Créditos da imagem: Reuters / Kim Kyung-Hoon
Nota: Este texto foi escrito em 31 de julho, mas publicado em 1 de agosto de 2024.
O judô nos ajuda a entender que a preocupação é um desperdício de energia.
KANO, Jigoro.
Poxa, Kano-Sama… Fico sem graça de admitir, mas talvez seja o caso de eu devolver a minha faixa ao Katchborian-Sensei. Ela nem é tão graduada… Tá ali, no meio da lista dos kyus ( = faixas coloridas)… Mas eu não aprendi a parar de me preocupar ou, ao menos, a tratar as preocupações da vida como desperdício (e, portanto, ativamente evitá-las). Em qual dan (que é o grau da faixa preta) o senhor estimava que o Judô ensinaria isso ao judoka (“ka” ~= “praticante”)? Só pra eu ter uma noção do quão longe estou dessa iluminação…
Quem me acompanha mais de perto por aqui, sabe que sou apaixonado por olimpíadas. Claro que acompanho copa do mundo de futebol; nasci no Brasil, isso está no contrato social do país. Mas olímpiadas, eu tiro férias. Nada é mais importante dentre “as coisas sem importância” na minha vida, durante essas 3 semanas.
Cesare Pavese disse que toda a vida é política. Ele também é o dono da frase tão repetida por aí de que “política é a arte do possível”. Lembro de Pavese porque há quem não consiga tratar nada pelo seu valor de face. De outro modo, para algumas pessoas, tudo tem uma agenda oculta e, tendo, não se pode apreciar nada pelo que está imediatamente disponível no seu corpo de significados mais visível. Ainda, de outra forma, as olimpíadas, enquanto evento organizado e mantido por instituições privadas, atenderiam a interesses tais que sua função de superestrutura é evidente (numa classificação Marxista, importante para o argumento, porquanto se põe como teoria crítica da sociedade capitalista que teria fundado também os jogos e seus propósitos menos óbvios).
Não tô me fazendo entender? Vamos de novo: para muitas pessoas, todos os eventos que envolvem lucro financeiro têm apenas a função de enganar e distrair as massas enquanto os verdadeiros fenômenos de controle e submissão são ainda mais apertados contra os nossos lombos. Pão e circo na sua forma mais refinada, é o que é uma olímpiada. Se for em 4K então, vixe…
Então, como é que eu gosto de olímpiadas se a missão dos jogos é me enganar para a verdade da minha situação, sempre mais precária do que ontem? É simples: eu não compro a explicação que acabei de dar. Ou, melhor dizendo, eu não compro a parte em que ela faz dos jogos olímpicos algo a se detestar.
Oras, ninguém tem duvidas do poder do “Sportswashing”, tem? Alguém acha que os países árabes injetam caminhões de dinheiros em clubes de ligas europeias ou compram uma porção de jogadores que custam milhões de dólares mensais (eu disse “milhões de dólares… mensais…”) porque “amam muito ver futebol de alto nível”? Sério? Alguém acha que o Catar brigou para sediar a copa do mundo de futebol, por amar futebol? A seleção profissional do Catar não passou da fase de grupos e fez um mísero gol! Que amor pelo futebol é esse?
Mas aqui vem uma dualidade: Se as pessoas orquestrando esses eventos não amam os eventos que orquestram, as pessoas que participam da feitura deles (de forma direita ou indireta) e que assistem a eles, os amam. Eu amo, pelo menos. O que eu recebo do esporte é exatamente o que ele me dá, na hora em que me dá, sem efeitos anteriores ou ulteriores. A transação é imediata. Eu me irrito, eu comemoro, eu me emociono e eu vibro, no momento em que tudo está acontecendo. Não esqueço de nada do que vai mal antes e depois do evento. Não lembro de mais nada, durante.
Mas os esportes olímpicos têm algo a mais, para mim. Há algo inato do espírito olímpico e que me encanta. Em especial, a capacidade de transformar histórias comuns em “contos de fadas” esportivos. Geralmente, muito sofrimento e dedicação, sem recompensa certa, histórias iguais a da gata borralheira. Mas quem salva o atleta não é um príncipe, senão o próprio atleta e sua jornada até o topo do Olimpo (“olímpiada” vem daí, espero que saiba). Tem gente que vem “do nada” e brilha numa competição. Tem gente que faz parte de uma dinastia e continua a brilhar. Quem não tem tradição, posse, título ou nobreza e, ainda assim, escreve seu nome eternamente na história dos jogos e dos países que representaram. E quem vem para provar os motivos de sua fama e supremacia herdadas. Tem de tudo. É realmente representativo da vida real. É democrático, neste sentido.
