Bolsonaro aparece como o Coringa em "A piada Mortal" dos Comics de Batman

Bolsonaro: O ódio ao conhecimento

(Sobre a imagem-tema do post: Para alguns, Bolsonaro é uma piada. Para mim, ele é um perigo real ao Brasil e pode representar décadas de atraso, se não houver retrocesso. O que melhor para representar a junção das 2 visões do que “A piada Mortal” de Batman? Bolsonaro parece ser uma piada mortal, de fato. Muita gente está rindo, sem perceber o potencial de perigo com que estamos lidando) – Créditos: ©Rodrigo Geraldi (publicado no Twitter por @OrelhadovanGogh)

Conhecimento (como aprendido nas Ciências)

Como qualquer livro de Ciências demonstrará nos capítulos iniciais, durante a fundação do saber científico para o leitor, o Conhecimento (científico) é a informação e o saber que parte do princípio das análises dos fatos, cientificamente demonstrados.

Para ser conhecimento científico, este ainda precisa ser fruto de uma sistematização, tipicamente proposta pela área do conhecimento científico em questão; É essa sistematização que, por exemplo, nos faz saber que a soma de dois termos cujo o segundo está elevado a uma potência N, requer, primeiro, a resolução da exponenciação deste termo para, só depois, realizar a soma. E é por essa sistematização que em qualquer lugar do mundo 2 + 2² é sempre 6 e nunca, 16.

O conhecimento precisa ser verificável, de tal modo que outros possam, partindo dos mesmos pressupostos seus, chegar às mesmas conclusões que seu experimento apontou; assim, não há “pesquisa científica” ou “estudo” de “renomados pesquisadores”, cujos os papéis não estejam devidamente publicados nas revistas e sites internacionais, relevantes para aquela área do saber científico. Os “papers”, como são genericamente chamados, citam em detalhes como a pesquisa foi conduzida, as premissas, as condições do estudo, os métodos e equipamentos utilizados, de que maneira, e detalham cada passo até o achado que se quer provar verdadeiro. Não existe “caixa preta” na Ciência, e ninguém acredita em nada que não possa ser reproduzido, e que não tenha a devida transparência. Aliás, é exatamente esse ceticismo que protege quem acredita no Conhecimento científico contra as fake news: Se só “aquele site”, “aquele grupo do whats”, “aquele pesquisador” afirma, grandes chances de não ser verdade. Simples assim.

Por fim, o conhecimento científico é sempre falível, ou seja, não-definitivo; e é esperado que ele possa estar incompleto, e venha a ser complementado ou até mesmo desmentido por teorias melhores ou mais completas, no futuro. Não há dogma ( = uma afirmação que não se pode discutir) no Conhecimento científico.

Curiosamente, no pior plano de governo já apresentado por um candidato à Presidência – neste caso, do então candidato pelo PSL, Jair Messias Bolsonaro – nada se podia aprender ou deduzir, porque o plano não dizia, bem… Não dizia nada. Nenhum sistema, nenhuma informação verificável, nenhuma presunção de que os dados podem ser falíveis; só frases soltas. Chavões como “devolver a pátria ao seus verdadeiros donos: os brasileiros”. Não dizia o que estava errado, como foi medido, quais as fontes, quais as medições, o método, a ferramenta. Nada. Frases, frases de para-choque. Muito efeito, pouca utilidade.

Mas, uma frase era repetida à exaustão, nos palanques do Presidente eleito, nos (poucos) programas de TV em que apareceu, e cujo o mais pobre plano de governo o qual eu já tive o desprazer de ler estampava em sua capa (e, sim, leio todos os planos, inclusive daqueles candidatos que eu certamente não votarei, porque boa política nacional não se faz com cegueira, e é preciso ouvir até aqueles com quem não concordamos em nada, para se tomar decisões informadas): A frase dizia “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, em referência ao livro bíblico de João, capítulo 8, versículo 32.

Bem; seja lá o que se entende por “verdade”, como lido na passagem bíblica, certamente, Bolsonaro e eu discordamos em cada aspecto do que “verdade” significa.

(Não só para mim), Verdade é algo que decorre de um conhecimento sistematizado, verificável e falível. Descargas elétricas atmosféricas (DEA) são descargas elétricas de grande intensidade, na atmosfera, entre regiões eletricamente carregadas, e têm o que é preciso para matar seres humanos. Beber leite com manga não mata ninguém. Ponto.
O primeiro é um conhecimento científico (os efeitos da corrente elétrica nos tecidos musculares dos seres vivos e a capacidade de interrupção do ritmo cardíaco, gerando fibrilação, são fatos conhecidos pela comunidade científica). Já a vitamina de manga, considerada até hoje perigosa por alguns, não possui qualquer explicação, nem prova, de sua alegada potência tóxicologica no sistema digestivo de seres humanos.

