Direitos de imagem: artrepresent.com/Kabul Knight/Abdul Azim Fakhri
Advinha, doutor, quem está de volta na praça! É… Tá bom… Não tem nem 1% do impacto que o original causava… Também, é só eu escrevendo de novo por estas bandas. Não dá pra depositar tanta expectativa assim, não é? 🤷♂️
Enfim, como eu havia compartilhado, em meu último post, eu cogitava sair de todas as redes sociais (e assim o fiz, exceção ao LinkedIn e ao YouTube), e também, de última hora, decidi manter o blog. Ele venceria em meados de junho, eu cheguei a deixar vencer, mas veio um e-mail, muito bem feito por sinal, do time da WordPress manipulando várias emoções, misturando com números, fatos e relembrando momentos do blog… Ah, o algoritmo… Sempre tão bem escrito para manter todos nós na linha…
Como disse Raul, em uma de suas mais belas canções (os clássicos merecem esse substantivo), “não pense que a cabeça aguenta se você parar”… Eu fechei tudo (o que podia), ganhei tempo, me sinto mais leve e não sinto nenhuma falta das redes. Mas, os problemas continuaram. Continuei inquieto, irritado, descontente, aflito. E percebi que “a cabeça realmente não aguenta se você para”. E, de verdade, eu não sai das redes para parar. Eu sai para não contribuir com aquele show de horrores de gangues políticas, mentiras e desinformação. Então, agora eu vivo no paraíso? Bem, não. Eu só parei de jogar aquele jogo. E, como eu também disse na ocasião, isso não me tornou melhor em qualquer sentido. Foi só uma farpa que arranquei da minha mão e que me incomodava.
Então é isso, o blog vai continuar, pelo menos por mais um ano. Eu não vou ser injusto com você, que ainda visita essa página cheia de pó, e prometer que agora a frequência de artigos vai subir. Eu já prometi isso antes. E deu errado. Prometer de novo seria insistir no erro. Mas, sim, sem promessas, a vontade é de escrever mais por aqui. Eu não vou tentar “recuperar o tempo perdido” dos últimos meses. Teve vários assuntos que quase fizeram eu voltar aqui, mas desisti na última hora.
Tente outra vez!
O rufar dos tambores da 3a guerra
Como disse um personagem icônico do cinema nacional:
Ciente, Carvalho… Já avisei que vai dar merda isso…
– Capitão Nascimento
Tem algo de grande – e ruim – acontecendo. Você tem o direito de zombar de mim. O Rodrigo de 10 anos atrás zombaria de mim. Mas o mal-estar do nosso tempo é sensível, se você parar o piloto automático que o mantém vivo e prestar atenção nos sinais.
A real pergunta passa a ser, então: como separar fatos, versões e paranoia? E a resposta, se é que existe uma, é um belo de um “veja bem…”. Aqui é o ponto em que o jornalismo (profissional ou amador [como eu tendo a praticar]) vira mais arte do que ciência, no já escasso território em que esta última tem para existir neste plano da experiência humana.
Eu não vou conseguir fazer o trabalho tão bem quanto eu gostaria. Resta aderir a máxima que aprendi com um dos meus mentores na Microsoft:
Melhor um final horrível do que um horror sem fim…
– Euclides Miguel (se a frase não é dele, foi ele quem me disse)
Portanto, eu não sei se vai destruir a experiência textual, a estilística, ou o que diabos de ruim isto vai fazer com esse post, mas aqui vamos nós.
Fatos & Versões
- Fato: 11 de setembro de 2001: ataques terroristas aos EUA. Versão (ou “porquê considero relevante como indicador de um novo conflito global?“): para mim (e até onde sei, para muitos) este episódio encerra um ciclo histórico que levou alguns autores a concluir que a “História” estaria encerrada (em outras palavras, não haveriam mais revoluções sociais, econômicas ou culturais capazes de mudar o paradigma do final do século XX e início do XXI), com a constatável vitória das democracias liberais e do sistema capitalista por sobre todas as alternativas até então testadas, expectativa especialmente avalizada no perecimento do regime soviético no fim da década de 1980. O atentado às Torres Gêmeas marca o declínio do otimismo liberal (político e econômico – embora sejam conceitos distintos) e o início de uma era de vigilância do Estado contra todos, especialmente contra seus próprios cidadãos (algo diametralmente oposto à ideia de “Estado democrático liberal”). Leis de segurança nacional (como por exemplo, o Patriot Act) são criadas ou reforçadas (e.g.: FISA act), diminuindo garantias e liberdades individuais em nome da proteção nacional. O medo passa a ser a tônica das relações sociais e governamentais.
