Se Trump fosse eleito explicitamente pela fé em dias melhores – mesmo que não para todos, mas para larga maioria dos americanos – eu penso que eu seria capaz de compreender o que está a dizer a população dos EUA, nas urnas, ainda que eu discordasse.
Veja: nós não precisamos concordar sobre qual é “o caminho feliz” para qualquer problema que tenhamos em conjunto. Você pode achar que o que melhora o mundo é mais famílias com mais filhos e que isso vai levar ao reaquecimento econômico, e mais empregos e […]. Do outro lado, eu posso achar que o que melhora o mundo é menos gente, menos consumo, menos agressão ao meio ambiente, menos atividade econômica “artificialmente criada” (obsolescência programada, demanda artificialmente criada) e […]. Aliás, são só hipóteses e não estou dizendo se acho isso ou aquilo. Ainda assim, são visões antagônicas, mas ambas têm algo fundamental em comum: a meta de um mundo melhor, senão para todos, para a maioria de nós – afinal, o primeiro sinal de maturidade é saber que nada (nem ninguém) agrada a todo mundo, não importa o quão bom possa ser ou parecer.
O que reelege Trump, na contramão da ideia de “mundo melhor”, é a revanche, a vingança e o ressentimento. Ele é “o malvado favorito” da América, mas sem o humor ou a fofa família para compartilhar com seus espectadores. Mas o show começa em janeiro e, querendo ou não, todos assistiremos, e isso porque, como eu já disse quando Trump venceu Hillary, a eleição nos EUA não é como a eleição na Argentina. A segunda impacta pouco mais de 46 milhões de pessoas, mas a primeira impacta todo o globo e seus mais de 8 bilhões de humanos (e todo o resto da vida, sendo franco). Em tempo: Trump, ora eleito, por duas eleições vitorioso, em duas eleições contra adversárias mulheres, e só sofreu revés ao disputar contra um candidato branco, ainda mais velho do que ele… É só um dado… Ou não? Não sei. Nem é meu foco para hoje. Porém, salta aos olhos.
Os EUA ainda são a maior economia do mundo (28.7 trilhões de dólares), acompanhada relativamente de longe pelo segundo lugar, a China e seus 18.5 trilhões de dólares (fonte). E a economia sempre manda e sempre mandou no mundo: da política às guerras, arregimentando todo o progresso científico em sua pletora de formas e resultados.
Os EUA também são a maior potência militar do globo (fonte). Segundo o relatório Global Firepower, seguem em primeiro do ranking (de onde nunca saíram), investindo práticos 1 trilhão de dólares anuais em armamentos e pessoal. Embora Rússia (2ª) e China (3ª) não estejam distantes no rankeamento, seu investimento é bem menor: A Rússia investiu cerca de 61 bilhões de dólares em 2021 e, por causa da guerra, planeja ousados 145 bilhões de dólares investidos em 2025, quase 7% do seu PIB. “Ousados” porque, em áreas estratégicas, ter o dinheiro não é necessariamente a parte mais difícil: saber como e onde gastar é bem mais complicado; você pode gastar mal um caminhão de dinheiro e não chegar a lugar algum. Já a China, mesmo em 3º no ranking, investiu algo em torno de 240 bilhões de dólares em 2022, e está perto dos 500 bilhões de dólares em 2024. Vale uma ressalva: há dúvidas sobre os números divulgados e mesmo o governo americano estima que a China “esconde o jogo” (o que faria sentido), podendo estar mais perto dos 700 bilhões de dólares anuais do que os “módicos” 470 bilhões estimados para este ano. Seja como for, ainda não é o trilhão de dólares americano, tampouco o é pelo tempo que os EUA investem em guerra. E aqui, o acúmulo de investimento ao longo do tempo faz grande diferença, seja em treinamento e aptidão do pessoal, seja em acumulo de tecnologia e armamentos (você pode até achar que um F-15 já é um avião de caça obsoleto, mas ele ainda vai acabar com muitos aviões de outras potências, se a chance for ofertada).