Eu não faço a menor ideia de qual é o tamanho do judô no México, mas toda a vez que um (ou uma) mexicano(a) encostar no tema “judô + México”, terá de passar pelo nome de Prisca Awiti, primeira medalhista olímpica na categoria, conquistando a prata no mesmo dia em que esse texto foi escrito. Isso também é verdade para o/a brasileiro/a que encosta em “judô” e “Brasil”, mas aí, a lista é tanto quanto mais longa. O judô é o esporte mais vitorioso para o Brasil em toda a história dos jogos olímpicos modernos. De Chiaki Ishii em Munique, 1972, até William Lima e Larissa Pimenta [UPDATE: Beatriz Souza ganhou ouro e o time misto do Brasil foi bronze] em Paris2024, há gerações de atletas que não podem ser esquecidos pelo judoka brasileiro, consagrados no fogo dos jogos olímpicos, trazendo várias medalhas a cada edição da competição.
E como isso desemboca em “lei”? “Lei”? Pois é: “lei”. Foi o que coloquei no título, né? Tem que fazer algum sentido. Ou não. Mas prefiro que sim.
Hoje, acordei cedo. 6h da manhã. Deveria ter acordado mais cedo. A primeira luta de Rafael Macedo, judoka brasileiro na categoria até os 90 quilos, estava prevista para a sétima posição do programa que começou às 5h da manhã, hora de Brasilia. Só que eu não estava totalmente convencido das chances “de ir longe” que Rafael tinha, e eu tenho acordado cedo quase todos os dias então eu pensei “me desculpe, Macedo: se você fizer por merecer, terá todo meu apoio em sua segunda luta, a partir das 6h”.
E Macedo disse “ah é, seu gordo desgraçado?! Eu vou fazer você perder o dia inteiro comigo, pra você aprender a respeitar o meu esforço!”. Eu não tenho provas, mas fontes confiáveis me disseram que Macedo ficou extremamente motivado quando descobriu que um judoka amador e que não terminou o ciclo básico de masterização da arte, decidiu dormir ao invés de assistir a ele nas olimpíadas. Essa coisa de atleta tirar motivação de qualquer lugar… Incrível.
Preciso confessar que a pesagem em que Macedo luta não me emociona. Os 90 quilos começam a ter uma característica que acho muito irritante no judô contemporâneo, que é a tendencia a renunciar da técnica em prol do emprego da força bruta como meio de derrubar o oponente. Tudo que Jigoro Kano, criador do judô, disse para não fazer. Se engana, porém, quem vem com a explicação que “judô” quer dizer literalmente “caminho suave”. Essa interpretação é meio equivocada. Primeiro porque Jigoro Kano era um homem das ciências. Ele não acreditava em forças místicas e inexplicáveis, e ele entendia muito bem os princípios de alavanca que a física já havia consagrado, bem antes do seu tempo de vida. Portanto, Kano-Sensei sempre soube que ninguém tira 100 quilos do chão usando apenas a força do cosmos ou do ki, tampouco por meio da “suavidade”. O que Kano-Sensei se perguntava sempre é “como eu faço isso da forma mais eficiente quanto possível?”. Essa é a essência do judô.
O primeiro princípio do judô é o Senryoku Zen’Yo: máxima eficiência com o menor esforço. Os outros dois princípios do judô seriam o Jita Kyoei, ou “benefícios mútuos” (um treino ou uma luta só são bons para mim se forem bons para meu parceiro de treino) e o último, Ju, significando “gentileza” (uma preocupação que vinha do aspecto mais educador de Jigoro Kano, formado em educação física, e muito preocupado com os impactos do judô na formação dos alunos, para além dos tatames. Tem bem mais a ver com a conduta do judoka do que efetivamente com expectativas de “gentileza” durante os combates no treino [que chamamos de randori]).