- Fato: 2001–2003: invasões do Afeganistão (outubro de 2001) e do Iraque (março de 2003) pelas forças da OTAN, lideradas pelos EUA. Versão: Pela primeira vez em sua relativamente jovem história (a independência americana é de 1776, contemporânea a do Brasil, portanto, são dois países “jovens”) os EUA e seu povo sentem medo e descobrem que não são tão invulneráveis quanto largamente se imaginava, seja pela história em conflitos tradicionais, seja pela produção sempre ufanista de sua indústria cultural. O terrorismo, muito pior do que o enfrentamento com uma grande potência, permite que o medo se instale em todos os lugares (não só nas fronteiras, mas nas ruas, nos parques, nas escolas, no transporte público, nos hospitais, aeroportos […]), e todos são um inimigo em potencial. Bush “filho”, bem menos preparado para o cargo que o pai (que já não era grandes coisas), mas muito menos boçal do que a mídia democrata o fazia parecer, decide invadir e ocupar, primeiro o Afeganistão, sob a alegação de que seria a base dos terroristas do 11 de setembro. Depois, em 2003, invade o Iraque alegando que o ditador Saddam Hussein teria “armas de destruição em massa” (o que jamais se comprovou, parecendo muito mais um desígnio familiar de terminar o serviço que seu pai não entregou no começo dos anos 1990), sendo esses eventos os que inauguram duas décadas de ocupação e insurgências na região. A morte de Hussein, aliás, é tida como causa-raiz para boa parte das desestabilizações, caos, violência e surgimento de grupos terroristas (como o Estado Islâmico, tornado mundialmente famoso em 2013) na região do Oriente Médio e adjacências. Hussein seria o “Mal menor” que mantinha o resto “na linha”. A invasão do Iraque foi um desastre para o moral americano e para sua imagem de “Xerife do mundo” (adquirida no pós-2a guerra), custando mais de 2 TRILHÕES de dólares aos contribuintes, e ceifando a vida de mais de 4 mil soldados daquele país. A saída do Afeganistão, em 2021, também ajudou a despedaçar a imagem americana, com seus soldados produzindo cenas de fuga e abandono desesperado nos aeroportos. Dias depois, o grupo terrorista que foi um dos principais motivos públicos para a invasão, o Talebã, retomou o poder do país ocupado pelos EUA. O Talebã rapidamente instaurou uma teocracia ferrenha, perseguidora de mulheres bem como de “colaboradores dos invasores” (como se muitos deles pudessem não colaborar com os EUA naqueles 20 anos de ocupação…). Talvez, a impressão mais importante de todo este capítulo: a invasão do Afeganistão e do Iraque é a primeira ocorrência de um desrespeito total ao conselho de segurança da ONU, por parte dos EUA, e o começo do fim da credibilidade de organismos multilaterais (e, porque a ironia nunca tem fim, muitos deles, criados com total apoio e esforço da diplomacia americana [ONU, OMC, OMS…]). Depois disso, ficou fácil para os demais países desrespeitarem mecanismos multilaterais (“se os EUA podem, por que nós não poderíamos?”).
- Fato: 7 de julho de 2005: atentados no sistema de transporte público de Londres. Versão: O atentado a Londres inicia uma linha de interpretação ainda corrente do terrorismo global por parte dos países desenvolvidos, reafirmando as razões do medo e irracionalidade dos povos ditos “do primeiro mundo” quanto à persistência do terrorismo internacional como meio e arma dos povos “do terceiro mundo”. O medo de estrangeiros, especialmente quando a feição árabe/muçulmana surgia (generalização claramente ineficaz para impedir novos ataques) passa a ser constante, e a xenofobia ganha novos contornos na Europa e nos EUA. O acirramento das tensões internas e o “esquentamento” de partidos nacionalistas e xenofóbicos, constatavelmente “nanicos” até ali – muito por conta de suas ligações com ideologias fascistas, até então odiadas por toda a Europa, levando em conta o que foi a 2a guerra – passa a ter força e apoio popular, e ideias que não poderiam ser defendidas na penumbra dos bares, passam a ser discutidas em rede nacional.