Por tudo isso (e muito mais), a eleição nos EUA é algo que guarda relação com o resto do mundo, e não é algo que só deva ser observado por cientistas políticos ou “baba-ovos” de todos os espectros políticos. Ela efetivamente decide um tanto do futuro do planeta, para o bem e para o mal.
Superada a justificativa, retomo o raciocínio que me fez querer escrever. Trump é o candidato da revanche, da vingança e do ressentimento. Claro, isso não é o mesmo que dizer que o eleitor de Trump não tem fé nele. Claro que tem. A fé é a de que a vida vai melhorar para si, com a torcida de que piore “para o outro lado”. E por “outro lado” inclua-se aí qualquer um que não se pareça com ele(a), ou que tenha sido definido como “ameaça” (mesmo que, de verdade, não seja). Então, é uma fé dupla: de que a vida vai melhorar para o grupo “dos eleitos” e de que vai piorar para quem não diz “amém”.
Agora, se estivéssemos falando algo como “a vida do cidadão vai melhorar porque a dos criminosos vai piorar”, mesmo duvidando muito da proposição (porque isso praticamente nunca entrega muito além de violência policial), ela ainda carrega em si a ideia de “o melhor para o maior número de pessoas” (já que criminosos não são a maioria do povo). Não é disso que se trata, agora. Se trata de algo na linha “quero que a vida do eleitor médio de Trump melhore [homem (47%), branco (71%), cristão (59%), sem nível superior (57%)…] (fonte e fonte), mesmo que isso signifique a piora para 47.8 milhões de imigrantes (fonte), e 42 milhões de pretos (fonte), e parte expressiva das 169 milhões de mulheres (fonte) que não concordam com nossas visões de mundo”.
Claro: é impossível ignorar as mudanças do perfil de seu eleitorado e que geraram surpresa para quem imaginava o oposto do que se deu: em realidade, Trump melhorou sua performance EM TODOS os recortes demográficos, exceto na faixa acima de 65 anos e no grupo de mulheres brancas universitárias (fonte). Trump teve (muito) mais apoio latino, teve mais apoio negro e teve (muito) mais apoio de jovens (18 a 29 anos). Estamos falando de uma mudança real e não de algo marginal, como se fosse possível tratar isso tudo como “mera flutuação”. Pelo contrário: são tendências claras e inequívocas de preferência daquela demografia (a dos EUA). Só pelo exemplo: Trump cresceu espantosos 25% em sua base de latinos apoiadores; entre os jovens (18-29 anos) ele cresceu 11%, e entre as mulheres, 10%. Ainda que o voto feminino e negro (pretos e pardos) ainda seja majoritariamente Democrata, o avanço dos Republicanos nesses recortes é notável.
Agora, o aparente (e, talvez, só aparente) mistério é aquele em que as bandeiras políticas e ideológicas Trumpistas desafiam a segurança, em especial, dos grupos que decidiram o apoiar com mais força. Trump disse que deportará imigrantes aos milhões, inclusive com a ajuda dos militares (fonte). Em nome do “Projeto 2025” (algo assustador e que nem sei se recomendo que você leia, mas talvez, sim, você deva), Trump pode vir a tomar diversas medidas para cessar o aborto, ainda que estadual e legalmente autorizado (fonte). Trump já disse que não manterá qualquer medida que proteja o meio ambiente se a considerar um entrave para suas metas – especialmente as econômicas (fonte). Todas essas pautas falam diretamente com temores que imigrantes, mulheres e jovens deveriam ter; exatamente os grupos que decidiram apoiá-lo mais em 2024.
Seria um desejo coletivo pela aniquilação? A tal “pulsão de morte” Freudiana? Essa parece uma resposta plausível quando vemos alguém que toma veneno esperando que outros morram. Contudo, essa também parece a resposta mais pobre em imaginação; uma tentativa de responder com simplicidade a um problema (bem) complexo. Problemas complexos requerem soluções complexas, ainda que a explicação da solução possa (e, sempre que possível, deva) ser simples.