A pesagem que mais gosto no masculino é 73kg. Também assisto com gosto (porque assistir, eu assisto tudo) o pessoal dos 66 e 81 e, geralmente, as lutas são muito boas. Mas, eu acho que a melhor combinação “força/agilidade” está mesmo nos 73 quilos. Para mulheres, as categorias que mais me animam são as de 57 e 63 quilos, pelos mesmíssimos motivos já expostos. Haverá lutas incríveis nos 70kg feminino? Claro. Lutas incríveis podem ocorrer em todas as pesagens (e ocorrem, por isso eu assisto a todas). A questão realmente é sobre as chances das grandes lutas acontecerem e de não acabar em algo em que os atletas são muito leves (e aí a luta é frenética, mas sem força para grandes golpes), ou muito pesados (e aí é só força, quase nenhuma velocidade, e o gás acaba no primeiro minuto de combate… Costuma ser entediante assistir).
Então, aqui estou eu, tentando falar de Macedo. O que houve com Macedo, afinal?
Bem, se você trabalhou o dia todo (lamento por você) e não teve chance de ver nada das Olímpiadas 2024 hoje, Rafael Macedo estava no caminho da final olímpica, tropeçou nas quartas-de-final, passou pela repescagem e foi disputar um dos bronzes (o judô-competição entrega 2 bronzes, uma prata e um ouro por categoria de pesagem). O caminho até a luta pelo bronze, que ocorreria perto das 12h30 (Brasília) foi incrível e Rafael não teve uma jornada fácil até lá. Mas, tampouco ele assistiu a isso tudo acontecer. Ele foi determinante no próprio sucesso, lutou muito, teve um volume de combate incrível e, ao final, chegaria à derradeira luta contra um representante dos donos da casa, Maxime-Gael Ngayap Hambou. Macedo, com 29 anos, segundo ciclo olímpico depois de Tokyo2020, enfrentaria um jovem de 23 anos, em seu primeiro ciclo olímpico. Macedo, que ocupava o 11º lugar no ranking IJF, com 3863 pontos conquistados, contra um Hambou, em 38º lugar, com 1870 pontos acumulados antes da luta.
“E para que serve saber as posições do ranking?”, você pode se perguntar. Ao que respondo: para nada. O ranking não luta por você. O ranking não garante absolutamente nada na luta à sua frente; no máximo, conta o que você já passou para estar ali. O ranking, aqui, demonstra como Macedo era (e é) mais experiente e mais calejado pelo judô-competição do que o jovem francês, em início de carreira profissional. Hambou, aliás, entrou na seleção francesa “de última hora”, por uma vaga que surgiu de forma inesperada.
Inesperado, também, foi o resultado da luta. No judô contemporâneo, a luta dura 4 minutos. Se ninguém pontuou nada, inicia-se o Golden Score. No judô atual, há dois pontos possíveis: o Ippon (o ponto perfeito, que encerra a luta imediatamente), e o Waza-ari (se lê uaza-ri, não é “vazari”. A língua é japonesa, não alemã – mas claro, você pode seguir falando errado; direito seu…). O Waza-ari é um “quase-Ippon” onde algum elemento previsto nas normas para a definição do ponto perfeito não foi atingido. Pode ser falta de força na projeção, pode ser que o atleta atingido não tenha caído da forma como a regra exige (geralmente de costas, ou se defendendo com a “ponte” feita usando o pescoço, ou com os dois cotovelos), ou quando há o rolamento de uma omoplata à outra… Pode ser que o judoka que aplicou o golpe não demonstre o total controle durante a queda, mas só parte dele. O golpe pode ocorrer em dois breves e consecutivos momentos e não de uma vez só… Enfim, há muito julgamento para explicar porquê um Waza-ari não chegou a Ippon. Mas você só precisa saber que o Ippon termina a luta instantaneamente, enquanto o Waza-ari mantém a luta em andamento. Exceto se houver um segundo Waza-ari (o que se converte em um Ippon), OU, se a luta está no golden score. Aí, qualquer pontuação encerra o combate.
Há uma terceira forma de uma luta de judô acabar e essa forma, acrescento, é a mais lamentável de todas para o esporte em si. Ocorre quando um dos atletas sofre três punições do corpo de árbitros. Essas punições são chamadas de “shidô”. E 3 shidô’s levam à desclassificação ou (hansoku-make). Algumas faltas são tão graves que você sofre a desclassificação imediatamente, sem passar pelos 2 shidô’s de aviso. Um soco na cara, por exemplo. Os shidô’s, por outro lado, ocorrem por motivos banais como falta de combatividade, falso-ataque (fingir o golpe sem fazer nada para realizá-lo de verdade), postura muito defensiva (evitar a pegada do adversário no seu judo-gi [o famoso – e impreciso – “kimono”]).