- Fato: 2008: quebra do Lehman Brothers e colapso financeiro global. Versão: A bolha imobiliária americana corroeu a confiança nos mercados e impulsionou intervenção estatal maciça em todos os lugares. Essa intervenção teve resultados diversos: na Islândia, por exemplo, protegeu as pessoas e desapropriou os responsáveis pela bagunça (os banqueiros). Mas na maior parte do mundo não foi assim. Especialmente nos EUA, o esforço do governo foi, não na direção de salvar as pessoas, mas de salvar os banqueiros (que deram causa à bolha). Daqui em diante, o mundo ficará cada vez mais polarizado, com a pobreza voltando a ressurgir em diversos lugares onde havia sumido com o ciclo de prosperidade vivido até ali (aumento da produção mundial, aumento da demanda por commodities, e por aí vai [foi]). A visão da política também muda, com a oposição dos governos (sejam de esquerda ou de direita) passando a atacar os partidos no poder. Um sentimento “antissistema” começa a tomar corpo, na medida em que a pobreza e a raiva avançam na camada mais pobre, enquanto o Estado, via de regra, salva apenas os mais ricos.
- Fato: 2009–2012: crise na zona do Euro, Grécia em recessão e sob forte pacote de austeridade fiscal imposto pelo bloco europeu. Portugal e Espanha passariam por dificuldades similares, nos anos seguintes. Versão: o estouro da bolha imobiliária dos EUA, no ano anterior, era só o começo de um maremoto que afetaria e muito a vida de vários países do bloco e seus povos. Talvez, o mais emblemático dos casos seja o da Grécia que arrastava um deficit público sempre crescente mas, em 2010, teve que pedir por um resgate emergencial de aproximados 110 bilhões de euros ao bloco europeu. O pedido de resgate veio sob a condição de que a Grécia congelasse salários e benefícios para todos e, sem dúvidas, tais medidas foram causa de muitos conflitos políticos, frustração e quebra de confiança dentro do país e entre o povo grego e os povos do norte no bloco. Os países do sul da Europa (Portugal, Espanha, Grécia, Itália…) passaram a registrar manifestações populares de insatisfação com a postura impositiva dos países do norte da UE. O desgaste e desprestígio por organizações multilaterais voltaria a crescer, especialmente pelo que era visto pelos nacionais dos países afetados como “intervenção internacional em sua soberania”. Em 2010, Portugal pediria cerca de 78 bilhões de euros em resgate emergencial para obter liquidez para seu sistema bancário, fortemente abalado pelo estouro da bolha de 2008. Em 2012 seria a vez da Espanha, com um pedido de 100 bilhões de euros. Todos os países passariam pela imposição de regras de austeridade impostas pelo bloco.
- Fato: 2010–2012: Primavera Árabe, seguida pela guerra civil na Síria. Versão: a primavera árabe, iniciada na Tunísia e com marco no triste ato de Mohamed Boazizi ao atear fogo ao próprio corpo, parecia o sinal de que todos os povos da Terra estavam cansados de governos corruptos e interventores. À primeira vista, poder-se-ia dizer que o fim da primavera árabe seria um Oriente Médio que tenderia à modernização dos Estados, rumo a um liberalismo político e, mais tarde, econômico. Não foi o que aconteceu. Na prática, a primavera árabe gerou várias crises humanitárias (por conta de conflitos entre facções e/ou entre população e ditaduras) e realimentou o extremismo e tensões sectárias em toda a região. A população que tinha capacidade de fugir da região, o fez, com destino prioritário em países da Europa.
- Fato: 2011-2016: Êxodo sírio para Grécia e Turquia, Alemanha recebe mais de 890 mil pedidos de asilo em 2015, e acordo UE-Turquia para bloquear a chegada de novos imigrantes e refugiados ao bloco. Versão: Com a guerra civil em andamento na Síria, guerra esta que foi uma guerra indireta (“por procuração” sendo o termo comumente utilizado [proxy war]) entre Rússia, Irã e Hezbollah (que apoiavam o ditador Bashar al-Assad) vs. EUA, Turquia, Arábia Saudita e Qatar (que apoiavam os vários grupos rebeldes), os mais de 20 milhões de sírios se viram no meio de um inferno em vida. Milhões começaram a fugir do país em colapso e, no ano de 2015, a Alemanha chegou a receber quase um milhão de pedidos de asilo de refugiados vindos principalmente pela Grécia e Turquia. No ano de 2016, a União Europeia firmou acordo com a Turquia para praticamente cessar o acesso de refugiados ao resto do bloco, no que foi considerando como mais um episódio de demonstração da hipocrisia dos europeus para com a questão humanitária da região do Oriente Médio; região frequentemente desestabilizada por parceiros estratégicos da própria União Europeia, quando não, diretamente desestabilizada pela ação dos membros do bloco (como, por exemplo, a participação de França e Reino Unidos nos conflitos daquela década).
