O judô e a lei; as olimpíadas e a vida.

Créditos da imagem: Reuters / Kim Kyung-Hoon

Nota: Este texto foi escrito em 31 de julho, mas publicado em 1 de agosto de 2024.

O judô nos ajuda a entender que a preocupação é um desperdício de energia.

KANO, Jigoro.

Poxa, Kano-Sama… Fico sem graça de admitir, mas talvez seja o caso de eu devolver a minha faixa ao Katchborian-Sensei. Ela nem é tão graduada… Tá ali, no meio da lista dos kyus ( = faixas coloridas)… Mas eu não aprendi a parar de me preocupar ou, ao menos, a tratar as preocupações da vida como desperdício (e, portanto, ativamente evitá-las). Em qual dan (que é o grau da faixa preta) o senhor estimava que o Judô ensinaria isso ao judoka (“ka” ~= “praticante”)? Só pra eu ter uma noção do quão longe estou dessa iluminação…

Quem me acompanha mais de perto por aqui, sabe que sou apaixonado por olimpíadas. Claro que acompanho copa do mundo de futebol; nasci no Brasil, isso está no contrato social do país. Mas olímpiadas, eu tiro férias. Nada é mais importante dentre “as coisas sem importância” na minha vida, durante essas 3 semanas.

Cesare Pavese disse que toda a vida é política. Ele também é o dono da frase tão repetida por aí de que “política é a arte do possível”. Lembro de Pavese porque há quem não consiga tratar nada pelo seu valor de face. De outro modo, para algumas pessoas, tudo tem uma agenda oculta e, tendo, não se pode apreciar nada pelo que está imediatamente disponível no seu corpo de significados mais visível. Ainda, de outra forma, as olimpíadas, enquanto evento organizado e mantido por instituições privadas, atenderiam a interesses tais que sua função de superestrutura é evidente (numa classificação Marxista, importante para o argumento, porquanto se põe como teoria crítica da sociedade capitalista que teria fundado também os jogos e seus propósitos menos óbvios).

Não tô me fazendo entender? Vamos de novo: para muitas pessoas, todos os eventos que envolvem lucro financeiro têm apenas a função de enganar e distrair as massas enquanto os verdadeiros fenômenos de controle e submissão são ainda mais apertados contra os nossos lombos. Pão e circo na sua forma mais refinada, é o que é uma olímpiada. Se for em 4K então, vixe…

Então, como é que eu gosto de olímpiadas se a missão dos jogos é me enganar para a verdade da minha situação, sempre mais precária do que ontem? É simples: eu não compro a explicação que acabei de dar. Ou, melhor dizendo, eu não compro a parte em que ela faz dos jogos olímpicos algo a se detestar.

Oras, ninguém tem duvidas do poder do “Sportswashing”, tem? Alguém acha que os países árabes injetam caminhões de dinheiros em clubes de ligas europeias ou compram uma porção de jogadores que custam milhões de dólares mensais (eu disse “milhões de dólares… mensais…”) porque “amam muito ver futebol de alto nível”? Sério? Alguém acha que o Catar brigou para sediar a copa do mundo de futebol, por amar futebol? A seleção profissional do Catar não passou da fase de grupos e fez um mísero gol! Que amor pelo futebol é esse?

Mas aqui vem uma dualidade: Se as pessoas orquestrando esses eventos não amam os eventos que orquestram, as pessoas que participam da feitura deles (de forma direita ou indireta) e que assistem a eles, os amam. Eu amo, pelo menos. O que eu recebo do esporte é exatamente o que ele me dá, na hora em que me dá, sem efeitos anteriores ou ulteriores. A transação é imediata. Eu me irrito, eu comemoro, eu me emociono e eu vibro, no momento em que tudo está acontecendo. Não esqueço de nada do que vai mal antes e depois do evento. Não lembro de mais nada, durante.

Mas os esportes olímpicos têm algo a mais, para mim. Há algo inato do espírito olímpico e que me encanta. Em especial, a capacidade de transformar histórias comuns em “contos de fadas” esportivos. Geralmente, muito sofrimento e dedicação, sem recompensa certa, histórias iguais a da gata borralheira. Mas quem salva o atleta não é um príncipe, senão o próprio atleta e sua jornada até o topo do Olimpo (“olímpiada” vem daí, espero que saiba). Tem gente que vem “do nada” e brilha numa competição. Tem gente que faz parte de uma dinastia e continua a brilhar. Quem não tem tradição, posse, título ou nobreza e, ainda assim, escreve seu nome eternamente na história dos jogos e dos países que representaram. E quem vem para provar os motivos de sua fama e supremacia herdadas. Tem de tudo. É realmente representativo da vida real. É democrático, neste sentido.

Eu não faço a menor ideia de qual é o tamanho do judô no México, mas toda a vez que um (ou uma) mexicano(a) encostar no tema “judô + México”, terá de passar pelo nome de Prisca Awiti, primeira medalhista olímpica na categoria, conquistando a prata no mesmo dia em que esse texto foi escrito. Isso também é verdade para o/a brasileiro/a que encosta em “judô” e “Brasil”, mas aí, a lista é tanto quanto mais longa. O judô é o esporte mais vitorioso para o Brasil em toda a história dos jogos olímpicos modernos. De Chiaki Ishii em Munique, 1972, até William Lima e Larissa Pimenta [UPDATE: Beatriz Souza ganhou ouro e o time misto do Brasil foi bronze] em Paris2024, há gerações de atletas que não podem ser esquecidos pelo judoka brasileiro, consagrados no fogo dos jogos olímpicos, trazendo várias medalhas a cada edição da competição.

E como isso desemboca em “lei”? “Lei”? Pois é: “lei”. Foi o que coloquei no título, né? Tem que fazer algum sentido. Ou não. Mas prefiro que sim.

Hoje, acordei cedo. 6h da manhã. Deveria ter acordado mais cedo. A primeira luta de Rafael Macedo, judoka brasileiro na categoria até os 90 quilos, estava prevista para a sétima posição do programa que começou às 5h da manhã, hora de Brasilia. Só que eu não estava totalmente convencido das chances “de ir longe” que Rafael tinha, e eu tenho acordado cedo quase todos os dias então eu pensei “me desculpe, Macedo: se você fizer por merecer, terá todo meu apoio em sua segunda luta, a partir das 6h”.

E Macedo disse “ah é, seu gordo desgraçado?! Eu vou fazer você perder o dia inteiro comigo, pra você aprender a respeitar o meu esforço!”. Eu não tenho provas, mas fontes confiáveis me disseram que Macedo ficou extremamente motivado quando descobriu que um judoka amador e que não terminou o ciclo básico de masterização da arte, decidiu dormir ao invés de assistir a ele nas olimpíadas. Essa coisa de atleta tirar motivação de qualquer lugar… Incrível.

Preciso confessar que a pesagem em que Macedo luta não me emociona. Os 90 quilos começam a ter uma característica que acho muito irritante no judô contemporâneo, que é a tendencia a renunciar da técnica em prol do emprego da força bruta como meio de derrubar o oponente. Tudo que Jigoro Kano, criador do judô, disse para não fazer. Se engana, porém, quem vem com a explicação que “judô” quer dizer literalmente “caminho suave”. Essa interpretação é meio equivocada. Primeiro porque Jigoro Kano era um homem das ciências. Ele não acreditava em forças místicas e inexplicáveis, e ele entendia muito bem os princípios de alavanca que a física já havia consagrado, bem antes do seu tempo de vida. Portanto, Kano-Sensei sempre soube que ninguém tira 100 quilos do chão usando apenas a força do cosmos ou do ki, tampouco por meio da “suavidade”. O que Kano-Sensei se perguntava sempre é “como eu faço isso da forma mais eficiente quanto possível?”. Essa é a essência do judô.

O primeiro princípio do judô é o Senryoku Zen’Yo: máxima eficiência com o menor esforço. Os outros dois princípios do judô seriam o Jita Kyoei, ou “benefícios mútuos” (um treino ou uma luta só são bons para mim se forem bons para meu parceiro de treino) e o último, Ju, significando “gentileza” (uma preocupação que vinha do aspecto mais educador de Jigoro Kano, formado em educação física, e muito preocupado com os impactos do judô na formação dos alunos, para além dos tatames. Tem bem mais a ver com a conduta do judoka do que efetivamente com expectativas de “gentileza” durante os combates no treino [que chamamos de randori]).

