso” mora sua resoluta certeza de que o “neguinho” é preguiçoso e moralmente corrompido, mas brilha nos seus olhos que em nome do sucesso de um CNPJ vale (quase, espero) tudo. Desse ponto em diante, nós dois não temos como prosseguir em um contrato social que nos obriga a partilhar dos mesmos deveres e direitos, porque sempre vamos discordar frontalmente quanto à execução de tal contrato.

Está ficando estranho? Muito separatista? Muito “esquerdista”? Não era bem a intenção, mas comunicação tem dessas coisas. Bem feita ou mal feita, ela ainda gera colaterais que, por definição, não são desejados, mas ocorrem assim mesmo. Eu disse, antes: se a gente realmente entender qual é o significado (e deixar de acreditar no valor de face do significante) no discurso de cada parte, vai ficar mais claro o que é mal-entendido, o que é valor moral, o que é reconciliável e o que não é. Daí em diante fica TÃO mais fácil desenhar um caminho que passe longe da violência (em todos os seus significados). E o caminho pode ser, inclusive, o fim da comunicação entre as partes. Veja: isso é totalmente diferente de “guerra”. Guerra ainda é a tentativa de, por meio da violência, forçar o outro lado a aceitar aquilo que o lado agressor está propondo e comunicando. Ainda é comunicação.

Como eu não me comunico com ninguém em Kuala Lumpur e vice-versa, os malaios não me fazem qualquer mal e eu tampouco faço a eles. Agora, é claro, essa tese tem seus limites impostos por um sistema maior que o de origem humana, que é o próprio planeta. Se um malaio, mesmo sem qualquer comunicação comigo, afeta o rio do qual eu tiro a água que bebo, passamos a ter um problema e surge uma comunicação mal feita (se estivesse com boa fé, ele deveria ter suspeitado que mexer na água de um rio importante de outro país geraria consequências, mas decidiu fazê-lo sem maiores comunicações com os interessados. Cometeu uma violência, e violência é comunicação, mesmo que seja a pior delas).

E aqui, fica interessante. Neste caso hipotético, ele teria abusado da liberdade que imaginava ter, ou ele “só” falhou em se comunicar com os interessados? “Ambos” parece bem razoável como resposta, mas eu forço a barra mais um pouco: não é que ele teria abusado da liberdade e isso causaria um problema comunicacional.
A liberdade absoluta que ele pensa ter, motivada ou equivocada, só existe num contexto em que ele não precise se relacionar com mais ninguém. Na realidade de um mundo partilhado e de infinitos sistemas interconectados e retroalimentados, toda a ação, mesmo que individual, gera uma consequência que, se não prévia e propriamente comunicada a todos os interessados (que podem nem saber que o são), leva a um problema de má comunicação (que, se não corrigida, leva à violência, que leva…).

Essa é uma outra forma -mais complexa forma, admito – de dizer “não, você não é livre para fazer o que quiser”. Esse tipo de liberdade incontida só é possível em sistemas fechados (como num videogame, por exemplo). No mundo real, praticamente todas as suas ações e comunicações geram efeitos nos n sistemas que lhe cercam, dos menores (como o almoço da família de domingo) aos maiores (como a eleição presidencial, de quatro em quatro anos).

Esse texto lhe parece muito “comunista”? O erro segue sendo meu. Sim, fingindo que essa dicotomia entre “esquerda” e “direita” é suficiente para explicar o pensamento político de alguém (dica: não é), eu me considero dotado de uma interpretação política mais ligada à esquerda, pelo simples fato de que eu não acho que o mundo e os contratos sociais estão bons do jeito que estão. Se eu tenho uma tendência à reforma, e especialmente ao tipo de reforma que busca tirar poder de grupos homogêneos e redistribuir esse poder para grupos mais fragmentados, ou mesmo de refundar instituições de Estado, logo, eu tendo ao pensamento comum à grande parte do que se chama de “esquerda”. Seja como for, ainda que eu não seja esquerda (posto que eu concordo quase sempre com os diagnósticos, mas raramente com as prescrições que a esquerda faz), “direita” eu certamente não sou. Eu não acho que tudo vai melhorar por si só, desde que todos obedeçam à Lei, pelo simples fato de que a Lei foi construída por sobre um enorme baldrame de más comunicações.

Por exemplo: é claro que a Lei brasileira beneficia quem tem mais dinheiro. Isso não é uma opinião, quero ser agressivamente claro quanto a isso. Isso é um fato. O desenho legal brasileiro permite que endinheirados escapem das punições com pouca ou nenhuma restrição às suas liberdades e direitos. É um universo paralelo onde ações não têm consequências ou se têm, elas são marginais, ínfimas. Ações sem consequências, em sistemas conectados e que se retroalimentam por meio da comunicação, por definição não podem existir. Exceto no universo paralelo criado para uma elite econômica, por meio da adequação do sistema legal que ocorreu por aqui.

Então, eu sou um defensor dos pobres e oprimidos? Meh… Que bobagem. Eu sei que sou oriundo da classe pobre, e sei que, correntemente, por n circunstâncias da vida, eu faço parte de uma decadente classe média que agoniza entre o chicote da classe alta e os dentes da classe mais pobre. Essa agonia não a torna uma classe de coitados, mas, certamente gera medo, e o medo… Bem, você já sabe. Agora, ter “consciência de classe”, como se diz por aí, não me faz vilanizar ricos e beatificar pobres. Na real, todo mundo sabe que tem filho da puta em todo tipo de estrato social. Não se enganem, senhoras e senhores do respeitável público: os canalhas vêm em todas as formas e cores, salgados e doces, brilhantes e opacos. E, acima de tudo, os canalhas também envelhecem. Tem canalha pai de família, tem canalha avô de família. Tem canalha solteiro e solteirão. E, claro, como não poderia deixar de ser, tem “canalha fêmea”, também. Canalha gay, canalha hetero… Infinitas possibilidades. Quero ser enfático para que a comunicação não se torne descolada do significado de cada significante utilizado.

Está ficando difícil fechar essa hemorragia em forma de texto. Por “fechar”, eu quero dizer “dar um sentido tal que as ideias compartilhadas ganhem coesão entre si e rumem para uma conclusão.”. E aí vem o paradoxo final da minha divagação de hoje: Na matemática, isso tudo seria um problema em aberto.