Bem, a luta entre Macedo e Hambou estava ótima (eu disse que, independentemente da pesagem, há lutas boas em todos os pesos, não disse?), e apesar da vantagem na envergadura (o francês sendo mais alto que o brasileiro), em dado momento, Hambou não tinha mais energia para enfrentar Macedo. O brasileiro estava dominando a luta aos 3m55s, há apenas 5 segundos do golden score, onde qualquer punição ou ponto encerraria a luta.
Aliás, ambos os atletas estavam empatados em shidô’s por falta de combatividade e postura muito defensiva (evitar a pegada). 2 para cada. O próximo shidô, para qualquer um, encerraria a luta.
Há 5 segundos, Rafael Macedo consegue uma projeção (o resultado ilusta este post), projeção que eu já vi outros juízes marcarem como waza-ari. Mas ainda era o tempo regulamentar, e faltavam 5 segundos, portanto, a luta continuaria. Porém, o arbitro, sr. Vyacheslav Pereteyko, não marcou a pontuação. No solo, faltando 5 segundos, Macedo caiu com o adversário em posição de vantagem, e começou o trabalho de solo, que chamamos genericamente de “ne-waza” (se lê “nê uaza”). Macedo estava perto de imobilizar o adversário, situação em que o juiz deve dar o comando de voz “osaekomi”, literalmente “imobilização”. Abre-se a contagem e, em 10 segundos de Osaekomi é concedido a nota de waza-ari a quem está imobilizando. 20 segundos é o fim do combate por Ippon em favor de quem aplicou a imobilização. Macedo estava perto do bronze. Muito perto.
Depois do triste primeiro ciclo em Tokyo2020, onde caiu na primeira luta, com poucos segundos de combate, Macedo ia ser medalhista olímpico. Mas, o comando de “mate” (parar) ao invés do “osaekomi”, emitido pelo arbitro, anunciava o pior.
Uma revisão começou a ser feita pela comissão de árbitros (além do sr. Pereteyko, o judô de alto rendimento também conta com algo similar ao VAR do futebol) e, de repente, o arbitro ordenou que os dois atletas se reposicionassem no tatame como que para o reinício da luta e, ato contínuo, sinalizou a desclassificação de Macedo.
Rafael Macedo ficou perplexo. Seu técnico, puto. Eu, idem. Estavam, de novo, me fazendo reviver o horror das cenas que fizeram Maria Portela passar. O sangue já sobe, só de lembrar do assalto a Portela. Macedo projetou Hambou em 3 ou 4 situações. Ok, nenhuma delas era um claríssimo Ippon, nem mesmo um Waza-ari inquestionável, mas, de novo, já vi atletas receberem pontuações como essas por golpes piores em execução. E por que isso importa? Porque se o arbitro tivesse aplicado os mesmos critérios que seus colegas de arbitragem haviam aplicado antes, inclusive na mesma Paris2024, Macedo não precisaria correr os mesmos riscos, nem ir tão longe para conseguir o bronze. Macedo poderia estar para sempre no pódio de Paris. Mas não esteve. E não tem mais como estar.
A decisão da arbitragem é uma lambança, até agora. Vá lá conferir enquanto a lambança segue, no site oficial das Olimpiadas de 2024. A desclassificação de Macedo segue explicada como “motivo indeterminado”. A razão disso, em parte, é que houve um conflito de entendimento entre o arbitro no tatame e os 2 árbitros da mesa. Um deles viu uma possível segurada na parte interna da manga do judo-gi. Isso é, em tese, proibido, pelas regras atuais do judô. Guarde essa informação. Outra possibilidade foi aventada pelos canais que cobriam o evento e suspeita-se que um movimento de imobilização feito no adversário, utilizando o joelho e os tornozelos ao redor do pescoço do imobilizado, movimento conhecido como “sankaku-jime” e popularizado como “triangulo”, teria sido feito por Macedo. Tal movimento é banido no judô por elevado risco de lesão à cervical da “vítima”. A imagem deste post mostra esse golpe aplicado, ainda válido, como explico a seguir.