A pesagem que mais gosto no masculino é 73kg. Também assisto com gosto (porque assistir, eu assisto tudo) o pessoal dos 66 e 81 e, geralmente, as lutas são muito boas. Mas, eu acho que a melhor combinação “força/agilidade” está mesmo nos 73 quilos. Para mulheres, as categorias que mais me animam são as de 57 e 63 quilos, pelos mesmíssimos motivos já expostos. Haverá lutas incríveis nos 70kg feminino? Claro. Lutas incríveis podem ocorrer em todas as pesagens (e ocorrem, por isso eu assisto a todas). A questão realmente é sobre as chances das grandes lutas acontecerem e de não acabar em algo em que os atletas são muito leves (e aí a luta é frenética, mas sem força para grandes golpes), ou muito pesados (e aí é só força, quase nenhuma velocidade, e o gás acaba no primeiro minuto de combate… Costuma ser entediante assistir).

Então, aqui estou eu, tentando falar de Macedo. O que houve com Macedo, afinal?

Bem, se você trabalhou o dia todo (lamento por você) e não teve chance de ver nada das Olímpiadas 2024 hoje, Rafael Macedo estava no caminho da final olímpica, tropeçou nas quartas-de-final, passou pela repescagem e foi disputar um dos bronzes (o judô-competição entrega 2 bronzes, uma prata e um ouro por categoria de pesagem). O caminho até a luta pelo bronze, que ocorreria perto das 12h30 (Brasília) foi incrível e Rafael não teve uma jornada fácil até lá. Mas, tampouco ele assistiu a isso tudo acontecer. Ele foi determinante no próprio sucesso, lutou muito, teve um volume de combate incrível e, ao final, chegaria à derradeira luta contra um representante dos donos da casa, Maxime-Gael Ngayap Hambou. Macedo, com 29 anos, segundo ciclo olímpico depois de Tokyo2020, enfrentaria um jovem de 23 anos, em seu primeiro ciclo olímpico. Macedo, que ocupava o 11º lugar no ranking IJF, com 3863 pontos conquistados, contra um Hambou, em 38º lugar, com 1870 pontos acumulados antes da luta.

“E para que serve saber as posições do ranking?”, você pode se perguntar. Ao que respondo: para nada. O ranking não luta por você. O ranking não garante absolutamente nada na luta à sua frente; no máximo, conta o que você já passou para estar ali. O ranking, aqui, demonstra como Macedo era (e é) mais experiente e mais calejado pelo judô-competição do que o jovem francês, em início de carreira profissional. Hambou, aliás, entrou na seleção francesa “de última hora”, por uma vaga que surgiu de forma inesperada.

Inesperado, também, foi o resultado da luta. No judô contemporâneo, a luta dura 4 minutos. Se ninguém pontuou nada, inicia-se o Golden Score. No judô atual, há dois pontos possíveis: o Ippon (o ponto perfeito, que encerra a luta imediatamente), e o Waza-ari (se lê uaza-ri, não é “vazari”. A língua é japonesa, não alemã – mas claro, você pode seguir falando errado; direito seu…). O Waza-ari é um “quase-Ippon” onde algum elemento previsto nas normas para a definição do ponto perfeito não foi atingido. Pode ser falta de força na projeção, pode ser que o atleta atingido não tenha caído da forma como a regra exige (geralmente de costas, ou se defendendo com a “ponte” feita usando o pescoço, ou com os dois cotovelos), ou quando há o rolamento de uma omoplata à outra… Pode ser que o judoka que aplicou o golpe não demonstre o total controle durante a queda, mas só parte dele. O golpe pode ocorrer em dois breves e consecutivos momentos e não de uma vez só… Enfim, há muito julgamento para explicar porquê um Waza-ari não chegou a Ippon. Mas você só precisa saber que o Ippon termina a luta instantaneamente, enquanto o Waza-ari mantém a luta em andamento. Exceto se houver um segundo Waza-ari (o que se converte em um Ippon), OU, se a luta está no golden score. Aí, qualquer pontuação encerra o combate.

Há uma terceira forma de uma luta de judô acabar e essa forma, acrescento, é a mais lamentável de todas para o esporte em si. Ocorre quando um dos atletas sofre três punições do corpo de árbitros. Essas punições são chamadas de “shidô”. E 3 shidô’s levam à desclassificação ou (hansoku-make). Algumas faltas são tão graves que você sofre a desclassificação imediatamente, sem passar pelos 2 shidô’s de aviso. Um soco na cara, por exemplo. Os shidô’s, por outro lado, ocorrem por motivos banais como falta de combatividade, falso-ataque (fingir o golpe sem fazer nada para realizá-lo de verdade), postura muito defensiva (evitar a pegada do adversário no seu judo-gi [o famoso – e impreciso – “kimono”]).

Bem, a luta entre Macedo e Hambou estava ótima (eu disse que, independentemente da pesagem, há lutas boas em todos os pesos, não disse?), e apesar da vantagem na envergadura (o francês sendo mais alto que o brasileiro), em dado momento, Hambou não tinha mais energia para enfrentar Macedo. O brasileiro estava dominando a luta aos 3m55s, há apenas 5 segundos do golden score, onde qualquer punição ou ponto encerraria a luta.
Aliás, ambos os atletas estavam empatados em shidô’s por falta de combatividade e postura muito defensiva (evitar a pegada). 2 para cada. O próximo shidô, para qualquer um, encerraria a luta.

Há 5 segundos, Rafael Macedo consegue uma projeção (o resultado ilusta este post), projeção que eu já vi outros juízes marcarem como waza-ari. Mas ainda era o tempo regulamentar, e faltavam 5 segundos, portanto, a luta continuaria. Porém, o arbitro, sr. Vyacheslav Pereteyko, não marcou a pontuação. No solo, faltando 5 segundos, Macedo caiu com o adversário em posição de vantagem, e começou o trabalho de solo, que chamamos genericamente de “ne-waza” (se lê “nê uaza”). Macedo estava perto de imobilizar o adversário, situação em que o juiz deve dar o comando de voz “osaekomi”, literalmente “imobilização”. Abre-se a contagem e, em 10 segundos de Osaekomi é concedido a nota de waza-ari a quem está imobilizando. 20 segundos é o fim do combate por Ippon em favor de quem aplicou a imobilização. Macedo estava perto do bronze. Muito perto.

Depois do triste primeiro ciclo em Tokyo2020, onde caiu na primeira luta, com poucos segundos de combate, Macedo ia ser medalhista olímpico. Mas, o comando de “mate” (parar) ao invés do “osaekomi”, emitido pelo arbitro, anunciava o pior.

Uma revisão começou a ser feita pela comissão de árbitros (além do sr. Pereteyko, o judô de alto rendimento também conta com algo similar ao VAR do futebol) e, de repente, o arbitro ordenou que os dois atletas se reposicionassem no tatame como que para o reinício da luta e, ato contínuo, sinalizou a desclassificação de Macedo.

Rafael Macedo ficou perplexo. Seu técnico, puto. Eu, idem. Estavam, de novo, me fazendo reviver o horror das cenas que fizeram Maria Portela passar. O sangue já sobe, só de lembrar do assalto a Portela. Macedo projetou Hambou em 3 ou 4 situações. Ok, nenhuma delas era um claríssimo Ippon, nem mesmo um Waza-ari inquestionável, mas, de novo, já vi atletas receberem pontuações como essas por golpes piores em execução. E por que isso importa? Porque se o arbitro tivesse aplicado os mesmos critérios que seus colegas de arbitragem haviam aplicado antes, inclusive na mesma Paris2024, Macedo não precisaria correr os mesmos riscos, nem ir tão longe para conseguir o bronze. Macedo poderia estar para sempre no pódio de Paris. Mas não esteve. E não tem mais como estar.

A decisão da arbitragem é uma lambança, até agora. Vá lá conferir enquanto a lambança segue, no site oficial das Olimpiadas de 2024. A desclassificação de Macedo segue explicada como “motivo indeterminado”. A razão disso, em parte, é que houve um conflito de entendimento entre o arbitro no tatame e os 2 árbitros da mesa. Um deles viu uma possível segurada na parte interna da manga do judo-gi. Isso é, em tese, proibido, pelas regras atuais do judô. Guarde essa informação. Outra possibilidade foi aventada pelos canais que cobriam o evento e suspeita-se que um movimento de imobilização feito no adversário, utilizando o joelho e os tornozelos ao redor do pescoço do imobilizado, movimento conhecido como “sankaku-jime” e popularizado como “triangulo”, teria sido feito por Macedo. Tal movimento é banido no judô por elevado risco de lesão à cervical da “vítima”. A imagem deste post mostra esse golpe aplicado, ainda válido, como explico a seguir.

