Por que é má ideia usá-las?
Porque eu conheço todas elas. 😛
Brincadeiras (toscas) à parte, porque é fácil reconhecer quando essas construções são usadas para conferir grau de “verdade” ao seu argumento. E diante disso, fica parecendo que você quer manipular o debate (o que, sem brincadeira, pega mal pra você).
Antes de falar sobre as falácias em si, vamos falar um pouco da história delas (afinal, esse é um blog com, também, a missão de compartilhar saber… 😁).
A Escola grega do pensamento Sofista foi muito conhecida em sua época por ensinar qualquer um a ganhar qualquer debate. Até por isso, “sofisma” se tornou um jeito pesado de xingar um argumentador nos dias de hoje. Originalmente, não era um palavrão. Agora, é:
sm (gr sóphisma) 1 Lóg. Raciocínio capcioso, feito com intenção de enganar. 2 Argumento ou raciocínio falso, com alguma aparência de verdade. 3 Pop. Dolo, engano, logro
Michaelis Online
Bem, já deu pra notar que os Sofistas não iam gozar de boa fama nos dias de hoje, né? Na verdade, é até um pouco injusto: tudo o que sabemos da Escola Sofista vem das obras de Platão e que ODIAVA os caras… 😛
O resto se perdeu.
E os coitados não tiveram direito à tréplica. 🥲
Então, não use – intencionalmente – de sofismas e falácias por aqui. Ora, mas… Como você pode não usar o que não conhece? Bem, não há uma lista completa de falácias e algumas até derivam de outras, ou se sofisticam para tentar passar desapercebidas…
É complicado fazer um rol exaustivo, mas, um método de identificação torna isso (mais) fácil:
Se o argumento do comentário de resposta desvia a direção do debate original para outro objeto de discussão que está fora do argumento que foi apresentado pelo autor do comentário original, muito provavelmente isso é uma falácia. Complicou? Exemplifico:
- Afirmação original: O verde e amarelo da nossa bandeira estão perdendo a cor, de tanto que derrubamos nossas florestas e extraímos nossos minérios.
- Contra-argumento: Rodrigo, você diz isso porque mora em São Paulo, no conforto das casas luxuosas e com tudo à mão no mercado mais próximo. Nós, madeireiros, sofremos nos rincões do Brasil, sem acesso a saneamento, segurança pública, saúde, e tudo isso para aumentar o PIB do Brasil, e ainda somos odiados como vilões.
- Temos as falácias de Piedade, Ad Hominem, e uma pitada de Espantalho. Não cabe numa categoria só e talvez merecesse uma só pra ela, mas fica evidente que o autor do comentário de resposta (réplica) quer tirar o foco da afirmação original (de que a extração vegetal e mineral está acabando com o “moderno” (novo) significado das cores da nossa bandeira), e tenta colocar em dúvida a “moral” de quem fez o texto original para desqualificar todo o argumento de partida.
É crucial destacar: a falácia é usada como recurso para tornar uma opinião em “verdade incontestável”, ou um argumento ruim em algo que parece bem fundamentado ou, ainda, para dar uma resposta sem enfrentar o problema original. Nem toda a argumentação que se enquadra em uma das regras, abaixo, é uma falácia só por isso. A falácia surge quando, na intenção de “botar um ponto final”, o argumentador utiliza alguma dessas técnicas para “calar a boca” do outro lado, ou quando ela serve para esquecermos do argumento central (que não consegue ser enfrentado honestamente por quem utilizou da falácia)
Ainda assim, se você busca por uma classificação (por que? Porque você é estranho como eu, uai!), vamos à uma lista extensa de falácias (extensa, mesmo…):
Falácias da Dispersão (manobras de diversão)
- Apelo a Motivos (em vez de razões)
- Apelo à força – “Se quer manter seu emprego, é melhor aceitar a nova regra de vestimenta.” (existe uma ameaça para que o argumento seja aceito. Por exemplo: a regra de vestimenta da empresa pode ser disfuncional [ou até perigosa {ex.: usar chinelos operando em uma escada móvel}] ao trabalho e, portanto, posso não acatá-la, mesmo que o empregador assim o queira).
- Apelo à piedade – “Nosso trabalho merece o seu reconhecimento. Passamos dois dias sem dormir para finalizá-lo” (o fato do sofrimento em prol do trabalho não atesta ou sequer indica a qualidade do que está sendo apresentado).
- Apelo à consequências (argumentum ad consequentiam) – “Se não crê na existência de Deus, a vida não tem sentido.” (okay! Por outro lado, se teu argumento é correto, e provando-se que a vida não tem sentido mesmo, você perde o direito [lógico] de crer em Deus! 😛).