Se você procurar o vídeo da luta, vai ver que Macedo realmente começa um sankaku-jime naqueles aflitivos 5 segundos antes do golden score, tentando achar uma chave de braço (kansetsu waza), ou ajudar na imobilização (só ele sabe o que pensou), mas ele não está buscando o estrangulamento (shime waza), até porque está na direção oposta a do adversário, ambos caídos no solo após a tentativa de projeção do brasileiro. O francês tenta se defender, sem sucesso, e, nessa hora, recolhe o braço que protegia o pescoço. Pescoço que segue sob “a trava” do sankaku-jime de Macedo. A ação, reflexa ou deliberada, é tomada pelo francês, não pelo brasileiro. Não importa. O resultado é catastrófico para o nosso atleta.
A desclassificação leva Macedo da incredulidade ao choro, rapidamente reprimido pelo atleta.
Há muita confusão, o técnico brasileiro segue sem entender, a transmissão da Globo, contando com 2 judokas (Tiago Camilo e Maria Suelen Altheman) não consegue chegar a consenso do que houve. Olham o replay, acham que foi a manga, acham que foi o sankaku… Enfim…
Na entrevista após a eliminação, visivelmente abalado, Macedo segue o protocolo fúnebre estabelecido entre atletas e imprensa: pede desculpas pelo fracasso, fala que Deus sabe a hora certa para tudo, diz que não entendeu o que houve, mas se resigna dizendo que os juízes sabem o porquê e devem estar certos.
A partir deste ponto da história, eu começo a encerrar esse post. O judô doutrina, quase religiosamente, seus atletas para não enfrentar as decisões de arbitragem. Os motivos são, basicamente 2: Primeiro, porque é absolutamente inútil. Uma expulsão desse tipo simplesmente não é revertida. Revisão de Ippon para Waza-ari e vice-versa, vá lá. Recontagem de shidô’s também. Mas “a justeza das decisões” nunca volta atrás por reclamação do atleta. Se o juiz viu “infração”, ninguém o demove do que viu, exceto se os outros 2 discordarem (o que é raro). É quase um dogma do judô, digamos. E o outro motivo é mais complexo: o judô é uma arte marcial de origem japonesa. Hierarquia e respeito a figuras de autoridade estão intrínsecas em todos os ensinamentos que a arte passa. Você agradece o senpai (seu colega, mais velho que você [e normalmente mais graduado]) por toda a sessão de treino, mesmo que você passe a aula inteira caindo para ele treinar os golpes dele. Você agradece o sensei por cada palavra, cada lição. Os juízes também são judokas, a maioria, aposentados da parte competitiva, mas ainda ativos no ensinamento da arte. Não se discute, ponto. “É a lei”…
E o problema está aí: Ao não discutir, o judô vem piorando enquanto competição, ano após ano. O judô enquanto produto, como todo desporto que preza por público para fazer dinheiro, passa por um processo de “otimização” para os paladares mais diversos. Gente que nunca vê judô, na Olimpíada, espera por aquele golpe lá, “o ippon”. Você já aprendeu aqui que ippon é o valor do golpe. É um “10” que acaba o combate na hora. Posso aplicar um tai otoshi que vale ippon, e posso aplicar o mesmo golpe que valerá waza-ari. Depende de como faço o golpe e depende de como meu oponente se defende dele. Mas não é disso que quero falar. Quero falar que nesse processo de dita “otimização”, a luta, a arte marcial, está tendo seus valores de origem retalhados.
Exemplo: Jigoro Kano propôs um sistema de 40 golpes iniciais, chamados “Go kyo”. Um desses golpes se chama “kata guruma”, um lindo golpe que envolve um movimento de quadril e uma alavanca com as mãos, suspendendo o adversário por trás das suas costas, quase formando uma cruz entre ele e você (que está de pé). Depois, você termina de projetar o adversário ao solo. Um golpe lindo, plástico, completamente fiel ao Senryoku Zen’Yo e, no entanto, atualmente proibido. Proibido porque, em algum momento no começo dos anos 2000, alguém achou por bem que era melhor proibir “as catadas de perna”. Estariam esses movimentos “desvirtuando o judô”. No entanto, um golpe perfeitamente valido e funcional, criado pelo fundador da arte marcial, hoje, não pode ser feito em competições. Pelo menos, não pode ser feito com a eficiência com que foi desenhado.