Se você procurar o vídeo da luta, vai ver que Macedo realmente começa um sankaku-jime naqueles aflitivos 5 segundos antes do golden score, tentando achar uma chave de braço (kansetsu waza), ou ajudar na imobilização (só ele sabe o que pensou), mas ele não está buscando o estrangulamento (shime waza), até porque está na direção oposta a do adversário, ambos caídos no solo após a tentativa de projeção do brasileiro. O francês tenta se defender, sem sucesso, e, nessa hora, recolhe o braço que protegia o pescoço. Pescoço que segue sob “a trava” do sankaku-jime de Macedo. A ação, reflexa ou deliberada, é tomada pelo francês, não pelo brasileiro. Não importa. O resultado é catastrófico para o nosso atleta.

A desclassificação leva Macedo da incredulidade ao choro, rapidamente reprimido pelo atleta.

Há muita confusão, o técnico brasileiro segue sem entender, a transmissão da Globo, contando com 2 judokas (Tiago Camilo e Maria Suelen Altheman) não consegue chegar a consenso do que houve. Olham o replay, acham que foi a manga, acham que foi o sankaku… Enfim…

Na entrevista após a eliminação, visivelmente abalado, Macedo segue o protocolo fúnebre estabelecido entre atletas e imprensa: pede desculpas pelo fracasso, fala que Deus sabe a hora certa para tudo, diz que não entendeu o que houve, mas se resigna dizendo que os juízes sabem o porquê e devem estar certos.

A partir deste ponto da história, eu começo a encerrar esse post. O judô doutrina, quase religiosamente, seus atletas para não enfrentar as decisões de arbitragem. Os motivos são, basicamente 2: Primeiro, porque é absolutamente inútil. Uma expulsão desse tipo simplesmente não é revertida. Revisão de Ippon para Waza-ari e vice-versa, vá lá. Recontagem de shidô’s também. Mas “a justeza das decisões” nunca volta atrás por reclamação do atleta. Se o juiz viu “infração”, ninguém o demove do que viu, exceto se os outros 2 discordarem (o que é raro). É quase um dogma do judô, digamos. E o outro motivo é mais complexo: o judô é uma arte marcial de origem japonesa. Hierarquia e respeito a figuras de autoridade estão intrínsecas em todos os ensinamentos que a arte passa. Você agradece o senpai (seu colega, mais velho que você [e normalmente mais graduado]) por toda a sessão de treino, mesmo que você passe a aula inteira caindo para ele treinar os golpes dele. Você agradece o sensei por cada palavra, cada lição. Os juízes também são judokas, a maioria, aposentados da parte competitiva, mas ainda ativos no ensinamento da arte. Não se discute, ponto. “É a lei”…

E o problema está aí: Ao não discutir, o judô vem piorando enquanto competição, ano após ano. O judô enquanto produto, como todo desporto que preza por público para fazer dinheiro, passa por um processo de “otimização” para os paladares mais diversos. Gente que nunca vê judô, na Olimpíada, espera por aquele golpe lá, “o ippon”. Você já aprendeu aqui que ippon é o valor do golpe. É um “10” que acaba o combate na hora. Posso aplicar um tai otoshi que vale ippon, e posso aplicar o mesmo golpe que valerá waza-ari. Depende de como faço o golpe e depende de como meu oponente se defende dele. Mas não é disso que quero falar. Quero falar que nesse processo de dita “otimização”, a luta, a arte marcial, está tendo seus valores de origem retalhados.

Exemplo: Jigoro Kano propôs um sistema de 40 golpes iniciais, chamados “Go kyo”. Um desses golpes se chama “kata guruma”, um lindo golpe que envolve um movimento de quadril e uma alavanca com as mãos, suspendendo o adversário por trás das suas costas, quase formando uma cruz entre ele e você (que está de pé). Depois, você termina de projetar o adversário ao solo. Um golpe lindo, plástico, completamente fiel ao Senryoku Zen’Yo e, no entanto, atualmente proibido. Proibido porque, em algum momento no começo dos anos 2000, alguém achou por bem que era melhor proibir “as catadas de perna”. Estariam esses movimentos “desvirtuando o judô”. No entanto, um golpe perfeitamente valido e funcional, criado pelo fundador da arte marcial, hoje, não pode ser feito em competições. Pelo menos, não pode ser feito com a eficiência com que foi desenhado.

No Direito, o estudo da “intenção das leis” é palco de imenso debate e esforço. Há livros e mais livros, teses e mais teses, autores que dedicaram a vida ao conflito entre o que passava na cabeça do legislador e o que o texto da lei, de fato, permite, obriga ou veda. Esse estudo da lei passa por um campo muito importante que é o campo da “hermenêutica jurídica”, palavra bonita para “interpretação da lei”. Esse texto já vai batendo a casa das 6 páginas e eu não vou transformar isso num artigo científico, prometo, mas eu preciso que você entenda a minha frustração por completo, quando eu vejo que a hermenêutica das regras do judô acontece, hoje, da forma mais grosseira e danosa possível à arte marcial, aos atletas e ao esporte. A hermenêutica do judô vem sendo feita ao arrepio da leitura sistêmica do que é a arte marcial, quais são seus princípios e do que ela visa ser. Qual é o contrato social entre judô e judoka? O que o judô promete à sua sociedade (os praticantes da arte e, claro, seus espectadores) e o que ele pede em troca? O que ele permite, o que ele obriga e o que ele veda?

Nada disso… Nada disso que eu disse, acima, parece ser levado em conta quando alguém “escreve a lei do judô”, nem quando alguém aplica a “lei do judô”. Tudo parece isolado, desconexo e, por vezes, contraditório. Em muitos momentos, a regra do judô parece ser a entidade que mais odeia essa luta. É como se o regulamento de arbitragem do judô tivesse sido escrito pelo pior desafeto de Jigoro Kano. Alguém tão odioso ao fundador da arte, que sua única meta é destruir a criação do desafeto por completo.

Eu tenho certeza de que se eu for ler a regra, vou achar 2 ou 3 pontos que explicam como é IDIOTA a desclassificação de Macedo, do jeito e pelos motivos que se deu. “Ah, mas ele pôs a mão na parte de dentro”, ao que pergunto, com toda a sinceridade, “E DAÍ?”. E se você disser “mas está escrito que não pode” e achar que isso basta, você seria o pior tipo de advogado. E também seria o pior tipo de juiz. Não quero ofender, mas é como vejo.

Em Direito, sempre recorremos a exemplos e todo professor de hermenêutica vai usar o clássico exemplo do direito de ir e vir. O direito de ir e vir é tão sagrado que é constitucional (significando que é mais bem protegido). Está lá no art. 5º da CF/88. Quer dizer, então, que como vossa senhoria tem o direito constitucional de ir e vir, ninguém pode impedir seu carro de passar nas rodovias sem pagar pedágio, certo? Você sabe que não. O mesmo sagrado direito de ir vir permite que você arrombe a porta da minha casa, e com uma marreta, faça outro rombo no fundo do meu quintal, pois assim é mais fácil ir de uma rua a outra, sem ter que dobrar à esquina, correto? Claro que não, de novo…

Então, que diabos de direito de ir e vir, sagrado e constitucional é esse, que eu não posso usar ele a hora que quero e como quero? Mas, esse é exatamente o ponto de estudar uma faculdade de Direito. Ninguém vai lá pra ler a lei. Isso, qualquer um com internet pode fazer. A lei tem que ser interpretada. E a interpretação da lei faz ela ser boa ou ruim, bem aplicada ou mal aplicada. Tal interpretação não se desvencilha de uma leitura sistêmica e principiológica do arcabouço jurídico em que ela se insere. É preciso entender as antinomias aparentes entre leis e direitos em colisão, e saber como resolver esses conflitos e contradições. É preciso saber quando um princípio flexiona a lei para que ela deixe de ter a interpretação fria que o texto puro lhe concede, para se tornar algo muito maior, muito mais abrangente, muito mais poderoso do que as a palavras por si só. Ou, em outros casos, poderes menores, escopos menores, tudo ao contrário. Quem define se é um ou outro? O advogado. E o juiz. E o promotor. E todos os agentes e operadores da lei.

Esta, senhoras e senhores, é uma das belezas do Direito: ele é vivo, e nenhum caso é igual a outro. O primeiro conflito do aluno de Direito é aceitar que “direito” e “justiça” raramente são sinônimos, mas quando o são, é um dia especial. Às vezes, o direito de um é injusto com outro. Cabe aos operadores do Direito equacionarem em que ponto um direito deve ser cumprido, ainda que injusto, e em qual ponto um direito deve ser suprimido para se fazer justiça, ainda que se reduza o direito “em tese”/abstrato de alguém. Como no caso do exemplo de “ir e vir”.

E COMO DIABOS ISSO SE CONECTA COM A HISTÓRIA DE MACEDO, RODRIGO, SEU BIZONHO LAZARENTO!!!