A resposta“, seja ela qual for, nunca será completa, porque o que motiva a busca por ela (ou seja, o problema) nunca está completo. O problema em aberto que nós todos, membros de n sociedades (da mesa de almoço na casa da sogra, passando pelo futebol de domingo com a moçada, indo até o bairro, a cidade, o estado e, ufa…, o país), precisamos encarar é o problema de que, sendo animais sociais, reféns com Estocolmo da comunicação como pré-requisito ao sucesso da espécie, estamos acreditando em uma porção mentiras que envenenaram a comunicação no que diz respeito a maioria dos significados.

Calma… Deixa eu me redimir antes de dar tchau: Eu não sei se são mentiras o que nos envenena. Eu não posso afirmar que são. Afirmar isso implicaria em eu ter que saber de cada vez que uma comunicação desse tipo foi feita e em que medida o(a) Emissor(a) conhecia ou não do risco de que os significados dos significantes que ele(a) empregou fossem diferentes nos Receptores (audiência) em que ele(a) mirou a mensagem. Ou seja: só é mentira se eu, comunicador, sei que o risco do que eu digo signifique algo diferente para você e, dolosamente, eu persigo que esse risco se realize. Se eu digo o que eu digo e você entende outra coisa, sem que eu realize esse risco, eu não estou mentido. Na pior hipótese, só me comunico mal.

Mentira ou mal-entendido, tanto faz: uma enorme parcela de nós, nas n sociedades [ = sistemas] em que somos parte, está com o significado errado para quase tudo o que se comunica por meio dos significantes que circulam.
Exemplos de conceitos equivocados, frutos da má comunicação: não dependemos de ninguém. Nosso sucesso (ou o de outros) é fruto único e irrevogável do nosso esforço e mais nada. Nossa liberdade permite qualquer coisa (de ouvir funk na praia, a pôr um crucifixo na vagina; passando por andar com um revolver na cintura, como se um xerife você fosse). Todos os valores são uma construção histórica e nada tem valor em si, logo, toda a moral é descartável.

Nós precisamos corrigir a nossa comunicação. Com a mulher, com o filho, com o patrão, com o vizinho. Com a polícia e com o bandido. Ao corrigir, não quer dizer que vamos todos cirandar. A promessa nunca foi essa. Mas nós vamos entender o que dá para salvar e o que não dá. E aí, se constrói o acordo possível.

O atual contrato social está fadado ao fracasso. Porque o significado que cada um lê nele não é partilhado pelos demais. E a comunicação já vem falhando há muito tempo. E quando ela falha por muito tempo…

O estranho momento em que precisamos militar contra os militantes…

Quando a repressão vem de quem mais deveria entender o valor da liberdade…

Uma mulher grávida entra pela porta de um Pronto-Socorro após o rompimento da bolsa amniótica, e exige que o procedimento de parto-Cesária seja realizado.

O médico, no entanto, contra-argumenta que a Cesariana desumaniza o nascimento, de acordo com o último Congresso da obstetrícia internacional e decide seguir com o Parto normal.

Se esta cena ocorresse e, baseado somente na informação dada (ignoremos possíveis questões de risco à vida, e etc.), todos nós (eu, incluso) diríamos que houve violência obstétrica.

Então, por que não vemos violência em proibir que alguém com orientação sexual diversa do comum (“comum” que não: Não é sinônimo de “certo”…), peça ajuda profissional para que seja feito o caminho B, ao invés do A?

É difícil não avaliar – com pesar, acrescento –  que se você não está nadando em favor da corrente de uma dada militância, você só pode estar contra ela.
Esse tipo de falsa dualidade levou a tanto confronto e momentos deploráveis da história humana; e não vejo porque será diferente dessa vez, se continuarmos assim.

Militâncias que, tantas e tantas vezes, falam sobre “amar mais”, “compreender mais”, “aceitar mais”… Mas não admitem que alguém seja gay e não milite verborragicamente por onde passa; ou seja gay, mas, não queira sê-lo.

Não é diferente da militância que não admite uma mulher que quer ser dona de casa e cuidar dos filhos, ou da militância que não admite que um negro case-se com uma branca, ou que uma “não-negra” (seja lá o que isso quer dizer) use uma peça de moda com inspiração afro-cultural.
Não quero causar o terror mas, o pesquisador da penicilina (Alexander Fleming) era branco… Acho que vai ser ruim se trilharmos esse caminho em mão dupla…
O Smartphone na sua mão é resultado, muito provavelmente, de uma centena ou um milhar de patentes de origem majoritariamente asiática (indianos, japoneses e etc.)… Já pensou se eles decidem que não posso “me apropriar” (mesmo pagando por isso) do que eles criaram? (editado em 2021: Entendo que a questão da apropriação cultural é maior do que esse utilitarismo, mas essa discussão é comumente utilizada da mesma forma falaciosa que as hipóteses acima).

E seriam só suposições e hipóteses, não fossem todas essas narrativas corroboradas pelo árido deserto da realidade.
Todos os episódios que descrevi aconteceram publicamente e, não é difícil achar essas notícias tristes de como movimentos com causas absolutamente legítimas como os direitos LGBT+, da Mulher, dos Negros e enfim, representantes de todos que não estão no controle do poder político, sócio-econômico, financeiro e etc., repetem-se, em suas vertentes mais radicais (gosto de supor assim), tão infelizes e repugnantes quanto aqueles que eles dizem enfrentar (os homofóbicos, machistas, racistas e etc.).

Eu já falei sobre o conceito de “Efeito-mola”, explorado na Sociologia com nomes mais pomposos mas, basicamente, é a ideia de que a opressão de uma parcela da sociedade causa efeitos semelhantes aos descritos pela Física quanto à pressurização de uma mola e suas decorrências, e leva a efeitos colaterais maiores do que a medida ideal quando “a mola é liberada”.
O mesmo efeito-mola vale para a outra parcela da sociedade que apreciava seu status-quo e se sente ameaçada – sob qualquer aspecto – diante de conquistas de grupos que passam a exigir que estes grupos privilegiados convivam de maneira mais igualitária, ou cedendo espaços de maneira mediada pelo Estado (políticas afirmativas, etc.), para o primeiro grupo.

Enfim, o que resta é o choque de N* grupos que, por sentirem-se reprimidos pelos mais variados motivos e méritos, muitas vezes vão além do que um individuo sóbrio e  isolado de uma comunidade que catalise suas opiniões, consideraria “razoável”.