- Apelo a preconceitos – “Qualquer cidadão DE BEM apoia a pena de morte para esses marginais!” (o argumento utiliza de uma pré-classificação onde, “não apoiar a pena de morte.” [talvez, por acreditar no custo negativo aos cofres públicos, por exemplo, como eu acredito], leva a ser uma pessoa “DE MAL“).
- Apelo ao povo (argumentum ad populum) – “Todo mundo sabe que a Terra é plana. Por que insiste em provar o contrário?” (o problema está em dizer que um argumento passa a ser certo somente por ter muito mais apoio [ou ser o senso comum] do que o outro).
- Fugir ao Assunto (falhar o alvo)
- Ataques pessoais (argumentum ad hominem) – “Fala que a meritocracia existe só porque sua vida foi fácil.” (tenta induzir que só apoia a ideia de “mérito” quem não pode ser afetado por ela e suas consequências).
- Tu quoque – “Quer falar sobre o perigo do cigarro, mas bebe todo dia.” (ainda que seja fato que o autor do primeiro argumento beba todo dia, isso não remove a validade de que há perigo comprovado no tabagismo).
- Apelo à autoridade – “O economista João da Silva já disse, mil vezes, que a única forma de salvar a economia é com a taxação de grandes fortunas.” (embora João da Silva seja um economista [hipótese], outros economistas podem discordar da opinião de João, sugerindo, por exemplo, que a taxação de fortunas leva a evasão de divisas e descapitalização do mercado interno, trazendo mais problemas do que soluções – logo, não há consenso [no exemplo hipotético] e a autoridade de João no assunto não transforma tudo o que ele diz a respeito em verdade incontestável).
- Autoridade anônima – “Um membro do Governo garantiu que o Bolsa Família vai acabar em janeiro.” (como não se pode averiguar quem é a autoridade, o rumor ganha status de “verdade incontestável”; mas não passa disso: rumor).
- Estilo sem substância – “O jeito como ele fala e se expressa demonstra que sabe do que está falando.” (embora ele possa – e possa não – saber do que está falando, o jeito como ele fala e se expressa em nada garante a veracidade do que ele diz).
- Generalização precipitada – “Fui estuprada por um homem. Minha amiga, também foi. Logo, todo homem é um estuprador.” (é evidente que a generalização não leva à uma conclusão verdadeira).
- Amostra não representativa – “Conversei com uma feminista que não sabia dizer quais as metas do protesto. Depois, conversei com outra que não sabia nem o que a PEC que ela apoiava mudaria na Constituição. Todas as feministas são alienadas.” (o erro, aqui, é supor que as duas mulheres representam o pensamento e a elucidação sobre as bandeiras de um movimento social inteiro).
- Falsa analogia – “Os empregados são como engrenagens em um motor. Quando uma engrenagem apresenta defeito, descartamos a engrenagem e colocamos uma nova. O mesmo se faz com empregados.” (embora, de fato, engrenagens e empregados façam pequenas tarefas para fins de um sistema bem maior [o motor e a empresa, respectivamente] isso não significa que o que fazemos com uma engrenagem possa ser – eticamente, pelo menos – aplicado aos funcionários).
- Indução preguiçosa – “Ele foi roubado seis vezes no último mês. Insiste que não faz nada de errado, mas, quem é roubado tantas vezes assim?” (embora a estatística esteja contra a vitima, não é possível dizer que ela realmente está colaborando para o triste fato, só com base no que se conhece do caso).
- Omissão de dados – “Nos 38 jogos do Brasileiro de 2015, o Botafogo-RJ ganhou 21 deles e, portanto, deve ser o campeão da série A de 2016.” (a informação omite que, em 2015, o Botafogo disputou a Série B do campeonato, e isso é fundamental para entender a estatística dada).
Falácias Indutivas
- Falácias com regras gerais
- Falácia do acidente – “A lei proíbe que se trafegue acima dos 50km/h em São Paulo. Portanto, mesmo que teu pai sofra uma hemorragia, não corra!” (sugere que não há exceção à regra, embora a circunstância enseje por uma exceção).
- Falácia inversa do acidente – “Se vamos deixar pessoas com glaucoma usar maconha, devemos deixar todas as demais usarem também.” (por conta de uma exceção bem aplicada, presume-se que a regra não deve, nunca, ser aplicada).
Falácias causais
- Falhar o alvo
- Petição de princípio (petitio principii) – “Como não estou mentindo, o que digo a seguir é verdade.” (partindo de algo que não pode ser aferido [se estou mentindo ou não] afirma-se uma segunda sentença que tem sua verdade “garantida” pela primeira).