Calma… Respira…

A resposta é: Não se conecta em nada.

TÔ ZUANDO… Se conecta em tudo, ô calabreso… Você não prestou atenção enquanto lia, não? Vou ser explicito, então: NÃO IMPORTA se a regra diz que o sankaku no pescoço é causa de desqualificação. Importa se o arbitro entende que:

  1. o aplicador da técnica visou, dolosamente, executar uma manobra proibida (lembre-se que quando o braço está entre pescoço e o “triângulo”, a técnica passa a ser aceita como meio de imobilizar ou buscar a chave de braço. Não se pode usá-la para estrangular o pescoço do coleguinha, somente).
  2. A técnica causou mal à saúde do atleta ou, ao menos, se o risco, ainda que em abstrato, estava lá por inteiro.
  3. A parcela de culpa do atleta “vítima” da técnica, na conversão de um movimento, até então legal, para um movimento proibido.
  4. O que a regra em abstrato (o texto da regra, frio e escrito muito antes da luta) tenta autorizar, obrigar ou prevenir? Qual é o “espírito” dessa lei, dentro dos valores do judô?

A mesma discussão vai para a suspeita de “gancho” na parte de dentro da manga do judo-gi. Mesmas perguntas. Acrescida de uma: no solo, durante uma imobilização, qual a vantagem prática ao atleta atacando de fazer o “guarda-chuva” nas mangas, sendo que isso não impede o atleta vítima da técnica de parar a imobilização? Qual é a vantagem indevida que o atleta, no chão, ganha com isso? Em pé, claro, eu sei que é vantajoso. Mas e no chão?

“Rodrigo, você é louco? Que arbitro de esporte vai analisar tudo isso para aplicar uma simples regra desportiva? E em segundos?!?!?!”

E aqui está o motivo da minha agonia. Ninguém entende o que é passar, no mínimo, 4 anos se preparando para apenas um dia de luta. Alguns só tem uma chance. Idade, lesões, politicagem, eventos da vida (ser pai, mãe, acidente de trânsito, tragédia na família, sei lá…). Eu não entendo o que é passar 4 anos me dedicando para apenas um dia em que todo meu sofrimento, todas as minhas renúncias, toda a minha raiva e dor poderão, quem sabe, se converter num momento de glória. Eu só tenho uma chance e ela depende, em muito, da justa aplicação das regras do jogo. Não, eu não faço a menor ideia do que isso significa. Do que é ter um sonho tão grandioso, que cobra tão caro, que obriga tantas privações, e que lhe é tomado porque “ninguém vai estudar para aplicar as regras do jeito certo”. Não tem recurso. Não tem segunda instância. Não tem a próxima luta. Tudo começa e termina ali. Um ippon não marcado (em vista da incerteza do que vem depois) ou marcado equivocadamente (fechando a luta de imediato), e acabou.

Ok, eu aceito que esporte não é lugar natural para justiça. Aceito que os atletas conhecem as regras antes da competição. Aceito que ele poderia ser mais cuidadoso, evitar qualquer chance de desclassificação. Aceito todos esses argumentos no caso em concreto. Nenhum deles, no entanto, afasta o elefante na sala e que segue sendo: o que as atuais regras do judô querem proteger? O atleta, a luta, a essência, o espetáculo, o negócio de entretenimento[…] O QUE? Eu fico tranquilo com o silêncio, porque eu sei que ninguém sabe responder. Nem as pessoas que supostamente escreveram a última revisão das regras, porque nenhuma delas está pensando sistemicamente na arte marcial – se estivesse, este texto não teria razões de ser. Eles só se preocupam com a forma final do judô, que é o “judo para a televisão”, aquele que dá dinheiro e garante patrocinadores. Exemplo: se a regra atual espantar talentos mirins que, frustrados depois de perder um campeonato por uma regra mal aplicada, abandonam o esporte, foda-se. O que importa é o espetáculo atrativo.

Se fazem isso por malicia ou estupidez, ou ambos, já me escapa.

Mas, Rafael Macedo, esteja onde estiver, eu quero que você saiba que não acordei cedo pra te ver lutar, mas fui dormir tarde para escrever esse texto por você. Eu tô cagando para o que diz o placar oficial dos jogos de Paris, até porque, até agora, ele diz que nem eles sabem porquê tiraram a medalha de bronze de você. Cedo ou tarde, vão vir com uma resposta pronta e que os blinda, mas já é tarde. A prova de que você foi lesado por uma aplicação acéfala de regras está para sempre lá. Tem print pra todo lado, e quem acompanha o esporte de perto não vai se esquecer dessa bizarra manipulação (culposa ou dolosa) dos resultados em Paris2024.

Meu senpai, que foi quem me apresentou ao judô, Fernando, me disse: “será que não rola uma medalha Pierre de Coubertin pro Macedo?”. A medalha em questão é a maior honraria que o Comitê Olímpico Internacional concede a alguém.  Eu, honestamente, tenho até dúvidas se o caso de Macedo merece tanto. Não sei. Acho que é mais nossa revolta e menos o espírito olímpico. Comparativamente, nosso querido Vanderlei Cordeiro de Lima, agarrado por um louco nas Olimpíadas de Atenas, 2004, caiu e perdeu a liderança da prova, terminando em terceiro. Ao invés de se irritar, desistir, ou qualquer outra atitude compreensível, se levantou, mesmo com dores terríveis, e terminou a prova com um sorriso no rosto, de quem estava feliz de participar dos jogos, apesar dos diachos que a vida lhe impôs. Porém, cabendo a Coubertin para Macedo ou não, não posso me esquecer que isso envolve um comitê olímpico nacional e uma federação do desporto nacional sérios. COB e CBJ não são exemplos pra ninguém. Quanto mais, em brigar contra seus “superiores” internacionais, no caso, COI e IJF, por uma lesão tão complicada de provar, a um atleta de menor relevância como é o pobre Rafael Macedo, campeão de nada em Olimpiadas. Se fosse um Phelps do judô (neste caso, um Nomura ou um Riner), quem sabe. Mas não um Macedo.

Vai ver que, no fim, estavam certos os que acham que tudo é política, e que nada acontece sem uma agenda oculta.

Mas eu só quero mesmo que o Rafael Macedo saiba, de um judoka porcaria para um campeão olímpico: Eu sempre vou saber que Maria Portela era pra estar no pódio de Tokyo em 2020. E eu sempre vou saber que você deveria ser medalhista de bronze em 2024. De que isso vale? Nada. Mas é tudo que posso oferecer a quem me deu tantos sentimentos enquanto torci por vocês dois. Por favor, insistam, seja lá qual for o caminho de cada um. Portela já parou com as competições. O tempo passa, as lesões doem mais, e a vida não rebobina.

Observe cuidadosamente a si mesmo e sua situação, observe cuidadosamente os outros e observe cuidadosamente seu ambiente. Considere de forma completa. Aja decisivamente.

KANO, Jigoro.

É, Kano-Sama… Os judokas precisam voltar a aprender com o senhor. Todos eles, em todos os níveis e de todas as entidades ligadas ao tesouro com o qual o senhor nos brindou. Se verdadeiramente gostarem do judô, é claro…

ATUALIZAÇÃO: Embora o texto tenha sido escrito ontem (31 de julho), ficou tarde para revisar e deixei para publicar hoje. Isso me permitiu saber da fala do chefe da equipe brasileira de judô, Marcelo Theotonio, (que não é o chefe do COB, nem da CBJ). Ele disse que “punição a Macedo foi bastante controversa”. Se esse tipo de cargo não está pacificando a questão, tem coelho nesse mato…

ATUALIZAÇÃO 2: Podendo assistir às lutas de até 100kg no dia de hoje (1 de agosto), vi INÚMERAS marcações de waza-ari para golpes muito menos claros do que aqueles efetuados por Macedo. Também, foi um dia repleto de bizarrices nas decisões de arbitragem. Até “troca de lado” para a medalha de bronze ocorreu. Teve, realmente, de tudo (de ruim). De novo.

Sobre o assalto a Portela

créditos da imagem: Secretaria Especial do Esporte - Mundial de Baku
Aviso: este é um artigo de mera opinião. Logo, ele foge um pouco da lógica que consiste em apresentar fontes para as “grandes” afirmações, como faço por aqui. Você é bem-vindo(a) para pedir alguma fonte para alguma afirmação se quise ou precisar e eu farei o possível para apresentá-la(s) a você.

Falar em “Justiça” é sempre complicado. Quem estuda Direito, então, pode lhe apresentar mil teses sobre “o real significado de ‘Justiça’”. Todas elas postulando, é óbvio, que sabem “a verdadeira verdade”.