Não há dúvidas – ao olhar para a História – que “o razoável”, algumas vezes, pode significar até mesmo ir às armas e lutar até a morte.
Pergunte aos judeus, vitimados pelo Nazismo, se eles teriam entrando de bom grado nos trens que conduziam ao extermínio se soubessem disto antes (no começo da agressão). Teria sido “razoável” matar os soldados alemães com todos os meios – inclusive os bestiais – nessa situação…

Mas, em tempos de Paz entre os Estados (e sociedades), a reação dos grupos LGBT e coligados, e a mobilização das celebridades contra a medida do Juiz Federal, Waldemar Cláudio de Carvalho, só demonstra para mim que não há razoabilidade, nem no grupo dos Cristãos que acham que a orientação sexual diversa do comum é coisa de Satã, nem nos grupos LGBT+ que acham que um Gay é, por alguma lógica estranha a meu entendimento, obrigado a amar sua condição de maneira incondicional e incontestável.

Comparo essa incoerência à tentativa de ressuscitar o suicida para, depois, executá-lo por “homicídio de si mesmo”.

A cena seria tragicômica no encontro do cidadão que deseja a liberdade de tratamento com os representantes do movimento:
– VOCÊ TEM QUE SER FELIZ SENDO GAY, SEU FILHO DA P#@%&! (Enquanto espancam o sujeito para que ele “aceite” sua condição e seja “feliz”).

O episódio me dá pesar, ainda mais porque de todas as Ciências ligadas à saúde humana a Psicologia é mais humana de todas elas. Como também, a mais nova, e a que mais precisa pesquisar, crescer e descobrir mitos e verdades sobre o que se sabe da “cabeça” humana, até aqui. É assim com toda Ciência ainda na “infância”.
É o cerne da Psicologia, independentemente de vertentes e interpretações, tentar compreender sem emitir julgamento, cada ser humano, de maneira muito individual, mesmo quando o individuo é interpretado em um contexto e prisma determinado por um dado momento ou espaço social/histórico/cultural.

Em resumo, é quase que “do contrato social” da Psicologia com a humanidade, individualizar o “paciente” (eles não gostam desse termo) e compreender que por mais que ele possa ter um quadro parecido com o individuo anterior, ele é algo totalmente novo e único.

Resumindo: A psicologia deveria ser a primeira a dizer que, por mais não-natural que seja, o Gay tem total direito de não querer sê-lo, e as ferramentas disponíveis para mostrar a ele o que ele é e não é, serão usadas para que ele atinja a coisa que mais pode trazer paz a um individuo: Auto-conhecimento.

Talvez, por circunstâncias-mil, seja simplesmente impossível que ele deixe de sê-lo. Mas, não se começa um acompanhamento psicológico só se o resultado final for o que o cliente desejava.
Até porque, o resultado final desse acompanhamento é sempre imprevisível, devido aos N desdobramentos que cada consulta causa. A verdadeira missão da Psicologia é fazer o individuo se entender, compreender os processos que o transformaram e o edificaram enquanto entidade e personalidade, a fim de que ele, eventualmente, fique em paz com o que é e com o que deixa de ser.

A principal contra-argumentação ao que exponho até aqui é que esse indivíduo só odeia sua orientação porque é reprimido, sofre/sofreu preconceitos, nasceu e cresceu em um lar opressor à sua orientação e etc.
Enquanto tudo isso pode ser absolutamente verdadeiro; novamente, somos nós, Sociedade (ou parcela da Sociedade), proibindo que o individuo, sem fazer mal a qualquer outra pessoa, procure o resultado que desejava atingir. Tudo para que nós – e não ele – nos sintamos satisfeitos (e fiquemos sossegados de que nenhum gay tentou deixar de sê-lo).

Por que é tão difícil ter o mesmo respeito que temos:
Pela grávida que não quer passar pelo trauma do parto natural, ou o paciente terminal que quer manter algum resquício da dignidade e auto-tutelar o fim da vida diante da inevitabilidade do fim doloroso e degradante?

São questões muito, muito sensíveis e multi-facetadas. Cada novo ponto que tento trazer para provar que temos pesos e medidas diferentes, daria uma discussão inteiramente nova que poderia ser desdobrada em várias e várias outras, se estendendo quase que sem fim…

Para o (a) anônimo (a) que pretende se beneficiar do que eu considero um avanço democrático salutar no que diz ao respeito à liberdade de cada individuo, meu entendimento, da maneira mais simples e mais direta possível é que: Se você não está fazendo mal para ninguém a não ser – no máximo – pra si, e se o risco de suas decisões afeta só e somente você; você tem meu total apoio em todo caminho que decidir trilhar.

Do beijaço Gay na avenida mais badalada, a pedir ajuda profissional para tentar sentir tesão por peitos e bundas (se você for um homem homoafetivo, claro… Se fosse hetero, já sentiria.).

Sinceramente, meu caro anônimo Gay que não quer sê-lo: Acho que vai ser difícil você conseguir o que quer, porque, minha crença (e, portanto, é só uma hipótese) pessoal é de que como olhos verdes ou cabelos ruivos, sua atração por pessoas do mesmo sexo esta enraizada em seu DNA.
E, até onde sei, depois de Hitler, não há ninguém sério e com competência suficiente tentando combater as anormalidades (repito para os radicais: “anormal” é simplesmente o que não é “normal” (relativo a norma). E isso não é sinônimo de “certo” ou “errado”) de cor nos olhos e cabelos; então, não vejo como alguém conseguiria “consertar” seu gosto.
Pouco importa: No fim, o que realmente importa é você saber que tentou tudo que era possível e torço para que atinja a paz interior em algum momento dessa jornada, independentemente dos resultados.

Meu pai não me ensinou a gostar de mulheres. Nem era um assunto  que discutíamos, de tão reservado que ele era quanto a isso.
Quando os hormônios da sexualidade circularam pela primeira vez em mim, eu tive certeza que nada superava o prazer de estar com aquela deliciosa forma feminina, em toda sua beleza de curvas e volumes.
Claro: Por educação familiar de valores e postura, e senso de convívio social, os hormônios nunca foram suficientes para que eu “avançasse” nelas como um animal selvagem o faria.
Mas nunca houve dúvidas em mim do que mexia com meu lado animal e que todo ser humano tenta disfarçar e renegar, com mesuras e convenções de convívio. Talvez, um dia, provemos que é a mentira sufocante e omnipresente de que somos absolutamente diferentes dos animais, a causa maior de tantos distúrbios psicossociais e comportamentos inaceitáveis em nossa espécie…

E acredito, caro(a) anônimo(a), que este processo de descobrir o que lhe dava tesão na puberdade não foi diferente contigo mas, você sentiu tudo o que descrevi quando viu alguém do mesmo sexo que você (com os novos olhos da puberdade).
Não é o normal, mas está 100% longe de ser chamado de “errado”. É só e, somente só, diferente.
E “diferente” nunca será sinônimo de “ruim”, pra gente de boa fé.
Se você não está em paz e não quer ser diferente, eu lhe dou meu total apoio para que busque alternativas para ser “só mais um hetero”.
Independentemente das chances estarem contra ou a favor do intento, só lhe desejo que encontre sua paz.
A paz de quem fez tudo o que podia ter feito.