No Direito, o estudo da “intenção das leis” é palco de imenso debate e esforço. Há livros e mais livros, teses e mais teses, autores que dedicaram a vida ao conflito entre o que passava na cabeça do legislador e o que o texto da lei, de fato, permite, obriga ou veda. Esse estudo da lei passa por um campo muito importante que é o campo da “hermenêutica jurídica”, palavra bonita para “interpretação da lei”. Esse texto já vai batendo a casa das 6 páginas e eu não vou transformar isso num artigo científico, prometo, mas eu preciso que você entenda a minha frustração por completo, quando eu vejo que a hermenêutica das regras do judô acontece, hoje, da forma mais grosseira e danosa possível à arte marcial, aos atletas e ao esporte. A hermenêutica do judô vem sendo feita ao arrepio da leitura sistêmica do que é a arte marcial, quais são seus princípios e do que ela visa ser. Qual é o contrato social entre judô e judoka? O que o judô promete à sua sociedade (os praticantes da arte e, claro, seus espectadores) e o que ele pede em troca? O que ele permite, o que ele obriga e o que ele veda?
Nada disso… Nada disso que eu disse, acima, parece ser levado em conta quando alguém “escreve a lei do judô”, nem quando alguém aplica a “lei do judô”. Tudo parece isolado, desconexo e, por vezes, contraditório. Em muitos momentos, a regra do judô parece ser a entidade que mais odeia essa luta. É como se o regulamento de arbitragem do judô tivesse sido escrito pelo pior desafeto de Jigoro Kano. Alguém tão odioso ao fundador da arte, que sua única meta é destruir a criação do desafeto por completo.
Eu tenho certeza de que se eu for ler a regra, vou achar 2 ou 3 pontos que explicam como é IDIOTA a desclassificação de Macedo, do jeito e pelos motivos que se deu. “Ah, mas ele pôs a mão na parte de dentro”, ao que pergunto, com toda a sinceridade, “E DAÍ?”. E se você disser “mas está escrito que não pode” e achar que isso basta, você seria o pior tipo de advogado. E também seria o pior tipo de juiz. Não quero ofender, mas é como vejo.
Em Direito, sempre recorremos a exemplos e todo professor de hermenêutica vai usar o clássico exemplo do direito de ir e vir. O direito de ir e vir é tão sagrado que é constitucional (significando que é mais bem protegido). Está lá no art. 5º da CF/88. Quer dizer, então, que como vossa senhoria tem o direito constitucional de ir e vir, ninguém pode impedir seu carro de passar nas rodovias sem pagar pedágio, certo? Você sabe que não. O mesmo sagrado direito de ir vir permite que você arrombe a porta da minha casa, e com uma marreta, faça outro rombo no fundo do meu quintal, pois assim é mais fácil ir de uma rua a outra, sem ter que dobrar à esquina, correto? Claro que não, de novo…
Então, que diabos de direito de ir e vir, sagrado e constitucional é esse, que eu não posso usar ele a hora que quero e como quero? Mas, esse é exatamente o ponto de estudar uma faculdade de Direito. Ninguém vai lá pra ler a lei. Isso, qualquer um com internet pode fazer. A lei tem que ser interpretada. E a interpretação da lei faz ela ser boa ou ruim, bem aplicada ou mal aplicada. Tal interpretação não se desvencilha de uma leitura sistêmica e principiológica do arcabouço jurídico em que ela se insere. É preciso entender as antinomias aparentes entre leis e direitos em colisão, e saber como resolver esses conflitos e contradições. É preciso saber quando um princípio flexiona a lei para que ela deixe de ter a interpretação fria que o texto puro lhe concede, para se tornar algo muito maior, muito mais abrangente, muito mais poderoso do que as a palavras por si só. Ou, em outros casos, poderes menores, escopos menores, tudo ao contrário. Quem define se é um ou outro? O advogado. E o juiz. E o promotor. E todos os agentes e operadores da lei.