Para uns, “Justiça” é fazer com que a Lei seja aplicada cegamente, doa a quem doer. É evidente, para mim e tantos outros, que esta concepção ignora a complexidade do mundo real e das circunstâncias que nele se desdobram, gerando, fatal e inexoravelmente, injustiça.

Para outros, “Justiça” é proteger o mais fraco em detrimento do mais forte. Por mais romântica quanto essa ideia possa soar, é evidente – com base em fatos históricos, inclusive – que sociedade nenhuma pode prevalecer se as “regras do jogo” são sempre subjetivas e os direitos e obrigações dependem majoritariamente da “hipo” ou “hipersuficiência” das partes envolvidas.

Batido conceito em todo santo semestre da faculdade de Direito, lá vem Aristóteles definir o que é “Justiça”. E, frequentemente, sumarizam seu pensamento (que é mais complexo e mais profundo do que uma frase) assim: “Justiça é tratar os iguais igualmente; e os desiguais desigualmente, na medida de suas desigualdades”.
Este último conceito é o mais aceito como a definição “contemporânea” (bem antiga, por sinal) de “Justiça” e é por este e outros motivos que o Direito do Trabalho – só por exemplo – tem o preceito basilar de “hipossuficiência do empregado” ante ao empregador; regra que, claro, comporta exceções.

Daí, aquele(a) mais espertinho(a) em pesquisa na internê corre lá na Constituição e se apressa em compartilhar que assim diz o art. 5º da Lei Maior: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza(…)”.
E truca…
E perde…

O problema de uma Lei que não foi escrita para ser acessível a todos é que a hermenêutica jurídica (palavra bem bonita/mala para “interpretação da Lei”) não permite a leitura de um artigo “solto”, sem compreender o sistema em que este artigo está imerso.

Logo, nenhum direito é absoluto. Nenhuma regra é concêntrica (ou seja, sem exceções). Nenhuma decisão é irreversível (não sem vários meios de questioná-la e mesmo depois de “sentença que transitou em julgado”, o Direito ainda prevê mecanismos onde se admite revisitar tema já encerrado. [Nesses temas, o Direito corrente costuma falar sobre “Ampla defesa”, “Contraditório” e “Devido processo legal”, caso você deseje saber mais).

Mas, claro: isso são as exceções já que, como dito anteriormente, a sociedade não poderia viver com regras absolutamente subjetivas e que mudam ao gosto do freguês (a isto o Direito dá o nome de “insegurança jurídica”, condição danosa à sociedade e à economia de qualquer nação). Pior do que uma regra ruim é a regra que ora se aplica, ora não, a depender de condições completamente imprevisíveis.

E, depois de tudo isso, é bastante importante esclarecer que advogados não lutam primariamente por “Justiça”. É claro: se você já viu a entrevista de um advogado após, digamos, a inocência de seu cliente ser corroborada em juízo, ele sempre dirá “o que se fez aqui foi justiça!”, ou coisa que o valha.
MAS… Mas, advogados realmente lutam por direitos. E direitos nem sempre são justos.

E “Justiça” não se confunde com “Direito”. O dono de um terreno de vários quarteirões tem o direito de reaver o imóvel ocupado por dezenas de famílias carentes (em regra; portanto, há exceções). E isto nem sempre será justo, já que a propriedade deve atender à sua função social, conforme preceitua o inciso XXIII do mesmo art. 5º, da mesma Constituição Federal (que também não se pode ler de forma não-sistemática). Por outro lado, um cidadão com apenas um terreno pequeno, morando de aluguel em outra cidade, a trabalho, pode se ver em um processo que consumirá muito tempo e muito dinheiro para reaver um imóvel invadido por espertalhões ou mesmo criminosos. Novamente, a realidade supera em muito a capacidade de criar hipóteses e em cada uma delas descobriremos que nem sempre o que é certo é legal, nem o que é legal é certo. Essa divisão costuma mexer com a cabeça dos futuros advogados. É uma relação conflituosa desde que os ideais se chocam com a necessidade de pagar boletos (“boletos”, sim, porque sou cringe e ninguém os paga por mim).

Se entrarmos em um clássico terreno de desavenças entre jusnaturalistas (que seguem muito aos “contratualistas”, como Locke e Hobbes, mas especialmente a Rousseau) e juspositivismo (muito ligados à Teoria Pura do Direito, de Hans Kelsen), teremos todo um complexo tabuleiro de ideias para destrinchar. Chegaríamos aos extremos de que uma Lei, ainda que legitimamente erigida, deve ser sumariamente desrespeitada caso não seja “justa” (com toda a complexidade e inexatidão que cabe nessa palavra). Do outro lado, veríamos que se a Lei lhe permite fazer mal ou, simplesmente, não impedir que o mal ocorra, ainda assim, você será justo ao fazer o mal ou deixar de impedí-lo).

Por que toda essa ladainha?

Bem, porque Maria Portela, atleta olímpica do JuDo (são duas palavras/ideogramas[kanji]: “Do” = Caminho/Escola; “Ju” = Suavidade/Gentileza) brasileiro na categoria até 70kg, sofreu um assalto. Para facilitar, vou seguir com a grafia em português que é “Judô” .
E, já que iniciamos falando em Direito, vale compartilhar que não existe o crime de “assalto”. Os crimes contra o patrimônio, vistos no código penal são, geralmente, o furto (quando o objeto é subtraído sem violência ou grave ameaça) no art. 155, ou o roubo (quando o objeto é subtraído mediante violência ou grave ameaça), no art. 157. Há outros, claro.

“Assalto” é um conceito quanto à forma de agir. “Tropas de assalto” não são tropas militares criminosas, mas tropas com técnicas de assalto o que, basicamente, significa “pegar o adversário de surpresa”.
Afirmar que os árbitros do dia 28 de julho (no Japão) “roubaram” Portela poderia me levar a responder por outro crime, o de Calúnia (quando se imputa fato típico [crime] contra alguém, falsamente), art. 138 do CP. Claro: ninguém vai ser processado por chamar o árbitro de futebol (ou de qualquer esporte) de “juiz ladrão” … A Lei ainda não é tão frívola. Ainda.

Mas, se eu disser que “roubaram” a Portela, estarei também dizendo que houve uma intenção danosa, uma vontade de cometer o mal à atleta. E é muito difícil afirmar isso, exceto em casos notórios e igualmente infames de árbitros que aceitaram algum tipo de vantagem ou promessa benéfica em troca de um favorecimento indevido aos mandantes (o que, basicamente, caracteriza a corrupção passiva; mas esta figura típica se destina ao agente público, havendo diploma para tratar do caso entre CNPJs… Outro dia, outro post).

“Assalto” parece mais correto. Portela fazia uma luta difícil, mas dentro de uma certa normalidade e, de repente, de assalto, foi duplamente punida pela arbitragem (em momentos distintos da luta) que se desviou do que era esperado por milhares de espectadores (uma pesquisa feita por uma atleta da modalidade resultou em 97% de participantes opinando que houve waza-ari [explico o termo depois]). Daí, podemos dizer que ocorreu “insegurança jurídica” no mundo do Judô; claro, abusando agressivamente das analogias entre as áreas.

Talvez eu devesse ter feito isso antes, mas faço agora: fui judoKa (neste contexto, “Ka” = praticante. Mas, seguirei com a forma aportuguesada, “judoca”) no início da vida adulta, por três anos, aproximadamente. Ainda amo o Judô, mas não o prático mais por N circunstâncias da vida, incluindo carreira, obesidade, problemas, outros sonhos que pediram passagem, e por aí vai.

Não tive a oportunidade de iniciar cedo no Judô, como ocorre com a maioria dos que praticam a arte. Não morava em um local que permitisse isto (a academia mais próxima devia ser na Penha, a Associação de Judô Messias, local tradicional, conhecido por quase todos os judocas de SP; e eu morava na Cidade Líder/Itaquera); nem meus pais tinham as condições para manter esse tipo de atividade extracurricular nas agendas de meu irmão e nas minhas (se um tem, o outro também tem que ter – essa era a Lei [de casa]).

Mais que isso: você geralmente gosta mais daquilo que conhece e é exposto. Daí a importância de incentivar seu(sua) filho(a) a ler, primeiro pelo exemplo (leia para ele, tenha livros por perto, na mesa do escritório ou da sala, mesmo cometendo o sacrilégio de não lê-los). No início da década de 90 não existia exposição a outra coisa que não o futebol. TV a cabo? Você está louco(a). Internet? Quase dez anos adiantado(a)… E eu não gostava de futebol. Então, os esportes demoraram um pouco para entrar nas minhas paixões e, até hoje, o futebol é a menor prioridade na lista que inclui várias modalidades como futebol americano, natação, vôlei (pelo qual tenho enorme carinho, mas fica para outro dia) e, claro, o Judô.