A explicação que ensaio a seguir é a de que este é um mundo em desencanto. O fim da Guerra Fria trouxe um triunfalismo jamais visto ao regime democrático liberal, impulsionado por ganhos estonteantes do capitalismo, com integração dos mercados, cadeias globais de produção, “novos mercados” (para os “velhos mercados” tomarem pra si) e… A maior parte de nós tinha a certeza de que nenhum modelo era melhor. Até que tudo isso passou. O mundo se integrou até onde conseguiu, mas outras economias (especialmente a chinesa) encontraram o caminho para deixarem de ser o quintal americano e se tornaram séria ameaça à hegemonia do tio Sam. O crescente fluxo de pessoas, mas principalmente, de informação, passou a nivelar a percepção de privilégio e consequentemente, da realidade, e o poder de compra deixou de ser um absoluto marco da realização pessoal, especialmente nos EUA, “terra das oportunidades”. A oportunidades seguem lá, mas você não vai “dar certo” mesmo se não fizer muito para que isso ocorra, algo que era possível, antes.
São as “vacas magras”. Juntarem-se aos bovinos desnutridos a organização – espontânea e provocada – de grupos sociais reivindicando que a tal democracia liberal entregasse sua maior promessa: a igualdade de oportunidades para todos. Tal igualdade é ainda mais difícil quando os mercados se contraem e as chances rareiam para os grupos que estavam historicamente posicionados para aproveitá-las. Imagine-se, então, o cenário de aproveitamento para os grupos “recém-chegados na festa”. O atrito é inevitável. E os grupos recém-chegados fazem questão de utilizar um vocabulário que lhe empreste certa “verdade científica”, uma palpável arrogância de se estar “do lado certo”, seja lá o que isso significa, mas nada que crie pontes e diálogos; pelo contrário. Estão, em grande medida, convencidos de que “nada se consegue neste mundo pedindo ‘por favor’”, frase que já ouvi algumas vezes nesses ambientes. São, acima de tudo, rancorosos no discurso e não fazem amigos por onde passam. MAS… Seria um bode expiatório óbvio atribuir a esse grupo a “culpa” pelo resultado eleitoral mais importante do ano (e, porquê não, do próximos quatro anos). Seria desleal, também. Contudo, eu disse que é um problema complexo, e estou dando conta de parte da complexidade do problema.
Da desestabilização econômica surgem as respostas padrão da humanidade: os lobbies, o protecionismo, a interferência extraterritorial (por vezes dublada como “imperialismo”) e, então, partindo de palavras afiadas, chegamos às lâminas afiadas ( = guerras).
O capitalismo, por sua vez, não mais se envergonha de mostrar que não depende da democracia para sobreviver. Por conta da Guerra Fria, o capitalismo gostava de mentir que precisava de “democracia” para mostrar seu melhor, e os EUA, no polo oposto ao comunismo soviético, decidiam “levar a democracia” para todos os cantos do globo, através de bombardeios, torturas e execuções (essa referência aqui, poucos vão pegar, aposto). Porém, nos anos mais recentes, o capitalismo não se acanha em apertar as mãos de ditaduras terríveis como a saudita, ou veladas como a turca, ou em projeto, como a indiana ou a húngara, enquanto condena “ditaduras terríveis” no Irã, na Coréia do Norte, e em outros locais que não lhe interessem por ora. Para mim, toda a ausência de instituições democráticas que mantenham o Estado livre da grilagem por parte de interesses privados, seja na Venezuela, seja em Israel, são situações de governos nefastos e que devem ser indubitavelmente repudiados. E, também por isso, não estou na carreira política. Porque em política, e especialmente na política internacional, falar a verdade não tem nada a ver com o jogo bem jogado.
E quem é esse tal de “capitalismo”? São os reais donos do jogo. Alguns tem a coragem de colocar a cara no mundo, como o mega narcisista do Musk e seus 130 milhões de dólares investidos só na campanha de Trump (e um retorno assombroso de 134 vezes o valor, só no dia seguinte à eleição de seu favorecido – fonte). Outros ficam nas sombras, atuando sempre por lobbies, operam enormes volumes nas bolsas de valores mundiais, bolsas que cada vez mais se assemelham a cassinos em roupa de “assunto sério/econômico” do mundo adulto – farei uma ressalva no meu ensaio de boteco: o mercado de capitais não é necessariamente um mal, mas a forma como ele tem sido usado para pressionar governos e nações é (outro post, outro dia).