- Fato: 2013: vazamento de documentos por Edward Snowden. Versão: o vazamento da NSA confirmou e que muitos desconfiavam: o alcance global da vigilância de inteligência dos EUA contra aliados e inimigos. A paranoia do governo americano o fazia espionar do partido comunista chinês ao primeiro-ministro britânico. O isolamento dos EUA enquanto figura de autoridade no mundo cresce e acelera. As reações são diversas, mas uma delas é a escalada por capacidades de inteligência e contrainteligência avançadas. O mundo passa a se reamar (ainda aqui, com tecnologia e não com armas em si) e o isolamento de nações antes muito afinadas entre si, começa a ficar evidente.
- Fato: 2014: anexação da Crimeia pela Rússia. Versão: Vladimir Putin não é um líder populista qualquer. O início do conflito armado no leste da Ucrânia dá só o indício da forma de ver o mundo e as relações internacionais que o ex-chefe da KGB tem para si. Putin, diversas vezes, comentou como a União Soviética foi um equívoco na trajetória da Rússia que deveria regressar a sua época de império (Czarismo). Muitas das vezes, esse discurso está velado. Em outras (e mais recentes) ocasiões, Putin não teve receio de dizer que “o povo da Ucrânia e da Rússia é um só” e que “a Ucrânia inteira pertence à Rússia”, numa clara explicação do que considera como território legitimo de seu país e dos demais.
- Fato: 2015–2016: atentados na França deixam centenas de mortos e aumentam as hostilidades contra povos muçulmanos ou de aparência “árabe”, legitimando o avanço da vigilância estatal em toda a Europa. Versão: A França enfrentou, em janeiro de 2015, novembro de 2015 e julho de 2016, três graves atentados em seu solo, perpetrados por agentes da Al-Qaeda, de nacionais franceses e belgas com ascendência argelina e (supostamente) síria, treinados pelo Estado Islâmico (EI), e de um tunisiano radicalizado e que se dizia fiel ao EI. No primeiro, a revista satírica Charlie Hebdo, teve sua sede invadida e 12 pessoas foram mortas pelos terroristas da Al-Qaeda. No segundo, vários ataques a tiros e bombas, perpetrados por franceses e belgas de ascendência argelina e (supostamente) síria, treinados pelo EI, levaram à morte de mais de 130 pessoas com a maior mortalidade ocorrendo no teatro Bataclan. O governo de François Hollande foi fortemente abalado por esse ataque, mas acabou usando o episódio para endurecer suas medidas “contra o terror” dentro e fora da França, aumentando temporariamente a participação do país nas frentes de guerra na Síria e dificultando a entrada de estrangeiros de origem árabe. 70 anos depois da 2a guerra, Paris voltaria a ter um toque de recolher em vigor. Depois, em julho de 2016, o ataque com um caminhão, perpetrado por um tunisiano que declarou lealdade ao EI, no calçadão chamado “Promenade des Anglais”, atropelaria e mataria 86 pessoas. O atentado reacendeu fortemente os debates anti-imigração em toda a Europa, servindo de enorme vitrine aos partidos de extrema-direita no país e na região, e desde então as barrerias nunca deixaram de crescer em alcance e discriminação.
- Fato: junho de 2016: referendo BrExit no Reino Unido. Versão: O BrExit marca o aumento da fragmentação política e econômica na Europa, mas também marca a ascensão do populismo de direita no mundo. Claro: já havia Putin, já havia Orbán, já havia Erdogan e os sinais já estavam por toda parte. Mas a vitória do BrExit não passa pelas mãos de Boris Johnson (primeiro-ministro escandaloso e midiático de 2019 em diante), tanto quanto passa pelas mãos de Nigel Farage, este sim, um elemento perturbador da política tradicional inglesa, muito afeito ao uso da mídia digital para targeting, empregador assíduo de outro mecanismo que iria ganhar as manchetes no mundo: as fake news. O BrExit marca a interferência de forças transnacionais nos processos políticos dos países desenvolvidos, e figuras como Steve Bannon, Aleksandr Dugin e Crabridge Analytica passam a ser mais famosos no noticiário e análise política dessas nações.