Por fim, eu pergunto: Qual é o limite da intervenção do Estado, e da Sociedade (ou grupos dela), sobre o indivíduo? Quanto da minha liberdade natural (ou original) eu tive de abrir mão para viver em sociedade? O Contrato Social que assinamos de forma tácita, pode exigir de mim minha completa e incondicional aceitação do que eu sou ou pareço?

Mais importante: No fim do dia, vale a pena viver no meio de vós se eu não tiver o último e derradeiro direito sobre eu mesmo e toda a extensão e representação do que compõe o “eu”?

Eu não sei. De verdade. Algumas vezes, parece que vale. Outras, parece que nada poderia ser melhor do que morar na caverna mais distante e mais solitária; só para não ter que assistir uns decidindo sobre como outros devem ou não devem ser, e do que o outro tem de ser para ser feliz.

Sei, contudo, de uma coisa:
Eu, não-militante e não-ativista, nem libertário, nem conservador, nem reacionário, estou muito mais confortável com os Gays que querem ser Gays e os que não querem; com as meninas brancas com lenços afro, e com os atores que não querem “sair do armário”, ou saem sem alarde e sem bandeira.
Estou muito tranquilo com a mulher que quer ser CEO da maior empresa, e com a que sonha com a chance de cuidar dos filhos e cozinhar a janta para o marido até o fim da vida.

Estou muito mais confortável do que a massa mais ativa de qualquer movimento que diz representar os Gays, os Negros, as Mulheres…

Reconheço meus preconceitos, sem dificuldades, e entendo o quão longe de estar em paz com todos eu ainda estou. E esses preconceitos, às vezes, morrem e provam o quão ignorante e pouco evoluído eu ainda sou.
Outras vezes, de “pré-conceitos”, evoluem para conceitos formados e embasados sem que eu tenha motivo para abrir mão deles.
É assim com este assunto.
Aliás, assunto que precisa ser mais discutido. Preconceito não é crime, nem deveria ser. Um “pré-conceito” é simplesmente um conceito que você forma antes de realmente conhecer algo.
E ele pode estar certo, ou errado. A verdadeira questão é o que você faz para validar seu preconceito no mundo real, e como se comporta quando descobre que ele não é verdadeiro.

Ainda assim, eu  sinto que consigo respeitar mais e tolerar mais todas essas pessoas e todas as possibilidades que cada um deles pode decidir ser e parecer, muito mais que os militantes mais extremos dos movimentos que saem “em sua defesa”.
Gente que não consegue superar a cegueira e a paixão “à Causa” (“paixão” que, aliás, vem do grego “Pathos”, a mesma raiz para “patologia”, “excesso” ou “doença”).

Cegueira em nada diferente dos preconceituosos e conservadores que acham que seu jeito é o único jeito certo. Que seu deus é o único verdadeiro e, sua mensagem, a única correta.
A fronteira da extrema-esquerda é, de fato, a extrema-direita.
Estado Islâmico e Pastores que chutam imagens.
Racistas e Ativistas que agridem uma pessoa de cor distinta e que se dispôs voluntariamente a honrar e ostentar a cultura de outro povo em seu corpo.
São todos iguais.

Já era muito trabalhoso lutar contras as mentes pequenas, atrasadas, que pregam conservadorismo extremo, e valores pessoais e religiosos como sendo universais. Mas, tudo valia para que ninguém fosse perseguido ou oprimido por pensar, agir ou ser apenas diferente de mim ou do que eu penso.
E agora, isto…

Estranhos e cansativos os tempos a frente, em que teremos que militar contra as militâncias.

Amor não é Doença. É a Cura.Pelo menos, a mensagem não deixa de ser verdadeira, não obstante tudo isto…

TEDx São Paulo – Educação!

Hoje, in loco, no Allianz Parque, onde ocorre TEDx São Paulo, e o tema é a Educação

O assunto mais importante e mais carente do Brasil, sendo debatido ao longo do dia, por especialistas da área e gente que se dedica ao que, verdadeiramente, muda o mundo: Mudar o mundo pelo conhecimento. Ensinar é o mesmo que Ensignar, ou seja, marcar com signos, quem se ensina. Quando ensinamos alguém, marcamos e somos marcados.

Pra quem não pôde vir  ou não sabia, dá pra assistir tudo ao vivo, pelo facebook.com/TEDxSP. 
Aproveitem!!!

O dia em que “saí” do Facebook

Os motivos que me tiraram do Facebook, e me levaram a fazer o “Sobre Tudo e Todos”…

3 décadas, 30 anos, 10.950 dias, 262.860 horas… O último grande texto (o maior); E os próximos passos…

Para dar um pouco de contexto a quem não me conheceu pelo Facebook: Em 31 de maio de 2016, anunciei aos amigos e seguidores que deixaria de utilizar a rede social. Os motivos estão todos neste post (que é, também, o motivo inicial para eu ter criado este Blog).

Mini-game! Um universitário mediano dos EUA leria esse texto em 8 minutos. Marque quantos minutos você leva e descubra se seu hábito de ler está enferrujado ou não.

Aviso: Esse é um texto reflexivo, trata de como me sinto sobre alguns aspectos da convivência com a sociedade digital contemporânea e, sinceramente, eu entendo que ele pode não ser do interesse da maioria da minha rede de contatos.
Sinto por isso e por poluir a rede social com mais essa “potencial” inutilidade, mas, também, é uma espécie de despedida que merece alguma explicação, ainda mais em consideração aos 36 leitores (no Facebook) regulares que tenho e por quem sou profundamente grato por me honrarem com a atenção.

“Pobre Rei Lear; tornou-se velho antes de torna-se sábio…”, diz o bobo da corte ao rei traído e renegado por todos.
É o resumo do ato I, cena IV, da peça “King Lear” de Shakespeare.