Aqui está o problema (complexo) cuja resposta eu não tenho: há (pelo menos) um mundo real de poder por trás do mundo imaginado de poder. O mundo real é aquele em que habitam os que têm muitos recursos (no nosso mundo presente, recurso = dinheiro) e que não ligam se estão no melhor restaurante da democrática Nova York, ou no melhor lounge da ditadora Riad. Tanto faz. Quando se tem dinheiro o suficiente, todo lugar que você vai é uma festa, com gente que vota ou que é torturada. De verdade, tanto faz… E, por cima desse mundo de poder real, o mundo imaginado de regimes democráticos se fez, não porque o mundo de poder real precisasse dele para gerar sua riqueza, mas, sim, porque esse mundo imaginado “mantém os que não têm nada na linha”.
Impossível pensar essa ideia sem colidir com os conceitos marxistas de Super e Infraestrutura. E eu não vou pôr muita energia nisso, mas não: eu não acredito nem 1% na efetividade atual das soluções que Marx apresentou para os problemas que ele corretamente – creio – delineou. Como sempre digo, o diagnóstico marxista sobre o capitalismo me parece acertado, mas a solução dada por ele ignora a realidade e a constituição do que é o homem (antes e agora) e, por isso, não tem como funcionar. Além do mais, a solução marxista envolve ditaduras, conceito que eu jamais apoiarei (a não ser que o ditador seja eu… Aí discutimos…).
Então, a democracia é um engodo, uma farsa, um mero esquema de fingir que o poder se distribui entre todos (por exemplo, por meio do voto) quando, em verdade, o poder continua onde sempre esteve: com os grupos que o detinham antes de a democracia ser instaurada. “Também isso” seria a minha resposta curta, cínica e grossa. Há aquela velha pichação, muito usada por grupos anárquicos, que assim diz “se votar mudasse algo, eles tornariam isso ilegal”. Eu não sou o tipo de pessoa que nega os fatos, e os fatos são que nos últimos 30 anos, tanto fez quem governou o mundo para fins de diminuição da desigualdade e aumento das oportunidades para todos (e não para grupo A ou B).
Todavia, se a democracia é essa Superestrutura que serve apenas para manter os numerosos mais fracos “na linha”, ela também é, factualmente, o regime que mais habilitou pessoas a quebrarem certas barreiras sociais e econômicas, e com o menor derramamento de sangue possível (em comparação às alternativas e ao passado). Se isso é “mera ilusão”, então, talvez precisemos gostar um pouco de nos iludir, pois eu não gosto do caminho em que todos se matam até que restem apenas os que concordam (até porque, historicamente, os que concordam comigo hoje são sempre menos do que ontem e os expurgos tendem ao perpétuo).
É sobre isso que eu queria falar: o mundo está em desencanto. Não acreditamos, coletivamente, em nada. Mesmo os que dizem crer no Deus de Israel, Pai de Jesus Cristo, creem a partir de perspectivas muito diferentes entre si; em casos extremos, de maneira irreconciliável. Quase não parece ser o mesmo Deus em certos embates.
E parece que a eleição de Trump é nada menos do que um prelúdio de rebelião popular. Que a Pax americana estava agonizando desde os 2000, não chega a ser novidade, mas estamos entrando em outro nível de ruptura: a do contrato social. Um sistema federativo como o americano requer que os estados (unidades federativas) reconheçam certos valores e premissas comumente importantes, encarnados no papel da e nas expectativas para a União (o ente federal do Estado).