- Fato: novembro de 2016: eleição de Donald Trump nos EUA. Versão: para coroar a franca ascensão de líderes populistas no globo, e a decadência de alianças multilaterais, nada melhor que a eleição de um “outsider“, não é mesmo? Donald J. Trump passaria quatro anos, de 2016 a 2020, testando todos os limites da combalida democracia americana, após o suspiro dos anos Obama. A confusão entre público e privado e a erosão de instituições fundamentais à ideia de República são marcas deste primeiro mandato.
- Fato: 2018–2019: escalada da guerra comercial entre EUA e China. Versão: Trump passa a retirar os EUA de áreas como defesa de interesses além-mar e acordos militares com aliados, e começa uma campanha de “tornar os EUA grandes de novo” (MAGA – Make America Great Again), e tenta fazer isso, em boa medida, através da imposição de tarifas, tensionando cadeias globais de suprimentos. Obviamente, as tarifas são reciprocadas e isso aumenta o custo de vida e a inflação no mercado interno dos EUA. A vida para os americanos começa a ficar mais cara, num país que sempre teve pouco a oferecer a sua classe baixa e média (em alguma medida) senão pelo consumo de bens mais acessível do globo.
- Fato: 2019–2020: protestos de Hong Kong e pandemia de Covid-19. Versão: bem, há um livro inteiro para explicar este arco histórico (“Germes, armas e aço” por Jared Diamond, escrito em 1997), mas é importante entender que o conflito de Hong Kong (por um grupo que tensionava a independência da região) justifica – em partes – a corrida armamentista chinesa, que já lida com o que chama de “problema separatista” em Taiwan (por não reconhecer, como Taiwan se afirma, que trata-se de uma nação soberana), e não poderia permitir que Hong Kong ingressasse na mesma tendência. A pandemia agrava tudo o que já estava em curso: as tensões sociais, a guerra de narrativas entre os polos políticos, a pressão social [manipulada ou legitima] sobre governos (ora porque fazem o lockdown, ora porque não fazem), sobre a ciência e a medicina (porque são culpadas pela origem do vírus, porque não desenvolvem a vacina rápido o bastante, ou porque não autorizam a “cura milagrosa” [cloroquina, ivermectina, e por aí vai]), o aumento das fake news, desemprego crescente, falências, fechamento de fronteiras e disputas por recursos (de máscaras à vacinas). O mundo, que já andava fragmentado, recebe uma dose cavalar de um poderoso catalisador deste processo de erosão.
- Fato: agosto de 2021: retirada dos EUA do Afeganistão, retorno do Talibã e questionamento da credibilidade ocidental nas intervenções militares. Versão: já discutimos os efeitos da ocupação americana, iniciada em 2001, lá no começo desta lista. Mas a repetição, além de respeitar a ordem cronológica, reforça a hipótese de como os efeitos deletérios das ações no começo do século XXI, começam a ressurgir, 20 anos depois.
- Fato: fevereiro de 2022: invasão russa na Ucrânia. Versão: sendo o maior conflito em solo europeu desde a 2a guerra e catalisador de nova corrida armamentista por todo o continente, este talvez seja um marco equivalente ao que foram os atentados às Torre Gêmeas. Isto porque se, em alguma medida, é “só a continuação” da anexação da Crimeia (2014), por outro lado mostra uma lógica imperialista e a voracidade com que Putin seguirá lidando com os “problemas” (reais ou imaginados) em sua região. Pela primeira vez fica claro que não há mecanismos de pressão suficientes para parar a Rússia. As sanções políticas não são suficientes. As sanções econômicas não são suficientes. Não há coesão nem multilateralismo vigente para que as medidas impostas pela “comunidade internacional” (que já não é mais tão internacional assim, mas se resume a Europa ocidental + EUA) realmente alcancem a elite russa e os membros do governo Putin.