Suponho que ainda que meus pais tirassem recursos de onde não tinham para me pôr, digamos, no Judô (ou qualquer coisa diferente do trivial), o provável é que eu desanimasse e perdesse o interesse por não ter o nível necessário de incentivo ao meu redor. Nenhum primo com quem eu convivia fazia; nenhum amigo da escola (todos tão pobres ou ainda mais pobres do que eu). Esse ambiente é excelente para desistência de qualquer criança, em qualquer atividade. Elas já desistem de estudar o que são obrigadas a estudar (novamente, muito pelo que recebem de incentivo no meio em que vivem). Imagine algo que não é mandatório.

Com a vida adulta, o primeiro emprego formal e um pouco mais de constância, o Judô foi um lugar encantador num passado um tanto quanto turbulento com minha depressão, alguns sintomas de síndrome do pânico e caos por todos os lados da vida. Sou eternamente grato ao Senpai ( = aluno mais experiente) Fernando de Bem, e ao Sensei Roberto Forte Katchborian e, claro, todos os demais Senpais e Kohais ( = o oposto de “Senpai”), pois, sem eles todos, eu jamais poderia amar o Judô.

Em específico, agradeço ao Fernando por me convencer a assistir ao primeiro treino, me oferecer o DoGi ( “Gi” = uniforme. O nome completo seria “judo-gi” [ou karatedo-gi, se for um traje para Karatê, e assim vai…]) emprestado. E, até hoje, a “minha” faixa branca não é minha, mas dele, emprestada também. Se é emprestada, Fernando, significa que ainda é e sempre será sua. Peça de volta quando quiser, pois uma faixa carrega muitas histórias. O desgaste dela nos lembra das horas no tatame e de toda dificuldade para alcançar o próximo Kyu (= “grau de iniciantes”), até chegar no 1º Dan (faixa preta, com “Dan” também significando “grau de perícia”), momento em que, dizem os judocas, “o Judô começa, de fato”.

Depois, agradeço ao Sensei Katchborian por tantas lições, aperfeiçoamentos, bondade, sabedoria, sensibilidade e mentoria. Um verdadeiro mestre adequa sua forma de ensinar ao ritmo, possibilidade e dificuldade de cada aluno e não acredita em fórmulas mágicas ou em “ensino quadrado”, tentando empurrar o conhecimento de qualquer maneira. Espero, quem sabe, ainda poder voltar a treinar com meu mestre e concluir a formação básica. Depois da faixa branca, cinza, azul, amarela e laranja alcançadas, ainda faltam três Kyus (concluir a transição para a verde [que havia iniciado, mas parei] o que leva um ano, normalmente; depois, estar em nível com a roxa, o que pode levar dois anos; e por fim, alcançar a faixa marrom, onde o judoca fica, em média, três anos antes de se avaliar o preparo deste para tentar obter o Dan; contudo, este é o caso geral e cada caso concreto é único). Só então estarei pronto para pleitear meu primeiro Dan.

Com Sensei Katchborian também aprendi sobre os três grandes pilares do Judô:

  • 1) Seiryoku Zen’Yo; tudo o que fazemos (no Judô e na vida) deve visar a máxima eficiência. Derrubar um adversário que pesa 100kg é sempre difícil. Faça da forma mais eficiente possível. Ao lidar com um problema na sua vida, resolva-o da forma mais racional e efetiva possível. É uma filosofia de vida e, por ser assim, é algo que o judoca persegue a vida toda, sempre imperfeitamente, mas sempre passível de se aperfeiçoar.
  • 2) Jita-Kyouei; Meu treino e minha luta só são bons na medida em que são bons para o aprimoramento de meu adversário e colega de treino. A solidariedade humana importa ao judoca que leva o Judô a sério.
  • 3) Ju; a suavidade que o Judô prega nada tem a ver com a ausência de esforço. Mas, sim, com os movimentos mais eficientes quanto possível para vencer o adversário. Às vezes vencemos ao ceder a uma força maior que a nossa e não ao nos opormos a ela (oposição que nos levaria à derrota, provavelmente).

Sem os Senpais e Kohais simplesmente não há treino, já que não é possível treinar Judô sozinho. Você até pode fazer algumas partes do treino individualmente, mas a parte em que realmente aprende é a parte em que enfrenta os adversários que o ajudam a ser melhor, como você os ajuda também.

E, mais uma vez, você se pergunta: “Onde diabos esse texto está querendo chegar?”. É uma pergunta justa. Eu tinha duas missões até aqui: 1) Compartilhar como o Judô se organiza e alguns conceitos básicos da arte, para que o texto tenha alguma valia para quem se dedicou a lê-lo; 2) mostrar que não estou falando de algo cuja ignorância não permitiria ver um palmo à frente (já que não cito fontes até aqui, você precisa confiar que eu sei sobre o que falo; e isso é sempre perigoso).

De volta a Portela

Maria de Lourdes Mazzoleni Portela, nascida em 14 de janeiro de 1988, em Júlio de Castilhos, Rio Grande do Sul, é uma judoca com trinta e três anos e meio, formada pela tradicionalíssima SOGIPA (Sociedade de Ginástica de Porto Alegre) que manteve em seus quadros os nomes que ficariam conhecidos no Judô mundial, inclusive revelando alguns deles, como João Derly (bicampeão mundial [2005 e 2007]; campeão pan-americano [2007]) e Tiago Camilo (campeão mundial [2007]; tricampeão pan-americano[2007, 2011, 2015]; duas medalhas olímpicas [prata em Sidney/2000 e bronze em Beijing/2008]).

Atualmente, conta com Mayra Aguiar (bicampeã mundial[2014 e 2017] mais cinco medalhas mundiais [prata/2010, bronze/2011, prata(equipes) e bronze/2013, bronze/2019]; campeã pan-americana [2019] e mais três medalhas [prata/2007, bronze/2011 e prata/2015]; e que acaba de conquistar o terceiro bronze olímpico, agora em Tóquio/2020 [os outros dois em Londres/2012 e Rio/2016], sendo a primeira mulher brasileira com três participações com medalha em esporte individual, em olimpíadas), Érika Miranda (três pratas em mundiais [2013/2013 {equipes}/2017] e quatro bronzes [2014, 2015, 2017, 2018]; além de campeã pan-americana em 2015 e outras duas pratas [2007, 2011]), Felipe Kitadai (bronze olímpico em Londres/2012; prata no mundial 2011; campeão pan-americano em 2011 e prata em 2015)…

…e, claro, Portela (duas vezes medalhista mundial [prata/2017 e bronze/2019] e duas medalhas no Pan-americano [bronze em 2011 e 2015]), filha da casa.

Conhecida na seleção nacional de Judô pela alcunha de “raçudinha”, Portela é um verdadeiro tanque de guerra em forma de judoca. Assistir suas lutas é ver um espírito combativo muito alto. Ela raramente se cansa antes do golden score (prorrogação) e busca o combate o tempo todo, até quando poderia simplesmente administrar a vantagem.

Mas, no dia de 28 de julho, em Tóquio, Portela seria desclassificada por excesso de shidos (faltas, cuja terceira gera a desclassificação do(a) atleta) após quatro minutos do tempo regular e quase onze minutos de golden score (prorrogação em que o primeiro atleta a marcar, vence. Não há limite máximo de tempo).

A desclassificação por shido, em si, não é polêmica, acontecendo com regularidade nas competições, com maior ou menor frequência, a depender do espírito da arbitragem naquela competição. Esse espírito se altera para mais rigor ou menos rigor, conforme a crítica especializada e leiga comenta os últimos torneios. A IJF (International Judo Federation) está sempre tentando tornar o Judô mais atrativo ao grande público. Na minha nem tão modesta opinião, às vezes, às custas da alma do Judô; como quando baniu alguns golpes que compunham o Go Kyo (os quarenta golpes fundamentais do Judô, criados e esquematizados por seu fundador, Sensei Jigoro Kano, em 1882).

Entre as evoluções (lembrando que “evolução” não é sinônimo de “melhora” [pergunte para alguém que evolui a óbito; ou melhor… Tente perguntar…]), eliminou-se as notas “Koka” e, mais recentemente, “Yuko”. O atual sistema de notas é composto por apenas dois critérios: Ippon (o golpe perfeito, que termina o combate imediatamente) e Waza-ari (um “Ippon imperfeito”. Dois waza-aris encerram o combate). O tempo regular de combate caiu de 5 para 4 minutos e shidos não desempatam mais as lutas (embora possam eliminar o adversário, como aconteceu com Portela). Tudo para tentar tornar a luta mais dinâmica e mais “viva” para o público em geral.