O voto em Trump, ainda mais dos estratos que vem, diz para mim que aquele povo não mais concorda com os rumos gerais da nação. Ao ponto de declarar como “inimigos” aqueles que servem o café, varrem as casas, cuidam das crianças. Colegas de sala de aula ou trabalho. É um profundo e grave “não reconhecimento mútuo” ao olhar para o outro lado da calçada. O outro, ali, não é um conterrâneo, mas um incomodo e quiçá um risco. De “mal necessário”, agora já passam a discutir a validade da necessidade.
Contratos sociais acabam de dois modos: a) um novo contrato, aperfeiçoado, é criado e todos (“todos”, aqui = ampla maioria) concordam que esse novo contrato faz sentido. b) uma ruptura forçada e normalmente combatida pela União, eventualmente até pela força, para que o ente rebelado volte a obedecer ao antigo acordo, então repudiado. Seja como for, envolve ódio, destruição, perda de vidas e, em vários casos, deixa feridas que não se cicatrizam a depender do tamanho da barbárie cometida do começo ao fim do processo, independentemente do resultado (divórcio ou reconciliação do membro rebelado com a União e o resto dos entes que não se rebelaram).
Eu não consigo vislumbrar qualquer viabilidade de um novo contrato, capaz de unir tantos grupos de poder e, ao mesmo tempo, grupos sociais reivindicando mais, sob um mesmo ideal. Qualquer que seja a proposta, ela não vai agradar o suficiente para selar a paz social entre o maior número de pessoas possível. Especialmente porque está faltando o que distribuir, como defendo a seguir.
A ruptura violenta ainda parece cenário distante (amém, até por todas as vidas envolvidas), mas ninguém nunca sabe qual é ou onde está o pavio dessa dinamite. A Queda da Bastilha, evento-marco da Revolução Francesa de 1789, começa com a simples demissão de um ministro, seguida de ligeiro aumento no preço dos pães. “Não é pelos 20 centavos” diriam os revolucionários, se fossem brasileiros e se arregimentassem em 2013… Em um sistema complexo, de incontáveis variáveis e pressões de todos os lados, um ato que pode parecer pequeno em isolado gera um efeito estarrecedor uma vez dentro do circuito.
E enquanto escrevo isso, pensando naqueles Estados Unidos da América, não consigo deixar de pensar que em dois anos é a nossa vez de, quem sabe, tomar a mesma decisão. Uma decisão pautada não em esperança para todos (quantos se possam abarcar), mas em revanche, vingança e ressentimento.
Num mundo em que até mesmo o sentido da Cristandade mudou radicalmente de “O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (João 15:12) para “[…]Deus deu riquezas e bens, e lhe deu poder para delas comer e tomar a sua porção, e gozar do seu trabalho, isto é dom de Deus”, eu não deveria me dar por surpreso. Em verdade, as duas mensagens podem ser encontradas na bíblia do Cristianismo. Mas enquanto a última faz parte do Velho Testamento (Eclesiastes 5:19) e é escrita por um profeta hebreu que não se sabe ao certo quem foi, a primeira é a mensagem do próprio Jesus Cristo, aquele que empresta o nome para a religião Cristã. Como advogado, é como se eu visse alguém dizendo que a lei municipal vale mais que a Constituição, quando em conflito (que, no caso, sequer é conflito real, mas aparente, fruto de mera e equivocada interpretação).
Continua sendo a palavra de Jesus aquela que diz que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma Agulha (posto alfandegário das cidades antigas em que supostamente se passaram as histórias narradas na Bíblia), do que um homem rico ganhar a vida eterna (Matheus 19:24). E se você se incomoda com os ensinamentos de Jesus Cristo, então, vai ver que você não quer ser cristão, mas outra coisa. É do jogo. Eu, por exemplo, não sou nada. Ao menos, nunca digo que faço A ou B movido por valores religiosos. É menos covarde, assim. Usar a religião como desculpa para a barbárie sempre foi um traço dos piores momentos da breve história humana.
