Brasil e o mar de lama

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Fonte: veja.abril.com.br ©

“Vocês têm mais sorte do que juízo” – O criador, Deus

É o que eu imagino que Ele pensa, ao olhar pra essa terra da qual dizem que Ele é nacional.

E eu duvido que Ele seja brasileiro, especialmente depois do desastre em Brumadinho. Porque eu acho que Ele “esqueceu aquele povo”? Não… Nada tão pueril ou de tom tão emocional. Mas, porque se Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança e, fosse Ele um típico brasileiro, o planeta Terra já deveria ter desmoronado inteiro, implodido e explodido, e perecido em todas as direções. “Raivinha” contra meus conterrâneos? Também não. Pragmatismo e análise da realidade que forma as estruturas desse lugar.

E eu quero começar o texto pelo fim, para te avisar de algo que, talvez, você não tenha paciência de ler mais para baixo: Esse desastre é o resultado a ser replicado em inúmeras outras ocasiões, SE uma visão liberal romantizada for adotada sem pudor, em forma de legislações ancoradas na crença de que a iniciativa privada sabe cuidar de tudo, muito melhor do que o Estado o faz. Isso levará a um processo de capitalismo selvagem e destrutivo (como vemos agora), e ao desmonte estatal, seja em nível federal ou estadual, de órgãos de fiscalização e repressão de práticas comerciais completamente desleais. Desleais com as pessoas, desleais com o meio-ambiente e desleais com toda a sociedade brasileira. O resultado está aí, e as justificativas desse parágrafo vão ao longo do texto.

A barragem que cedeu e vai levar – pode apostar – mais de 300 vidas do povo mineiro (e brasileiro, é bom dizer em voz alta) pode ser todas as coisas, menos acidente.

Assim se lê no Michaelis Online:

Acidente

a·ci·den·te

sm

1 O que é casual, fortuito, imprevisto.

2 Acontecimento infausto que envolve dano, estrago, sofrimento ou morte; desastre, desgraça (…)

Bem, daqui, retiramos que um acidente é algo imprevisto (como encontrar um amigo, “por acidente”), e quando empregado em sentido negativo, decorrente de acontecimentos infaustos (ou seja, infelizes, impossíveis de se antever, e causadores de tragédia, estragos, sofrimento…).

E, de pronto, precisamos – por uma questão de seriedade – descartar o verbete “acidente” quando nos referirmos, daqui para frente, à barragem de Feijão, rompida em Minas Gerais.

Antes de seguirmos, vamos falar em Responsabilidade. Como se vê no Direito Civil, a responsabilidade subjetiva é aquela em que o autor age (dolo), ou deixa de fazer algo que dele é esperado (culpa), de maneira imprescindível para causar o evento. A responsabilidade objetiva, por outro lado, independe de dolo ou culpa, e é a responsabilidade que temos com os outros, por viver em sociedade; por exemplo, quando seu filho, menor de idade, em atitude impensada, quebra a vidraça do vizinho, você tem a responsabilidade de restaurar aquele bem, mesmo sem ter sido o causador do dano, e isso é responsabilidade objetiva.

Porquê expliquei sobre responsabilidade? Para explicar porque eu removi “acidente” da conversa. Não tem nada a ver com ter certeza de que a culpa (no sentido coloquial, e não jurídico) é da Vale. Essa certeza, para quem trata desastres de forma séria, só poderá vir com investigação feita por pessoas competentes, com acesso ao local, ao projeto, às documentações, às vistorias… E é incabível, nessa altura, demonizar a Vale. Como? Explico como: A empresa tem um laudo, fornecido por empresa terceira e contratada, de origem alemã (para quem acha que a engenharia brasileira não é boa o bastante), chamada TÜV SÜD, atestando que a barragem estava segura em setembro passado (menos de 5 meses). E na rebatida, você pode se sentir tentado/a a dizer “o laudo foi comprado… o resultado é maquilado”. É uma hipótese. Outra hipótese é de que a empresa foi tão vitima quanto os cidadãos mortos embaixo daquela lama, de um laudo malfeito (por maldade, por imperícia, tanto faz) e acreditou, de verdade, que a barragem estava segura. Essa é outra hipótese.