Desde que fui apresentado à essa peça pelo excelentíssimo professor Leandro Karnal, percebi como esse pensamento passou a perseguir minha paz: o risco de estar ficando velho sem me tornar sábio parece-me o maior risco que corro neste momento.
E isso me entristece e tem impacto sobre minha ansiedade com alguns tópicos. Não que o medo de morrer para uma “bala encontrada” por minha cabeça ou em uma colisão veicular com um embriagado ao volante não seja bem mais factível e sensato de se ter no país em que vivo (a violência com armas de fogo fez mais de 61 mil mortos, e colisões automotivas mataram mais de 37 mil pessoas, tudo isso em 2016)…

A escolha pelo estudo e, em especial, o gosto pelas áreas de Política, Sociologia, e Direito sempre foi – eu acho – uma escolha ligada às chances: os livros sempre estiveram ao alcance de quem estivesse disposto a lê-los e a verdade é que a maioria do meu povo não está. Em 2014, 71% dos brasileiros não leram um único livro e somente um em cada três formados no nível médio de ensino têm alfabetização suficiente para ler [entender] um livro qualquer. E eu senti nisso a oportunidade de não ser mais um na multidão já que eu tenho o que boa maioria não tem (a vontade de ler e aprender).
Esse era meu plano para saltar da mediocridade para um lugar de destaque. “Vaidade” é um termo que explica parte deste comportamento, mas, por outro lado, peço que me aponte o ser humano minimamente são e que faz questão de ser idêntico aos outros 7 bilhões de sua espécie, ao ponto de escolher não fazer falta na face da Terra.

Bem, como isso tudo me leva ao desconforto tal qual sentiu o Rei ao ser confrontado pelo bobo de “King Lear”?
Eu acho que venho emburrecendo. E eu tenho certeza – pela data de nascimento que consta no meu RG – que “novo” não é mais o preciso sinônimo para minha situação…
Então, eu começo, lentamente, a caber na sentença “tornou-se velho, antes de tornar-se sábio”.

A sabedoria é um dos principais atributos de beleza de um candidato a ancião. Não há nada mais chato do que falar com uma pessoa idosa que não tem nenhuma sabedoria. E não, não acho que só os livros e diplomas atendem ao requisito anterior. Na verdade, eles só provam que você abordou – ou tentou – algo de maneira sistemática e científica.
Aqui, falo da sabedoria de maneira holística: A sabedoria empírica, a pragmática, a experimental, a teorética…

Sabedoria: Acúmulo de conhecimentos; ciência. Justo conhecimento das verdades.

Ser um velho inepto é tudo o que eu mais temo. E não se engane: assim como os canalhas, os burros também envelhecem… Velhice nunca foi sinônimo nem de bondade, nem de sabedoria.


O que você ganhou participando da minha neurose eu realmente não sei, mas, já que você chegou até esse ponto, vou descer um pouco mais nessa psicose e tentar chamar sua atenção para alguns movimentos e fatos que podem lhe interessar; vai ser minha contraparte por sua paciência.

Bem, eu acho, também, que estamos TODOS ficando mais burros (desculpem-me: é só o que acho) e acho, adicionalmente e não sem alguma análise, que a culpa disso está, em parte, nas redes sociais como o Facebook e nos modelos de vivência e convivência que tais redes ensejam, quando não impõem.
Motivo pelo qual pretendo, a partir da próxima semana, abandonar o uso dessa rede (o Facebook).
Vou me explicar, prometo. Não está havendo um “facebookcídio”; o objetivo final não é obter um tapinha nas costas, nem um pitoresco “fica, brother” coletivo. Seria bom ao ego, confesso, mas não é isso. Vou me explicar; aguente aí.

Quero compartilhar como conclui que não só o Facebook não me ajuda a me tornar mais sábio (nada de novo) como, também, ele tem colaborado para que eu fique mais burro (um risco que, talvez, você não tenha percebido ainda).

Mas, primeiro, alguém arrisca qual é a missão do Facebook como empresa? Eu compartilho:

“Fundado em 2004, a missão do Facebook é dar às pessoas o poder de compartilhar e tornar o mundo mais aberto e conectado. As pessoas usam o Facebook para ficar conectadas com amigos e familiares, para descobrir o que está acontecendo no mundo, e para compartilhar e expressar o que importa para elas. ”.

Oras! Tem algo MUITO errado com a execução dessa missão, seu Mark! (Obviamente, a culpa não é mais dele do que é de quem utiliza e constrói as regras deste espaço social [se estiver em dúvida: nós]).

O primeiro artigo que convido à leitura é este aqui: Facebook Manipulated User News Feeds To Create Emotional Responses
Para quem não tiver a paciência, ou mesmo para os que não gostam da língua inglesa, a matéria denuncia que o Facebook controla – ou já controlou – sem contar a ninguém, o seu feed de novos posts para obter resultados psicológicos, emocionais, de você (na verdade, dos estadounidenses mas, se fizeram com eles sem avisar… Penso no que fazem conosco…).
O estudo conduzido por “cientistas” (faltou alguma ética para ser mais “científico” né…) da empresa verificava como as pessoas reagiam ao serem expostas a posts e reações com maior tendência negativa ou positiva em relação a elas e suas opiniões iniciais. Burrhus Skinner e seus ratinhos morreriam de inveja.

Pior do que isso: Outra matéria que li em revista impressa demonstrou que o Facebook “aprende” o tipo de post e fonte de conteúdo que lhe interessa e, a partir disso, passa a lhe expor somente ao que você mais gosta, criando uma “falsa bolha”, tanto de “felicidade” como de “pertencimento” onde você, meu nobre leitor, é o experimento.
Trocando em miúdos, se você só curte páginas “de Esquerda” chances são que o Facebook exponha mais conteúdo relacionado a isto do que “à Direita” política (e vice-versa), fazendo com que você “seja feliz” pois “o mundo concorda com você”. É o que seu feed lhe indica, não?

Outro estudo (Social Media Sparked, Accelerated Egypt’s Revolutionary Fire) relata como o Facebook e Twitter foram fundamentais na primavera árabe. Quebrar as correntes de ditadores, eu acho ótimo. Parece-me um uso nobre do espaço de convívio social virtual. Mas, outra matéria revela que o Pentágono norte-americano tem gastado alguns milhares de dólares para manipular redes sociais com “bots” e perfis falsos, para conseguir apoio popular às metas das forças armadas daquele país (Revealed: US spy operation that manipulates social media).
Em resumo, com a manipulação “certa”, o Facebook pode ser usado para construir e destruir conceitos, pessoas e governos.

Como qualquer jornalista poderá explicar e demonstrar a consequência: A neutralidade da rede é zero. Como – não posso negar – também costuma tender a zero para qualquer veículo de comunicação, impresso, radio-difuso ou televisivo; é verdade.