E como viemos parar aqui, na religião? Bem, ela é central para campanhas da Direita Radical e Extrema (a diferença sendo que a primeira aceita atacar o sistema e eventualmente se dar mal [se preciso for], e a segunda quer abolir o sistema sem pagar por isso, caso dê errado). É a pedra angular dos discursos de gente como Trump, Bolsonaro e afins, este discurso de que promovem verdadeira cruzada para proteger o Ocidente cristão de ataques de seus mais odiosos inimigos. Falta apenas combinar com Cristo, pelo que expus até aqui. Mas tudo bem, afinal a religião, junto com a democracia, diria Marx, é só mais uma Superestrutura para manter os jogadores bonzinhos. Eu prefiro dizer “é também isso”.
No fim, os tempos são pautados pelo egoísmo. É como se o único ditado que tivesse sobrado para a educação de todos nós fosse o icônico “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Não tem nada a ver com ser cristão, islâmico, homem ou mulher, trans ou cisgênero, preto ou latino ou X. Tem a ver com o sentimento de que o mundo está literalmente acabando. E que sobrou pouco para, não dividir, mas tomar.
O que assistimos é o espetáculo da (re)formação das facções. Acha-se algum arranjo mínimo, que dê alguma coerência e consistência ao bando que se alinha. No caso de Trump é o cristianismo, o “true american”, qualquer ideia mofada de um excepcionalismo que não existe no analisar dos fatos. Mas tudo isso é desculpa. O mundo real que essa gente vive é o que diz “ tudo está acabando e temos que pegar a maior parte possível para nós, os que concordam com algumas abstrações e parecem ser do mesmo time”. Não é que a Esquerda também não pense assim, mas no caso dos EUA, o pensamento radicalizado daquela Direita se alinha mais a mais grupos (e, por isso, é maior no momento). É o que disseram as urnas, pelo menos.
O desencanto nunca foi com a democracia porque as pessoas não compram democracia, não vestem democracia, e não comem democracia. O desencanto sempre foi com a falta de fartura de possibilidades de consumo. O John Doe, tal qual o nosso José Silva, não faz ideia do que “democracia” quer realmente dizer. Muita gente estudando Direito também não sabe, portanto, não se sinta mal se for teu caso. O Que John Doe e José Silva realmente sabem é que dava pra trocar de carro mais vezes no passado e agora não dá. A casa podia ser maior e agora é o “studio” de 25m². Não tem nada a ver com democracia. Tem a ver com dinheiro. E, no nosso mundo atual, dinheiro tem a ver com poder.
Os donos do jogo costumavam deixar uma fatia na mesa para que todos nós – os demais – sentíssemos que comemos o bolo, mesmo que pouco. Os donos do jogo perderam o recato e mal deixam migalhas, agora. Fariam isso, fosse todo o mundo democrata-liberal, totalitário ou comunista. Porque sempre tem um grupo que dá um jeito de ficar dono do jogo, mesmo nos mais difíceis cenários. A Rússia matou dezena de magnatas e oligarcas e, no entanto, tantos outros rostos novos surgiram no lugar. Porque o poder não aceita vácuo. A China parece ter tido mais sucesso, mas se o valor que investem em militaria é maquilado (como se desconfia), o seu sucesso quanto à paz social interna também é. Há repressão, há crise (imobiliária, especialmente), há guetos opressores para minorias étnicas. Não, Esquerdinha do DCE que ainda faz o masoquismo de me ler: o comunismo não salvou ninguém da malvada miséria humana. No máximo, tornou mais difícil mostrar o que vai mal. Como toda boa ditadura (com ou sem comunismo envolvido, registre-se).
Foi notícia (fonte): O salário médio anual de CEOs (imprecisamente: presidentes) de grandes empresas, no Brasil, é de 15 milhões de reais. Pesquisa feita com 84 representantes do cargo e outros 775 em cargos de diretoria. Então, imagine que você pudesse ganhar 15 mil por mês. Em um ano, com 13º salário, seriam 195 mil reais, certo? Quantas pessoas em seu círculo menor de família e amigos têm empregos pagando 15 mil reais por mês? Eu conto nos dedos das mãos. É um salário para pessoas com uma qualificação bastante sólida, no nosso mercado de trabalho. Agora, a pergunta principal: O que faz um presidente de empresa (CEO) ser TÃO MELHOR, ao ponto de que isso possa justificar que ele(a) ganhe 77 vezes mais do que alguém muito bem qualificado e que estudou muito para ganhar 15 mil reais por mês? E se não for um cargo de muita qualificação, e se for alguém limpando banheiros, digamos, ganhando dois salários-mínimos (para o cargo, isso é considerado um salário bom, viu?), então a diferença passa a ser de 408 vezes entre CEO e a querida da tia cuidando diariamente dos banheiros das nossas empresas inclusivas e responsáveis socialmente e ambientalmente e espiritualmente e ludicamente […].