Se foi por “safadeza” (repito, é cedo pra gente sensata afirmar isso), por ganância, imprudência, ou simplesmente por confiar em um laudo malfeito, isso é irrelevante: A responsabilidade objetiva da Vale é indiscutível. E não houve acidente, repito, por um simples conceito técnico: Uma barragem não rompe “de repente”. Essa não é minha palavra, é a de engenheiros e especialistas, como Carlos Martinez, Geraldo Portela, Evandro Moraes da Gama e tantos outros lideres e representantes de associações de engenharia, de gestão de riscos e etc., todos entrevistados pela grande mídia, ao longo desses 2 dias desde o rompimento. A barragem tem (ou deveria ter) sensores de movimentação de terra, passa por vistorias, tem amostras geológicas recolhidas e testadas, sistemas de alarme para evacuação e etc. Em resumo, por sua natureza potencial para desastres sempre presente, não é algo, mesmo no caso desta – que estava desativada há quase 3 anos – ignorado e deixado no esquecimento – não poderia ser.

Ora, então, o que aconteceu? Bem, o que sempre acontece quando se deixa uma empresa com fins lucrativos atuar sem fiscalização efetiva: Ela quer fazer mais com menos e, depois, mais mais com menos menos, até que isso se torna insuportável e quebra algo. Nas empresas em que eu trabalho, esse ciclo só dá um barulhinho, o sistema de e-mails sai do ar pela crônica falta de investimentos, e depois de uma gritaria e tapas na mesa, a empresa volta a investir (é o único jeito) e o sistema volta ao ar. O problema é que, no caso da Vale, o sistema que quebrou não entregava e-mails. Segurava toneladas de “lama” (já falaremos desse termo) retidas acima das cabeças de centenas de pessoas, casas, fazendas, vida selvagem e etc. Perceba que é possível ignorar os riscos do corte sistemático de verbas, sem querer, de fato, matar pessoas. Possível, mas não necessariamente provável.

E eu promovo o primeiro “fim dos sonhos” dessa conversa: Para você que é um liberal radical, fica o lembrete que a iniciativa privada não é mais ética, mais comprometida, mais correta, mais preocupada, ou etc., do que o Estado. Ela é praticamente igual, com um diferencial: Porque o foco do capitalista é ter o máximo de lucro, sempre, ele não perderá oportunidades de ser mais “eficiente”. E aqui mora o Diabo: Às vezes, num sistema trabalhando no limite, o que o capitalista (“o patrão”) chama de “otimização da eficiência” é só o estrangulamento de orçamentos que já estão no mínimo. Quando é um sistema de e-mail, é divertido ver quebrar e o afã nos corredores. Quando é uma barragem, esmaga 300 vidas humanas (ou mais), todas as vidas de animais e vegetais, e destrói a imagem do país para investidores externos.

Como eu fiz com o verbete “acidente”, também seria bom revisar o verbete “lama”. Como sabiamente pontuou o jornalista André Trigueiro, da Globo, “lama” é uma incorreção que diminui o tamanho da tragédia. Vejamos, da mesma fonte de “acidente”:

Lama

la·ma

sf

1 Mistura de argila e outras substâncias orgânicas com água, de consistência pastosa(…)

Bem, ocorre que aquilo não é “lama”, no sentido estrito. É um resíduo tóxico (mesmo que a Vale diga que não é), com traços de arsênico, mercúrio, e outros elementos inorgânicos (uma coleção nefasta de silabazinhas, todas retiradas da tabela periódica) que vão acabar com o suporte à vida daquele espaço. É o fim, sem exageros. Por décadas (senão mais). Descobri, por acidente (este sim, bem-vindo), o termo “barro vermelho”. Talvez, esse seja o jargão correto a ser empregado…