Portanto, ninguém “dá Ippon” em ninguém. Ippon é uma pontuação que depende da perfeição com que um golpe é aplicado. Assim como Waza-ari também não é um golpe, mas sua pontuação (e que se pronuncia como “uazaari” e não “vazari”, como lamentavelmente todo narrador e até judocas dizem por aí). Até existe um golpe chamado de “ippon seoi nage”, mas quando judocas abreviam o golpe, se referem a ele como “seoi nage”. Então, de agora em diante não diga “ele deu ippon”. Pode dizer, porém, que “ele(a) jogou o adversário de ippon” (analogamente a quando dizemos que alguém fez um gol “de placa”); porque a projeção efetuada se deu com perfeição e gerou um ponto perfeito, o ippon. Ippon e waza-ari adjetivam o golpe realizado. Não são golpes em si.

Abaixo, o nome dos golpes incluídos no Go Kyo (há mais golpes, esses são os principais para projeção [nage waza]. Há, ainda toda uma parte de solo/imobilização [ne waza] e toda a parte de chaves [kansetu waza] e estrangulamentos [shime waza]):

direitos de imagem: https://commons.m.wikimedia.org/wiki/File:Gokyo-no-waza.jpg

Então, onde reside a polêmica que leva Portela a ter sido “assaltada”?

Portela fez uma luta boa. Mas sua adversária, Madina Tamaizova do Comitê Olímpico Russo (ROC) – já que a Rússia está punida pelos escândalos de dopping e não pode atuar nos jogos olímpicos com a bandeira nacional – também foi sobrenatural. Na realidade, conforme a história do dia 28 se desenvolve, o brasileiro que entende de Judô passa de ódio para perplexidade, terminando até mesmo em admiração pela capacidade de superar a dor que Tamaizova demonstrou. MAS, vamos devagar…

A luta entre Portela e Tamaizova era o round de 16 avos da final. Depois, obviamente, vinham as oitavas de final e assim por diante. Nos campeonatos atuais de Judô, não há “fase de grupos” … Você entra e se perder, está fora. Fim de papo. A repescagem surge nas quartas de final e o Judô geralmente premia quatro medalhas, sendo um ouro, uma prata e dois bronzes (os perdedores das semifinais enfrentam os vencedores da repescagem, pelos dois bronzes à mesa).

A primeira luta de Portela foi contra a afegã do time de refugiados, Nigara Shaheen (que não consta no ranking IJF em suas primeiras cem posições), e foi vencida em altíssima velocidade pela brasileira que ocupava a nona posição no ranking mundial da IJF para mulheres até 70kg, sua categoria e a categoria do dia nas Olimpíadas de Tóquio. Um belíssimo sode-tsurikomi-goshi foi aplicado com apenas 28 segundos de luta. Golpe muito plástico e de execução perfeita por Portela. Ippon. Fim de combate.

Do lado da Tamaizova, naquele momento, décima segunda do ranking IJF, a russa enfrentaria, na primeira luta, Maria Bernabeu, espanhola, décima oitava do ranking IJF naquele momento. A luta foi vencida por um soto-makikomi imperfeitamente executado, que resultou em um waza-ari para a russa ao primeiro minuto e sete segundos, e a luta durou os quatro minutos típicos e previstos.

É evidente que enfrentar uma refugiada que não treina regularmente é comparativamente mais fácil do que enfrentar a décima oitava da categoria na IJF, embora o ranking tenha uma série de imperfeições em seu sistema de ranqueamento, mas não cabe discutir isto por aqui, agora.

Então, chega a luta fatídica: Portela e Tamaizova. Trinta e três anos e meio do lado brasileiro, vinte e dois anos do lado russo. 1,58m do nosso lado, 1,69m do lado adversário. Ambas no limite da marca de 70kg (embora a realidade não seja bem essa).
O arbitro foi o Sensei (todo arbitro de Judô também é judoca) Everardo Garcia, do México. Não tenho os dados dos árbitros no VAR/banca.

E a luta foi assustadora. Quatorze minutos e cinquenta e oito segundos de duração. Basicamente, três lutas em uma.

Nos primeiros quatro minutos nada de realmente grande ocorreu, mas, já era visível que os trinta e três anos de Portela lhe rendiam mais astúcia e controle na luta contra a novata de vinte e dois anos. Portela teve, certamente, mais volume de luta. Tanto que o primeiro shido (punição) saiu aos 4m35s para a russa, por evitar a pegada (o que é um “antijogo”). Porém, cinco segundos depois, o mesmo shido foi dado a Portela. Nesse tempo, já estávamos em golden score. O primeiro ponto, waza-ari ou ippon, encerraria o combate, portanto.

O polêmico golpe não concedido à Portela foi desferido aos 3m02s do golden score (portanto, 7m02s no total); um eri-seoi-nage, imperfeito, já que as costas da russa não atingiram totalmente o chão, mas ela acertou o tatame de um ombro ao outro (rotacionando a omoplata contra o solo) e em alta velocidade. O arbitro não concedeu o waza-ari à brasileira, emitindo o comando de “mate” (que interrompe o combate) e acionou o VAR para revisão. Após quase um minuto, o waza-ari seguiu não concedido.

O que diferencia um waza-ari de um ippon?

Talvez, aqui, caiba uma pequena pausa para classificar ippon e waza-ari, quanto a pontuação de um golpe.

Conforme preceitua o documento “IJF Sport and Organisation Rules (SOR, Version 8 October 2019)”, um ippon é a aplicação perfeita de um golpe de Judô. Essa perfeita aplicação requer quatro critérios: a) Força; b) Velocidade; c) Queda do adversário sobre as próprias costas; d) Controle habilidoso sobre a queda do adversário até o contato deste com o chão.

Portanto, o arbitro avalia o domínio da técnica pelo Tori (quem arremessa), e controle da queda sobre o Uke (aquele que cai), fazendo com que este último atinja o solo com as costas “chapadas” contra o tatame, de maneira completa. A velocidade e a fluidez do golpe também importam.

Já um waza-ari é um golpe em que algum dos quatro elementos (ou até mais de um), acima, está incompleto. O controle da queda não era pleno, as costas não atingiram o chão completamente, não houve velocidade suficiente, e por aí vai.
Para mais detalhes, consultar páginas 116 a 118 do referido manual (em inglês, no site da IJF).

Voltando ao combate

Portela projeta Tamaizova através de um sode-tsurikomi-goshi a 3m02s do golden score. A atleta cai com o ombro direito e depois rola até o esquerdo. As definições típicas de um waza-ari estão caracterizadas, na minha opinião, opinião inclusive embasada nas descrições do documento da IJF. A atleta russa chega, ainda, a usar – intencionalmente ou não – o pescoço durante a queda; algo que, se realmente caracterizado, acarreta a desclassificação (“hansokumake”) da atleta russa pelo perigo à coluna dela mesma. Se não entende o porquê de uma desclassificação se o perigo seria para ela mesma, é só lembrar do segundo princípio do Judô, o Jita-Kyouei.

E não se enganem porque eu não me engano: em conversa com amigos, eu já havia dito que não acreditava em medalha de ouro para Portela. Especificamente, eu disse a eles: “Portela tem poucas chances reais de lutar por prata/ouro, mas o bronze não é impossível. A luta dela é a oitava no tatame feminino. As favoritas do 70kg são Van Djike(HOL) e Pinot (FRA), com Arai (JAP) correndo por fora. A Portela pega uma afegã do time de refugiados, e é esperado que ela vença essa, ao menos”.

Então, não: nunca achei que Portela seria ouro em Tóquio. Aliás, eu acho até que demandar o bronze dela, ou de qualquer atleta, é um defeito por parte de quem assiste a uma competição olímpica (“demandar” é diferente de “achar possível”).

Uma olímpiada tem um complexo ranqueamento para a qualificação do atleta aos jogos, logo, ninguém ali é muito fraco. Claro que há o time de refugiados, o país sem qualquer tradição na modalidade, etc., etc., etc…. Mas, mesmo assim, quando olhamos, por exemplo, um brasileiro em décimo lugar numa lista de dez competidores olímpicos, é ignorância reduzir o pensamento a “ele(a) ficou em último(a)” . No ranking olímpico, sim. No ranking do mundo, absolutamente não. Porque onde ele(a) se classificou, centenas e até milhares não conseguiram.

Em modalidades como a natação, por exemplo, muitas vezes a diferença entre o ouro e o sexto lugar, digamos, está na casa dos centésimos de segundo. O medalhista de ouro, na categoria masculina, Caeleb Dressel (EUA), fez os 100m nado livre em 47s02c, e o sexto lugar, Alessandro Miressi (ITA), fez em 47s86c… Mesmo do primeiro para o último colocado na final, a diferença foi de um segundo e oito centésimos. Isso mesmo. O tempo que você levou para ler a última frase é o que separa o campeão e aquele que você, talvez, considere um perdedor.