O problema, para mim, está na legitimidade: Por motivos que, talvez, um sociólogo possa teorizar, as redes sociais ganharam status de verdade incontestável. Talvez por sua pluralidade, talvez por não ser um veículo com uma fonte de mão única de transmissão; as pessoas têm uma tendência a tomar como fato, com muita facilidade, o que as redes sociais ecoam.
E como a Wikipedia (com a qual contribuo inclusive com doações financeiras, por acreditar no valor da utopia do “conhecimento para todos, de graça”), as redes sociais podem ser fascinantes na transmissão de informação legitima, ou uma fossa sanitária de ideias enviesadas e ideologias mascaradas. Falando de Brasil (eu vivo aqui, e é dessa parte do mundo que eu “não-sei” menos), a segunda hipótese tem sido bem mais verdadeira do que o primeira, para meu total pesar.


Quando ingressei no Facebook em 2009~2010, a maioria dos meus amigos e colegas permanecia no Orkut. Ingressei por questões profissionais (todos os colegas de companhia estavam lá, afinal, o Orkut era do Google 🙂 ).
Na época – outra vantagem de ter 30 anos: poder usar expressões como “na minha época” – o Facebook era majoritariamente feito por recursos de texto. Imagens, só no álbum pessoal e nada no mural (não sei se a função não existia ou se as pessoas não tinham o hábito).

Quando eu vejo as pessoas “de saco cheio dos textões” acho até engraçado porque, originalmente, era disso que o Facebook se tratava: Textos. Pessoas troncando idéias sobre tudo e todos. Qual bom livro não é um “textão”? Embora, um textão não seja – por si só – garantia de qualidade, a boa ideia, respeitosa e bem-intencionada, deve ser bem explicada e enseja o cuidado que leva – ok: “quase sempre” se faz necessário aqui – ao longo texto. Não: não estou supondo – nem me ocorreu isso – que um texto longo é necessariamente bom. Só disse que todo bom texto costuma ser longo.

Claro que acho graça nos gif’s animados; claro que gosto dos vídeos engraçados e absurdos. Vivo compartilhando eles todos. Não é que o Face seria melhor se “elitizado” fosse… Não precisa ser o “cafofo de Homero” onde todo dia discorremos uma Ilíada.

Mas eu realmente acho que o Facebook foi para a “outra ponta da corda” entre o enfadonho (ou pomposo) e o fútil. E eu odeio futilidade como tônica da existência; pelo menos, da minha existência.

Usar uma rede social para socializar (procurem no dicionário: “Socializar” não se resume a fazer pose em fotos, nem ficar de porre em festas… Vão se surpreender…) é a última coisa que as pessoas querem por aqui, e isso remove de mim o propósito de “socializar” no Face.
A socialização só é bem-vinda se for rasa, oca, simulada. E, desculpem os amigos que gostam disto, mas eu odeio conversas rasas como parte integral do meu dia a dia.

O filósofo Orterga y Gasset, em seu livro “A rebelião das Massas”, advertia lá em 1929:

“Por toda a parte surgiu o homem-massa(…), um tipo de homem feito à pressa, montado apenas sobre umas quantas abstrações e que, por isso mesmo, é idêntico de uma ponta à outra (…) A ele, se deve o triste aspecto de monotonia asfixiante que a vida vai tomando(…) Este homem-massa é o homem previamente esvaziado de sua própria história, sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil a todas as disciplinas(…)”

Neste alerta, Ortega y Gasset demonstra que a sociedade ocidental vem premiando a mediocridade e reconhecendo nela o verdadeiro antro de formação da verdade. E mais do que isso: a vontade, o desejo de se destacar por uma sólida base racional, lógica e/ou bibliográfica, são combatidos como conduta reprovável, sendo uma espécie de “nova classe burguesa” a ser enfrentada e rechaçada:
A classe dos que leem e estudam antes de abrir a boca.
Uma espécie de “nova oligarquia nefasta” que comete “o crime” de desqualificar alguém que não sabe sobre o que está falando, por meio de argumentação embasada…
(Preciso acrescentar algo que é óbvio pra mim, mas pode não ser para quem lê: EU NÃO FAÇO PARTE desse grupo atacado. Tenho total noção da minha mediocridade acadêmica e intelectual. Estou estudando para fazer mais que isso um dia, mas não o faço agora… O que estou tratando aqui é sobre o desrespeito à opinião de gente que dedicou a vida inteira ao estudo e que é ridicularizada pelo Zé da Esquina em um post ou thread).

Nem mesmo os espaços digitais destinados ao debate funcionam mais para isso. São, antes, lugares de pregação e massificação de ideologia. Qualquer tentativa de questionar, com qualidade, o que ali se advoga é repreendida com o bloqueio de quem discordou. “Você pode ter opinião, contanto que seja igual a nossa” deveria ser o slogan das páginas “pensadoras” do Facebook.

Aí, vem outro problema do mundo contemporâneo: opinião. Todo mundo tem uma opinião. TODO MUNDO TEM QUE TER UMA. Não ter é outro “crime” dos nossos tempos. E disto surgem opiniões quase sempre prontas, inquestionáveis e irrefutáveis (assim pensa seu dono). Formadas, muitas vezes, em cima de desinformação, fontes não verificadas, boatos, preconceitos e nenhuma leitura de autores com alguma autoridade de pesquisa sobre o assunto (“autoridade” que não é mero título, mas, consequência de anos – em geral, décadas – de estudo de um único tema, senão de um sub-aspecto desse tema maior).

Exemplos parecem ensinar mais do que teses, então… Aqui vai um:
Eu debatia com um amigo que dizia que movimentos sociais sempre lutam por progresso social. Eu discorri que os movimentos trabalhistas na França e o movimento estudantil de Mato Grosso estão em uma luta CONSERVADORA, tentando manter um status quo que não necessariamente vai de encontro aos interesses das sociedades em questão, como um todo.
Logo, esses NÃO são movimentos progressistas por “osmose” (ou, o tempo todo)… Em resumo, esse foi um debate com alguém que tem opinião pronta. Até aí, tudo bem, já que eu também tinha uma: Mas quando expus novos fatos (ou pontos de vista), nada mudou para ele; e aí está o problema. Não houve evolução (não estou pedindo por conversão ao meu olhar, esclareço) do tema e dos envolvidos, algo esperado em um debate. Ele entende que quando alguém grita “companheiro” esse alguém não pode ser outra coisa senão um progressista. Fim de papo.

Umberto Eco, filósofo italiano, criou polêmica em recente declaração em 2011, em que disse:

“Embora tenha trazido muitas vantagens, a Internet também democratizou a imbecilidade” e “promoveu o idiota da aldeia, a porta-voz da verdade”.
[…] “Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas, agora, eles têm o mesmo direito à palavra que tem um Prêmio Nobel”.