Esta é, para mim, a origem do Mal (letra maiúscula) dos nossos tempos. Não o capitalismo; não a ideia de que quem investe mais (tempo, recursos, esforços) recebe mais; não a ideia de que alguém que toma mais risco (civil, criminal, ambiental, político) tem o direito de lucrar mais (o risco é do empregador, art. 2º/CLT). Nada disso é o Mal. Mas, sim, a incrível, inexplicável e injustificável disparidade de como 88 pessoas podem ganhar médias anuais de 15 milhões de reais, enquanto milhões de pessoas ganham o equivalente a dois ou três salários mínimos mensais, a vida toda – quando ganham…
E as pessoas que ganham tanto dinheiro fazem um jogo onde a culpa é da democracia, a culpa é da Esquerda, ou até da Direita (se valer a pena e fizer venderem mais), porém, em última instância, a culpa é e sempre foi sua, que não tem o “mindset vencedor”. De Pablo Marçal a Bispo Edir, todos os mensageiros dos donos do jogo querem te convencer que se você passa fome, a culpa é só sua. Por detrás disso tudo, a permanente mentalidade que os norteia e diz “se eu posso ter mais, por que eu não teria mais?”, mas é preciso que você (e eu) não se revolte com esse jogo, daí o teor da mensagem dos “guias para o sucesso”. Levada a extremos, é essa mentalidade de “ter sempre mais” o que promove o fim dos recursos naturais e do próprio equilíbrio ambiental. Não é que seja necessário, é que simplesmente não há ninguém que possa impedi-los de fazer o que fazem. Compram a tudo e a todos, e quem hipoteticamente não se vende (se é que existe/existiu alguém incorrompível [eu começo a negociar na dezena de milhões de reais, caso interesse]) acaba envolvido em algum triste desfecho. Afinal, o único crime que realmente existe é o de ser descoberto. Se fizer do jeito certo, dá pra seguir vendendo palestra de ética e responsabilidade social com sorriso no rosto (e os bolsos cheios).
E eu discordo de quem imagina que esses vilões ficam num country club do mal, no alto de uma montanha estilizada à moda Drácula. Essa gente é tão dívida quanto nós, porém, eles têm algo que falta demais às massas: consciência de classe social. Podem ter visões agressivamente diferentes do que fazer com o brinquedo chamado Terra: uns querem cuidar dela como um pet (“coma menos carne, a Terra agradece” – fecha a porta do jatinho que joga duas vacas no ar por hora), e outros querem destruir como um brinquedo dado à criança mal-criada (“é tudo meu, e eu quebro se quiser”). Mas de uma coisa eles todos sabem bem: se um deles está em risco pelo motivo de ser rico, os outros também estão. No fim, acho que é isso que mais falta ao resto de nós, meros mortais: entender que se o madeireiro e o petroleiro (os donos, claro) estão felizes com os prospectos de vitória do candidato X, a chance desse candidato ser bom para o resto de nós é perto de zero.