Mas a questão é que… Esse desastre não para com as vidas ceifadas. Esse desastre ecoará por anos e anos, destruindo solo, rios, fauna, flora, e a saúde de todos. Algumas centenas de quilômetros de rios do Brasil, outra dúzia de quilômetros quadrados ao redor da barragem; inabitáveis, improdutivos… Por décadas. Fim. Aquela terra está morta e isso não é figura de linguagem. O barro vermelho, a lama tóxica (seja lá como vamos chamar), soterrou alguns corpos a mais de 8 metros de profundidade. Quanto seria preciso remover para voltar a ter acesso a um solo saudável? Impossível falar com qualquer confiança.

E trazer riqueza de detalhes dessa situação horrível, surreal, monstruosa, é necessário. Não porque isso “dá Ibope”. Mas porque tendemos a diminuir a seriedade do que nos é distante.
300 vidas… É um número muito frio. Temos que pensar que vilas inteiras, e uma comunidade de funcionários (quase 300) morreram enquanto se preparavam para almoçar.

Chegue hoje na sua empresa, e pense que você e todas as pessoas ali presentes (as que você gosta, e as que você nem conhece) vão ser mortas por uma parede avassaladora de lama tóxica. É isso. Não são “300 vidas”. É uma comunidade inteira com pais, filhos, amigos, e etc. soterrada.

E não nos esqueçamos nunca: Não é a primeira vez e, se nada mudar, não será a última. Em 5 de novembro de 2015, a barragem de Fundão destruiu várias comunidades no subdistrito de Bento Rodrigues (que quase sumiu) e uma parte de Mariana. Naquele desastre, “só” 19 vidas. Só… 3 anos depois, NADA foi aprendido, nada mudou, e agora pagamos com pelo menos outras 300 vidas. E nos dois episódios, os danos ao meio-ambiente são incalculáveis.

O IBAMA já multou em 250 milhões a Vale, pelo rompimento dessa barragem em Brumadinho. 250 milhões. Por centenas de km de rios mortos e outra dezena de km² soterrados por uma parede de lama tóxica, por décadas. É o bastante? Não é.

Haverá, ainda, dezenas de processos e não sabemos em quantos milhões de reais a Vale será punida. É suficiente? Não é.

Porque enquanto as forças públicas lutavam para achar alguém com vida, todos tiveram que correr em pânico, sob o risco de serem esmagados por um milhão de metros cúbicos de água (também tóxica) de reuso nos processos da mina, em uma outra barragem ao lado da que se rompeu.

O que aprendemos – como nação, como povo, como Estado-fiscalizador – com Mariana? Nada.

E agora, temos uma noção um pouco maior de como a tragédia está ao lado:

O Brasil tem aproximadamente 24 mil barragens cadastradas nos órgãos responsáveis. Dessas, 42% não estão com a documentação em dia. Apesar dos 31 órgãos responsáveis por esse tipo de fiscalização, estes não chegam a 200 funcionários somados para o país todo. Por ano, das ~24 mil barragens, apenas 3% são vistoriadas. Quer dizer: Precisamos de mais de 33 anos para vistoriar as ~24 mil barragens, uma única vez. E aqui vem o detalhe macabro: 24 mil barragens estão cadastradas, mas as entidades supõem que há outros 2/3 de barragens clandestinas, por aí.

Faltam leis? Não é, realmente, o que parece. Há leis, até demais, ricas em detalhes e regras de construção, fiscalização e etc. Falta cumprir essas leis, e fiscalizar e punir quem não cumpre. Exemplarmente. De maneira que custe tão caro não cumprir a legislação, que a empresa quebre se fizer isso em 2 ou 3 barragens. Até porque o papel aceita tudo, e se o que faltasse fosse lei escrita, o Brasil não era um país de homicidas (art 121 do CP).