Umberto gerou revolta; as pessoas o acusaram de retrógrado, antidemocrático, reacionário, arrogante…
Eu deveria ser um dos primeiros a ficar revoltado com Umberto, já que quem assina meus textos sou eu mesmo. Não há um curador/historiador, um editor; ninguém revendo minhas fontes e validando que não estou distorcendo a verdade. Eu tenho um compromisso de validar o que escrevo, mas, isso não anula o que Umberto enunciou. O idiota pode mesmo ser alçado ao grau de arauto da verdade.

Mas, eu não vi como um ataque. Para mim, ele não criticou o direito ao debate. Ele questionou o fato de que alguém que não leu um livro de história inteiro sinta-se pronto a dizer sobre “as benesses da ditadura” ou “como o Socialismo/Comunismo é melhor que o Capitalismo” e por aí vai. Ele questiona, na verdade, essa capacidade triste que a Internet revela de potencializar gente pronta a questionar, formar juízo de valor e criar proposições sem nenhum estudo do que já foi proposto quanto ao tema – de preferência, a favor e contra, pois opinião não costuma ser legitima se nega a chance do contraditório.

Como Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, postulou sobre o “mundo líquido” em que vivemos:

“(…)os tempos são tais que o fim das utopias representa a perda do caráter reflexivo em relação a sociedade e, por consequência, a perda da noção de progresso como um bem que deve ser partilhado. (…) Uma corrente de incerteza e insegurança guia o sujeito pós-moderno, que não tem mais referencial nenhum para construir sua vida, a não ser ele mesmo.”.

Para quem não entendeu o cerne da teoria de Bauman, aí vai o exemplo:

Um garoto de 20 anos sente-se pronto para questionar todo um conceito e invalidar Immanuel Kant e sua filosofia moral do Imperativo Categórico, após ler um resumo da Wikipédia; as décadas de Kant dedicadas ao estudo das classificações aristotélicas e o fato de ele ser “pai” da linhagem moderna de pensadores alemães do quilate de Hegel e Schopenhauer (para citar dois) são solenemente renegadas e desqualificadas por um garoto que só leu o resumo da obra enquanto se inteirava da tabela do Brasileirão 2016; os valores pessoais desse garoto, em plena formação, são muito mais válidos do que os valores construídos por centenas de anos (juntando Aristóteles e Kant) em iteração, revisão, contestação, conceito, prova e crítica.

Esse garoto pode vir a ser o próximo Kant? Pode. Sem estudar filosofia (e Kant) a fundo? Nunca.
Talvez esse garoto, em específico, seja assustadoramente genial, construa conceitos muito mais profundos que Kant sem jamais estudar e faça eu me calar mais tarde; mas, as chances de todos nós sermos essa “peça rara” são as mesmas de eu ser um alienígena.
Não: Não me sinto fazendo “uma defesa da aristocracia intelectual” ao esperar que a opinião de alguém sobre algo que não se resume a gosto (exemplo de gosto: odeio queijo, não importa o que os suíços mais importantes pensem disso), seja embasada no que já se estudou, contra e a favor do ponto defendido para que, depois, haja formulação de nova postulação (exemplo de teoria sobre um sistema de governo existente e já teorizado: Democracia não deve ser um sistema de governo que atende só à maioria; não importa sua opinião pessoal sobre isso).

Isso, na verdade, é pedir por honestidade intelectual. “Honestidade”, aliás, uma palavra que vem se tornando antiquada também.


E eu entendo uma parte disso: o Facebook é feito de personagens. As pessoas aqui não são as pessoas do mundo real. Seus posts, suas falas, suas frases de efeito… Tudo aqui costuma ser encenado e – mesmo que elas não se deem conta – em certo grau, premeditado.

Somos todos personagens. Eu sou um personagem. O Rodrigo da rede social não é o Rodrigo do dia a dia; impossível ser.
Além disso, a rede tem baixa – ou nenhuma – aceitação por pessoas que expõem outra face de seus sentimentos, além da positiva. Por este motivo Karnal diz que “Shakespeare é anti-Facebook”: Seus personagens têm “profundidade demais” e riem e choram publicamente, o que os tornaria detestáveis nessa rede.

E aqui vem outra crítica: o Facebook não serve para discutir – já constatei e provei – mas, tampouco serve para eu conhecer as pessoas, fazer e manter amizades e conviver mais com os que eu quero bem.
Como todos estão ocupados encenando felicidade e ostentando suas conquistas, eu estou fazendo um trabalho porco como amigo ao dar likes e usar frases como “aí sim!” quando o cara tira uma foto na piscina com uma cerveja, sem que eu saiba que em seu dia a dia, ele está às vésperas de se divorciar e perder o emprego ou atravessando uma grande depressão emocional, sozinho.
Um amigo “à moda antiga” saberia, porque na confidencialidade de uma conversa particular que não será julgada por centenas, senão milhares, ele pode ser o ser humano que ele precisa ser para desabafar, para dizer que “não, não está tudo bem” e daí por diante…

A vida que se compartilha no Facebook é a vida simulada e dissimulada. O Facebook, sem querer, ou querendo, traiu sua própria missão empresarial. E não é diferente nas outras redes. Na verdade, em redes como o Instagram isso fica ainda pior.

As pessoas que são contra o abandono da rede dizem “você vai perder o contato com seus amigos!”.
A verdade é que eu já perdi. O Facebook não me fez ver mais as pessoas. Pelo contrário. Agora, vejo fotos delas; facetas delas; só parte delas. Uma espécie de “melhores momentos”, eternamente. Mas, essa não é a vida real.
Não vejo, nem convivo, com as pessoas “de verdade”. Ouso dizer que o falso sentimento de que elas estão ali, todo o dia, “ao alcance do click”, me fez mais preguiçoso e descuidado no trato e no carinho com essas relações.
Substituímos o insubstituível contato humano e pessoal por um like virtual, aqui e ali.
Ok! O descuido pode ser só meu, admito essa hipótese. Mas, sinceramente, eu duvido que sou caso isolado.

Não é meu interesse encerrar a conta do Facebook. Isso poderia significar um pouco como “ei, olhem pra mim! estou indo embora!”.
Essa realmente não é a intenção disso tudo, como tentei demonstrar.
Só vou remover os aplicativos de acesso e “esquecer” a senha. O Messenger do FB – para quem precisar falar comigo – segue funcionando. 🙂

Outra pergunta que devem me fazer: Vou continuar escrevendo em outro lugar? Improvável. Mas, se eu mudar de ideia, farei com que saibam. 🙂
(PS: Agora vocês já sabem que sim, pois, estão lendo isso no meu Blog.) 🙂


E, de onde tirei que o Facebook era relevante para a problemática que discorro? Para ter uma ideia do quão significante era meu investimento de tempo na rede, eu instalei um programa no meu celular (“QualityTime” para quem se interessar) para medir quanto tempo passo por aqui. Em geral, uso o Facebook para debater e escrever sobre o que me interessa. Nos últimos 3 meses, eu superei 60 horas de uso do Facebook, fora algum momento em que usei o PC como método de acesso. Então, coloquemos 80 horas (um terço a mais).