Mas, o Presidente discorda de mim (o que não é um problema per si, claro). Para ele, “verdade” é algo que depende. Depende de quem diz, depende do efeito que causa, depende se interessa às crenças dele, e de seu núcleo-duro. Se contradiz o que ele acredita, então, não é verdade. No exemplo de cima, se ele crer que leite com manga mata, mata. Ponto. Se alguém usar de método para demonstrar que não mata, estará, possivelmente, ligado à forças “vermelhas”, com fins perigosos à Nação.

Não tenho dúvidas de que as forças vermelhas existem. Para mim, Putin e sua “nova Rússia” são bem reais e bem perigosos. Eu apenas tenho razões (científicas) para crer que este Vladimir não dá a mínima para esse tipo de discussão.

O ex-KGB também não está interessado nos dados do desmatamento da Amazônia, ou, melhor dizendo, não o bastante para manipular, sistematicamente, e por anos (mais de década), os dados da série histórica do INPE. Para o azar de Bolsonaro – e seu hábito covarde de mandar recados e “fritar” subordinados via imprensa e Twitter – o representante do INPE teve coragem de lembrar o mandatário do país sobre a própria ignorância e deu a sugestão de “fechar o bico”. Lamentavelmente, caiu o último ministro “intocado”: Marcos Pontes se deu ao papel de lacaio do Bully (que faz bullying com seus subordinados pela Internet e mídia), e foi tirar satisfações com o diretor do INPE que “não tratou o Presidente com o devido respeito”. Bem, diz a lei que injuria trocada não dá nada. Quem começou com a falta de respeito foi o ocupante do cargo máximo. Aliás, é sempre ele que começa com a falta de respeito. Ele não faz ideia do decoro necessário para estar no cargo que ocupa. Falar da falta de etiqueta de Lula, nos 8 anos em que lá esteve, se torna assunto suave diante das barbaridades cometidas por Bolsonaro, em 200 dias.

Também, fico pensando que “força oculta” está interessada em aumentar os dados nacionais sobre a miséria e a fome feitos tanto pelo IBGE, quanto pela FAO (Agência de agricultura e alimentação da ONU). Ainda que o feito seja possível, qual o ganho? Para quem? Não consigo bolar algo minimamente plausível.

Depois, o combate às drogas não deve respeitar metodologias científicas de desintoxicação. Para Bolsonaro, o modelo realmente funcional é o da abstinência. E ele não vê problema de injetar R$153 milhões (públicos) em associações religiosas (e privadas) que pregam o mesmo. Darei um desconto porque, diferentemente do Presidente, eu sempre ouço aqueles que estudam: Não há um consenso absoluto se o melhor método é o gradual, ou o da abstinência, e cada tipo de droga e paciente significa reações e resultados diferentes. No mínimo, é possível afirmar que a abstinência não é o melhor para todos os casos.

Bolsonaro também não acredita no Instituto Rio Branco, tudo que ele representa e representou na história das relações internacionais do Brasil, e na seriedade da carreira diplomática. A ideia de que um Embaixador precisa ter uma formação que, entre outras coisas, cobra Português, Espanhol, Inglês e Francês em bom nível (isso é o mínimo para se fazer a prova de admissão no Instituto), lhe parece, de todo, ridícula. Para ele, laços sanguíneos e uma boa postura à frente da chapa quente são mais qualificadores do que um “diplominha safado” de Rio Branco (diplominha que pouquíssimos conseguem obter).

Bolsonaro também provou que nem mesmo os dicionários estão acima do seu conhecimento. Segundo Bolsonaro (que disse o que segue, com todas as letras), embora ele esteja sim ajudando um filho dele, e o beneficiando, isso NÃO É NEPOTISMO. Já enviei uma carta ao Houaiss, pedindo a revisão do verbete em questão. O dicionário precisa saber que está, obviamente, enganado, conforme o Presidente esclareceu.

Eu pensei em fazer o que sempre faço com meus posts:

Pensei em pegar cada afirmação de Bolsonaro, nesses pouco mais de 200 dias de governo, que mais lembram 4 anos, e levantar cada fonte, cada método de pesquisa, detalhar a metodologia empregada por cada agência, detalhar os estudos cruzados, as co-validações da comunidade científica. Nada disso é difícil porque todos esses órgãos e fontes questionados divulgam, cientificamente, seus métodos, ensaios, estudos… Está tudo lá, basta querer ler) … E…

E… Desanimei.