Daqui decorrem outros vários problemas que poderiam ter seu próprio post/texto:

As empresas, especialmente as de mineração já que estamos no tema, não são inimigas da Nação. Tampouco o são as barragens. As empresas geram empregos e ajudam a economia, e as barragens têm diversas funções de engenharia, necessárias para nossas vidas, para as atividades de agropecuária, ou mesmo das indústrias de mineração. Não, não é uma história em quadrinhos com mocinhos e vilões.

Mas uma coisa muito me preocupa, pois ocorreu em Mariana, e tem chances de ocorrer de novo: Assim que a dor coletiva passar, assim que as esperanças de encontrar até mesmo o corpo dos soterrados se for… Assim que a luta e a revolta deixar de ser nacional e televisionada, e for “só” individual, só de quem perdeu alguém ou algo com esse evento… As forças políticas vão atuar para soterrar, também, a exigência de reparação e de mudanças contra a Vale e todo o setor.

Os parlamentares ligados à Vale lutarão para dizer que foi um episódio trágico, mas que não se deve punir a empresa com rigor. Afinal, a região depende da empresa tanto com seus empregos, como com seus tributos, para se manter funcionando. E Minas Gerias é um estado com 35 bilhões de déficit nos caixas.

E o que são 300 vidas de moradores de uma área rural, contra a renda e os empregos que a Vale gera para o estado (esses políticos dirão)? Os números, não os rostos, não os laços familiares, os números… Eles serão usados para relativizar a tragédia e suavizar a punição, e barrar qualquer endurecimento de leis, de fiscalização e de eventual sanção do Estado.

Mariana ocorreu há 3 anos, e ninguém foi punido. As famílias retiradas da região de Bento Gonçalves estão por aí e, pra piorar, sofrem todo tipo de preconceito de seus conterrâneos (brasileiro, povo hospitaleiro, não é?). São xingados, chamados de oportunistas, ouvem que deveriam ter morrido no desastre, que estão se aproveitando da empresa Vale. Nem as crianças são poupadas. Ouvem de jovens e adultos, no caminho para a escola, que são “os pés-de-barro”, em alusão à tragédia de onde saíram. Isso porque são mineiros entre mineiros. Tenho dó do estrangeiro querendo morar nesse país.

O Brasil é um mar de lama. Um mar de lama que resulta em um Estado aleijado, quebrado, de joelhos, incapaz de cumprir sua função constitucional, de fazer a lei ser um império sobre todos: ricos e pobres, moradores de uma zona rural e uma empresa multibilionária.

O Brasil também é um mar de lama na ética empresarial, onde uma empresa sente que pode retirar verba de áreas de risco de sua operação, sem consequências. O alarme não soou, o plano de emergência era tão útil quanto um manual em mandarim, um refeitório com mais de 200 pessoas foi construído na rota óbvia do barro vermelho, em caso de rompimento…
Achar que essa lógica de mais com menos não atinge, também, viadutos e pontes, aeroportos, estradas, escolas e hospitais e todo tipo de infraestrutura mantida, seja pelo Estado, seja pela iniciativa privada, é de uma ingenuidade assustadora. Mas quando essas coisas quebram, diferente da máquina de café, ou do servidor de e-mails, é impossível antever o tamanho da desgraça e os efeitos colaterais.

O Brasil é um mar de lama, também moral. Um povo que consegue tratar com ódio e maldade gente que perdeu tudo, não por culpa ou escolha, mas pelas operações sem o cuidado necessário de uma corporação gigantesca… E, para piorar, um mar de lama moral tal, que inverte a lógica: Porque a empresa dá empregos e gera tributos, não há como puni-la severamente, certo? Não é justo com ela. Ela tem que ser protegida por todos. O sucesso da Vale é mais importante do que qualquer moralismo. Proteger o meio-ambiente, quando uma empresa quer crescer e gerar mais empregos, é coisa de eco-chato, esquerdista… Assim a maioria pensa. Só há o hoje. Só há “o que eu ganho com isso?”.