Esta, senhoras e senhores, é uma das belezas do Direito: ele é vivo, e nenhum caso é igual a outro. O primeiro conflito do aluno de Direito é aceitar que “direito” e “justiça” raramente são sinônimos, mas quando o são, é um dia especial. Às vezes, o direito de um é injusto com outro. Cabe aos operadores do Direito equacionarem em que ponto um direito deve ser cumprido, ainda que injusto, e em qual ponto um direito deve ser suprimido para se fazer justiça, ainda que se reduza o direito “em tese”/abstrato de alguém. Como no caso do exemplo de “ir e vir”.
E COMO DIABOS ISSO SE CONECTA COM A HISTÓRIA DE MACEDO, RODRIGO, SEU BIZONHO LAZARENTO!!!
Calma… Respira…
A resposta é: Não se conecta em nada.
TÔ ZUANDO… Se conecta em tudo, ô calabreso… Você não prestou atenção enquanto lia, não? Vou ser explicito, então: NÃO IMPORTA se a regra diz que o sankaku no pescoço é causa de desqualificação. Importa se o arbitro entende que:
- o aplicador da técnica visou, dolosamente, executar uma manobra proibida (lembre-se que quando o braço está entre pescoço e o “triângulo”, a técnica passa a ser aceita como meio de imobilizar ou buscar a chave de braço. Não se pode usá-la para estrangular o pescoço do coleguinha, somente).
- A técnica causou mal à saúde do atleta ou, ao menos, se o risco, ainda que em abstrato, estava lá por inteiro.
- A parcela de culpa do atleta “vítima” da técnica, na conversão de um movimento, até então legal, para um movimento proibido.
- O que a regra em abstrato (o texto da regra, frio e escrito muito antes da luta) tenta autorizar, obrigar ou prevenir? Qual é o “espírito” dessa lei, dentro dos valores do judô?
A mesma discussão vai para a suspeita de “gancho” na parte de dentro da manga do judo-gi. Mesmas perguntas. Acrescida de uma: no solo, durante uma imobilização, qual a vantagem prática ao atleta atacando de fazer o “guarda-chuva” nas mangas, sendo que isso não impede o atleta vítima da técnica de parar a imobilização? Qual é a vantagem indevida que o atleta, no chão, ganha com isso? Em pé, claro, eu sei que é vantajoso. Mas e no chão?
“Rodrigo, você é louco? Que arbitro de esporte vai analisar tudo isso para aplicar uma simples regra desportiva? E em segundos?!?!?!”
E aqui está o motivo da minha agonia. Ninguém entende o que é passar, no mínimo, 4 anos se preparando para apenas um dia de luta. Alguns só tem uma chance. Idade, lesões, politicagem, eventos da vida (ser pai, mãe, acidente de trânsito, tragédia na família, sei lá…). Eu não entendo o que é passar 4 anos me dedicando para apenas um dia em que todo meu sofrimento, todas as minhas renúncias, toda a minha raiva e dor poderão, quem sabe, se converter num momento de glória. Eu só tenho uma chance e ela depende, em muito, da justa aplicação das regras do jogo. Não, eu não faço a menor ideia do que isso significa. Do que é ter um sonho tão grandioso, que cobra tão caro, que obriga tantas privações, e que lhe é tomado porque “ninguém vai estudar para aplicar as regras do jeito certo”. Não tem recurso. Não tem segunda instância. Não tem a próxima luta. Tudo começa e termina ali. Um ippon não marcado (em vista da incerteza do que vem depois) ou marcado equivocadamente (fechando a luta de imediato), e acabou.
Ok, eu aceito que esporte não é lugar natural para justiça. Aceito que os atletas conhecem as regras antes da competição. Aceito que ele poderia ser mais cuidadoso, evitar qualquer chance de desclassificação. Aceito todos esses argumentos no caso em concreto. Nenhum deles, no entanto, afasta o elefante na sala e que segue sendo: o que as atuais regras do judô querem proteger? O atleta, a luta, a essência, o espetáculo, o negócio de entretenimento[…] O QUE? Eu fico tranquilo com o silêncio, porque eu sei que ninguém sabe responder. Nem as pessoas que supostamente escreveram a última revisão das regras, porque nenhuma delas está pensando sistemicamente na arte marcial – se estivesse, este texto não teria razões de ser. Eles só se preocupam com a forma final do judô, que é o “judo para a televisão”, aquele que dá dinheiro e garante patrocinadores. Exemplo: se a regra atual espantar talentos mirins que, frustrados depois de perder um campeonato por uma regra mal aplicada, abandonam o esporte, foda-se. O que importa é o espetáculo atrativo.