E que o Esquerdinha do DCE não me entenda mal, só pelo último parágrafo. Os governos Lula 1 e 2 deram condições para que banqueiros lucrassem oito vezes mais do que com seu antecessor, FHC (fonte). Todos os lados (Esquerda e Direita) sabem que não jogam o jogo sem que os donos do verdadeiro poder permitam. Começou a peitar demais e vem “o rodo”. Todavia, a Esquerda (não “a Esquerda” do PT [o PT que se exploda], mas a ideológica, aquela que na Revolução Francesa ficou do lado dos mais esfarrapados) ainda é o lado que diz “não está bom do jeito que está, precisamos rebalancear o sistema”. A Direita se basta em dizer “o mundo é de quem está preparado para vencer, e quem quer mais que lute”, mesmo que a luta já comece perdida para a maior parte de nós, por fatores objetivos. Eu sei qual lado melhora a promessa democrática-liberal de mais igualdade nas oportunidades vs. qual lado prefere manter tudo como está. E também sei que nenhum dos lados é meu amigo de verdade. Afinal a maioria dos líderes de partido, sejam de Esquerda ou de Direita, estudaram nas mesmas escolas e frequentaram as mesmas festas. São – quase sempre – gente da mesma classe social e que não é a minha.
Contudo, é uma questão pragmática: o jogo é jogado por quem se habilita nele, e o espaço de escolha é limitado pela realidade imposta. Preciso escolher o lado que, se não resolve todos os defeitos que vejo, pelo menos não joga aberta e francamente para o lado que quer me ver esmagado nas engrenagens da máquina que mantém a própria ganância.
A frustração, seja aqui nos Estados Unidos do Brasil™ (©1889-1968), seja nos Estados Unidos da América (Est. 1776), não passa muito pela democracia em si, embora seja o que os jornais digam. As pessoas nem sabem bem o que é democracia, repito. A frustração é essencialmente material e de perspectivas práticas de exercício do poder de consumo. Há pouco sobre a mesa e a culpa não é do regime político, mas da eterna insaciedade dos donos do jogo real de poder. Tem um lado tentando convencer que ainda dá para dividir, mas esse lado pouco mexe nas fatias do bolo de quem tem muito mais do que precisa. Ele só quer dividir as migalhas que sobram por sobre a mesa entre os que achavam que comiam bem (classe média) e os que não comem nada (todo o resto). O outro lado, ora vencedor nos EUA de 2024, diz “o jogo é duro e quem não aguenta que pereça”. Cristãos esse tanto…
Revanche, vingança e ressentimento… Nunca deu errado para os peões do jogo quando esses valores vieram à tona no passado. #Confia
E se você tem dúvidas sobre o tipo de peça que é nesse tabuleiro, apenas responda para si se você pode dar uma bica no sistema inteiro e manter seu estilo de vida sem que nada mude. Se sim, parabéns: você é um dos poucos felizardos. Eu sei que não sou.
Um mundo em desencanto é um mundo sem esperança. É um labirinto em que parece que todas as alternativas foram tentadas e só resta voltar para trás. Mas, extrapolando a metáfora de Bobbio que aqui empresto, o perigo da mistura entre labirintos e o povo é a tentação de voltar sobre os próprios passos para um passado seguro, um passado em que tudo faz sentido e um passado que só pôde existir sob condições objetivas que não mais estão lá. E, ainda que estivessem, é um passado em que uma pequena parte do povo comia uma fatia de bolo e todo o resto passava fome. Agora, restaram as migalhas, enquanto os donos do jogo ficam com 15 fatias por ano (se é que você entende a minha metáfora), ainda que pudessem ter os buchos justamente cheios já na 3ª ou 4ª fatia.
Todavia, dizia Marx – sempre certo nos diagnósticos, sempre errado nas soluções (muito mais por culpa dos que ainda querem aplicar suas respostas para o século XIX no século XXI, anote-se):
“Sem sombra de dúvida, a vontade do capitalista consiste em encher os bolsos, o mais que possa. E o que temos a fazer não é divagar acerca da sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o caráter desses limites.”
E é essa vontade que não conhece limites e que tem todo o poder o que leva ao mundo que vemos pela janela. Não o regime político, não o candidato A ou B. Mas um sistema que cria um mundo que nos força a lutar por migalhas contra outros esfomeados, enquanto há sempre um menor número de refinados e distintos bolsos, sempre mais cheios de bolo, muito mais do que qualquer mortal precisaria ter e comer.
Eis, senhoras e senhores, o meu diagnóstico. A solução? Eu não ousaria…