O Brasil é um mar de lama. Onda após onda de lama tóxica, no campo da moral, da política, do futuro, e também no campo da realidade. Lama para todo lado. A última onda matou 300 e retirou, por décadas, dezenas de km² (incluindo a rota dos rios) do Brasil. Um pedaço do Brasil morreu. Mais um pedaço que virou um mar de lama. E nada me diz que será o último.

#ForçaChape …

Por que, hoje, todos choramos pela Chape?

#ForçaChape
#ForçaChape

O dia que não começou…

 

Alan Luciano Ruschel: Resgatado com vida, mas com lesão na coluna cervical de gravidade e extensão ainda desconhecidas.

Ananias Eloi Castro Monteiro:  27 anos

Arthur Brasialiano Maia: 24 anos

Bruno Rangel Domingues: 34 anos

Aílton Cesar Junior Alves da Silva, o Canela: 22 anos

Cleber Santana Loureiro: 36 anos

Marcos Danilo Padilha: 31 anos

Dener Assunção Braz: 25 anos

Filipe José Machado: 32 anos

Jakson Ragnar Follmann: Vivo, mas, com amputação nos membros inferiores.

José Paiva, o Gil: 29 anos

Guilherme Gimenez de Souza, o Gimenez: 21 anos

Everton Kempes dos Santos Gonçalves: 31 anos

Lucas Gomes da Silva: 26 anos

Matheus Bitencourt da Silva, o Matheus Biteco: 21 anos

Hélio Hermito Zampier Neto, o Neto: Vivo, em estado grave, com traumatismo craniano e outras lesões.

Sérgio Manoel Barbosa Santos: 27 anos

William Thiego de Jesus, o Thiego: 30 anos

 

Por que não cito os jornalistas, a tripulação, a comissão técnica? Não acho que mereciam ser lembrados?

Jamais eu seria tão mesquinho. Jamais eu seria tão infeliz. Mas é que eu realmente queria falar sobre os sonhos interrompidos.

E porquê não consigo me livrar, desde as 4h da manhã, quando acordei com o notíciario dando os primeiros dados dessa tragédia, desse luto que não sei explicar de todo.


A midia só trazia dados. “Informação”, não, porque até agora, não se tem informação sólida sobre nada. A mídia só quer saber de noticiar primeiro, tudo pelo clique, tudo pela audiência, sem muito compromisso com o que decorre das informações que veiculam e do que causam nas famílias diretamente afetadas que vagueiam entre o terror e a esperança.

Só para exemplificar o que acuso: A mãe do goleiro Danilo já soube que o filho morreu e estava vivo, algumas vezes, se assistiu à mesma cobertura que eu assisti. Não quero mais falar disso. Não hoje.

Olho para os nomes e para as idades…

E penso: “Não deu tempo”. Eles não tiveram o tempo deles. O tempo deles “foi desrespeitado”.

Para um cara “99% ateu” como eu, e que não acredita em destino, é contraditório dizer isso. Eu sei, racionalmente, que não há à quem ou ao que se culpar.

Mas é exatamente aí; é nisso que o meu dia amarga, como se eu tivesse realmente conhecido os que embarcaram naquele último voo… Como se fosse um amigo, um parente, alguém do meu mundo que, ali, partiu em definitivo.

Você não precisa amar futebol para se comover com o que está se passando, hoje. Basta ter empatia. E vou além:

Se um dia, na sua vida, você já se sentiu “a zebra” do jogo… Se um dia, na sua vida, você teve a consciência de que era o mais fraco numa competição (pelo emprego, pelo objetivo, pelo sonho, por qualquer coisa que valha a pena lutar), o menos preparado, o não-favorito… E se, depois de tudo isso, de todo esse mal estar, você “virou o jogo”, e “deu as cartas”, surpreendentemente, então, meu/minha amigo(a)… Então, você sabe exatamente atrás do que esses rapazes (com o mais velho, tendo só 36 anos) estavam indo e de como eles se sentiam a esse respeito. E aí, dói mais.