Bem, um aluno universitário mediano deveria ler, em média, 450 palavras por minuto (Do You Read Fast Enough To Be Successful?). Usando uma fonte Arial, 12, com espaço simples, isso dá (também em média) uma página por minuto.

Isto me leva a concluir que eu poderia ter lido umas 4.800 páginas de teorias importantes, sobre os temas que mais gosto como Direito, Filosofia, Economia, Política, mas fiquei aqui, debatendo com meia dúzia de bons argumentadores (obrigado a todos vocês, de verdade – são fundamentais na minha evolução e o motivo de eu continuar pesquisando, aprendendo e escrevendo) e um bocado de gente que já me acusou de pedante, de inventar textos para ser bajulado, de gente que escreve “não concordo” mas não consegue ou não tem como defender o ponto que quer sustentar, e de gente que não perde tempo “com textão”… Eu não conheço nenhum bom livro feito com “textinho”, repito. É arrogância minha comparar um “textão” meu, com um bom livro? Definitivamente. Nem queria significar isso.

De todo modo e como nenhum dos que reclamam jamais leu um dos meus textos por inteiro, eles não têm como denunciar as falhas que fazem dos meus grandes textos (no sentido literal) apenas textos grandes (também, literalmente) e sem qualidade. Em suma, você só saberá se um “textão” é apenas um texto grande depois de ler.  Com o tempo, você passa a saber o que esperar daquela fonte. Para o bem e para o mal.

Há quem diga “não concordo” só para marcar uma posição que, como um torcedor de clube de futebol, sente ser a coisa certa a fazer. Mesmo que na lógica e na argumentação não caiba a paixão como motor de uma discussão… Paixão leva a irracionalidade e a irracionalidade leva a qualquer coisa, menos ao bom argumento.

O outro lado dessa história também não é muito motivador.
Eu não escrevo o que escrevo para que batam no meu ombro e digam “pô cara, que legal”.
Óbvio que fico feliz quando meu texto atinge padrão de construção textual e lógica ao ponto de merecer a parabenização, mas, mais do que isso, fico muito emocionado que ele mereça o tempo (este que é sempre menos do que havia ontem) de tantas pessoas.

Isso tudo realmente me deixa orgulhoso e feliz, mas, não: esse não é objetivo central da escrita que faço.
Bem mais que o “parabéns”, quando sou confrontado com opinião contrária, o melhor possível ocorre pra mim: sou obrigado a defender meus argumentos e melhorar a qualidade deles com novos autores e novos fatos. Isso é o melhor dos mundos! E se não consigo melhorar meus argumentos, melhor ainda! Acabo descobrindo que minha visão de mundo não é perfeita e não resiste à toda a complexidade da realidade. E aí, aprendo com quem está falando e me mostrando algo que não posso justificar com minha visão atual.
Mas, isso já quase não acontece mais. As pessoas não querem debater. Querem vencer. E se não vislumbram como “ganhar”, não se envolvem.
“Aprendizado” não é tido como prêmio suficiente de um debate. Os novos advogados só aceitam causas ganhas…


Outro grande objetivo com o que escrevo e escrevi, até hoje, era (e é) ajudar quem não tem uma opinião formada a procurar os autores e os argumentos que possam ajudar a embasar uma opinião, seja a favor ou seja contra o que exponho; de repente, quando escrevo algo que incomoda, meu texto leva a pessoa do simples “não gostar” ao saber de fato, pelo fato de ela ter que pesquisar para responder. Ela saiu com opinião contrária à minha, mas teve que aprender os porquês para poder se opor. E aí, sinto que fiz minha parte.

Mas, essa pessoa não existe (mais). Quem não tem opinião e segue “contrariando o Facebook” e a necessidade de ter uma opinião sempre (o que é péssimo) geralmente odeia os “textões”. Talvez – e aqui sou um pouco desleal, pois não tenho provas – essa pessoa esteja na estatística dos 71% que não gostam de ler.

Lamentavelmente, se o Facebook tem esse péssimo habito de criar “bolhas de felicidade” e ele não é nem representação da realidade, nem um espaço de convivência social, mas um grande massageador de egos, ou um espaço para compartilhar fotos legais e vídeos engraçados, e se essas são as únicas atividades consideradas “corretas” para serem feitas no Facebook, eu prefiro não perder mais tempo com ele.

Melhor do que 80 horas com fotos (fofas, não estou negando) de gatinhos e vídeos de acidentes engraçados (é preciso rir, claro que é), eu vou tentar combater o que o bobo da corte fica dizendo repetidas vezes na minha cabeça: De que estou ficando inevitavelmente velho sem me tornar sábio – o que poderia ser evitado.
Devo estudar mais, ler mais livros e buscar conhecimento que autoridades (não por força de Lei, mas por esmero e uma vida de dedicação) nos assuntos que me interesso, compartilharam com a raça humana.

Está tudo escrito, quando não está gravado em vídeo – meio que anda ficando mais comum para a divulgação de boas ideias. Como exemplo, os vídeos do TED.com, em grande parte já com legendas em português.

Agradeço, profundamente, a todos que sempre acompanharam, opinaram, e – segundo relatos dos mesmos 🙂 – esperaram pelo próximo texto.
É um grande orgulho que alguém sem a formação acadêmica em Jornalismo, História, Sociologia, Economia(…), como eu, possa fazer textos que mereçam a atenção e o tempo de qualquer pessoa.

Sinto certo orgulho por ter trazido à atenção do cotidiano corrido de cada um, temas que vislumbro atuais e fundamentais para o futuro do lugar e sociedade em que convivemos. É um pouco arrogante supor isso, eu sei, mas gosto de pensar que são temas importantes, sim.

Nesse sentido, sou feliz pelo tempo dedicado à esta rede social.

No entanto, eu sigo ficando mais velho, sem ficar mais sábio. Tudo que posso fazer é tentar usar meu tempo da melhor forma possível para reverter essa tendência, já que a idade é “inevitável”.

O Facebook (e outras redes sociais), com tudo que expus, não me parece mais uma boa forma de investir meu tempo.