Desanimei porque, sinceramente, se você consegue ler esse texto até aqui, significa que você, mesmo que tenha votado no pior Presidente que o Brasil pós-ditadura já teve, sabe que o seu candidato eleito está a cometer todo tipo de atrocidade contra a Ciência, contra o Conhecimento, e contra a Verdade; todos com letra maiúscula, como instituições. E a questão acaba ficando óbvia: Quem precisaria ler isso é justamente aquele que eu não consigo atingir. O fanático. O “Bolsominion”. Esse sujeito que – tal qual o Lulista que prefere ruir o PT de Hélio Bicudo, a largar do “Filho do Brasil” – é cego, não importa quão óbvia seja a realidade. Prefere o homem às instituições. O homem que corrompe. O homem que passa.

Tal cegueira não pode ser vencida pela razão. Se pudesse, sequer estaríamos discutindo isso tudo. E aí, pela primeira vez em anos, pensei “para que? Para que passar horas lendo documentos de N páginas, detalhando metodologias, estudos de apoio, modelos estatísticos… Para, no fim, alguém ter a coragem de ‘gritar’ (em caps lock) ‘então você prefere o PT?'”.

Sempre me lembro da frase que aprendi com o amigo Vital, embora não saiba se essa versão é de autoria de Mark Twain: “Nunca discuta com idiotas, porque, de fora, não dá para saber quem é quem”…

O Márcio (com quem sempre discuto política) bem sabe que eu evito adjetivar pessoas, por mais que elas venham a merecer (ele fica bravo com minha insistência nisso). Odeio adjetivar porque sei que quando digo “esse cara é burro”, tudo o que ele diz depois, vem com a lembrança “burro, burro, burro”. Daí pra frente, não consigo mais acompanhar o raciocínio da pessoa sem lembrar que ela é burra pra mim. E não é assim que gosto de pautar minhas discussões. Por mais que possamos discordar, eu quero sempre que você tenha o direito de falar. Quando luto pelo seu direito de pensar diferente, luto pelo meu, de lambuja. É melhor ter o direito de falar burrices, do que ser proibido de dizer verdades, penso eu. Como “verdade” e “burrice” tem dependido de quem se senta em Brasília (e não de conhecimento e rigor em sua validação), é melhor defender a liberdade de ambos, só por (minha) segurança.

Mas, este é o dia em que tenho que admitir que não dá pra evitar adjetivos, sempre.

Bolsonaro é um ignorante no sentido lato e stricto sensu, odioso da verdade (que, não, não depende de quem diz e, se depende, não pode ser chamada de “verdade”), odioso do conhecimento científico que não corrobora suas crendices e má-formação intelectual de um homem que até parece que se educou em roda de colegas de bar, de uma anedota em outra, de uma crendice popular em outra. Se o fato não lhe apoia, o problema está – óbvio – no fato. Como dialogar civilizadamente com gente que, como Bolsonaro, escolhe o site “DiarioDohomemMachoCristão.com.br”, ou o texto copiado e colado no Whatsapp, ao invés do estudo na “Nature”, ou de matéria corroborada em 4 ou 5 fontes da imprensa nacional (são só exemplos), para discutir um dado assunto?

Não, eu não consigo me animar. Não consigo sequer me forçar a apontar os estudos, a seriedade, o método. Não vale a pena. É perda de tempo. São pessoas que entraram em suas câmaras de eco e só podem ouvir aquilo que apoia suas crendices, seus mitos e seus folclores.

Mas a beleza da Ciência é, pelo menos nesse aspecto tautológico, singular: Não importa se você tentar forçar uma ideologia “de Esquerda”, ou “de Direita”, o desmatamento é uma medição de área desmatada, e a fome é medida por peso, nutrição e outros parâmetros objetivos de saúde da população. Em resumo, não importa com o que você quer que a verdade se pareça; na Ciência, ela vai parecer só o que ela pode ser, e não o que você quer. Bolsonaro vai deturpar a verdade por 4 anos. E depois dele, a verdade vai vir à tona. Com sorte, em tempo de salvar da desgraça dos maus feitos que ele realizará.

Para seus devotos, nada do que eu disser importará. Para eles, a verdade é totalmente subordinada à fonte. Se não veio do “Mito”, se não apoia tudo o que ele diz, não pode ser “Verdade”.

Aliás, mais uma carta para a turma do Houaiss: “Mito” vai precisar mudar:

O sentido que diz que “Mito” é “Algo ou alguém cuja existência não é real ou não pode ser comprovada.” vai ter que sumir das páginas, tálquei?

41 meses… Só faltam 41 meses…

2 comentários sobre “Bolsonaro: O ódio ao conhecimento

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