- Fato: outubro de 2023: Guerra entre Israel e Hamas e tensionamento das relações entre Irã e potências ocidentais. Versão: Num dos episódios mais traumáticos da região, o Hamas invadiu o território israelense em 7 de outubro de 2023, matando mais de mil pessoas, ferindo mais de 3 mil e sequestrando quase 250 delas, entre judeus e estrangeiros que visitavam o país. Em resposta, o governo Nethanyahu começou uma operação militar de invasão e ocupação da faixa de Gaza que, até o fim de agosto de 2025, matou mais de 60 mil palestinos, incluindo muitas crianças e mulheres da faixa. A situação de fome e de colapso das estruturas de saúde é tal que acaba levando vários países, liderados pela África do Sul, a acusarem formalmente Israel pelo cometimento de genocídio na região. O governo Nethanyahu testa novamente todos os limites das organizações multilaterais, mostrando o mais absoluto desrespeito a qualquer ação coordenada por órgãos como ONU e similares. Com o apoio do novo governo Trump, Nethanyahu se sente capaz de fazer o que quiser com a faixa de Gaza e a Cisjordânia. Manifestações internas contra o governo começam a ganhar força, mas logo são abafadas pelo conflito de mísseis e drones entre Israel e Irã. O conflito desmobiliza os manifestantes contra Nethanyahu, fortalecendo seu governo diante da necessidade de lidar com a ameaça existencial que o Irã representa ao Estado de Israel. O conflito ainda arrasta os EUA para mais uma intervenção na região, mesmo que a priori limite-se a forças militares no mar mediterrâneo e golfo do pérsico.
- Fato: 2023–2024: disputas no oceano Indo-Pacífico, desdobramentos do programa AUKUS e aumento de patrulhas de EUA e aliados ao redor de Taiwan. Versão: no fim dos anos Biden, o governo democrata dos EUA ainda tentava mostrar um mundo organizado, multilateral, sim, mas sob a clara liderança americana e oposto “às forças desestabilizadoras de China e Rússia”. Várias das proibições, taxas e embargos promovidos por Trump em seu primeiro mandato foram mantidas, senão agravadas no governo Joe Biden. O posicionamento de democratas americanos em favor da soberania taiwanesa agravou muito as tensões na região, com demonstrações militares tanto da China, quanto dos aliados americanos. O governo da Austrália decidiu “comprar” a briga pela garantia do domínio militar das águas do pacífico que banham seu território e que são vitais para manter as linhas de suprimentos que mantém a Austrália abastecida. Nesse sentido surge o programa AUKUS (Australia, Reino Unido e EUA, na sigla em inglês) que tem dois principais objetivos: o fornecimento de submarinos nucleares pelos EUA à Austrália, para que esta imponha seus interesses militares na região, em direta ameaça aos interesses chineses nos mesmos mares. O segundo objetivo é o do desenvolvimento de capacidades de guerra em múltiplas disciplinas: Cyber-guerra, IA, mísseis hipersônicos e contramedidas a esse tipo de armamento… O AUKUS é um programa para criar um rival local à China, apoiado por nada menos que os EUA e sua indústria bélica.
- Fato: janeiro de 2025: Donald J. Trump, presidente reeleito para o segundo e, teoricamente, último mandato a frente dos EUA, toma posse. Relatório “Global Risks” do Fórum Econômico Mundial identifica “conflito armado entre Estados” como o principal risco imediato para 2025. Versão: o conceituado relatório “Global Risks” elencou como principal risco para o mundo em 2025, não outra pandemia, nem algum desastre natural, e nem mesmo o “agravamento econômico da pobreza no mundo” foi capaz de desbancar o primeiro lugar. Não. O principal risco do relatório de 2025 foi o “conflito armado entre Estados (nações)”. Este não é um relatório feito para ser polêmico ou caçar cliques, mas uma análise com +900 especialistas em relações internacionais, economia, estratégia militar, diplomacia, meio ambiente e tantos outros setores e que deve nortear os países-membros do Fórum Econômico Mundial pelo próximo período. Para entender o quão grave é esta indicação, de todos os consultados para a elaboração do relatório, 25% (1/4) concluem que o risco de uma guerra entre nações é o maior perigo para o ano de 2025. Para se ter imagem do quadro geral, o segundo risco da lista, aquele sobre graves tragédias ambientais, foi apontado por apenas 14% dos especialistas como o maior risco para 2025.