- Conclusão irrelevante (ignoratio elenchi) – Temos muitos homens em cargos de ministro, mas nenhuma mulher, portanto, se não é um machista, deve apoiar a lei que obriga 50% de mulheres em todos os cargos públicos.” (o fato de concordarmos que vivemos em uma sociedade machista e o fato de não haver ministérios com mulheres em chefia, não nos obriga a aceitar uma medida de discriminação positiva como solução para o problema).
- Espantalho – “Quem quer a aprovação do aborto quer usá-lo como método contraceptivo, por total falta de responsabilidade. Nós, por outro lado, queremos a consciência sobre a vida sexual. O aborto não deve ser aprovado.” (quem “quer” a aprovação do aborto, não necessariamente o considera como um método contraceptivo, mas, talvez, como uma forma de impedir que uma criança cresça em um lar completamente desestruturado e venha a morrer em um confronto com a polícia, só por exemplo. Os argumentos do primeiro grupo podem ser bem maiores e melhores do que a falácia do espantalho imputa a eles).
Falácias da ambiguidade
- Erros categoriais
- Falácia da composição – “As células não têm consciência portanto, o cérebro, que é feito de células (neurônios são células), também não tem.” (assume-se a propriedade de uma pequena parte e infere-se que a soma de várias pequenas partes terá as mesmas propriedades).
- Falácia da divisão – “Como o cérebro tem consciência, cada célula neurológica deve ter consciência também.” (aqui, se vê o inverso do argumento anterior).
- Non Sequitur
- Falácia da afirmação consequente – “Se jogarmos bem, ganhamos o jogo. Ganhamos o jogo, logo, jogamos bem!” (a afirmação nega a hipótese em que jogaram mal, mas que o time adversário jogou ainda pior, ou que embora jogando mal, tenham recebido 2 penalidades indevidas e convertidas em gols a seu favor).
- Falácia da negação da antecedente – “Crianças com seis anos, ao serem atropeladas por um carro, têm 100% de chances de morrer. Como você já tem mais de 6 anos, não corre esse risco.” (a ideia é similar à anterior, mas infere-se que o não atendimento de uma condição inibe o acontecimento da outra).
- Falácia da inconsistência – “Eu sou maior do que meu irmão, e meu irmão é maior do que meu primo, e meu primo é maior do que eu.” (não há como todas essas afirmações serem verdadeiras).
Falácias da explicação
- Erros de Definição
- Definição demasiadamente ampla – “Uma maçã é um objeto vermelho e redondo.” (assim como o planeta Marte que, até onde sabemos, não é uma maçã).
- Definição demasiadamente restrita – “As maçãs têm de ser vermelhas e redondas.” (o que fazer com as pobres maçãs verdes?).
- Definição pouco clara – “A beleza de um quadro se dá por sua estética bem sucedida.” (assim como “belo” é algo complexo de se definir, “estética bem sucedida” é outra ideia que não explica, de fato, nada, mas tenta-se explicar a primeira com a segunda).
- Definição circular – “Um livro é pornográfico quando exibe pornografia” (ora, mas o que é “pornografia”, para que eu considere um livro, pornográfico?).
- Definição contraditória – “Uma sociedade só é livre se a liberdade for absoluta e as pessoas forem obrigadas, por lei, a fazerem o que quiserem.” (se a liberdade deve ser absoluta, uma lei que obriga as pessoas a serem livres contradiz o direito à liberdade de querer “não ser livre por força de lei” [se obrigando a um contrato com direitos e deveres, por exemplo]).
Todas as categorias de falácias, acima, foram obtidas no site: http://criticanarede.com/falacias.html
(O copyright para esta lista de falácias segue aqui:
Stephen Downes. Guia das Falácias Lógicas do Stephen, Universidade de Alberta, Canadá. endereço:
http://www.onegoodmove.org/fallacy/welcome.htm
O copyright da versão original é de Stephen Downes.
Qualquer pessoa pode reproduzir o Guia original, no todo ou em parte, para qualquer objetivo, desde que sejam satisfeitas as seguintes condições: o autor, Stephen Downes, será notificado por e-mail ou carta. Nenhuma quantia será recebida pelo acesso ao conteúdo do Guia. Só poderá ser cobrada uma quantia por despesas de reprodução, se o Guia for impresso e distribuído em papel; ou gorjetas de um curso caso o Guia seja usado como material complementar desse curso.
Esta informação de direitos de cópia constará em todas as publicações deste Guia.
Nota: o propósito deste copyright não é o de restringir o uso ou o acesso a este Guia. O objetivo é o oposto: o propósito deste copyright é o de assegurar que o conteúdo deste guia será livremente acessível e para sempre.
Stephen Downes agradece uma notificação por e-mail se o seu site for referenciado na www ou em outros canais.)
Uma consideração sobre “Falácias: Não utilize elas”