É claro que atleta nenhum sai de casa, rumo a uma olímpiada, desejando ficar fora do pódio. Mas estar lá já o credencia a dizer que ele pertence à elite esportiva mundial. Você concordando com isso ou não.

Mas, o que realmente frustra no caso Portela é a ambiguidade. A “insegurança jurídica” é o que corrói. Eu consigo apontar N quedas muito similares, senão menos características do que aquela, e demonstrar que as comissões de arbitragem declararam o waza-ari.

Mais do que isso: se a atleta russa defendeu a queda usando o pescoço para evitar o rolamento sobre a omoplata (o que seria waza-ari), então, ela deveria ser imediatamente desclassificada via hansokumake. E se não usou o pescoço, então o que DIABOS ela fez para bater o ombro direito e não rolar as costas inteiras até o esquerdo? Qual mágico movimento ela pode ter performado que não envolveu a ponte com o pescoço ou o rolamento por sobre toda a omoplata?

Leandro Guilheiro, que ainda atua na preparação dos atletas do Judô brasileiro alegou que, em apuração com um membro do comitê de arbitragem, seu contato disse que é pacificado que aquela queda não deve ser pontuada. E, novamente, não se enganem: o Judô de alto nível, como quase tudo que fica grande e mundial, tem muita politicagem. É muito difícil que um arbitro oficial acuse outro arbitro oficial de equívoco no julgamento. Qualquer semelhança com o judiciário brasileiro é mera coincidência.

O que resta?

Não resta nada. O estrago foi feito. As entidades desportivas brasileiras se acovardaram ao não tomar uma posição propositiva em prol da atleta; como sempre fizeram e como sempre farão, de seu patamar e postura sempre servis, sempre subalternos.

Eu me recuso a reprisar as imagens do choro comovente de Portela. Ela sofreu como sofre a vitima de um crime. E foi um crime. Não em sentido estrito, claro. Mas em um sentido emocional. Humano. Ético, por que não?

A história de TODO atleta – do nosso lado e do lado de lá – envolve muito sacrifício, escolhas difíceis, quase sempre muita dor. Em esportes como o Judô, as lesões são ingratas companheiras na jornada, quase sempre certas numa longeva carreira.

Esporte pode até ser sinônimo de saúde. Não o esporte de alto rendimento, contudo. Não há nada de saudável no esporte de alto nível e não acredite em quem diz que há.

O dopping é uma das faces do “melhoramento humano” que o esporte de alto nível pode incentivar (especialmente, quando a medalha é tudo o que importa para uma dada cultura desportiva, pressões por resultados, dos torcedores, dos patrocinadores, do Estado [como no caso russo]).

Outra face são as lesões que deixam marcas permanentes (de dor na aposentadoria, de mobilidade reduzida), os tratamentos paliativos para um(a) atleta lesionado(a) seguir atuando, quando ele(a) deveria se retirar da ativa, tratar a lesão por meses, e não simplesmente seguir convivendo com a dor atenuada, meses a fio, piorando a lesão no longo prazo.

No Judô, como em toda modalidade de combate, é comum que o atleta use medicação para induzir a diurese e até diarreia antes da pesagem. O atleta pesa, digamos, 76kg… E perde quatro, seis, oito quilos de água e nutrientes antes da pesagem para entrar na categoria inferior. Depois, corre para se hidratar até a luta. Chame isso do que quiser. Menos de “saudável”.

E, depois de uma vida de preparação e dos esforços focados no ciclo olímpico – quatro anos de muito esforço, muita dor, muitas restrições, derrotas, vitórias, viagens… – a atleta Portela chegou até o momento de ver a redenção de sua cruz pessoal como atleta de alta performance.

Chegou até o momento, mas, viu o momento lhe ser tirado das mãos por fatores que, por decoro, chamarei de “caprichos de interpretação”.

O choro de Portela não foi por perder aquela luta, garanto. Foi, sim, por ver o sonho de uma vida ser arrancado de suas mãos sem que ela tivesse merecido a punição que lhe foi aplicada. A punição de um ponto não atribuído. A punição de, depois de praticamente quinze minutos, ser desclassificada por “falta de combatividade”. Um absurdo, por qualquer ângulo, para qualquer um que assistiu a mesma luta que eu assisti.

Tamaizova não é culpada de nada, até que se prove o contrário. Como eu disse, ela também deve ter uma história de vida e de atletismo muito parecida, senão igual ao da nossa Portela. Mas, eu tenho convicção de que ela não mereceu a medalha que levou mais tarde (o bronze). E não por ela, em si. Mas porque não era ela que deveria ter passado de round. Bem… Se o mundo fosse justo…

Pior do que isso: toda vez que eu me lembrar de Tamaizova, toda vez que um vídeo da história olímpica de 2020/2021 for reprisado, nas semanas que antecedem a próxima olimpíada, eu serei lembrado do crime que Portela sofreu. Eu serei forçado a dizer “não, Tamaizova… Essa medalha não é sua. Não era no seu peito que ela deveria estar. Se deveria estar em algum lugar, era no peito de Portela, se é que ela não iria mais longe depois de lhe vencer”…

Deve doer demais. Nunca fui atleta profissional. Mas eu já tive sonhos arrancados de mim por motivos e forças que eu não tinha como lutar contra ou alterar. E sei como é um sentimento cruel que te persegue pelo tempo. Creio que você também já se sentiu assim, em algum ponto, ou agora mesmo. Creio que todos já se sentiram assim. Então, porque se solidarizar publicamente com Portela?

Porque Portela representa parte do espírito humano de superar desafios, superar a si mesmo(a), seguir, mesmo com dor. São valores caros, especialmente para os tempos que passamos. São valores que, não só, mas especialmente o esporte consegue cristalizar e ensinar.

Recuso-me aos chavões. Bobagens como “fulano(a) é um herói!”… Pura bobagem. “Herói” é palavra que reservo a quem faz algo realmente heroico, especialmente quando a vida está em jogo, ou outra coisa que valha quase tanto quanto. Atletas raramente são heróis só por serem atletas. Raríssimas vezes a palavra “herói” pode ser usada para alguém que, por vontade própria, decidiu competir e ganhar a vida através das competições desportivas.

Mas, Portela merece minha simpatia, me compadeço e entendo seu luto e sua dor, porque Portela é um símbolo que me lembra das vezes em que sonhei, em que dediquei bom tempo da minha vida a um propósito, com um custo (financeiro, material, emocional, temporal…) que só eu conheço, e isso foi tirado de mim sem que eu pudesse enfrentar aquilo em pé de igualdade. E eu lembro do sabor terrível de “injustiça” na boca. E consigo imaginar o gosto amargo que Portela teve de sentir, ali.

E, no fim, essa me parece a maior importância dos jogos olímpicos no mundo contemporâneo: ao mesmo tempo que os atletas representam a elite do preparo humano, do aperfeiçoamento da técnica, da precisão que beira ao maquinal… Eles também nos lembram da nossa humanidade, da nossa falibilidade, dos nossos limites e de que essa vida é dor, é superação, é choro… É tudo que o comercial ou o coach não nos conta… A vida é cíclica, como um ciclo olímpico. Tudo que começa, um dia acaba. Muitas e muitas vezes, sem direito a protestos de “justo” ou “injusto”, com toda a imprecisão que tais termos carregam, como já discutimos.

Com a idade que tem, Portela já é “velha”… Outra face muito cruel do esporte profissional. Além do que, as novas gerações já estão pedindo passagem e o esporte olímpico, como a vida, faz o novo substituir o velho com muita frequência… Mas, agora, torço MUITO para ver Portela em Paris 2024.

Não porque eu ache que com trinta e seis anos e tantos meses, em 2024, Portela estará mais pronta ou terá mais chances do que tinha nessa edição.

Mas, se Portela voltar à Paris, ela me lembrará de algo que as Olimpíadas e especialmente, o Judô, sempre tentam nos ensinar: a vida vai nos derrubar inúmeras vezes. A real questão é quantas vezes teremos forças para nos levantar do chão duro em que ela nos jogou. Inclusive, quanta força ainda temos, mesmo cientes de que ela sempre vence e sempre nos dá o último tombo.

Força, Portela! Por você. Por mim. Por todos que sabem o que é ter um sonho arrancado das mãos e ter que se levantar depois de um pesadelo que ocorre enquanto estamos de olhos abertos.

Força! Não só por você. Mas por todos nós que já caímos, ao menos uma vez, e que seguimos levantando enquanto der.