- Fato: 20 de junho de 2025: Vladimir Putin declara preocupação com potencial crescente de conflitos mundiais e alerta para risco de 3ª Guerra Mundial, mencionando Ucrânia e guerra entre Israel e Irã. Versão: na ocasião, Putin falou do risco para “todos os envolvidos” no conflito Israel-Irã (no caso, sobrariam EUA, do lado israelense, e a própria Rússia, do lado iraniano) de acabarem engolfados por uma conflagração ainda maior entre si. Foi neste episódio, também, que Putin disse que a “Ucrânia inteira pertencia à Rússia”. Aparentemente, suas intenções expansionistas não precisam nem mais de desculpas ou meias palavras.
- Fato: 04 de setembro de 2025: o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, classifica Rússia e China como “ameaças crescentes” e defende maior investimento em defesa na Europa. Versão: desde a ascensão de Trump e da demonstração de sua agenda para a política externa durante seu primeiro termo, bem como a confirmação da postura norte-americana de não mais honrar acordos do passado sobre a proteção militar da Europa (na realidade, a proteção dos países alinhados aos EUA), a União Europeia iniciou uma corrida armamentista. O mais…. Como posso dizer… “estranho”…. disso tudo é ver que países como França e Reino Unido vem pedindo que a Alemanha (veja só) acelere o seu rearmamento, bem como aumente a produção de armas para exportação… É como… Se somente eu me lembrasse do que ocorreu na 2a guerra… É desconcertante… De toda forma, o tom do discurso é de que a guerra não é mais uma questão de “se” e sim de “quando” (“[…]This trend is not going to shift or reverse anytime soon. Russia is – and for the foreseeable future will remain – a destabilising and confrontational force in Europe and the world.” – “[…]Essa tendência não vai mudar ou reverter no futuro próximo. A Rússia é – e pelo futuro previsível se manterá – uma força desestabilizadora e confrontadora na Europa e no Mundo”). O discurso completo (mas em inglês) do secretário da OTAN pode ser lido aqui.
E a paranoia? Onde fica?
Bem, depois dessa retrospectiva desde os atentados de 2001, eu já acho que não sei separar paranoia do resto. Paranoia, afinal, é o sentimento ou sensação de que estamos sendo alvos de um processo de perseguição ou uma conspiração.
Ao analisar os fatos até aqui e tentar interpretá-los (como fiz a partir das “versões” que escrevi) à luz dos requisitos de um confronto armado global, é um tanto quanto difícil não ficar paranoico com a ideia de que a 3a guerra mundial é iminente.
A pressão sobre as classes sociais mais baixas (e também, mais numerosas, e mais prejudicadas), o rompimento dos mecanismos de regulação multilateral, o enfraquecimento da confiança em atores globais, a falta de qualquer capacidade de prever ou ao menos ter expectativas sobre o que esperar dos “players” globais, a ascensão de líderes populistas, com forte vocação autocrática, quando não, abertamente imperialista, e toda a corrida armamentista… Sabe…
Mas, eu vou entregar o que prometi: vou compartilhar três ou quatro das minhas paranoias no presente tópico:
Paranoia 1: Trump disse que não colocaria os EUA em novas guerras e que removeria o país de todas as outras não iniciadas por ele, promessa de campanha da qual muitos de seus eleitores o cobram. No entanto, está, neste exato momento, com uma “pequena” frota naval “parada em frente” à nossa vizinha, Venezuela. A “justificativa”, diz ele, é combater o narcoterrorismo do “Cartel de Tren de Aragua”, como também o desmantelamento de um tal “Cartel dos Sóis”, organização que teria até mesmo o ditador Nicolas Maduro entre seus líderes. Mas, acontece que quase todos os analistas militares consideram o tamanho da força militar empregada completamente desproporcional à missão alegada. Até o momento em que publico este post, os EUA têm 3 destroyers (chamamos de “contratorpedeiros” por aqui), 1 cruzador de mísseis, 3 navios anfíbios, sendo um de assalto (“rápido”) , destinados a incursão de tropas, a 22a unidade de fuzileiros navais (cerca de 2 mil homens para incursão por terra), um submarino com mísseis tomahawk, 2 aviões espiões e de vigilância do espaço aéreo e mais 10 caças F-35 de última geração, que estão “por perto”, em Porto Rico (“do outro lado” do mar do Caribe, com uma distância de engajamento extremamente fácil de se cobrir para esse tipo de aeronave). Qual é o “endgame” de Trump? Será que ao menos ele sabe? Pior do que um presidente ruim é um presidente instável. Com o primeiro, você pode prever como a banda vai tocar. Com o segundo, as coisas mudam de uma hora para outra.