Se fazem isso por malicia ou estupidez, ou ambos, já me escapa.
Mas, Rafael Macedo, esteja onde estiver, eu quero que você saiba que não acordei cedo pra te ver lutar, mas fui dormir tarde para escrever esse texto por você. Eu tô cagando para o que diz o placar oficial dos jogos de Paris, até porque, até agora, ele diz que nem eles sabem porquê tiraram a medalha de bronze de você. Cedo ou tarde, vão vir com uma resposta pronta e que os blinda, mas já é tarde. A prova de que você foi lesado por uma aplicação acéfala de regras está para sempre lá. Tem print pra todo lado, e quem acompanha o esporte de perto não vai se esquecer dessa bizarra manipulação (culposa ou dolosa) dos resultados em Paris2024.
Meu senpai, que foi quem me apresentou ao judô, Fernando, me disse: “será que não rola uma medalha Pierre de Coubertin pro Macedo?”. A medalha em questão é a maior honraria que o Comitê Olímpico Internacional concede a alguém. Eu, honestamente, tenho até dúvidas se o caso de Macedo merece tanto. Não sei. Acho que é mais nossa revolta e menos o espírito olímpico. Comparativamente, nosso querido Vanderlei Cordeiro de Lima, agarrado por um louco nas Olimpíadas de Atenas, 2004, caiu e perdeu a liderança da prova, terminando em terceiro. Ao invés de se irritar, desistir, ou qualquer outra atitude compreensível, se levantou, mesmo com dores terríveis, e terminou a prova com um sorriso no rosto, de quem estava feliz de participar dos jogos, apesar dos diachos que a vida lhe impôs. Porém, cabendo a Coubertin para Macedo ou não, não posso me esquecer que isso envolve um comitê olímpico nacional e uma federação do desporto nacional sérios. COB e CBJ não são exemplos pra ninguém. Quanto mais, em brigar contra seus “superiores” internacionais, no caso, COI e IJF, por uma lesão tão complicada de provar, a um atleta de menor relevância como é o pobre Rafael Macedo, campeão de nada em Olimpiadas. Se fosse um Phelps do judô (neste caso, um Nomura ou um Riner), quem sabe. Mas não um Macedo.
Vai ver que, no fim, estavam certos os que acham que tudo é política, e que nada acontece sem uma agenda oculta.
Mas eu só quero mesmo que o Rafael Macedo saiba, de um judoka porcaria para um campeão olímpico: Eu sempre vou saber que Maria Portela era pra estar no pódio de Tokyo em 2020. E eu sempre vou saber que você deveria ser medalhista de bronze em 2024. De que isso vale? Nada. Mas é tudo que posso oferecer a quem me deu tantos sentimentos enquanto torci por vocês dois. Por favor, insistam, seja lá qual for o caminho de cada um. Portela já parou com as competições. O tempo passa, as lesões doem mais, e a vida não rebobina.
Observe cuidadosamente a si mesmo e sua situação, observe cuidadosamente os outros e observe cuidadosamente seu ambiente. Considere de forma completa. Aja decisivamente.
KANO, Jigoro.
É, Kano-Sama… Os judokas precisam voltar a aprender com o senhor. Todos eles, em todos os níveis e de todas as entidades ligadas ao tesouro com o qual o senhor nos brindou. Se verdadeiramente gostarem do judô, é claro…
ATUALIZAÇÃO: Embora o texto tenha sido escrito ontem (31 de julho), ficou tarde para revisar e deixei para publicar hoje. Isso me permitiu saber da fala do chefe da equipe brasileira de judô, Marcelo Theotonio, (que não é o chefe do COB, nem da CBJ). Ele disse que “punição a Macedo foi bastante controversa”. Se esse tipo de cargo não está pacificando a questão, tem coelho nesse mato…
ATUALIZAÇÃO 2: Podendo assistir às lutas de até 100kg no dia de hoje (1 de agosto), vi INÚMERAS marcações de waza-ari para golpes muito menos claros do que aqueles efetuados por Macedo. Também, foi um dia repleto de bizarrices nas decisões de arbitragem. Até “troca de lado” para a medalha de bronze ocorreu. Teve, realmente, de tudo (de ruim). De novo.