Não era o dinheiro, em primeiro lugar, mas era uma comprovação de que até “os menores” (não que se sentissem assim, mas, sempre foram classificados assim) têm chance de tomar as rédeas do próprio sucesso e da própria realização, nesse mundo.

Mas o vôo que deveria marcar o começo da glória, encerrou, pelo menos, 71 histórias. A maioria delas, sequer “bem escritas”… Carentes de serem revisitadas, aumentadas e encorpadas. Merecedoras de muitos outros capítulos.

Quem, em nome de qualquer santidade, pode ter “cumprido seu destino” com 26 anos, nas médias das idades? Alguns, tinham se tornado pais, nos últimos meses. Outros, com 21 anos, começavam agora, o que chamamos de maioridade…

Disto, decorreu algo muito, muito, incomum para todos nós: Uma corrente de “humanidade” tomou corpo, primeiro com o adversário, Atlético Nacional, de Medellín, pedindo à Conmebol que declarasse o time arrasado pela tragédia, o campeão da Copa Sul Americana 2016.
Depois disso, a maior parte dos times da Série A do Campeonato Brasileiro, pediram que a CBF garanta imunidade ao rebaixamento, pelos próximos 3 campeonatos brasileiros, além de garantirem o empréstimo de jogadores, durante 2017, à custo zero.

O Palmeiras mudou seu perfil oficial, nas redes sociais, para o Alvi-Negro; a marca de seu maior rival: O Corintians; por sua vez, mudou seu perfil para o Alvi-Verde da Chape; cores proibidas com força de lei, dentro do clube, por serem as cores do Palmeiras.

E uma amiga me disse:

Por que não podemos ser assim, o tempo todo?

Não nego que desperte curiosidade a onda de generosidade e vontade de ajudar que surge, depois de um evento tão trágico, embora eu não tenha nem vontade, nem o clima, para teorizar muito à respeito.

Para não ficar no vácuo da “evazão de respostas”, penso que o brasileiro tem passado por momentos de tanto “racha”, tanto ódio, tanta discórdia e acusação… É tanto “dedo em riste” na cara, que a morte brutal de todo um time (que vai além da “simples” vida de cada um, para se tornar uma espécie de “encarnação terrena” de um ideal, de um sonho) que, diferente dos famosos clubes, lutava pelo seu espaço no plano esportivo nacional, há 6 anos, e agora, começava numa competição internacional; foi por tudo isto que se gerou essa força catártica enorme.

As pessoas, de repente, se deram – novamente – conta da efemêridade da vida. Se chocaram com tantos jovens, em busca de um objetivo coeso, de um ideal compartilhado, serem aniquilados em segundos. E isso nos demoveu da rusga, da rivalidade, e nos fez desejar que o pesadelo da pequena Chapecó, de 210 mil habitantes, nunca tivesse ocorrido. E que, tendo ocorrido, todo o poder e possibilidade sejam usados e realizados para que o dano seja o minímo.

Se temos opiniões diferentes, sobre tudo, imagina no futebol. Mas, por outro lado, ninguém tem uma opinião diferente sobre a Chapecoense. Ela era o futebol ausente de holofotes, grandes marcas e grandes patrocínios.

Ela era a representação de um futebol mais genuíno, menos industrializado, menos pasteurizado.