Paranoia 2: Várias fontes confiáveis (só um exemplo) têm citado documentos vazados em que a ministra da saúde da França, Catherine Vautrin, oficiou toda a rede pública de hospitais do país para se preparem para receber e tratar de 10 a 50 mil soldados que seriam vitimas de “um confronto militar de larga escala”, com data estimada até março de 2026. Procurado, o governo Macron não negou a carta, mas disse que se tratava apenas de um “exercício de preparação para cenários possíveis”. Enquanto é bom saber que um governo tem gente pensando em todos os cenários, as estimativas de feridos, tempo de internação e data limite para que o conflito ecloda são… alarmantes, ao menos para mim.
Paranoia 3: O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), integrante do governo “Lula 3” (atual governo do Brasil) pediu abertamente que o país considere o desenvolvimento de arsenal nuclear como meio de proteção da soberania nacional bem como para dissuasão de atores externos. Muito embora eu possa ver Dr. Enéas Carneiro sorrindo de onde quer que esteja, eu tenho tantas questões sobre essa temática, que eu precisaria de outro post inteiro só para falar de “Brasil & nukes“. Pra começar, num país onde quartéis são assaltados por criminosos e/ou furtados pelos próprios militares, vamos querer ter ogivas nucleares guardadas neles? Segundo, fazer uma arma nuclear é só metade da brincadeira. A outra metade é ter meios de “entregar o pacote” no colo de quem você está de mal, e nesse sentido, o Brasil é o mais pleno atraso em forma de programa de mísseis e foguetes. A FAB e os projetos espaciais envolvendo a Barreira do Inferno eram um meio de adquirir essas competências, mas o tempo passou, o Brasil sempre tem menos dinheiro para investir, e não se desenvolvem essas competências da noite para o dia. Falar das sanções internacionais e repercussão na trativa de outros países com o Brasil (que perderia o status diplomático que hoje detém) já me cansa, só de pensar. Eu não estou vetando a discussão (Allah sabe como meu coração belicoso pensa), só estou dizendo que não é simplesmente “vamos, então, fazer o PAC da bomba atômica”, corta a faixa do prédio e “kumbaya, meu Deus/bumba-meu-boi”…
Sabe… A diferença entre uma panela de pressão e uma granada de mão é só uma: a panela de pressão tem uma válvula para não ultrapassar certos limites operacionais. Retire a válvula da primeira e você não vai notar muita diferença com a segunda, não… O mundo, mesmo nos felizes anos 1990 e começo dos 2000, sempre foi uma panela de pressão. A prosperidade aumentou, o mundo parecia mais conectado, mais integrado, mais isso e mais aquilo. Eu volto a recuperar o argumento daqueles que achavam que “a História havia terminado” (já que nada mais iria mudar), e eu até compreendo como eles puderam ser tão cegos. Era um sentimento de puro triunfo da civilização contra a barbárie. Da meritocracia contra a mediocridade. Da cidadania contra o autoritarismo. Da economia dinâmica contra a planificação dos mercados. “Foguete não dá ré!”. Só não contavam que, como a SpaceX, o mundo também aprenderia a voltar “dis costas“.
São os anos 20 terminando e os 30 começando. E eu não vejo profundas diferenças nos fatos macro dessas décadas na comparação entre o “agora” e o século passado, a não ser pelo fato das belas telas planas que nos conectam, neste momento.
Hegel disse que os povos não têm nada a aprender com a História porque os tempos, as condições e, basicamente, tudo é diferente no “agora” e no passado. Um famoso historiador brasileiro contemporâneo disse que acha graça no fato de que pessoas procuram historiadores para perguntar o que vai acontecer no futuro, uma vez que um historiador é um “especialista em passado”. Seja como for, se a História não se repete e se ela não tem nada a ensinar para os vivos de 2020, ao menos fiquemos atentos a um aspecto que parece evidente: os ecos da música e os movimentos coreografados e em ensaio parecem os mesmos daqueles que soaram alto e foram encenados na última vez em que o rufar dos tambores da guerra foram ouvidos por todos os cantos do mundo.