Era uma promessa de que, “mesmo no lixão nasce flor”, como dira Mano Brown. Era a nossa prova forte que, sendo todos nós pequenos, “as zebras”, as “grandes surpresas”, mesmo assim, tal qual como a Chape, poderíamos ousar não nos contentar com o “fim da tabela”.  Mesmo pequenos, todos nós, como a Chape, podemos “ousar” sonhar com grandes vitórias. Sonhar com a glória. Sonhar com o primeiro campeonato internacional, ou qualquer outro objetivo que alguém diz “ser grande demais” para nós.

E é por isso que me dói tanto. Porque foi a covardia do acaso que quase que disse: “Não, vocês não podem.”.

Agora, depois de escrever esse texto por horas, entendo minha raiva com essa tragédia. Entendo o gosto amargo que invadiu e “sentou” sobre meu dia.

Olho pra Chape, e como uma “Zebra” olhando nos olhas da outra e se reconhencendo mutuamente; sei que eles estavam em busca da Glória, acima de dinheiro e valores mundanos. Eram o melhor de um grupo, tão coeso, e tão idemovível de um propósito maior, de uma missão maior.

E a “derrota” deles, diante de uma morte tão covarde, é também uma derrota sentida por mim. E é por isso que mesmo sem amar, tanto assim, o futebol, hoje, sinto um pesar digno das tragédias pessoais, sem jamais ter pisado no Estado de Santa Catarina, quanto menos em Chapecó.

Não acredito em destino. Nem em nenhum deus descrito pelo homem. E ainda assim, não tenho dúvida da canalhice que ocorreu no dia de hoje. A vida “não tinha esse direito”. Não porque matou 71 pessoas, ao menos. Mata-se e morre-se bem mais, todos os dias, às vezes, em condições e calvários bem piores do que a queda de um avião…

A verdadeira e profunda canalhice não são as 71 vidas. Mas é a destruição de um ideal e de um sonho, idealizado e sonhado e vivido e executado, por todo um time que junto nasceu, e ironicamente, junto tombou.

Mas, Chape, não sofra:

Mesmo a pior tragédia que a vida nos impõe, e mesmo esse pesado, inescapável, e inexorável “dedo na cara”, que nos lembra da nossa fragilidade… Mesmo essa amarga lembraça da nossa efemeridade, tem um “que” da força que vocês tinham em campo, e fora dele.

Sabes, Chape, de todos esses clubes querendo ajudar vocês? Sabe do Palmeiras usando preto e branco, e o Corinthians o alvi-verde? Sabe do seu adversário da grande final que, pelo seu presidente, visivelmente emocionado, foi até a Conmebol, pedir que o titúlo seja teu, Chape?

Sabe o porquê de tudo isso? A lição é de vocês. De que força e grandeza, nada tem a ver com o que nos atribuem, ou com o capital mundano que temos.

Se até um clube de Chapecó, feito pelo suor e sonho de 210 mil habitantes, e quase nenhum capital financeiro, pode ousar ser mais do que a vida sugere, o que dizer de todo um universo de pessoas, unidas sob um único ideal?

Essa é a vossa maior lição, Chape: Ousar e desejar ser sempre mais do que se pressupõe que sejamos capazes; não importa o quanto a jornada insista em dizer “não”.

Terminou para esses, tão jovens (insisto) atletas. Mas fica um enorme patrimônio imaterial, de fibra de caráter e de propósito constitutivo que, construido sobre a união de todos os clubes e torcedores brasileiros, talvez, transforme a Chape em algo inimaginavelmente maior e melhor.

E talvez, eu pague o preço de acreditar que algo bom pode vir de uma tragédia assim. Talvez, essa seja a derrocada da Chape, e seja impossível evitar a ruína. Mas, contrários à toda probabilidade e hipótese tradicional, vocês chegaram longe, onde ninguém achou que podiam. Vou tentar, uma vez, partilhar desse mesmo otimismo, diante da improbabilidade.

E tudo começa, de onde vocês pararam e pelo que vocês simbolizaram. Nunca duvidem disso…

 

#SomosTodosChape

#ForçaChape